Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
António Ramos Rosa
A Paixão do Ar
Olhar sem caminho em cheio
a tranquila onda muscular
paralela à mão aberta e livre
Uma escrita a nascer dos alvos flancos
a paixão do ar como uma chama
Paixão que une a terra cheia ao mar
o olhar respira em todo o corpo igual
o corpo eleva-se sobre a montanha fácil
O fogo flexível.
a tranquila onda muscular
paralela à mão aberta e livre
Uma escrita a nascer dos alvos flancos
a paixão do ar como uma chama
Paixão que une a terra cheia ao mar
o olhar respira em todo o corpo igual
o corpo eleva-se sobre a montanha fácil
O fogo flexível.
569
António Ramos Rosa
Bloco Intacto
Abrindo a álea
vertical sobre o vértice do instante
sem frenesim mas denso de
todo o sangue que me enche no silêncio desta álea
caminho para ti
lenta lentamente a densa bola sobre o jacto de água dança
e eu sou o jorro de água eu sou a bola em equilíbrio
a permanente coroa branca efervescente branca
na tranquila anónima macia dourada suburbana álea
a seda deste instante não se rasga
é um grande bloco intacto que se desloca
para a minha eternidade
a iminência de ti é a boca já feliz a árvore que estala em cada poro a seiva
a parede de água que contenho a porta doce e clandestina
a porta que desliza
e é então que
no espaço da vertigem
em ti me uno à sede e das raízes subo
e pelas raízes sou
vertical sobre o vértice do instante
sem frenesim mas denso de
todo o sangue que me enche no silêncio desta álea
caminho para ti
lenta lentamente a densa bola sobre o jacto de água dança
e eu sou o jorro de água eu sou a bola em equilíbrio
a permanente coroa branca efervescente branca
na tranquila anónima macia dourada suburbana álea
a seda deste instante não se rasga
é um grande bloco intacto que se desloca
para a minha eternidade
a iminência de ti é a boca já feliz a árvore que estala em cada poro a seiva
a parede de água que contenho a porta doce e clandestina
a porta que desliza
e é então que
no espaço da vertigem
em ti me uno à sede e das raízes subo
e pelas raízes sou
1 139
António Ramos Rosa
À Felicidade Viva
Qual é a cor que dou à pedra imóvel
ao animal, à forma que suspeito
sob a água sem lastro? Uma figura
como um círculo pura e grande espaço,
um esforço alegre, ó inviolável página!
Não há terror nem surpresa, reconheço
a ausência, um sorriso de começo,
uma vontade de ajudar talvez a flor,
ou antes a raiz, o gérmen, o romper
das folhas e corolas, largas faces,
que são mãos e punhos desatados,
ao rosto de ar, à felicidade viva!
ao animal, à forma que suspeito
sob a água sem lastro? Uma figura
como um círculo pura e grande espaço,
um esforço alegre, ó inviolável página!
Não há terror nem surpresa, reconheço
a ausência, um sorriso de começo,
uma vontade de ajudar talvez a flor,
ou antes a raiz, o gérmen, o romper
das folhas e corolas, largas faces,
que são mãos e punhos desatados,
ao rosto de ar, à felicidade viva!
567
António Ramos Rosa
Primavera
Falo por palavras
duras rasas
Uma raiva tranquila
habita-me
O meu dia existe
neste punho de pedra
nesta serra verde
nesta casa fria
Uma folha canta
É um lábio livre
Uma folha olha
tranquilamente
Olho é bom olhar
ver o tronco
as ramagens finas
a boca que espera
no murmúrio das folhas
Estou só e o sol sobe
num céu que desconheço
duras rasas
Uma raiva tranquila
habita-me
O meu dia existe
neste punho de pedra
nesta serra verde
nesta casa fria
Uma folha canta
É um lábio livre
Uma folha olha
tranquilamente
Olho é bom olhar
ver o tronco
as ramagens finas
a boca que espera
no murmúrio das folhas
Estou só e o sol sobe
num céu que desconheço
1 051
António Ramos Rosa
Primavera
Falo por palavras
duras rasas
Uma raiva tranquila
habita-me
O meu dia existe
neste punho de pedra
nesta serra verde
nesta casa fria
Uma folha canta
É um lábio livre
Uma folha olha
tranquilamente
Olho é bom olhar
ver o tronco
as ramagens finas
a boca que espera
no murmúrio das folhas
Estou só e o sol sobe
num céu que desconheço
duras rasas
Uma raiva tranquila
habita-me
O meu dia existe
neste punho de pedra
nesta serra verde
nesta casa fria
Uma folha canta
É um lábio livre
Uma folha olha
tranquilamente
Olho é bom olhar
ver o tronco
as ramagens finas
a boca que espera
no murmúrio das folhas
Estou só e o sol sobe
num céu que desconheço
1 051
António Ramos Rosa
Neste Campo
Neste campo não divago e nada emerge
e um lago subsiste e a pedra investe o sol,
rápidos vestidos soçobram,
nervuras que não vês murmuram,
a terra é um sossego sem cristal,
uma veia plena de sono e de sorriso.
