Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Barbara Guest
Perdendo pessoas
para Ira Morris
Os dias em que você tenta recompor
as ideias são dias perdidos
porém simples como sanduíche
de três camadas a mordida
isto é fácil
Perda
"pura" perda
você comparece à sua reconstrução
na qual você é três pessoas e também
um sanduíche
Perda
não ouvir uma voz
outra vez como trenodia
Perda
você começa a rimá-la com paredes
ou graxa de sapato
Perda
da sua presença com um trote
e matizes
a superfície de pessoas
em restaurantes comendo sanduíches
elas sabem que há um carro estacionado lá fora
Ó imagens viscosas e audazes com o apertão
de um garfo dentro de suas coxas que se deleitam
de atmosfera e clima real
missões
por sobre as curvas contrárias bem como a água
que passa este dia
por debaixo da ponte:
você resolveu
a pedra
não mais sustenta a ponte
bom. Ira morreu.
:
Losing people (in Moscow Mansions, 1973)
for Ira Morris
The days when you try to recover
your wits are lost days
yet simple as sandwich
of three layers the crunch
that’s easy
Loss
“pure” loss
you attend its reconstruction
where you are three persons also
a sandwich
Loss
not hearing a voice
again as threnody
Loss
you begin to rhyme it with walls
or shoeshine
Loss
of your presence with a gait
and hues
the surface of persons
in restaurants eating sandwiches
they know there is a car parked outside
O images viscous and daring with the squeeze
of a fork inside your thighs that are delighted
with atmosphere and real weather
missions
over the backward curves rather like water
that moves this day
under the bridge:
you decided
the stone
no longer supports the bridge
well. Ira died.
Os dias em que você tenta recompor
as ideias são dias perdidos
porém simples como sanduíche
de três camadas a mordida
isto é fácil
Perda
"pura" perda
você comparece à sua reconstrução
na qual você é três pessoas e também
um sanduíche
Perda
não ouvir uma voz
outra vez como trenodia
Perda
você começa a rimá-la com paredes
ou graxa de sapato
Perda
da sua presença com um trote
e matizes
a superfície de pessoas
em restaurantes comendo sanduíches
elas sabem que há um carro estacionado lá fora
Ó imagens viscosas e audazes com o apertão
de um garfo dentro de suas coxas que se deleitam
de atmosfera e clima real
missões
por sobre as curvas contrárias bem como a água
que passa este dia
por debaixo da ponte:
você resolveu
a pedra
não mais sustenta a ponte
bom. Ira morreu.
:
Losing people (in Moscow Mansions, 1973)
for Ira Morris
The days when you try to recover
your wits are lost days
yet simple as sandwich
of three layers the crunch
that’s easy
Loss
“pure” loss
you attend its reconstruction
where you are three persons also
a sandwich
Loss
not hearing a voice
again as threnody
Loss
you begin to rhyme it with walls
or shoeshine
Loss
of your presence with a gait
and hues
the surface of persons
in restaurants eating sandwiches
they know there is a car parked outside
O images viscous and daring with the squeeze
of a fork inside your thighs that are delighted
with atmosphere and real weather
missions
over the backward curves rather like water
that moves this day
under the bridge:
you decided
the stone
no longer supports the bridge
well. Ira died.
765
Sandro Penna
Existe ainda no mundo a beleza?
Existe ainda no mundo a beleza?
Não estou falando de feições divinas.
Mas do ébrio jovem que esperando o trem
com os olhos no infinito devaneia
:
Esiste ancora al mondo la bellezza?
Oh non intendo i lineamenti fini.
Ma alla stazione carico di ebbrezza
il giovane con gli occhi ai suoi lontani lidi.
de Il viaggiatore insonne (1977)
Não estou falando de feições divinas.
Mas do ébrio jovem que esperando o trem
com os olhos no infinito devaneia
:
Esiste ancora al mondo la bellezza?
Oh non intendo i lineamenti fini.
Ma alla stazione carico di ebbrezza
il giovane con gli occhi ai suoi lontani lidi.
de Il viaggiatore insonne (1977)
994
Sosigenes Costa
O pôr-de-sol do papagaio
O papa-vento nos jardins de maio
e o verde no seu mar de leite.
O mar já não é azul, é verde-gaio
num clarão que é relâmpago de azeite.
Se o mar é belo sem que a tarde o enfeite
quanto mais se o enfeitar o sol de maio.
O mar do papa-vento é o papagaio
e o céu do verde papa é o papa-leite.
Latadas cristalinas em desmaio.
Tombam flores do céu, meu papagaio.
