Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Hildeberto Abreu Magalhães
Vice-Verso
I
Não canso nunca de dizer (a mim mesmo!)
que a tua sanidade é a medida
da minha loucura e vice-versa,
que vice eu o sofrimento teu, sentindo
alegria? E meu verso transparente
opaculasse tua com versa? Não meço,
não me despeço, porque prefiro ficar.
Não aqui, vem comigo, voar longe do abrigo,
rimar perante abismos transponíveis:
perante deve ser per, antes mesmo de
chegar a algum lugar, que não aqui.
Não agora, deixa pra agora o amor e o vagar,
deixa ficar solto que mais preso sentiu.
O agora eu não vi passar,
foi-se já? O vice-momento.
Antes já era quase, quase ninguém sabe...
Continuo sentindo o coração bater, e
como os primatas, tenho ânsia de voz
em minha boca amarga, sabe-me o enjôo
do grito entranhado; eu sinto, sinto
muito; não me é dado saber antes do
que eu estou sentindo, saber só depois
de agora, do vice-verso.
Do tempo congelado na imagem, do âmbito
pouco convencional do estado primordial,
do drama banal do instante completa-
mente perdido.
Ai! de mim que me é dado sentir antes
de saber, depois,
que sentir é, que ver foi,
que toco sempre em estar com tigo.
II
Desprezo-me por ti, não me magoes, pois
já magôo-me, não sofras por uma unha
quebrada na junta da porta (ai!), não
temas a tua morte, sê forte; se morrer
antes é pior, quero o pior para mim.
Por quê querer manter a dormência?
Antes um prazer manso, que dor é
sinal de acidente e eu nasci pra ser
cientista, e um cientista hedônico, de
ver a humanidade sem reflexão e
chorar vertiginosamente, se esconder
embaixo da cama.
Eis! Há um enigma para cada cabeça
de Medusa que Perseu corta, há vá-
rios de espelhos refletem imagens:
Eis! os segredos dos enigmas revelados!
Será que um Deus merece julgamento?
Antes tarde que nunca? Adam-eterno
quer as profundidades vertiginosas
do ser, ou prefere a superfície
da posse? Será que eu nunca senti
tanto medo quanto
agora?
Medo, medo, necessitamos urgentes
deixar ao medo seu pequeno fardo,
seu descuido exagerado; agora! do it.
Tempo congelado, frio, congela e resseca,
ressaca e temporal: virá o sol,
o rei do degelo, conterá o ritmo
das águas em sua luz, trará!
Não canso nunca de dizer (a mim mesmo!)
que a tua sanidade é a medida
da minha loucura e vice-versa,
que vice eu o sofrimento teu, sentindo
alegria? E meu verso transparente
opaculasse tua com versa? Não meço,
não me despeço, porque prefiro ficar.
Não aqui, vem comigo, voar longe do abrigo,
rimar perante abismos transponíveis:
perante deve ser per, antes mesmo de
chegar a algum lugar, que não aqui.
Não agora, deixa pra agora o amor e o vagar,
deixa ficar solto que mais preso sentiu.
O agora eu não vi passar,
foi-se já? O vice-momento.
Antes já era quase, quase ninguém sabe...
Continuo sentindo o coração bater, e
como os primatas, tenho ânsia de voz
em minha boca amarga, sabe-me o enjôo
do grito entranhado; eu sinto, sinto
muito; não me é dado saber antes do
que eu estou sentindo, saber só depois
de agora, do vice-verso.
Do tempo congelado na imagem, do âmbito
pouco convencional do estado primordial,
do drama banal do instante completa-
mente perdido.
Ai! de mim que me é dado sentir antes
de saber, depois,
que sentir é, que ver foi,
que toco sempre em estar com tigo.
II
Desprezo-me por ti, não me magoes, pois
já magôo-me, não sofras por uma unha
quebrada na junta da porta (ai!), não
temas a tua morte, sê forte; se morrer
antes é pior, quero o pior para mim.
Por quê querer manter a dormência?
