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Poemas neste tema

Emoções e Sentimentos

Sidney Frattini

Sidney Frattini

Os Homens Especiais

Cada vez mais
me interessam menos
esses homens especiais,
com suas gravatas e bravatas,
esses arremedos de competência,
esses simulacros de sucesso,
esses pretensos dominadores do conhecimento.

Quem são, senão aqueles que pensam ser tudo?
Quem são, senão aqueles que pensam poder muito?
Quem são, senão aqueles que se julgam a salvo
de todo o maremoto que os rodeia,
apenas dispondo do recurso do remo?

Pensam enfrentar a borrasca à maneira dos
velhos curandeiros, que pensavam enfrentar as pestes
com suas danças e rituais.

Também eles, os homens especiais, cultivam seus rituais,
mas repelem com veemência qualquer menção a eles.

Estão imersos em fetiches - para viver precisam deles
com desespero e tentam manter uma dignidade espúria.

Assumem-se guerreiros. São apenas bardos.
Sabem-se entes mitológicos. São apenas obras de ficção.
Atribuem-se poderes miraculosos, oriundos da grande sapiência pragmática.
Estão nus, como o rei, mas julgam-se no mínimo vestidos de ouro e prata.

Sua vaidade ingênua é sintoma da pobreza real em que realmente se situam.

Perecerão e virarão pó, mas não julgam essa possibilidade.
Mesmo apenas pó, pensarão ser incenso com propriedades mágicas.
Serão apenas dispersos, mas julgar-se-ão as moléculas mais importantes.
Mas serão tão importantes quanto qualquer outra molécula.

Esquecerão a própria grandeza de ser iguais, porque, sendo parte
da natureza, não a considerarão.
Julgar-se-ão gigantes. Serão apenas duendes desprovidos de magia.

Serão, enfim, esquecidos.
Por isso, passam a vida tentando lembrar-se de si mesmos.
E merecerão pouco menos de, um dia, ter sido mencionados.

Terão, então, perdido a chance de ter olhado à própria volta e
enxergado o mundo como ele é. Porque se fecharam à vida
e principalmente a quem os rodeia, esses homens especiais...