E o papa-vento é de cristal e leite.
Deite leite, meu mar, pro papagaio.
Que o papagaio em verde se deleite
e não se enfeite de outra cor em maio.
1 311
Sei Shônagon
2 Rengas
O cuco-pequeno
Visitou pr’ouvir-lhe o canto
Mas é do sabor
De brotos de samambaia
Que ela se lembra saudosa!
(em pareceria com Anikobu, de 95)
Na neve que cai
Que com flores se confunde
No gélido céu
De leve faz-se sentir
Presença da primavera
(em parceria com o Conselheiro Consultor Kintô, de 102)
/// Sei Shônagon, trad. de Geny Wakisaka, Junko Ota, Lica Hashimoto, Luiza Nana Yoshida e Madalena Hashimoto Cordaro. ///
425
Edgar Bayley
É infinita esta riqueza abandonada
esta mão não é a mão nem a pele da tua alegria
no fim das ruas encontras sempre outro céu
atrás do céu há sempre outro gramado praias diversas
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada
nunca suponhas que a espuma da aurora se extinguiu
depois do rosto há outro rosto
atrás das pegadas do teu amante há outras pegadas
atrás do canto um novo sussurro se prolonga
e as madrugadas escondem alfabetos inauditos ilhas remotas
sempre será assim
algumas vezes teu sonho acredita ter dito tudo
mas outro sonho se levanta e não é o mesmo
então voltas as mãos ao coração de todos de qualquer um
não és o mesmo não são os mesmos
outros sabem a palavra tu a ignoras
outros sabem esquecer os fatos desnecessários
e levantam o polegar já esqueceram
tu voltarás não importa teu fracasso
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada
e cada gesto cada forma de amor ou de censura
entre as últimas risadas a dor e os inícios
encontrará o vento acre e as estrelas derrotadas
uma máscara de bétula pressagia a visão
tens querido ver
no fundo do dia o tens logrado algumas vezes
o rio chega até os deuses
murmúrios longínquos sobem à claridade do sol
ameaças
esplendor a frio
não esperas nada
a não ser a rota do sol e da pena
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada
(tradução de Renato Rezende)
no fim das ruas encontras sempre outro céu
atrás do céu há sempre outro gramado praias diversas
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada
nunca suponhas que a espuma da aurora se extinguiu
depois do rosto há outro rosto
atrás das pegadas do teu amante há outras pegadas
atrás do canto um novo sussurro se prolonga
e as madrugadas escondem alfabetos inauditos ilhas remotas
sempre será assim
algumas vezes teu sonho acredita ter dito tudo
mas outro sonho se levanta e não é o mesmo
então voltas as mãos ao coração de todos de qualquer um
não és o mesmo não são os mesmos
outros sabem a palavra tu a ignoras
outros sabem esquecer os fatos desnecessários
e levantam o polegar já esqueceram
tu voltarás não importa teu fracasso
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada
e cada gesto cada forma de amor ou de censura
entre as últimas risadas a dor e os inícios
encontrará o vento acre e as estrelas derrotadas
uma máscara de bétula pressagia a visão
tens querido ver
no fundo do dia o tens logrado algumas vezes
o rio chega até os deuses
murmúrios longínquos sobem à claridade do sol
ameaças
esplendor a frio
não esperas nada
a não ser a rota do sol e da pena
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada
(tradução de Renato Rezende)
933
Edgar Bayley
É infinita esta riqueza abandonada
esta mão não é a mão nem a pele da tua alegria
no fim das ruas encontras sempre outro céu
atrás do céu há sempre outro gramado praias diversas
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada
nunca suponhas que a espuma da aurora se extinguiu
depois do rosto há outro rosto
atrás das pegadas do teu amante há outras pegadas
atrás do canto um novo sussurro se prolonga
e as madrugadas escondem alfabetos inauditos ilhas remotas
sempre será assim
algumas vezes teu sonho acredita ter dito tudo
mas outro sonho se levanta e não é o mesmo
então voltas as mãos ao coração de todos de qualquer um
não és o mesmo não são os mesmos
outros sabem a palavra tu a ignoras
outros sabem esquecer os fatos desnecessários
e levantam o polegar já esqueceram
tu voltarás não importa teu fracasso
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada
e cada gesto cada forma de amor ou de censura
entre as últimas risadas a dor e os inícios
encontrará o vento acre e as estrelas derrotadas
uma máscara de bétula pressagia a visão
tens querido ver
no fundo do dia o tens logrado algumas vezes
o rio chega até os deuses
murmúrios longínquos sobem à claridade do sol
