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Poemas neste tema

Vida e Existência

Florbela Espanca

Florbela Espanca

As Quadras D’Ele Iii

[1]
Há em tudo quanto fitas
Pureza igual à dos céus,
Até são belos meus olhos
Quando lá poisam os teus!

[2]
Que filtro embriagante
Me deste tu a beber?
Até me esqueço de mim
E não te posso esquecer!...

[3]
Está tudo quanto olho
Na ’scuridão mais intensa,
Faltou de teus olhos lindos
A luz profunda e imensa...

[4]
Viver sozinha no mundo
É a minha triste sorte.
Ai quem me dera trocá-la
Embora fosse p’la morte!

[5]
Teus lábios cor das papoilas,
Vermelhos como o carmim,
Não são lábios nem papoilas
São pedaços de cetim.

[6]
Quando um peito amargurado
Adora seja quem for,
Por muito infame que seja
Bendito seja esse amor!

[7]
Tenho por ti uma paixão
Tão forte e acrisolada,
Que até adoro a saudade
Quando por ti é causada.

[8]
Às vezes quando anoitece
Cai em meu peito tal mágoa!...
Quero cantar. E num instante
Sinto os olhos rasos d’água!

[9]
Quando me não quiseres mais
Mata-me por piedade!
Deixares-me a vida, sem ti
É bem maior crueldade!

[10]
Queria ser a erva humilde
Que pisasses algum dia,
Pra debaixo de teus pés
Morrer em doce agonia.

[11]
Há beijos na tua boca
Pode colhê-los quem quer.
Só eu não posso. Vê tu
Que desgraçada mulher!

[12]
Quem me dera um coração
Que por mim bata somente.
Dai-me essa esmola, Senhor,
Para que eu morra contente.

[13]
Há no fado das vielas
Notas tão sentimentais,
Tão delicadas, tão belas,
Que não s’esquecem jamais!

[14]
Andam teus olhos de luto;
Sempre eles de negro andaram,
Pelas feridas que fizeram
Pelas mortes que causaram.

[15]
Olhos negros, noite infinda
Sede meu norte, meu guia,
Ó noite escura e bendita
Sê o meu sol, o meu dia!

[16]
Gosto imenso dumas flores
Muito escuras, quase pretas,
Modestas, lindas graciosas
Que se chamam violetas.

Por isso quando eu morrer,
Em prova do teu amor
Inunda de violetas
O caixão aonde eu for.

[17]
Não sei que têm meus versos;
Alegres quero fazê-los
Mas ficam-me sempre tristes
Como a cor dos teus cabelos.
1 930 2
Boris Vian

Boris Vian

Não queria partir

Não queria partir
Sem ter conhecido
Os cães negros do México
Que dormem sem sonhar
Os macacos de bunda glabra
Devoradores de trópicos
As aranhas prateadas
De ninho carregado de bolhas
Não queria partir
Sem saber se a lua
Sob sua falsa cara de moeda
Tem um lado pontiagudo
Se o sol é frio
Se as quatro estações
São de fato apenas quatro
Sem ter experimentado
Usar um vestido
Nos grandes bulevares
Sem ter beijado
Uma boca-de-lobo
Sem ter fincado meu pau
Em insólitos lugares
Não queria acabar
Sem conhecer a lepra
Ou as sete doenças
Que se pegam por lá
O bom nem o mau
Me causariam tormento
Se deles gozasse
O primeiro momento
E há também
Tudo o que conheço
Tudo o que aprecio
O que sei que me agrada
O fundo verde do mar
Onde valsam as algas
Sobre a areia ondulada
A relva crestada de junho
A terra que greta
O cheiro dos pinheiros
E os beijos daquela
Que isso que aquilo
A coisa mais bela
Úrsula, meu ursinho
Não queria partir
Antes de ter gasto
Sua boca contra minha boca
Seu corpo contra minhas mãos
O resto contra meus olhos
Não digo mais nada é preciso
Manter respeito
Não queria morrer
Sem que tenham inventado
As rosas eternas
A jornada de duas horas
O mar na montanha
A montanha no mar
O fim das dores
Os jornais em cores
A felicidade das crianças
E tantas coisas mais
Que dormem nos crânios
Dos geniais engenheiros
Dos jardineiros joviais
Dos solícitos socialistas
Dos urbanos urbanistas
E dos pensativos pensadores
Tantas coisas para ver
Para ver e ouvir
Tanto tempo esperando
Procurando no escuro

