Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Maria Aparecida Reis Araújo
Chuva de Outono
Olhos centrados na tarde
reponho crenças
perdidas na multidão.
Vigília que se parte e se fragmenta
ostentando espelhos onde me guardo
entre rosários e perdas
entre salmos e buscas.
O que importa no momento
é sustentar o ouro da fantasia
e escutar o canto leve da chuva.
Do outono que lava a alma e eterniza.
reponho crenças
perdidas na multidão.
Vigília que se parte e se fragmenta
ostentando espelhos onde me guardo
entre rosários e perdas
entre salmos e buscas.
O que importa no momento
é sustentar o ouro da fantasia
e escutar o canto leve da chuva.
Do outono que lava a alma e eterniza.
1 081
Maria Aparecida Reis Araújo
Palavras
O poeta se esconde na falácia dos ventos, nos nódulos do tempo, no perfume das essências, em urdiduras do mar e espraia seu canto de nostalgia e pânico submersos. Abre janelas e colhe neblina com efervescência de sol, num vôo sutil de borboletas.
Pastor e peregrino arrebanha palavras e lapida silêncios. Sobreleva à cantiga de estrelas a chuva polindo o âmago da terra - solidão de pedras, criando silos em corpos de argila. Bebendo o desvairado vinho da lucidez, entorna réstias de luz nos estertores da alma.
Pastor e peregrino arrebanha palavras e lapida silêncios. Sobreleva à cantiga de estrelas a chuva polindo o âmago da terra - solidão de pedras, criando silos em corpos de argila. Bebendo o desvairado vinho da lucidez, entorna réstias de luz nos estertores da alma.
962
Marcos A. P. Ribeiro
Splen da Tecnologia
Presença apenas pressentida.
Ainda invisível.
A seguir, o odor - o enxofre
que antecede o demônio.
O detetor de movimentos registra avanço de todas as
direções: 40, 30, 20 metros...
A materialização: monstros sob forma de louva-a-deus,
verde-negros, úmidos; verdadeiros apanágios.
Em círculos, mas não atacam.
Transformam-se sem estátuas. Você também.
Se olharão eternamente nos olhos.
Ainda invisível.
A seguir, o odor - o enxofre
que antecede o demônio.
O detetor de movimentos registra avanço de todas as
direções: 40, 30, 20 metros...
A materialização: monstros sob forma de louva-a-deus,
verde-negros, úmidos; verdadeiros apanágios.
Em círculos, mas não atacam.
Transformam-se sem estátuas. Você também.
Se olharão eternamente nos olhos.
1 001
Marco Antônio de Souza
O Som do Poeta
O que foi feito das palavras ?
Quando voltarão a ser versos ?
O poeta perdeu a razão,
ou passou a não usá-la ?
Um ano, ou quase, do último texto !
Último texto ?
Ou último riso ?
Ou último gemido ?
Se a alegria pode ser som
porque não a tristeza... silêncio
Quando voltarão a ser versos ?
O poeta perdeu a razão,
ou passou a não usá-la ?
Um ano, ou quase, do último texto !
Último texto ?
Ou último riso ?
Ou último gemido ?
Se a alegria pode ser som
porque não a tristeza... silêncio
1 072
Marco Antônio de Souza
O Som do Poeta
O que foi feito das palavras ?
Quando voltarão a ser versos ?
O poeta perdeu a razão,
ou passou a não usá-la ?
Um ano, ou quase, do último texto !
Último texto ?
Ou último riso ?
Ou último gemido ?
Se a alegria pode ser som
porque não a tristeza... silêncio
Quando voltarão a ser versos ?
O poeta perdeu a razão,
ou passou a não usá-la ?
Um ano, ou quase, do último texto !
Último texto ?
Ou último riso ?
Ou último gemido ?
