Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Leónidas Lamborghini
Dados
Como aquele que no café
gira com fúria
os dados
no escuro do copo
para juntar coragem
contra o contra da sorte.
Como aquele que concentra
todo o esforço
ali no alto
fazendo rugir os dados
no escuro
para juntar coragem
contra o contra da sorte.
Como aquele que do alto
vai descarregar
os dados
e vocifera com fúria
para juntar coragem
contra o contra da sorte.
Como aquele que com todas
as forças
agita os dados no alto
e dali
descarrega com fúria
na mesa
o copo
como esse
como esse
para juntar coragem
contra o contra da sorte.
764
Leónidas Lamborghini
Dados
Como aquele que no café
gira com fúria
os dados
no escuro do copo
para juntar coragem
contra o contra da sorte.
Como aquele que concentra
todo o esforço
ali no alto
fazendo rugir os dados
no escuro
para juntar coragem
contra o contra da sorte.
Como aquele que do alto
vai descarregar
os dados
e vocifera com fúria
para juntar coragem
contra o contra da sorte.
Como aquele que com todas
as forças
agita os dados no alto
e dali
descarrega com fúria
na mesa
o copo
como esse
como esse
para juntar coragem
contra o contra da sorte.
764
Maria Ângela Alvim
A volta
Tão só em prosseguir busquei sentido
e o caminho é sem regresso a quem caminha
por nenhum instinto além reconhecido.
Espaço meu ou de loucura, era sozinha.
Vinha de não sei onde, lar perdido
de mim mesma, ou infância. Vinha
quando apenas vi que recobrara o ido
antigo estar em tal estância, minha.
E tudo que abandonei, o a que deu termo
muda solidão pairando em grito ermo,
largo deserto visto em falso medo,
tudo que abandonei, faz companhia.
Enquanto, indo, um ocaso brando me assistia
eis que amanheço em mim, volto a ser cedo.
e o caminho é sem regresso a quem caminha
por nenhum instinto além reconhecido.
Espaço meu ou de loucura, era sozinha.
Vinha de não sei onde, lar perdido
de mim mesma, ou infância. Vinha
quando apenas vi que recobrara o ido
antigo estar em tal estância, minha.
E tudo que abandonei, o a que deu termo
muda solidão pairando em grito ermo,
largo deserto visto em falso medo,
tudo que abandonei, faz companhia.
Enquanto, indo, um ocaso brando me assistia
eis que amanheço em mim, volto a ser cedo.
1 169
Maria Ângela Alvim
Estou e não me respondo
Estou e não me respondo.
Assisto. Em mim se decide
um inútil afã e se some
a vida que me preside.
E passo, ainda... Meu nome
há muito não coincide
comigo se estar se consome
e tantas vezes me elide.
Me move o tempo mais frio
de tanto pranto afogado
num quase mito de mim.
Vou morando em desvario
quase em sonho inaugurado
para um começo, meu fim.
Assisto. Em mim se decide
um inútil afã e se some
a vida que me preside.
E passo, ainda... Meu nome
há muito não coincide
comigo se estar se consome
e tantas vezes me elide.
Me move o tempo mais frio
de tanto pranto afogado
num quase mito de mim.
Vou morando em desvario
quase em sonho inaugurado
para um começo, meu fim.
910
Maria Ângela Alvim
Estou e não me respondo
Estou e não me respondo.
Assisto. Em mim se decide
um inútil afã e se some
a vida que me preside.
E passo, ainda... Meu nome
há muito não coincide
comigo se estar se consome
e tantas vezes me elide.
Me move o tempo mais frio
de tanto pranto afogado
num quase mito de mim.
Vou morando em desvario
quase em sonho inaugurado
para um começo, meu fim.
Assisto. Em mim se decide
um inútil afã e se some
a vida que me preside.
E passo, ainda... Meu nome
há muito não coincide
comigo se estar se consome
e tantas vezes me elide.
Me move o tempo mais frio
de tanto pranto afogado
num quase mito de mim.
Vou morando em desvario
quase em sonho inaugurado
para um começo, meu fim.
910
Maria Ângela Alvim
Estou e não me respondo
Estou e não me respondo.
Assisto. Em mim se decide
um inútil afã e se some
a vida que me preside.
E passo, ainda... Meu nome
há muito não coincide
comigo se estar se consome
e tantas vezes me elide.