ameaças
esplendor a frio
não esperas nada
a não ser a rota do sol e da pena
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada
(tradução de Renato Rezende)
no fim das ruas encontras sempre outro céu
atrás do céu há sempre outro gramado praias diversas
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada
nunca suponhas que a espuma da aurora se extinguiu
depois do rosto há outro rosto
atrás das pegadas do teu amante há outras pegadas
atrás do canto um novo sussurro se prolonga
e as madrugadas escondem alfabetos inauditos ilhas remotas
sempre será assim
algumas vezes teu sonho acredita ter dito tudo
mas outro sonho se levanta e não é o mesmo
então voltas as mãos ao coração de todos de qualquer um
não és o mesmo não são os mesmos
outros sabem a palavra tu a ignoras
outros sabem esquecer os fatos desnecessários
e levantam o polegar já esqueceram
tu voltarás não importa teu fracasso
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada
e cada gesto cada forma de amor ou de censura
entre as últimas risadas a dor e os inícios
encontrará o vento acre e as estrelas derrotadas
uma máscara de bétula pressagia a visão
tens querido ver
no fundo do dia o tens logrado algumas vezes
o rio chega até os deuses
murmúrios longínquos sobem à claridade do sol
ameaças
esplendor a frio
não esperas nada
a não ser a rota do sol e da pena
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada
(tradução de Renato Rezende)
933
Bella Akhmadúlina
Separação
Hoje nos separamos para sempre
e isso faz o mundo transformar-se.
Tudo nele anuncia a traição:
os rios vão se afastando das margens,
as nuvens vão se afastando do céu,
a mão direita olha para a esquerda
e arrogante diz: “Vou embora, adeus!”
Abril não mais prepara o mês de maio,
mês de maio que nunca mais verás,
e as flores se desfolham, feitas pó.
É a derrota do azul para o amarelo!
Já as últimas flores se esturricam,
comprimento e largura não há mais,
o branco, em estertor, já agoniza,
deixando um arco-íris de orfãzinhas.
A natureza afoga em sua tristeza,
a maré baixa sobe pela margem,
calam-se os sons e isso porque nós,
você e eu, pra sempre nos deixamos.
/// tradução de Lauro Machado Coelho, incluída no volume Poesia Soviética (São Paulo: Algol Editora, 2007).
.
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1 001
Sei Shônagon
Da primavera, o amanhecer
(1) Da primavera, o amanhecer. É quando palmo a palmo vão se definindo as esmaecidas linhas das montanhas e no céu arroxeado tremulam delicadas nuvens.
Do verão, a noite. Em especial, os tempos de luar, mas também as trevas, de vaga-lumes entrecruzando-se em profusão. Ou então, os solitários ou mesmo em pares que seguem com brilhos fugazes. A chuva também é igualmente bela.
Do outono, o entardecer. São os momentos do arrebol da tarde em que o sol se acha prestes a tocar as colinas, quando se tornam comoventes os corvos que se apressam para os ninhos em grupos de três ou quatro, ou dois e três, e o que diríamos então, ao avistarmos os minúsculos gansos selvagens seguindo em fila, que encantadores! O sol já posto, melancólico soa o ciciar do vento e o canto dos insetos.
Do inverno, o despertar. Indescritível é com a neve caindo e nele incluo a ofuscante brancura da geada. Mesmo na ausência destas, em manhãs de um frio cortante, o apressar das pessoas em acender o fogo e o corre-corre entre os aposentos com os carvões acesos são cenas típicas desta estação. O sol já nas alturas e o frio mais ameno, não nos cativa mais que a brasa já quase tornada cinzas no braseiro portátil.
(3) Coisas que são iguais embora soem diferentes. A fala do religioso. A fala do homem, a fala da mulher. Na fala dos medíocres sempre sobram palavras. O comedimento, sim, soa elegante.
(21) Mulheres que se satisfazem com uma felicidade singela e um futuro previsível e estável são deprimentes e desprezíveis. Acho, pois, que as jovens de boas famílias deveriam prestar serviço na Corte para alargar sua visão de mundo e acumular experiências como Vice-Chefe do Setor de Atendentes da Ala Feminina do Palácio Imperial. […]
(23) Coisas que deixamos de cumprir: a prática da abstinência religiosa, preparativos para compromissos num futuro distante, Reclusão prolongada no tempo.
(24) Coisas que são desdenhadas: muros danificados, pessoas conhecidas por seu coração bom demais.
(27) Coisas passadas que nos causam saudades. Flores ressequidas de malva. Ornamentos do Dia das Meninas.