E vejo o fim
Que fervilha e que chega
Com sua horrível careta
E que me abre os braços
De sapo maneta

Não queria partir
Não senhor não senhora
Sem ter apalpado
O gosto que me atormenta
O gosto mais forte
Não queria partir
Sem ter provado
O sabor da morte...

:

Je voudrais pas crever

Je voudrais pas crever
Avant d’avoir connu
Les chiens noirs du Mexique
Qui dorment sans rêver
Les singes à cul nu
Dévoreurs de tropiques
Les araignées d’argent
Au nid truffé de bulles
Je voudrais pas crever
Sans savoir si la lune
Sous son faux air de thune
A un côté pointu
Si le soleil est froid
Si les quatre saisons
Ne sont vraiment que quatre
Sans avoir essayé
De porter une robe
Sur les grands boulevards
Sans avoir regardé
Dans un regard d’égout
Sans avoir mis mon zobe
Dans des coinstots bizarres
Je voudrais pas finir
Sans connaître la lèpre
Ou les sept maladies
Qu’on attrape là-bas
Le bon ni le mauvais
Ne me feraient de peine
Si si si je savais
Que j’en aurai l’étrenne
Et il y a z aussi
Tout ce que je connais
Tout ce que j’apprécie
Que je sais qui me plaît
Le fond vert de la mer
Où valsent les brins d’algue
Sur le sable ondulé
L’herbe grillée de juin
La terre qui craquelle
L’odeur des conifères
Et les baisers de celle
Que ceci que cela
La belle que voilà
Mon Ourson, l’Ursula
Je voudrais pas crever
Avant d’avoir usé
Sa bouche avec ma bouche
Son corps avec mes mains
Le reste avec mes yeux
J’en dis pas plus faut bien
Rester révérencieux
Je voudrais pas mourir
Sans qu’on ait inventé
Les roses éternelles
La journée de deux heures
La mer à la montagne
La montagne à la mer
La fin de la douleur
Les journaux en couleur
Tous les enfants contents
Et tant de trucs encore
Qui dorment dans les crânes
Des géniaux ingénieurs
Des jardiniers joviaux
Des soucieux socialistes
Des urbains urbanistes
Et des pensifs penseurs
Tant de choses à voir
A voir et à z-entendre
Tant de temps à attendre
A chercher dans le noir

Et moi je vois la fin
Qui grouille et qui s’amène
Avec sa gueule moche
Et qui m’ouvre ses bras
De grenouille bancroche

Je voudrais pas crever
Non monsieur non madame
Avant d’avoir tâté
Le goût qui me tourmente
Le goût qu’est plus fort
Je voudrais pas crever
Avant d’avoir goûté
La saveur de la mort...