Se a alegria pode ser som
porque não a tristeza... silêncio
1 072
Marta Gonçalves
A Voz de Meus Cata-ventos
"A Voz de Meus Cata-ventos", de Marco Antonio Souza, traz o vento de um bom texto. O interesse pela leitura, a liberdade ornamental das palavras formam poemas sínteses onde o ordinário da vida cresce a árvore da criatividade. Os elementos usados na composição são de uma solidez unânime. O fluir da filosofia veste de linho as palavras. Marco Antonio se põe a pintar o avô no poema "Morto": "Avô Alírio e as nódoas roxas/ no cavo rosto e flácido corpo,/ deitado e sem siso,/ mais agônico, mais morto." Daí decorre o domínio da pintura abrindo os olhos para o "eu" do poeta. Este "eu" transfigura o irreal no real das coisas perenes.
Marco Antonio faz um seletivo de temáticas abrindo um leque transcendental de conhecimentos exigidos na arte poética. Se de todo os poemas não se mostram na primeira leitura, o leitor descobre a evolução de imagens, a paisagem, a captação mineral silábica dos versos. Do poema "Hora Absurda": "Certos anzóis/ fisgam almas como a servidas hóstias: / Satã." A expressão absurda é uma constante na poesia de Marco Antonio Souza. Uma alquimia descobre o avesso da alma, do corpo, das mãos do poeta. Os vegetais estão presentes e germinam nos lábios. Símbolos, o arbitrário, o inovado, cromatizam a fala. O livro é invadido pelo estado de consciência. O breve poema "O Doente" é de uma realidade tocante: "Cosme cruel, o náusea,/ vestia-se de sujo e já era morto/ com assombradas luas revisitadas pela loucura.
Abandono da pessoa humana ganha amplitude e dualização visual na estrutura poética. Anjos, quintais, horas, avô, flores, figuras, alma, náuseas, sonhos criam uma anatomia. O retrato do poeta já marca o artista dentro do texto. "A Voz de Meus Cata-ventos" indaga o tempo no relógio da sala. Banha o mar interior do leitor, caracterizando um discurso a que não podemos ficar indiferentes. A solidão que encontramos na leitura dos poemas é um exemplo de forma aberta a muitas releituras. A palavra deve ser recebida no silêncio. Almejamos, de certo modo, um andamento ao livro em toda sua conclusão.
Marco Antonio faz um seletivo de temáticas abrindo um leque transcendental de conhecimentos exigidos na arte poética. Se de todo os poemas não se mostram na primeira leitura, o leitor descobre a evolução de imagens, a paisagem, a captação mineral silábica dos versos. Do poema "Hora Absurda": "Certos anzóis/ fisgam almas como a servidas hóstias: / Satã." A expressão absurda é uma constante na poesia de Marco Antonio Souza. Uma alquimia descobre o avesso da alma, do corpo, das mãos do poeta. Os vegetais estão presentes e germinam nos lábios. Símbolos, o arbitrário, o inovado, cromatizam a fala. O livro é invadido pelo estado de consciência. O breve poema "O Doente" é de uma realidade tocante: "Cosme cruel, o náusea,/ vestia-se de sujo e já era morto/ com assombradas luas revisitadas pela loucura.
Abandono da pessoa humana ganha amplitude e dualização visual na estrutura poética. Anjos, quintais, horas, avô, flores, figuras, alma, náuseas, sonhos criam uma anatomia. O retrato do poeta já marca o artista dentro do texto. "A Voz de Meus Cata-ventos" indaga o tempo no relógio da sala. Banha o mar interior do leitor, caracterizando um discurso a que não podemos ficar indiferentes. A solidão que encontramos na leitura dos poemas é um exemplo de forma aberta a muitas releituras. A palavra deve ser recebida no silêncio. Almejamos, de certo modo, um andamento ao livro em toda sua conclusão.
1 103
Murillo Araújo
Canção da Lua que Lava
Canzone Della Luna Lavandaia
tradução: Anton Angelo Chiocchio
Lua, que lavas teus linhos,
sempre a lavar
numa lixívia de nuvens,
branca, branquinha de espuma,
e escorres tudo lá no alto
para secar;
lua que lavas teus linhos
pelos valados maninhos,
na serra onde vai nevar;
oh lua alagando o mundo
nesta espuma de cegar!
lua que lavas teus linhos
e que os enxáguas
e os pões em qualquer lugar —
nos terraços lageados,
nos velhos muros caiados,
nos laranjais do pomar
ou nos campos orvalhados
onde estão a gotejar —
lua que lavas teus linhos
até nas praias do mar —
vem, lua, e lava minha alma!