Antes um prazer manso, que dor é
sinal de acidente e eu nasci pra ser
cientista, e um cientista hedônico, de
ver a humanidade sem reflexão e
chorar vertiginosamente, se esconder
embaixo da cama.
Eis! Há um enigma para cada cabeça
de Medusa que Perseu corta, há vá-
rios de espelhos refletem imagens:
Eis! os segredos dos enigmas revelados!
Será que um Deus merece julgamento?
Antes tarde que nunca? Adam-eterno
quer as profundidades vertiginosas
do ser, ou prefere a superfície
da posse? Será que eu nunca senti
tanto medo quanto
agora?
Medo, medo, necessitamos urgentes
deixar ao medo seu pequeno fardo,
seu descuido exagerado; agora! do it.
Tempo congelado, frio, congela e resseca,
ressaca e temporal: virá o sol,
o rei do degelo, conterá o ritmo
das águas em sua luz, trará!
1 052
Hélder Muteia
Presença
Sou dos que ainda estão presentes
e bebem do amor a única ausência.
Quantos pedaços de mentiras
retenho na viscosidade do meu cuspo?
Quantas verdades apaixonadas
reclamam ansiosas o esperma das palavras?
Nenhumas, talvez, nenhumas...
escravizo o silêncio
e faço dele o meu mensageiro.
Estou presente em tudo ou mais
e aí onde me procurarem
será a minha próxima ausência.
e bebem do amor a única ausência.
Quantos pedaços de mentiras
retenho na viscosidade do meu cuspo?
Quantas verdades apaixonadas
reclamam ansiosas o esperma das palavras?
Nenhumas, talvez, nenhumas...
escravizo o silêncio
e faço dele o meu mensageiro.
Estou presente em tudo ou mais
e aí onde me procurarem
será a minha próxima ausência.
1 396
Henrique Castriciano
Febre
Por toda a parte rosas brancas vejo...
Rosas na fímbria loira dos Altares,
Coroadas de amor e de desejo...
Rosas no céu e rosas nos pomares.
Uma roseira o mês de Maio. Aos pares
Surgem, da brisa ao tremulante arpejo,
Estrelas que recordam, sobre os mares,
Rosas envoltas num cerúleo beijo.
E quando Rosa, em cujo nome chora
Esta febre cruel que me devora,
De si me fala, em gargalhadas francas,
Muda-se em rosa a flor de meus martírios,
O som de sua voz, a luz dos círios...
O próprio Azul desfaz-se em rosas brancas.
Rosas na fímbria loira dos Altares,
Coroadas de amor e de desejo...
Rosas no céu e rosas nos pomares.
Uma roseira o mês de Maio. Aos pares
Surgem, da brisa ao tremulante arpejo,
Estrelas que recordam, sobre os mares,
Rosas envoltas num cerúleo beijo.
E quando Rosa, em cujo nome chora
Esta febre cruel que me devora,
De si me fala, em gargalhadas francas,
Muda-se em rosa a flor de meus martírios,
O som de sua voz, a luz dos círios...
O próprio Azul desfaz-se em rosas brancas.
1 886
Gerimaldo Nunes
Considerações
Meus olhos
em Curitiba
eram bicho do mato
esperando
o bote da cascavel João Pessoa, 1981
em Curitiba
eram bicho do mato
esperando
o bote da cascavel João Pessoa, 1981
840
Gerimaldo Nunes
Considerações
Meus olhos
em Curitiba
eram bicho do mato
esperando
o bote da cascavel João Pessoa, 1981
em Curitiba
eram bicho do mato
esperando
o bote da cascavel João Pessoa, 1981
840
Gabriel Archanjo de Mendonça
Aclive
A montanha
é um convite obstinado
da consciência.
A antevisão da posse
compensa os sobressaltos
da escalada.
Oh, a vertigem do inusitado.
Os pés se ferem
na ferrugem de agulhas
regeladas.
Avalanchas de pranto
rolando estrepitosamente
entulham gargantas
escancaradas.