Me move o tempo mais frio
de tanto pranto afogado
num quase mito de mim.
Vou morando em desvario
quase em sonho inaugurado
para um começo, meu fim.
Assisto. Em mim se decide
um inútil afã e se some
a vida que me preside.
E passo, ainda... Meu nome
há muito não coincide
comigo se estar se consome
e tantas vezes me elide.
Me move o tempo mais frio
de tanto pranto afogado
num quase mito de mim.
Vou morando em desvario
quase em sonho inaugurado
para um começo, meu fim.
910
Erich Fried
Canta-se
Canta-se
de medo
contra o medo.
Canta-se
de fome
contra a fome.
Canta-se
do tempo
contra o tempo.
Canta-se
do pó
contra o pó.
Canta-se
sobre os nomes
a fazer dos nomes o inominável.
:
Einer singt
Einer singt
aus Angst
gegen Angst
Einer singt
aus Not
gegen Not
Einer singt
aus der Zeit
gegen die Zeit
Einer singt
aus dem Staub
gegen die Staub
Einer singt
von den Namen
die Namen namenlos machen
Nota: A palavra alemã Not seria o equivalente a necessidade ou emergência, mas usei fome para manter a concisão.
de medo
contra o medo.
Canta-se
de fome
contra a fome.
Canta-se
do tempo
contra o tempo.
Canta-se
do pó
contra o pó.
Canta-se
sobre os nomes
a fazer dos nomes o inominável.
:
Einer singt
Einer singt
aus Angst
gegen Angst
Einer singt
aus Not
gegen Not
Einer singt
aus der Zeit
gegen die Zeit
Einer singt
aus dem Staub
gegen die Staub
Einer singt
von den Namen
die Namen namenlos machen
Nota: A palavra alemã Not seria o equivalente a necessidade ou emergência, mas usei fome para manter a concisão.
1 009
Erich Fried
O que é
É louco
diz a razão
É o que é
diz o amor
É desastroso
diz o cálculo
É só dor
diz o medo
É desesperado
diz a inteligência
É o que é
diz o amor
É ridículo
diz o orgulho
É inconsequente
diz o cuidado
É impossível
diz a experiência
É o que é
diz o amor
Was es ist
Es ist Unsinn
sagt die Vernunft
Es ist was es ist
sagt die Liebe
Es ist Unglück
sagt die Berechnung
Es ist nichts als Schmerz
sagt die Angst
Es ist aussichtslos
sagt die Einsicht
Es ist was es ist
sagt die Liebe
Es ist lächerlich
sagt der Stolz
Es ist leichtsinnig
sagt die Vorsicht
Es ist unmöglich
sagt die Erfahrung
Es ist was es ist
sagt die Liebe
3 279
Pentti Saarikoski
XXXV
eu nunca estarei à altura dos meus poemas
eu tusso eu ofego
enquanto eles respiram livremente
eu caminho por aí de olhar fixo
eles conhecem seu próprio valor
me ridicularizam
à noite eles saem aos berros às ruas
mas de dia sentam-se comportados no escritório
batendo à mesa com um lápis dizendo
qual o seu número?
eu me decepcionei com todos eles
eu não os criei à minha imagem e semelhança?
eles deviam fazer propaganda de mim mesmo
e o que eles estão fazendo?
sorrindo com desdém
enquanto uma delegação de poetas europeus os aplaude
eu desmaio num banco de parque a cagar nas calças
quando estou doente eles vêm me ver? não
quando estiver morto
trarão flores ao meu túmulo? oh não
eles não têm órgãos internos
eles não envelhecem
eu encolho enquanto crescem
eu morro
e eles vivem com a bunda virada pra lua
616
Maria Ângela Alvim
Carta a Maria Clea
Embora faça sol, a dor oprime a altura.
Converso com você, mas sei que é conjetura.
E sendo aqui montanha, verdade aprofundo:
Por quê? Por que nos nutrirmos deste mundo?
Deste mundo, exilio, — porta de nossas perdas
onde o tempo nos soma pelas horas esquerdas.
Não sabemos talvez, ou em saber não bastamos
que o mundo é sedento e nós o desalteramos.
Secam rios de pranto onde a sede se apura
e desagua o labirinto de uma carne obscura.
