Poemas neste tema
Vida e Existência
Marília Garcia
ESTRELAS DESCEM À TERRA
começo do começo,
que foi quando me pediram
os poemas que leria no encontro
“a voz do escritor”:
ainda faltava 1 mês
para este encontro
e eu não tinha ideia do que aconteceria
entre o dia do convite e o dia
de estar aqui hoje
assim,
esta voz que fala aqui
é a voz de uma marília de um mês atrás
é a minha voz falando a partir do passado,
é a minha voz,
mas sem controle.
há um mês eu não tinha
como prever o que aconteceria
e eu pensei que se este mês
seguisse o ritmo acelerado
e catastrófico do último ano
tanta coisa já teria
acontecido hoje,
que me dava medo
imaginar.
e eu fiquei me
perguntando:
— com quem estou falando aqui hoje?
e eu fiquei me perguntando:
— como fazer para essas palavras escritas
no passado dizerem algo
sobre estar aqui
agora?
e eu não soube responder.
então, fiquei me perguntando
se hoje faria frio ou não,
e se haveria poeira no ar.
eu sempre me surpreendo
com a poeira que turva a vista:
de repente no meio do dia
uma poeira que se ergue,
uma nuvem
de poeira,
pode ser a poeira vinda das coisas quebradas
todos os dias na vida das pessoas
e eu pensei que talvez a gente pudesse
fazer silêncio
e deixar a escuta aberta
para ouvir.
talvez a gente pudesse fazer silêncio
e de repente neste silêncio
acontecer de ouvir algo por detrás
dos ruídos das máquinas que
cruzam o céu.
talvez não desse para ouvir as máquinas voadoras
neste dia,
foi o que pensei,
mas eu me enganei
porque hoje
desde cedo
os helicópteros estão voando.
— vocês estão ouvindo?
um som infernal
estrelas caindo do céu
em cima da cabeça
o som está cada vez mais perto,
posso encostar a mão
se me viro vejo a sombra
em câmera lenta
sobre a cabeça.
imaginem que isso aqui é um quadrado
com drones volantes,
ou uma cena congelada
com o céu cheio de zepelins,
mas o som é um só:
barulho de máquinas
voadoras
pelo céu.
se a gente prestar atenção e fizer silêncio
— se a gente prestar atenção e fizer
silêncio —
pode ser que ouça
alguma mensagem
perdida no ar.
que foi quando me pediram
os poemas que leria no encontro
“a voz do escritor”:
ainda faltava 1 mês
para este encontro
e eu não tinha ideia do que aconteceria
entre o dia do convite e o dia
de estar aqui hoje
assim,
esta voz que fala aqui
é a voz de uma marília de um mês atrás
é a minha voz falando a partir do passado,
é a minha voz,
mas sem controle.
há um mês eu não tinha
como prever o que aconteceria
e eu pensei que se este mês
seguisse o ritmo acelerado
e catastrófico do último ano
tanta coisa já teria
acontecido hoje,
que me dava medo
imaginar.
e eu fiquei me
perguntando:
— com quem estou falando aqui hoje?
e eu fiquei me perguntando:
— como fazer para essas palavras escritas
no passado dizerem algo
sobre estar aqui
agora?
e eu não soube responder.
então, fiquei me perguntando
se hoje faria frio ou não,
e se haveria poeira no ar.
eu sempre me surpreendo
com a poeira que turva a vista:
de repente no meio do dia
uma poeira que se ergue,
uma nuvem
de poeira,
pode ser a poeira vinda das coisas quebradas
todos os dias na vida das pessoas
e eu pensei que talvez a gente pudesse
fazer silêncio
e deixar a escuta aberta
para ouvir.
talvez a gente pudesse fazer silêncio
e de repente neste silêncio
acontecer de ouvir algo por detrás
dos ruídos das máquinas que
cruzam o céu.
talvez não desse para ouvir as máquinas voadoras
neste dia,
foi o que pensei,
mas eu me enganei
porque hoje
desde cedo
os helicópteros estão voando.
— vocês estão ouvindo?
um som infernal
estrelas caindo do céu
em cima da cabeça
o som está cada vez mais perto,
posso encostar a mão
se me viro vejo a sombra
em câmera lenta
sobre a cabeça.
imaginem que isso aqui é um quadrado
com drones volantes,
ou uma cena congelada
com o céu cheio de zepelins,
mas o som é um só:
barulho de máquinas
voadoras
pelo céu.
se a gente prestar atenção e fizer silêncio
— se a gente prestar atenção e fizer
silêncio —
pode ser que ouça
alguma mensagem
perdida no ar.
717
1
José Paulo Paes
Dicionário
A
Aulas: período de interrupção das férias.
