Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Mário Simões
Lucy
Minha primavera de novo se enroupou,
Seguiu alegre em busca doutro destino...
O clarão amor, (fraco ou forte) é luz que sou;
Não troco a minha sorte por ser menino...
O teu doce lenitivo me adormece,
Embriagado no teu desejo fervente...
A aurora que o teu amanhecer me deu,
É a natureza livre do teu corpo quente...
Às vezes choro a flor da felicidade,
Este amor que me incendiou contigo...
Eu me deito no teu berço de mocidade,
Sob paixão que é meu abrigo...
Nossos corações ecoam o mesmo destino,
Ao ribombar do compasso imenso;
Lembrando o seu segredo de menino,
Dão largos voos com agitado tempo...
(In 9º. livro, Culpas Mortais)
Seguiu alegre em busca doutro destino...
O clarão amor, (fraco ou forte) é luz que sou;
Não troco a minha sorte por ser menino...
O teu doce lenitivo me adormece,
Embriagado no teu desejo fervente...
A aurora que o teu amanhecer me deu,
É a natureza livre do teu corpo quente...
Às vezes choro a flor da felicidade,
Este amor que me incendiou contigo...
Eu me deito no teu berço de mocidade,
Sob paixão que é meu abrigo...
Nossos corações ecoam o mesmo destino,
Ao ribombar do compasso imenso;
Lembrando o seu segredo de menino,
Dão largos voos com agitado tempo...
(In 9º. livro, Culpas Mortais)
1 000
Mário Simões
Lucy
Minha primavera de novo se enroupou,
Seguiu alegre em busca doutro destino...
O clarão amor, (fraco ou forte) é luz que sou;
Não troco a minha sorte por ser menino...
O teu doce lenitivo me adormece,
Embriagado no teu desejo fervente...
A aurora que o teu amanhecer me deu,
É a natureza livre do teu corpo quente...
Às vezes choro a flor da felicidade,
Este amor que me incendiou contigo...
Eu me deito no teu berço de mocidade,
Sob paixão que é meu abrigo...
Nossos corações ecoam o mesmo destino,
Ao ribombar do compasso imenso;
Lembrando o seu segredo de menino,
Dão largos voos com agitado tempo...
(In 9º. livro, Culpas Mortais)
Seguiu alegre em busca doutro destino...
O clarão amor, (fraco ou forte) é luz que sou;
Não troco a minha sorte por ser menino...
O teu doce lenitivo me adormece,
Embriagado no teu desejo fervente...
A aurora que o teu amanhecer me deu,
É a natureza livre do teu corpo quente...
Às vezes choro a flor da felicidade,
Este amor que me incendiou contigo...
Eu me deito no teu berço de mocidade,
Sob paixão que é meu abrigo...
Nossos corações ecoam o mesmo destino,
Ao ribombar do compasso imenso;
Lembrando o seu segredo de menino,
Dão largos voos com agitado tempo...
(In 9º. livro, Culpas Mortais)
1 000
Mário Simões
Lucy
Minha primavera de novo se enroupou,
Seguiu alegre em busca doutro destino...
O clarão amor, (fraco ou forte) é luz que sou;
Não troco a minha sorte por ser menino...
O teu doce lenitivo me adormece,
Embriagado no teu desejo fervente...
A aurora que o teu amanhecer me deu,
É a natureza livre do teu corpo quente...
Às vezes choro a flor da felicidade,
Este amor que me incendiou contigo...
Eu me deito no teu berço de mocidade,
Sob paixão que é meu abrigo...
Nossos corações ecoam o mesmo destino,
Ao ribombar do compasso imenso;
Lembrando o seu segredo de menino,
Dão largos voos com agitado tempo...
(In 9º. livro, Culpas Mortais)
Seguiu alegre em busca doutro destino...
O clarão amor, (fraco ou forte) é luz que sou;
Não troco a minha sorte por ser menino...
O teu doce lenitivo me adormece,
Embriagado no teu desejo fervente...
A aurora que o teu amanhecer me deu,
É a natureza livre do teu corpo quente...
Às vezes choro a flor da felicidade,
Este amor que me incendiou contigo...
Eu me deito no teu berço de mocidade,
Sob paixão que é meu abrigo...
Nossos corações ecoam o mesmo destino,
Ao ribombar do compasso imenso;
Lembrando o seu segredo de menino,
Dão largos voos com agitado tempo...
(In 9º. livro, Culpas Mortais)
1 000
Mário Pederneiras
Trecho Final
Meia tinta de cor dos ocasos do Outono
Sonho que uma ilusão sobre a vida nos tece
E perfume sutil de uma folha de trevo,
São, decerto, a feição deste livro que escrevo
Neste ambiente de silêncio e sono
Nesta indolência de quem convalesce.
Meu livro é um jardim na doçura do Outono
E que a sombra amacia
De carinho e de afago
Da luz serena do final do dia;
É um velho jardim dolente e triste
Com um velho local de silêncio e de sono
Já sem luz de verão que o doire e tisne,
Mas onde ainda existe
O orgulho de um Cisne
E a água triste de um Lago.
Sonho que uma ilusão sobre a vida nos tece
E perfume sutil de uma folha de trevo,
São, decerto, a feição deste livro que escrevo
Neste ambiente de silêncio e sono
Nesta indolência de quem convalesce.
Meu livro é um jardim na doçura do Outono
E que a sombra amacia
De carinho e de afago
Da luz serena do final do dia;
É um velho jardim dolente e triste
Com um velho local de silêncio e de sono
Já sem luz de verão que o doire e tisne,
Mas onde ainda existe
O orgulho de um Cisne
E a água triste de um Lago.
1 477
Gerardo Mello Mourão
Caminhavam sobre meu corpo
Caminhavam sobre meu corpo as de Goiás e do
Piemonte
uma delas costumava fincar
a lança de seu pé no sítio
do coração — outra
rodopiava sobre o pênis taciturno
e num salto certeiro
cravava as ancas ao grito lancinante
e engolia nas entranhas o príncipe fremente:
florescia em suas bocas
compunha o lábio formoso
e a língua estudiosa
mas não pisavam minha pele — ego poeta
em floretes de sopro as sustentava e a sombra
de suas pernas
tecia túnica a meu corpo.