A terra não canta: tu não esperas
na alta mesa do meio-dia.
Um animal surge tímido
e duas mãos o envolvem de folhas e de sol.
e um lago subsiste e a pedra investe o sol,
rápidos vestidos soçobram,
nervuras que não vês murmuram,
a terra é um sossego sem cristal,
uma veia plena de sono e de sorriso.
A terra não canta: tu não esperas
na alta mesa do meio-dia.
Um animal surge tímido
e duas mãos o envolvem de folhas e de sol.
1 055
António Ramos Rosa
É Aqui: Talvez Uma Cidade
É aqui: talvez uma cidade.
Mas sem ninguém.
É aqui que não estou, corro, caminho, espero,
paro de súbito. Escuto. Palpo
um tronco largo, uma respiração?
Aqui, sem corpo.
Mas insisto: é uma cidade.
Ou é ela, a cidade, ou a respiração,
ou é o tronco largo no meio dela?
É o corpo que não existe ainda.
E insisto: uma golfada de ar.
Acorda, move-te, corpo, cidade, tronco,
uma só respiração possível?
Eu não sei: é talvez uma cidade.
Alguém só que respira e não tem corpo.
E o tronco calmo onde pousar a mão
e lentamente abrir o espaço.
Mas quem respira? Quem move o braço
de um corpo que ainda não existe?
E se a cidade existe, o tronco existe,
em vão designo o que em vão existe.
Mas é no vão do corpo que respiro
o corpo que procuro nesta cidade.
E o silêncio que se cava junto ao tronco
abre-me o espaço desse corpo vão.
Aqui é que eu tento e corro, espero, caminho.
É aqui: talvez uma cidade.
Mas sem ninguém.
É aqui que não estou, corro, caminho, espero,
paro de súbito. Escuto. Palpo
um tronco largo, uma respiração?
Aqui, sem corpo.
Mas insisto: é uma cidade.
Ou é ela, a cidade, ou a respiração,
ou é o tronco largo no meio dela?
É o corpo que não existe ainda.
E insisto: uma golfada de ar.
Acorda, move-te, corpo, cidade, tronco,
uma só respiração possível?
Eu não sei: é talvez uma cidade.
Alguém só que respira e não tem corpo.
E o tronco calmo onde pousar a mão
e lentamente abrir o espaço.
Mas quem respira? Quem move o braço
de um corpo que ainda não existe?
E se a cidade existe, o tronco existe,
em vão designo o que em vão existe.
Mas é no vão do corpo que respiro
o corpo que procuro nesta cidade.
E o silêncio que se cava junto ao tronco
abre-me o espaço desse corpo vão.
Aqui é que eu tento e corro, espero, caminho.
É aqui: talvez uma cidade.
1 065
António Ramos Rosa
Na Margem do Dia
Afirmas no quadrado
a sede do corpo,
caminhas
sobre as ervas levantadas.
Os homens silenciosos
afastam-se: são verdes
os ramos que se espalham,
caminhas e ascendes
na planície inclinada.
A partir da parede,
de um ouvido secreto,
da fome que se expande,
de um olhar bem recto,
de um tacão que rompe
sobre o zinco ondulado,
de um jorro de palavras
ou pombas assustadas.
Para ser mais claro,
para despir um corpo,
para me encontrar,
a surpresa exacta.
Desço até não ser
mais nada que o sono
na luz doutro corpo.
Adormeço alto.
Ó corpo necessário,
branca parede rápida,
em tua roda leve
quero respirar a luz.
Nesta obscura sede,
sem seiva os nomes rentes
propagam só o poço:
eu quero o mar presente.
Ó corpo que apreendo,
se entregue só ao ar,
se caminho sem olhos,
se encontro o meu olhar.
a sede do corpo,
caminhas
sobre as ervas levantadas.
