Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Jonas da Silva
Coração
Meu coração é um velho alpendre em cuja
Sombra se escuta pela noite morta
o som de um passo e o gonzo de uma porta
Que a umidade dos tempos enferruja.
Quem vai passando pela estrada torta
Que leva ao alpendre, dessa estrada fuja!
Lá só se encontra a fúnebre coruja
E a Dor, que a prece ao caminhando exorta.
Se um dia abrindo o casarão sombrio
Um abrigo buscasses contra o frio
E entrasses, doce criatura langue,
Fugirias tremente vendo a um lado
A Crença morta, o Sonho estrangulado
E o cadáver do Amor banhado em sangue!
Sombra se escuta pela noite morta
o som de um passo e o gonzo de uma porta
Que a umidade dos tempos enferruja.
Quem vai passando pela estrada torta
Que leva ao alpendre, dessa estrada fuja!
Lá só se encontra a fúnebre coruja
E a Dor, que a prece ao caminhando exorta.
Se um dia abrindo o casarão sombrio
Um abrigo buscasses contra o frio
E entrasses, doce criatura langue,
Fugirias tremente vendo a um lado
A Crença morta, o Sonho estrangulado
E o cadáver do Amor banhado em sangue!
1 823
Jonas da Silva
Coração
Meu coração é um velho alpendre em cuja
Sombra se escuta pela noite morta
o som de um passo e o gonzo de uma porta
Que a umidade dos tempos enferruja.
Quem vai passando pela estrada torta
Que leva ao alpendre, dessa estrada fuja!
Lá só se encontra a fúnebre coruja
E a Dor, que a prece ao caminhando exorta.
Se um dia abrindo o casarão sombrio
Um abrigo buscasses contra o frio
E entrasses, doce criatura langue,
Fugirias tremente vendo a um lado
A Crença morta, o Sonho estrangulado
E o cadáver do Amor banhado em sangue!
Sombra se escuta pela noite morta
o som de um passo e o gonzo de uma porta
Que a umidade dos tempos enferruja.
Quem vai passando pela estrada torta
Que leva ao alpendre, dessa estrada fuja!
Lá só se encontra a fúnebre coruja
E a Dor, que a prece ao caminhando exorta.
Se um dia abrindo o casarão sombrio
Um abrigo buscasses contra o frio
E entrasses, doce criatura langue,
Fugirias tremente vendo a um lado
A Crença morta, o Sonho estrangulado
E o cadáver do Amor banhado em sangue!
1 823
Madi
Um Dia
Um Dia
Eu pedi um dia
E um dia é tanto tempo que não da nem pra contar
Um dia pode demorar horas, meses, anos...
Custa a passar
Um dia, por si só, soa o distante, o quase inatingível
Um dia é tão indefinido que tanto pode estar muito perto
como pode estar muito longe
Demore ou não a chegar, não importa
Um dia é o fim da espera derradeira
E se é para esperar por esse beijo eu espero
a minha vida inteira
Eu pedi um dia
E um dia é tanto tempo que não da nem pra contar
Um dia pode demorar horas, meses, anos...
Custa a passar
Um dia, por si só, soa o distante, o quase inatingível
Um dia é tão indefinido que tanto pode estar muito perto
como pode estar muito longe
Demore ou não a chegar, não importa
Um dia é o fim da espera derradeira
E se é para esperar por esse beijo eu espero
a minha vida inteira
878
Madi
Um Dia
Um Dia
Eu pedi um dia
E um dia é tanto tempo que não da nem pra contar
Um dia pode demorar horas, meses, anos...
Custa a passar
Um dia, por si só, soa o distante, o quase inatingível
Um dia é tão indefinido que tanto pode estar muito perto
como pode estar muito longe
Demore ou não a chegar, não importa
Um dia é o fim da espera derradeira
E se é para esperar por esse beijo eu espero
a minha vida inteira
Eu pedi um dia
E um dia é tanto tempo que não da nem pra contar
Um dia pode demorar horas, meses, anos...
