Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Adail Coelho Maia
Segundo a Bíblia
Diz a Bíblia que o nosso Criador
Fez o mundo em seis dias, simplesmente,
Deus criou Adão, puro, inocente,
Para exaltar as glórias do Senhor.
Vendo Adão tanta luz, tanto esplendor,
Uma idéia fatal lhe veio à mente:
— Pedir um companheiro ao Onipotente,
Para gozar de tudo igual favor!
E Eva lá se vem, e Adão vencido,
Foi levado a um pomar, por entre trevas,
Para comer de um fruto proibido!
E por castigo eterno ao crime bruto,
O pomar inda existe, e novas Evas,
Com a mesma história do maldito fruto!...
Fez o mundo em seis dias, simplesmente,
Deus criou Adão, puro, inocente,
Para exaltar as glórias do Senhor.
Vendo Adão tanta luz, tanto esplendor,
Uma idéia fatal lhe veio à mente:
— Pedir um companheiro ao Onipotente,
Para gozar de tudo igual favor!
E Eva lá se vem, e Adão vencido,
Foi levado a um pomar, por entre trevas,
Para comer de um fruto proibido!
E por castigo eterno ao crime bruto,
O pomar inda existe, e novas Evas,
Com a mesma história do maldito fruto!...
1 068
Walter Queiroz
Formação
Nem pétala nem pano
corpo
embora rosa
breve
sopro
resiste à cruz
e vive
nem posse nem plano
sonho
embora sombra
queda
o caos
evola em verde
canta
nem arma nem arte
sentido
embora pasmo
amplo
e alvo
inventa a ponte
passa
nem torna nem tarda
noturna
embora estrela
nova
dalva
assume a cruz
e sangra
nem luto nem lírio
cicatriz
embora marca
funda
e grave
explode em grito
batalha
corpo
embora rosa
breve
sopro
resiste à cruz
e vive
nem posse nem plano
sonho
embora sombra
queda
o caos
evola em verde
canta
nem arma nem arte
sentido
embora pasmo
amplo
e alvo
inventa a ponte
passa
nem torna nem tarda
noturna
embora estrela
nova
dalva
assume a cruz
e sangra
nem luto nem lírio
cicatriz
embora marca
funda
e grave
explode em grito
batalha
880
Ymah Théres
Sonata
Ao Poeta Francisco Carvalho
O corpo - presilha verde
na rede da vida imersa
pouco a pouco se dissipa
dos loucos búzios, dos mares.
Vira um lago, uma enseada
em que os espelhos transmigram
o corpo - corpo bebido
de veneno, morte lenta.
O corpo - metade breve
de arlequinadas memórias
nos mastros ocres da angústia
na devassa de ilusão.
Irmão vencido na guerra
das horas por sobre as horas
dos anos idos, dos vindos
o corpo - flor decepada.
Da haste, um relógio-pênsil
que se alteia e se debruça
nos movediços da argila
o corpo - ferida aberta.
Bola de neve que o tempo
brinca brinca de escurar
jasmim que perde seu viço
o corpo - luz que se apaga.
Dos imos do coração
uma canção que trescala
o corpo, breve que passa
no arranho da solidão.
O corpo - presilha verde
na rede da vida imersa
pouco a pouco se dissipa
dos loucos búzios, dos mares.
Vira um lago, uma enseada
em que os espelhos transmigram
o corpo - corpo bebido
de veneno, morte lenta.
O corpo - metade breve
de arlequinadas memórias
nos mastros ocres da angústia
na devassa de ilusão.
Irmão vencido na guerra
das horas por sobre as horas
dos anos idos, dos vindos
o corpo - flor decepada.
Da haste, um relógio-pênsil
que se alteia e se debruça
nos movediços da argila
o corpo - ferida aberta.
Bola de neve que o tempo
brinca brinca de escurar
jasmim que perde seu viço
o corpo - luz que se apaga.
Dos imos do coração
uma canção que trescala
o corpo, breve que passa
no arranho da solidão.
925
Alcides Freitas
Hamlet
Não sei que estranha dor meu peito dilacera,
Que esquisito negror meu espírito ensombra!
Tenho sorrisos de anjo e arreganhes de fera,
Sinto chamas de inferno e frescuras de alfombra!
Sou malvado e sou bom! Minhalma ora é sincera,
ora de ser traidora ela própria se assombra!
Que clamores de inverno e paz de primavera!...
Escarneço da morte e temo a minha sombra!
Nervo a nervo, a vibrar, misteriosa e vaga,
Anda-me o corpo todo a nevrose de um tédio,
Que dos pés à cabeça atrozmente me alaga...
Onde um recurso ao mal que me banha e transborda?
Minha dor é sem fim! Eu só tenho um remédio:
o suicídio — uma bala... um punhal... uma corda!...