Os que sabem de mim me lembram como um pequeno
rei arteiro e moribundo entre amantes de todas
as raças. Todas elas me possuíram ao longo das
noites. E a noiva sérvia, as crinas do Danúbio
sobre os ombros — e a princesa de Túnis com seus
olhos de avelã e a puta de Araguari com seus seios
salubres — todas me possuíram
por dias e noites e anos me possuíram.
E fui eu mesmo meu próprio preço:
por isso tantas vezes me resgatei — e nunca as
possuí — nem mesmo
a pequena alemã de Blumenau nas noites de setembro.
E Isabella era Lúcia Isabella. Quando
pensei tê-la afinal dominada e possuída, metamorfoseou-se
em rosa — melancólica rosa amarela num jarro de porcelana.
De outras, desapareceram o rosto e o peito, todo o corpo
transformado num pequeno sexo na palma da mão, uma crisálida,
uma borboleta ou uma pomba, e fugiram voando para o teto
da igreja de São Paulo. Outras ainda se transformaram em
defuntas e eu
as sepultei chorando num monte de lírios desolados
—no entanto, eu as criara, ego poeta,
de meu barro e meu sopro,
pois antes de mim não existiam:
quando sílaba à sílaba alguma noite pronunciei seus nomes
Ma — da — le — na
Ma — ri — e — le — na
I — sa — be — la
só então elas se ergueram
com seus umbigos vertiginosos
e nada mais pude dizer
e seus nomes
me esgotaram as veias e os pulmões.
E quando eu lhes perguntava de onde vinham,
para onde viajavam, de
que pessoas ou lugares traziam ou buscavam notícias,
respondiam simplesmente:
— Apolo —
e quando diziam o nome santo, voltavam de repente ao
que eram: Isabella
se incorporava em sua rosa amarela, a puta
de Araguari se erguia de sua borboleta ou de sua pomba
e as defuntas, sacudindo os lírios dos cabelos,
se punham de pé sobre seus caixões azuis. —
E todas me possuíam de novo
Possesso delas — ego poeta
produzia o vinho e o vinho
produzia o bêbado — e o bêbado
produzia a música e a música
produzia a regência
do ser em dança sobre os tornozelos
em tomo delas — pois seus olhos
guardavam o rosto de um deus e sua boca um nome
— Apolo —
e ao sagrado nome novamente
se metamorfoseavam
e a pequena alemã de Blumenau
era uma égua ruça e a puta de Araguari uma poldra baia
e emparelhadas com arreios de prata arrastavam
entre as constelações o carro do deus.
Entre Alpha e Beta de Capricómio o deus
era arrastado pelas
potrancas vertiginosas. O galope sideral atravessava
as flechas do Sagitário, as rodas do
carro de ouro deslisavam sobre o ruivo riacho
da Coma de Berenice e as éguas se empinavam
afinal, de narinas ciumentas, na colinas de
Delfos onde Lúcia Isabella transfigurada,
em Maira la Perra transfigurada,
lambia a mão do deus com sua astúcia
de irish-setter. E de repente assumiam outras
formas e brotavam dos agapantos e dos
crótons e luxuosas serpentes coleavam
na relva com seus crótalos pressagos. Pois Lúcia lsabella era
uma verde cascavel de olhos dourados,
vertical e longa, meneando a cabeça e a puta
de Araguari armava o bote de
sua pele malhada e Jéssica e Elisabeth
enrolavam o lustroso coral de seu dorso,
enquanto Adriana e as outras lambiam
os dentes perigosos.
Ego, poeta,
tenho a mão sagaz e arteira
do Serpentário
e empunho o sustento e encanto as serpentes
enroladas no pênis em meu leito de rosas
pois as rosas
sideradas vão con-
siderando o ouro e a praia das serpentes
na mão do Serpentário
onde ainda uma vez
a cabeça dourada de Isabella.
volta à antiga flor de seu sorriso
pois et nunc et semper as auroras
devolvem Lúcia Isabella
do sítio da memória à ilha
do coração de Apolo.
Por isso peregrino a memória
ego, poeta, romeiro do coração
adonde parti retomo — e estudo
minha esperança:
de minha própria esperança estudioso
sobre a podridão das horas
planto a rosa e a maçã e habito a distância
de sua primavera e seu outono:
pois do lombo de capricórnio salto — ego, poeta
a galope neste Monte Real
la belle province
e guardo sempre a língua — e é bom morrer
restam algumas horas de vida — tant mieux
pois não verei o estrangeiro
plantar sua palavra onde plantei teu nome
ao vento da montanha repetido
entre as folhas do érable:
pois ao morrer teu nome em minha boca
terei cumprido a minha própria morte:
na língua estou vivendo
here lived and labored
e os turistas atônitos
e Agnes e Carole e as outras
ouvirão do porteiro do hotel
a evocação do poeta:
from here sailed out to die
as verdes águas escrevendo na vela
as letras lancinantes de teu nome
alí — satélites — meus olhos
pois de Águas Be L as e Pa L mares e Pa L meira
dos Indios
a Be L grado me voy
e eras o vale e o céu de Ia Be LL e Province
e eras o nome de la Be LL e Province
e a noite de Guatema L a e a lua
de teus seios enluarava as laranjas
nos jardins maduros de Teguciga L pa
Teguciga L pa!
en el cerro de plata
tres mejülas de oro
à janela dessa calle del Olvido
rias o riso de cristal e prata
de Tegucipalga
e as colinas
estudavam ali teus seios teus quadris e o vento
aprendeu a mover-se em teus quadris
e assim por Montes Claros e Diamantina onde bailavam
nas suas manjeronas rescendentes
Cristina e Júha.
Por esta flor passou um beija-flor
por esta relva um calcanhar
por este lago uns pés:
na flor na relva na água
crescera o calcanhar
da raiz do rastro
teu talhe de palmeira
desde
até.