Custa a passar
Um dia, por si só, soa o distante, o quase inatingível
Um dia é tão indefinido que tanto pode estar muito perto
como pode estar muito longe
Demore ou não a chegar, não importa
Um dia é o fim da espera derradeira
E se é para esperar por esse beijo eu espero
a minha vida inteira
878
Madi
Louca
Louca
Se abro a porta da minha casa
e o convido a deitar em minha cama
não é que eu seja louca
É porque não é de hoje
que nela eu durmo com você todas as noites
Se abro a porta da minha casa
e o convido a deitar em minha cama
não é que eu seja louca
É porque não é de hoje
que nela eu durmo com você todas as noites
1 123
Madi
Louca
Louca
Se abro a porta da minha casa
e o convido a deitar em minha cama
não é que eu seja louca
É porque não é de hoje
que nela eu durmo com você todas as noites
Se abro a porta da minha casa
e o convido a deitar em minha cama
não é que eu seja louca
É porque não é de hoje
que nela eu durmo com você todas as noites
1 123
Madi
Eu sei
Eu sei
Toda mulher sabe os limites do seu amor
O meu é daqueles que parece não ter fim
Sobrevive a mares, tempestades, invernadas
e a longos períodos de estiagem
Toda mulher sabe os limites do seu amor
E o meu é daqueles que resiste à luz ou à escuridão,
à paz ou à guerra
Não é um amor resignado
É daqueles que a gente carrega anos e anos a fio e nem sente o fardo
Toda mulher sabe os limites do seu amor
O meu é daqueles que parece não ter fim
Sobrevive a mares, tempestades, invernadas
e a longos períodos de estiagem
Toda mulher sabe os limites do seu amor
E o meu é daqueles que resiste à luz ou à escuridão,
à paz ou à guerra
Não é um amor resignado
É daqueles que a gente carrega anos e anos a fio e nem sente o fardo
687
Leão Vasconcelos
In Solitudine
Quando o jardim se ensombra e a noite desce,
Deste fogo, que em vão julguei sepulto,
Sinto que a extinta chama reaparece...
E o incenso em espirais sobe a teu culto...
Desde que vi o teu sereno vulto
Vivo assim, de mãos postas, numa prece!
Mas enquanto por ti anseio e exulto,
— Teu corpo — imenso lírio — alto, floresce...
Passaste em tua glória e não me viste.
E hoje até mesmo do meu ser prescindo
Para rever-te o olhar sereno e triste.
E por te desejar numa ânsia louca,
À noite sonho que tu vens sorrindo
Povoar de beijos minha fria boca...
Deste fogo, que em vão julguei sepulto,
Sinto que a extinta chama reaparece...
E o incenso em espirais sobe a teu culto...
Desde que vi o teu sereno vulto
Vivo assim, de mãos postas, numa prece!
Mas enquanto por ti anseio e exulto,
— Teu corpo — imenso lírio — alto, floresce...
Passaste em tua glória e não me viste.
E hoje até mesmo do meu ser prescindo
Para rever-te o olhar sereno e triste.
E por te desejar numa ânsia louca,
À noite sonho que tu vens sorrindo
Povoar de beijos minha fria boca...
878
Leão Vasconcelos
In Solitudine
Quando o jardim se ensombra e a noite desce,
Deste fogo, que em vão julguei sepulto,
Sinto que a extinta chama reaparece...
E o incenso em espirais sobe a teu culto...
Desde que vi o teu sereno vulto
Vivo assim, de mãos postas, numa prece!
Mas enquanto por ti anseio e exulto,
— Teu corpo — imenso lírio — alto, floresce...
Passaste em tua glória e não me viste.
E hoje até mesmo do meu ser prescindo
Para rever-te o olhar sereno e triste.