Que esquisito negror meu espírito ensombra!
Tenho sorrisos de anjo e arreganhes de fera,
Sinto chamas de inferno e frescuras de alfombra!
Sou malvado e sou bom! Minhalma ora é sincera,
ora de ser traidora ela própria se assombra!
Que clamores de inverno e paz de primavera!...
Escarneço da morte e temo a minha sombra!
Nervo a nervo, a vibrar, misteriosa e vaga,
Anda-me o corpo todo a nevrose de um tédio,
Que dos pés à cabeça atrozmente me alaga...
Onde um recurso ao mal que me banha e transborda?
Minha dor é sem fim! Eu só tenho um remédio:
o suicídio — uma bala... um punhal... uma corda!...
866
Alcides Freitas
Hamlet
Não sei que estranha dor meu peito dilacera,
Que esquisito negror meu espírito ensombra!
Tenho sorrisos de anjo e arreganhes de fera,
Sinto chamas de inferno e frescuras de alfombra!
Sou malvado e sou bom! Minhalma ora é sincera,
ora de ser traidora ela própria se assombra!
Que clamores de inverno e paz de primavera!...
Escarneço da morte e temo a minha sombra!
Nervo a nervo, a vibrar, misteriosa e vaga,
Anda-me o corpo todo a nevrose de um tédio,
Que dos pés à cabeça atrozmente me alaga...
Onde um recurso ao mal que me banha e transborda?
Minha dor é sem fim! Eu só tenho um remédio:
o suicídio — uma bala... um punhal... uma corda!...
Que esquisito negror meu espírito ensombra!
Tenho sorrisos de anjo e arreganhes de fera,
Sinto chamas de inferno e frescuras de alfombra!
Sou malvado e sou bom! Minhalma ora é sincera,
ora de ser traidora ela própria se assombra!
Que clamores de inverno e paz de primavera!...
Escarneço da morte e temo a minha sombra!
Nervo a nervo, a vibrar, misteriosa e vaga,
Anda-me o corpo todo a nevrose de um tédio,
Que dos pés à cabeça atrozmente me alaga...
Onde um recurso ao mal que me banha e transborda?
Minha dor é sem fim! Eu só tenho um remédio:
o suicídio — uma bala... um punhal... uma corda!...
866
Alcides Freitas
Hamlet
Não sei que estranha dor meu peito dilacera,
Que esquisito negror meu espírito ensombra!
Tenho sorrisos de anjo e arreganhes de fera,
Sinto chamas de inferno e frescuras de alfombra!
Sou malvado e sou bom! Minhalma ora é sincera,
ora de ser traidora ela própria se assombra!
Que clamores de inverno e paz de primavera!...
Escarneço da morte e temo a minha sombra!
Nervo a nervo, a vibrar, misteriosa e vaga,
Anda-me o corpo todo a nevrose de um tédio,
Que dos pés à cabeça atrozmente me alaga...
Onde um recurso ao mal que me banha e transborda?
Minha dor é sem fim! Eu só tenho um remédio:
o suicídio — uma bala... um punhal... uma corda!...
Que esquisito negror meu espírito ensombra!
Tenho sorrisos de anjo e arreganhes de fera,
Sinto chamas de inferno e frescuras de alfombra!
Sou malvado e sou bom! Minhalma ora é sincera,
ora de ser traidora ela própria se assombra!
Que clamores de inverno e paz de primavera!...
Escarneço da morte e temo a minha sombra!
Nervo a nervo, a vibrar, misteriosa e vaga,
Anda-me o corpo todo a nevrose de um tédio,
Que dos pés à cabeça atrozmente me alaga...
Onde um recurso ao mal que me banha e transborda?
Minha dor é sem fim! Eu só tenho um remédio:
o suicídio — uma bala... um punhal... uma corda!...
866
Weydson Barros Leal
O Que
o que nos vem
e o que deixamos;
o que nunca encontra
o que eternamente
é par,
o lar;
a comunhão;
o que nos é pedido
e o que nos leva;
o que damos;
o que precisamos;
o que é busca;
o que somente
nos procura;
o que ninguém concede;
o caminho;
o laço;
a cama;
o que lutamos
pelas mãos;
o que desperdiçamos;
o que nos é dado escrever;
o sonho
e o acontecimento;
o homem que ama;
os danos e o benfazejo;
o lucro;
a perda;
a falta;
o jogo;
o amor;
a flecha
e o conto;
a ficção;
os pés;
(a solidão);
o relógio;
a morte;
a música e a vela;
o ventre;o vão;a paixão;
o que queremos;
o que quer;
o que vivemos;
o que vive;
o orgasmo;
a espera;
a água;
a esperança ...