783
Sidney Frattini

Sidney Frattini

Canto ao Homem do Povo, Drummond

I
(Não) Era preciso que, nem poeta, nem maior, porém um tanto exposto à galhofa, girando um pouco em tua atmosfera ou nela aspirando a viver como na poética e essencial atmosfera de sonhos translúcidos.
Era preciso que este pequeno cantor mudo, de ritmos inexistentes, vindo de lugar-nenhum, onde nem nunca se usa gravata, e raro alguém é polido, e a opressão é desestranha, e o heroísmo se banha, também, em ironia, era preciso que atual velho vinte-e-tantos-tombos, preso à tua "gauchice" por filamentos de ternura e vida, viesse ousar falar-te e, fruto imaturo, te visitasse para dizer-te alguns nadas, sobcolor de despoema.
Para dizer-te como os nós te amamos e que nisso, como em nada mais, nossa gente não se parece com qualquer gente do mundo - exclusive os que perderam bondes e esperanças, e voltam pálidos para casa, e cujos corpos transigem na confluência do amor, iludindo a brutalidade e a brutal idade, e que, secretamente, pronunciam tuas palavras de vida e sonho.
Bem sei que o discurso, acalanto freguês, não te esmorece, e esta tua vivência é tua entrevista aos hebdomadários. Não é a saudação dos entusiasmados que te ofereço. Eles existem, mas é a de gente comum em mundo incomum.
Nem faço muita questão da anti-matéria de meu canto, tão abaixo de ti, como uma letra mal sucedida, mandada por vida real ao escritor de todas as cartilhas.
Falam por mim sei quantos, sujos de inexpressåo e gente, levados a refletir, ainda que microssegundo, que te percorreram papel adentro e, em meio ao Palácio das Jóias, descobriram anéis que lhes serviam e se sentiram imensamente ricos.
Falam por mim os que simplesmente simples de coração nunca ouviram falar de ti, ou si, a não ser por adjetivos e nunca por eles mesmos, líricos ou cismarentos, irresponsáveis ou patéticos, cariciosos ou loucos, e os que não chegam a ser nada disso.
II
A noite dissolve os homens, e não te apaga, não, a visão.
A noite é mortal, mas já não o és, mesmo despido de fardões que não te caem bem, deselegante predestinado, condenado à Eternidade, independente de certidões.
Assim, perdida a sábia infância, acumulas a noite na calvície plena e adquires a dimensão do grande e o pedaço vital da trajetória.
E te fazes em frases.
E então sentimos a noite.
Não como trevas, mas como fonte natural de nostalgia e brisa, como se ao contato da tua mensagem voltássemos ao país secreto onde dormem meninos ambiciosos de soltar coisas ocultas no peito.
III
Vazio de sugestões alimentícias, matas a fome dos que foram (ou não) chamados à ceia celeste ou industrial. E notas na toalha da mesa, em plena janta, impurezas no branco - lição de coisas que a vida te ensinou.
IV
E agora, Carlos? Não sossegues.
Teus ombros suportam o mundo, embora tenhas apenas duas mãos e a poesia seja, definitivamente, incomunicável, teu verso é nossa consolação e cachaça.
Oitenta por cento de ferro nas almas e brejo e vontade de amar doem, e o tempo é matéria, definitivamente.
V
Fazendeiro aéreo, habilitado para a noite, carregas no bolso viola eternamente encordoada. És apenas um homem e teu presente inunda nossa vida inteira.
VI
No meio do caminho tinha uma retina que enxergava a pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento.
A pedra que ontem não vi hoje seria avalanche.
Ela repousa na vida, sem esconderijo, enxergada.
No meio do caminho tinha uma retina.
VII
E, ao contrário do que dizes, todos os meninos saltam de tua vida, a restaurar as suas.
Suspeitaste o velho em ti? Sabe o sábio que és, com tuas rugas e tua calva.
Foi bom que te expusésses: meditavas e meditávamos.
E tudo dizias... (ó palavras gastas, entretanto salvas, ditas de novo).
Poder de mais-que-humana voz, inventando novos caminhos, dando sopro aos exaustos; dignidade digna, amor profundo, crispação de ser humano, árvore firme ante desastres ecológicos, ó Carlos, meu e nosso amigo, tua vida e poesia FABRICAM a estrada de pó e esperança.