Momentos em que nos deparamos com um retalho tingido de roxo-carmesim e roxo claro avermelhado prensado entre págians de uma brochura. Ou, em tedioso dia de chuva, encontrar cartas que outrora nos comoveram.
O leque do ano que passou.
(60) Para aqueles que deixam a casa da amada antes do amanhecer, parece desnecessário ter de ajeitar devidamente todos os trajes ou de atar firmemente o cordão do chapéu laqueado. Desleixados e desalinhados em trajes palacianos ou cotidianos, haveria quem deles zombasse ou criticasse quando com eles se deparassem? [...]
(66) Quanto a temas de poemas, a Capital. A planta trepadeira kuzu. A espadana d’água. O cavalo. O granizo.
(113) Quanto ao inverno, o bem frio. Quanto ao verão, o de calor sem igual.
(134) Coisas que são desprezadas. Pessoas feias e de mau caráter. Cola de arroz cozido e apodrecida. São coisas que todas as pessoas evitam, mas nem por isso vou deixar de registrá-las. Elas existem no mundo, como ainda a remanescente tenaz de bambu do cerimonial fúnebre. Esta brochura não foi escrita para as pessoas lerem e eu me propus a nela anotar inclusive as coisas estranhas e detestadas.
(154) Por estar de luto pelo falecimento do Conselheiro-Mor [...]
Preservar com cuidado os fatos passados é um gesto elegante. As mulheres não os esquecem, o que não se observa entre os homens, e é realmente muito divertido porque eles falham até na tentativa de rememorar seus próprios poemas. [...]
(160) Coisas distantes que parecem próximas. A Terra Pura. A travessia de um barco. A relação entre um homem e uma mulher.
(171) A casa de uma dama que vive sozinha apresenta-se bastante danificada: muro de terra batida por terminar, plantas aquáticas que invadem o lago e, embora o jardim ainda não esteja totalmente coberto de artemísias, podem-se ver as ervas daninhas verdes por entre as pedrinhas – uma imagem de tanta solidão chega a comover. É tão desinteressante quando nada há para ser consertado, com o portão bem trancado e tudo na mais devida ordem que nos enfastiamos muito.
(183) Em meio a uma tarde muito quente, pensava no que fazer para amenizá-la; o leque trazia-me apenas ares mornos e eu me deliciava molhando a mão na água com gelo, quando alguém me trouxe uma carta, em papel fino do mais puro vermelho, amarrada a um galho de cravina-chinesa em plena floração carmesim. Aquilo me fez sentir o cuidado profundo e a delicadeza que por mim nutria quem me escrevia em meio a tal calor e me levou a abandonar o leque que teimava em usar mesmo sem trazer alívio.
(188) Quanto a ventos [...]
Nada há de mais admirável e comovente do que a manhã seguinte ao tufão. [...]
(215) Ao atravessar o rio sob o intenso brilho do luar, é lindo ver as gotas d’água se espalhando como cristais a se fragmentar à medida que os bois caminham.
(232) Quanto ao que cai, a neve. O granizo. A neve chuvosa é detestável, mas é encantadora a brancura que se destaca quando cai. É maravilhosa a neve sobre o telhado de casca de cipreste, sobretudo quando está para derreter um pouco. É também verdadeiramente fascinante quando a neve, ainda pouca, se acumula no telhado plano e o sombreado de seu contorno faz ver formas curvas.
A chuva fina e intermitente de outono e o granizo sobre o telhado de tábuas. Também a geada sobre o telhado de tábuas. Ou no jardim.
(241) Coisas que simplesmente passam e... passam. O barco à vela. A idade das pessoas. A primavera, o verão, o outono, o inverno.
(252) Nas faces humanas, uma parte especialmente bonita é sempre digna de apreciação e admiração, por mais que a contemplemos. As pinturas, por exemplo, não mais atraem os olhos quando vistas com frequência. As pinturas de biombos que estão sempre ao lado, também, apesar de bastante apreciáveis, não mais nos prendem os olhos. As fisionomias, por sua vez, exercem uma atração intrigante.
Mesmo os objetos frios sempre têm uma parte bonita que chama a atenção. É uma pena que, do mesmo modo, também nos chama a atenção uma parte feia.
(285) Coisas que incitam à imitação. Bocejo. Criancinhas.
1 706
Sosigenes Costa
O pavão vermelho
Ora, a alegria, este pavão vermelho,
está morando em meu quintal agora.
Vem pousar como um sol em meu joelho
quando é estridente em meu quintal a aurora.