Piemonte
uma delas costumava fincar
a lança de seu pé no sítio
do coração — outra
rodopiava sobre o pênis taciturno
e num salto certeiro
cravava as ancas ao grito lancinante
e engolia nas entranhas o príncipe fremente:
florescia em suas bocas
compunha o lábio formoso
e a língua estudiosa
mas não pisavam minha pele — ego poeta
em floretes de sopro as sustentava e a sombra
de suas pernas
tecia túnica a meu corpo.
Os que sabem de mim me lembram como um pequeno
rei arteiro e moribundo entre amantes de todas
as raças. Todas elas me possuíram ao longo das
noites. E a noiva sérvia, as crinas do Danúbio
sobre os ombros — e a princesa de Túnis com seus
olhos de avelã e a puta de Araguari com seus seios
salubres — todas me possuíram
por dias e noites e anos me possuíram.
E fui eu mesmo meu próprio preço:
por isso tantas vezes me resgatei — e nunca as
possuí — nem mesmo
a pequena alemã de Blumenau nas noites de setembro.
E Isabella era Lúcia Isabella. Quando
pensei tê-la afinal dominada e possuída, metamorfoseou-se
em rosa — melancólica rosa amarela num jarro de porcelana.
De outras, desapareceram o rosto e o peito, todo o corpo
transformado num pequeno sexo na palma da mão, uma crisálida,
uma borboleta ou uma pomba, e fugiram voando para o teto
da igreja de São Paulo. Outras ainda se transformaram em
defuntas e eu
as sepultei chorando num monte de lírios desolados
—no entanto, eu as criara, ego poeta,
de meu barro e meu sopro,
pois antes de mim não existiam:
quando sílaba à sílaba alguma noite pronunciei seus nomes
Ma — da — le — na
Ma — ri — e — le — na
I — sa — be — la
só então elas se ergueram
com seus umbigos vertiginosos
e nada mais pude dizer
e seus nomes
me esgotaram as veias e os pulmões.
E quando eu lhes perguntava de onde vinham,
para onde viajavam, de
que pessoas ou lugares traziam ou buscavam notícias,
respondiam simplesmente:
— Apolo —
e quando diziam o nome santo, voltavam de repente ao
que eram: Isabella
se incorporava em sua rosa amarela, a puta
de Araguari se erguia de sua borboleta ou de sua pomba
e as defuntas, sacudindo os lírios dos cabelos,
se punham de pé sobre seus caixões azuis. —
E todas me possuíam de novo
Possesso delas — ego poeta
produzia o vinho e o vinho
produzia o bêbado — e o bêbado
produzia a música e a música
produzia a regência
do ser em dança sobre os tornozelos
em tomo delas — pois seus olhos
guardavam o rosto de um deus e sua boca um nome
— Apolo —
e ao sagrado nome novamente
se metamorfoseavam
e a pequena alemã de Blumenau
era uma égua ruça e a puta de Araguari uma poldra baia
e emparelhadas com arreios de prata arrastavam
entre as constelações o carro do deus.
Entre Alpha e Beta de Capricómio o deus
era arrastado pelas
potrancas vertiginosas. O galope sideral atravessava
as flechas do Sagitário, as rodas do
carro de ouro deslisavam sobre o ruivo riacho
da Coma de Berenice e as éguas se empinavam
afinal, de narinas ciumentas, na colinas de
Delfos onde Lúcia Isabella transfigurada,
em Maira la Perra transfigurada,
lambia a mão do deus com sua astúcia
de irish-setter. E de repente assumiam outras
formas e brotavam dos agapantos e dos
crótons e luxuosas serpentes coleavam
na relva com seus crótalos pressagos. Pois Lúcia lsabella era
uma verde cascavel de olhos dourados,
vertical e longa, meneando a cabeça e a puta
de Araguari armava o bote de
sua pele malhada e Jéssica e Elisabeth
enrolavam o lustroso coral de seu dorso,
enquanto Adriana e as outras lambiam
os dentes perigosos.
Ego, poeta,
tenho a mão sagaz e arteira
do Serpentário
e empunho o sustento e encanto as serpentes
enroladas no pênis em meu leito de rosas
pois as rosas
sideradas vão con-
siderando o ouro e a praia das serpentes
na mão do Serpentário
onde ainda uma vez
a cabeça dourada de Isabella.
volta à antiga flor de seu sorriso
pois et nunc et semper as auroras
devolvem Lúcia Isabella
do sítio da memória à ilha
do coração de Apolo.
Por isso peregrino a memória
ego, poeta, romeiro do coração
adonde parti retomo — e estudo
minha esperança:
de minha própria esperança estudioso
sobre a podridão das horas
planto a rosa e a maçã e habito a distância
de sua primavera e seu outono:
pois do lombo de capricórnio salto — ego, poeta
a galope neste Monte Real
la belle province
e guardo sempre a língua — e é bom morrer
restam algumas horas de vida — tant mieux
pois não verei o estrangeiro
plantar sua palavra onde plantei teu nome
ao vento da montanha repetido
entre as folhas do érable:
pois ao morrer teu nome em minha boca
terei cumprido a minha própria morte:
na língua estou vivendo
here lived and labored
e os turistas atônitos
e Agnes e Carole e as outras
ouvirão do porteiro do hotel
a evocação do poeta:
from here sailed out to die
as verdes águas escrevendo na vela
as letras lancinantes de teu nome
alí — satélites — meus olhos
pois de Águas Be L as e Pa L mares e Pa L meira
dos Indios
a Be L grado me voy
e eras o vale e o céu de Ia Be LL e Province
e eras o nome de la Be LL e Province
e a noite de Guatema L a e a lua
de teus seios enluarava as laranjas
nos jardins maduros de Teguciga L pa
Teguciga L pa!
en el cerro de plata
tres mejülas de oro
à janela dessa calle del Olvido
rias o riso de cristal e prata
de Tegucipalga
e as colinas
estudavam ali teus seios teus quadris e o vento
aprendeu a mover-se em teus quadris
e assim por Montes Claros e Diamantina onde bailavam
nas suas manjeronas rescendentes
Cristina e Júha.
