Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Chico Buarque
Mambordel
O rei pediu quartel
Foi proclamada a república
Neste bordel
Eu vou virar artista
Ficar famosa, falar francês
Autografar com as unhas
Eu vou, nas costas do meu freguês
Eu cobro meia entrada
Da estudantada que não tem vez
Aqui no meu teatro
Grupo de quatro paga por três
O rei pediu quartel
Foi proclamada a república
Neste bordel
Faço qualquer negócio
passo recibo, aceito cartão
Faço facilitado, financiado
E sem correção
Ao povo nossas carícias
Ao povo nossas carências
Ao povo nossas delícias
E nossas doenças
Foi proclamada a república
Neste bordel
Eu vou virar artista
Ficar famosa, falar francês
Autografar com as unhas
Eu vou, nas costas do meu freguês
Eu cobro meia entrada
Da estudantada que não tem vez
Aqui no meu teatro
Grupo de quatro paga por três
O rei pediu quartel
Foi proclamada a república
Neste bordel
Faço qualquer negócio
passo recibo, aceito cartão
Faço facilitado, financiado
E sem correção
Ao povo nossas carícias
Ao povo nossas carências
Ao povo nossas delícias
E nossas doenças
1 281
Li Shang-Yin
São
tão difíceis os encontros, mais difícil a separação.
O vento leste perdeu a força, murcharam todas as flores.
Na Primavera, os bichos-da-seda tecem, até morrer, os fios do coração;
As lágrimas da vela não secam até o pavio ser cinza.
De manhã vendo-se ao espelho: ficará grisalho o cabelo?
Repetindo um poema durante a noite, sentirá o arrepio do luar?
Não é longe, daqui até ao Rio Escuro —
Pássaro Azul, depressa, vigia-me a estrada.
O vento leste perdeu a força, murcharam todas as flores.
Na Primavera, os bichos-da-seda tecem, até morrer, os fios do coração;
As lágrimas da vela não secam até o pavio ser cinza.
De manhã vendo-se ao espelho: ficará grisalho o cabelo?
Repetindo um poema durante a noite, sentirá o arrepio do luar?
Não é longe, daqui até ao Rio Escuro —
Pássaro Azul, depressa, vigia-me a estrada.
923
Li Shang-Yin
São
tão difíceis os encontros, mais difícil a separação.
O vento leste perdeu a força, murcharam todas as flores.
Na Primavera, os bichos-da-seda tecem, até morrer, os fios do coração;
As lágrimas da vela não secam até o pavio ser cinza.
De manhã vendo-se ao espelho: ficará grisalho o cabelo?
Repetindo um poema durante a noite, sentirá o arrepio do luar?
Não é longe, daqui até ao Rio Escuro —
Pássaro Azul, depressa, vigia-me a estrada.
O vento leste perdeu a força, murcharam todas as flores.
Na Primavera, os bichos-da-seda tecem, até morrer, os fios do coração;
As lágrimas da vela não secam até o pavio ser cinza.
De manhã vendo-se ao espelho: ficará grisalho o cabelo?
Repetindo um poema durante a noite, sentirá o arrepio do luar?
Não é longe, daqui até ao Rio Escuro —
Pássaro Azul, depressa, vigia-me a estrada.
923
Natália Correia
Guerra santa
Não estou aqui para que Deus me ignore
mas nem por isso lhe sere solícita
em loa e laudes cada vez que morde
meu coração.Não gosto da visita.
Também dispenso que me seja Cristo.
Os meus erros na cruz não são remíveis.
Acertam no Espírito,Pai e Filho
manifestados são só varas e cíveis.
Piedade ganhar em tais instâncias
não vale a quem se atira ao impossível.
Iluminada a alma por dez lâmpadas
a ideia só concebe o inconcebível.
Chamais-me chama? Explico: em corpo ardido
anulo o osso até que transpareço.
Descriando-me, em cinza me unifico
com a vontade pura do começo.