e o que deixamos;
o que nunca encontra
o que eternamente
é par,
o lar;
a comunhão;
o que nos é pedido
e o que nos leva;
o que damos;
o que precisamos;
o que é busca;
o que somente
nos procura;
o que ninguém concede;
o caminho;
o laço;
a cama;
o que lutamos
pelas mãos;
o que desperdiçamos;
o que nos é dado escrever;
o sonho
e o acontecimento;
o homem que ama;
os danos e o benfazejo;
o lucro;
a perda;
a falta;
o jogo;
o amor;
a flecha
e o conto;
a ficção;
os pés;
(a solidão);
o relógio;
a morte;
a música e a vela;
o ventre;o vão;a paixão;
o que queremos;
o que quer;
o que vivemos;
o que vive;
o orgasmo;
a espera;
a água;
a esperança ...
883
Weydson Barros Leal
O Que
o que nos vem
e o que deixamos;
o que nunca encontra
o que eternamente
é par,
o lar;
a comunhão;
o que nos é pedido
e o que nos leva;
o que damos;
o que precisamos;
o que é busca;
o que somente
nos procura;
o que ninguém concede;
o caminho;
o laço;
a cama;
o que lutamos
pelas mãos;
o que desperdiçamos;
o que nos é dado escrever;
o sonho
e o acontecimento;
o homem que ama;
os danos e o benfazejo;
o lucro;
a perda;
a falta;
o jogo;
o amor;
a flecha
e o conto;
a ficção;
os pés;
(a solidão);
o relógio;
a morte;
a música e a vela;
o ventre;o vão;a paixão;
o que queremos;
o que quer;
o que vivemos;
o que vive;
o orgasmo;
a espera;
a água;
a esperança ...
e o que deixamos;
o que nunca encontra
o que eternamente
é par,
o lar;
a comunhão;
o que nos é pedido
e o que nos leva;
o que damos;
o que precisamos;
o que é busca;
o que somente
nos procura;
o que ninguém concede;
o caminho;
o laço;
a cama;
o que lutamos
pelas mãos;
o que desperdiçamos;
o que nos é dado escrever;
o sonho
e o acontecimento;
o homem que ama;
os danos e o benfazejo;
o lucro;
a perda;
a falta;
o jogo;
o amor;
a flecha
e o conto;
a ficção;
os pés;
(a solidão);
o relógio;
a morte;
a música e a vela;
o ventre;o vão;a paixão;
o que queremos;
o que quer;
o que vivemos;
o que vive;
o orgasmo;
a espera;
a água;
a esperança ...
883
Adriana Abdenur
Pátria
Pátria
Era pequenininha. Bebia no leite de minha mãe
os resquícios de sua nostalgia,
e à noite, embriagada, chorava de saudades
de uma terra que tampouco conhecia.
Cresci fabricando números para contar a nossa distância:
falava de léguas e de nós, de jardas infinitas.
Vivia uma vida centrífuga em torno do teu turbilhão,
fazendo de conta que meu eixo
era mais que uma ilusão.
Falava em voltar sem jamais ter ido,
fingindo que te pertencia.
Via teu rosto imprimido
nos jornais da tarde, nos cartões postais, e ria:
-- Vou morar lá um dia, eu dizia.
Mas a vida fez-se ao meu redor,
e ancorou-me no lado de fora.
Vivo agora com a angústia de saber
que a saudade que não se mata
tampouco vai-se embora.
Vejo-me de casa feita e filha no colo.
Sei que lhe passo no leite sedes mais atrozes
do que aquela que sacio:
a vontade de relembrar
um passado ainda vazio,
e a saudade que nos persegue
por esta vida no exílio.
Era pequenininha. Bebia no leite de minha mãe
os resquícios de sua nostalgia,
e à noite, embriagada, chorava de saudades
de uma terra que tampouco conhecia.
Cresci fabricando números para contar a nossa distância:
falava de léguas e de nós, de jardas infinitas.
Vivia uma vida centrífuga em torno do teu turbilhão,
fazendo de conta que meu eixo
era mais que uma ilusão.
Falava em voltar sem jamais ter ido,
fingindo que te pertencia.
Via teu rosto imprimido
nos jornais da tarde, nos cartões postais, e ria:
-- Vou morar lá um dia, eu dizia.
Mas a vida fez-se ao meu redor,
e ancorou-me no lado de fora.
Vivo agora com a angústia de saber
que a saudade que não se mata
tampouco vai-se embora.
Vejo-me de casa feita e filha no colo.
Sei que lhe passo no leite sedes mais atrozes
do que aquela que sacio:
a vontade de relembrar
um passado ainda vazio,
e a saudade que nos persegue
por esta vida no exílio.
1 042
Viviane Gehlen
Amor
Amor
No vazio da solidão,
a busca de uma palavra,
qualquer palavra....
