Emoções e Sentimentos
Brasigóis Felício
Matadouro do Dia
darei de beber
de meus olhos naufragados
a quem ficar a meu lado.
Darei de comer
de meu corpo violado
aos nus, aos desesperados.
Venham beber o vinho amargo
da minha bêbada amizade
os que nunca se encontraram.
Voltaremos tristes para casa
(o peso do mundo nos ombros).
Só depois de beber, e ficar puros
esqueceremos as coisas
(seus escuros muros altos).
Venham beber o vinho amaro-amargo
do meu sangue torturado.
No porto inseguro de mim
há pão e fel para todos.
O país é rico e sujo:
amanhã seremos degolados.
Darei de beber
de meu sangue aleijado
aos tristes, aos suicidas
aos pederastas, às prostitutas.
Vamos todos, mutilados
ao matadouro do dia!
Birão Santana
INSISTO: tenho alma
consolar
minha alma
ferida nos temporais da vida,
insuflada de lágrimas e dores
perambulando em busca
de dias primaveris.
Urge acalentar
minha alma,
ela é flor tenra
medrando no mundo das ilusões
ansiosa por terra fértil.
Urge
alentar
minha alma,
ela é criança risonha,
inocente criança
oferecendo-se em riso,
graça e ternura
a desconcertados tiranos.
Urge
reinventar o homem
antes que morram
todos os homens
que insistem em ter alma.
Birão Santana
INSISTO: tenho alma
consolar
minha alma
ferida nos temporais da vida,
insuflada de lágrimas e dores
perambulando em busca
de dias primaveris.
Urge acalentar
minha alma,
ela é flor tenra
medrando no mundo das ilusões
ansiosa por terra fértil.
Urge
alentar
minha alma,
ela é criança risonha,
inocente criança
oferecendo-se em riso,
graça e ternura
a desconcertados tiranos.
Urge
reinventar o homem
antes que morram
todos os homens
que insistem em ter alma.
Birão Santana
Ânfora Perfumada
que não haja motivos
para se curvar.
Que os olhos
contemplem todos os olhos.
Que as palavras
confirmem todas as práticas.
Do contrário,
quando nos visitem
as horas do testemunho,
tal qual os
Doutores da Lei em casa de Simão
ante a presença insólita:
Madalena,
com a ânfora perfumada para o Mestre,
não fiquemos cabisbaixos
pela flagrante incapacidade
de mostrar superioridade moral.
Brasigóis Felício
As sementes da Poesia
Assim escreveu Luiz de Aquino, sobre as raízes da frondosa e generosa árvore em que busca transformar-se, como ser humano, e como criador: "Meu pai tem mãos de amaciar violão (feito as de Rabelo e Reny, Marcelo e João Bosco). Minha mãe tem mãos-carinho (como as de Mel e Iliana, de Zaira e Mariana). Tenho mãos de escrever poemas de amor e coisas afins. O mundo tem mãos que espancam e afagam, esculpem e coloram. As de Reny fazem sons, as de meu pai criam acordes, despertam amores, acalentam dores, adormecem temores e saudades. As minhas molham-se em molhos sensuais. Tenho mãos que amansam vãos". É assim, emotiva, e saudosa de suas raízes, a poe-sia de Luiz, que hoje recebemos, jubilosos. E como o poeta conhece e decifra, sem medo, a linguagem do amor, sabe, como a poetisa Re-nata Pallotini, que para amar, de verdade, é pre-ciso ter a suprema coragem de atirar nossas coi-sas para o mar, e partir sem bagagem. Quem, como Luiz de Aquino, teve a coragem kamikaze de vender poesias de amor, de bar em bar, aos casais de namorados, sabe que a vida, a literatu-ra e o amor, só valem se fizerem parte de um único projeto. Por absurdo que pareça, disse Guimarães Rosa, três dias antes de morrer (acabara de tomar posse na Academia Brasileira de Letras), a gente nasce, vive e morre. E, como se estivesse a adivinhar o fim próximo, de sua vida e obra, assinalou: "Esta vida horária não nos deixa encerrar parágrafos, quanto mais terminar capítulos".
Mas o que tem a ver, tanto devaneio poético, com as sisudas e bem comportadas pala-vras, que devem constar de uma saudação aca-dêmica?, poderão alguns indagar. Se é verdade que as melhores palavras de um poeta são os seus próprios poemas, entendo que a linguagem mais apropriada, para saudar um poeta, é a que vibra, e se manifesta em seus próprios poemas. Se o que nós amamos verdadeiramente perma-nece, sendo entulho, todo o resto, então, para quem decifra a aventura de viver aprendendo a ária de silêncio das palavras, só o que couber na dimensão mágica da poesia tem razão e sentido. Assim sendo, não me escuso por brandir, aqui, mais a minha lira do que meus frágeis saberes acadêmicos; até porque, como bem disse o po-eta Gabriel Nascente, "A poesia não pede licen-ça pra chegar".