E por te desejar numa ânsia louca,
À noite sonho que tu vens sorrindo
Povoar de beijos minha fria boca...
Deste fogo, que em vão julguei sepulto,
Sinto que a extinta chama reaparece...
E o incenso em espirais sobe a teu culto...
Desde que vi o teu sereno vulto
Vivo assim, de mãos postas, numa prece!
Mas enquanto por ti anseio e exulto,
— Teu corpo — imenso lírio — alto, floresce...
Passaste em tua glória e não me viste.
E hoje até mesmo do meu ser prescindo
Para rever-te o olhar sereno e triste.
E por te desejar numa ânsia louca,
À noite sonho que tu vens sorrindo
Povoar de beijos minha fria boca...
878
Leal de Souza
A Dama de Luto
Entre as musas e ao som das liras, na negrura
Das vestes retratando a dor a que está presa,
Sob o teto feliz da glória e da beleza,
Encontrei, linda e grave, essa nobre figura...
Em seu lábio o ouro vibra e, olente, a voz fulgura,
E sua alma, em clarões espirituais acesa,
Põe, como halos de sombra, auréolas de tristeza
A cabeça pagã da imortal formosura.
Dela, que o agro pesar consola a quem a aviste,
—Fora do mundo, além da vida, sob a Terra,
Na escura paz da morte o bem mais alto existe.
E porque eu meço o horror de suas mágoas, — erra
O meu vulto espectral de cavaleiro triste,
Nas paisagens cristãs que o seu olhar encerra.
Das vestes retratando a dor a que está presa,
Sob o teto feliz da glória e da beleza,
Encontrei, linda e grave, essa nobre figura...
Em seu lábio o ouro vibra e, olente, a voz fulgura,
E sua alma, em clarões espirituais acesa,
Põe, como halos de sombra, auréolas de tristeza
A cabeça pagã da imortal formosura.
Dela, que o agro pesar consola a quem a aviste,
—Fora do mundo, além da vida, sob a Terra,
Na escura paz da morte o bem mais alto existe.
E porque eu meço o horror de suas mágoas, — erra
O meu vulto espectral de cavaleiro triste,
Nas paisagens cristãs que o seu olhar encerra.
771
Moranno Portela
Homem Moderno
Teus olhos míopes
ouvem a notícia do mundo;
teus ouvidos moucos
vêem o oco do mundo;
teu olfato cúpido
devora as fezes do mundo;
teu parvo paladar
aspira a essência do nada
e reténs, em tuas mãos vazias,
essa pacífica e tenebrosa
ilusão de realidade.
ouvem a notícia do mundo;
teus ouvidos moucos
vêem o oco do mundo;
teu olfato cúpido
devora as fezes do mundo;
teu parvo paladar
aspira a essência do nada
e reténs, em tuas mãos vazias,
essa pacífica e tenebrosa
ilusão de realidade.
821
Madi
Procuro
Procuro
Da janela eu procuro um ponto
Procuro sua direção e não vejo
Meus olhos atravessam os postes,
os muros, as ruas,
vazam as fibras, os vidros, os prédios
Mas minha vista não te alcança
Para que lado fica a minha vida?
As luzes de longe são pequeninas
e através delas nada de ti eu avisto
Elas não me apontam os campos
E os campos alheios que me habitam
são sempre os mais belos
Da janela eu procuro um ponto
Procuro sua direção e não vejo
Meus olhos atravessam os postes,
os muros, as ruas,
vazam as fibras, os vidros, os prédios
Mas minha vista não te alcança
Para que lado fica a minha vida?
As luzes de longe são pequeninas
e através delas nada de ti eu avisto
Elas não me apontam os campos
E os campos alheios que me habitam
são sempre os mais belos
904
Madi
Procuro
Procuro
Da janela eu procuro um ponto
Procuro sua direção e não vejo
Meus olhos atravessam os postes,
os muros, as ruas,
vazam as fibras, os vidros, os prédios
Mas minha vista não te alcança
Para que lado fica a minha vida?