1 735 2
Boris Vian

Boris Vian

Não queria partir

Não queria partir
Sem ter conhecido
Os cães negros do México
Que dormem sem sonhar
Os macacos de bunda glabra
Devoradores de trópicos
As aranhas prateadas
De ninho carregado de bolhas
Não queria partir
Sem saber se a lua
Sob sua falsa cara de moeda
Tem um lado pontiagudo
Se o sol é frio
Se as quatro estações
São de fato apenas quatro
Sem ter experimentado
Usar um vestido
Nos grandes bulevares
Sem ter beijado
Uma boca-de-lobo
Sem ter fincado meu pau
Em insólitos lugares
Não queria acabar
Sem conhecer a lepra
Ou as sete doenças
Que se pegam por lá
O bom nem o mau
Me causariam tormento
Se deles gozasse
O primeiro momento
E há também
Tudo o que conheço
Tudo o que aprecio
O que sei que me agrada
O fundo verde do mar
Onde valsam as algas
Sobre a areia ondulada
A relva crestada de junho
A terra que greta
O cheiro dos pinheiros
E os beijos daquela
Que isso que aquilo
A coisa mais bela
Úrsula, meu ursinho
Não queria partir
Antes de ter gasto
Sua boca contra minha boca
Seu corpo contra minhas mãos
O resto contra meus olhos
Não digo mais nada é preciso
Manter respeito
Não queria morrer
Sem que tenham inventado
As rosas eternas
A jornada de duas horas
O mar na montanha
A montanha no mar
O fim das dores
Os jornais em cores
A felicidade das crianças
E tantas coisas mais
Que dormem nos crânios
Dos geniais engenheiros
Dos jardineiros joviais
Dos solícitos socialistas
Dos urbanos urbanistas
E dos pensativos pensadores
Tantas coisas para ver
Para ver e ouvir
Tanto tempo esperando
Procurando no escuro

E vejo o fim
Que fervilha e que chega
Com sua horrível careta
E que me abre os braços
De sapo maneta

Não queria partir
Não senhor não senhora
Sem ter apalpado
O gosto que me atormenta
O gosto mais forte
Não queria partir
Sem ter provado
O sabor da morte...

:

Je voudrais pas crever

Je voudrais pas crever
Avant d’avoir connu
Les chiens noirs du Mexique
Qui dorment sans rêver
Les singes à cul nu
Dévoreurs de tropiques
Les araignées d’argent
Au nid truffé de bulles
Je voudrais pas crever
Sans savoir si la lune
Sous son faux air de thune
A un côté pointu
Si le soleil est froid
Si les quatre saisons
Ne sont vraiment que quatre
Sans avoir essayé
De porter une robe
Sur les grands boulevards
Sans avoir regardé
Dans un regard d’égout
Sans avoir mis mon zobe
Dans des coinstots bizarres
Je voudrais pas finir
Sans connaître la lèpre
Ou les sept maladies
Qu’on attrape là-bas
Le bon ni le mauvais
Ne me feraient de peine
Si si si je savais
Que j’en aurai l’étrenne
Et il y a z aussi
Tout ce que je connais
Tout ce que j’apprécie
Que je sais qui me plaît
Le fond vert de la mer
Où valsent les brins d’algue
Sur le sable ondulé
L’herbe grillée de juin
La terre qui craquelle
L’odeur des conifères
Et les baisers de celle
Que ceci que cela
La belle que voilà
Mon Ourson, l’Ursula
Je voudrais pas crever
Avant d’avoir usé
Sa bouche avec ma bouche
Son corps avec mes mains
Le reste avec mes yeux
J’en dis pas plus faut bien
Rester révérencieux
Je voudrais pas mourir
Sans qu’on ait inventé
Les roses éternelles
La journée de deux heures
La mer à la montagne
La montagne à la mer
La fin de la douleur
Les journaux en couleur
Tous les enfants contents
Et tant de trucs encore
Qui dorment dans les crânes
Des géniaux ingénieurs
Des jardiniers joviaux
Des soucieux socialistes
Des urbains urbanistes
Et des pensifs penseurs
Tant de choses à voir
A voir et à z-entendre
Tant de temps à attendre
A chercher dans le noir

Et moi je vois la fin
Qui grouille et qui s’amène
Avec sa gueule moche
Et qui m’ouvre ses bras
De grenouille bancroche

Je voudrais pas crever
Non monsieur non madame
Avant d’avoir tâté
Le goût qui me tourmente
Le goût qu’est plus fort
Je voudrais pas crever
Avant d’avoir goûté
La saveur de la mort...