É preciso nos nutrirmos deste mundo, — quantos
somos, sirvamos à sua fome, — fome de tantos.
Converso com você, mas sei que é conjetura.
E sendo aqui montanha, verdade aprofundo:
Por quê? Por que nos nutrirmos deste mundo?
Deste mundo, exilio, — porta de nossas perdas
onde o tempo nos soma pelas horas esquerdas.
Não sabemos talvez, ou em saber não bastamos
que o mundo é sedento e nós o desalteramos.
Secam rios de pranto onde a sede se apura
e desagua o labirinto de uma carne obscura.
É preciso nos nutrirmos deste mundo, — quantos
somos, sirvamos à sua fome, — fome de tantos.
814
Leónidas Lamborghini
Lendo o jornal
Como aquele que um dia
lendo o jornal
se surpreende
na Seção Desaparecidos
e quem sou
e onde estou se pergunta.
Como aquele que vê essa foto
de seu rosto
ali
e reconhece seu rosto
mas não se identifica
e quem sou
e onde estou se pergunta.
Como aquele que lê
seus dados na identidade
ali
debaixo da foto
de seu rosto
e se identifica
mas não se reconhece
e quem sou
e onde estou se pergunta.
Como aquele que tenta
se lembrar
e toca seu corpo e se diz
sou esse, estou aqui
e começa a se procurar
e não se encontra
como esse
como esse
e quem sou
e onde estou se pergunta.
.
.
.
Traduções de Renato Rezende, extraídas da antologia Pontes/Puentes (2003)
O solicitante deslocado
Desempregado
buscando uma grana até não poder mais
faltou-me a energia o passo firme
entediado há meses, a miséria
procuro agora um emprego na era atômica
dentro ou fora do meu ramo
se for possível
Todos os dias abro o mundo
um jardim de esperanças
na seção de empregos
vou me classificando
atento
este anúncio me chama.
Então
ao escrever com fervor e letra caprichada
aderido com lealdade
- ser claro -
escuto a súplica do rouxinol
unindo o primitivo ao culto
a inspiração ao estudo
trato de seduzir com meus antecedentes.
O formulário
detalha-me
o que subscreve
prático em desorganizar
deseja
ganhar pão em seu estabelecimento
homem de empresa
caixa postal.
lendo o jornal
se surpreende
na Seção Desaparecidos
e quem sou
e onde estou se pergunta.
Como aquele que vê essa foto
de seu rosto
ali
e reconhece seu rosto
mas não se identifica
e quem sou
e onde estou se pergunta.
Como aquele que lê
seus dados na identidade
ali
debaixo da foto
de seu rosto
e se identifica
mas não se reconhece
e quem sou
e onde estou se pergunta.
Como aquele que tenta
se lembrar
e toca seu corpo e se diz
sou esse, estou aqui
e começa a se procurar
e não se encontra
como esse
como esse
e quem sou
e onde estou se pergunta.
.
.
.
Traduções de Renato Rezende, extraídas da antologia Pontes/Puentes (2003)
O solicitante deslocado
Desempregado
buscando uma grana até não poder mais
faltou-me a energia o passo firme
entediado há meses, a miséria
procuro agora um emprego na era atômica
dentro ou fora do meu ramo
se for possível
Todos os dias abro o mundo
um jardim de esperanças
na seção de empregos
vou me classificando
atento
este anúncio me chama.
Então
ao escrever com fervor e letra caprichada
aderido com lealdade
- ser claro -
escuto a súplica do rouxinol
unindo o primitivo ao culto
a inspiração ao estudo
trato de seduzir com meus antecedentes.
O formulário
detalha-me
o que subscreve
prático em desorganizar
deseja
ganhar pão em seu estabelecimento
homem de empresa
caixa postal.
