Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Ana Garrett
Poder Cósmico
Poder cósmico tem esse teu olhar,
terno e macio como nunca.
Envolvente em estrelhas a brilhar,
fazendo-me querer voltar atrás.
Não me olhes como fazes.
Fico parada a olhar-te também,
torturada e porém,
tentada a abraçar-te.
Ah...se eu pudesse
dár-te o céu em recompensa,
não havia quem mais bem te fizesse.
É disto e daquilo, vês,
que me lembro a cada instante,
ter-te junto de mim, constante
e muito ausente.
Pudera eu recuperar essas horas
faria tudo, tudo sem demoras.
Salvar-te-ia, amor, dessa gente.
E hoje é apenas igual a ontem,
sem mais sentimentos.
Os dias passam ao meu lado indiferentes.
Perdi a minha Rosa dos Ventos...
terno e macio como nunca.
Envolvente em estrelhas a brilhar,
fazendo-me querer voltar atrás.
Não me olhes como fazes.
Fico parada a olhar-te também,
torturada e porém,
tentada a abraçar-te.
Ah...se eu pudesse
dár-te o céu em recompensa,
não havia quem mais bem te fizesse.
É disto e daquilo, vês,
que me lembro a cada instante,
ter-te junto de mim, constante
e muito ausente.
Pudera eu recuperar essas horas
faria tudo, tudo sem demoras.
Salvar-te-ia, amor, dessa gente.
E hoje é apenas igual a ontem,
sem mais sentimentos.
Os dias passam ao meu lado indiferentes.
Perdi a minha Rosa dos Ventos...
824
Ana Garrett
Poder Cósmico
Poder cósmico tem esse teu olhar,
terno e macio como nunca.
Envolvente em estrelhas a brilhar,
fazendo-me querer voltar atrás.
Não me olhes como fazes.
Fico parada a olhar-te também,
torturada e porém,
tentada a abraçar-te.
Ah...se eu pudesse
dár-te o céu em recompensa,
não havia quem mais bem te fizesse.
É disto e daquilo, vês,
que me lembro a cada instante,
ter-te junto de mim, constante
e muito ausente.
Pudera eu recuperar essas horas
faria tudo, tudo sem demoras.
Salvar-te-ia, amor, dessa gente.
E hoje é apenas igual a ontem,
sem mais sentimentos.
Os dias passam ao meu lado indiferentes.
Perdi a minha Rosa dos Ventos...
terno e macio como nunca.
Envolvente em estrelhas a brilhar,
fazendo-me querer voltar atrás.
Não me olhes como fazes.
Fico parada a olhar-te também,
torturada e porém,
tentada a abraçar-te.
Ah...se eu pudesse
dár-te o céu em recompensa,
não havia quem mais bem te fizesse.
É disto e daquilo, vês,
que me lembro a cada instante,
ter-te junto de mim, constante
e muito ausente.
Pudera eu recuperar essas horas
faria tudo, tudo sem demoras.
Salvar-te-ia, amor, dessa gente.
E hoje é apenas igual a ontem,
sem mais sentimentos.
Os dias passam ao meu lado indiferentes.
Perdi a minha Rosa dos Ventos...
824
Ana Garrett
Entre o ser ou o não ser
Entre o ser ou o não ser
escolho o ter
medo de te ver assim,
num sossego pálido
e tranquilo demais.
De entre todas as armas
escolho aquelas,
lindas rosas amarelas,
pintadas timidamente
nos teus imponentes vitrais.
escolho o ter
medo de te ver assim,
num sossego pálido
e tranquilo demais.
De entre todas as armas
escolho aquelas,
lindas rosas amarelas,
pintadas timidamente
nos teus imponentes vitrais.
936
Gilberto Gil
Domingo no parque
O rei da brincadeira
Ê, José
O rei da confusão
Ê, João
Um trabalhava na feira
Ê, José
Outro na construção
Ê, João
A semana passada, no fim da semana João resolveu não
brigar
No domingo de tardem saiu apressado
E não foi pra ribeira jogar capoeira
Não foi prá lá
Pra ribeira foi namorar
O José como sempre no fim da semana
Guardou a barraca e sumiu
Foi fazer no domingo um passeio no parque
Lá parto da boca do rio
Foi no parque que ele avistou Juliana foi que ele viu
Foi que ele viu Juliana na roda com João
Uma rosa e um sorvete na mão Juliana, seu sonho
Uma ilusão Juliana e o amigo João
O espinho da rosa feriu Zé
Feriu Zé, feriu Zé
E o sorvete gelou seu coração
O sorvete e a rosa
Oi, José
A rosa e o sorvete
Oi, José
Oi, dançando no peito
Oi, José
Do José brincalhão
Oi José
O sorvetee a rosa
Oi, José
A rosa e o sorvete
Oi, José
Oi, girando na mente
Oi, José
Do José brincalhão
Oi, José
Juliana girando
Oi, girando
Oi, na roda gigante
Oi, gorando
Oi, na roda gigante
Oi, girando
O amigo João João
O sorvete é morango
É vermelho
Oi, girando e a rosa
É vermelha
Oi, girando girando
É vermelha
Oi, girando girando
Olha a faca!
Olha a faca!
Olha o sangue na mão
Ê, José
Juliana no chão,
Ê, José
Outro corpo caído
Ê, José
Seu amigo João
Ê José
Amanhã não tem feira
Ê José
Não tem mais construção
Ê, João
Não tem mais brincadeira
Ê, José
Não tem mais confusão
Ê, João
Ê, ê, ê, ê, ê, ê, ê, ê,
ê...
Ê, José
O rei da confusão
Ê, João
Um trabalhava na feira
Ê, José
Outro na construção
Ê, João
A semana passada, no fim da semana João resolveu não
brigar
No domingo de tardem saiu apressado
E não foi pra ribeira jogar capoeira
Não foi prá lá
Pra ribeira foi namorar
O José como sempre no fim da semana
Guardou a barraca e sumiu
Foi fazer no domingo um passeio no parque
Lá parto da boca do rio
Foi no parque que ele avistou Juliana foi que ele viu
Foi que ele viu Juliana na roda com João
Uma rosa e um sorvete na mão Juliana, seu sonho
Uma ilusão Juliana e o amigo João
O espinho da rosa feriu Zé
Feriu Zé, feriu Zé
E o sorvete gelou seu coração
O sorvete e a rosa
Oi, José
A rosa e o sorvete
Oi, José
Oi, dançando no peito
Oi, José
Do José brincalhão
Oi José
O sorvetee a rosa
Oi, José
A rosa e o sorvete
Oi, José
Oi, girando na mente
Oi, José
Do José brincalhão
Oi, José
Juliana girando
Oi, girando
Oi, na roda gigante
Oi, gorando
Oi, na roda gigante
Oi, girando
O amigo João João
O sorvete é morango
É vermelho
Oi, girando e a rosa
É vermelha
Oi, girando girando
É vermelha
Oi, girando girando
Olha a faca!
Olha a faca!