1 735 2
Boris Vian

Boris Vian

Não queria partir

Não queria partir
Sem ter conhecido
Os cães negros do México
Que dormem sem sonhar
Os macacos de bunda glabra
Devoradores de trópicos
As aranhas prateadas
De ninho carregado de bolhas
Não queria partir
Sem saber se a lua
Sob sua falsa cara de moeda
Tem um lado pontiagudo
Se o sol é frio
Se as quatro estações
São de fato apenas quatro
Sem ter experimentado
Usar um vestido
Nos grandes bulevares
Sem ter beijado
Uma boca-de-lobo
Sem ter fincado meu pau
Em insólitos lugares
Não queria acabar
Sem conhecer a lepra
Ou as sete doenças
Que se pegam por lá
O bom nem o mau
Me causariam tormento
Se deles gozasse
O primeiro momento
E há também
Tudo o que conheço
Tudo o que aprecio
O que sei que me agrada
O fundo verde do mar
Onde valsam as algas
Sobre a areia ondulada
A relva crestada de junho
A terra que greta
O cheiro dos pinheiros
E os beijos daquela
Que isso que aquilo
A coisa mais bela
Úrsula, meu ursinho
Não queria partir
Antes de ter gasto
Sua boca contra minha boca
Seu corpo contra minhas mãos
O resto contra meus olhos
Não digo mais nada é preciso
Manter respeito
Não queria morrer
Sem que tenham inventado
As rosas eternas
A jornada de duas horas
O mar na montanha
A montanha no mar
O fim das dores
Os jornais em cores
A felicidade das crianças
E tantas coisas mais
Que dormem nos crânios
Dos geniais engenheiros
Dos jardineiros joviais
Dos solícitos socialistas
Dos urbanos urbanistas
E dos pensativos pensadores
Tantas coisas para ver
Para ver e ouvir
Tanto tempo esperando
Procurando no escuro

E vejo o fim
Que fervilha e que chega
Com sua horrível careta
E que me abre os braços
De sapo maneta

Não queria partir
Não senhor não senhora
Sem ter apalpado
O gosto que me atormenta
O gosto mais forte
Não queria partir
Sem ter provado
O sabor da morte...

:

Je voudrais pas crever

Je voudrais pas crever
Avant d’avoir connu
Les chiens noirs du Mexique
Qui dorment sans rêver
Les singes à cul nu
Dévoreurs de tropiques
Les araignées d’argent
Au nid truffé de bulles
Je voudrais pas crever
Sans savoir si la lune
Sous son faux air de thune
A un côté pointu
Si le soleil est froid
Si les quatre saisons
Ne sont vraiment que quatre
Sans avoir essayé
De porter une robe
Sur les grands boulevards
Sans avoir regardé
Dans un regard d’égout
Sans avoir mis mon zobe
Dans des coinstots bizarres
Je voudrais pas finir
Sans connaître la lèpre
Ou les sept maladies
Qu’on attrape là-bas
Le bon ni le mauvais
Ne me feraient de peine
Si si si je savais
Que j’en aurai l’étrenne
Et il y a z aussi
Tout ce que je connais
Tout ce que j’apprécie
Que je sais qui me plaît
Le fond vert de la mer
Où valsent les brins d’algue
Sur le sable ondulé
L’herbe grillée de juin
La terre qui craquelle
L’odeur des conifères
Et les baisers de celle
Que ceci que cela
La belle que voilà
Mon Ourson, l’Ursula
Je voudrais pas crever
Avant d’avoir usé
Sa bouche avec ma bouche
Son corps avec mes mains
Le reste avec mes yeux
J’en dis pas plus faut bien
Rester révérencieux
Je voudrais pas mourir
Sans qu’on ait inventé
Les roses éternelles
La journée de deux heures
La mer à la montagne
La montagne à la mer
La fin de la douleur
Les journaux en couleur
Tous les enfants contents
Et tant de trucs encore
Qui dorment dans les crânes
Des géniaux ingénieurs
Des jardiniers joviaux
Des soucieux socialistes
Des urbains urbanistes
Et des pensifs penseurs
Tant de choses à voir
A voir et à z-entendre
Tant de temps à attendre
A chercher dans le noir