Luiz de Aquino Alves Neto nasceu em Caldas Novas, na praça da Matriz, em uma ca-sinha já demolida, onde se construiu, há mais de 20 anos, uma confortável morada, onde hoje funciona uma butique. Coisa da especulação turística. Era sábado, 15 de setembro de 1945, um pouco mais de um mês após os americanos detonarem, sobre Hiroshima e Nagazaki, as du-as primeiras bombas atômicas, que atiraram a humanidade nos horrores e no dantesco espetá-culo da guerra nuclear. O poeta acha que, aba-lado pela explosão do mundo, nasceu turrão. "Sou alegre e maleável até que alguém pise, distraidamente ou por querer, no nervo que os-tento na cauda". A Caldas Novas seu pai che-gou em 1940, buscando trabalho. Dois de seus tios maternos moravam lá e já desfrutavam de certa influência inexpressiva na corrutela que, 26 anos depois, despontaria como o mais pro-missor pólo turístico do Brasil Central. Ele vi-nha de Pirenópolis e — isto é curioso — pelo lado materno descende de Martinho Coelho de Siqueira, o descobridor das águas termais no findar do século XVIII.
O clima, em sua casa, no período de 45 a 56, fazia jus à raiz musical, vinda de seu avô. O pai de Luiz, Israel de Aquino, trouxe, de Pire-nópolis, a habilidade para executar, ao violão, valsas e modinhas bem ao gosto da época. Ali, aos 17 anos, encontrou um rapaz de sua idade, moço, dotado de rara inteligência e que, apaixo-nado por música e artes, conseguiu a façanha de estudar música por correspondência: José Pinto Neto, que já está do outro lado da vida. Com Zé Pinto, seu pai formou a mais marcante dupla da vida boêmia de Caldas Novas. Aos quatro anos de idade, Luiz de Aquino acompanhou os seresteiros, em sua primeira serenata. As letras das músicas (sempre antigas), eram transcritas em letra bonita, em cadernos de capa dura. Ele se lembra de ver José Pinto afastar o sax para vomitar, tanto tinha bebido. Mas a responsabili-dade do instrumentista não lhe permitia, com toda a cachaça, vomitar no instrumento. As se-renatas, tirando o período de dez aos dezessete anos, foram marcantes, em sua vida, até quando, aos 33 anos, teve a voz afetada por papilomas vocais. Por esta ocasião, o poeta empunhava, todo lampeiro, um cavaquinho que, então, teve de aposentar. "Eram comuns, as rodas musicais em minha casa. Eram viajantes que apreciavam música, eram juízes ou promotores com voca-ções musicais, que vinham buscar a companhia do meu velho, Zé Pinto sempre ao lado. E meu pai era convidado permanente para as festas de família, ou mesmo as quermesses da igreja, ape-sar de maçom. Cresci, pois, aprendendo letras de valsas e modinhas. A leitura, conheci-a nas práticas de minha mãe. Quando aprendi a ler, antes dos cinco anos, apaixonei-me pelos gibis e os lia todos, da coleção do primo Rogério. Não demorou para que eu fosse cortado dos jogos de bola ao lado da igreja, porque jamais podiam contar comigo. Era descuidarem, e eu me es-condia na casa de tia Dorinha para ler gibis".
Foram belos e difíceis, seus anos de giná-sio, no Rio. Em português, adotava-se o mesmo livro para todos os quatro anos do ginásio: an-tologia, organizada pelo professor Clóvis Mon-teiro, diretor do colégio, que viria a falecer justo naquele ano de 1958, seu primeiro ano ginasial. Foi nesse livro que tomou contato definitivo com textos literários, tanto em prosa como em verso: "No Pedro II, ensinava-se gramática pela literatura. Uma professora, particularmente, marcou minha vida: Maria Helena Silveira, de quem nunca mais tive notícias. Ela tinha um defeito físico, aquela corcunda com protuberân-cia no osso externo, o que chamam de peito-de-pombo. Foi, talvez, a personalidade mais linda que conheci na adolescência, exemplo de ho-nestidade intelectual e integridade ética". No quarto ano, para ensinar História do Brasil, che-gou o mais famoso poeta brasileiro da época, J.G. de Araújo Jorge. Com ele Luiz aprendeu, quem sabe, a cantar em poesia as paixões que, é claro, são um capítulo à parte, na vida de todos (ou quase todos) os poetas: "Minha primeira paixão era uma garotinha do primário, colega de classe, com quem jamais troquei uma palavra sequer. E
José Maria de Barros Pinho
A Gramática nos olhos da Amada
Qual o adjetivo
para os olhos da amada
os olhos da amada
se confundem com o mar
ora verde ora azul
na cor do triste
no salmo da alegria
semântica da noite
metáfora da madrugada
as sílabas do vento
nos olhos da amada
o verbo amar edifica
os acentos da solidão
olhos do mar olhos do rio
olhos de serpente sem veneno
olhos de mulher olhos de sonhos
que guardei para viver no ponto do luar.