Assim vos queima a minha língua ardente
e frequentais-me o lume.Mas da festa
saís gorados.Não sabeis ser hóspedes
da santidade que não se manifesta.
de O Dilúvio e a Pomba(1979)
mas nem por isso lhe sere solícita
em loa e laudes cada vez que morde
meu coração.Não gosto da visita.
Também dispenso que me seja Cristo.
Os meus erros na cruz não são remíveis.
Acertam no Espírito,Pai e Filho
manifestados são só varas e cíveis.
Piedade ganhar em tais instâncias
não vale a quem se atira ao impossível.
Iluminada a alma por dez lâmpadas
a ideia só concebe o inconcebível.
Chamais-me chama? Explico: em corpo ardido
anulo o osso até que transpareço.
Descriando-me, em cinza me unifico
com a vontade pura do começo.
Assim vos queima a minha língua ardente
e frequentais-me o lume.Mas da festa
saís gorados.Não sabeis ser hóspedes
da santidade que não se manifesta.
de O Dilúvio e a Pomba(1979)
1 650
Natália Correia
Escrito numa ânfora grega
É o teu amor que espalha a tinta
Na minha tela da cor da sede:
Paisagem que a tua paixão pinta
Para eu pendurar numa parede.
Candidatura a bem-amado
Das minhas núpcias de aracnídeo,
Contigo a ver-me de um telhado,
altura própria para um suicídio.
Mas prometida a um olhar marujoNa lenda de um Fáon que nunca chega
Quanto mais me amas,mais eu te fujo.
Falta cumprir a sina grega.
de Inéditos(1966/68)
Na minha tela da cor da sede:
Paisagem que a tua paixão pinta
Para eu pendurar numa parede.
Candidatura a bem-amado
Das minhas núpcias de aracnídeo,
Contigo a ver-me de um telhado,
altura própria para um suicídio.
Mas prometida a um olhar marujoNa lenda de um Fáon que nunca chega
Quanto mais me amas,mais eu te fujo.
Falta cumprir a sina grega.
de Inéditos(1966/68)
2 171
Natália Correia
Escrito numa ânfora grega
É o teu amor que espalha a tinta
Na minha tela da cor da sede:
Paisagem que a tua paixão pinta
Para eu pendurar numa parede.
Candidatura a bem-amado
Das minhas núpcias de aracnídeo,
Contigo a ver-me de um telhado,
altura própria para um suicídio.
Mas prometida a um olhar marujoNa lenda de um Fáon que nunca chega
Quanto mais me amas,mais eu te fujo.
Falta cumprir a sina grega.
de Inéditos(1966/68)
Na minha tela da cor da sede:
Paisagem que a tua paixão pinta
Para eu pendurar numa parede.
Candidatura a bem-amado
Das minhas núpcias de aracnídeo,
Contigo a ver-me de um telhado,
altura própria para um suicídio.
Mas prometida a um olhar marujoNa lenda de um Fáon que nunca chega
Quanto mais me amas,mais eu te fujo.
Falta cumprir a sina grega.
de Inéditos(1966/68)
2 171
Luís Miguel Nava
O tímpano e a pupila
Num dos pratos o mar, no outro um rio, agora
que o tempo se desossa,
que as pedras
que piso se me enterram na memória e os caminhos
se me aguçam na alma como lâminas, o pão
molhado nas feridas,
o pão
ele próprio já também uma ferida, agora
que o tempo, que já tanto
compararam a um rio, mais
não é do que uma leve exsudação nos muros,
nas mãos, agora
que o céu se encrespa e que pedaços
de mundo arremessados
com toda a força aos olhos revolteiam
na treva antes de se extinguirem,
mais magro do que a neve
caminho, a alma aberta como uma ferida,
ao longo da memória, onde se fundem
o tímpano e a pupila.
que o tempo se desossa,
que as pedras
que piso se me enterram na memória e os caminhos
se me aguçam na alma como lâminas, o pão
molhado nas feridas,
o pão
ele próprio já também uma ferida, agora
que o tempo, que já tanto
compararam a um rio, mais
não é do que uma leve exsudação nos muros,
nas mãos, agora
que o céu se encrespa e que pedaços
de mundo arremessados
com toda a força aos olhos revolteiam
na treva antes de se extinguirem,
mais magro do que a neve
caminho, a alma aberta como uma ferida,
ao longo da memória, onde se fundem
o tímpano e a pupila.