Os homens silenciosos
afastam-se: são verdes
os ramos que se espalham,
caminhas e ascendes
na planície inclinada.
A partir da parede,
de um ouvido secreto,
da fome que se expande,
de um olhar bem recto,
de um tacão que rompe
sobre o zinco ondulado,
de um jorro de palavras
ou pombas assustadas.
Para ser mais claro,
para despir um corpo,
para me encontrar,
a surpresa exacta.
Desço até não ser
mais nada que o sono
na luz doutro corpo.
Adormeço alto.
Ó corpo necessário,
branca parede rápida,
em tua roda leve
quero respirar a luz.
Nesta obscura sede,
sem seiva os nomes rentes
propagam só o poço:
eu quero o mar presente.
Ó corpo que apreendo,
se entregue só ao ar,
se caminho sem olhos,
se encontro o meu olhar.
990
António Ramos Rosa
Horizonte Imediato
Todos os dias me apoio em qualquer coisa
ando, como, esqueço
alguma coisa aprendo
e desaprendo
alguma coisa limpa nua grave
surge
ao lado passa
eu não sou este desejo
que às vezes arde
alto sobre o chão
ando, como, esqueço
alguma coisa aprendo
e desaprendo
alguma coisa limpa nua grave
surge
ao lado passa
eu não sou este desejo
que às vezes arde
alto sobre o chão
1 085
António Ramos Rosa
A Sombra de Uma Face a Face de Uma Sombra
Há uma face que não sei,
que não sou.
E o que sou é a face de uma sombra.
Escrever para essa sombra sem face.
Sou uma sombra sem face
na sombra da rua.
Escrevo nesse intervalo,
nessa sombra onde ninguém suspira,
onde ninguém passa,
onde ninguém me vê passar,
onde não passo,
onde vou passar.
Há uma face
página onde a sombra se fez face
frente à sombra.
Escrever contra a face sem face.
Escrever acender na sombra
árvores
mover a sombra até ao céu da rua.
Caminhar na sombra desatar a sombra
alta e viva
contra a face aberta
contra a face viva.
Sou somos uma face uma sombra
uma sombra uma face.
Escrever é abrir na sombra uma sombra
e respirar na sombra
um corpo de sombra.
Ninguém nos vê nem nos verá jamais.
Respirar a sombra viva.
que não sou.
E o que sou é a face de uma sombra.
Escrever para essa sombra sem face.
Sou uma sombra sem face
na sombra da rua.
Escrevo nesse intervalo,
nessa sombra onde ninguém suspira,
onde ninguém passa,
onde ninguém me vê passar,
onde não passo,
onde vou passar.
Há uma face
página onde a sombra se fez face
frente à sombra.
Escrever contra a face sem face.
Escrever acender na sombra
árvores
mover a sombra até ao céu da rua.
Caminhar na sombra desatar a sombra
alta e viva
contra a face aberta
contra a face viva.
Sou somos uma face uma sombra
uma sombra uma face.
Escrever é abrir na sombra uma sombra
e respirar na sombra
um corpo de sombra.
Ninguém nos vê nem nos verá jamais.
Respirar a sombra viva.
1 033
António Ramos Rosa
Diálogo Imóvel
No quarto lavado
perfeito quadrado
— que diálogo branco
entre a flor e a lâmpada
Uma vida acesa
e branca
outra silêncio de rosa apagada
Que vem dizer o sol
entre a flor e a lâmpada
que vem dizer o poema
no silêncio da casa?
*
Eis a palavra que inicia
é limiar e lábio ainda mudo
e já nos abre o espaço
de ó silencioso e claro
todo o quarto se desenha
a janela entreaberta
a luminosa mancha do sol
a mão que escreve
nada muda
senão o silêncio que se ilumina
*
Qual é o coração da casa?
Será o punho que palpita, mudo?