Por esta flor passou um beija-flor
por esta relva um calcanhar
por este lago uns pés:
na flor na relva na água
crescera o calcanhar
da raiz do rastro
teu talhe de palmeira
desde
até.
1 241
Marly Vasconcelos
Verbum
Uma época escrevi estórias com tanta ansiedade
que não podia comer uma maçã.
Não havia tempo para o detalhe.
Palavra, eu fui palavra.
Poderás avaliar o que é ser palavra?
Fecha os olhos e compõe com tuas lembranças
um território exaurido e descarnado,
pasto de animais melancólicos,
lagoas, cacimbas secas.
Na terra, debaixo da oiticica, um monte de ossos.
Preço que paguei sendo palavras.
que não podia comer uma maçã.
Não havia tempo para o detalhe.
Palavra, eu fui palavra.
Poderás avaliar o que é ser palavra?
Fecha os olhos e compõe com tuas lembranças
um território exaurido e descarnado,
pasto de animais melancólicos,
lagoas, cacimbas secas.
Na terra, debaixo da oiticica, um monte de ossos.
Preço que paguei sendo palavras.
1 077
Murillo Mendes
Gilda
Não ponha o nome de Gilda
na sua filha, coitada,
Se tem filha pra nascer
Ou filha pra batisar.
Minha mãe se chama Gilda,
Não se casou com meu pai.
Sempre lhe sobra desgraça,
Não tem tempo de escolher.
Também eu me chamo Gilda,
E, pra dizer a verdade
Sou pouco mais infeliz.
Sou menos do que mulher,
Sou uma mulher qualquer.
Ando à-toa pelo mundo.
Sem força pra me matar.
Minha filha é também Gilda,
Pro costume não perder
É casada com o espelho
E amigada com o José.
Qualquer dia Gilda foge
Ou se mata em Paquetá
Com José ou sem José.
Já comprei lenço de renda
Pra chorar com mais apuro
E aos jornais telefonei.
Se Gilda enfim não morrer,
Se Gilda tiver uma filha
Não põe o nome de Gilda,
Na menina, que não deixo.
Quem ganha o nome de Gilda
Vira Gilda sem querer.
Não ponha o nome de Gilda
No corpo de uma mulher.
na sua filha, coitada,
Se tem filha pra nascer
Ou filha pra batisar.
Minha mãe se chama Gilda,
Não se casou com meu pai.
Sempre lhe sobra desgraça,
Não tem tempo de escolher.
Também eu me chamo Gilda,
E, pra dizer a verdade
Sou pouco mais infeliz.
Sou menos do que mulher,
Sou uma mulher qualquer.
Ando à-toa pelo mundo.
Sem força pra me matar.
Minha filha é também Gilda,
Pro costume não perder
É casada com o espelho
E amigada com o José.
Qualquer dia Gilda foge
Ou se mata em Paquetá
Com José ou sem José.
Já comprei lenço de renda
Pra chorar com mais apuro
E aos jornais telefonei.
Se Gilda enfim não morrer,
Se Gilda tiver uma filha
Não põe o nome de Gilda,
Na menina, que não deixo.
Quem ganha o nome de Gilda
Vira Gilda sem querer.
Não ponha o nome de Gilda
No corpo de uma mulher.
1 651
Marcelo Perrone
Teu Sorriso
Teu Sorriso é o que vem antes.Porque és a minha primeira.
Teu sorriso é o mais belo de todosPorque és a mais bela das mulheres
Teu Sorriso...
Teu sorriso me afoga.Os teus labios salvam-me.Teus olhos devoram-meTeu toque me apazigua.
Se esqueçer-me de teu sorriso,Esquecerei o motivo d’eu viver.Porque teu sorriso é minha razãoE tu és a minha primeira.
Teu Sorriso é o que vem antes.Teu sorriso é tudo para mim.Mas nada é como teu sorriso.
Para minha namorada Heloisa Ballura Castelo Branco.
A serem divulgadas no Jornal de Poesia
-Sem Data-
Teu sorriso é o mais belo de todosPorque és a mais bela das mulheres
Teu Sorriso...
Teu sorriso me afoga.Os teus labios salvam-me.Teus olhos devoram-meTeu toque me apazigua.
Se esqueçer-me de teu sorriso,Esquecerei o motivo d’eu viver.Porque teu sorriso é minha razãoE tu és a minha primeira.
Teu Sorriso é o que vem antes.Teu sorriso é tudo para mim.Mas nada é como teu sorriso.
Para minha namorada Heloisa Ballura Castelo Branco.
A serem divulgadas no Jornal de Poesia
-Sem Data-
1 076
Manuel Sobrinho
São Francisco
Ó triste e pobretã cidade maranhense!
Por que a eterna canção romântica das águas
Do velho Parnaíba onduloso não vence
Teu descontentamento e tuas fundas mágoas?
Por que já não te enfeita a pompa que outrora
ostentavas riqueza, orgulho e poderio?
Não vês que ao pé de ti o arvoredo se enflora
Ao beijo das manhãs translúcidas do estio?
Por que sofres assim? Por que definhas tanto?
Por que te pesa a cruz de tal adversidade?
Olha: a árvore remoça em teu subúrbio, e o canto
Das aves do teu céu traduz felicidade...
Por que tua cerviz dobras e não encaras
O céu, que nos dá força, em nosso desalento?
Vês? O Morro da Cruz e o Morro das Araras
Erguem a fronte larga à luz do firmamento...
Por que, perdendo a forma estética, te afeias,
Contrastando com tudo aí desse recanto,
Quando eu — que sou teu filho — eu sei que te rodeias
De infindáveis painéis do mais soberbo encanto?
Por que fazes, agora, humilde, curvaturas
A tudo o que enfrentaste, outrora, com denodo?
É que, nas asas do ouro, ontem galgaste alturas,
E hoje, rastejas, pobre e anônima, no lodo.