Et moi je vois la fin
Qui grouille et qui s’amène
Avec sa gueule moche
Et qui m’ouvre ses bras
De grenouille bancroche

Je voudrais pas crever
Non monsieur non madame
Avant d’avoir tâté
Le goût qui me tourmente
Le goût qu’est plus fort
Je voudrais pas crever
Avant d’avoir goûté
La saveur de la mort...

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Herberto Helder

Herberto Helder

A Bicicleta Pela Lua Dentro - Mãe, Mãe -

A bicicleta pela lua dentro — mãe, mãe —
ouvi dizer toda a neve.
As árvores crescem nos satélites.
Que hei-de fazer senão sonhar
ao contrário quando novembro empunha —
mãe, mãe — as telhas dos seus frutos?
As nuvens, aviões, mercúrio.
Novembro — mãe — com as suas praças
descascadas.

A neve sobre os frutos — filho, filho.
Janeiro com outono sonha então.
Canta nesse espanto — meu filho — os satélites
sonham pela lua dentro na sua bicicleta.
Ouvi dizer novembro.
As praças estão resplendentes.
As grandes letras descascadas: é novo o alfabeto.
Aviões passam no teu nome —
minha mãe, minha máquina —
mercúrio (ouvi dizer) está cheio de neve.

Avança, memória, com a tua bicicleta.
Sonhando, as árvores crescem ao contrário.
Apresento-te novembro: avião
limpo como um alfabeto. E as praças
dão a sua neve descascada.
Mãe, mãe — como janeiro resplende
nos satélites. Filho — é a tua memória.

E as letras estão em ti, abertas
pela neve dentro. Como árvores, aviões
sonham ao contrário.
As estátuas, de polvos na cabeça,
florescem com mercúrio.
Mãe — é o teu enxofre do mês de novembro,
é a neve avançando na sua bicicleta.

O alfabeto, a lua.

Começo a lembrar-me: eu peguei na paisagem.
Era pesada, ao colo, cheia de neve.
Ia dizendo o teu nome de janeiro.
Enxofre — mãe — era o teu nome.
As letras cresciam em torno da terra,
as telhas vergavam ao peso
do que me lembro. Começo a lembrar-me:
era o atum negro do teu nome,
nos meus braços como neve de janeiro.

Novembro — meu filho — quando se atira a flecha,
e as praças se descascam,
e os satélites avançam,
e na lua floresce o enxofre. Pegaste na paisagem
(eu vi): era pesada.
O meu nome, o alfabeto, enchia-a de laranjas.
Laranjas de pedra—mãe. Resplendentes,
as estátuas negras no teu nome,
no meu colo.
Era a neve que nunca mais acabava.

Começo a lembrar mc: a bicicleta
vergava ao peso desse grande atum negro.
A praça descascava-se.
E eis o teu nome resplendente com as letras
ao contrário, sonhando
dentro de mim sem nunca mais acabar.
Eu vi. Os aviões abriam-se quando a lua
batia pelo ar fora.
Falávamos baixo. Os teus braços estavam cheios
do meu nome negro, e nunca mais
acabava de nevar.

Era novembro.

Janeiro: começo a lembrar-me. O mercúrio
crescendo com toda a força em volta
da terra. Mãe — se morreste, porque fazes
tanta força com os pés contra o teu nome,
no meu colo?
Eu ia lembrar-me: os satélites todos
resplendentes na praça. Era a neve.
Era o tempo descascado
sonhando com tanto peso no meu colo.
O mãe, atum negro —
ao contrário, ao contrário, com tanta força.