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Sidney Frattini

Sidney Frattini

Canto ao Homem do Povo, Drummond

I
(Não) Era preciso que, nem poeta, nem maior, porém um tanto exposto à galhofa, girando um pouco em tua atmosfera ou nela aspirando a viver como na poética e essencial atmosfera de sonhos translúcidos.
Era preciso que este pequeno cantor mudo, de ritmos inexistentes, vindo de lugar-nenhum, onde nem nunca se usa gravata, e raro alguém é polido, e a opressão é desestranha, e o heroísmo se banha, também, em ironia, era preciso que atual velho vinte-e-tantos-tombos, preso à tua "gauchice" por filamentos de ternura e vida, viesse ousar falar-te e, fruto imaturo, te visitasse para dizer-te alguns nadas, sobcolor de despoema.
Para dizer-te como os nós te amamos e que nisso, como em nada mais, nossa gente não se parece com qualquer gente do mundo - exclusive os que perderam bondes e esperanças, e voltam pálidos para casa, e cujos corpos transigem na confluência do amor, iludindo a brutalidade e a brutal idade, e que, secretamente, pronunciam tuas palavras de vida e sonho.
Bem sei que o discurso, acalanto freguês, não te esmorece, e esta tua vivência é tua entrevista aos hebdomadários. Não é a saudação dos entusiasmados que te ofereço. Eles existem, mas é a de gente comum em mundo incomum.
Nem faço muita questão da anti-matéria de meu canto, tão abaixo de ti, como uma letra mal sucedida, mandada por vida real ao escritor de todas as cartilhas.
Falam por mim sei quantos, sujos de inexpressåo e gente, levados a refletir, ainda que microssegundo, que te percorreram papel adentro e, em meio ao Palácio das Jóias, descobriram anéis que lhes serviam e se sentiram imensamente ricos.
Falam por mim os que simplesmente simples de coração nunca ouviram falar de ti, ou si, a não ser por adjetivos e nunca por eles mesmos, líricos ou cismarentos, irresponsáveis ou patéticos, cariciosos ou loucos, e os que não chegam a ser nada disso.
II
A noite dissolve os homens, e não te apaga, não, a visão.
A noite é mortal, mas já não o és, mesmo despido de fardões que não te caem bem, deselegante predestinado, condenado à Eternidade, independente de certidões.
Assim, perdida a sábia infância, acumulas a noite na calvície plena e adquires a dimensão do grande e o pedaço vital da trajetória.
E te fazes em frases.
E então sentimos a noite.
Não como trevas, mas como fonte natural de nostalgia e brisa, como se ao contato da tua mensagem voltássemos ao país secreto onde dormem meninos ambiciosos de soltar coisas ocultas no peito.
III
Vazio de sugestões alimentícias, matas a fome dos que foram (ou não) chamados à ceia celeste ou industrial. E notas na toalha da mesa, em plena janta, impurezas no branco - lição de coisas que a vida te ensinou.
IV
E agora, Carlos? Não sossegues.
Teus ombros suportam o mundo, embora tenhas apenas duas mãos e a poesia seja, definitivamente, incomunicável, teu verso é nossa consolação e cachaça.
Oitenta por cento de ferro nas almas e brejo e vontade de amar doem, e o tempo é matéria, definitivamente.
V
Fazendeiro aéreo, habilitado para a noite, carregas no bolso viola eternamente encordoada. És apenas um homem e teu presente inunda nossa vida inteira.
VI
No meio do caminho tinha uma retina que enxergava a pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento.
A pedra que ontem não vi hoje seria avalanche.
Ela repousa na vida, sem esconderijo, enxergada.
No meio do caminho tinha uma retina.
VII
E, ao contrário do que dizes, todos os meninos saltam de tua vida, a restaurar as suas.
Suspeitaste o velho em ti? Sabe o sábio que és, com tuas rugas e tua calva.
Foi bom que te expusésses: meditavas e meditávamos.
E tudo dizias... (ó palavras gastas, entretanto salvas, ditas de novo).
Poder de mais-que-humana voz, inventando novos caminhos, dando sopro aos exaustos; dignidade digna, amor profundo, crispação de ser humano, árvore firme ante desastres ecológicos, ó Carlos, meu e nosso amigo, tua vida e poesia FABRICAM a estrada de pó e esperança.

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Sidney Frattini

Sidney Frattini

Poemeto Natural

Cada vez mais
me interessam menos
esses homens especiais,
com suas gravatas e bravatas,
esses arremedos de competência,
esses simulacros de sucesso,
esses pretensos dominadores do conhecimento.

Quem são, senão aqueles que pensam ser tudo?
Quem são, senão aqueles que pensam poder muito?
Quem são, senão aqueles que se julgam a salvo
de todo o maremoto que os rodeia,
apenas dispondo do recurso do remo?

Pensam enfrentar a borrasca à maneira dos
velhos curandeiros, que pensavam enfrentar as pestes
com suas danças e rituais.

Também eles, os homens especiais, cultivam seus rituais,
mas repelem com veemência qualquer menção a eles.

Estão imersos em fetiches - para viver precisam deles
com desespero e tentam manter uma dignidade espúria.

Assumem-se guerreiros. São apenas bardos.
Sabem-se entes mitológicos. São apenas obras de ficção.
Atribuem-se poderes miraculosos, oriundos da grande sapiência pragmática.
Estão nus, como o rei, mas julgam-se no mínimo vestidos de ouro e prata.

Sua vaidade ingênua é sintoma da pobreza real em que realmente se situam.

Perecerão e virarão pó, mas não julgam essa possibilidade.
Mesmo apenas pó, pensarão ser incenso com propriedades mágicas.
Serão apenas dispersos, mas julgar-se-ão as moléculas mais importantes.
Mas serão tão importantes quanto qualquer outra molécula.

Esquecerão a própria grandeza de ser iguais, porque, sendo parte
da natureza, não a considerarão.
Julgar-se-ão gigantes. Serão apenas duendes desprovidos de magia.

Serão, enfim, esquecidos.
Por isso, passam a vida tentando lembrar-se de si mesmos.
E merecerão pouco menos de, um dia, ter sido mencionados.

Terão, então, perdido a chance de ter olhado à própria volta e
enxergado o mundo como ele é. Porque se fecharam à vida
e principalmente a quem os rodeia, esses homens especiais...