Por que a eterna canção romântica das águas
Do velho Parnaíba onduloso não vence
Teu descontentamento e tuas fundas mágoas?
Por que já não te enfeita a pompa que outrora
ostentavas riqueza, orgulho e poderio?
Não vês que ao pé de ti o arvoredo se enflora
Ao beijo das manhãs translúcidas do estio?
Por que sofres assim? Por que definhas tanto?
Por que te pesa a cruz de tal adversidade?
Olha: a árvore remoça em teu subúrbio, e o canto
Das aves do teu céu traduz felicidade...
Por que tua cerviz dobras e não encaras
O céu, que nos dá força, em nosso desalento?
Vês? O Morro da Cruz e o Morro das Araras
Erguem a fronte larga à luz do firmamento...
Por que, perdendo a forma estética, te afeias,
Contrastando com tudo aí desse recanto,
Quando eu — que sou teu filho — eu sei que te rodeias
De infindáveis painéis do mais soberbo encanto?
Por que fazes, agora, humilde, curvaturas
A tudo o que enfrentaste, outrora, com denodo?
É que, nas asas do ouro, ontem galgaste alturas,
E hoje, rastejas, pobre e anônima, no lodo.
754
Manuel Sobrinho
São Francisco
Ó triste e pobretã cidade maranhense!
Por que a eterna canção romântica das águas
Do velho Parnaíba onduloso não vence
Teu descontentamento e tuas fundas mágoas?
Por que já não te enfeita a pompa que outrora
ostentavas riqueza, orgulho e poderio?
Não vês que ao pé de ti o arvoredo se enflora
Ao beijo das manhãs translúcidas do estio?
Por que sofres assim? Por que definhas tanto?
Por que te pesa a cruz de tal adversidade?
Olha: a árvore remoça em teu subúrbio, e o canto
Das aves do teu céu traduz felicidade...
Por que tua cerviz dobras e não encaras
O céu, que nos dá força, em nosso desalento?
Vês? O Morro da Cruz e o Morro das Araras
Erguem a fronte larga à luz do firmamento...
Por que, perdendo a forma estética, te afeias,
Contrastando com tudo aí desse recanto,
Quando eu — que sou teu filho — eu sei que te rodeias
De infindáveis painéis do mais soberbo encanto?
Por que fazes, agora, humilde, curvaturas
A tudo o que enfrentaste, outrora, com denodo?
É que, nas asas do ouro, ontem galgaste alturas,
E hoje, rastejas, pobre e anônima, no lodo.
Por que a eterna canção romântica das águas
Do velho Parnaíba onduloso não vence
Teu descontentamento e tuas fundas mágoas?
Por que já não te enfeita a pompa que outrora
ostentavas riqueza, orgulho e poderio?
Não vês que ao pé de ti o arvoredo se enflora
Ao beijo das manhãs translúcidas do estio?
Por que sofres assim? Por que definhas tanto?
Por que te pesa a cruz de tal adversidade?
Olha: a árvore remoça em teu subúrbio, e o canto
Das aves do teu céu traduz felicidade...
Por que tua cerviz dobras e não encaras
O céu, que nos dá força, em nosso desalento?
Vês? O Morro da Cruz e o Morro das Araras
Erguem a fronte larga à luz do firmamento...
Por que, perdendo a forma estética, te afeias,
Contrastando com tudo aí desse recanto,
Quando eu — que sou teu filho — eu sei que te rodeias
De infindáveis painéis do mais soberbo encanto?
Por que fazes, agora, humilde, curvaturas
A tudo o que enfrentaste, outrora, com denodo?
É que, nas asas do ouro, ontem galgaste alturas,
E hoje, rastejas, pobre e anônima, no lodo.
754
Mário Pederneiras
Caminho Errado
(fragmento)
Eu preferia ter nascido
Um pesado burguês redondo e manso,
Alimentado e rude;
Desses que vivem a vender saúde,
Cuja vida, incolor e sem sentido,
É um cômodo vale de descanso.
Dos que da farta messe dos acervos
Sentimentais, que lhes parecem fúteis,
E o gozo de viver tornam lerdo, enfadonho
Suprimem logo, por banais e inúteis,
O Sonho,
O Coração e os Nervos.
E assim vazios,
Só com o bem-estar e o asco
Dos outros bens, que o ouro lhes trouxe,
Vão por largos e plácidos desvios
Seguindo a vida, qual se a Vida fosse
A secular Estrada de Damasco.
Sem perceber, nem distinguir aspectos
De Luz, de Cor, que só parecem turvos
A seus olhos parados;
Que vivem como bem-aventurados
E que se são internamente curvos,
Nunca deixam de ser externamente retos.
Felizes os que assim nasceram
E que da Vida a perigosa aléia
Percorrem toda sem um desaponto ...
Viver assim... Sem Deus e sem Idéia,
Ou ter um Deus que receberam pronto
Idéias que os outros conceberam.
A esses não estorva o passo,
A almejada ração de uma alegria...
Não distinguem a Cor do Sol e do Mormaço.
E o Dia... é sempre o mesmo Dia.
Eu preferia ter nascido
Um pesado burguês redondo e manso,
Alimentado e rude;
Desses que vivem a vender saúde,
Cuja vida, incolor e sem sentido,
É um cômodo vale de descanso.
Dos que da farta messe dos acervos
Sentimentais, que lhes parecem fúteis,
E o gozo de viver tornam lerdo, enfadonho
Suprimem logo, por banais e inúteis,
O Sonho,
O Coração e os Nervos.
E assim vazios,
Só com o bem-estar e o asco
Dos outros bens, que o ouro lhes trouxe,
Vão por largos e plácidos desvios
Seguindo a vida, qual se a Vida fosse
A secular Estrada de Damasco.
Sem perceber, nem distinguir aspectos
De Luz, de Cor, que só parecem turvos
A seus olhos parados;
Que vivem como bem-aventurados
E que se são internamente curvos,
Nunca deixam de ser externamente retos.