Era tudo uma máquina com as letras
lá dentro. E eu vinha cantando
com a minha paisagem negra pela neve.
E isso não acabava nunca mais peio tempo
fora. Começo a lembrar-me.
Esqueci-te as barbatanas, teus olhos
de peixe, tua coluna
vertebral de peixe, tuas escamas. E vinha
cantando na neve que nunca mais
acabava.

O teu nome negro com tanta força —
minha mãe.
Os satélites e as praças. E novembro
avançando em janeiro com seus frutos
destelhados ao colo. As
estátuas, e eu sonhando, sonhando.
Ao contrário tão morta — minha mãe —
com tanta força, e nunca

— mãe — nunca mais acabava pelo tempo fora.
4 489 2
Ruy Belo

Ruy Belo

Tu estás aqui

Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem
o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou
outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer
Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso
diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
Afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-Ias para não ser isto ou dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome
que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das
outras coisas
Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como
a palavra paz
Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui
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Ruy Belo

Ruy Belo

Tu estás aqui

Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem
o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou
outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer
Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso
diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
Afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-Ias para não ser isto ou dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome
que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das
outras coisas
Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como
a palavra paz
Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui
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Herberto Helder

Herberto Helder

As Musas Cegas - Viii

Ignoro quem dorme, a minha boca ressoa.
Despedir-se dos meses é uma nova tarefa, um ofício
inquieto. Às vezes na noite
vejo as casas pequenas, as rosas que se voltam
para o subterrâneo e subtil
ruído da seiva. Penso nas mulheres
de pálpebras descidas, no seu espírito
expansivo que repousa. Nas crianças que enlouquecem
silenciosamente dentro da sua inocência.
Às vezes na noite ainda jovem, mas
que principia a engolfar-se no seu doce
hermetismo — tantas vezes
penso na chuva, e nos corpos, e nas pontes onde
se encontra alguém
com as cegas mãos escorrendo para o fundo
o sangue de uma imensa
inspiração. Eu sei: despedir-se dos meses
é um ofício inquieto.

As luzes, as mesas, as armas antigas, os jardins debruçados
nas violas paradas. Não sei o que há
Ião veloz e tão firme
na base de um homem. Às vezes vejo
que é uma invencível doçura, um espanto
colorido em redor de uma casa, uma raiva
generosa nas mãos iluminadas.
Mas no fundo, no fundo,
é a boca desmanchada que sangra devagar.
Ignoro quem dorme, é um ofício novo e louco,
uma tarefa perene do coração
sobre quanto se ignora. Minha boca ressoa.
Os próprios meses ressoam como espelhos ardentes,
como telhados, cúpulas, livros,
como objectos ardentes.

Sobre um rosto eu diria: é um rosto? Sobre
uma vida eu perguntaria se era
a força de uma vida. Porque os ossos e as veias
vão de corpo para corpo,
e despedir-se de tudo é um ofício inquieto.
Tudo isto é uma musa, um poder, uma pungente
sabedoria. As rosas que há
nas palavras, as palavras que estão
no alto como fungos luminosos, as palavras
que gravitam em baixo
no instável momento que avança e recua
ao pé da eternidade — as mãos
rodeando uma lâmpada, essas mãos
docemente cobertas de sangue — tudo isso
disposto para a inquietação de um ofício.

Eu sei: as vigas da cabeça estremecem um pouco.
Partem-se, aqui e ali,
alguns arcos secundários. Uma vida pode tremer
do princípio ao fim. E instantâneo,
eterno. Mas é o homem
que recebe a inspiração violenta.
Ignoro quem dorme, a minha boca está no fundo,
móvel, coberta de sangue, a minha
boca ressoa como as cavernas de um barco,
a minha boca da minha vida
é um ofício. O meu ofício de despedir-me
um pouco engolfado na loucura.
A minha tarefa inquieta de pôr a vida
na sua oculta loucura.