No meio de tantas palavras
uma soa mais forte....
No meio de tantas vozes
uma ressoa no coração....
palavras que descrevem sentimentos
emoções
sonhos
Palavras, tantas
se cruzando
se encontrando
se confundindo
Depois uma voz
dizendo palavras
doces
suaves
amargas
tristes
sentimentais
emocionais
Sonhos compartilhados
dores divididas
solidão preenchida
Depois um corpo
olhos
boca
mãos
O toque
o beijo
a sensação
o sabor
o cheiro
a realização
Planos para o futuro
o futuro ao alcance da mão
Felicidade....
No vazio da solidão,
a busca de uma palavra,
qualquer palavra....
No meio de tantas palavras
uma soa mais forte....
No meio de tantas vozes
uma ressoa no coração....
palavras que descrevem sentimentos
emoções
sonhos
Palavras, tantas
se cruzando
se encontrando
se confundindo
Depois uma voz
dizendo palavras
doces
suaves
amargas
tristes
sentimentais
emocionais
Sonhos compartilhados
dores divididas
solidão preenchida
Depois um corpo
olhos
boca
mãos
O toque
o beijo
a sensação
o sabor
o cheiro
a realização
Planos para o futuro
o futuro ao alcance da mão
Felicidade....
810
Viviane Gehlen
Amor
Amor
No vazio da solidão,
a busca de uma palavra,
qualquer palavra....
No meio de tantas palavras
uma soa mais forte....
No meio de tantas vozes
uma ressoa no coração....
palavras que descrevem sentimentos
emoções
sonhos
Palavras, tantas
se cruzando
se encontrando
se confundindo
Depois uma voz
dizendo palavras
doces
suaves
amargas
tristes
sentimentais
emocionais
Sonhos compartilhados
dores divididas
solidão preenchida
Depois um corpo
olhos
boca
mãos
O toque
o beijo
a sensação
o sabor
o cheiro
a realização
Planos para o futuro
o futuro ao alcance da mão
Felicidade....
No vazio da solidão,
a busca de uma palavra,
qualquer palavra....
No meio de tantas palavras
uma soa mais forte....
No meio de tantas vozes
uma ressoa no coração....
palavras que descrevem sentimentos
emoções
sonhos
Palavras, tantas
se cruzando
se encontrando
se confundindo
Depois uma voz
dizendo palavras
doces
suaves
amargas
tristes
sentimentais
emocionais
Sonhos compartilhados
dores divididas
solidão preenchida
Depois um corpo
olhos
boca
mãos
O toque
o beijo
a sensação
o sabor
o cheiro
a realização
Planos para o futuro
o futuro ao alcance da mão
Felicidade....
810
Viviane Gehlen
Amor
Amor
No vazio da solidão,
a busca de uma palavra,
qualquer palavra....
No meio de tantas palavras
uma soa mais forte....
No meio de tantas vozes
uma ressoa no coração....
palavras que descrevem sentimentos
emoções
sonhos
Palavras, tantas
se cruzando
se encontrando
se confundindo
Depois uma voz
dizendo palavras
doces
suaves
amargas
tristes
sentimentais
emocionais
Sonhos compartilhados
dores divididas
solidão preenchida
Depois um corpo
olhos
boca
mãos
O toque
o beijo
a sensação
o sabor
o cheiro
a realização
Planos para o futuro
o futuro ao alcance da mão
Felicidade....
No vazio da solidão,
a busca de uma palavra,
qualquer palavra....
No meio de tantas palavras
uma soa mais forte....
No meio de tantas vozes
uma ressoa no coração....
palavras que descrevem sentimentos
emoções
sonhos
Palavras, tantas
se cruzando
se encontrando
se confundindo
Depois uma voz
dizendo palavras
doces
suaves
amargas
tristes
sentimentais
emocionais
Sonhos compartilhados
dores divididas
solidão preenchida
Depois um corpo
olhos
boca
mãos
O toque
o beijo
a sensação
o sabor
o cheiro
a realização
Planos para o futuro
o futuro ao alcance da mão
Felicidade....
810
Waldy Sombra
Meu Chão, Minha Canção
Chão dos meus avós e dos meus pais!
Chão do meu nascimento e
da minha infância!
Quis a neurose cearense da peregrinação
que eu me afastasse de ti,
mas, qual árvore arrancada,
levei nas raízes
o massapê das tuas várzeas.
Nasceste, limoeiro, Terra minha,
do abraço molhado de dois rios
num parênteses de amor.
Por isso, decerto, o feitiço
que exerces sobre os teus filhos.
Em mim, operas o milagre da transfiguração,
porque és força,
és vida,
és canção.
Basta-me pensar em ti,
para que me transporte à felicidade.