é um convite obstinado
da consciência.
A antevisão da posse
compensa os sobressaltos
da escalada.
Oh, a vertigem do inusitado.
Os pés se ferem
na ferrugem de agulhas
regeladas.
Avalanchas de pranto
rolando estrepitosamente
entulham gargantas
escancaradas.
879
Gentil Braga
O Orvalho
Nas flores mimosas, nas folhas virentes
Da planta, do arbusto, que surge do chão,
Reúnem-se as gotas do orvalho nitentes,
Tombadas à noite da aérea soidão.
Provindas dos ares, dos astros caídas
Em globos argênteos de um puro brilhar,
Descansam nas flores, às plantas dão vida,
Remontam-se aos astros, erguendo-se ao ar.
A luz das estrelas, do vidro mais fino
O trêmulo, incerto, brilhante luzir,
Não tem mor beleza, fulgor mais divino,
Nem pode mais claro, mais belo fulgir.
E o sol, que rutila no manto dourado,
Feitura sublime das nuvens do céu,
Beijando estas gotas com um beijo inflamado,
Desfaz tais prodígios nos beijos que deu.
Quem foi que as vertera, quem foi que as chorara?
Quem, límpido orvalho, do céu vos lançou?
Quem pôs sobre a terra beleza tão rara?
Quem foi que nos ares o orvalho formou?
Dos anjos, que outrora baixaram da esfera,
Morada longínqua dos anjos de Deus,
São prantos o orvalho, que o amor os vertera,
Depois que perdidos volveram-se aos céus.
Baixados à terra sedentos de amores
Gozaram delícias de um breve durar;
Depois em lembrança dos tempos melhores
Os anjos à noite costumam chorar.
E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal;
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.
E os anjos sozinhos vagueiam no espaço,
Buscando as imagens, que o céu lhes roubou,
Seguidos das nuvens, do lúcido traço,
Que o brilho das asas tras eles deixou.
E a voz, que dos lábios lhes sai suspirante,
Semelha um queixume pungente de dor;
E o ar, que circula girando incessante,
Repete os suspiros só filhos do amor.
Em vão tais suspiros, tão tristes endeixas,
Pesares tão fundos são todos em vão!
Ninguém os escuta; carpidos ou queixas
Vai tudo sumido na etérea soidão.
E os anjos, que outrora viveram de amores,
Gozando delícias de extremos sem-par,
Saudosos relembram seus tempos melhores,
E tem por consolo seu triste chorar.
E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal,
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.
Da planta, do arbusto, que surge do chão,
Reúnem-se as gotas do orvalho nitentes,
Tombadas à noite da aérea soidão.
Provindas dos ares, dos astros caídas
Em globos argênteos de um puro brilhar,
Descansam nas flores, às plantas dão vida,
Remontam-se aos astros, erguendo-se ao ar.
A luz das estrelas, do vidro mais fino
O trêmulo, incerto, brilhante luzir,
Não tem mor beleza, fulgor mais divino,
Nem pode mais claro, mais belo fulgir.
E o sol, que rutila no manto dourado,
Feitura sublime das nuvens do céu,
Beijando estas gotas com um beijo inflamado,
Desfaz tais prodígios nos beijos que deu.
Quem foi que as vertera, quem foi que as chorara?
Quem, límpido orvalho, do céu vos lançou?
Quem pôs sobre a terra beleza tão rara?
Quem foi que nos ares o orvalho formou?
Dos anjos, que outrora baixaram da esfera,
Morada longínqua dos anjos de Deus,
São prantos o orvalho, que o amor os vertera,
Depois que perdidos volveram-se aos céus.
Baixados à terra sedentos de amores
Gozaram delícias de um breve durar;
Depois em lembrança dos tempos melhores
Os anjos à noite costumam chorar.
E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal;
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.
E os anjos sozinhos vagueiam no espaço,
Buscando as imagens, que o céu lhes roubou,
Seguidos das nuvens, do lúcido traço,
Que o brilho das asas tras eles deixou.