Tudo isso canta nas galerias dos meses
ornados de delgados mastros
acesos. E despedir-se dia a dia
desta torrente de pequenas imagens alucinadas e mansas
é um mester ainda jovem,
algo que se aprende lentamente com as mãos
e a garganta e a testa
e o marulho das águas que correm profundamente
em lugares inacessíveis,
sem nomes nem janelas por onde surja a cabeça
coroada de violinos.
E um violento ofício, e no fundo desse ofício
violento e puro,
a boca está coberta de um perturbado sangue
masculino.
5 928 2
Lobo da Costa

Lobo da Costa

AQUELE RANCHINHO (Ranchinho do Sertão)

Tu me perguntas a história
daquele triste ranchinho,
que abandonado encontramos,
coberto por negros ramos
de pessegueiro maninho;
aquele rancho de palha,
aquele triste ranchinho!...

Ai foi um drama de sangue
que aqui se deu...pois não vês!
Repara para as janelas...
o fogo passou por elas!
- Há quantos anos! - Há três.
Contou-me o velho moleiro
há pouco menos de um mês.

Ali morava um velhinho
e mais, um anjo de amor;
criança bela morena
mais formosa que a açucena...
Maria, - a pálida flor,
cujo perfume recende
ainda aos pés do Senhor.

Maria e Vito se amaram
iam seus fados unir,
quando a trombeta da guerra
plangente ecoou na serra
convocando a reunir:
Parte o audaz cavalariano,
porém antes de partir...

Porém antes...entre beijos
juraram constância enfim:
"Se eu morrer numa batalha,
nesta casinha de palha
tu viverás só por mim!..."
A moça beijou-lhe a fronte
e respondeu-lhe: "Pois sim."

Os anos voam! Há tempo
que ela não ri como sói...
chora a triste sertaneja,
quando por fim lhe negreja
uma notícia que dói!
Morrera Vito em combate...
morrera como um herói.

Vestiu luto a pobrezinha,
o velho também vestiu...
Cede por fim a ternura,
e pouco a pouco a tristura
no peito se lhe extinguiu;
se ele morreu foi destino
foi a sorte que o feriu!

Depois correu pela riba
uma nova singular:
Que a bela flor do posteiro
c'o filho de um fazendeiro
já de pronto ia casar;
causou abalo a notícia,
sem que ousassem duvidar.

Uma noite a tempestade
batia pelos cipós,
gemia o vento nos montes
e as águas frias das fontes
desciam com rouca voz...
e no rancho do posteiro
dois noivos dormiam sós.

De repente pela encosta
um cavaleiro desceu;
molhado o poncho brilhava
ao resplendor da saraiva
que resvalava do céu...
era um vulto negro...negro...
trazia enorme chapéu!
Soltando a rédea ao cavalo,
ao rancho foi espreitar...
o vento rugia ao longe
e o bosque sombrio monge
estava como a rezar...
À luz de um raio
Soltando a rédea ao cavalo,
ao rancho foi espreitar...
o vento rugia ao longe
e o bosque sombrio monge
estava como a rezar...

À luz de um raio se abre
a porta de par em par!

Sobre o leito precipita-se
o camponês sem temor!
No punho a adaga flutua
e nas mãos aperta a sua
primeira sombra de amor!
Uma luta então se trava,
sendo Vito o vencedor.

"Pérfida! brada o gaúcho,
Vês o teu noivo? Morreu!
Morrerás também ingrata!"
E a fria adaga de prata
bem nos ares suspendeu.

Baixou a mão e três vezes
no alvo seio a embebeu.
No outro dia os destroços
de um rancho via-se então.

O incêndio levara tudo
e fora cúmplice mudo,
fora cúmplice o trovão!
- Aí tens a história que pedes
do ranchinho do sertão.

Poema escrito em Pelotas, sua terra natal, no ano de 1875 e dedicado (como ele mesmo comentou) ao inspirado poeta riograndense Bernardo Taveira.
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