Olha o sangue na mão
Ê, José
Juliana no chão,
Ê, José
Outro corpo caído
Ê, José
Seu amigo João
Ê José
Amanhã não tem feira
Ê José
Não tem mais construção
Ê, João
Não tem mais brincadeira
Ê, José
Não tem mais confusão
Ê, João
Ê, ê, ê, ê, ê, ê, ê, ê,
ê...
2 206
Geir Campos
Fogueira
Os gnomos do bosque desabotoam
as toscas pelerines de cortiça
forradas com cetim púrpura e ouro:
o mais sanguíneo deles inaugura
um inferno menor, e todos dançam,
enquanto as labaredas tremem como
mãos de noivas sem tálamo, acenando
para o vento cantor que as chora ausentes
— e também chora, nas árvores altas,
a mágoa obscura de não serem flautas.
as toscas pelerines de cortiça
forradas com cetim púrpura e ouro:
o mais sanguíneo deles inaugura
um inferno menor, e todos dançam,
enquanto as labaredas tremem como
mãos de noivas sem tálamo, acenando
para o vento cantor que as chora ausentes
— e também chora, nas árvores altas,
a mágoa obscura de não serem flautas.
1 170
Gaitano Antonaccio
Versos Finais
Meus poemas são doces notas do nosso amor
São aves que gorjeiam no espaço da dor ..
Minhas rimas são rudes frases de acusação,
Sentenças condenatórias de urna paixão ...
Minhas estrofes descrevem o teu perfume
Mas cada sílaba jorra o fel do meu ciúme ...
Não consigo decassilabar meus versos
Nesse teu corpo de infinitos universos!...
Minhas palavras, românticas e teatrais,
Nem no sentimento te encontram mais,
Na poesia que te faço, fico perplexo,
Não consigo despertar amor e sexo
Nem faço amor na poesia que te faço,
E nem consigo amar no teu regaço ...
Meus versos não possuem mais sentido
São apenas saudade de um amor perdido...
São aves que gorjeiam no espaço da dor ..
Minhas rimas são rudes frases de acusação,
Sentenças condenatórias de urna paixão ...
Minhas estrofes descrevem o teu perfume
Mas cada sílaba jorra o fel do meu ciúme ...
Não consigo decassilabar meus versos
Nesse teu corpo de infinitos universos!...
Minhas palavras, românticas e teatrais,
Nem no sentimento te encontram mais,
Na poesia que te faço, fico perplexo,
Não consigo despertar amor e sexo
Nem faço amor na poesia que te faço,
E nem consigo amar no teu regaço ...
Meus versos não possuem mais sentido
São apenas saudade de um amor perdido...
1 096
Gaitano Antonaccio
Versos Finais
Meus poemas são doces notas do nosso amor
São aves que gorjeiam no espaço da dor ..
Minhas rimas são rudes frases de acusação,
Sentenças condenatórias de urna paixão ...
Minhas estrofes descrevem o teu perfume
Mas cada sílaba jorra o fel do meu ciúme ...
Não consigo decassilabar meus versos
Nesse teu corpo de infinitos universos!...
Minhas palavras, românticas e teatrais,
Nem no sentimento te encontram mais,
Na poesia que te faço, fico perplexo,
Não consigo despertar amor e sexo
Nem faço amor na poesia que te faço,
E nem consigo amar no teu regaço ...
Meus versos não possuem mais sentido
São apenas saudade de um amor perdido...
São aves que gorjeiam no espaço da dor ..
Minhas rimas são rudes frases de acusação,
Sentenças condenatórias de urna paixão ...
Minhas estrofes descrevem o teu perfume
Mas cada sílaba jorra o fel do meu ciúme ...
Não consigo decassilabar meus versos
Nesse teu corpo de infinitos universos!...
Minhas palavras, românticas e teatrais,
Nem no sentimento te encontram mais,
Na poesia que te faço, fico perplexo,
Não consigo despertar amor e sexo
Nem faço amor na poesia que te faço,
E nem consigo amar no teu regaço ...
Meus versos não possuem mais sentido
São apenas saudade de um amor perdido...
1 096
Gilberto Diener
Rio bagagem
Agreste, agreste canção
Que fala dos moleques
No rio tomando banho,
Caçando passarinho
Pelas estradas;
O rio era um quintal
Moleques banhando.
Canção da terra;
Dois corações
Podem ser felizes.
Tinha um negrinho, tiziu,
Sua risada espantava a passarada;
No seu coração, guardava um segredo:
Moça dos seus olhos
Tinha cabelos como espiga de milho;
Um sonho tão forte na noite
Onde a lua clareia
E reflete no Bagagem
A sua mocidade...
Um amor tão impossível
Não tem cura;
Duas raças tão puras
Não se podem misturar.
Nos dias que vadiava pela cidade,
Aspirava fundo o cheiro,
Alegria súbita de ver
Seus olhos claros;
Ao seu encontro a terra estremecia,
Sua risada espantava a passarada,
Um veneno exalava dos olhos nas janelas;
A cidade não consente um amor como este.
Banhos de rio, agreste canção;
Velhos amigos, velhos corações
Fez desse amor
A tristeza mais profunda.
E na noite em que os cães latem,
E silenciam instantaneamente...
A cidade prepara sua tocaia,
Seu bote escorraçador;
Ataca e bane velozmente
E, no clarear do dia,
O resto da violência
Se acabou a risada,
Tomou conta a passarada.
Nas noites de estrelas,
Pelo vale nas estradas,
Vem tanger os guaribas;
A terra estremece
Com a sua presença,
Os amigos o abraçam
E relembra a cor dos cabelos
De sua amada, banhos de rio...
Assim quando sopra o vento o milharal
Agreste, agreste canção.
Bahia / 1982
Que fala dos moleques
No rio tomando banho,
Caçando passarinho
Pelas estradas;
O rio era um quintal
Moleques banhando.
Canção da terra;
Dois corações
Podem ser felizes.
Tinha um negrinho, tiziu,
Sua risada espantava a passarada;
No seu coração, guardava um segredo:
Moça dos seus olhos
Tinha cabelos como espiga de milho;
Um sonho tão forte na noite
Onde a lua clareia
E reflete no Bagagem
A sua mocidade...
Um amor tão impossível
Não tem cura;
Duas raças tão puras
Não se podem misturar.
Nos dias que vadiava pela cidade,
Aspirava fundo o cheiro,
Alegria súbita de ver
Seus olhos claros;
Ao seu encontro a terra estremecia,
Sua risada espantava a passarada,
Um veneno exalava dos olhos nas janelas;
A cidade não consente um amor como este.
Banhos de rio, agreste canção;
Velhos amigos, velhos corações
Fez desse amor
A tristeza mais profunda.
E na noite em que os cães latem,
E silenciam instantaneamente...
A cidade prepara sua tocaia,
Seu bote escorraçador;
Ataca e bane velozmente
E, no clarear do dia,
O resto da violência
Se acabou a risada,
Tomou conta a passarada.
Nas noites de estrelas,
Pelo vale nas estradas,
Vem tanger os guaribas;
A terra estremece
Com a sua presença,
Os amigos o abraçam
E relembra a cor dos cabelos
De sua amada, banhos de rio...
Assim quando sopra o vento o milharal
Agreste, agreste canção.