A flor diz o perfume do silêncio
A lâmpada confirma estática
a mão que procura traduzir
o diálogo suspenso
e intérmino
O coração da lâmpada
é uma pequena raiz metálica
A flor tem estames amarelos
e folhas brancas
*
Uma haste e um caule
— uma vertical ao centro
surge da água ao dia
suspende a inocência e a graça
em pétalas
A lâmpada debruçada
envolta na campânula
— recolhe-se
como um punho
A flor é totalmente presente
*
Quando se apaga no punho
a vibração
— quando a mão suspende o gesto
curvo
e o silêncio não fala
todo o diálogo se perdeu
— ninguém viu a flor
ou ela está ausente
*
Se o desejo se acende
quando a corrente se propaga
por fios unidos
se a vontade se dobra
ao dúctil fascínio
da flor
— a graça se abrirá em pétalas
tudo será presença luminosa.
perfeito quadrado
— que diálogo branco
entre a flor e a lâmpada
Uma vida acesa
e branca
outra silêncio de rosa apagada
Que vem dizer o sol
entre a flor e a lâmpada
que vem dizer o poema
no silêncio da casa?
*
Eis a palavra que inicia
é limiar e lábio ainda mudo
e já nos abre o espaço
de ó silencioso e claro
todo o quarto se desenha
a janela entreaberta
a luminosa mancha do sol
a mão que escreve
nada muda
senão o silêncio que se ilumina
*
Qual é o coração da casa?
Será o punho que palpita, mudo?
A flor diz o perfume do silêncio
A lâmpada confirma estática
a mão que procura traduzir
o diálogo suspenso
e intérmino
O coração da lâmpada
é uma pequena raiz metálica
A flor tem estames amarelos
e folhas brancas
*
Uma haste e um caule
— uma vertical ao centro
surge da água ao dia
suspende a inocência e a graça
em pétalas
A lâmpada debruçada
envolta na campânula
— recolhe-se
como um punho
A flor é totalmente presente
*
Quando se apaga no punho
a vibração
— quando a mão suspende o gesto
curvo
e o silêncio não fala
todo o diálogo se perdeu
— ninguém viu a flor
ou ela está ausente
*
Se o desejo se acende
quando a corrente se propaga
por fios unidos
se a vontade se dobra
ao dúctil fascínio
da flor
— a graça se abrirá em pétalas
tudo será presença luminosa.
1 065
António Ramos Rosa
Estou Em Minha Casa
Estou em minha casa
ou em casa roubada?
A minha água é de outro,
o meu princípio é já passado,
as palavras apagam-se na parede fria,
quem me distingue ou sopra
um ar já percorrido onde vivi já morto?
Quem me procuro? Viver na nuvem clara
fora dos anos, facilidade lisa,
força da fragilidade nua,
campo de verso aberto sobre o espaço,
onda de bocas múltiplas,
onda a lavrar o ar,
e uma boca interdita,
uma só palavra calada à beira de água.
Quem me rouba ou a casa é de vento?
Onde estou senão onde a parede acaba?
Quem me atravessa os ossos e me acende as letras
que sobre o sangue giram?
O meu nome é rente ao muro que o sinto,
mas o ar que respiro não tem pátria,
sou livre quando o vento me trespassa
sem idade,
e perco o olhar na claridade.
Nenhuma palavra me é dada,
nenhuma casa, nenhum destino.
Tudo eu quero, tudo me falta
e é precisamente por nada ter, por nada ser,
que me lanço e me perco contra o ar,
e por isso não invento nenhuma face
nem qualquer mistério que não seja a sede
de me igualar ao ar.
Minha bebedeira é de ar
numa cidade.
Deslizo entre automóveis que ignoram
a minha ciência de deslizar entre eles.
Mas as árvores mais nuas pertencem à minha fronte livre.
Sou obstinado na minha marcha nesta cidade
em que se repararmos bem ninguém se lembra de respirar.
O ar é ainda livre nas ruas.
É necessário afirmar este acto elementar.
Alguém ainda caminha e respira,
mortos!
ou em casa roubada?
A minha água é de outro,
o meu princípio é já passado,
as palavras apagam-se na parede fria,
quem me distingue ou sopra
um ar já percorrido onde vivi já morto?
Quem me procuro? Viver na nuvem clara
fora dos anos, facilidade lisa,
força da fragilidade nua,
campo de verso aberto sobre o espaço,
onda de bocas múltiplas,
onda a lavrar o ar,
e uma boca interdita,
uma só palavra calada à beira de água.
Quem me rouba ou a casa é de vento?
Onde estou senão onde a parede acaba?
Quem me atravessa os ossos e me acende as letras
que sobre o sangue giram?
O meu nome é rente ao muro que o sinto,
mas o ar que respiro não tem pátria,
sou livre quando o vento me trespassa
sem idade,
e perco o olhar na claridade.
Nenhuma palavra me é dada,
nenhuma casa, nenhum destino.