1 844
Luiza Neto Jorge
Recanto 2
Viver,entretanto,é ver,ir
vendoe também ver incluir dormirsem que nada se
desfaça ou excluano interior dos
sonhos.Pensemos no comércio de viver:passagem dos
naviosquando,a passar,se retêm a espessaàgua do tempo,da
tempestade.Um comércio,apenas-desvio da moedada trajectória
do ouro para o papel.Sempre viver
incluiu andar percorrer voarde avião ou com os braços
ou num ser de maisrodas que nos conduzaa
outro sentido ambulatório.
de Dezanove Recantos
vendoe também ver incluir dormirsem que nada se
desfaça ou excluano interior dos
sonhos.Pensemos no comércio de viver:passagem dos
naviosquando,a passar,se retêm a espessaàgua do tempo,da
tempestade.Um comércio,apenas-desvio da moedada trajectória
do ouro para o papel.Sempre viver
incluiu andar percorrer voarde avião ou com os braços
ou num ser de maisrodas que nos conduzaa
outro sentido ambulatório.
de Dezanove Recantos
3 266
Natália Correia
Num domingo em que passaste na minha rua
Num domingo em que passaste na minha rua
Na límpida tarde orlada
por minhas pestanas imóveis
Apareces como o começo
e os prédios se afastaram para que
me raptasses por cima das árvores
Na límpida tarde orlada
por minhas pestanas imóveis
tua aparição abre uma estrada
de damasco por entre os automóveis.
Apareces e logo adquires
em minha eclíptica visual
em minha eclíptica visual
a lassidão equinocial
que espalha a cor na minha íris.
Apareces como o começo
de qualquer coisa interminável
de tão importante é tão frágil
teu vulto que nem estremeço.
Apareces como se gentil-
mente viesses para apanhar um trevo
e o domingo almofada anil
cede à tendência do teu perfil
de ficares num baixo-relevo.
de O Vinho e a Lira(1966)
de O Vinho e a Lira(1966)
2 846
Natália Correia
London from a tear top
Era uma vez esta cidade onde tudo passa
como algo que se esconde atrás do nevoeiro
e deste lado tem um tricórnio de pombos
na cabeça que foi de um almirante pernalta
e estranhamente estão sempre a sair do mar
muitos chapéus de coco e o céu é o estaleiro
de uma luz que ficou ali por consertar
e do fundo da noite que é o sexo à deriva
da bailarina nua vem uma estrela húmida
onde passa a correr uma mulher em chamas
montando um cavalinho que fugiu de uma libra
e uma avestruz predica na igreja anglicana
e o baptista vai haver uma guerra na esquina
com muitos guarda-chuvas à volta num domingo
e uma coisa com sete cornos sai da bíblia
e às tantas num jardim uma fonte de chá
e os que apertam no bolso uma fada morgana
que daqui a Gondwana temos muito que andar
mas então não sabiam que isto dos continentes
está sempre a deslizar mas então não sabiam
e nisto há uma torre de cabeças cortadas
que depois aparecem com um olhar de carne
em figuras de cera e numa profecia
com óxido de ferro os corvos pingam preto
e dois leões de pé discutem a carniça
e em verdade vos digo o big ben remember
o pub vai fechar a estrela de absinto
vai cair é uma lágrima que não põde enxugar
o deus que de outras águas incumbiu o tamisa
e o comércio depressa e as orquídeas de fumo
perseguidoras altas que envenenam o ar
e os anjos já içaram a ponte levadiça
e em verdade vos digo um homem jovem leva
às costas uma música e os seus cabelos crescem
para esse lugar onde ele leva a música
e por fim no relvado um assunto de amor
os amantes que são o último veleiro
e estão sempre a partir num tapete voador
e estão sempre a chegar à sua eternidade
que tudo lhes devolve atrás do nevoeiro
de O anjo do Ocidente à entrada do ferro(1973)
como algo que se esconde atrás do nevoeiro
e deste lado tem um tricórnio de pombos
na cabeça que foi de um almirante pernalta
e estranhamente estão sempre a sair do mar
muitos chapéus de coco e o céu é o estaleiro
de uma luz que ficou ali por consertar
e do fundo da noite que é o sexo à deriva
da bailarina nua vem uma estrela húmida