Oh lava minha alma em lágrimas,
para que Deus, sol das almas,
venha a enxugar.
O luna che fai il bucato,
luna, luna lavandaia
in una schiuma di nuvole
candida come liscivia
e stendi i panni là in cima
a candeggiare...
O luna che fai il bucato
pei fòssi incolti, pei monti
su cui sta per nevicare...
Luna che schizzi sul mondo
saponata da accecare...
O luna che fai il bucato
e lo risciacqui,
lo sciorini dappertutto,
su terrazzi lastricati,
vecchi muri intonacati,
aranceti, campi intrisi
di rugiada, a gocciolare...
O luna che fai il bucato
sin sulle spiagge del mare...
Luna, lava la mia anima!
Vieni, lavala di lagrime,
perchè Dio, sole dellanime,
poi la venga ad asciugare.
tradução: Anton Angelo Chiocchio
Lua, que lavas teus linhos,
sempre a lavar
numa lixívia de nuvens,
branca, branquinha de espuma,
e escorres tudo lá no alto
para secar;
lua que lavas teus linhos
pelos valados maninhos,
na serra onde vai nevar;
oh lua alagando o mundo
nesta espuma de cegar!
lua que lavas teus linhos
e que os enxáguas
e os pões em qualquer lugar —
nos terraços lageados,
nos velhos muros caiados,
nos laranjais do pomar
ou nos campos orvalhados
onde estão a gotejar —
lua que lavas teus linhos
até nas praias do mar —
vem, lua, e lava minha alma!
Oh lava minha alma em lágrimas,
para que Deus, sol das almas,
venha a enxugar.
O luna che fai il bucato,
luna, luna lavandaia
in una schiuma di nuvole
candida come liscivia
e stendi i panni là in cima
a candeggiare...
O luna che fai il bucato
pei fòssi incolti, pei monti
su cui sta per nevicare...
Luna che schizzi sul mondo
saponata da accecare...
O luna che fai il bucato
e lo risciacqui,
lo sciorini dappertutto,
su terrazzi lastricati,
vecchi muri intonacati,
aranceti, campi intrisi
di rugiada, a gocciolare...
O luna che fai il bucato
sin sulle spiagge del mare...
Luna, lava la mia anima!
Vieni, lavala di lagrime,
perchè Dio, sole dellanime,
poi la venga ad asciugare.
1 037
Marco Antônio de Souza
Prateleiras ao Chão
Fora !
Rejeição total às tradições seculares,
às arcaicas convenções,
aos preconceitos e barreiras ...
Fora !
Abaixo o maniqueísmo de almanaque
que sacraliza o bem e exorciza o mal
como se ambos não fossem
a um só tempo,
faces distintas de moeda única,
inseparáveis,
porque sem valor se apartadas...
Fora !
Abaixo com esta vida de concessões
de pedir licença para ser feliz;
abaixo com este medo de ousar
aventuras de risco em alto mar;
abaixo com o terror sob os lençóis em chamas,
abaixo com o dizer sim
se a vontade soberana impele a vomitar o não...
Fora !
Abaixo com esta economia de sentimentos,
esta poupança no amar;
abaixo com este viver acovardado
atrás das lombadas dos códigos
e constrangido por leis humanas
que aprisionam e amordaçam...
Fora !
Abaixo com o falar baixo ou o não falar,
abaixo com esta vida de eterna sede,
abaixo com a míope vista de não enxergar o mar,
abaixo com a manca perna que não permite sair do lugar...
Fora !
Abaixo com a excessiva gentileza
e com a inesgotável paz;
abaixo com as mentirosas eternas certezas...
Fora !
Abaixo com a valorização das doenças,
a dependência, o servilismo,
abaixo com este vil baixismo...
Sopra além do peito,
além do coração,
além da alma,
maravilhosa lufada de ar bendito
que concebe e faz nascer a liberdade
como única conquista a conquistar...
Rejeição total às tradições seculares,
às arcaicas convenções,
aos preconceitos e barreiras ...
Fora !