Tudo eu quero, tudo me falta
e é precisamente por nada ter, por nada ser,
que me lanço e me perco contra o ar,
e por isso não invento nenhuma face
nem qualquer mistério que não seja a sede
de me igualar ao ar.
Minha bebedeira é de ar
numa cidade.
Deslizo entre automóveis que ignoram
a minha ciência de deslizar entre eles.
Mas as árvores mais nuas pertencem à minha fronte livre.
Sou obstinado na minha marcha nesta cidade
em que se repararmos bem ninguém se lembra de respirar.
O ar é ainda livre nas ruas.
É necessário afirmar este acto elementar.
Alguém ainda caminha e respira,
mortos!
1 024
António Ramos Rosa
O Fogo Me Inunda
Aí, no fogo, onde o gesto começa e a força rompe. A mão percorre o lombo, o dia cheio, as palavras esvaem-se no céu. Sopra uma árvore. Um tinido breve, uma cadeia de nomes, a brancura no silêncio que ondula. Viver é exalar esta frescura, colmá-la na planície. Ergue-se a crista até ao silêncio do céu, o espaço se abre à anunciação do vazio, um nome canta, chia, tudo é montanha livre, raça, inundação.
Correr na alegria do espaço — força, felicidade de veias rompendo, cabelos, sussurro de palmas, língua, sonora alma.
Embate de corpos, planície de ondas, rolar de seios, vozes que sopram, braços de vento, ar no ar, água, ar, fogo.
Tempestade de nomes, cristal de florestas, as harmonias dilaceram-se.
Ergue-se a voz da parede, até ao sol, e declina como uma ave subscrevendo o céu inteiro.
Vértice profundo, como um só tronco de veias, no estuário do dia.
Correr na alegria do espaço — força, felicidade de veias rompendo, cabelos, sussurro de palmas, língua, sonora alma.
Embate de corpos, planície de ondas, rolar de seios, vozes que sopram, braços de vento, ar no ar, água, ar, fogo.
Tempestade de nomes, cristal de florestas, as harmonias dilaceram-se.
Ergue-se a voz da parede, até ao sol, e declina como uma ave subscrevendo o céu inteiro.
Vértice profundo, como um só tronco de veias, no estuário do dia.
1 120
António Ramos Rosa
Sugaï
Conter-te, corpo liso,
que o vento dê na face,
que os dedos tenham olhos,
que a boca sopre: folha.
Abraçar-te sem braços,
ó poço aberto e liso,
ó olho perfumado,
tapete e alga e prado.
Três traços verticais.
Um gesto feito em pele.
Uma certeza de osso
(sem sombra nem desgosto).
que o vento dê na face,
que os dedos tenham olhos,
que a boca sopre: folha.
Abraçar-te sem braços,
ó poço aberto e liso,
ó olho perfumado,
tapete e alga e prado.
Três traços verticais.
Um gesto feito em pele.
Uma certeza de osso
(sem sombra nem desgosto).
1 125
António Ramos Rosa
Velocidade
a manhã a moeda crespa
o princípio duma torre o peito rude
um boi na estrada
os pés as mãos um tronco a ponte
o corpo a terra
a mulher atravessada a raiva
a parede a sombra o peito
o corpo
o princípio duma torre o peito rude
um boi na estrada
os pés as mãos um tronco a ponte
o corpo a terra
a mulher atravessada a raiva
a parede a sombra o peito
o corpo
1 215
António Ramos Rosa
Iminência
Corda tensa bem viva,
para que acto prestes?
Trajecto a percorrer
ou poço aberto súbito?
Deserto de sede: palma
sobre o papel: o pulso
unido e quente; o liso
fluir de um instrumento.
Aqui no dia nulo
de um olhar sem sombra,
evitar o fascínio
da luz estéril e dura.
Ao afluir da vaga
suspensão, onda a onda:
erguer de queda em queda
o hausto da móvel casa.
Nunca o fim, mas a calma
navegação instável:
roda o silêncio, aspira
a noite do sangue no dia.
Em plena face, sim:
flexível o muro opaco;
a face do outro aflora:
solto e livre e taco a taco.
Estou contra o muro, contra a página,
contra a inércia clara.
Aqui poderá morrer
todo o desejo. Jamais.
Jamais! Para que se erga
no próprio centro vazio
esse tumulto da sombra,
esse outro sono da luz.