onde passa a correr uma mulher em chamas
montando um cavalinho que fugiu de uma libra
e uma avestruz predica na igreja anglicana
e o baptista vai haver uma guerra na esquina
com muitos guarda-chuvas à volta num domingo
e uma coisa com sete cornos sai da bíblia
e às tantas num jardim uma fonte de chá
e os que apertam no bolso uma fada morgana
que daqui a Gondwana temos muito que andar
mas então não sabiam que isto dos continentes
está sempre a deslizar mas então não sabiam
e nisto há uma torre de cabeças cortadas
que depois aparecem com um olhar de carne
em figuras de cera e numa profecia
com óxido de ferro os corvos pingam preto
e dois leões de pé discutem a carniça
e em verdade vos digo o big ben remember
o pub vai fechar a estrela de absinto
vai cair é uma lágrima que não põde enxugar
o deus que de outras águas incumbiu o tamisa
e o comércio depressa e as orquídeas de fumo
perseguidoras altas que envenenam o ar
e os anjos já içaram a ponte levadiça
e em verdade vos digo um homem jovem leva
às costas uma música e os seus cabelos crescem
para esse lugar onde ele leva a música
e por fim no relvado um assunto de amor
os amantes que são o último veleiro
e estão sempre a partir num tapete voador
e estão sempre a chegar à sua eternidade
que tudo lhes devolve atrás do nevoeiro
de O anjo do Ocidente à entrada do ferro(1973)
1 437
Luiza Neto Jorge
A cabeça em ambulância
Há feridas cíclicas
há violentos voosdentro de câmaras de ar
curvasferidas que se pensam de noitee rebentam pela
manhãou que de noite se abreme pela amanhã são
pensadascom todos os pensamentosque os órgãos são
hábeisem inventar como pensosligaduras
capacetessacramentoscom que se prende a cabeçaquando ela se nos
afastaquando ela nos pressenteem síncope ou
desnudamentoou num erro mais espaçosoou numa letra mais
mudaou na sala de torturana sala escura,de
infância
há violentos voosdentro de câmaras de ar
curvasferidas que se pensam de noitee rebentam pela
manhãou que de noite se abreme pela amanhã são
pensadascom todos os pensamentosque os órgãos são
hábeisem inventar como pensosligaduras
capacetessacramentoscom que se prende a cabeçaquando ela se nos
afastaquando ela nos pressenteem síncope ou
desnudamentoou num erro mais espaçosoou numa letra mais
mudaou na sala de torturana sala escura,de
infância
1 740
Luiza Neto Jorge
A cabeça em ambulância
Há feridas cíclicas
há violentos voosdentro de câmaras de ar
curvasferidas que se pensam de noitee rebentam pela
manhãou que de noite se abreme pela amanhã são
pensadascom todos os pensamentosque os órgãos são
hábeisem inventar como pensosligaduras
capacetessacramentoscom que se prende a cabeçaquando ela se nos
afastaquando ela nos pressenteem síncope ou
desnudamentoou num erro mais espaçosoou numa letra mais
mudaou na sala de torturana sala escura,de
infância
há violentos voosdentro de câmaras de ar
curvasferidas que se pensam de noitee rebentam pela
manhãou que de noite se abreme pela amanhã são
pensadascom todos os pensamentosque os órgãos são
hábeisem inventar como pensosligaduras
capacetessacramentoscom que se prende a cabeçaquando ela se nos
afastaquando ela nos pressenteem síncope ou
desnudamentoou num erro mais espaçosoou numa letra mais
mudaou na sala de torturana sala escura,de
infância
1 740
Luiza Neto Jorge
Algo se me assemelha
Algo se me
assemelhae me quer para sime desembainhaquando
menos esperoDistorção do espíritopara a
mortecomo o corpo num
saltoirremediavelmentelentoe alto
de Terra Imóvel
assemelhae me quer para sime desembainhaquando
menos esperoDistorção do espíritopara a
mortecomo o corpo num
saltoirremediavelmentelentoe alto
de Terra Imóvel
1 417
Ossip Mandelstam
Eu não podia sentir no nevoeiro
Tua imprecisa imagem de ansiedade,
Oh meu Deus,foi o sussurro que primeiro
Me saiu do peito bem contra vontade.