As luzes de longe são pequeninas
e através delas nada de ti eu avisto
Elas não me apontam os campos
E os campos alheios que me habitam
são sempre os mais belos
Da janela eu procuro um ponto
Procuro sua direção e não vejo
Meus olhos atravessam os postes,
os muros, as ruas,
vazam as fibras, os vidros, os prédios
Mas minha vista não te alcança
Para que lado fica a minha vida?
As luzes de longe são pequeninas
e através delas nada de ti eu avisto
Elas não me apontam os campos
E os campos alheios que me habitam
são sempre os mais belos
904
João Quental
Os Salmões
Olhos que pela primeira vez vêm: uma sala
onde sempre estiveram, encontrar perdida
entre montinhos de lixo e poeira uma fotografia
vender um carro usado amar uma mulher feia
ser fiel a um apartamento à beira-mar tudo o que
já tantas vezes foi feito refeito novamente feito
mansardas onde os mortos se encontram nos corredores
virei e comprarei mais um lote de sentimentos normais.
Encontrar uma mulher feia perdida no meio de um montinho
de fronhas e lençóis, vender um apartamento usado, amar
à visão de um carro encostado à beira-mar tudo isso são
novos motivos novas chances sítios distantes onde nada
acontece de verdade onde manchas castanhas sob os olhos
nada são além de cansaço, hora carmesim
dias vulgares o sol depositando pequeninas faces de perfil
duas peles insensíveis no alto das árvores.
Encontrei-me, olhos que olham, feio enroscado na cama
de algum apartamento à beira dágua com um carro
de segunda-mão encostado ao meio-fio movendo noites
pelo apalpar, a carne cede claro
sempre sede, encontrar um dia inteiro com você
uma navegação entre cachoeiras, proporções
estranhas de uma máxima realidade tudo
o que te menospreza.
Dias de fascínio, dias em que não mais
é ridículo falar de ti, lembrar os mortos
observar o que for quando for
o desovar infeliz, pobres salmões nostálgicos.
(1988)
onde sempre estiveram, encontrar perdida
entre montinhos de lixo e poeira uma fotografia
vender um carro usado amar uma mulher feia
ser fiel a um apartamento à beira-mar tudo o que
já tantas vezes foi feito refeito novamente feito
mansardas onde os mortos se encontram nos corredores
virei e comprarei mais um lote de sentimentos normais.
Encontrar uma mulher feia perdida no meio de um montinho
de fronhas e lençóis, vender um apartamento usado, amar
à visão de um carro encostado à beira-mar tudo isso são
novos motivos novas chances sítios distantes onde nada
acontece de verdade onde manchas castanhas sob os olhos
nada são além de cansaço, hora carmesim
dias vulgares o sol depositando pequeninas faces de perfil
duas peles insensíveis no alto das árvores.
Encontrei-me, olhos que olham, feio enroscado na cama
de algum apartamento à beira dágua com um carro
de segunda-mão encostado ao meio-fio movendo noites
pelo apalpar, a carne cede claro
sempre sede, encontrar um dia inteiro com você
uma navegação entre cachoeiras, proporções
estranhas de uma máxima realidade tudo
o que te menospreza.
Dias de fascínio, dias em que não mais
é ridículo falar de ti, lembrar os mortos
observar o que for quando for
o desovar infeliz, pobres salmões nostálgicos.
(1988)
854
Madi
Vitrines
Vitrines
Tudo que vejo nas vitrines
se parece com você
Prendas simples ou sofisticadas
ambas têm a sua cara
Tudo é mais do que perfeito
e sob medida parece que foi feito
Namoro as vitrines,
mas não encontro nelas o que mais quero
Você e o seu amor não estão à venda
Tudo que vejo nas vitrines
se parece com você
Prendas simples ou sofisticadas
ambas têm a sua cara
Tudo é mais do que perfeito
e sob medida parece que foi feito
Namoro as vitrines,
mas não encontro nelas o que mais quero
Você e o seu amor não estão à venda
725
Madi
Se eu pudesse
Se eu pudesse
Ah! se eu pudesse...
