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Poemas neste tema

Emoções e Sentimentos

Alexei Bueno

Alexei Bueno

Transmutação

Transmutação

Nascemos carne. E a cada dia

Nos vamos transformando em sonho.

Há sempre um patamar tristonho

Na escada em que antes não havia.

Há sempre um quarto em que vivemos

E nunca vimos. Sempre há um morto

Que bate à porta. Há sempre um porto

Que jamais houve e de onde viemos.

Há uma manhã cinza na feira

Que não se acaba há muitos anos.

Há uma mulher, nua entre panos,

Que não é nossa a vida inteira.

O tempo espera, inalterado

Como um licor, que nós subamos

Por ele abaixo, nós que vamos

Descendo-o acima em passo ousado.

Atrás há a aurora. À frente o nada.

No meio a confusão das luas.

Ah! quem voltasse às mesmas ruas

Em senso inverso, até a entrada.

Quem desse as costas à saída

Certa e voraz, e, dessa sorte,

Fosse afastando-se da morte

Até a primeira hora da vida

E seu mistério, e se encarnasse

Nos seus eus idos, e fugisse

Por si acima, até que ouvisse

O choro antigo, e ainda o passasse.

Nascemos carne, e ao sonho vamos.

Somos o fio que desfaz

Toda a tapeçaria, mas

Quem é que o puxa, nem sonhamos.

Vamos fazendo-nos de ar

De crianças rijas que já fomos,

Vamos como explodindo em gomos

De ser, um fruto a se espalhar.

Nossos amigos são de vento

Cada vez mais. As nossas casas

Grãos que o sol doura. Soam asas

No nosso cofre mais sedento.

Para isso apenas nos gerastes,

Para ser sonho, mães de sonho.

Há sempre um pássaro medonho

Nos nomeando entre umas hastes.

Há sempre um baile de sumidos

Na íntima praça inexistente.

Há um branco sol sempre presente

Na noite em que vamos perdidos.

Há um rosto cruel que nos exorta.

E escadas. E a manhã na feira

Que vai durando a vida inteira.

Há o patamar. E um beijo. E a porta.

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Friedrich Nietzsche

Friedrich Nietzsche

VOCAÇÃO DE POETA

Ainda outro dia, na sonolência
De escuras árvores, eu, sozinho,
Ouvi batendo, como em cadência,
Um tique, um taque, bem de mansinho...
Fiquei zangado, fechei a cara -
Mas afinal me deixei levar
E igual a um poeta, que nem repara,
Em tique-taque me ouvi falar

E vendo o verso cair, cadente,
Sílabas, upa, saltando fora,
Tive que rir, rir, de repente,
E ri por um bom quarto de hora.
Tu, um poeta? Tu, um poeta?
Tua cabeça está assim tão mal?
- Sim, meu senhor, sois um poeta,
E dá de ombros o pica-pau.

Por quem espero aqui nesta moita?
A quem espreito como um ladrão?
Um dito? Imagem? Mas, psiu! Afoita
Salta à garupa rima, e refrão.
Algo rasteja? Ou pula? Já o espeta
Em verso o poeta, justo e por igual.
- Sim, meu senhor, sois um poeta,
E dá de ombros o pica-pau.

Rimas, penso eu, serão como dardos?
Que rebuliços, saltos e sustos
Se o dardo agudo vai acertar dos
Pobres lagartos os pontos justos.
Ai, que ele morre à ponta da seta
Ou cambaleia, o ébrio animal!
- Sim, meu senhor, sois um poeta,
E dá de ombros o pica-pau.

Vesgo versinho, tão apressado,
Bêbada corre cada palavrinha!
Até que tudo, tiquetaqueado,
Cai na corrente, linha após linha.
Existe laia tão cruel e abjeta
Que isto ainda - alegra? O poeta - é mau?
- Sim, meu senhor, sois um poeta,
E dá de ombros o pica-pau.

Tu zombas, ave? Queres brincar?
Se está tão mal minha cabeça
Meu coração pior há de estar?
Ai de ti, que minha raiva cresça!
Mas trança rimas, sempre - o poeta,
Na raiva mesmo sempre certo e mau.
- Sim, meu senhor sois um poeta,
E dá de ombros o pica-pau.

(Tradução de Rubens Torres Filho)

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