Clarim de lacre, este pavão vermelho
sobrepuja os pavões que estão lá fora.
É uma festa de púrpura. E o assemelho
a uma chama do lábaro da aurora.
É o próprio doge a se mirar no espelho.
E a cor vermelha chega a ser sonora
neste pavão pomposo e de chavelho.
Pavões lilases possuí outrora.
Depois que amei este pavão vermelho,
os meus outros pavões foram-se embora.
3 062
Sandro Penna
O mar é todo azul
O mar é todo azul.
O mar é todo calmo.
Em mim há quase um urro
de gozo. E tudo é calmo.
:
Il mare è tutto azzurro.
Il mare è tutto calmo.
Nel cuore è quasi un urlo
di gioia. E tutto è calmo
de Poesie (1939)
O mar é todo calmo.
Em mim há quase um urro
de gozo. E tudo é calmo.
:
Il mare è tutto azzurro.
Il mare è tutto calmo.
Nel cuore è quasi un urlo
di gioia. E tutto è calmo
de Poesie (1939)
1 098
Sandro Penna
O mar é todo azul
O mar é todo azul.
O mar é todo calmo.
Em mim há quase um urro
de gozo. E tudo é calmo.
:
Il mare è tutto azzurro.
Il mare è tutto calmo.
Nel cuore è quasi un urlo
di gioia. E tutto è calmo
de Poesie (1939)
O mar é todo calmo.
Em mim há quase um urro
de gozo. E tudo é calmo.
:
Il mare è tutto azzurro.
Il mare è tutto calmo.
Nel cuore è quasi un urlo
di gioia. E tutto è calmo
de Poesie (1939)
1 098
Paulo Colina
Algum Conceito de Movimento
A troca rápida e precisa de máscaras
atendendo a situação da cena,
não é, companheiro, um movimento.
A impulsão nos braços fraternos
para um salto vertical, em busca do poder ao nada,
menos é, companheiro, um movimento.
O sibilar da língua bifurcada da serpente,
prefaciando uma canção dolorida e amarga,
tampouco é, meu irmão, um movimento.
A demolição das casas da mente,
antes que se trabalhe a massa e o concreto,
muito menos é, companheiro, um movimento.
Ao que me consta, meu irmão,
movimento é:
logo ao primeiro encontro,
ao primeiro aperto de mão,
um sorrir sorrindo claro e aberto
com todos os dentes dos dedos
e do peito;
um mergulhar nessa angústia
que te disseca
e sairmos prenhes da mais pura
esperança, aos tropeços, pela cidade;
os soluços calmos do suicídio
no vórtice em fogo
entre as raízes das coxas
da mulher que te completa;
a liberdade do pensamento aflito
de esquadrinhar todos, mas todos todos
os quadrantes do firmamento.
Por isso, mano velho, companheiro em luta,
continuo ao passo do meu coração armado.
atendendo a situação da cena,
não é, companheiro, um movimento.
A impulsão nos braços fraternos
para um salto vertical, em busca do poder ao nada,
menos é, companheiro, um movimento.
O sibilar da língua bifurcada da serpente,
prefaciando uma canção dolorida e amarga,
tampouco é, meu irmão, um movimento.
A demolição das casas da mente,
antes que se trabalhe a massa e o concreto,
muito menos é, companheiro, um movimento.
Ao que me consta, meu irmão,
movimento é:
logo ao primeiro encontro,
ao primeiro aperto de mão,
um sorrir sorrindo claro e aberto
com todos os dentes dos dedos
e do peito;
um mergulhar nessa angústia
que te disseca
e sairmos prenhes da mais pura
esperança, aos tropeços, pela cidade;
os soluços calmos do suicídio
no vórtice em fogo
entre as raízes das coxas
da mulher que te completa;
a liberdade do pensamento aflito
de esquadrinhar todos, mas todos todos
os quadrantes do firmamento.
Por isso, mano velho, companheiro em luta,
continuo ao passo do meu coração armado.
937
Paulo Colina
Algum Conceito de Movimento
A troca rápida e precisa de máscaras
atendendo a situação da cena,
não é, companheiro, um movimento.
A impulsão nos braços fraternos
para um salto vertical, em busca do poder ao nada,
menos é, companheiro, um movimento.
O sibilar da língua bifurcada da serpente,
prefaciando uma canção dolorida e amarga,
tampouco é, meu irmão, um movimento.
A demolição das casas da mente,
antes que se trabalhe a massa e o concreto,
muito menos é, companheiro, um movimento.