Abaixo o maniqueísmo de almanaque
que sacraliza o bem e exorciza o mal
como se ambos não fossem
a um só tempo,
faces distintas de moeda única,
inseparáveis,
porque sem valor se apartadas...
Fora !
Abaixo com esta vida de concessões
de pedir licença para ser feliz;
abaixo com este medo de ousar
aventuras de risco em alto mar;
abaixo com o terror sob os lençóis em chamas,
abaixo com o dizer sim
se a vontade soberana impele a vomitar o não...
Fora !
Abaixo com esta economia de sentimentos,
esta poupança no amar;
abaixo com este viver acovardado
atrás das lombadas dos códigos
e constrangido por leis humanas
que aprisionam e amordaçam...
Fora !
Abaixo com o falar baixo ou o não falar,
abaixo com esta vida de eterna sede,
abaixo com a míope vista de não enxergar o mar,
abaixo com a manca perna que não permite sair do lugar...
Fora !
Abaixo com a excessiva gentileza
e com a inesgotável paz;
abaixo com as mentirosas eternas certezas...
Fora !
Abaixo com a valorização das doenças,
a dependência, o servilismo,
abaixo com este vil baixismo...
Sopra além do peito,
além do coração,
além da alma,
maravilhosa lufada de ar bendito
que concebe e faz nascer a liberdade
como única conquista a conquistar...
1 006
Marigê Quirino Marchini
Os lírios azuis
Os lírios azuis
florescerão nas fendas dos luares
e seus perfis serão portas
onde os duendes chamarão
a ronda mágica
das clareiras cintilantes.
Hansel e Gretel passearão em minha infância.
florescerão nas fendas dos luares
e seus perfis serão portas
onde os duendes chamarão
a ronda mágica
das clareiras cintilantes.
Hansel e Gretel passearão em minha infância.
873
Marigê Quirino Marchini
Viagem
Num pressentir sem bússola e sem âncora
porões, navio fantasma, veios dágua,
negra escotilha, rostos, peixes, luas,
bebem do céu o azul já mareado;
dias de sal trabalham este convés,
içar de vela, albujarrona, mastros,
fiel prendendo em austro vento além
de horizontes, as pérfidas paisagens,
e um capitão Ahab desse sonho,
monstro e dono feroz dessa procura,
ódio e amor, caçado e caçador,
nos profundos corais do cachalote
a bússola a buscar o pólo norte
a âncora a fincar chão nesta loucura
porões, navio fantasma, veios dágua,
negra escotilha, rostos, peixes, luas,
bebem do céu o azul já mareado;
dias de sal trabalham este convés,
içar de vela, albujarrona, mastros,
fiel prendendo em austro vento além
de horizontes, as pérfidas paisagens,
e um capitão Ahab desse sonho,
monstro e dono feroz dessa procura,
ódio e amor, caçado e caçador,
nos profundos corais do cachalote
a bússola a buscar o pólo norte
a âncora a fincar chão nesta loucura
877
Marigê Quirino Marchini
Viagem
Num pressentir sem bússola e sem âncora
porões, navio fantasma, veios dágua,
negra escotilha, rostos, peixes, luas,
bebem do céu o azul já mareado;
dias de sal trabalham este convés,
içar de vela, albujarrona, mastros,
fiel prendendo em austro vento além
de horizontes, as pérfidas paisagens,
e um capitão Ahab desse sonho,
monstro e dono feroz dessa procura,
ódio e amor, caçado e caçador,
nos profundos corais do cachalote
a bússola a buscar o pólo norte
a âncora a fincar chão nesta loucura
porões, navio fantasma, veios dágua,
negra escotilha, rostos, peixes, luas,
bebem do céu o azul já mareado;
dias de sal trabalham este convés,
içar de vela, albujarrona, mastros,
fiel prendendo em austro vento além
de horizontes, as pérfidas paisagens,
e um capitão Ahab desse sonho,
monstro e dono feroz dessa procura,
ódio e amor, caçado e caçador,
nos profundos corais do cachalote
a bússola a buscar o pólo norte
a âncora a fincar chão nesta loucura
877
Márcio de Sousa Andrade
Outro Navio Negreiro
Embala o poema a bala da tragédia
testemunho supremo
murmúrio de vozes miúdas.