754
José Carlos Souza Santos

José Carlos Souza Santos

O Romanceiro

Vinte e quatro sóis
acesos no meu caminho

um grito coagulado
na fuga desperto
e debruçada nos meus olhos
caminhaste o filho da noite
inteiro

Vinte e quatro sóis
acesos dentro de mim

um grito assassinado
no peito
deflorando o sono da fuga
nas imaturas distâncias
onde perdido deixei
o cântaro último da fé

Penetrando nos meus olhos
violentaste o aviso
da proibida entrada
perambulando
como se fosse quarta-feira
e colhendo
numa primavera de sonhos
nos jardins do que fui
vinte e quatro sóis azuis
que sem saber
p´ra você eu guardei

Na avenida de cantos
renasceste do meu peito no teu mundo
pisando as pedras do meu caminho

e lançaste o pregão ao vento :

- Ele está renascido
estive lá dentro dele
e vi flores e prantos
e notas e dores
e cantos
nos recantos escondidos
de não mostrar a ninguém
fui estranha em ruelas sem passado
conseguindo o norte encontrar
depois de caminhos tantos

- Sim, eu sei, tu descobriste
o grito há tanto escondido

Nasci em tempo de festival
meu mundo incompreendido
tem notas que são espinhos
tem flores embrutecidas
rebentadas no meu peito
tem cantos são sentidos
que às vezes eu mesmo sinto
ter tão estranho nascido

- Estranho, nasceste sim
estranho cantor eu sei
na estranheza do teu canto
existe um outro encanto
embora não saibas qual seja
é o encanto das flores mutiladas
na fronteira dos teus olhos
é a fuga dos teus lenços
num cais já vazio
é o grito acorrentado
no alagado do teu peito

O teu encanto é o gemido guardado
e nunca soluçado
nas tuas mãos de poeta !

- Sim, eu sei, tu descobriste
o meu grito
de vinte e quatro sóis
amanhecidos no peito,
e sei que nos limites
do que sou
ou nas amarras do meu verso
como pomba artesã
na minha lira te encontro

- Poeta, o meu nome é infortúnio
somos pó na mesma estrada
e nem assim nos encontramos
somos água de um só rio
que não corre o mesmo leito
no teu peito a esperança
é terra já amanhada
no meu corre a solidão
na roca do meu sonhar

- Teu suspiro não assino
nem teu pranto faço meu
no tear da esperança
há um riso que se alcança
quando o linho dá um nó
há um vento que levanta
do passado o areal
e um sol que o sepulta
quando o fuso entristecido
faz da curva o seu caminho

- A esperança rebentada no meu peito
poeta
é uma flor desesperada,
traz no seio o escarlate
das visões de fome e guerra,
nas veias abertas o choro
de crianças abandonadas
das farpas que me protegem
emanam dores e gritos
não há roca nem esperança
p´ra quem vive de amanhar
choro, dor, lamento e pranto

- Infortúnio, Infortúnio,
não há poço sem um fundo
nem túnel sem uma luz
a corda não é sempre
do enforcado o colar
nem a semente fenece
sem antes dela brotar
o fruto, a flor e a sombra
e mesmo nas mãos vermelhas
das abelhas lívidas
há um néctar
de esperança a ser sugado

- Poeta ! sonhas e deliras
quando esperanças alardeia
desespero é o cavalo
ao qual me encilhei
as abelhas de que falas
aninhadas se encontram
no ventre das minhas aranhas
minhas flores enlouquecidas
giram ao redor de um fuso
sem linha no meu tear

- Donde vens Infortúnio !
onde as sombras
que te abrigam

- Venho de longe e de perto
do tempo sou viajante
nas canaletas da dor
fui Sabra, Chatilla,
Treblinka, Sorbibor

Quem me viu Sabra
conhece o amontoado das minhas
fugas
e a profundidade da angústia
revelada na aspereza dos meus
cactos
mas sabia quanto eu era terna
e doce

Quem me conheceu Chatilla
sabia-me flor nascida em lodo,
de mãos desarmadas,
e vivendo como uma rosa
pelo espaço de uma manhã

Quando Sabra e Chatilla fui
tive os braços levantados
e os gestos inconclusos
e me vejo ainda nas flores
rebentadas
no peito daquelas mulheres