Esse abandono que adere
ao pulsar da corda tensa:
a vigília que respira
à flor da sombra. Jamais!
para que acto prestes?
Trajecto a percorrer
ou poço aberto súbito?
Deserto de sede: palma
sobre o papel: o pulso
unido e quente; o liso
fluir de um instrumento.
Aqui no dia nulo
de um olhar sem sombra,
evitar o fascínio
da luz estéril e dura.
Ao afluir da vaga
suspensão, onda a onda:
erguer de queda em queda
o hausto da móvel casa.
Nunca o fim, mas a calma
navegação instável:
roda o silêncio, aspira
a noite do sangue no dia.
Em plena face, sim:
flexível o muro opaco;
a face do outro aflora:
solto e livre e taco a taco.
Estou contra o muro, contra a página,
contra a inércia clara.
Aqui poderá morrer
todo o desejo. Jamais.
Jamais! Para que se erga
no próprio centro vazio
esse tumulto da sombra,
esse outro sono da luz.
Esse abandono que adere
ao pulsar da corda tensa:
a vigília que respira
à flor da sombra. Jamais!
1 012
António Ramos Rosa
Pássaro de Braque
Para ser mestre da cidade
em graça de voo de papel
e ter o sentido do gesso
nas asas rectangulares.
Pássaro duro amarrotado
vitória do pobre nu
que voa na evidência clara
do que pesado se levanta
papel e pedra certa
mais forte do que o céu
moves-te mão liberta
em graça de voo de papel
e ter o sentido do gesso
nas asas rectangulares.
Pássaro duro amarrotado
vitória do pobre nu
que voa na evidência clara
do que pesado se levanta
papel e pedra certa
mais forte do que o céu
moves-te mão liberta
971
António Ramos Rosa
Lâmpada Oscilante
O que eu diria, caminho pobre,
caminho de pó. Com dedos de sol,
a mão rasando a parede, minha única asa
— pó de asa no muro.
O que perdi, perco, tudo o que vi,
lâmpada de folhas, reúno o pó disperso,
pente de pedra em cabelos de terra,
o chão do dia some-se sob os passos nocturnos,
o sol ilumina o muro que não vejo.
O que te digo acende-se na boca que não ouço,
o que te dou é um sinal de que não vejo a luz.
Corro ao longo do muro raso
antes que o sol se apague.
Os dedos do sol pela terra rasa,
o fogo breve
extingue-se nas árvores.
Caminho contra o vento com um resto de calor.
caminho de pó. Com dedos de sol,
a mão rasando a parede, minha única asa
— pó de asa no muro.
O que perdi, perco, tudo o que vi,
lâmpada de folhas, reúno o pó disperso,
pente de pedra em cabelos de terra,
o chão do dia some-se sob os passos nocturnos,
o sol ilumina o muro que não vejo.
O que te digo acende-se na boca que não ouço,
o que te dou é um sinal de que não vejo a luz.
Corro ao longo do muro raso
antes que o sol se apague.
Os dedos do sol pela terra rasa,
o fogo breve
extingue-se nas árvores.
Caminho contra o vento com um resto de calor.
1 137
António Ramos Rosa
Um Rastro
Tangível mão quase, olho que não vês.
Inútil muro sobre outro muro.
Invisível o que se lê,
o visível que se não lê.
O que não sei, o que não vejo.
É desta sombra que me envolve
que eu posso ver e respirar.
No silêncio desta pausa,
onde me afundo, de onde me elevo,
persigo um rastro, um corpo novo.
Tangível quase, ouso não ver,
perder-me mais para te encontrar,
cegar-me em ti, muro consoante,
interior a ti, antes de mim.
Perdi-te… o muro corre.
O que eu ganhei foi esta sede.
Inútil muro sobre outro muro.
Invisível o que se lê,
o visível que se não lê.
O que não sei, o que não vejo.
É desta sombra que me envolve
que eu posso ver e respirar.
No silêncio desta pausa,
onde me afundo, de onde me elevo,
persigo um rastro, um corpo novo.
Tangível quase, ouso não ver,
perder-me mais para te encontrar,
cegar-me em ti, muro consoante,
interior a ti, antes de mim.
Perdi-te… o muro corre.
O que eu ganhei foi esta sede.