E a voz, que dos lábios lhes sai suspirante,
Semelha um queixume pungente de dor;
E o ar, que circula girando incessante,
Repete os suspiros só filhos do amor.
Em vão tais suspiros, tão tristes endeixas,
Pesares tão fundos são todos em vão!
Ninguém os escuta; carpidos ou queixas
Vai tudo sumido na etérea soidão.
E os anjos, que outrora viveram de amores,
Gozando delícias de extremos sem-par,
Saudosos relembram seus tempos melhores,
E tem por consolo seu triste chorar.
E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal,
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.
2 426
Gentil Braga
O Orvalho
Nas flores mimosas, nas folhas virentes
Da planta, do arbusto, que surge do chão,
Reúnem-se as gotas do orvalho nitentes,
Tombadas à noite da aérea soidão.
Provindas dos ares, dos astros caídas
Em globos argênteos de um puro brilhar,
Descansam nas flores, às plantas dão vida,
Remontam-se aos astros, erguendo-se ao ar.
A luz das estrelas, do vidro mais fino
O trêmulo, incerto, brilhante luzir,
Não tem mor beleza, fulgor mais divino,
Nem pode mais claro, mais belo fulgir.
E o sol, que rutila no manto dourado,
Feitura sublime das nuvens do céu,
Beijando estas gotas com um beijo inflamado,
Desfaz tais prodígios nos beijos que deu.
Quem foi que as vertera, quem foi que as chorara?
Quem, límpido orvalho, do céu vos lançou?
Quem pôs sobre a terra beleza tão rara?
Quem foi que nos ares o orvalho formou?
Dos anjos, que outrora baixaram da esfera,
Morada longínqua dos anjos de Deus,
São prantos o orvalho, que o amor os vertera,
Depois que perdidos volveram-se aos céus.
Baixados à terra sedentos de amores
Gozaram delícias de um breve durar;
Depois em lembrança dos tempos melhores
Os anjos à noite costumam chorar.
E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal;
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.
E os anjos sozinhos vagueiam no espaço,
Buscando as imagens, que o céu lhes roubou,
Seguidos das nuvens, do lúcido traço,
Que o brilho das asas tras eles deixou.
E a voz, que dos lábios lhes sai suspirante,
Semelha um queixume pungente de dor;
E o ar, que circula girando incessante,
Repete os suspiros só filhos do amor.
Em vão tais suspiros, tão tristes endeixas,
Pesares tão fundos são todos em vão!
Ninguém os escuta; carpidos ou queixas
Vai tudo sumido na etérea soidão.
E os anjos, que outrora viveram de amores,
Gozando delícias de extremos sem-par,
Saudosos relembram seus tempos melhores,
E tem por consolo seu triste chorar.
E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal,
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.
Da planta, do arbusto, que surge do chão,
Reúnem-se as gotas do orvalho nitentes,
Tombadas à noite da aérea soidão.
Provindas dos ares, dos astros caídas
Em globos argênteos de um puro brilhar,
Descansam nas flores, às plantas dão vida,
Remontam-se aos astros, erguendo-se ao ar.
A luz das estrelas, do vidro mais fino
O trêmulo, incerto, brilhante luzir,
Não tem mor beleza, fulgor mais divino,
Nem pode mais claro, mais belo fulgir.
E o sol, que rutila no manto dourado,
Feitura sublime das nuvens do céu,
Beijando estas gotas com um beijo inflamado,
Desfaz tais prodígios nos beijos que deu.
Quem foi que as vertera, quem foi que as chorara?
Quem, límpido orvalho, do céu vos lançou?
Quem pôs sobre a terra beleza tão rara?
Quem foi que nos ares o orvalho formou?
Dos anjos, que outrora baixaram da esfera,
Morada longínqua dos anjos de Deus,
São prantos o orvalho, que o amor os vertera,
Depois que perdidos volveram-se aos céus.
Baixados à terra sedentos de amores
Gozaram delícias de um breve durar;
Depois em lembrança dos tempos melhores
Os anjos à noite costumam chorar.