Se eu pudesse,
eu faria das nossas vidas uma festa
Arrumaria um tempo para cuidar de flores
As flores eu mesma colhia
só para te presentear todo dia
Se eu pudesse,
eu seria a primeira a abrir a porta
Só para te ver chegar,
entrar,
sentar,
me olhar
e sorrir
Ah! se eu pudesse...
Se eu pudesse,
eu faria das nossas vidas uma festa
Arrumaria um tempo para cuidar de flores
As flores eu mesma colhia
só para te presentear todo dia
Se eu pudesse,
eu seria a primeira a abrir a porta
Só para te ver chegar,
entrar,
sentar,
me olhar
e sorrir
1 045
Madi
Vai Embora
Vai Embora
Quando o amor vai embora
o coração aperta e fica de luto
Fica partido
Fica estreito
e dói
Na hora, os olhos quedam
E mesmo assim nada adianta,
nada impede, nada segura o amor
quando quer ir embora
O amor vai
e nunca mais volta
Foi cedo
Passada a dor,
olhos e coração ficam secos
Depois disso,
aprende-se a amar que é uma beleza
Quando o amor vai embora
o coração aperta e fica de luto
Fica partido
Fica estreito
e dói
Na hora, os olhos quedam
E mesmo assim nada adianta,
nada impede, nada segura o amor
quando quer ir embora
O amor vai
e nunca mais volta
Foi cedo
Passada a dor,
olhos e coração ficam secos
Depois disso,
aprende-se a amar que é uma beleza
919
Madi
Vai Embora
Vai Embora
Quando o amor vai embora
o coração aperta e fica de luto
Fica partido
Fica estreito
e dói
Na hora, os olhos quedam
E mesmo assim nada adianta,
nada impede, nada segura o amor
quando quer ir embora
O amor vai
e nunca mais volta
Foi cedo
Passada a dor,
olhos e coração ficam secos
Depois disso,
aprende-se a amar que é uma beleza
Quando o amor vai embora
o coração aperta e fica de luto
Fica partido
Fica estreito
e dói
Na hora, os olhos quedam
E mesmo assim nada adianta,
nada impede, nada segura o amor
quando quer ir embora
O amor vai
e nunca mais volta
Foi cedo
Passada a dor,
olhos e coração ficam secos
Depois disso,
aprende-se a amar que é uma beleza
919
Mário Linhares
Festim Romano
Festim romano. Nero assiste, repoltreado
Lassamente no toro ebúrneo em que se inclina,
Ao deboche brutal das heteras e, a um lado,
Canta uma escrava ao som de uma gusla em surdina.
Aos acentos febris de uma ária fescenina,
Requebrando os quadris em lúbrico bailado,
As cortesãs, em coro, a taça cristalina
Erguem, em brinde à Carne e apoteose ao Pecado.
Referve a orgia... E Nero, às vibrações da lira,
Canta obscena canção e, no esto em que delira,
O vinho, em fogo, inflama o seu rosto sangüíneo.
E Popéia, saudando o imperador de Roma,
Entre as aclamações dos convivas, assoma,
Ébria e nua, a tombar de triclínio em triclínio.
Lassamente no toro ebúrneo em que se inclina,
Ao deboche brutal das heteras e, a um lado,
Canta uma escrava ao som de uma gusla em surdina.
Aos acentos febris de uma ária fescenina,
Requebrando os quadris em lúbrico bailado,
As cortesãs, em coro, a taça cristalina
Erguem, em brinde à Carne e apoteose ao Pecado.
Referve a orgia... E Nero, às vibrações da lira,
Canta obscena canção e, no esto em que delira,
O vinho, em fogo, inflama o seu rosto sangüíneo.