669
Daniel Faria
Procuro o trânsito
Procuro o trânsito de um homem que repousa em ti
Como se desvia um homem do seu coração para seguir viagem
Como deixa ficar tudo e acrescenta à sua herança
Procuro conhecer os símbolos, os marcos miliares
Diurnos, como se lêem
Sinais de fumo e o ângulo dos pombos – e todas as coisas
Que nos chegam da distância
Procuro saber como se fecham os pés dentro dos teus
Percursos
Como se põe descalço um homem que necessita
De atravessar-se
E desejo outra vez desdobrada a tua palavra cheia
De estrelas
Para que as recorte, para que as ponha no silêncio
Vivas
Na minha boca e nas minhas mãos
Em chamas
Como se desvia um homem do seu coração para seguir viagem
Como deixa ficar tudo e acrescenta à sua herança
Procuro conhecer os símbolos, os marcos miliares
Diurnos, como se lêem
Sinais de fumo e o ângulo dos pombos – e todas as coisas
Que nos chegam da distância
Procuro saber como se fecham os pés dentro dos teus
Percursos
Como se põe descalço um homem que necessita
De atravessar-se
E desejo outra vez desdobrada a tua palavra cheia
De estrelas
Para que as recorte, para que as ponha no silêncio
Vivas
Na minha boca e nas minhas mãos
Em chamas
1 255
Maria Ângela Alvim
Quero crer-me este sentido
Quero crer-me este sentido
de longa memória branca.
Sobre ele não lembrar,
- ficar, ficar,
no encontro de tudo em pouco:
o tempo se refez no instante
deste espaço, superfície,
chão que nem me sustenta
(dura sou, eu, e dura amargura é a minha).
Não, não me lembrarei,
seria pensar começos
e outros fins - ó lunares
lembranças, doridos passos
(muitos fui acompanhando
de longe e mais me pisaram
aqui, ali, onde sei).
Estou? Se estou me consentem
os gestos e os movimentos?
Nenhum ruído se atenta
que dentro não fosse ouvido.
E tudo em mim se repete
enquanto durante e sempre
a lembrança vai baixando
a seu leito mais dormente.
Os pensamentos seriam
roteiros menos sofridos?
Deixá-los que se solveram
nestes noturnos tormentos
da mente se procurando,
da idéia, refluindo
sobre dúvida, distância
e certeza, aéreo marco
de um repouso em si medido.
Deixá-los. Deixar-me enquanto
existe um consenso oculto.
Pensarei que desvivi
num limite-lucidez
lá e, no entanto, aqui.
de longa memória branca.
Sobre ele não lembrar,
- ficar, ficar,
no encontro de tudo em pouco:
o tempo se refez no instante
deste espaço, superfície,
chão que nem me sustenta
(dura sou, eu, e dura amargura é a minha).
Não, não me lembrarei,
seria pensar começos
e outros fins - ó lunares
lembranças, doridos passos
(muitos fui acompanhando
de longe e mais me pisaram
aqui, ali, onde sei).
Estou? Se estou me consentem
os gestos e os movimentos?
Nenhum ruído se atenta
que dentro não fosse ouvido.
E tudo em mim se repete
enquanto durante e sempre
a lembrança vai baixando
a seu leito mais dormente.
Os pensamentos seriam
roteiros menos sofridos?
Deixá-los que se solveram
nestes noturnos tormentos
da mente se procurando,
da idéia, refluindo
sobre dúvida, distância
e certeza, aéreo marco
de um repouso em si medido.
Deixá-los. Deixar-me enquanto
existe um consenso oculto.
Pensarei que desvivi
num limite-lucidez
lá e, no entanto, aqui.
845
Maria Ângela Alvim
enquanto a vida
Só, — enquanto a vida
mais distante esmaecia
e prosseguir — tão só — era oriente
(o caminho é sem retorno, se não existe
nenhum instinto além que o reconheça,
e o passo gratuito pronto ignora
o outro passo)
só, eu prosseguia.
Num fim remoto, silêncio ensurdecera
— quem sabe a paz, memória resignada
que tantos sentidos deslembraram?
Quem sabe o adeus de um deus que se prepara?
E, sem saber,
num espaço meu
ou de loucura,
— só, estranha em mim,
eu regressava.
.
.
.
mais distante esmaecia
e prosseguir — tão só — era oriente
(o caminho é sem retorno, se não existe
nenhum instinto além que o reconheça,
e o passo gratuito pronto ignora
o outro passo)
só, eu prosseguia.
Num fim remoto, silêncio ensurdecera
— quem sabe a paz, memória resignada
que tantos sentidos deslembraram?
Quem sabe o adeus de um deus que se prepara?
E, sem saber,
num espaço meu
ou de loucura,
— só, estranha em mim,
eu regressava.
.
.
.