E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal;
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.
E os anjos sozinhos vagueiam no espaço,
Buscando as imagens, que o céu lhes roubou,
Seguidos das nuvens, do lúcido traço,
Que o brilho das asas tras eles deixou.
E a voz, que dos lábios lhes sai suspirante,
Semelha um queixume pungente de dor;
E o ar, que circula girando incessante,
Repete os suspiros só filhos do amor.
Em vão tais suspiros, tão tristes endeixas,
Pesares tão fundos são todos em vão!
Ninguém os escuta; carpidos ou queixas
Vai tudo sumido na etérea soidão.
E os anjos, que outrora viveram de amores,
Gozando delícias de extremos sem-par,
Saudosos relembram seus tempos melhores,
E tem por consolo seu triste chorar.
E o pranto saudoso dos olhos vertido
Converte-se em chuva de fino cristal,
Procura das flores o cálice querido,
Recai sobre as plantas do monte ou do val.
2 426
Glícia Rodrigues
Nada
Num dia cinza
Mais triste que uma vida triste
Peguei uma cebola
Meticulosamente tirei
Capa por capa
Querendo descobrir não sei quê
Desmanchei-a cuidadosamente
Para nada machucar
Não chorei
Também não choveu
Como das outras vezes aprontei o jantar
E nada absolutamente nada aconteceu
E a noite continuou coma a mesma triste dor.
Mais triste que uma vida triste
Peguei uma cebola
Meticulosamente tirei
Capa por capa
Querendo descobrir não sei quê
Desmanchei-a cuidadosamente
Para nada machucar
Não chorei
Também não choveu
Como das outras vezes aprontei o jantar
E nada absolutamente nada aconteceu
E a noite continuou coma a mesma triste dor.
858
Glícia Rodrigues
Nada
Num dia cinza
Mais triste que uma vida triste
Peguei uma cebola
Meticulosamente tirei
Capa por capa
Querendo descobrir não sei quê
Desmanchei-a cuidadosamente
Para nada machucar
Não chorei
Também não choveu
Como das outras vezes aprontei o jantar
E nada absolutamente nada aconteceu
E a noite continuou coma a mesma triste dor.
Mais triste que uma vida triste
Peguei uma cebola
Meticulosamente tirei
Capa por capa
Querendo descobrir não sei quê
Desmanchei-a cuidadosamente
Para nada machucar
Não chorei
Também não choveu
Como das outras vezes aprontei o jantar
E nada absolutamente nada aconteceu
E a noite continuou coma a mesma triste dor.
858
Glícia Rodrigues
Nada
Num dia cinza
Mais triste que uma vida triste
Peguei uma cebola
Meticulosamente tirei
Capa por capa
Querendo descobrir não sei quê
Desmanchei-a cuidadosamente
Para nada machucar
Não chorei
Também não choveu
Como das outras vezes aprontei o jantar
E nada absolutamente nada aconteceu
E a noite continuou coma a mesma triste dor.
Mais triste que uma vida triste
Peguei uma cebola
Meticulosamente tirei
Capa por capa
Querendo descobrir não sei quê
Desmanchei-a cuidadosamente
Para nada machucar
Não chorei
Também não choveu
Como das outras vezes aprontei o jantar
E nada absolutamente nada aconteceu
E a noite continuou coma a mesma triste dor.
858
Glícia Rodrigues
Jantar
A mesa farta
Era como se estivesse vazia
Esvaziada de afeto
Refletindo nas taças
O nada que continham.
Era como se o banquete fosse
Para fantasmas
Ninguém falava, ninguém amava
Só o mastigar.
No silêncio se ouvia
Prestando mais atenção
Uma certa sofreguidão.
Era como se estivesse vazia
Esvaziada de afeto
Refletindo nas taças
O nada que continham.
Era como se o banquete fosse
Para fantasmas
Ninguém falava, ninguém amava
Só o mastigar.
No silêncio se ouvia
Prestando mais atenção
Uma certa sofreguidão.