Não procures Poeta
o insondável com teu verso desvendar
somos do mesmo caminho as
pedras
e nem assim nos conhecemos
somos da mesma luz a cor
e nem assim tu me iluminas

- Infortúnio, Infortúnio !
há mil anos nossas palavras são sussurradas
e encalacradas ao peito
sem ouvidos a ouvi-las
e dizer que a tua voz me é conhecida
como a serra que me teve em berço,
e dizer que sei teu nome
embora de Infortúnio não a chamasse
nos meus sonhos, rota e triste
te chamava Liberdade ... Liberdade

- Morto o tempo Poeta
em que Liberdade fui chamada,
antes aurora brilhante
houve vácuo, mais nada,
daquela imagem altiva a sombra
se apagou
nem o eco, da solidão o amante,
guardou os meus passos, na poeira
desandados

- Infortúnio ou Liberdade
em dor também me vi envolto
passou como um vendaval
destruiu, arrancou,
renasci sem o riso
insensível ao pranto
e, com uma estrela
incrustada no peito
me fiz poeta do esquecimento

Como a fênix
das cinzas renascida
esbocei levantar-me do desespero
tentando esquecer as mãos que se estenderam
para apagar as minhas estrelas

As minhas asas
dilatadas
se enfunavam de sonho e fantasia
e no alto do meu horizonte
um rosto vagava, diluído

Eras tu Liberdade,
a pomba órfã
voluntária e sozinha
voando contra o Levante,
as esquecidas asas
não voavam em meu caminho
e o vento, meu irmão,
aprendeu a criar sombras e
nuvens de não ver

- E eu que queria uma luz acender
no ventre das estrelas
enlouquecidas de sombras
contentei-me em apagar a chama
que por meu nome o peito ardia

Cimentada nos meus passos
trago viva a esperança
de no galope azul do vento
nos quatro cantos do mundo
o meu nome ecoar .
Invadindo os teus olhos
percebi a antiga chama
e no gemido guardado
e nunca soluçado nas tuas mãos
de poeta
aninho a esperança de brilhar
a minha luz

- Sim, eu sei, tu descobriste
o meu grito
de vinte e quatro sóis
amanhecidos no peito

1 147
José Carlos Souza Santos

José Carlos Souza Santos

O Romanceiro

Vinte e quatro sóis
acesos no meu caminho

um grito coagulado
na fuga desperto
e debruçada nos meus olhos
caminhaste o filho da noite
inteiro

Vinte e quatro sóis
acesos dentro de mim

um grito assassinado
no peito
deflorando o sono da fuga
nas imaturas distâncias
onde perdido deixei
o cântaro último da fé

Penetrando nos meus olhos
violentaste o aviso
da proibida entrada
perambulando
como se fosse quarta-feira
e colhendo
numa primavera de sonhos
nos jardins do que fui
vinte e quatro sóis azuis
que sem saber
p´ra você eu guardei

Na avenida de cantos
renasceste do meu peito no teu mundo
pisando as pedras do meu caminho

e lançaste o pregão ao vento :

- Ele está renascido
estive lá dentro dele
e vi flores e prantos
e notas e dores
e cantos
nos recantos escondidos
de não mostrar a ninguém
fui estranha em ruelas sem passado
conseguindo o norte encontrar
depois de caminhos tantos

- Sim, eu sei, tu descobriste
o grito há tanto escondido

Nasci em tempo de festival
meu mundo incompreendido
tem notas que são espinhos
tem flores embrutecidas
rebentadas no meu peito
tem cantos são sentidos
que às vezes eu mesmo sinto
ter tão estranho nascido

- Estranho, nasceste sim
estranho cantor eu sei
na estranheza do teu canto
existe um outro encanto
embora não saibas qual seja
é o encanto das flores mutiladas
na fronteira dos teus olhos
é a fuga dos teus lenços
num cais já vazio
é o grito acorrentado
no alagado do teu peito

O teu encanto é o gemido guardado
e nunca soluçado
nas tuas mãos de poeta !