Vejo-me, então, pelo terreiro da Gangorra,
chispando no meu cavalo-de-talo,
fogoso, olhos faiscantes
de cacos de garrafa...
No cavalete de, mulungu, sinto-me artista,
e desafio espumas, balseiros e funis
do Riacho Seco e do Banabuiú
nos anos de águas grandes.
Enternece-me
a doce cantilena do bê-a-bá e da tabuada
da escola de Maria Sombra,
e chega-me
o vibrante tropel,
o baralhador ritmado do Cavalo Preto do meu pai.
Vêm-me aos ouvidos as vozes da várzea,
com o vento vespertino Aracati,
farfalhando palhas, varrendo tudo
e debulhando cachos de carnaúba madura.
Surgem-me, iluminadas,
as hóstias de zinco dos cata-ventos
da ilha do meu avó Zé Sombra
zunindo, zunindo,
puxando água, puxando água,
para a sede das bananeiras.
Subo à torre da Matriz,
escondido de Deolindo,
puxo a corda do sino e
encho de badaladas
a luz branca e morna da manhã.
Na saudade, a alegria da Noite de Festas!
Mastigo os cavalos-de-broa e as fogosas
de João Jaguaribe,
os tijolinhos e mariolas de Eugeninho,
bebo aluá de milho
do pote suado
debaixo da tamarineira
de Maria Pernambucana
e rezo, enfim, minha gulodice
num rosário-de-catolé
em frente ao portão grande do Mercado.
Apoteoticamente lá vem desfilando
a Banda de Música do Maestro Odílio,
com as zabumbadas dos bombos
de João de Carminha
e Antônio Rapadura
— Tum-dum ... tum-dum.. tum-dum ... —
marcando o festivo compasso
do meu coração.
Que outra terra, que outra gente
me trariam de volta
esses sons,
essas imagens?
Por isso e por muito mais,
Limoeiro, tu és para mim
o chão mais valioso do mundo!
Chão dos meus avós e dos meus pais!
Chão do meu nascimento e da minha infância!
Chão que, um dia, me receberá
para o último sono.
Chão do meu nascimento e
da minha infância!
Quis a neurose cearense da peregrinação
que eu me afastasse de ti,
mas, qual árvore arrancada,
levei nas raízes
o massapê das tuas várzeas.
Nasceste, limoeiro, Terra minha,
do abraço molhado de dois rios
num parênteses de amor.
Por isso, decerto, o feitiço
que exerces sobre os teus filhos.
Em mim, operas o milagre da transfiguração,
porque és força,
és vida,
és canção.
Basta-me pensar em ti,
para que me transporte à felicidade.
Vejo-me, então, pelo terreiro da Gangorra,
chispando no meu cavalo-de-talo,
fogoso, olhos faiscantes
de cacos de garrafa...
No cavalete de, mulungu, sinto-me artista,
e desafio espumas, balseiros e funis
do Riacho Seco e do Banabuiú
nos anos de águas grandes.
Enternece-me
a doce cantilena do bê-a-bá e da tabuada
da escola de Maria Sombra,
e chega-me
o vibrante tropel,
o baralhador ritmado do Cavalo Preto do meu pai.
Vêm-me aos ouvidos as vozes da várzea,
com o vento vespertino Aracati,
farfalhando palhas, varrendo tudo
e debulhando cachos de carnaúba madura.
Surgem-me, iluminadas,
as hóstias de zinco dos cata-ventos
da ilha do meu avó Zé Sombra
zunindo, zunindo,
puxando água, puxando água,
para a sede das bananeiras.
Subo à torre da Matriz,
escondido de Deolindo,
puxo a corda do sino e
encho de badaladas
a luz branca e morna da manhã.
Na saudade, a alegria da Noite de Festas!
Mastigo os cavalos-de-broa e as fogosas
de João Jaguaribe,
os tijolinhos e mariolas de Eugeninho,
bebo aluá de milho
do pote suado
debaixo da tamarineira
de Maria Pernambucana
e rezo, enfim, minha gulodice
num rosário-de-catolé
em frente ao portão grande do Mercado.
Apoteoticamente lá vem desfilando
a Banda de Música do Maestro Odílio,
com as zabumbadas dos bombos
de João de Carminha
e Antônio Rapadura
— Tum-dum ... tum-dum.. tum-dum ... —
marcando o festivo compasso
do meu coração.
Que outra terra, que outra gente
me trariam de volta
esses sons,
essas imagens?
Por isso e por muito mais,
Limoeiro, tu és para mim
o chão mais valioso do mundo!
Chão dos meus avós e dos meus pais!
Chão do meu nascimento e da minha infância!
Chão que, um dia, me receberá
para o último sono.