898
Glícia Rodrigues
Jantar
A mesa farta
Era como se estivesse vazia
Esvaziada de afeto
Refletindo nas taças
O nada que continham.
Era como se o banquete fosse
Para fantasmas
Ninguém falava, ninguém amava
Só o mastigar.
No silêncio se ouvia
Prestando mais atenção
Uma certa sofreguidão.
Era como se estivesse vazia
Esvaziada de afeto
Refletindo nas taças
O nada que continham.
Era como se o banquete fosse
Para fantasmas
Ninguém falava, ninguém amava
Só o mastigar.
No silêncio se ouvia
Prestando mais atenção
Uma certa sofreguidão.
898
Flávia Wanderley
As sombras da noite
As sombras da noite
São como fantasmas,
que nos perseguem quando crianças
São como vultos,
que nos assustam de relance
São como anjos,
que nos buscam na hora de descansar
É nossa imaginação
que brinca conosco
como crianças
que brincam de "pique".
Pique-tá
Pique-pega
Pique-esconde
Está dentro de nós
a nossa vontade de sonhar
e realizar ...
Pega-nos peça, de surpresa
como se fossemos brinquedo
um brinquedo do mundo
do mundo do faz-de-conta.
Esconde-se atrás de um olhar
como nos faz pensar
que não somos mais crianças
mais ainda podemos sonhar...
São como fantasmas,
que nos perseguem quando crianças
São como vultos,
que nos assustam de relance
São como anjos,
que nos buscam na hora de descansar
É nossa imaginação
que brinca conosco
como crianças
que brincam de "pique".
Pique-tá
Pique-pega
Pique-esconde
Está dentro de nós
a nossa vontade de sonhar
e realizar ...
Pega-nos peça, de surpresa
como se fossemos brinquedo
um brinquedo do mundo
do mundo do faz-de-conta.
Esconde-se atrás de um olhar
como nos faz pensar
que não somos mais crianças
mais ainda podemos sonhar...
881
Almeida Garrett
Rosa e Lírio
A rosaÉ formosaPor que lhe chamam — florDamorNão sei.
A florBem de amorÉ o lírioTem mel no aroma, —dorNa corO lírio.
Se o cheiroÉ fagueiroNa rosa,Se é de beleza — morPrimorA rosa,
No lírioO martírioQue é meuPintado vejo: — cor E ardor É o meu.
A rosa É formosa,Bem sei...E será de outros florDamor ..Não sei.
A florBem de amorÉ o lírioTem mel no aroma, —dorNa corO lírio.
Se o cheiroÉ fagueiroNa rosa,Se é de beleza — morPrimorA rosa,
No lírioO martírioQue é meuPintado vejo: — cor E ardor É o meu.
A rosa É formosa,Bem sei...E será de outros florDamor ..Não sei.
3 890
Gabriela Cunha Melo Cavalcanti
A Palavra
A palavra é matéria. A palavra tem forma física. A palavra tem som. A palavra de Adélia Prado. A palavra de Drummond. A palavra do direito. A que libertou navios negreiros.. .A palavra universal, que fez poemas clássicos, prosas sociais, romances realistas. A palavra apalavrada, silenciada, a que continua no coração do poeta. Palavra! Oh! Palavra! Concedei-me a permissão, honrosa concessão, para utilizar-me de ti, sem restrições. Sob tua forma quero falar um pouco da minha solidão.
1 086
Goulart Gomes
Algaravia
o que se sabe de mim
é que roubo palavras ao vento
roubo horas ao tempo
e imagens à película:
sou um ladrão de cutículas
redentor de movimentos
coleciono momentos
em pequeninas partículas;
assalto estórias perdidas
e o que não sei, invento —
quixote e moinhos de vento
habitam-me alternados
caminheiro de atalhos
ignoro as desditas
e é o que basta dizer:
que componho versos sem métrica
e desconheço estilos
falo do que não entendo
e calo o que não consinto
aborreço o meu dia
e alimento a gaveta
de papéis escrevinhados
de outra tanta algaravia
que nos despe de encantos
e reclama melodia
noutro tempo, outro canto
e outro tanto se cria
ao falar velhas palavras
tédio... é meio-dia
quando os ponteiros se encontram
e príncipes desencantam
de coaxos já cansados
por beijos de lindas donzelas
... mas isto é já outro caso
(também de amor, mas sonhado)
que não nos compete falar.