— Canta Castro Alves,
o lamento profundo
da lembrança covarde
filhos do acaso e da realidade.
Homens do mar, homens da terra
ocultos da vida
nos cultos desgraçados...
Apagaram as luzes da cidade
e dos campos sob antenas de TV.
Nos morros, nos alagados, nos becos
(os quilombos)
tremulam pálidas bandeiras
de onde virão outros palmares.
— Venha poeta!
mãos dadas, cantos unidos,
trompa certa e plena
a cantar para o grande povo
esses,
filhos da usura
perdidos na noite
comendo esperanças
pelos olhos,
chorando necessidades...
E as páginas da história
confessam a podre missão
estandarte macabro e sinistro
carregando o pranto de todos.
Deus,
Que águas navegamos
que turfas marés navegamos
que a brisa beija e balança
e morremos todos sem qualquer
esperança.
testemunho supremo
murmúrio de vozes miúdas.
— Canta Castro Alves,
o lamento profundo
da lembrança covarde
filhos do acaso e da realidade.
Homens do mar, homens da terra
ocultos da vida
nos cultos desgraçados...
Apagaram as luzes da cidade
e dos campos sob antenas de TV.
Nos morros, nos alagados, nos becos
(os quilombos)
tremulam pálidas bandeiras
de onde virão outros palmares.
— Venha poeta!
mãos dadas, cantos unidos,
trompa certa e plena
a cantar para o grande povo
esses,
filhos da usura
perdidos na noite
comendo esperanças
pelos olhos,
chorando necessidades...
E as páginas da história
confessam a podre missão
estandarte macabro e sinistro
carregando o pranto de todos.
Deus,
Que águas navegamos
que turfas marés navegamos
que a brisa beija e balança
e morremos todos sem qualquer
esperança.
957
Marco Antônio de Souza
Radiografia
Em mim a alegria é fugaz
e no limiar dos bons momentos
eu já prevejo o fantasma de seu fim;
em mim o riso franco é fraco,
o peito aberto é incerto,
a angústia e o medo dão-se as mãos;
a esperança tem medo de entrar
pois chega, bate à porta
e eu a mando embora...
e no limiar dos bons momentos
eu já prevejo o fantasma de seu fim;
em mim o riso franco é fraco,
o peito aberto é incerto,
a angústia e o medo dão-se as mãos;
a esperança tem medo de entrar
pois chega, bate à porta
e eu a mando embora...
1 068
Marco Antônio de Souza
Radiografia
Em mim a alegria é fugaz
e no limiar dos bons momentos
eu já prevejo o fantasma de seu fim;
em mim o riso franco é fraco,
o peito aberto é incerto,
a angústia e o medo dão-se as mãos;
a esperança tem medo de entrar
pois chega, bate à porta
e eu a mando embora...
e no limiar dos bons momentos
eu já prevejo o fantasma de seu fim;
em mim o riso franco é fraco,
o peito aberto é incerto,
a angústia e o medo dão-se as mãos;
a esperança tem medo de entrar
pois chega, bate à porta
e eu a mando embora...
1 068
Marco Antônio de Souza
Radiografia
Em mim a alegria é fugaz
e no limiar dos bons momentos
eu já prevejo o fantasma de seu fim;
em mim o riso franco é fraco,
o peito aberto é incerto,
a angústia e o medo dão-se as mãos;
a esperança tem medo de entrar
pois chega, bate à porta
e eu a mando embora...
e no limiar dos bons momentos
eu já prevejo o fantasma de seu fim;
em mim o riso franco é fraco,
o peito aberto é incerto,
a angústia e o medo dão-se as mãos;
a esperança tem medo de entrar
pois chega, bate à porta
e eu a mando embora...
1 068
Maria Aparecida Reis Araújo
Vigília
Quietude repensa abrigos
e acorda o coração velejando
rumos da memória.
De porosidade a vida filtra
o tempo
desertando a saga de abrolhos.
E estira canções de efervescência
nos meandros da paz.
e acorda o coração velejando
rumos da memória.
De porosidade a vida filtra
o tempo
desertando a saga de abrolhos.
E estira canções de efervescência
nos meandros da paz.