747
Horst Bienek
A época seguinte
I
Há uma época
........e a época seguinte
sobre qual época gostaríamos de conversar?
II
Quando o cervo pastou junto ao leão
quando amadureceu a maçã para aquele que adubara a macieira
quando àquele que pescou o peixe permitiu-se também comê-lo
era uma época
....................época paradisíaca
..........................sobre a qual nossos ouvidos
apreciavam o sermão
Quando nos apertamos de bruços em catres de madeira
quando a escuridão trancafiou nossos corpos em suor
quando a fome esmigalhou-nos os sonhos e o sono
era uma época
....................época tenebrosa
..........................que não desejávamos
aos nossos inimigos
Quando os vigias berravam no pátio para nossa contagem
quando cavamos da terra o carvão com ferramentas cegas
quando buscamos uma resposta nas petrificações negras
por que essa época
....................assim era
...........................sobre a qual preferiríamos
haver lido nos manuais escolares
Quando voltamos sem lembrança às cidades natais
quando – incógnitos – misturamo-nos entre os habitantes
quando arrombamos suas portas e deixamos voltar a desconfiança
era uma época
....................época dolorosa
...........................em que transbordamos
em nossa aflição
III
Nós estamos no caminho de uma época
para outra
..............................mas aonde nos encaminhamos
..............................não haveremos de chegar
..............................às vezes nossos joelhos partem-se
..............................e a chuva molha nossos rostos
nós cantamos
.............ninguém nos ouve
.............(pois o cansaço
.............cola-nos de suor os lábios)
nossos gestos são trémulos
.............ninguém os compreende
.............(pois o desespero
.............rebenta-nos os braços do tronco)
nós continuamos
no caminho que leva de uma época
...........................à época seguinte
IV
Por compaixão jogam-nos palavras no colo
:
Die Zeit danach:/ I / Es gibt eine Zeit / und die Zeit danach / von welcher Zeit wollen wir reden? // II / Als das Reh neben dem Löwen weidete / als der Apfel reifte für den der den Apfelbaum düngte / als wer den Fisch fing ihn auch essen durfte / das war eine Zeit / paradiesische Zeit / von der wir gerne / predigen hörten. // Als wir zusammengedrängt lagen auf hölzernen Pritschen / als die Dunkelheit unsere schwitzenden Leiber einsperrte / als uns der Hunger den Schlaf und den Traum zerspellte / das war eine Zeit / finstere Zeit / die wir unseren Feinden / nicht wünschten // Als der Schrei des Wachmanns uns auf den Appellplatz jagte / als wir mit stumpfen Geräaten die Kohle aus der Erde gruben / als wir in den schwarzen Versteinerungen eine Antwort suchten / warum diese Zeit / so war / von der wir lieber / in den Lesebüchern gelesen hätten // Als wir heimkehrten in die Städte ohne Erinnerung / als – unerkannt – wir uns unter ihre Bewohner mischten / als wir einbrachen in ihre Häuser und den Argwohn zurückliessen / das war eine Zeit / schmerzliche Zeit / die wir unserer Trauer / zuschütteten // III // Wir sind auf den Weg von der einen Zeit / in die andere / doch wohin wir auch gehen / wir kommen nicht an / machmal brechen wir in die Knie / und der Regen nässt unsre Gesichter / wir singen / man hört uns nicht / (denn die Müdigkeit / schweisst uns die Lippen zusammen) / unsere Gesten sind zaghaft / man begreift sie nicht / (denn die Verzweiflung / schlägt uns die Arme vom Rumpf) / wir gehen weiter / auf dem Weg von der einen Zeit / ind die Zeit danach // IV // Mitleidig wirft man uns Wörter in den Schoss
.
.
.
754
Lois Pereiro
Cero a la izquierda
O corredor de fondo perde o alento
fuxindo dunha vida inzada de renuncias
da súa liturxia obesa e oleosa,
mediocre nos seus comunais fracasos,
bágoas de xelo, indignación contida
non deu chegado a tempo de exercer
a súa rebelión,
nin de levar a cabo
a súa vinganza definitiva
contra un mundo inxusto, homicida, e cruel,
pola inutilidade da súa propia vida
solitario, enfermo e fatigado,
a morte anticipouse e chegou antes.