475
Alcides Freitas
O Bambu
Exposto ao dia, à noite, à beira da lagoa,
Onde se miram, rindo, as boninas do prado,
Vive um velho bambu, velho, curvo e delgado,
A escutar a canção que o triste vento entoa...
Jamais os leves pés de um trovador alado,
Desses que pela mata andam cantando à toa,
Pousara-lhe num ramo! Apenas o povoa
Alta noite, agourento, um corujão rajado...
E vive, — arcaico monge a gemer solitário, —
A sua dor sem fim, o seu viver mortuário,
Tristonho a refletir no fundo azul das águas...
Como o bambu da mata, exposto ao sol e ao vento,
Do deserto sem fim de meu padecimento,
Triste nos olhos teus reflito as minhas mágoas!...
Onde se miram, rindo, as boninas do prado,
Vive um velho bambu, velho, curvo e delgado,
A escutar a canção que o triste vento entoa...
Jamais os leves pés de um trovador alado,
Desses que pela mata andam cantando à toa,
Pousara-lhe num ramo! Apenas o povoa
Alta noite, agourento, um corujão rajado...
E vive, — arcaico monge a gemer solitário, —
A sua dor sem fim, o seu viver mortuário,
Tristonho a refletir no fundo azul das águas...
Como o bambu da mata, exposto ao sol e ao vento,
Do deserto sem fim de meu padecimento,
Triste nos olhos teus reflito as minhas mágoas!...
1 898
Alcides Freitas
O Bambu
Exposto ao dia, à noite, à beira da lagoa,
Onde se miram, rindo, as boninas do prado,
Vive um velho bambu, velho, curvo e delgado,
A escutar a canção que o triste vento entoa...
Jamais os leves pés de um trovador alado,
Desses que pela mata andam cantando à toa,
Pousara-lhe num ramo! Apenas o povoa
Alta noite, agourento, um corujão rajado...
E vive, — arcaico monge a gemer solitário, —
A sua dor sem fim, o seu viver mortuário,
Tristonho a refletir no fundo azul das águas...
Como o bambu da mata, exposto ao sol e ao vento,
Do deserto sem fim de meu padecimento,
Triste nos olhos teus reflito as minhas mágoas!...
Onde se miram, rindo, as boninas do prado,
Vive um velho bambu, velho, curvo e delgado,
A escutar a canção que o triste vento entoa...
Jamais os leves pés de um trovador alado,
Desses que pela mata andam cantando à toa,
Pousara-lhe num ramo! Apenas o povoa
Alta noite, agourento, um corujão rajado...
E vive, — arcaico monge a gemer solitário, —
A sua dor sem fim, o seu viver mortuário,
Tristonho a refletir no fundo azul das águas...
Como o bambu da mata, exposto ao sol e ao vento,
Do deserto sem fim de meu padecimento,
Triste nos olhos teus reflito as minhas mágoas!...
1 898
Alcides Freitas
O Bambu
Exposto ao dia, à noite, à beira da lagoa,
Onde se miram, rindo, as boninas do prado,
Vive um velho bambu, velho, curvo e delgado,
A escutar a canção que o triste vento entoa...
Jamais os leves pés de um trovador alado,
Desses que pela mata andam cantando à toa,
Pousara-lhe num ramo! Apenas o povoa
Alta noite, agourento, um corujão rajado...
E vive, — arcaico monge a gemer solitário, —
A sua dor sem fim, o seu viver mortuário,
Tristonho a refletir no fundo azul das águas...
Como o bambu da mata, exposto ao sol e ao vento,
Do deserto sem fim de meu padecimento,
Triste nos olhos teus reflito as minhas mágoas!...
Onde se miram, rindo, as boninas do prado,
Vive um velho bambu, velho, curvo e delgado,
A escutar a canção que o triste vento entoa...
Jamais os leves pés de um trovador alado,
Desses que pela mata andam cantando à toa,
Pousara-lhe num ramo! Apenas o povoa
Alta noite, agourento, um corujão rajado...
E vive, — arcaico monge a gemer solitário, —
A sua dor sem fim, o seu viver mortuário,
Tristonho a refletir no fundo azul das águas...
Como o bambu da mata, exposto ao sol e ao vento,
Do deserto sem fim de meu padecimento,
Triste nos olhos teus reflito as minhas mágoas!...
1 898
Xavier de Carvalho
O Sino de São Pantaleão
Em minha terra, o sino mais sentido,
o mais triste de todo o Maranhão,
é o grande sino, há muito erguido
da velha e secular São Pantaleão...
Todo enterro ali passa... E ele dorido,
vendo-os passar, soluça na amplidão...
E é tão forte e é tão fundo o seu gemido
que a todos espedaça o coração!
Eu avalio a mágoa desse dobre,
quando meu velho Pai, vida tão nobre,
diante da Igreja, em seu caixão passou...