28.06.97
José Maria de Barros Pinho
Aviso Prévio
uma borboleta
quando menos
se espera
a gente acorda
e vai-se
embora
sem deixar
aviso prévio
Bernardim Ribeiro
Cantiga
Pensando-vos estou, filha;
vossa mãe me está lembrando;
enchem-se-me os olhos dágua,
nela vos estou lavando.
Nascestes, filha, entre mágoa,
para bem inda vos seja,
que no vosso nascimento
vos houve a fortuna inveja.
Morto era o contentamento,
nenhuma alegria ouvistes;
vossa mãe era finida,
nós outros éramos tristes.
Nada em dor, em dor crescida,
não sei onde isto há de ir ter;
vejo-vos, filha, formosa,
com olhos verdes crescer.
Não era esta graça vossa
para nascer em desterro;
mal haja a desaventura
que pôs mais nisto que o erro.
Tinha aqui sua sepultura
vossa mãe, e a mágoa a nós;
não éreis vós, filha, não,
para morrerem por vós.
Não houve em fados razão,
nem se consentem rogar;
de vosso pai hei mor dó,
que de si se há de queixar.
Eu vos ouvi a vós só,
primeiro que outrem ninguém;
não fôreis vós se eu não fora;
não sei se fiz mal, se bem.
Mas não pode ser, senhora,
para mal nenhum nascentes,
com este riso gracioso
que tendes sobr’olhos verdes.
Conforto mas duvidoso,
me é este que tomo assim;
Deus vos dê melhor ventura
da que tivestes até aqui.
Que a dita e a formosura
dizem patranhas antigas,
que pelejaram um dia,
sendo dantes muito amigas.
Muitos hão que é fantasia;
eu, que vi tempos e anos,
nenhuma coisa duvido
como ela é azo de danos.
Mas nenhum mal não é crido,
o bem só é esperado,
e na crença e na esperança,
em ambas há uma mudança,
em ambas há um cuidado.
Bento Prado Júnior
Sou monge perdido
não sei donde vim...
Sou monge perdido
das praias sem fim...
Não tenho sandálias,
perdi meu bordão...
Ao longo da estrada,
a quanto me apego,
apego-me em vão;
tropeço nas pedras
e caio no chão...
Sou monge perdido
das praias sem fim...
Não tenho sandálias,
perdi meu bordão...
De nada me lembro
do muito que vi...
Sou monge perdido
das praias sem fim...
Caminhos malditos
marcaram-me os pés,
as urzes da estrada
feriram-me as mãos...
Os pés sempre prontos,
embora a sangrar,
palmilham o chão;
as mãos sempre abertas,
afeitas a dar,
semeiam o perdão...
As novas que trago,
são novas do Rei...
Não digo mentiras,
só digo o que sei...
Está tudo escrito,
à guisa de lei,
no cerne, na carne,
no firme, no vivo
do meu coração...
As novas que trago,
mensagem de amor,
nascidas comigo,
eu sei-as de cor...
Sou monge perdido
das praias sem fim.
Bento Prado Júnior
A Minha Cruz
sofrê-la-ei, Senhor, como ela veio:
não vos peço afasteis vossa vingança
que mereço,-bem sei,- sofrê-la em cheio.
Mas não me abandoneis, porque receio
não ser capaz da dor que já me cansa:
acudi-me, Senhor, vós, força e meio,
com que a vitória sôbre o mal se alcança!
Que eu, refeito de forças, assim possa,
com a oferta tão só das minhas dores,
oferecer-vos coisa de valia!
Sinta eu viva a impressão que é força vossa
minha vitória sobre os dissabores,
e que sois toda a minha valentia!