O nome de Deus,como um pássaro grande,
Do meu peito a voar se despedia!
À minha frente paira um névoa espessa,
Atrás ficava uma gaiola vazia...
Oh meu Deus,foi o sussurro que primeiro
Me saiu do peito bem contra vontade.
O nome de Deus,como um pássaro grande,
Do meu peito a voar se despedia!
À minha frente paira um névoa espessa,
Atrás ficava uma gaiola vazia...
1 921
Murillo Mendes
Vermeer de Delft
É manhã no copo:
Tempo de decifrar o mapa
Com seus amarelos e azuis,
De abrir as cortinas – o sol frio nasce
Nos ladrilhos silenciosos –,
De ler uma carta perturbadora
Que veio pela galera da China:
Até que a lição do cravo
Através de seus cristais
Restitui a inocência.
Tempo de decifrar o mapa
Com seus amarelos e azuis,
De abrir as cortinas – o sol frio nasce
Nos ladrilhos silenciosos –,
De ler uma carta perturbadora
Que veio pela galera da China:
Até que a lição do cravo
Através de seus cristais
Restitui a inocência.
1 134
Natália Correia
Pusemos tanto azul nessa distância
ancorada em incerta claridade
e ficamos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.
Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.
de Poemas (1955)
e ficamos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.
Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.
de Poemas (1955)
2 523
Luiza Neto Jorge
Noite-Pétala
Posso estar aquieu posso
estar aqui perfeitamente pobreum círio me acendi
espora agudao vento ritmo negro
assassinou-oposso estar aqui-o musgo é lento como a
sombra-e sei de cor a voz cega das canções(viola de
silêncio acorda-me)que eu posso estar aqui
perfeitamente pedrainsonee um longo segredo
impessoalbordando a minha solidão.
estar aqui perfeitamente pobreum círio me acendi
espora agudao vento ritmo negro
assassinou-oposso estar aqui-o musgo é lento como a
sombra-e sei de cor a voz cega das canções(viola de
silêncio acorda-me)que eu posso estar aqui
perfeitamente pedrainsonee um longo segredo
impessoalbordando a minha solidão.
1 535
Luiza Neto Jorge
Noite-Pétala
Posso estar aquieu posso
estar aqui perfeitamente pobreum círio me acendi
espora agudao vento ritmo negro
assassinou-oposso estar aqui-o musgo é lento como a
sombra-e sei de cor a voz cega das canções(viola de
silêncio acorda-me)que eu posso estar aqui
perfeitamente pedrainsonee um longo segredo
impessoalbordando a minha solidão.
estar aqui perfeitamente pobreum círio me acendi
espora agudao vento ritmo negro
assassinou-oposso estar aqui-o musgo é lento como a
sombra-e sei de cor a voz cega das canções(viola de
silêncio acorda-me)que eu posso estar aqui
perfeitamente pedrainsonee um longo segredo
impessoalbordando a minha solidão.