O sino gemeu tanto, nesse dia,
que, eu de tão longe, ouvi, na alma vazia,
os dolorosos ais que ele dobrou!
o mais triste de todo o Maranhão,
é o grande sino, há muito erguido
da velha e secular São Pantaleão...
Todo enterro ali passa... E ele dorido,
vendo-os passar, soluça na amplidão...
E é tão forte e é tão fundo o seu gemido
que a todos espedaça o coração!
Eu avalio a mágoa desse dobre,
quando meu velho Pai, vida tão nobre,
diante da Igreja, em seu caixão passou...
O sino gemeu tanto, nesse dia,
que, eu de tão longe, ouvi, na alma vazia,
os dolorosos ais que ele dobrou!
1 092
Antônio de Godói
Místico
Lua, noiva do azul, Verônica sombria,
Sobe à igreja do Céu para o eterno noivado...
Amplo e curvo cintila o espaço iluminado
Como um pálio de luz em funeral ao dia.
Tem volúpias o luar que roça à noite a fria
Face... Profano ser, feito para o Pecado,
Eu não posso beijar o teu rosto sagrado,
Santo, como, talvez, o rosto de Maria...
Deus as pálpebras fecha e fica a noite escura;
Sombras descem à terra e a noite doce e calma
Enche o peito de amor e põe sossego na alma.
Ah! se deres um beijo em minha boca impura,
Por glórias contarei os beijos que me deres,
Bela Nossa Senhora entre as outras mulheres...
Sobe à igreja do Céu para o eterno noivado...
Amplo e curvo cintila o espaço iluminado
Como um pálio de luz em funeral ao dia.
Tem volúpias o luar que roça à noite a fria
Face... Profano ser, feito para o Pecado,
Eu não posso beijar o teu rosto sagrado,
Santo, como, talvez, o rosto de Maria...
Deus as pálpebras fecha e fica a noite escura;
Sombras descem à terra e a noite doce e calma
Enche o peito de amor e põe sossego na alma.
Ah! se deres um beijo em minha boca impura,
Por glórias contarei os beijos que me deres,
Bela Nossa Senhora entre as outras mulheres...
829
Américo Facó
Os Sátiros
De corpos nus, por entre a espessa mata, o bando
Dos Sátiros se interna em constante procura:
Ora um se adianta, além, na intrincada espessura,
E ora outro mais se afasta — olhos fitos, buscando...
Esse, que tem no lábio o rubescente e brando
E esplêndido frescor de uma fruta madura,
Abre o lábio a sorrir... Vendo aquele a frescura
De uma corrente, bebe a água que vai rolando...
Soa ao longe um rumor! o ardente bando, à espreita,
Aquieta-se. E por fim, loiras, nuas, aflantes;
Vêm as Ninfas, a rir, descuidosas, sem vê-los...
E os Sátiros, que à sombra esperavam na estreita
Passagem, de repente erguem-se, — e os mais amantes
As prendem, lhes cingindo a cintura e os cabelos...
Dos Sátiros se interna em constante procura:
Ora um se adianta, além, na intrincada espessura,
E ora outro mais se afasta — olhos fitos, buscando...
Esse, que tem no lábio o rubescente e brando
E esplêndido frescor de uma fruta madura,
Abre o lábio a sorrir... Vendo aquele a frescura
De uma corrente, bebe a água que vai rolando...
Soa ao longe um rumor! o ardente bando, à espreita,
Aquieta-se. E por fim, loiras, nuas, aflantes;
Vêm as Ninfas, a rir, descuidosas, sem vê-los...
E os Sátiros, que à sombra esperavam na estreita
Passagem, de repente erguem-se, — e os mais amantes
As prendem, lhes cingindo a cintura e os cabelos...
1 420
Xavier de Carvalho
Flores do palco
Quando ela os braços, em feitiços, alça
Em forma de arco se mexendo toda
Numa alegria franca, nada falsa,
Em risadas e oulos, semi-douda;
Ou mais ainda quando, em sons de valsa,
Ela ergue as saias como exige a moda
Para mostrar a rendilhada calça
Que sob a renda as coxas lhe acomoda;
Tremente de volúpia todo o povo,
Que assim a vê, obriga-a ali de novo
A cantar e a dançar de novo a obriga...
E ela acede... e, em maior desenvoltura,
Redobra de furor mostrando a altura
onde nas coxas ela aperta a liga!
Em forma de arco se mexendo toda
Numa alegria franca, nada falsa,
Em risadas e oulos, semi-douda;
Ou mais ainda quando, em sons de valsa,
Ela ergue as saias como exige a moda
Para mostrar a rendilhada calça
Que sob a renda as coxas lhe acomoda;
Tremente de volúpia todo o povo,
Que assim a vê, obriga-a ali de novo
A cantar e a dançar de novo a obriga...