953
Marco Antônio Rosa
Fortaleza
Fortaleza, Fortaleza,
já quase quites então:
quantos turistas
fazem uma cidade,
com quantas ausências
se faz solidão?
já quase quites então:
quantos turistas
fazem uma cidade,
com quantas ausências
se faz solidão?
907
Maria Aparecida Reis Araújo
Rotina
Na rotina das noites o inverno da flor
oxida maxilares do tempo.
Sigilo de areia entranhada
no suor da lida.
Circuito das horas em roteiros de âncoras
rompe silêncios de aridez e púrpura.
oxida maxilares do tempo.
Sigilo de areia entranhada
no suor da lida.
Circuito das horas em roteiros de âncoras
rompe silêncios de aridez e púrpura.
960
Marigê Quirino Marchini
No Convés
Onírico senhor de mar e guerra,
no convés a aguardar, a desejar
o dia. A luz do dia azul sirene
do século que abrande outro viver.
Não importam cordames nem cardumes,
água límpida ou fogo que o alaga,
se é verdade ou delírio o que ele enxerga;
em vez de um só corsário, submarinos.
Sabendo haver a paz e muitas guerras
por outros quês, no entanto, desespera:
o que fazer se a sorte em vão o aguarda?
Num segundo de dúvida espumante
não sente que o destino o assinala,
qual outro capitão, o cachalote.
no convés a aguardar, a desejar
o dia. A luz do dia azul sirene
do século que abrande outro viver.
Não importam cordames nem cardumes,
água límpida ou fogo que o alaga,
se é verdade ou delírio o que ele enxerga;
em vez de um só corsário, submarinos.
Sabendo haver a paz e muitas guerras
por outros quês, no entanto, desespera:
o que fazer se a sorte em vão o aguarda?
Num segundo de dúvida espumante
não sente que o destino o assinala,
qual outro capitão, o cachalote.
699
Maria Aparecida Reis Araújo
Passos
Do exílio à execração
o tempo se extingue
abrindo caminho de urzes.
do lenho à caída, holocausto
sangra sudário suor e sede.
E desde a profecia sem limites, o amor.
o tempo se extingue
abrindo caminho de urzes.
do lenho à caída, holocausto
sangra sudário suor e sede.
E desde a profecia sem limites, o amor.
972
Marigê Quirino Marchini
República Celeste da Poesia
Aquática e translúcida Veneza,
arquétipo insulano, passional,
do Adriático a núbil Dogaresa,
lunissolar pintura do irreal,
em ti me construindo astral poema
de celestial cidade em tua finura,
por ele te habitar, Amor me emblema
com centelhas de íntima ternura,
põe em Veneza e em mim a geometria
de uns altos picos, recendendo a lume,
loura noite que náutica alumia,
por águas de salinas violetas
fosforece dos sonhos o cardume,
fixa a cidade, giram-me os planetas.
- III -
Água e eu, este dom, dádiva inteira
como Veneza, tu, Domus antiga,
se rodeamos, sonho, a cumeeira
silvestre nos perfuma a lua cheia.
O luar de Vivaldi, mensageiro,
atravessando o céu em suas estrelas
e o seu caminho é o mesmo que o de Amor,
angelical paixão é a lua cheia.
O luar de Vivaldi e cancioneiros
damore é demorado o seu perfume,
silvestre é o deslizar dos gondoleiros,
silvestre a doação, que faço inteira,
como Laguna e Golfo e doce lume,
à angelical paixão da lua cheia.
- VI -
Em arquipélago, amoráveis ilhas,
raia Veneza em água, alacridade,
cortam seus pulsos, lendas, maravilhas
de um latejar de sol e mocidade.
De palavras celeste viração
agita lentamente os seus canais,
e tudo flui em ondas e canção,
perpassa em flauta o vento seus murais.