Bahia / 1982
1 020
Flávio Villa-Lobos
Estio
Mar alto, tanto mar... frágil ilha
ondas seculares
azul, vento azul
calafrio de suspirares
água de côco
aldeia de pescadores
canto dos cantares
Nuvens brancas
aves de arribação
vôos rasantes
espumas
na arrebentação
conchas multicores
grãos de areia
infinitos milhares
Praia dos amores
corpos em contracanto
contraceno de bocas
pele a pele
morena cor de jambo
calores
Ode à lua cheia
velas içadas
maré de roldão
emaranhado na rede
brasa no fogo
- peixe bom
fogueira acesa
amena madrugada
- quase canção
vida em paz
voleio dos ventos
- magna estação.
ondas seculares
azul, vento azul
calafrio de suspirares
água de côco
aldeia de pescadores
canto dos cantares
Nuvens brancas
aves de arribação
vôos rasantes
espumas
na arrebentação
conchas multicores
grãos de areia
infinitos milhares
Praia dos amores
corpos em contracanto
contraceno de bocas
pele a pele
morena cor de jambo
calores
Ode à lua cheia
velas içadas
maré de roldão
emaranhado na rede
brasa no fogo
- peixe bom
fogueira acesa
amena madrugada
- quase canção
vida em paz
voleio dos ventos
- magna estação.
891
Gilberto Avelino
Na Piscina
Aquém do mar,
a piscina
de águas azuis.
As sombras,
os ventos,
as mesas,
brancas,
circulando
a piscina.
A suavidade
da água de cocos.
Ou o doce e fino
sabor
da água das fontes,
após
comer-se
a leve gordura dos cascos,
a clara carne
das patas
dos vermelhos
caranguejos cozidos.
Ainda,
a carne seca,
assada nas brasas,
flamejando.
Em copos de cristal,
a tênue espuma
do vinho
branco
ou tinto,
com verdes-azeitonas
boiando.
Enterneciam a manhã
os blues
de Louis Armstrong.
Aquém do mar,
a piscina
de águas azuis.
De repente
vinhas,
a davas ao corpo
a carícia das águas.
Com o exíguo vestir,
em relevo expunhas
ao sol
o viço
da inapagável beleza
do teu corpo.
E do olhar
nasciam-me
salsas enlaçantes.
Não te esqueças,
portanto,
girassol de dezembro,
de que sempre volto
a ver
o azul dessas águas.
a piscina
de águas azuis.
As sombras,
os ventos,
as mesas,
brancas,
circulando
a piscina.
A suavidade
da água de cocos.
Ou o doce e fino
sabor
da água das fontes,
após
comer-se
a leve gordura dos cascos,
a clara carne
das patas
dos vermelhos
caranguejos cozidos.
Ainda,
a carne seca,
assada nas brasas,
flamejando.
Em copos de cristal,
a tênue espuma
do vinho
branco
ou tinto,
com verdes-azeitonas
boiando.
Enterneciam a manhã
os blues
de Louis Armstrong.
Aquém do mar,
a piscina
de águas azuis.
De repente
vinhas,
a davas ao corpo
a carícia das águas.
Com o exíguo vestir,
em relevo expunhas
ao sol
o viço
da inapagável beleza
do teu corpo.
E do olhar
nasciam-me
salsas enlaçantes.
Não te esqueças,
portanto,
girassol de dezembro,
de que sempre volto
a ver
o azul dessas águas.
2 375
Gilberto Avelino
Na Piscina
Aquém do mar,
a piscina
de águas azuis.
As sombras,
os ventos,
as mesas,
brancas,
circulando
a piscina.
A suavidade
da água de cocos.
Ou o doce e fino
sabor
da água das fontes,
após
comer-se
a leve gordura dos cascos,
a clara carne
das patas
dos vermelhos
caranguejos cozidos.
Ainda,
a carne seca,
assada nas brasas,
flamejando.
Em copos de cristal,
a tênue espuma
do vinho
branco
ou tinto,
com verdes-azeitonas
boiando.
Enterneciam a manhã
os blues
de Louis Armstrong.
Aquém do mar,
a piscina
de águas azuis.
De repente
vinhas,
a davas ao corpo
a carícia das águas.
Com o exíguo vestir,
em relevo expunhas
ao sol
o viço
da inapagável beleza
do teu corpo.
E do olhar
nasciam-me
salsas enlaçantes.
Não te esqueças,
portanto,
girassol de dezembro,
de que sempre volto
a ver
o azul dessas águas.
a piscina
de águas azuis.
As sombras,
os ventos,
as mesas,
brancas,
circulando
a piscina.
A suavidade
da água de cocos.
Ou o doce e fino
sabor
da água das fontes,
após
comer-se
a leve gordura dos cascos,
a clara carne
das patas
dos vermelhos
caranguejos cozidos.
Ainda,
a carne seca,
assada nas brasas,
flamejando.
Em copos de cristal,
a tênue espuma
do vinho
branco
ou tinto,
com verdes-azeitonas
boiando.
Enterneciam a manhã
os blues
de Louis Armstrong.
Aquém do mar,
a piscina
de águas azuis.
De repente
vinhas,
a davas ao corpo
a carícia das águas.
Com o exíguo vestir,
em relevo expunhas
ao sol
o viço
da inapagável beleza
do teu corpo.
E do olhar
nasciam-me
salsas enlaçantes.
Não te esqueças,
portanto,
girassol de dezembro,
de que sempre volto
a ver
o azul dessas águas.
2 375
Ana Garrett
Converti-me num lago
Converti-me num lago
travessado por barqueiros sem destino,
e, como uma altiva ave de rapina,
solto-me em gritos e
lanço o meu último gemido.
Numa despedida efémera
cruzo o mundo, alheia, a voar
e das águas serenas que brotam dos meus olhos,
acrescento ao universo mais um mar,
onde iças as tuas velas
e prossegues uma história que foi minha,
a navegar.
travessado por barqueiros sem destino,
e, como uma altiva ave de rapina,
solto-me em gritos e
lanço o meu último gemido.
Numa despedida efémera
cruzo o mundo, alheia, a voar
e das águas serenas que brotam dos meus olhos,
acrescento ao universo mais um mar,
onde iças as tuas velas
e prossegues uma história que foi minha,
a navegar.
850
Glícia Rodrigues
Olhares Cruzados
Abro a janela
Vago o olhar
Sentimentos contidos
Ainda penso ignorar.
Das outras vezes encobri
Limpando a sacada
Regando o vaso
Hoje não
O sol insinua estardalhaço.
Da outra janela
Ele acena diminuindo espaços
Afagando meu corpo
Fingindo abraços.
Vago o olhar
Sentimentos contidos
Ainda penso ignorar.
Das outras vezes encobri
Limpando a sacada
Regando o vaso
Hoje não
O sol insinua estardalhaço.
Da outra janela
Ele acena diminuindo espaços
Afagando meu corpo
Fingindo abraços.
1 006
Glícia Rodrigues
Olhares Cruzados
Abro a janela
Vago o olhar
Sentimentos contidos
Ainda penso ignorar.