1 535
Paulo Mendes Campos
Os domingos
Os domingos
Todas as funções da alma
estão perfeitas neste domingo. O tempo inunda a
sala, os quadros, a fruteira. Não há um crédito
desmedido de esperança. Nem a verdade dos supremos
desconsolos - Simplesmente a tarde transparente, Os
vidros fáceis das horas preguiçosas, Adolescência
das cores, preciosas andorinhas. Na tarde –
lembro – uma árvore parada, A alma caminhava para os
montes, Onde o verde das distâncias invencidas
Inventava o mistério de morrer pela beleza. Domingo –
lembro – era o instante das pausas, O pouso dos
tristes, o porto do insofrido. Na tarde, uma valsa; na
ponte, um trem de carga; No mar, a desilusão dos que
longe se buscaram; No declive da encosta, onde a
vista não vai, Os laranjais de infindáveis doçuras
geométricas; Na alma, os azuis dos que se afastam, O
cristal intocado, a rosa que destoa. Dos meus
domingos sempre fiz um claustro. As pétalas caíam no
dorso das campinas, A noite aclarava os
sofrimentos, As crianças nasciam, os mortos se esqueciam
mortos, Os ásperos se calavam, os suicidas se
matavam. Eu, prisioneiro, lia poemas nos parques,
Procurando palavras que espelhassem os domingos. E uma
esperança que não tenho.
Todas as funções da alma
estão perfeitas neste domingo. O tempo inunda a
sala, os quadros, a fruteira. Não há um crédito
desmedido de esperança. Nem a verdade dos supremos
desconsolos - Simplesmente a tarde transparente, Os
vidros fáceis das horas preguiçosas, Adolescência
das cores, preciosas andorinhas. Na tarde –
lembro – uma árvore parada, A alma caminhava para os
montes, Onde o verde das distâncias invencidas
Inventava o mistério de morrer pela beleza. Domingo –
lembro – era o instante das pausas, O pouso dos
tristes, o porto do insofrido. Na tarde, uma valsa; na
ponte, um trem de carga; No mar, a desilusão dos que
longe se buscaram; No declive da encosta, onde a
vista não vai, Os laranjais de infindáveis doçuras
geométricas; Na alma, os azuis dos que se afastam, O
cristal intocado, a rosa que destoa. Dos meus
domingos sempre fiz um claustro. As pétalas caíam no
dorso das campinas, A noite aclarava os
sofrimentos, As crianças nasciam, os mortos se esqueciam
mortos, Os ásperos se calavam, os suicidas se
matavam. Eu, prisioneiro, lia poemas nos parques,
Procurando palavras que espelhassem os domingos. E uma
esperança que não tenho.
1 502
Paulo Mendes Campos
Os domingos
Os domingos
Todas as funções da alma
estão perfeitas neste domingo. O tempo inunda a
sala, os quadros, a fruteira. Não há um crédito
desmedido de esperança. Nem a verdade dos supremos
desconsolos - Simplesmente a tarde transparente, Os
vidros fáceis das horas preguiçosas, Adolescência
das cores, preciosas andorinhas. Na tarde –
lembro – uma árvore parada, A alma caminhava para os
montes, Onde o verde das distâncias invencidas
Inventava o mistério de morrer pela beleza. Domingo –
lembro – era o instante das pausas, O pouso dos
tristes, o porto do insofrido. Na tarde, uma valsa; na
ponte, um trem de carga; No mar, a desilusão dos que
longe se buscaram; No declive da encosta, onde a
vista não vai, Os laranjais de infindáveis doçuras
geométricas; Na alma, os azuis dos que se afastam, O
cristal intocado, a rosa que destoa. Dos meus
domingos sempre fiz um claustro. As pétalas caíam no
dorso das campinas, A noite aclarava os
sofrimentos, As crianças nasciam, os mortos se esqueciam
mortos, Os ásperos se calavam, os suicidas se
matavam. Eu, prisioneiro, lia poemas nos parques,
Procurando palavras que espelhassem os domingos. E uma
esperança que não tenho.