943
Lois Pereiro
Cero a la izquierda
O corredor de fondo perde o alento
fuxindo dunha vida inzada de renuncias
da súa liturxia obesa e oleosa,
mediocre nos seus comunais fracasos,
bágoas de xelo, indignación contida
non deu chegado a tempo de exercer
a súa rebelión,
nin de levar a cabo
a súa vinganza definitiva
contra un mundo inxusto, homicida, e cruel,
pola inutilidade da súa propia vida
solitario, enfermo e fatigado,
a morte anticipouse e chegou antes.
943
Maria Ângela Alvim
Moro em mim? No meu destino, largado
Moro em mim? No meu destino, largado
partido em mil?
Moro aqui? Demoraria
sempre aqui, sem me saber - fugindo sempre
estaria?
Eis um lugar. Degredo
(de quê?). Dimensão se perseguindo
num sonho? - Sim, que me acordo.
Tudo existe circunstante
e ninguém para me crer.
Sou eu o sonho,
momento da ausência alheia (que devasso quase fria).
Morte, vida recente,
subindo em mim a resina,
ungüento de noite, amor.
As sombras e seus véus,
tantos véus - o mais sucinto
preso a meu corpo (aparente?)
me divide em dois recintos.
Um deles sendo equilíbrio
noutro posso me conter.
Avanço no sono aberto
até a altura do dia,
fria, fria,
mais fria, minha pele
filtra a aurora - neste tempo
aquela hora, seu pulso de instante e ocaso.
Eis que me encontro. Limite
de transparência e contato
entre a luz e meu retrato, na casta
parede - a louca?
Marulho d'água, caindo
dentro de mim, claridade.
Graça de mãos mais presentes,
que minhas mãos, já vazias
de sua forma, na palma.
Que gesto extenso as reteve
sempre além, configuradas?
E este azul, quase em branco
se desfazendo (na carne?).
Ah! Três retinas cortadas
de um prisma, se amanhecidas
nestes vidros, na vigília.
Ah! Três retinas pousadas
em ver, em ver contemplando
(ser, será o esquecimento
de quanto somos - pensando?).
987
Maria Ângela Alvim
Moro em mim? No meu destino, largado
Moro em mim? No meu destino, largado
partido em mil?
Moro aqui? Demoraria
sempre aqui, sem me saber - fugindo sempre
estaria?
Eis um lugar. Degredo
(de quê?). Dimensão se perseguindo
num sonho? - Sim, que me acordo.
Tudo existe circunstante
e ninguém para me crer.
Sou eu o sonho,
momento da ausência alheia (que devasso quase fria).
Morte, vida recente,
subindo em mim a resina,
ungüento de noite, amor.
As sombras e seus véus,
tantos véus - o mais sucinto
preso a meu corpo (aparente?)
me divide em dois recintos.
Um deles sendo equilíbrio
noutro posso me conter.
Avanço no sono aberto
até a altura do dia,
fria, fria,
mais fria, minha pele
filtra a aurora - neste tempo
aquela hora, seu pulso de instante e ocaso.
Eis que me encontro. Limite
de transparência e contato
entre a luz e meu retrato, na casta
parede - a louca?
Marulho d'água, caindo
dentro de mim, claridade.
Graça de mãos mais presentes,
que minhas mãos, já vazias
de sua forma, na palma.
Que gesto extenso as reteve
sempre além, configuradas?
E este azul, quase em branco
se desfazendo (na carne?).
Ah! Três retinas cortadas
de um prisma, se amanhecidas
nestes vidros, na vigília.
Ah! Três retinas pousadas
em ver, em ver contemplando
(ser, será o esquecimento
de quanto somos - pensando?).
987
Lois Pereiro
Somentes
Somentes
intentaba conseguir
deixar na terra
algo de min que me sobrevivise
sabendo que deberia ter sabido
impedirme a min mesmo
descubrir que só fun un interludio
atroz entre dous muros de silencio
só puiden evitar vivindo á sombra
inocularlle para sempre a quen amaba
doses letais do amor que envelenaba
a súa alma cunha dor eterna
sustituíndo o desexo polo exilio
iniciei a viaxe sen retorno
deixándome levar sen resistencia
ó fondo dunha interna
aniquilación chea de nostalxia.
intentaba conseguir
deixar na terra
algo de min que me sobrevivise
sabendo que deberia ter sabido
impedirme a min mesmo
descubrir que só fun un interludio
atroz entre dous muros de silencio
só puiden evitar vivindo á sombra
inocularlle para sempre a quen amaba
doses letais do amor que envelenaba
a súa alma cunha dor eterna
sustituíndo o desexo polo exilio
iniciei a viaxe sen retorno
deixándome levar sen resistencia
ó fondo dunha interna
aniquilación chea de nostalxia.