Das outras vezes encobri
Limpando a sacada
Regando o vaso
Hoje não
O sol insinua estardalhaço.
Da outra janela
Ele acena diminuindo espaços
Afagando meu corpo
Fingindo abraços.
Vago o olhar
Sentimentos contidos
Ainda penso ignorar.
Das outras vezes encobri
Limpando a sacada
Regando o vaso
Hoje não
O sol insinua estardalhaço.
Da outra janela
Ele acena diminuindo espaços
Afagando meu corpo
Fingindo abraços.
1 006
Gabriela Cunha Melo Cavalcanti
Realidade
Realidade, por que és tão difícil de ser encarada?
Por que fazes questão de mostrar tua face mais amarga, a mais oculta, a mais sacrificada pelo tempo?
O que tens de tão incômodo contra o nosso amigo sonho , que faz-te parecer assim, desagradável?
Será uma necessidade subjetiva tornar-te tão maçante?
Ou faz parte do espetáculo da vida enxergar-te de forma angustiante?
Entre tantas das tuas facetas, carregas sempre contigo a saudade e a melancolia? Carregas sempre contigo a vontade de respeitar uma nova realidade?
Tens, por acaso, espaço para criar? Ou ainda sobrevives naquele medo tão antigo do desejo de mudar?
Terás tu ansiedade de novos conhecimentos?
Ou estás acomodada nas tuas já conhecidas emoções?
Falta-te coragem, caríssima realidade ? E logo tu, que afrontas a todos de maneira ímpia, com tanta volúpia !
Faz a ti mesma esta imensa caridade, procura os "porquês" de tão intensa realidade !!!
Por que fazes questão de mostrar tua face mais amarga, a mais oculta, a mais sacrificada pelo tempo?
O que tens de tão incômodo contra o nosso amigo sonho , que faz-te parecer assim, desagradável?
Será uma necessidade subjetiva tornar-te tão maçante?
Ou faz parte do espetáculo da vida enxergar-te de forma angustiante?
Entre tantas das tuas facetas, carregas sempre contigo a saudade e a melancolia? Carregas sempre contigo a vontade de respeitar uma nova realidade?
Tens, por acaso, espaço para criar? Ou ainda sobrevives naquele medo tão antigo do desejo de mudar?
Terás tu ansiedade de novos conhecimentos?
Ou estás acomodada nas tuas já conhecidas emoções?
Falta-te coragem, caríssima realidade ? E logo tu, que afrontas a todos de maneira ímpia, com tanta volúpia !
Faz a ti mesma esta imensa caridade, procura os "porquês" de tão intensa realidade !!!
1 097
Gabriela Cunha Melo Cavalcanti
Realidade
Realidade, por que és tão difícil de ser encarada?
Por que fazes questão de mostrar tua face mais amarga, a mais oculta, a mais sacrificada pelo tempo?
O que tens de tão incômodo contra o nosso amigo sonho , que faz-te parecer assim, desagradável?
Será uma necessidade subjetiva tornar-te tão maçante?
Ou faz parte do espetáculo da vida enxergar-te de forma angustiante?
Entre tantas das tuas facetas, carregas sempre contigo a saudade e a melancolia? Carregas sempre contigo a vontade de respeitar uma nova realidade?
Tens, por acaso, espaço para criar? Ou ainda sobrevives naquele medo tão antigo do desejo de mudar?
Terás tu ansiedade de novos conhecimentos?
Ou estás acomodada nas tuas já conhecidas emoções?
Falta-te coragem, caríssima realidade ? E logo tu, que afrontas a todos de maneira ímpia, com tanta volúpia !
Faz a ti mesma esta imensa caridade, procura os "porquês" de tão intensa realidade !!!
Por que fazes questão de mostrar tua face mais amarga, a mais oculta, a mais sacrificada pelo tempo?
O que tens de tão incômodo contra o nosso amigo sonho , que faz-te parecer assim, desagradável?
Será uma necessidade subjetiva tornar-te tão maçante?
Ou faz parte do espetáculo da vida enxergar-te de forma angustiante?
Entre tantas das tuas facetas, carregas sempre contigo a saudade e a melancolia? Carregas sempre contigo a vontade de respeitar uma nova realidade?
Tens, por acaso, espaço para criar? Ou ainda sobrevives naquele medo tão antigo do desejo de mudar?
Terás tu ansiedade de novos conhecimentos?
Ou estás acomodada nas tuas já conhecidas emoções?
Falta-te coragem, caríssima realidade ? E logo tu, que afrontas a todos de maneira ímpia, com tanta volúpia !
Faz a ti mesma esta imensa caridade, procura os "porquês" de tão intensa realidade !!!
1 097
Gabriela Cunha Melo Cavalcanti
Realidade
Realidade, por que és tão difícil de ser encarada?
Por que fazes questão de mostrar tua face mais amarga, a mais oculta, a mais sacrificada pelo tempo?
O que tens de tão incômodo contra o nosso amigo sonho , que faz-te parecer assim, desagradável?
Será uma necessidade subjetiva tornar-te tão maçante?
Ou faz parte do espetáculo da vida enxergar-te de forma angustiante?
Entre tantas das tuas facetas, carregas sempre contigo a saudade e a melancolia? Carregas sempre contigo a vontade de respeitar uma nova realidade?
Tens, por acaso, espaço para criar? Ou ainda sobrevives naquele medo tão antigo do desejo de mudar?
Terás tu ansiedade de novos conhecimentos?
Ou estás acomodada nas tuas já conhecidas emoções?
Falta-te coragem, caríssima realidade ? E logo tu, que afrontas a todos de maneira ímpia, com tanta volúpia !
Faz a ti mesma esta imensa caridade, procura os "porquês" de tão intensa realidade !!!
Por que fazes questão de mostrar tua face mais amarga, a mais oculta, a mais sacrificada pelo tempo?
O que tens de tão incômodo contra o nosso amigo sonho , que faz-te parecer assim, desagradável?
Será uma necessidade subjetiva tornar-te tão maçante?
Ou faz parte do espetáculo da vida enxergar-te de forma angustiante?
Entre tantas das tuas facetas, carregas sempre contigo a saudade e a melancolia? Carregas sempre contigo a vontade de respeitar uma nova realidade?
Tens, por acaso, espaço para criar? Ou ainda sobrevives naquele medo tão antigo do desejo de mudar?
Terás tu ansiedade de novos conhecimentos?
Ou estás acomodada nas tuas já conhecidas emoções?
Falta-te coragem, caríssima realidade ? E logo tu, que afrontas a todos de maneira ímpia, com tanta volúpia !
Faz a ti mesma esta imensa caridade, procura os "porquês" de tão intensa realidade !!!
1 097
Carlos Gondim
Maria
No Calvário, Jesus expira. A turbamulta
Desvaira. No estertor, Cristo ainda mais padece
Ante o néscio bramir da multidão, que o insulta,
E o seu magoado olhar, raso dágua, amortece.
Cai a sombra, e o terror gera na plebe inculta,
Que, agora, o árido cerro em muda fila desce.
Trágica, a mais e mais, a sombra cresce e avulta,
Soluça em derredor uma dorida prece,
Desgrenhada, vencendo o monte, na vertigem
Do ascenso, a horrenda cruz finalmente atingia
Aquela que a Jesus gerou no ventre virgem.