Ao que me consta, meu irmão,
movimento é:
logo ao primeiro encontro,
ao primeiro aperto de mão,
um sorrir sorrindo claro e aberto
com todos os dentes dos dedos
e do peito;
um mergulhar nessa angústia
que te disseca
e sairmos prenhes da mais pura
esperança, aos tropeços, pela cidade;
os soluços calmos do suicídio
no vórtice em fogo
entre as raízes das coxas
da mulher que te completa;
a liberdade do pensamento aflito
de esquadrinhar todos, mas todos todos
os quadrantes do firmamento.
Por isso, mano velho, companheiro em luta,
continuo ao passo do meu coração armado.
atendendo a situação da cena,
não é, companheiro, um movimento.
A impulsão nos braços fraternos
para um salto vertical, em busca do poder ao nada,
menos é, companheiro, um movimento.
O sibilar da língua bifurcada da serpente,
prefaciando uma canção dolorida e amarga,
tampouco é, meu irmão, um movimento.
A demolição das casas da mente,
antes que se trabalhe a massa e o concreto,
muito menos é, companheiro, um movimento.
Ao que me consta, meu irmão,
movimento é:
logo ao primeiro encontro,
ao primeiro aperto de mão,
um sorrir sorrindo claro e aberto
com todos os dentes dos dedos
e do peito;
um mergulhar nessa angústia
que te disseca
e sairmos prenhes da mais pura
esperança, aos tropeços, pela cidade;
os soluços calmos do suicídio
no vórtice em fogo
entre as raízes das coxas
da mulher que te completa;
a liberdade do pensamento aflito
de esquadrinhar todos, mas todos todos
os quadrantes do firmamento.
Por isso, mano velho, companheiro em luta,
continuo ao passo do meu coração armado.
937
Paulo Colina
Algum Conceito de Movimento
A troca rápida e precisa de máscaras
atendendo a situação da cena,
não é, companheiro, um movimento.
A impulsão nos braços fraternos
para um salto vertical, em busca do poder ao nada,
menos é, companheiro, um movimento.
O sibilar da língua bifurcada da serpente,
prefaciando uma canção dolorida e amarga,
tampouco é, meu irmão, um movimento.
A demolição das casas da mente,
antes que se trabalhe a massa e o concreto,
muito menos é, companheiro, um movimento.
Ao que me consta, meu irmão,
movimento é:
logo ao primeiro encontro,
ao primeiro aperto de mão,
um sorrir sorrindo claro e aberto
com todos os dentes dos dedos
e do peito;
um mergulhar nessa angústia
que te disseca
e sairmos prenhes da mais pura
esperança, aos tropeços, pela cidade;
os soluços calmos do suicídio
no vórtice em fogo
entre as raízes das coxas
da mulher que te completa;
a liberdade do pensamento aflito
de esquadrinhar todos, mas todos todos
os quadrantes do firmamento.
Por isso, mano velho, companheiro em luta,
continuo ao passo do meu coração armado.
atendendo a situação da cena,
não é, companheiro, um movimento.
A impulsão nos braços fraternos
para um salto vertical, em busca do poder ao nada,
menos é, companheiro, um movimento.
O sibilar da língua bifurcada da serpente,
prefaciando uma canção dolorida e amarga,
tampouco é, meu irmão, um movimento.
A demolição das casas da mente,
antes que se trabalhe a massa e o concreto,
muito menos é, companheiro, um movimento.
Ao que me consta, meu irmão,
movimento é:
logo ao primeiro encontro,
ao primeiro aperto de mão,
um sorrir sorrindo claro e aberto
com todos os dentes dos dedos
e do peito;
um mergulhar nessa angústia
que te disseca
e sairmos prenhes da mais pura
esperança, aos tropeços, pela cidade;
os soluços calmos do suicídio
no vórtice em fogo
entre as raízes das coxas
da mulher que te completa;
a liberdade do pensamento aflito
de esquadrinhar todos, mas todos todos
os quadrantes do firmamento.
Por isso, mano velho, companheiro em luta,
continuo ao passo do meu coração armado.
937
Sandro Penna
Pega uma garota
“Pega uma garota, e vai devagarinho,
tenta umas beijocas. E em vez de ...” tranqüilo
por detrás do bilhar, parando o jogo,
alguém, com um jeito terno, ainda falava
com um ar paternal, e atenta graça.
E o outro o ouvia, arregalado os olhos
tensos, culpados. A horrível desgraça!
:
"Prenditi una ragazza, e piano piano
vai com qualque bacetto. E invesse...” calmo
oltre il verde bigliardo e il fermo giuoco,
così tenero ancora, uno parlava
paternamente, com attenta grazia.