E Popéia, saudando o imperador de Roma,
Entre as aclamações dos convivas, assoma,
Ébria e nua, a tombar de triclínio em triclínio.
843
Luis Fernando Verissimo
Declaração de Amor
Declaração de Amor
Tentei dizer quanto te amava, aquela vez, baixinho
mas havia um grande berreiro, um enorme burburinho
e, pensado bem, o berçário não era o melhor lugar.
Você de fraldas, uma graça, e eu pelado lado a lado,
cada um recém-chegado você em saber ouvir, eu sem saber
falar.
Tentei de novo, lembro bem, na escola.
Um PS no bilhete pedindo cola interceptado pela
professora como um gavião.
Fui parar na sala da diretora e dpois na rua
enquanto você, compreensivelmente, ficou na sua.
A vida é curta, longa é a paixão.
Numa festinha, ah, nossas festinhas, disse tudo:
Eu te adoro, te venero, na tua frente fico mudo
E você não disse nada. E você não disse nada.
Só mais tarde, de resaca, atinei.
Cheio de amor e Cuba, me enganei e disse tudo para uma
almofada.
Gravei, em vinte árvores, quarenta corações.
O teu nome, o meu, flechas e palapitações:
No mal-me-quer, bem-me quer, dizimei jardins.
Resultado: sou persona pouco grata corrido a gritos de
Mata! Mata! por conservacionistas, ecólogos e afins.
Recorri, em desespero, ao gesto obsoleto:
Se não me segurarem faço um soneto
E não é que fiz, e até com boas rimas?
Você não leu, e nem sequer ficou sabendo.
Continuo inédito e por teu amor sofrendo
Mas fui premiado num concurso em Minas.
Comecei a escrever com pincel e piche num muro branco, o
asseio que se lixe, todo o meu amor para a tua ciência.
Fui preso, aos socos, e fichado.
Dias e mais dias interrogado: era PC
Tentei dizer quanto te amava, aquela vez, baixinho
mas havia um grande berreiro, um enorme burburinho
e, pensado bem, o berçário não era o melhor lugar.
Você de fraldas, uma graça, e eu pelado lado a lado,
cada um recém-chegado você em saber ouvir, eu sem saber
falar.
Tentei de novo, lembro bem, na escola.
Um PS no bilhete pedindo cola interceptado pela
professora como um gavião.
Fui parar na sala da diretora e dpois na rua
enquanto você, compreensivelmente, ficou na sua.
A vida é curta, longa é a paixão.
Numa festinha, ah, nossas festinhas, disse tudo:
Eu te adoro, te venero, na tua frente fico mudo
E você não disse nada. E você não disse nada.
Só mais tarde, de resaca, atinei.
Cheio de amor e Cuba, me enganei e disse tudo para uma
almofada.
Gravei, em vinte árvores, quarenta corações.
O teu nome, o meu, flechas e palapitações:
No mal-me-quer, bem-me quer, dizimei jardins.
Resultado: sou persona pouco grata corrido a gritos de
Mata! Mata! por conservacionistas, ecólogos e afins.
Recorri, em desespero, ao gesto obsoleto:
Se não me segurarem faço um soneto
E não é que fiz, e até com boas rimas?
Você não leu, e nem sequer ficou sabendo.
Continuo inédito e por teu amor sofrendo
Mas fui premiado num concurso em Minas.
Comecei a escrever com pincel e piche num muro branco, o
asseio que se lixe, todo o meu amor para a tua ciência.
Fui preso, aos socos, e fichado.