Chega, tomba e desmaia... E, de repente, pelas
Alturas, o ermo céu chora a dor de Maria,
Com as lágrimas de luz de todas estrelas!
(Poemas do cárcere, 1923)
Desvaira. No estertor, Cristo ainda mais padece
Ante o néscio bramir da multidão, que o insulta,
E o seu magoado olhar, raso dágua, amortece.
Cai a sombra, e o terror gera na plebe inculta,
Que, agora, o árido cerro em muda fila desce.
Trágica, a mais e mais, a sombra cresce e avulta,
Soluça em derredor uma dorida prece,
Desgrenhada, vencendo o monte, na vertigem
Do ascenso, a horrenda cruz finalmente atingia
Aquela que a Jesus gerou no ventre virgem.
Chega, tomba e desmaia... E, de repente, pelas
Alturas, o ermo céu chora a dor de Maria,
Com as lágrimas de luz de todas estrelas!
(Poemas do cárcere, 1923)
787
Gabriel Archanjo de Mendonça
Virtuose
Na vastidão de bocas desdentadas
a pastoral tange o verniz das pedras
— mas onde o eco?
O cocho transborda teclas
e as falanges se incendeiam
na pira de sons vivaces.
Fundem-se os tons na digestão difícil.
O líquido se evapora
ao contato do solo impermeável.
Nervos cozidos fervilhando à pele
derretem-se em lavas
na pausa conclusiva.
Lábios carbonizados se contraem
cobrando a palma impossível.
a pastoral tange o verniz das pedras
— mas onde o eco?
O cocho transborda teclas
e as falanges se incendeiam
na pira de sons vivaces.
Fundem-se os tons na digestão difícil.
O líquido se evapora
ao contato do solo impermeável.
Nervos cozidos fervilhando à pele
derretem-se em lavas
na pausa conclusiva.
Lábios carbonizados se contraem
cobrando a palma impossível.
835
Gilson Nascimento
Noite de São João
A festa qui nóis fizemo
No convite já dissemo
Mas car ece ispilicá
É pra mode arrelembrá
Do São João que se passou
São João das fogueira grande
Das labareda bunita
Que assubia lá pra riba
Lambendo a cara da noite
Levando junto com ela
O grito das meninada
Os papouco dos foguete
As reza da gente grande
O gargaiá da moçada
São João das bacia dágua
Friinha de fazê gosto
Pra gente oiá bem no fundo
E percurá pela cara
Quando a cara aparecia
Meu Deus, qui sastifação!
A criatura vivia
Inté o outro São João
Mais porém quando essa água
A cara do ente escondia
Valei-me, Virge Maria
Mal sinal, assombração
Pro mode qui a morte vinha
Dizia os véi, os antigo
Com a sua foice bem grande
Antes do outro São João
São João das comida boa
Faz minha boca miná
Cangica, pé-de-moleque
Pamonha, mi, aluá
São João das bomba estourando
Dos busca-pé percurando
Muié mode aperreá
Dos coió e das rodinha
Dos traque, das estrelinha
Quaje sem luz, pobrezinha
Num briava, mais porém
Infeitiçava o oiá
Afiado, afiada
Padrim, madrinha também
Dando volta na fogueira
Com as mão bem agrudada
Dando nó nas amizade
Arrochando os parafuso
Dos amô, das afeição.
São João qui taqui guardado
No meu véio coração
Coração já mei cansado
Mas quinda bate avexado
Toda vez que o calendaro
Me amostra na sua fôia
Que é noite de São João
No convite já dissemo
Mas car ece ispilicá
É pra mode arrelembrá
Do São João que se passou
São João das fogueira grande
Das labareda bunita
Que assubia lá pra riba
Lambendo a cara da noite
Levando junto com ela
O grito das meninada
Os papouco dos foguete
As reza da gente grande
O gargaiá da moçada
São João das bacia dágua
Friinha de fazê gosto
Pra gente oiá bem no fundo
E percurá pela cara
Quando a cara aparecia
Meu Deus, qui sastifação!
A criatura vivia
Inté o outro São João
Mais porém quando essa água
A cara do ente escondia
Valei-me, Virge Maria
Mal sinal, assombração
Pro mode qui a morte vinha
Dizia os véi, os antigo
Com a sua foice bem grande
Antes do outro São João
São João das comida boa
Faz minha boca miná
Cangica, pé-de-moleque
Pamonha, mi, aluá
São João das bomba estourando
Dos busca-pé percurando
Muié mode aperreá
Dos coió e das rodinha
Dos traque, das estrelinha
Quaje sem luz, pobrezinha
Num briava, mais porém
Infeitiçava o oiá
Afiado, afiada
Padrim, madrinha também
Dando volta na fogueira
Com as mão bem agrudada
Dando nó nas amizade
Arrochando os parafuso
Dos amô, das afeição.
São João qui taqui guardado
No meu véio coração
Coração já mei cansado
Mas quinda bate avexado
Toda vez que o calendaro
Me amostra na sua fôia
Que é noite de São João
1 023
Gilberto Diener
Amor Caipirano
Vaga viola, viola cigana a clarear...
Morrer de amor é loucura.
Beira de rio, sol de meio-dia;
Porta aberta a reparar:
As embarcações vão subindo o rio,
Assim como os bichos a desninhar
Na variação das estações,
Vai-se madurando amor à roça...
Tenho pensado com o coração
Na sua vota repentina;
Sua chegada sempre faz estourar as maritacas nos quintais.
Vaga presença, chiar intenso...
Cigarras nas árvores desfolhadas
E nós atracados corpo a corpo,
Feito bichos no cio,
Estalando nas folhas secas...
Amor imenso fazia alastrar queimadas
Por entre jaraguás secos,
Peito ardendo em labaredas...
Morrer assim!!!
Beira de estrada poeirenta
Rostos pálidos na estiagem.
Se acabar assim!!!
Ipês roxeando, amarelando...
Morrer de amor é loucura.
Vaga viola, viola cigana a clarear...
A espera de uma vida toda
Percorrida pelas estiagens e lagoas prateadas,
Na derrubada dos ranchos e matas,
O taquaral era só ventania
E a ventania era só varal
Era uma hora medonha:
Preso ao seu visgo, resistia...
Tudo se recomeçava novamente
E as coisas se punham no lugar.
Amar demais sempre trouxe fortes momentos,
Mas em nenhum instante sequer se desfez a espera;
Sua chegada é marcada
Pelo estouro das maritacas em meu peito.
Alegria de minha vida clareia...
Viola cigana, viola doida varrida...
Amor caipirano.
Bahia / 1982
Morrer de amor é loucura.
Beira de rio, sol de meio-dia;
Porta aberta a reparar:
As embarcações vão subindo o rio,
Assim como os bichos a desninhar
Na variação das estações,
Vai-se madurando amor à roça...
Tenho pensado com o coração
Na sua vota repentina;
Sua chegada sempre faz estourar as maritacas nos quintais.
Vaga presença, chiar intenso...