Felizes os que assim nasceram
E que da Vida a perigosa aléia
Percorrem toda sem um desaponto ...
Viver assim... Sem Deus e sem Idéia,
Ou ter um Deus que receberam pronto
Idéias que os outros conceberam.
A esses não estorva o passo,
A almejada ração de uma alegria...
Não distinguem a Cor do Sol e do Mormaço.
E o Dia... é sempre o mesmo Dia.
1 261
Manuel Sobrinho
Trovas
Amigos, quantos tiveres,
Um por um te deixarão,
Quando já não dispuseres
De dinheiro ou posição...
Se alguém se julga perfeito,
A razão disso adivinho:
Em si não busca o defeito
Que descobre no vizinho.
Do bem por ti desejado
Não corras muito na pista:
Na vida, o mais apressado
Nem sempre é o que mais conquista
És pobre? Sofres? Paciência,
Põe no lábio um riso franco:
Na roleta da existência
Há muito número em branco...
É pela dor procedida
Do tombo que se levou,
Que pode ser bem medida
A altura a que se chegou.
Um por um te deixarão,
Quando já não dispuseres
De dinheiro ou posição...
Se alguém se julga perfeito,
A razão disso adivinho:
Em si não busca o defeito
Que descobre no vizinho.
Do bem por ti desejado
Não corras muito na pista:
Na vida, o mais apressado
Nem sempre é o que mais conquista
És pobre? Sofres? Paciência,
Põe no lábio um riso franco:
Na roleta da existência
Há muito número em branco...
É pela dor procedida
Do tombo que se levou,
Que pode ser bem medida
A altura a que se chegou.
810
Manuel Sobrinho
Trovas
Amigos, quantos tiveres,
Um por um te deixarão,
Quando já não dispuseres
De dinheiro ou posição...
Se alguém se julga perfeito,
A razão disso adivinho:
Em si não busca o defeito
Que descobre no vizinho.
Do bem por ti desejado
Não corras muito na pista:
Na vida, o mais apressado
Nem sempre é o que mais conquista
És pobre? Sofres? Paciência,
Põe no lábio um riso franco:
Na roleta da existência
Há muito número em branco...
É pela dor procedida
Do tombo que se levou,
Que pode ser bem medida
A altura a que se chegou.
Um por um te deixarão,
Quando já não dispuseres
De dinheiro ou posição...
Se alguém se julga perfeito,
A razão disso adivinho:
Em si não busca o defeito
Que descobre no vizinho.
Do bem por ti desejado
Não corras muito na pista:
Na vida, o mais apressado
Nem sempre é o que mais conquista
És pobre? Sofres? Paciência,
Põe no lábio um riso franco:
Na roleta da existência
Há muito número em branco...
É pela dor procedida
Do tombo que se levou,
Que pode ser bem medida
A altura a que se chegou.
810
Manuel Sobrinho
Trovas
Amigos, quantos tiveres,
Um por um te deixarão,
Quando já não dispuseres
De dinheiro ou posição...
Se alguém se julga perfeito,
A razão disso adivinho:
Em si não busca o defeito
Que descobre no vizinho.
Do bem por ti desejado
Não corras muito na pista:
Na vida, o mais apressado
Nem sempre é o que mais conquista
És pobre? Sofres? Paciência,
Põe no lábio um riso franco:
Na roleta da existência
Há muito número em branco...
É pela dor procedida
Do tombo que se levou,
Que pode ser bem medida
A altura a que se chegou.
Um por um te deixarão,
Quando já não dispuseres
De dinheiro ou posição...
Se alguém se julga perfeito,
A razão disso adivinho:
Em si não busca o defeito
Que descobre no vizinho.
Do bem por ti desejado
Não corras muito na pista:
Na vida, o mais apressado
Nem sempre é o que mais conquista
És pobre? Sofres? Paciência,
Põe no lábio um riso franco:
Na roleta da existência
Há muito número em branco...
É pela dor procedida
Do tombo que se levou,
Que pode ser bem medida
A altura a que se chegou.
810
Matheus Tonello
Eclipse Solar
Foi num dia límpido de verão
Que tudo chegou ao seu fim
Tendo o Sol como testemunha
Você disse: -Eu não te quero pra mim!
Neste dia, as pombas não voaram para o sul
O vento parou de soprar ao norte
O dia perdeu todo seu encanto
Para mim, só restou a morte.
O Sol neste dia se escondeu por completo
E logo cessou de brilhar
Se escondeu por trás da formosa Lua
E em prantos, pôs-se inteiramente a chorar!
Que tudo chegou ao seu fim
Tendo o Sol como testemunha
Você disse: -Eu não te quero pra mim!
Neste dia, as pombas não voaram para o sul
O vento parou de soprar ao norte
O dia perdeu todo seu encanto
Para mim, só restou a morte.
O Sol neste dia se escondeu por completo
E logo cessou de brilhar
Se escondeu por trás da formosa Lua
E em prantos, pôs-se inteiramente a chorar!
1 327
Mario Ribeiro Martins
Os Idos
Quando nos tempos idos, mas lembrados,
meu coração fervia nas paixões,
os meus versos riquíssimos, amados,
eram versos de amor, de corações.
Mas hoje são meus versos repassados,
de tristezas, misérias, ilusões.
Meus dias de velhice, desfibrados,
não me trazem senão recordações.
A musa me fugiu do coração
e a dor se apoderou da minha vida:
SÓ FAÇO VERSOS TRISTES NESTA LIDA.
Muitos lerão meus versos e dirão,
e dirão para todos, com certeza:
ESTE VATE FOI FILHO DA TRISTEZA.
meu coração fervia nas paixões,
os meus versos riquíssimos, amados,
eram versos de amor, de corações.
Mas hoje são meus versos repassados,
de tristezas, misérias, ilusões.
Meus dias de velhice, desfibrados,
não me trazem senão recordações.
A musa me fugiu do coração
e a dor se apoderou da minha vida:
SÓ FAÇO VERSOS TRISTES NESTA LIDA.