Todas as funções da alma
estão perfeitas neste domingo. O tempo inunda a
sala, os quadros, a fruteira. Não há um crédito
desmedido de esperança. Nem a verdade dos supremos
desconsolos - Simplesmente a tarde transparente, Os
vidros fáceis das horas preguiçosas, Adolescência
das cores, preciosas andorinhas. Na tarde –
lembro – uma árvore parada, A alma caminhava para os
montes, Onde o verde das distâncias invencidas
Inventava o mistério de morrer pela beleza. Domingo –
lembro – era o instante das pausas, O pouso dos
tristes, o porto do insofrido. Na tarde, uma valsa; na
ponte, um trem de carga; No mar, a desilusão dos que
longe se buscaram; No declive da encosta, onde a
vista não vai, Os laranjais de infindáveis doçuras
geométricas; Na alma, os azuis dos que se afastam, O
cristal intocado, a rosa que destoa. Dos meus
domingos sempre fiz um claustro. As pétalas caíam no
dorso das campinas, A noite aclarava os
sofrimentos, As crianças nasciam, os mortos se esqueciam
mortos, Os ásperos se calavam, os suicidas se
matavam. Eu, prisioneiro, lia poemas nos parques,
Procurando palavras que espelhassem os domingos. E uma
esperança que não tenho.
1 502
Natália Correia
A demiurgia do riso
E cada vez que celebrei o
Deus Riso floresceu em mim
um novo invento.
Cortaram-me os pulsos.Eram feitos de ar.
Correram-me as veias como linhas rectas.
E nenhuma espada pôde atravessar
O ímpeto aéreo das águas secretas.
Partiram-me ao meio dizendo "é agora!"
Depois atiraram metade para a lua.
E eu no luar com um braço de fora
Erguendo o meu resto caído na rua.
Se havia uma estátua ela era o tamanho
De quanta poeira à passagem erguia.
E eu numa nuvem a ver o desenho
E a cor duma mágoa que não me tingia.
E os anjos à volta como círios tesos
A desenrolar o seu tédio antigo.
E eu desfraldada nos cumes acesos:
Bandeira de tudo o que trago comigo.
de Passaporte(1958)
Deus Riso floresceu em mim
um novo invento.
Cortaram-me os pulsos.Eram feitos de ar.
Correram-me as veias como linhas rectas.
E nenhuma espada pôde atravessar
O ímpeto aéreo das águas secretas.
Partiram-me ao meio dizendo "é agora!"
Depois atiraram metade para a lua.
E eu no luar com um braço de fora
Erguendo o meu resto caído na rua.
Se havia uma estátua ela era o tamanho
De quanta poeira à passagem erguia.
E eu numa nuvem a ver o desenho
E a cor duma mágoa que não me tingia.
E os anjos à volta como círios tesos
A desenrolar o seu tédio antigo.
E eu desfraldada nos cumes acesos:
Bandeira de tudo o que trago comigo.
de Passaporte(1958)
2 263
Murillo Mendes
Estudo para um Caos
O último anjo derramou seu cálice no ar.
Os sonhos caem na cabeça do homem,
As crianças são expelidas do ventre materno,
As estrelas se despregam do firmamento.
Uma tocha enorme pega fogo no fogo,
A água dos rios e dos mares jorra cadáveres.
Os vulcões vomitam cometas em furor
E as mil pernas da Grande dançarina
Fazem cair sobre a terra uma chuva de lodo.
Rachou-se o teto do mar em quatro partes:
Intintivamente eu me agarro no abismo.
Procurei meu rosto, não o achei.
Depois a treva foi ajuntada à própria treva.
Os sonhos caem na cabeça do homem,
As crianças são expelidas do ventre materno,
As estrelas se despregam do firmamento.
Uma tocha enorme pega fogo no fogo,
A água dos rios e dos mares jorra cadáveres.
Os vulcões vomitam cometas em furor
E as mil pernas da Grande dançarina
Fazem cair sobre a terra uma chuva de lodo.
Rachou-se o teto do mar em quatro partes:
Intintivamente eu me agarro no abismo.
Procurei meu rosto, não o achei.