Bento Prado Júnior
A Minha Cruz
sofrê-la-ei, Senhor, como ela veio:
não vos peço afasteis vossa vingança
que mereço,-bem sei,- sofrê-la em cheio.
Mas não me abandoneis, porque receio
não ser capaz da dor que já me cansa:
acudi-me, Senhor, vós, força e meio,
com que a vitória sôbre o mal se alcança!
Que eu, refeito de forças, assim possa,
com a oferta tão só das minhas dores,
oferecer-vos coisa de valia!
Sinta eu viva a impressão que é força vossa
minha vitória sobre os dissabores,
e que sois toda a minha valentia!
Carlos Augusto Corrêa
Canção do Stress
mascar submissão e gosma
ver o ralo, o passado de farpas
uma rosa de arame, o verso rompido
que mais?
depois calar, dormir, voltar
pôr joana no auge enquanto joão se acaba
e inchar no ônibus, minguar na sala
andar de frente, atrás
dos que no olvido expelem a canção do stress
é a lida
Bruno Seabra
Moreninha
— E o que me dá, meu senhor?
— Este cravo...
— Ora, esse cravo!
De que me serve uma flor?
Há tantas flores nos campos!
Hei de agora, meu senhor,
Dar-lhe um beijo por um cravo?
É barato; guarde a flor.
— Dá-me o beijo, moreninha,
Dou-te um corte de cambraia.
— Por um beijo tanto pano!
Compro de graça uma saia!
Olhe que perde na troca,
Como eu perdera com a flor;
Tanto pano por um beijo...
Sai-lhe caro, meu senhor.
— Anda cá... ouve um segredo...
— Ai, pois quer fiar-se em mim?
Deus o livre; eu falo muito,
Toda mulher é assim...
E um segredo... ora um segredo. ..
Pelos modos que lhe vejo
Quer o meu beijo de graça,
Um segredo por um beijo?!
— Quero dizer-te aos ouvidos
Que tu és uma rainha...
Acha, pois? e o que tem isso?
Quer ser rei, por vida minha?
— Quem dera que tu quisesses...
— Não duvide, que o farei;
Meu senhor, case com ela,
A rainha o fará rei...
— Casar-me?... ainda sou tão moço...
— Como é criança esta ovelha!
Pois eu pra beijar crianças,
Adeusinho, já sou velha.
Alexei Bueno
O Bordado Cruel
junto a uma vela duas velhas riam
Matando aos poucos uma aranha torta.
E a alegria que elas dividiam
Poucos tiveram já no mundo um dia,
Mas os que a achavam sempre a bendiziam.
Cheia de medo, a criatura fria
Dançava horrível rente de uma chama
Que lentamente o corpo lhe roía,
E as velhas rindo a observar da cama
Iam falando sobre de que modo
Com dor mais lenta um corpo vil se inflama.
Espécie estranha de um vivente lodo,
Sendo corcunda e só com sete pernas
A aranha uivava por seu corpo todo
Que se expandia em inchações externas
Causando às velhas, com o vermelho horrendo
Do seu ardor, as sensações mais ternas...
Emocionadas, com as mãos tremendo,
Vieram então com um bando de alfinetes
Que em cada pata foram se prendendo,
E a aranha presa de mil cacoetes
Foi só os espinhos de uma prata ardente
Que a recobria em infernais coletes.
E nesta arte foram indo em frente,
Depois agulhas, e um perfume ardido,
E ao fim de tudo uma tesoura ingente,
Até que o fogo e o animal vencido
Murcharam juntos sobre a mesa irada
Em mil pedaços de um negror transido,
E ambas as velhas, conhecendo o nada,
Com face imensa devoraram tudo
Que lhes restava da fatal jornada.
Enquanto, a olhá-las, um retrato mudo
De seu marido ia chorando as dores
Que o recobriam no ancestral escudo,
E todo o chão ia se abrindo em flores
E uma criança, que ninguém notara,
Pela janela olhava sem temores
E ia crescendo, e de uma forma rara,
Enquanto as velhas, enxugando as portas,
Varriam tétricas, na noite clara,
Todo o amargor das profecias mortas!
Bento Prado Júnior
I
"Anda sempre tão unido
O meu tormento comigo,
Que eu mesmo sou meu perigo"
LUIS DE CAMÕES
Não sou eu quem o diz!