E ela acede... e, em maior desenvoltura,
Redobra de furor mostrando a altura
onde nas coxas ela aperta a liga!
1 107
Xavier de Carvalho
Flores do palco
Quando ela os braços, em feitiços, alça
Em forma de arco se mexendo toda
Numa alegria franca, nada falsa,
Em risadas e oulos, semi-douda;
Ou mais ainda quando, em sons de valsa,
Ela ergue as saias como exige a moda
Para mostrar a rendilhada calça
Que sob a renda as coxas lhe acomoda;
Tremente de volúpia todo o povo,
Que assim a vê, obriga-a ali de novo
A cantar e a dançar de novo a obriga...
E ela acede... e, em maior desenvoltura,
Redobra de furor mostrando a altura
onde nas coxas ela aperta a liga!
Em forma de arco se mexendo toda
Numa alegria franca, nada falsa,
Em risadas e oulos, semi-douda;
Ou mais ainda quando, em sons de valsa,
Ela ergue as saias como exige a moda
Para mostrar a rendilhada calça
Que sob a renda as coxas lhe acomoda;
Tremente de volúpia todo o povo,
Que assim a vê, obriga-a ali de novo
A cantar e a dançar de novo a obriga...
E ela acede... e, em maior desenvoltura,
Redobra de furor mostrando a altura
onde nas coxas ela aperta a liga!
1 107
Carlos Vogt
Obsesssäo
Outra vez o poema sonâmbulo
o sonho do poeta outra vez
agora perto
os pés
näo a forma
a mesma
ardente lisa fugidia pronta:
um ângulo reto
uma estrela de sombras
um poema ao revés.
(1991)
o sonho do poeta outra vez
agora perto
os pés
näo a forma
a mesma
ardente lisa fugidia pronta:
um ângulo reto
uma estrela de sombras
um poema ao revés.
(1991)
1 153
Wanda Cristina
Poema do Ser Assim
Você precisa conhecer a solidão.
Ela é baixinha como eu,
e é magra, e é triste
e fuma todas as melancolias
que, um dia, alguém fumou.
E faz poesia em espírito gonçalvino,
e adentra o Modernismo sem saber inglês...
Já foi boêmia como Baudelaire,
e bebeu a multidão de um gole,
embriagando-se do perdido
pra nunca mais deixar de ser
a bêbada predileta
dos bares de todos os homens.
Você precisa conhecer a solidão.
....................................................
Ela é a consciência,
o abrigo, a chave de todas as portas
que guardam o segredo do SER ASSIM...
Ela nunca morreu em alguém,
antes desse alguém ter morrido.
Ela é baixinha como eu,
e é magra, e é triste
e fuma todas as melancolias
que, um dia, alguém fumou.
E faz poesia em espírito gonçalvino,
e adentra o Modernismo sem saber inglês...
Já foi boêmia como Baudelaire,
e bebeu a multidão de um gole,
embriagando-se do perdido
pra nunca mais deixar de ser
a bêbada predileta
dos bares de todos os homens.
Você precisa conhecer a solidão.
....................................................
Ela é a consciência,
o abrigo, a chave de todas as portas
que guardam o segredo do SER ASSIM...
Ela nunca morreu em alguém,
antes desse alguém ter morrido.
952
Wanda Cristina
Poema do Ser Assim
Você precisa conhecer a solidão.
Ela é baixinha como eu,
e é magra, e é triste
e fuma todas as melancolias
que, um dia, alguém fumou.
E faz poesia em espírito gonçalvino,
e adentra o Modernismo sem saber inglês...
Já foi boêmia como Baudelaire,
e bebeu a multidão de um gole,
embriagando-se do perdido
pra nunca mais deixar de ser
a bêbada predileta
dos bares de todos os homens.
Você precisa conhecer a solidão.
....................................................
Ela é a consciência,
o abrigo, a chave de todas as portas
que guardam o segredo do SER ASSIM...
Ela nunca morreu em alguém,
antes desse alguém ter morrido.
Ela é baixinha como eu,
e é magra, e é triste
e fuma todas as melancolias
que, um dia, alguém fumou.
E faz poesia em espírito gonçalvino,
e adentra o Modernismo sem saber inglês...
Já foi boêmia como Baudelaire,
e bebeu a multidão de um gole,
embriagando-se do perdido
pra nunca mais deixar de ser
a bêbada predileta
dos bares de todos os homens.
Você precisa conhecer a solidão.
....................................................
Ela é a consciência,
o abrigo, a chave de todas as portas
que guardam o segredo do SER ASSIM...
Ela nunca morreu em alguém,
antes desse alguém ter morrido.
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