Enquanto um celestial texto eu vou lendo,
reflexos nágua e lírica poesia,
já vai Amor em brasa me escrevendo
e mais já fere Amor em seus enganos,
com sua perfídia, fogo e maresia,
do que a gentil cidade em desenganos.
arquétipo insulano, passional,
do Adriático a núbil Dogaresa,
lunissolar pintura do irreal,
em ti me construindo astral poema
de celestial cidade em tua finura,
por ele te habitar, Amor me emblema
com centelhas de íntima ternura,
põe em Veneza e em mim a geometria
de uns altos picos, recendendo a lume,
loura noite que náutica alumia,
por águas de salinas violetas
fosforece dos sonhos o cardume,
fixa a cidade, giram-me os planetas.
- III -
Água e eu, este dom, dádiva inteira
como Veneza, tu, Domus antiga,
se rodeamos, sonho, a cumeeira
silvestre nos perfuma a lua cheia.
O luar de Vivaldi, mensageiro,
atravessando o céu em suas estrelas
e o seu caminho é o mesmo que o de Amor,
angelical paixão é a lua cheia.
O luar de Vivaldi e cancioneiros
damore é demorado o seu perfume,
silvestre é o deslizar dos gondoleiros,
silvestre a doação, que faço inteira,
como Laguna e Golfo e doce lume,
à angelical paixão da lua cheia.
- VI -
Em arquipélago, amoráveis ilhas,
raia Veneza em água, alacridade,
cortam seus pulsos, lendas, maravilhas
de um latejar de sol e mocidade.
De palavras celeste viração
agita lentamente os seus canais,
e tudo flui em ondas e canção,
perpassa em flauta o vento seus murais.
Enquanto um celestial texto eu vou lendo,
reflexos nágua e lírica poesia,
já vai Amor em brasa me escrevendo
e mais já fere Amor em seus enganos,
com sua perfídia, fogo e maresia,
do que a gentil cidade em desenganos.
970
Marcus Accioly
Latinoamérica
Round 22
Fórceps
madre América minha (minha madre)
às vezes no teu seio (quando sofro
por coragem não ter de ser covarde)
ânsias sinto de estar ou ser de novo
no teu útero (sim) na intimidade
capaz de me fechar (como em um ovo
dentro de ti) por isso é natural
que me coloque em posição fetal
(sim) encolho meu peito até os joelhos
puxados com os dois braços (sem falar
vou boiando das chamas dos teus pêlos
ao teu ventre redondo feito o mar)
nado em tua placenta onde os vermelhos
lençóis do sangue tentam me dobrar
em suas dobras (madre) e sou o filho
que religa o cordão ao próprio umbigo
(ai quando o pensamento cega o sonho
ou o sonho quer mentalizar o mundo)
quando eu me reconheço tão estranho
que fecho os olhos para ver mais fundo
(madre minha) eu me curvo enquanto ponho
toda a cabeça em tua vulva e afundo
(à semelhança do avestruz) por dentro
do fim e do começo do teu centro
(em ti posso esconder-me de mim mesmo)
sou o menino que era no teu colo
(mas perdeu a saúde e está enfermo
de tanto suplicar o teu consolo)
eu quero ser (mesmo empurrado a ferro
como um bolo-de-carne ou feito um rolo-
de-sangue) igual a um feto que se esforce
a entrar em ti sob invertido fórceps
Fórceps
madre América minha (minha madre)
às vezes no teu seio (quando sofro
por coragem não ter de ser covarde)
ânsias sinto de estar ou ser de novo
no teu útero (sim) na intimidade
capaz de me fechar (como em um ovo
dentro de ti) por isso é natural
que me coloque em posição fetal
(sim) encolho meu peito até os joelhos
puxados com os dois braços (sem falar
vou boiando das chamas dos teus pêlos
ao teu ventre redondo feito o mar)
nado em tua placenta onde os vermelhos
lençóis do sangue tentam me dobrar
em suas dobras (madre) e sou o filho
que religa o cordão ao próprio umbigo
(ai quando o pensamento cega o sonho
ou o sonho quer mentalizar o mundo)
quando eu me reconheço tão estranho
que fecho os olhos para ver mais fundo
(madre minha) eu me curvo enquanto ponho
toda a cabeça em tua vulva e afundo
(à semelhança do avestruz) por dentro
do fim e do começo do teu centro
(em ti posso esconder-me de mim mesmo)
sou o menino que era no teu colo
(mas perdeu a saúde e está enfermo
de tanto suplicar o teu consolo)
eu quero ser (mesmo empurrado a ferro
como um bolo-de-carne ou feito um rolo-
de-sangue) igual a um feto que se esforce
a entrar em ti sob invertido fórceps
2 021
Murillo Araújo
Toada do Negro do Banzo
Negro —
quando cava, quando cansa,
quando pula, quando tomba,
quando grita, quando dança,
quando brinca, quando zomba
sente gana de chorá...