Mas este corpo estranho pulsa em mim
como um coração, não meu, mas de alguém
composto de outras fibras, outras carnes
que não estas humanas. Quem me obriga
será antes a dor, que, incrustada
em meu ser, já se não distingue da
composição escassa de meu corpo,
veículo insolúvel que a transporta,
Anjo ou dor ou enfim força alheia ao
arbítrio da vontade, nem sequer
válida no restrito território
que sou, a mim me impinges a palavra:
impõe-se o canto à boca que o articula.
Bento Prado Júnior
I
"Anda sempre tão unido
O meu tormento comigo,
Que eu mesmo sou meu perigo"
LUIS DE CAMÕES
Não sou eu quem o diz!
Mas este corpo estranho pulsa em mim
como um coração, não meu, mas de alguém
composto de outras fibras, outras carnes
que não estas humanas. Quem me obriga
será antes a dor, que, incrustada
em meu ser, já se não distingue da
composição escassa de meu corpo,
veículo insolúvel que a transporta,
Anjo ou dor ou enfim força alheia ao
arbítrio da vontade, nem sequer
válida no restrito território
que sou, a mim me impinges a palavra:
impõe-se o canto à boca que o articula.
Carlos Augusto Corrêa
Elegia Sem Posse
tenha o gosto e a certeza do pó
que trago no chão de cada dia
onde no sonho me desgarro
querendo a noite maior
atravesso sem redenção
o rio que transporta
à noite da eternidade:
ó gueto, raiz que não furo
e quase lhe alcanço a entrada
mas minha imagem dilui-se
em meu sonho embriagado
quando em peso a noite desaba
entre o vinho e esse tráfego
na calçada que não agride
lambendo a borra nos lábios
e mastigando o lamento
por essa investia em vão —
não estou de posse da carne
estou repleto do que falta.
Carlos Augusto Corrêa
Elegia Sem Posse
tenha o gosto e a certeza do pó
que trago no chão de cada dia
onde no sonho me desgarro
querendo a noite maior
atravesso sem redenção
o rio que transporta
à noite da eternidade:
ó gueto, raiz que não furo
e quase lhe alcanço a entrada
mas minha imagem dilui-se
em meu sonho embriagado
quando em peso a noite desaba
entre o vinho e esse tráfego
na calçada que não agride
lambendo a borra nos lábios
e mastigando o lamento
por essa investia em vão —
não estou de posse da carne
estou repleto do que falta.
Carlos Augusto Corrêa
Elegia Sem Posse
tenha o gosto e a certeza do pó
que trago no chão de cada dia
onde no sonho me desgarro
querendo a noite maior
atravesso sem redenção
o rio que transporta
à noite da eternidade:
ó gueto, raiz que não furo
e quase lhe alcanço a entrada
mas minha imagem dilui-se
em meu sonho embriagado
quando em peso a noite desaba
entre o vinho e esse tráfego
na calçada que não agride
lambendo a borra nos lábios
e mastigando o lamento
por essa investia em vão —
não estou de posse da carne
estou repleto do que falta.
Birão Santana
Ri Dentes
a borboleta sorria.
Eu sorria
e o vento sorria.
Simples,
o quadro.
Profundo,
o momento.
Intraduzível
o que se passou.
Com as plantas,
a borboleta,
eu
e o vento,
ridentes.
Birão Santana
Ri Dentes
a borboleta sorria.
Eu sorria
e o vento sorria.
Simples,
o quadro.
Profundo,
o momento.
Intraduzível
o que se passou.
Com as plantas,
a borboleta,
eu
e o vento,
ridentes.
Bento Prado Júnior
À Minha Filha
quando o sol nega luz ao claro dia
ou a noite cruel me rouba o sono,
como a tua saudade me excrucia!
Mas, quando às mãos divinas me abandono,
seguro amparo à humana desvalia,
sinto que és quem me eleva ao eterno trono,
condutor excelente, excelso guia.
És a luz que alumia a minha estrada,
anjo bom que me guia os tardos passos,
para elevar-me ao termo da escalada.
Sinto erguer-me feliz pelos espaços,
criatura mesquinha, sombra, nada,
na infinita riqueza dos teus braços!
Bento Prado Júnior
À Minha Filha
quando o sol nega luz ao claro dia
ou a noite cruel me rouba o sono,
como a tua saudade me excrucia!
Mas, quando às mãos divinas me abandono,
seguro amparo à humana desvalia,
sinto que és quem me eleva ao eterno trono,
condutor excelente, excelso guia.
És a luz que alumia a minha estrada,
anjo bom que me guia os tardos passos,
para elevar-me ao termo da escalada.
Sinto erguer-me feliz pelos espaços,
criatura mesquinha, sombra, nada,
na infinita riqueza dos teus braços!