Cigarras nas árvores desfolhadas
E nós atracados corpo a corpo,
Feito bichos no cio,
Estalando nas folhas secas...
Amor imenso fazia alastrar queimadas
Por entre jaraguás secos,
Peito ardendo em labaredas...
Morrer assim!!!
Beira de estrada poeirenta
Rostos pálidos na estiagem.
Se acabar assim!!!
Ipês roxeando, amarelando...
Morrer de amor é loucura.
Vaga viola, viola cigana a clarear...
A espera de uma vida toda
Percorrida pelas estiagens e lagoas prateadas,
Na derrubada dos ranchos e matas,
O taquaral era só ventania
E a ventania era só varal
Era uma hora medonha:
Preso ao seu visgo, resistia...
Tudo se recomeçava novamente
E as coisas se punham no lugar.
Amar demais sempre trouxe fortes momentos,
Mas em nenhum instante sequer se desfez a espera;
Sua chegada é marcada
Pelo estouro das maritacas em meu peito.
Alegria de minha vida clareia...
Viola cigana, viola doida varrida...
Amor caipirano.
Bahia / 1982
942
Gilberto Diener
Amor Caipirano
Vaga viola, viola cigana a clarear...
Morrer de amor é loucura.
Beira de rio, sol de meio-dia;
Porta aberta a reparar:
As embarcações vão subindo o rio,
Assim como os bichos a desninhar
Na variação das estações,
Vai-se madurando amor à roça...
Tenho pensado com o coração
Na sua vota repentina;
Sua chegada sempre faz estourar as maritacas nos quintais.
Vaga presença, chiar intenso...
Cigarras nas árvores desfolhadas
E nós atracados corpo a corpo,
Feito bichos no cio,
Estalando nas folhas secas...
Amor imenso fazia alastrar queimadas
Por entre jaraguás secos,
Peito ardendo em labaredas...
Morrer assim!!!
Beira de estrada poeirenta
Rostos pálidos na estiagem.
Se acabar assim!!!
Ipês roxeando, amarelando...
Morrer de amor é loucura.
Vaga viola, viola cigana a clarear...
A espera de uma vida toda
Percorrida pelas estiagens e lagoas prateadas,
Na derrubada dos ranchos e matas,
O taquaral era só ventania
E a ventania era só varal
Era uma hora medonha:
Preso ao seu visgo, resistia...
Tudo se recomeçava novamente
E as coisas se punham no lugar.
Amar demais sempre trouxe fortes momentos,
Mas em nenhum instante sequer se desfez a espera;
Sua chegada é marcada
Pelo estouro das maritacas em meu peito.
Alegria de minha vida clareia...
Viola cigana, viola doida varrida...
Amor caipirano.
Bahia / 1982
Morrer de amor é loucura.
Beira de rio, sol de meio-dia;
Porta aberta a reparar:
As embarcações vão subindo o rio,
Assim como os bichos a desninhar
Na variação das estações,
Vai-se madurando amor à roça...
Tenho pensado com o coração
Na sua vota repentina;
Sua chegada sempre faz estourar as maritacas nos quintais.
Vaga presença, chiar intenso...
Cigarras nas árvores desfolhadas
E nós atracados corpo a corpo,
Feito bichos no cio,
Estalando nas folhas secas...
Amor imenso fazia alastrar queimadas
Por entre jaraguás secos,
Peito ardendo em labaredas...
Morrer assim!!!
Beira de estrada poeirenta
Rostos pálidos na estiagem.
Se acabar assim!!!
Ipês roxeando, amarelando...
Morrer de amor é loucura.
Vaga viola, viola cigana a clarear...
A espera de uma vida toda
Percorrida pelas estiagens e lagoas prateadas,
Na derrubada dos ranchos e matas,
O taquaral era só ventania
E a ventania era só varal
Era uma hora medonha:
Preso ao seu visgo, resistia...
Tudo se recomeçava novamente
E as coisas se punham no lugar.
Amar demais sempre trouxe fortes momentos,
Mas em nenhum instante sequer se desfez a espera;
Sua chegada é marcada
Pelo estouro das maritacas em meu peito.
Alegria de minha vida clareia...
Viola cigana, viola doida varrida...
Amor caipirano.
Bahia / 1982
942
Georges Emmanuel Clancier
Surrealismo: Revolta e Conquista
O surgimento dos poemas destrutivos e visionários de Rimbaud e Lautréamont coincide com guerra de 1870 e a insurreição da Comuna, do mesmo modo que o novo cataclisma guerreiro de 1914-1918 e a Revolução de Outubro de 1917 ensangüentam e iluminam o tempo que trará a revolta dos poetas adolescentes guiados pelos apelos, blasfêmias e cóleras, além dos entusiasmos bradados outrora no deserto, através das lluminations e dos Chants de Maldoror.
A sociedade da qual Ubu denunciou o absurdo, a hipocrisia, a ferocidade travestida nos ouropéis solenes e devoções carolas aos princípios e à Tradição, essa sociedade que se diz conduzida pela razão e pela Moral, julgando reconhecer-se numa "Arte" igualmente racional, realiza-se, em verdade, na loucura e no crime guerreiros - a bem dizer, dissimulados, também eles, pela máscara da civilização. Chegou para os jovens poetas que ouviram a lição dos grandes "malditos" o momento de desmascarar, dessa vez em definitivo, uma sociedade que sabe apenas arruinar-se materialmente e espiritualmente, e assassinar a humanidade. E como, antes de tudo, são postas a razão e a tradição, convém liquidá-las.
O Surrealismo se volta para o que até aqui continua irredutível aos imperativos sociais e ao empobrecimento da lógica. Planta armadilhas, sem rumor nem aviso.
Violência - Para isso, o melhor recurso não é ridicuralizá-las? À violência e absurdo do seu tempo os jovens poetas contrapõem uma violência e um absurdo deliberados e poéticos.
Amadurecidos por um sobressalto vital, eles escarram o seu desgosto na cara do mundo "que os fez"; apelam para tudo quanto esse mesmo mundo finge ignorar: o absurdo opõe-se à razão, a desordem à "ordem" que sequer consegue camuflar um caos ignóbil. Nos satisfeitos, nos pomposos, o humor aplica, então, frias e rudes bofetadas. Nessa revolta o humor se apresenta como elemento destruidor por excelência. Ela advém do espírito de escândalo de que Jarry já havia tirado partido, é uma concentração no escândalo, lança propostas capazes de arruinar de súbito a segurança do espírito.
Planta armadilhas, sem rumor nem aviso, puxa de sopetão as cadeiras, e os que estão "sentados" tombaram ruidosamente. "Humor negro", como bem disse Breton. Negro, certamente, pelo desespero profundo dos que promovem - tão profundo que não deixa à superfície nenhum dos seus traços habituais - e negro em razão da obscuridade em que tende a mergulhar bruscamente a razão das pessoas a quem costumam desafiar com um estranho sorriso. Um desespero, em suma, que se transforma em arma, aquela arma, aquela arma do isolado que opõe uma incoerência escolhida à coerência social opressora.