tédio... é meia-noite
e lobisomens se encantam
de uivos agoniados
por pragas e maldições;
e a lua vai se deitar
em leitos de outros ladrões
é que roubo palavras ao vento
roubo horas ao tempo
e imagens à película:
sou um ladrão de cutículas
redentor de movimentos
coleciono momentos
em pequeninas partículas;
assalto estórias perdidas
e o que não sei, invento —
quixote e moinhos de vento
habitam-me alternados
caminheiro de atalhos
ignoro as desditas
e é o que basta dizer:
que componho versos sem métrica
e desconheço estilos
falo do que não entendo
e calo o que não consinto
aborreço o meu dia
e alimento a gaveta
de papéis escrevinhados
de outra tanta algaravia
que nos despe de encantos
e reclama melodia
noutro tempo, outro canto
e outro tanto se cria
ao falar velhas palavras
tédio... é meio-dia
quando os ponteiros se encontram
e príncipes desencantam
de coaxos já cansados
por beijos de lindas donzelas
... mas isto é já outro caso
(também de amor, mas sonhado)
que não nos compete falar.
tédio... é meia-noite
e lobisomens se encantam
de uivos agoniados
por pragas e maldições;
e a lua vai se deitar
em leitos de outros ladrões
1 094
Gabriel Archanjo de Mendonça
Segredo
Eu quis depositar o meu segredo
nas tuas mãos de brasa
e desnudar minha alma ressequida
ante a crepitação de teus olhos.
Mas o vento
que me embalava o sonho
e que me trouxe a teus pés
soprou o sol
que forrava a tua imagem
e a noite se fez.
Que o vento
vomite as cinzas de meu sonho
por sobre a realidade
do meu leito.
nas tuas mãos de brasa
e desnudar minha alma ressequida
ante a crepitação de teus olhos.
Mas o vento
que me embalava o sonho
e que me trouxe a teus pés
soprou o sol
que forrava a tua imagem
e a noite se fez.
Que o vento
vomite as cinzas de meu sonho
por sobre a realidade
do meu leito.
923
Gabriel Archanjo de Mendonça
Segredo
Eu quis depositar o meu segredo
nas tuas mãos de brasa
e desnudar minha alma ressequida
ante a crepitação de teus olhos.
Mas o vento
que me embalava o sonho
e que me trouxe a teus pés
soprou o sol
que forrava a tua imagem
e a noite se fez.
Que o vento
vomite as cinzas de meu sonho
por sobre a realidade
do meu leito.
nas tuas mãos de brasa
e desnudar minha alma ressequida
ante a crepitação de teus olhos.
Mas o vento
que me embalava o sonho
e que me trouxe a teus pés
soprou o sol
que forrava a tua imagem
e a noite se fez.
Que o vento
vomite as cinzas de meu sonho
por sobre a realidade
do meu leito.
923
Gabriel Archanjo de Mendonça
Sêmen
Não quero poluir
os lírios do campo
com minhas entranhas.
A concha encravada
no estrado dos mares
contenha as sombras estéreis
da minha matéria.
O fruto impossível
do amor impassível
aguarde por sempre
seu tempo de vida.
A inerte semente
que habita o meu sangue
desfaça-se em gotas
para acrescer o mistério
do abismo das águas.
os lírios do campo
com minhas entranhas.
A concha encravada
no estrado dos mares
contenha as sombras estéreis
da minha matéria.
O fruto impossível
do amor impassível
aguarde por sempre
seu tempo de vida.
A inerte semente
que habita o meu sangue
desfaça-se em gotas
para acrescer o mistério
do abismo das águas.