Muitos lerão meus versos e dirão,
e dirão para todos, com certeza:
ESTE VATE FOI FILHO DA TRISTEZA.
1 113
Marcelo Reis
Entorpecer
Entorpecer
Vida, se tu pudesses ser bebericada
Em xícaras de fumaça,
Lá estaria eu, entorpecido
Pelas nuvens do mesmo líquido
Eu poderia voar até o teu colo
Até o teu beijo e até o teu olhar
E penetrar no manto da noite
Para te encarar verdadeiramente
Vida, te quis face a face
E para isso dancei uma valsa,
Uma valsa com a Morte
A doce, inofensiva e serena Morte
Tão fácil de se apaixonar, apaixonou-se
O que me restou foi levá-la para a cama
Lavar-lhe o corpo, oferecer-lhe um pouco de meu amor
E por fim molhar-lhe as pálpebras cansadas
Agora, Vida, que sucumbi a Morte de paixão,
Te quero imensa e fanaticamente
Cubra-me todas as pequenas noites frias
E me liberte nas grandes noites quentes
Ao comando de teus arcanjos
Estou submetido
E de ti, tenho certeza,
As cores todas se alimentam
Vida, se tu pudesses ser bebericada
Em xícaras de fumaça,
Lá estaria eu, entorpecido
Pelas nuvens do mesmo líquido
Eu poderia voar até o teu colo
Até o teu beijo e até o teu olhar
E penetrar no manto da noite
Para te encarar verdadeiramente
Vida, te quis face a face
E para isso dancei uma valsa,
Uma valsa com a Morte
A doce, inofensiva e serena Morte
Tão fácil de se apaixonar, apaixonou-se
O que me restou foi levá-la para a cama
Lavar-lhe o corpo, oferecer-lhe um pouco de meu amor
E por fim molhar-lhe as pálpebras cansadas
Agora, Vida, que sucumbi a Morte de paixão,
Te quero imensa e fanaticamente
Cubra-me todas as pequenas noites frias
E me liberte nas grandes noites quentes
Ao comando de teus arcanjos
Estou submetido
E de ti, tenho certeza,
As cores todas se alimentam
1 140
Marcelo Reis
Entorpecer
Entorpecer
Vida, se tu pudesses ser bebericada
Em xícaras de fumaça,
Lá estaria eu, entorpecido
Pelas nuvens do mesmo líquido
Eu poderia voar até o teu colo
Até o teu beijo e até o teu olhar
E penetrar no manto da noite
Para te encarar verdadeiramente
Vida, te quis face a face
E para isso dancei uma valsa,
Uma valsa com a Morte
A doce, inofensiva e serena Morte
Tão fácil de se apaixonar, apaixonou-se
O que me restou foi levá-la para a cama
Lavar-lhe o corpo, oferecer-lhe um pouco de meu amor
E por fim molhar-lhe as pálpebras cansadas
Agora, Vida, que sucumbi a Morte de paixão,
Te quero imensa e fanaticamente
Cubra-me todas as pequenas noites frias
E me liberte nas grandes noites quentes
Ao comando de teus arcanjos
Estou submetido
E de ti, tenho certeza,
As cores todas se alimentam
Vida, se tu pudesses ser bebericada
Em xícaras de fumaça,
Lá estaria eu, entorpecido
Pelas nuvens do mesmo líquido
Eu poderia voar até o teu colo
Até o teu beijo e até o teu olhar
E penetrar no manto da noite
Para te encarar verdadeiramente
Vida, te quis face a face
E para isso dancei uma valsa,
Uma valsa com a Morte
A doce, inofensiva e serena Morte
Tão fácil de se apaixonar, apaixonou-se
O que me restou foi levá-la para a cama
Lavar-lhe o corpo, oferecer-lhe um pouco de meu amor
E por fim molhar-lhe as pálpebras cansadas
Agora, Vida, que sucumbi a Morte de paixão,
Te quero imensa e fanaticamente
Cubra-me todas as pequenas noites frias
E me liberte nas grandes noites quentes
Ao comando de teus arcanjos
Estou submetido
E de ti, tenho certeza,
As cores todas se alimentam
1 140
Manuel Sérgio
Com Dedos de Luar
Com dedos de luar duas crianças
Jogam à batalha naval
Dão tiros só com lápis e papel
Não tingem de sangue o azul da madrugada
Como dois seres intensamente humanos
Travam uma guerra a brincar
Sem mortos nem ogivas nucleares
Não dão à amizade um nome provisório
Compreendo agora por que alguns generais são tristes
E se perfilam como estátuas musguentas
Já não sabem jogar
À batalha naval
Jogam à batalha naval
Dão tiros só com lápis e papel
Não tingem de sangue o azul da madrugada
Como dois seres intensamente humanos
Travam uma guerra a brincar
Sem mortos nem ogivas nucleares
Não dão à amizade um nome provisório
Compreendo agora por que alguns generais são tristes
E se perfilam como estátuas musguentas
Já não sabem jogar
À batalha naval
903
Manuel Sérgio
Com Dedos de Luar
Com dedos de luar duas crianças
Jogam à batalha naval
Dão tiros só com lápis e papel
Não tingem de sangue o azul da madrugada
Como dois seres intensamente humanos
Travam uma guerra a brincar
Sem mortos nem ogivas nucleares
Não dão à amizade um nome provisório
Compreendo agora por que alguns generais são tristes
E se perfilam como estátuas musguentas
Já não sabem jogar
À batalha naval
Jogam à batalha naval
Dão tiros só com lápis e papel
Não tingem de sangue o azul da madrugada
Como dois seres intensamente humanos
Travam uma guerra a brincar
Sem mortos nem ogivas nucleares
Não dão à amizade um nome provisório
Compreendo agora por que alguns generais são tristes
E se perfilam como estátuas musguentas
Já não sabem jogar
À batalha naval
903
Mário Simões
Corpos e Almas
Oh, Se eu pudesse esquecer,
Do que já vi e volto a ver,
E que também nunca soubesse,
Do que me lembra e não me esquece!