- Sim, eu sei, tu descobriste
o meu grito
de vinte e quatro sóis
amanhecidos no peito,
e sei que nos limites
do que sou
ou nas amarras do meu verso
como pomba artesã
na minha lira te encontro

- Poeta, o meu nome é infortúnio
somos pó na mesma estrada
e nem assim nos encontramos
somos água de um só rio
que não corre o mesmo leito
no teu peito a esperança
é terra já amanhada
no meu corre a solidão
na roca do meu sonhar

- Teu suspiro não assino
nem teu pranto faço meu
no tear da esperança
há um riso que se alcança
quando o linho dá um nó
há um vento que levanta
do passado o areal
e um sol que o sepulta
quando o fuso entristecido
faz da curva o seu caminho

- A esperança rebentada no meu peito
poeta
é uma flor desesperada,
traz no seio o escarlate
das visões de fome e guerra,
nas veias abertas o choro
de crianças abandonadas
das farpas que me protegem
emanam dores e gritos
não há roca nem esperança
p´ra quem vive de amanhar
choro, dor, lamento e pranto

- Infortúnio, Infortúnio,
não há poço sem um fundo
nem túnel sem uma luz
a corda não é sempre
do enforcado o colar
nem a semente fenece
sem antes dela brotar
o fruto, a flor e a sombra
e mesmo nas mãos vermelhas
das abelhas lívidas
há um néctar
de esperança a ser sugado

- Poeta ! sonhas e deliras
quando esperanças alardeia
desespero é o cavalo
ao qual me encilhei
as abelhas de que falas
aninhadas se encontram
no ventre das minhas aranhas
minhas flores enlouquecidas
giram ao redor de um fuso
sem linha no meu tear

- Donde vens Infortúnio !
onde as sombras
que te abrigam

- Venho de longe e de perto
do tempo sou viajante
nas canaletas da dor
fui Sabra, Chatilla,
Treblinka, Sorbibor

Quem me viu Sabra
conhece o amontoado das minhas
fugas
e a profundidade da angústia
revelada na aspereza dos meus
cactos
mas sabia quanto eu era terna
e doce

Quem me conheceu Chatilla
sabia-me flor nascida em lodo,
de mãos desarmadas,
e vivendo como uma rosa
pelo espaço de uma manhã

Quando Sabra e Chatilla fui
tive os braços levantados
e os gestos inconclusos
e me vejo ainda nas flores
rebentadas
no peito daquelas mulheres

Não procures Poeta
o insondável com teu verso desvendar
somos do mesmo caminho as
pedras
e nem assim nos conhecemos
somos da mesma luz a cor
e nem assim tu me iluminas

- Infortúnio, Infortúnio !
há mil anos nossas palavras são sussurradas
e encalacradas ao peito
sem ouvidos a ouvi-las
e dizer que a tua voz me é conhecida
como a serra que me teve em berço,
e dizer que sei teu nome
embora de Infortúnio não a chamasse
nos meus sonhos, rota e triste
te chamava Liberdade ... Liberdade

- Morto o tempo Poeta
em que Liberdade fui chamada,
antes aurora brilhante
houve vácuo, mais nada,
daquela imagem altiva a sombra
se apagou
nem o eco, da solidão o amante,
guardou os meus passos, na poeira
desandados

- Infortúnio ou Liberdade
em dor também me vi envolto
passou como um vendaval
destruiu, arrancou,
renasci sem o riso
insensível ao pranto
e, com uma estrela
incrustada no peito
me fiz poeta do esquecimento

Como a fênix
das cinzas renascida
esbocei levantar-me do desespero
tentando esquecer as mãos que se estenderam
para apagar as minhas estrelas

As minhas asas
dilatadas
se enfunavam de sonho e fantasia
e no alto do meu horizonte
um rosto vagava, diluído

Eras tu Liberdade,
a pomba órfã
voluntária e sozinha
voando contra o Levante,
as esquecidas asas
não voavam em meu caminho
e o vento, meu irmão,
aprendeu a criar sombras e
nuvens de não ver

- E eu que queria uma luz acender
no ventre das estrelas
enlouquecidas de sombras
contentei-me em apagar a chama
que por meu nome o peito ardia

Cimentada nos meus passos
trago viva a esperança
de no galope azul do vento
nos quatro cantos do mundo
o meu nome ecoar .
Invadindo os teus olhos
percebi a antiga chama
e no gemido guardado
e nunca soluçado nas tuas mãos
de poeta
aninho a esperança de brilhar
a minha luz

- Sim, eu sei, tu descobriste
o meu grito
de vinte e quatro sóis
amanhecidos no peito

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