963
Gabriel Archanjo de Mendonça
Sêmen
Não quero poluir
os lírios do campo
com minhas entranhas.
A concha encravada
no estrado dos mares
contenha as sombras estéreis
da minha matéria.
O fruto impossível
do amor impassível
aguarde por sempre
seu tempo de vida.
A inerte semente
que habita o meu sangue
desfaça-se em gotas
para acrescer o mistério
do abismo das águas.
os lírios do campo
com minhas entranhas.
A concha encravada
no estrado dos mares
contenha as sombras estéreis
da minha matéria.
O fruto impossível
do amor impassível
aguarde por sempre
seu tempo de vida.
A inerte semente
que habita o meu sangue
desfaça-se em gotas
para acrescer o mistério
do abismo das águas.
963
Gabriel Archanjo de Mendonça
Desencanto
O sonho realizado
acomodou-se preguiçosamente
na lua da rede
e foi cuidar
por tempo de sesta
na digestão burguesa.
Que o sonho futuro
por mais que sonhado
não passe de sonho.
acomodou-se preguiçosamente
na lua da rede
e foi cuidar
por tempo de sesta
na digestão burguesa.
Que o sonho futuro
por mais que sonhado
não passe de sonho.
873
Gilberto Avelino
No Inverno
A forte chuva cessara
E vinha chegando
o frio
escondido nos ventos.
Sobre o silêncio
das ramas,
em azul e verde,
giravam
os vaga-lumes.
À beira do açude —
transbordando,
a feliz e incessante
cantiga dos sapos
louvando
as águas.
Sob o frio,
o úmido frio da noite,
ouviam-se pássaros
piando
em sons de arco-íris.
A casa grande,
em cor
de ocre e vermelho,
com as abertas
janelas
ao nascente.
E do açude cheio
chegava
o longo cheiro
dos águas-pés
florando.
Os teus olhos acresciam-se
de densa ternura;
e nós
nos buscávamos
com a ardência
do fogo.
E vinha chegando
o frio
escondido nos ventos.
Sobre o silêncio
das ramas,
em azul e verde,
giravam
os vaga-lumes.
À beira do açude —
transbordando,
a feliz e incessante
cantiga dos sapos
louvando
as águas.
Sob o frio,
o úmido frio da noite,
ouviam-se pássaros
piando
em sons de arco-íris.
A casa grande,
em cor
de ocre e vermelho,
com as abertas
janelas
ao nascente.
E do açude cheio
chegava
o longo cheiro
dos águas-pés
florando.
Os teus olhos acresciam-se
de densa ternura;
e nós
nos buscávamos
com a ardência
do fogo.
1 051
Gilberto Avelino
No Inverno
A forte chuva cessara
E vinha chegando
o frio
escondido nos ventos.
Sobre o silêncio
das ramas,
em azul e verde,
giravam
os vaga-lumes.
À beira do açude —
transbordando,
a feliz e incessante
cantiga dos sapos
louvando
as águas.
Sob o frio,
o úmido frio da noite,
ouviam-se pássaros
piando
em sons de arco-íris.
A casa grande,
em cor
de ocre e vermelho,
com as abertas
janelas
ao nascente.
E do açude cheio
chegava
o longo cheiro
dos águas-pés
florando.
Os teus olhos acresciam-se
de densa ternura;
e nós
nos buscávamos
com a ardência
do fogo.
E vinha chegando
o frio
escondido nos ventos.
Sobre o silêncio
das ramas,
em azul e verde,
giravam
os vaga-lumes.
À beira do açude —
transbordando,
a feliz e incessante
cantiga dos sapos
louvando
as águas.
Sob o frio,
o úmido frio da noite,
ouviam-se pássaros
piando
em sons de arco-íris.
A casa grande,
em cor
de ocre e vermelho,
com as abertas
janelas
ao nascente.
E do açude cheio
chegava
o longo cheiro
dos águas-pés
florando.
Os teus olhos acresciam-se
de densa ternura;
e nós
nos buscávamos
com a ardência
do fogo.
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