E já que outra não posso ter,
Só tenho olhos para te ver.
O meu grito embriagado,
Cantou bem alto por todo lado,
Cerrados meus lábios, recordam,
O ar que atrofia os que choram,
O vento húmido escondeu o meu destino,
Minhas coisas de enlevo e de menino,
Nem um sonho palpável eu vejo
Para dissipar os braços do desejo.
Para quebrar os delírios minha alma canta,
À peganhenta calma que mata,
Última lembrança do segredo,
Lembrando-me que esta luz sumida,
É o subir a baixar a vida.
O negrume do céu que baixa e clama,
Aos jardins para lhes regar a chama,
O mundo novo nos espera um só aceno,
As vozes de rebate entram em combate ameno.
E o grito audaz da revolta,
É o espirito sereno que solta.
Os rouxinóis enlevados na saudade,
Que se quedem no desleixo da obscuridade,
Felizes, desgraçadas, e sem idade!....
(In livro Culpas Mortais)
Do que já vi e volto a ver,
E que também nunca soubesse,
Do que me lembra e não me esquece!
E já que outra não posso ter,
Só tenho olhos para te ver.
O meu grito embriagado,
Cantou bem alto por todo lado,
Cerrados meus lábios, recordam,
O ar que atrofia os que choram,
O vento húmido escondeu o meu destino,
Minhas coisas de enlevo e de menino,
Nem um sonho palpável eu vejo
Para dissipar os braços do desejo.
Para quebrar os delírios minha alma canta,
À peganhenta calma que mata,
Última lembrança do segredo,
Lembrando-me que esta luz sumida,
É o subir a baixar a vida.
O negrume do céu que baixa e clama,
Aos jardins para lhes regar a chama,
O mundo novo nos espera um só aceno,
As vozes de rebate entram em combate ameno.
E o grito audaz da revolta,
É o espirito sereno que solta.
Os rouxinóis enlevados na saudade,
Que se quedem no desleixo da obscuridade,
Felizes, desgraçadas, e sem idade!....
(In livro Culpas Mortais)
797
Murillo Mendes
O Filho do Século
Nunca mais andarei de bicicleta
Nem conversarei no portão
Com meninas de cabelos cacheados
Adeus valsa "Danúbio Azul"
Adeus tardes preguiçosas
Adeus cheiros do mundo sambas
Adeus puro amor
Atirei ao fogo a medalhinha da Virgem
Não tenho forças para gritar um grande grito
Cairei no chão do século vinte
Aguardem-me lá fora
As multidões famintas justiceiras
Sujeitos com gases venenosos
É a hora das barricadas
É a hora da fuzilamento, da raiva maior
Os vivos pedem vingança
Os mortos minerais vegetais pedem vingança
É a hora do protesto geral
É a hora dos vôos destruidores
É a hora das barricadas, dos fuzilamentos
Fomes desejos ânsias sonhos perdidos,
Misérias de todos os países uni-vos
Fogem a galope os anjos-aviões
Carregando o cálice da esperança
Tempo espaço firmes porque me abandonastes.
Nem conversarei no portão
Com meninas de cabelos cacheados
Adeus valsa "Danúbio Azul"
Adeus tardes preguiçosas
Adeus cheiros do mundo sambas
Adeus puro amor
Atirei ao fogo a medalhinha da Virgem
Não tenho forças para gritar um grande grito
Cairei no chão do século vinte
Aguardem-me lá fora
As multidões famintas justiceiras
Sujeitos com gases venenosos
É a hora das barricadas
É a hora da fuzilamento, da raiva maior
Os vivos pedem vingança
Os mortos minerais vegetais pedem vingança
É a hora do protesto geral
É a hora dos vôos destruidores
É a hora das barricadas, dos fuzilamentos
Fomes desejos ânsias sonhos perdidos,
Misérias de todos os países uni-vos
Fogem a galope os anjos-aviões
Carregando o cálice da esperança
Tempo espaço firmes porque me abandonastes.
1 330
Mario Ribeiro Martins
Obire Et Vincere
Vate exaltado, cuja força vibra,
no peito alegre, forte e encorajado.
O denodo mentor da tua fibra,
há de fazer-te sempre admirado.
Se em tua mão, ó homem, se equilibra,
a pena má, origem do pecado,
não deixes, com o vigor da tua fibra,
executar sequer um pontilhado.
Famoso menestrel de que me ufano,
as conquistas do teu esforço humano
serão eternamente inspiração.
O teu desejo de enfrentar a vida,
a luta ardente pra vencer a lida
SÃO FORÇAS VIVAS DO TEU CORAÇÃO.
no peito alegre, forte e encorajado.
O denodo mentor da tua fibra,
há de fazer-te sempre admirado.
Se em tua mão, ó homem, se equilibra,
a pena má, origem do pecado,
não deixes, com o vigor da tua fibra,
executar sequer um pontilhado.
Famoso menestrel de que me ufano,
as conquistas do teu esforço humano
serão eternamente inspiração.
O teu desejo de enfrentar a vida,
a luta ardente pra vencer a lida
SÃO FORÇAS VIVAS DO TEU CORAÇÃO.
937
Mario Ribeiro Martins
Sonhador
Eu sou um sonhador, apaixonado,
mendigo alheio da felicidade.
Meu coração deveras traspassado,
parece não sentir a mocidade.
Quando alguém me pergunta: FOSTE AMADO?
Eu lhe respondo com sinceridade:
Eu sou um sonhador, apaixonado,
mendigo alheio da felicidade.
Eu já busquei amor entre os amores
e caminhei hostil, sofrendo dores,
perdido na miséria e corrução.
mendigo alheio da felicidade.
Meu coração deveras traspassado,
parece não sentir a mocidade.
Quando alguém me pergunta: FOSTE AMADO?
Eu lhe respondo com sinceridade:
Eu sou um sonhador, apaixonado,
mendigo alheio da felicidade.
Eu já busquei amor entre os amores
e caminhei hostil, sofrendo dores,
perdido na miséria e corrução.
1 146