Dias e mais dias interrogado: era PC
2 957
Madi
Ontem
Ontem
Ontem, tu me perguntastes — tal qual um adolescente —
se eu não tinha feito para você nenhum poema
Não escrevi para você, meu amor, o menor poema,
mas fiz mais do que isso
Mais do que escrever versos,
tirei os dois últimos dias apenas para pensar em ti
Maior do que todos os poemas que já te dei
foram as horas desses dias
que passei sonhando acordada
com o seu corpo sobre o meu,
com a sua boca sobre a minha,
com o toque suave da sua mão
entre as minhas coxas
e com todas as juras
que me faz jurar esse amor
Com a ausência, senti sua falta
e gastei meus dias com essas delicadezas
Só a sua presença poderia superar essa mesura,
porque nem mesmo um conto inteiro que eu fizesse
seria capaz de substituir tamanha ternura
A divagação desses dias
foi além de todas as palavras
cabíveis em um poema
És maior do que os versos
que eu possa vir a escrever
Por que, então, me perguntastes
se para você eu sou capaz de fazer a vida
quanto mais um poema?
Ontem, tu me perguntastes — tal qual um adolescente —
se eu não tinha feito para você nenhum poema
Não escrevi para você, meu amor, o menor poema,
mas fiz mais do que isso
Mais do que escrever versos,
tirei os dois últimos dias apenas para pensar em ti
Maior do que todos os poemas que já te dei
foram as horas desses dias
que passei sonhando acordada
com o seu corpo sobre o meu,
com a sua boca sobre a minha,
com o toque suave da sua mão
entre as minhas coxas
e com todas as juras
que me faz jurar esse amor
Com a ausência, senti sua falta
e gastei meus dias com essas delicadezas
Só a sua presença poderia superar essa mesura,
porque nem mesmo um conto inteiro que eu fizesse
seria capaz de substituir tamanha ternura
A divagação desses dias
foi além de todas as palavras
cabíveis em um poema
És maior do que os versos
que eu possa vir a escrever
Por que, então, me perguntastes
se para você eu sou capaz de fazer a vida
quanto mais um poema?
802
Madi
Ontem
Ontem
Ontem, tu me perguntastes — tal qual um adolescente —
se eu não tinha feito para você nenhum poema
Não escrevi para você, meu amor, o menor poema,
mas fiz mais do que isso
Mais do que escrever versos,
tirei os dois últimos dias apenas para pensar em ti
Maior do que todos os poemas que já te dei
foram as horas desses dias
que passei sonhando acordada
com o seu corpo sobre o meu,
com a sua boca sobre a minha,
com o toque suave da sua mão
entre as minhas coxas
e com todas as juras
que me faz jurar esse amor
Com a ausência, senti sua falta
e gastei meus dias com essas delicadezas
Só a sua presença poderia superar essa mesura,
porque nem mesmo um conto inteiro que eu fizesse
seria capaz de substituir tamanha ternura
A divagação desses dias
foi além de todas as palavras
cabíveis em um poema
És maior do que os versos
que eu possa vir a escrever
Por que, então, me perguntastes
se para você eu sou capaz de fazer a vida
quanto mais um poema?
Ontem, tu me perguntastes — tal qual um adolescente —
se eu não tinha feito para você nenhum poema
Não escrevi para você, meu amor, o menor poema,
mas fiz mais do que isso
Mais do que escrever versos,
tirei os dois últimos dias apenas para pensar em ti
Maior do que todos os poemas que já te dei
foram as horas desses dias
que passei sonhando acordada
com o seu corpo sobre o meu,
com a sua boca sobre a minha,
com o toque suave da sua mão
entre as minhas coxas
e com todas as juras
que me faz jurar esse amor
Com a ausência, senti sua falta
e gastei meus dias com essas delicadezas
Só a sua presença poderia superar essa mesura,
porque nem mesmo um conto inteiro que eu fizesse
seria capaz de substituir tamanha ternura
A divagação desses dias
foi além de todas as palavras
cabíveis em um poema
És maior do que os versos
que eu possa vir a escrever
Por que, então, me perguntastes
se para você eu sou capaz de fazer a vida
quanto mais um poema?
802