E l’altro l’ascoltava, egli nei gonfi
occhi colpevoli. L’orribile disgrazia!
de Croce e delizia (1958)
tenta umas beijocas. E em vez de ...” tranqüilo
por detrás do bilhar, parando o jogo,
alguém, com um jeito terno, ainda falava
com um ar paternal, e atenta graça.
E o outro o ouvia, arregalado os olhos
tensos, culpados. A horrível desgraça!
:
"Prenditi una ragazza, e piano piano
vai com qualque bacetto. E invesse...” calmo
oltre il verde bigliardo e il fermo giuoco,
così tenero ancora, uno parlava
paternamente, com attenta grazia.
E l’altro l’ascoltava, egli nei gonfi
occhi colpevoli. L’orribile disgrazia!
de Croce e delizia (1958)
834
Paulo Colina
Solitude
Dentro desta noite cúmplice
tudo se funde
em meus ouvidos:
o assobio plano do vento
e as ondas pontuais das vozes
e gargalhadas
no interior dos bares.
Já estive em três deles. E até agora,
nenhuma cadeira me aqueceu direito;
nada do que bebi me caiu bem.
As horas se arrastam ao rés dos edifícios
do centro capital,
alheios à soturna clausura das palavras
dentro de mim.
Pelas ruas,
cada ponto de ônibus
é um cão vadio roendo silêncios.
Meu peito é um vão
por onde toda a cidade transita.
949
Paulo Colina
Solitude
Dentro desta noite cúmplice
tudo se funde
em meus ouvidos:
o assobio plano do vento
e as ondas pontuais das vozes
e gargalhadas
no interior dos bares.
Já estive em três deles. E até agora,
nenhuma cadeira me aqueceu direito;
nada do que bebi me caiu bem.
As horas se arrastam ao rés dos edifícios
do centro capital,
alheios à soturna clausura das palavras
dentro de mim.
Pelas ruas,
cada ponto de ônibus
é um cão vadio roendo silêncios.
Meu peito é um vão
por onde toda a cidade transita.
949
Jean-Baptiste Tati Loutard
Notícias de minha mãe
Me alço alto agora na árvore das estações;
Embaixo, contemplo a terra firme do passado.
Quando os campos se abriam às semeaduras,
Antes que o baobá não ofereça o ombro ao passarinhos
Ao primeiro sinal do sol,
São esses os passos que cantavam ao meu redor:
Grãos de sininhos ritmando minhas abluções.
Me alço alto agora na árvore das estações.
Saiba através desse décimo quinto dia de lua
Que são as lágrimas – até aqui –
Que coroam tua ausência,
Alegam gota a gota tua imagem
Tão pesada sobre minha pupila;
À noite em minha esteira eu velo toda encharcada de ti
Como se tu me habitasses uma segunda vez.
(tradução de Leo Gonçalves)
:
Nouvelles de ma mère
Jean-Baptiste Tati Loutard
Je suis maintenant très haut dans l’arbre des saiasons;
En bas je contemple la terre ferme du passé.
Quando les champs s’ouvraient aux semailles,
Avant que le baobab n’épaule quelques oiseaux
Au premier signal du soleil,
Ce sont tes pas qui chantaient autor de moi:
Grains de clochettes rythmant mes ablutions.
Je suis maintenant très haut dans l’arbre des saisons.
Apprends par ce quinzième jour de lune,
Que ce sont les larmes – jusqu’ici –
Qui comblent ton absence,
Allègent goutte à goutte ton image
Trop lourde sur ma pupille;
Le soir sur ma natte je veille toute trempée de toi
Comme si tu m’habitais une seconde fois.
(do livro Poèmes de la mer, 1968)
.
.
.
943
Jean-Baptiste Tati Loutard
Notícias de minha mãe
Me alço alto agora na árvore das estações;
Embaixo, contemplo a terra firme do passado.
Quando os campos se abriam às semeaduras,
Antes que o baobá não ofereça o ombro ao passarinhos
Ao primeiro sinal do sol,
São esses os passos que cantavam ao meu redor:
Grãos de sininhos ritmando minhas abluções.
Me alço alto agora na árvore das estações.
Saiba através desse décimo quinto dia de lua
Que são as lágrimas – até aqui –
Que coroam tua ausência,
Alegam gota a gota tua imagem
Tão pesada sobre minha pupila;
À noite em minha esteira eu velo toda encharcada de ti
Como se tu me habitasses uma segunda vez.