Depois a treva foi ajuntada à própria treva.
1 967
Luís Miguel Nava
Retrato
A pele era o que de mais solitário havia no seu corpo.
Há quem, tendo--a metida
num cofre até às mais fundas raízes,
simule não ter pele, quando
de facto ela não está
senão um pouco atrasada em relação ao coração.
Com ele porém não era assim.
A pele ia imitando o céu como podia.
Pequena, solitária, era uma pele metida
consigo mesma e que servia
de poço, onde além de água ele procurara protecção.
Há quem, tendo--a metida
num cofre até às mais fundas raízes,
simule não ter pele, quando
de facto ela não está
senão um pouco atrasada em relação ao coração.
Com ele porém não era assim.
A pele ia imitando o céu como podia.
Pequena, solitária, era uma pele metida
consigo mesma e que servia
de poço, onde além de água ele procurara protecção.
2 098
Luiza Neto Jorge
Do Medo I
Do Medo I
É de ti que eu sou irmã
por ti fui trocada em criança
quando as estrelas semearam a noite
(Ficávamos chorando de medo
se o laço branco da trança não desse
para a escuridão toda do quarto)
Tenho os silêncios que me emprestaste
e na cidade que levantámos há pouco
(não destruiremos nunca)
habitam os pais
com os não irmãos mortos à nascença
que o eco de um flauta eternizou
no cais dos barcos pequenos de papel
somos irmãos de ninguém
ancorámos com amarras de dúvida
é nosso irmão o medo do poente
a porta azul da morte
Em redor em redor de nós
a solidão voou borboleta negra de metal
caiu enforcado público na gravata verde
(a mesma solidão que cega
os arcos concêntricos das pupilas)
desde a rua ao bolor dos corpos poetas
da porta esquecida sem número
à mulher vendida aos ventos da noite
sem nevoeiros asfixiamos nítidos
nos passeios nos fatos nas cadeiras
nas cúpulas nos clarins
e sentes contigo os corpos das mulheres
de bruços sobre o dia
renascidos maduros os limites da carne
Há nebulosas de anos sem sentido
que vimos aprendendo o amor
há um embrião de veia
há uma veia atávica vermelha
nos mil séculos anteriores ao homem
Quando nos será possível um suicídio exacto
em casas impossíveis
em ondas impossíveis
em (integralmente areia) desertos impossíveis?
Nasceu o sol na erva a erva nos degraus
os degraus desceram ao horizonte
de Quarta Dimensão
É de ti que eu sou irmã
por ti fui trocada em criança
quando as estrelas semearam a noite
(Ficávamos chorando de medo
se o laço branco da trança não desse
para a escuridão toda do quarto)
Tenho os silêncios que me emprestaste
e na cidade que levantámos há pouco
(não destruiremos nunca)
habitam os pais
com os não irmãos mortos à nascença
que o eco de um flauta eternizou
no cais dos barcos pequenos de papel
somos irmãos de ninguém
ancorámos com amarras de dúvida
é nosso irmão o medo do poente
a porta azul da morte
Em redor em redor de nós
a solidão voou borboleta negra de metal
caiu enforcado público na gravata verde
(a mesma solidão que cega
os arcos concêntricos das pupilas)
desde a rua ao bolor dos corpos poetas
da porta esquecida sem número
à mulher vendida aos ventos da noite
sem nevoeiros asfixiamos nítidos
nos passeios nos fatos nas cadeiras
nas cúpulas nos clarins
e sentes contigo os corpos das mulheres
de bruços sobre o dia
renascidos maduros os limites da carne
Há nebulosas de anos sem sentido
que vimos aprendendo o amor
há um embrião de veia
há uma veia atávica vermelha
nos mil séculos anteriores ao homem
Quando nos será possível um suicídio exacto
em casas impossíveis
em ondas impossíveis
em (integralmente areia) desertos impossíveis?
Nasceu o sol na erva a erva nos degraus
os degraus desceram ao horizonte
de Quarta Dimensão
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