Um exemplo de semelhante humor é dado por alguns jovens dadaístas e surrealistas em sentido literal. Entre eles, o mais perfeito, sem dúvida, foi Jacques Vaché (1). André Breton, então mallarméano, o encontrou em Nantes, em 1916, e a entrevista provocou uma metamorfose que deveria marcar Breton para sempre e, por intermédio dele, o futuro surrealismo. Esta passagem de uma carta de Vaché exprime de maneira surpreendente o estado de espírito desses adolescentes lançados no contra-senso da guerra: "Eu me aborreço muito atrás do meu monóculo de vidro, me visto de cáqui e combato os alemães - A máquina de embrutecer... marcha com grande fragor e eu não estou longe, no curral de tanques - um animal bem ubíquo, mas sem alegria".
"Sem alegria" - eis aí a chave dessa revolta glacial. O mundo que matou a alegria não merece o desprezo, os sarcasmos desses poetas que poderiam subscrever, desesperados e desenvoltos, o que disse Jacques Vaché: "Me causaria o maior tédio morrer tão jovem. Ah puis Merdre"? A definição mais exata desse humor nós a devemos ainda a Jacques Vaché, quando escreve - e sua ortografia denuncia logo a filiação Ubuesca da letra inicial: "Umor, sentimento de inutilidade teatral e sem alegria de tudo, quando se adquire consciência".
Causaria espanto que Jacques Vaché, após o armistício, se tenha suicidado? Mas a alegria é difícil de matar para sempre no coração vivo da juventude, e a um Jacques Vaché, que se despede da sociedade monstruosamente grotesca e trágica, sucedem outros jovens que resolvem tornar comum a sua rebelião e não sair da cena sem antes atribuir à sua época a finalidade absoluta de não-aceitação. Tzara, fundador do dadaísmo, dirá a propósito deste movimento: "A guerra (1914-1918) não foi nossa; nós a sofremos através da falsidade dos sentimentos e da mediocridade das excusas.
Era dessa ordem, 30 anos atrás, o estado de espírito da juventude, no momento em que Dada nascia na Suíça. Dada brotou de uma exigência moral, de uma vontade implacável de chegar a uma moral absoluta...
Dada nasceu de um revolta comum a todos os adolescentes e que exigia adesão completa do indivíduo às necessidades profundas de sua natureza, sem considerações para com a história, a lógica ou a moral circundantes. (...)
A frase de Descartes - "Não me interessa saber que houve homens antes de mim" - nós a pusemos como epígrafe de uma das nossas publicações". Essa política de tábua rasa fez adeptos na Suíça, na Alemanha e na França, onde, ao redor de Tzara, se reuniram Arp, Aragon, Soupault, Eluard, Breton, Péret, Picabia, Duchamp. Com uma paixão tumultuosa e um cinismo estudado, privilégios de seus 20 anos, esses jovens poetas à força libertos do combate desabrocham em um tempo que acabava de aprender, segundo palavras de Valéry, que as civilizações são mortais, e retomam à sua maneira uma contraguerra, uma guerra santa à ordem estabelecida. Trata-se de provocar e desmoralizar.
O escândalo pelo amor do escândalo é a senha. Tzara, evocando a lembrança de uma manifestação dada na Salle Gaveau, descreve o público de pé, os braços para cima, vociferante - e acrescenta: "O espetáculo acontecia na sala, nós reunidos no palco olhávamos o público enfurecido". Belo efeito de humor, essa inversão de papéis. De Dada, é claro, nada podia sair, por definição,salvo o "ruído e a fúria", salvo também aquela "violência sacrílega". Conforme observa Tritan Tzara, "uma espécie de novo heroísmo intelectual, um tipo de civismo literário". Os jovens estavam muito impacientes para destruir tudo ao seu redor, apenas pelo pressentimento de uma vida verdadeira suscetível de brotar quando tivessem dispersado os entulhos daquela inaceitável existência proposta pelos poderes estabelecidos, os quais se empenhavam em denunciar a maldição intrínseca e, ao mesmo tempo, a próxima ruína.
Mas Dada, ou o escárnio absoluto, não podia ele mesmo escapar ao seu próprio ácido; sistema voltado para a condenação à morte de todos os sistemas, restava-lhe, por seu turno, destruir-se. Foi o que aconteceu. À destruição dadaísta sucedeu a conquista surrealista. Mais exatamente, a tentativa de desbaratar os valores pessoais ou sociais erigidos e mantidos pela hierarquia burguesa, secundava, doravante, a vontade de instituir, acima dessa desordem purificadora, a primazia de um homem enfim liberto de todas as servidões, seja de origem econômica, intelectual, moral ou religiosa. Evidentemente os limites de uma breve análise me levam a separar com nitidez o que de fato se opera na complexidade agitada da vida; no interior do próprio Dada, bem antes do fim oficial desse movimento, o Surrealismo já se buscava. Por exemplo, é na revista Dada intitulada por ironia Littérature que aparece em 1919 o primeiro texto especificamente "surrealista": Les Champs Magnétiques, escrito a quatro mãos por André Breton e Philippe Soupault.
Da mesma forma que o encontro de Jacques Vaché permitiu a Breton a descoberta do humor/ameaça de morte, o encontro do freudianismo e sua ênfase no psiquismo inconsciente incitaram o autor dos Vasos Comunicantes a buscar no domínio do irracional promessas de vida. Já que a vida ativa e dirigida da inteligência havia chegado a uma barbárie mecânica que se ornamenta hipocritamente com o nome de civilização, o único recurso
A sociedade da qual Ubu denunciou o absurdo, a hipocrisia, a ferocidade travestida nos ouropéis solenes e devoções carolas aos princípios e à Tradição, essa sociedade que se diz conduzida pela razão e pela Moral, julgando reconhecer-se numa "Arte" igualmente racional, realiza-se, em verdade, na loucura e no crime guerreiros - a bem dizer, dissimulados, também eles, pela máscara da civilização. Chegou para os jovens poetas que ouviram a lição dos grandes "malditos" o momento de desmascarar, dessa vez em definitivo, uma sociedade que sabe apenas arruinar-se materialmente e espiritualmente, e assassinar a humanidade. E como, antes de tudo, são postas a razão e a tradição, convém liquidá-las.
O Surrealismo se volta para o que até aqui continua irredutível aos imperativos sociais e ao empobrecimento da lógica. Planta armadilhas, sem rumor nem aviso.
Violência - Para isso, o melhor recurso não é ridicuralizá-las? À violência e absurdo do seu tempo os jovens poetas contrapõem uma violência e um absurdo deliberados e poéticos.
Amadurecidos por um sobressalto vital, eles escarram o seu desgosto na cara do mundo "que os fez"; apelam para tudo quanto esse mesmo mundo finge ignorar: o absurdo opõe-se à razão, a desordem à "ordem" que sequer consegue camuflar um caos ignóbil. Nos satisfeitos, nos pomposos, o humor aplica, então, frias e rudes bofetadas. Nessa revolta o humor se apresenta como elemento destruidor por excelência. Ela advém do espírito de escândalo de que Jarry já havia tirado partido, é uma concentração no escândalo, lança propostas capazes de arruinar de súbito a segurança do espírito.