(tradução de Leo Gonçalves)
:
Nouvelles de ma mère
Jean-Baptiste Tati Loutard
Je suis maintenant très haut dans l’arbre des saiasons;
En bas je contemple la terre ferme du passé.
Quando les champs s’ouvraient aux semailles,
Avant que le baobab n’épaule quelques oiseaux
Au premier signal du soleil,
Ce sont tes pas qui chantaient autor de moi:
Grains de clochettes rythmant mes ablutions.
Je suis maintenant très haut dans l’arbre des saisons.
Apprends par ce quinzième jour de lune,
Que ce sont les larmes – jusqu’ici –
Qui comblent ton absence,
Allègent goutte à goutte ton image
Trop lourde sur ma pupille;
Le soir sur ma natte je veille toute trempée de toi
Comme si tu m’habitais une seconde fois.
(do livro Poèmes de la mer, 1968)
.
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943
Patrícia Galvão
Canal
Nada mais sou que um canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal
Sabem vocês o que é ser um canal?
Apenas um canal?
Evidentemente um canal tem as suas nervuras
As suas nebulosidades
As suas algas
Nereidazinhas verdes, às vezes amarelas
Mas por favor
Não pensem que estou pretendendo falar
Em bandeiras
Isso não
Gosto de bandeiras alastradas ao vento
Bandeiras de navio
As ruas são as mesmas.
O asfalto com os mesmos buracos,
Os inferninhos acesos,
O que está acontecendo?
É verdade que está ventando noroeste,
Há garotos nos bares
Há, não sei mais o que há.
Digamos que seja a lua nova
Que seja esta plantinha voacejando na minha frente.
Lembranças dos meus amigos que morreram
Lembranças de todas as coisas ocorridas
Há coisas no ar…
Digamos que seja a lua nova
Iluminando o canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal.
(Publicado n’A Tribuna, Santos/SP, em 27-11-1960)
958
Patrícia Galvão
Canal
Nada mais sou que um canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal
Sabem vocês o que é ser um canal?
Apenas um canal?
Evidentemente um canal tem as suas nervuras
As suas nebulosidades
As suas algas
Nereidazinhas verdes, às vezes amarelas
Mas por favor
Não pensem que estou pretendendo falar
Em bandeiras
Isso não
Gosto de bandeiras alastradas ao vento
Bandeiras de navio
As ruas são as mesmas.
O asfalto com os mesmos buracos,
Os inferninhos acesos,
O que está acontecendo?
É verdade que está ventando noroeste,
Há garotos nos bares
Há, não sei mais o que há.
Digamos que seja a lua nova
Que seja esta plantinha voacejando na minha frente.
Lembranças dos meus amigos que morreram
Lembranças de todas as coisas ocorridas
Há coisas no ar…
Digamos que seja a lua nova
Iluminando o canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal.
(Publicado n’A Tribuna, Santos/SP, em 27-11-1960)
958
Ted Berrigan
Soneto 55
“Graça de nascer
e viver tão vário
quanto possível for”
-- Frank O`Hara
Graça de nascer e viver tão vário quanto possível for
Barcos brancos..... margens verdes.....poeira preta..... num tremor
Enormes como as coxas de Anne sobre a página
Enfureço-me numa camisa azul contra uma escrivaninha marrom num
Cômodo claro sustido por uma barrigacheia de comprimidos
“Os Poemas” não são um sonho por todas as coisas que lhes chegaram
Gratuitamente..... na rápida Nova Iorque imaginamos o Charles azul
Patsy desperta no cio e pronta pra briga
Nada de Poemas ela exige num comando de cobertas..... barriga
Com barriga quente nos deitamos..... serenamente brancos
De verdade, só meus poros suarentos na noite vazia
Estranhas combustões por toda a parte!..... temos fome e provamos
E vamos ao cinema..... depois corremos para casa encharcados de chama
À graça da cama de faz-de-conta
tradução de Ismar Tirelli Neto
794
Xue Tao
Canção contemplando a primavera
(I)
As flores abrem, mesmo sem apreço
as flores caem, com ou sem lamento
Se da saudade indagas, quando faltas:
quando se abrem as flores, quando caem
(II)
Colhi ervinhas, fiz um nó-do-amor
para entregar a ele, o que me entende
Da primavera enfim a dor partia
e vêm os pássaros, seu canto triste
(III)
Ao sopro do dia envelhecem as flores
Longe o momento, tão longa a espera
Nenhum laço une amor e amante
trança o vazio meu nó-do-amor
(IV)
Insuportáveis os galhos repletos,
flores demais! Saudades às pencas
Plena manhã, o espelho reflete
à primavera as lágrimas, o vento
796