Negro —
quando nasce, quando cresce,
quando luta, quando corre,
quando sobe, quando desce,
quando véve, quando morre
negro pena sem pará...
Negro, aponta o ponto —
ai Umbanda!
ginga tonto, tonto —
ai Umbanda!
Negro aponta: Oôu!
Negra nua, nua —
ai Umbanda!
toma a bença à lua —
ai Umbanda!
samba nua... Oôu!
Xangô!
Meu céu secureceu.
Exú me despachou...
Calunga me prendeu...
Xangô! Xangô! Xangô!
Meu rancho se acabou...
Meu reino — mar levou...
Meu bem morêu... morreu.
Negro —
negro chora, negro samba
na macumba do quilombo,
com malafo pra moamba
dando bumba no ribombo!
do urucungo e do ganzá!
Negro —
cae no congo, cae no congo,
dos mirongas ao muganga,
todo o bando nesse jongo...
roda, negro — roda a tanga
chora banzo no gongá.
Negro aponta o ponto —
ai Umbanda!
ginga tonto, tonto —
ai Umbanda!
Negro aponta: Oôu!
Se Xangô chegasse...
ai Umbanda!
E me carregasse —
ai Umbanda!
Coisa boa... Oôu!
quando cava, quando cansa,
quando pula, quando tomba,
quando grita, quando dança,
quando brinca, quando zomba
sente gana de chorá...
Negro —
quando nasce, quando cresce,
quando luta, quando corre,
quando sobe, quando desce,
quando véve, quando morre
negro pena sem pará...
Negro, aponta o ponto —
ai Umbanda!
ginga tonto, tonto —
ai Umbanda!
Negro aponta: Oôu!
Negra nua, nua —
ai Umbanda!
toma a bença à lua —
ai Umbanda!
samba nua... Oôu!
Xangô!
Meu céu secureceu.
Exú me despachou...
Calunga me prendeu...
Xangô! Xangô! Xangô!
Meu rancho se acabou...
Meu reino — mar levou...
Meu bem morêu... morreu.
Negro —
negro chora, negro samba
na macumba do quilombo,
com malafo pra moamba
dando bumba no ribombo!
do urucungo e do ganzá!
Negro —
cae no congo, cae no congo,
dos mirongas ao muganga,
todo o bando nesse jongo...
roda, negro — roda a tanga
chora banzo no gongá.
Negro aponta o ponto —
ai Umbanda!
ginga tonto, tonto —
ai Umbanda!
Negro aponta: Oôu!
Se Xangô chegasse...
ai Umbanda!
E me carregasse —
ai Umbanda!
Coisa boa... Oôu!
1 606
Marigê Quirino Marchini
Sonetos Venezianos
Melhora Amor, sorrindo, amor que tenho:
deste resto salino de lembranças
forma lagunas e o molhado lenho,
gôndolas que antecipam as bonanças;
do som e acorde, cores e aláude,
faz um quarteto de perfeita dor,
por onde, navegando em beatitude
de Veneza, em acústico langor
as vibrações nos ares geram paz,
vitrais em claridade bizantina
- abre-se o sol em círculos, refaz,
de lembranças salinas, de saudade,
Amor se espelha nágua cristalina,
dourados picos, rútila cidade.
deste resto salino de lembranças
forma lagunas e o molhado lenho,
gôndolas que antecipam as bonanças;
do som e acorde, cores e aláude,
faz um quarteto de perfeita dor,
por onde, navegando em beatitude
de Veneza, em acústico langor
as vibrações nos ares geram paz,
vitrais em claridade bizantina
- abre-se o sol em círculos, refaz,
de lembranças salinas, de saudade,
Amor se espelha nágua cristalina,
dourados picos, rútila cidade.
1 101