Planta armadilhas, sem rumor nem aviso, puxa de sopetão as cadeiras, e os que estão "sentados" tombaram ruidosamente. "Humor negro", como bem disse Breton. Negro, certamente, pelo desespero profundo dos que promovem - tão profundo que não deixa à superfície nenhum dos seus traços habituais - e negro em razão da obscuridade em que tende a mergulhar bruscamente a razão das pessoas a quem costumam desafiar com um estranho sorriso. Um desespero, em suma, que se transforma em arma, aquela arma, aquela arma do isolado que opõe uma incoerência escolhida à coerência social opressora.
Um exemplo de semelhante humor é dado por alguns jovens dadaístas e surrealistas em sentido literal. Entre eles, o mais perfeito, sem dúvida, foi Jacques Vaché (1). André Breton, então mallarméano, o encontrou em Nantes, em 1916, e a entrevista provocou uma metamorfose que deveria marcar Breton para sempre e, por intermédio dele, o futuro surrealismo. Esta passagem de uma carta de Vaché exprime de maneira surpreendente o estado de espírito desses adolescentes lançados no contra-senso da guerra: "Eu me aborreço muito atrás do meu monóculo de vidro, me visto de cáqui e combato os alemães - A máquina de embrutecer... marcha com grande fragor e eu não estou longe, no curral de tanques - um animal bem ubíquo, mas sem alegria".
"Sem alegria" - eis aí a chave dessa revolta glacial. O mundo que matou a alegria não merece o desprezo, os sarcasmos desses poetas que poderiam subscrever, desesperados e desenvoltos, o que disse Jacques Vaché: "Me causaria o maior tédio morrer tão jovem. Ah puis Merdre"? A definição mais exata desse humor nós a devemos ainda a Jacques Vaché, quando escreve - e sua ortografia denuncia logo a filiação Ubuesca da letra inicial: "Umor, sentimento de inutilidade teatral e sem alegria de tudo, quando se adquire consciência".
Causaria espanto que Jacques Vaché, após o armistício, se tenha suicidado? Mas a alegria é difícil de matar para sempre no coração vivo da juventude, e a um Jacques Vaché, que se despede da sociedade monstruosamente grotesca e trágica, sucedem outros jovens que resolvem tornar comum a sua rebelião e não sair da cena sem antes atribuir à sua época a finalidade absoluta de não-aceitação. Tzara, fundador do dadaísmo, dirá a propósito deste movimento: "A guerra (1914-1918) não foi nossa; nós a sofremos através da falsidade dos sentimentos e da mediocridade das excusas.
Era dessa ordem, 30 anos atrás, o estado de espírito da juventude, no momento em que Dada nascia na Suíça. Dada brotou de uma exigência moral, de uma vontade implacável de chegar a uma moral absoluta...
Dada nasceu de um revolta comum a todos os adolescentes e que exigia adesão completa do indivíduo às necessidades profundas de sua natureza, sem considerações para com a história, a lógica ou a moral circundantes. (...)
A frase de Descartes - "Não me interessa saber que houve homens antes de mim" - nós a pusemos como epígrafe de uma das nossas publicações". Essa política de tábua rasa fez adeptos na Suíça, na Alemanha e na França, onde, ao redor de Tzara, se reuniram Arp, Aragon, Soupault, Eluard, Breton, Péret, Picabia, Duchamp. Com uma paixão tumultuosa e um cinismo estudado, privilégios de seus 20 anos, esses jovens poetas à força libertos do combate desabrocham em um tempo que acabava de aprender, segundo palavras de Valéry, que as civilizações são mortais, e retomam à sua maneira uma contraguerra, uma guerra santa à ordem estabelecida. Trata-se de provocar e desmoralizar.
O escândalo pelo amor do escândalo é a senha. Tzara, evocando a lembrança de uma manifestação dada na Salle Gaveau, descreve o público de pé, os braços para cima, vociferante - e acrescenta: "O espetáculo acontecia na sala, nós reunidos no palco olhávamos o público enfurecido". Belo efeito de humor, essa inversão de papéis. De Dada, é claro, nada podia sair, por definição,salvo o "ruído e a fúria", salvo também aquela "violência sacrílega". Conforme observa Tritan Tzara, "uma espécie de novo heroísmo intelectual, um tipo de civismo literário". Os jovens estavam muito impacientes para destruir tudo ao seu redor, apenas pelo pressentimento de uma vida verdadeira suscetível de brotar quando tivessem dispersado os entulhos daquela inaceitável existência proposta pelos poderes estabelecidos, os quais se empenhavam em denunciar a maldição intrínseca e, ao mesmo tempo, a próxima ruína.
Mas Dada, ou o escárnio absoluto, não podia ele mesmo escapar ao seu próprio ácido; sistema voltado para a condenação à morte de todos os sistemas, restava-lhe, por seu turno, destruir-se. Foi o que aconteceu. À destruição dadaísta sucedeu a conquista surrealista. Mais exatamente, a tentativa de desbaratar os valores pessoais ou sociais erigidos e mantidos pela hierarquia burguesa, secundava, doravante, a vontade de instituir, acima dessa desordem purificadora, a primazia de um homem enfim liberto de todas as servidões, seja de origem econômica, intelectual, moral ou religiosa. Evidentemente os limites de uma breve análise me levam a separar com nitidez o que de fato se opera na complexidade agitada da vida; no interior do próprio Dada, bem antes do fim oficial desse movimento, o Surrealismo já se buscava. Por exemplo, é na revista Dada intitulada por ironia Littérature que aparece em 1919 o primeiro texto especificamente "surrealista": Les Champs Magnétiques, escrito a quatro mãos por André Breton e Philippe Soupault.
Da mesma forma que o encontro de Jacques Vaché permitiu a Breton a descoberta do humor/ameaça de morte, o encontro do freudianismo e sua ênfase no psiquismo inconsciente incitaram o autor dos Vasos Comunicantes a buscar no domínio do irracional promessas de vida. Já que a vida ativa e dirigida da inteligência havia chegado a uma barbárie mecânica que se ornamenta hipocritamente com o nome de civilização, o único recurso
910
Ana Garrett
Quem se esconde
Quem se esconde em meus
versos inacabados,
sou eu...
E nasceu uma flor
duma terra de cem anos.
Sem regá-la, cuidá-la, nasceu.
E as minhas sílabas continuam
no caule verde
dessas flores,
interditas a leituras ao amanhecer.
Quem se olha, assim, como vós,
uma para o outro, em contínuo desejo?
Quais avencas debruçando-se
para um último beijo.
E eu no meio,
sempre toda a vida no meio e permaneço,
escondida nas raízes,
num eterno e agitado sossego
versos inacabados,
sou eu...
E nasceu uma flor
duma terra de cem anos.
Sem regá-la, cuidá-la, nasceu.
E as minhas sílabas continuam
no caule verde
dessas flores,
interditas a leituras ao amanhecer.
Quem se olha, assim, como vós,
uma para o outro, em contínuo desejo?
Quais avencas debruçando-se
para um último beijo.
E eu no meio,
sempre toda a vida no meio e permaneço,
escondida nas raízes,
num eterno e agitado sossego
873