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Poemas neste tema

Emoções e Sentimentos

Domingos dos Reis Quita

Domingos dos Reis Quita

Tircéia

Idílio

Já lá sinto rugir das aveleiras
As buliçosas folhas; já escuto
Um rumor leve de sutis pisadas;
Entre as confusas ramas já diviso
Mover-se um vulto; se virá Tircéia!
Por mais que afirmo a vista não distingo.
Ora lá se encobria agora a Lua.
Mas, oh quanto desejo vão me engana?
Uma ovelha é perdida da manada;
Lá vai balando pelo vale abaixo.
Mas eu deliro, ou sonho? Que pondero?
Oh! quanto da saudade o golpe fero
Nos sentidos me oprime, e me confunde!
Eu não julgava agora, que este vale
Era aquele feliz e deleitoso,
Onde a minha pastora sempre espero?
Que esta sonora fonte, que murmura
Entre cheirosas flores e verdura,
Coberta de sombrios arvoredos,
Era aquele lugar, aonde a calma
Costumamos passar da ardente sesta?
Quem viu já fantasia mais confusa?
Oh poderoso amor, quanto me enleias!
Oh quem pisara agora os venturosos
Campos, que os resplendores luminosos
Dos olhos de Tircéia estão gozando!
Quem vira agora o seu formoso rosto!
Oh quem sequer ao menos escutara
Os conhecidos ladros, os balidos
De suas ovelhinhas e rafeiro!
Oh duras penhas, oh sombrios vales,
Que meus saudosos ais estais ouvindo!

Se agora aqueles belos olhos vísseis,
Por quem meu coração tanto suspira!
Veríeis de repente a roxa aurora
Verter o fresco orvalho sobre as flores;
Raiar o louro sol nos horizontes;
E enriquecer de luz os altos montes.
Parece-me, Tircéia, que te vejo
Deixar na fonte o cântaro vazio,
E na mais alta penha dessa praia
Subida estar os olhos estendendo,
Cheios de pranto para as altas serras,
Onde tão larga ausência estou chorando.
Que saudosa dali estás chamando:
"Alcino, Alcino, quem de mim te aparta?"
Parece-me que te ouço a voz magoada
Já de ingrato acusar-me, de esquecido;
Que vais depois ao vale suspirando,
E que ali muitas vezes estás lendo
Os amorosos versos, que nos troncos
Eu escrevi na amarga despedida.
Oh pastora mais firme do que os montes!
Mais amante, mais terna do que as rolas!
Mais perfeita, mais cândida e formosa,
Que a pura neve, que a vermelha rosa!
Só por ti, eu o juro a estas penhas,
Só por ti há de amor dentro em meu peito
Cravar as setas, acender as chamas.
Só por ti meus suspiros serão dados;
Só por ti chorarão de amor meus olhos:
Meus olhos, que por esses tão formosos
Agora estão chorando tão saudosos.

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Reynaldo Valinho Alvarez

Reynaldo Valinho Alvarez

Canto Em Si

1
Não busco outro caminho, cedo a calma
A angústia de lavrar no mesmo chão.

A pétrea consistência deste solo
Não dissolve meu ânimo, enlouquece
O que dentro de mim mais alto grita.

Nesta lavoura, a mão é o instrumento
Com que se abrir a terra e pene trá-la
Para entregar-lhe o amor de um a semente
Exposta ao tempo, a fungos e carunchos.

No arado não se pense, o chão se fecha
Ao fio agudo e firme, assim a enxada
Também se parte contra o solo duro
E apenas resta a ponta de meus dedos
Para feri-lo, amá-lo e fecundá-lo.

A par o som arranca ao rijo solo
E nada mais, que à concha, em cada mão,
Feita de pele, carne, nervo e sangue,
Cabe a tarefa e sol de revolvê-lo,
Suada, escalavrada, enegrecida,
Porto em que a terra é nau posta em abrigo.

A estas leiras, labrego, me transporto
A cada madrugada e delas volto
Para comer, se existe, a cada noite,
O pão que elas não deram por ser bruto
O chão e fraca a mão que dele trata,
Mas que insiste em cuidá-lo, porque o grão
E causa, muito mais que conseqüência...

2
Cansei de andar em busca do destino
E tranqüilo retraço meu caminho.

Para curar melancolias fundas,
Há sempre mais um hausto que permite
Viver um pouco mais, se é isto vida.

Ouço ainda o ruído das batalhas
Terminadas. Vencidas ou perdidas,
Foram batalhas de uma guerra santa
Em que ao nascer acaso me alistassem.

Assim posso dar fé que a morte obscura
De quantos vão ficando no caminho,
Bem mais do que parece, ofusca o brilho
Das falsas aparências de vitória
Dos que falam mais alto e se confundem.

Confundem-se os que gritam, confundindo
Os que ouvem e não sabem que os caídos
Dizem mais no silêncio em que caíram,
Dizem mais e mais fundo, enquanto a voz
Oprimida e apagada fere o nervo
Exposto a golpes sempre repetidos.

Retraço no que posso meu caminho
Aberto pela quilha entre os sargaços
Imensos deste mar, ora parado,
Ora coberto de ondas pelo vento
Que sopra não de um ponto, mas de vários,
Para provar a força, não do braço,
Mas do ânimo que imprime rumo ao barco.

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