1 232
Lois Pereiro
Somentes
Somentes
intentaba conseguir
deixar na terra
algo de min que me sobrevivise
sabendo que deberia ter sabido
impedirme a min mesmo
descubrir que só fun un interludio
atroz entre dous muros de silencio
só puiden evitar vivindo á sombra
inocularlle para sempre a quen amaba
doses letais do amor que envelenaba
a súa alma cunha dor eterna
sustituíndo o desexo polo exilio
iniciei a viaxe sen retorno
deixándome levar sen resistencia
ó fondo dunha interna
aniquilación chea de nostalxia.
intentaba conseguir
deixar na terra
algo de min que me sobrevivise
sabendo que deberia ter sabido
impedirme a min mesmo
descubrir que só fun un interludio
atroz entre dous muros de silencio
só puiden evitar vivindo á sombra
inocularlle para sempre a quen amaba
doses letais do amor que envelenaba
a súa alma cunha dor eterna
sustituíndo o desexo polo exilio
iniciei a viaxe sen retorno
deixándome levar sen resistencia
ó fondo dunha interna
aniquilación chea de nostalxia.
1 232
Lois Pereiro
Luz e sombras de amor resucitado
Tristemente convivo coa túa ausencia
sobrevivo á distancia que nos nega
mentres bordeo a fronteira entre dous mundos
sen decidir cal deles pode darme
a calma que me esixo para amarte
sen sufrir pola túa indiferencia
a miña retirada preventiva
dunha batalla que xa sei perdida
resolto a non entrar xamais en ti
pero non á tortura de evitarte.
sobrevivo á distancia que nos nega
mentres bordeo a fronteira entre dous mundos
sen decidir cal deles pode darme
a calma que me esixo para amarte
sen sufrir pola túa indiferencia
a miña retirada preventiva
dunha batalla que xa sei perdida
resolto a non entrar xamais en ti
pero non á tortura de evitarte.
1 317
Lois Pereiro
Luz e sombras de amor resucitado
Tristemente convivo coa túa ausencia
sobrevivo á distancia que nos nega
mentres bordeo a fronteira entre dous mundos
sen decidir cal deles pode darme
a calma que me esixo para amarte
sen sufrir pola túa indiferencia
a miña retirada preventiva
dunha batalla que xa sei perdida
resolto a non entrar xamais en ti
pero non á tortura de evitarte.
sobrevivo á distancia que nos nega
mentres bordeo a fronteira entre dous mundos
sen decidir cal deles pode darme
a calma que me esixo para amarte
sen sufrir pola túa indiferencia
a miña retirada preventiva
dunha batalla que xa sei perdida
resolto a non entrar xamais en ti
pero non á tortura de evitarte.
1 317
Leónidas Lamborghini
Falando sozinho
Como aquele que vai falando
sozinho
pela rua
tratando de se entender
a cidade em seu hospício.
Como aquele que está
confessando
sua angústia a outro
e esse outro
é ele mesmo
andando pela rua.
a cidade em seu hospício.
Como aquele que sem saber
vai caminhando
entre as pessoas
e faz estranhos gestos
a este outro
que é ele mesmo
a cidade em seu hospício.
Como aquele que vai de uma esquina
à outra
caminha e fala sozinho
porque trata de se entender
com este outro
que é ele mesmo
como esse
como esse
a cidade em seu hospício.
sozinho
pela rua
tratando de se entender
a cidade em seu hospício.
Como aquele que está
confessando
sua angústia a outro
e esse outro
é ele mesmo
andando pela rua.
a cidade em seu hospício.
Como aquele que sem saber
vai caminhando
entre as pessoas
e faz estranhos gestos
a este outro
que é ele mesmo
a cidade em seu hospício.
Como aquele que vai de uma esquina
à outra
caminha e fala sozinho
porque trata de se entender
com este outro
que é ele mesmo
como esse
como esse
a cidade em seu hospício.
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