1 190
António Ramos Rosa
As Linhas Matinais
As linhas matinais estão disponíveis
frescas resolutas segui-las
cheiram a pão da terra
perseguir até ao fim achar o mar
uma árvore em frente verde
caminhar
as lâminas sob os pés
as páginas trepidantes lisas
para trás ainda o sol para cima para a frente
as mulheres fortes na manhã
As linhas para o mar
sem demora olhar atravessar
alegres como os passos
caminhar no sol nas rectas
boa distribuição da luz coada entre as árvores
alta figura
rasgada e juvenil à distância do braço
os olhos e a língua devoram-na sobre os passos
é uma cabeça um tronco para o sol
um olhar instantâneo ignorado
o mar deserto e vasto
afoga todas as linhas
a árvore verde
frescas resolutas segui-las
cheiram a pão da terra
perseguir até ao fim achar o mar
uma árvore em frente verde
caminhar
as lâminas sob os pés
as páginas trepidantes lisas
para trás ainda o sol para cima para a frente
as mulheres fortes na manhã
As linhas para o mar
sem demora olhar atravessar
alegres como os passos
caminhar no sol nas rectas
boa distribuição da luz coada entre as árvores
alta figura
rasgada e juvenil à distância do braço
os olhos e a língua devoram-na sobre os passos
é uma cabeça um tronco para o sol
um olhar instantâneo ignorado
o mar deserto e vasto
afoga todas as linhas
a árvore verde
1 110
António Ramos Rosa
Visão Vertical
A pressão contínua, a falta de ar, o moinho dilacerante. As sombras soçobram, um exército de mãos incendeia-se a um canto, as novas configurações saem do solo, em grandes torvelinhos de pó, em rendas, sinais vivos duma fome de olhos e dedos. Lucidez penetrante, incandescência duma só cor de terra, embriaguez sólida.
1 250
António Ramos Rosa
Visão Vertical
A pressão contínua, a falta de ar, o moinho dilacerante. As sombras soçobram, um exército de mãos incendeia-se a um canto, as novas configurações saem do solo, em grandes torvelinhos de pó, em rendas, sinais vivos duma fome de olhos e dedos. Lucidez penetrante, incandescência duma só cor de terra, embriaguez sólida.
1 250
António Ramos Rosa
A Coexistência No Muro
A boca inerte na parede,
um sol,
um peixe,
uma estrela,
um dedo.
A boca escura
no chão levantado,
os olhos nas mãos.
Um sol,
um peixe
uma estrela,
um dedo.
um sol,
um peixe,
uma estrela,
um dedo.
A boca escura
no chão levantado,
os olhos nas mãos.
Um sol,
um peixe
uma estrela,
um dedo.
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António Ramos Rosa
São Os Lábios, As Suas Letras
São os lábios, as suas letras
e esta mão que desliza,
esta janela e esta mesa…
O que eu desejo, o que eu escrevo
não é a claridade nem o meu olhar.
Um imperceptível movimento,
um antegosto…
Não. O meu desejo
só o saberei no sabor
das palavras com que o persigo
e o vou perdendo…
Qual o seu hálito?
De pedra e água.
É aqui mesmo que o saboreio
onde o ignoro.
Bafo de animal — rio.
Mão calma.
Instantânea força sábia.
Tentá-la!
Mão que tempera o sono.
Dorso que sobe da água.
Duas ou três palavras
para captá-lo nu e vivo.
Um lápis. Um papel deslumbrante,
tudo consinto, ó lisa força que
amacias os músculos e o olhar,
ó palavra flexível e palpitar da sombra
para a vivaz vertigem!
Não há razão para desesperar.
Não posso ser senão o que sou
no momento em que adiro e ardo!
e esta mão que desliza,
esta janela e esta mesa…
O que eu desejo, o que eu escrevo
não é a claridade nem o meu olhar.
Um imperceptível movimento,
um antegosto…
Não. O meu desejo
só o saberei no sabor
das palavras com que o persigo
e o vou perdendo…
Qual o seu hálito?
De pedra e água.
É aqui mesmo que o saboreio
onde o ignoro.
Bafo de animal — rio.
Mão calma.
Instantânea força sábia.
Tentá-la!
Mão que tempera o sono.
Dorso que sobe da água.
Duas ou três palavras
para captá-lo nu e vivo.
Um lápis. Um papel deslumbrante,
tudo consinto, ó lisa força que
amacias os músculos e o olhar,
ó palavra flexível e palpitar da sombra
para a vivaz vertigem!
Não há razão para desesperar.
Não posso ser senão o que sou
no momento em que adiro e ardo!
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