B
Berro: o somproduzido pelo martelo quando bate no dedo da gente.
C
Caveira: a cara da gente quando a gente não for mais gente.
D
Dedo: parte do corpo que não deve ter muita intimidade com o nariz.
E
Excelente: lente muito boa.
F
Forro: o lado de fora do lado de dentro.
G
Girafa: bicho que, quando tem dor de garganta,
é um deus-nos-acuda.
H
Hoje: o ontem de amanhã ou o amanhã de ontem.
I
Isca: cavalo de Tróia para peixe.
J
Janela: porta de ladrão.
L
Luz: coisa que se apaga, mas não com borracha.
M
Minhoca: cobra no jardim-de-infância.
N
Nuvem: algodão que chove.
O
Ovo: filho da galinha que foi mãe dela.
P
Pulo: esporte inventado pelos buracos.
Q
Queixo: parte do corpo que depois de um soco vira queixa.
R
Rei: cara que ganhou coroa.
S
Sopapo: o que acontece quando só papo não adianta.
T
Tombo: o que acontece entre o escorregão e o palavrão.
U
Urgente: gente com pressa
V
Vagalume: besouro guarda-noturno.
X
Xará: um outro que sou eu.
Z
Zebra: bicho que toma sol atrás das grades.
Aulas: período de interrupção das férias.
B
Berro: o somproduzido pelo martelo quando bate no dedo da gente.
C
Caveira: a cara da gente quando a gente não for mais gente.
D
Dedo: parte do corpo que não deve ter muita intimidade com o nariz.
E
Excelente: lente muito boa.
F
Forro: o lado de fora do lado de dentro.
G
Girafa: bicho que, quando tem dor de garganta,
é um deus-nos-acuda.
H
Hoje: o ontem de amanhã ou o amanhã de ontem.
I
Isca: cavalo de Tróia para peixe.
J
Janela: porta de ladrão.
L
Luz: coisa que se apaga, mas não com borracha.
M
Minhoca: cobra no jardim-de-infância.
N
Nuvem: algodão que chove.
O
Ovo: filho da galinha que foi mãe dela.
P
Pulo: esporte inventado pelos buracos.
Q
Queixo: parte do corpo que depois de um soco vira queixa.
R
Rei: cara que ganhou coroa.
S
Sopapo: o que acontece quando só papo não adianta.
T
Tombo: o que acontece entre o escorregão e o palavrão.
U
Urgente: gente com pressa
V
Vagalume: besouro guarda-noturno.
X
Xará: um outro que sou eu.
Z
Zebra: bicho que toma sol atrás das grades.
3 643
1
Fernando Sabino
Certeza
De tudo, ficaram três coisas:
A certeza de que estamos sempre começando.
A certeza de que precisamos continuar.
A certeza de que seremos
interrompidos antes de terminar.
Portanto devemos:
Fazer da interrupção um caminho novo.
Da queda um passo de dança.
Do medo, uma escada.
Do sonho, uma ponte.
Da procura, um encontro.
A certeza de que estamos sempre começando.
A certeza de que precisamos continuar.
A certeza de que seremos
interrompidos antes de terminar.
Portanto devemos:
Fazer da interrupção um caminho novo.
Da queda um passo de dança.
Do medo, uma escada.
Do sonho, uma ponte.
Da procura, um encontro.
2 221
1
Fernando Sabino
Certeza
De tudo, ficaram três coisas:
A certeza de que estamos sempre começando.
A certeza de que precisamos continuar.
A certeza de que seremos
interrompidos antes de terminar.
Portanto devemos:
Fazer da interrupção um caminho novo.
Da queda um passo de dança.
Do medo, uma escada.
Do sonho, uma ponte.
Da procura, um encontro.
A certeza de que estamos sempre começando.
A certeza de que precisamos continuar.
A certeza de que seremos
interrompidos antes de terminar.
Portanto devemos:
Fazer da interrupção um caminho novo.
Da queda um passo de dança.
Do medo, uma escada.
Do sonho, uma ponte.
Da procura, um encontro.
2 221
1
Fernando Sabino
Certeza
De tudo, ficaram três coisas:
A certeza de que estamos sempre começando.
A certeza de que precisamos continuar.
A certeza de que seremos
interrompidos antes de terminar.
Portanto devemos:
Fazer da interrupção um caminho novo.
Da queda um passo de dança.
Do medo, uma escada.
Do sonho, uma ponte.
Da procura, um encontro.
A certeza de que estamos sempre começando.
A certeza de que precisamos continuar.
A certeza de que seremos
interrompidos antes de terminar.
Portanto devemos:
Fazer da interrupção um caminho novo.
Da queda um passo de dança.
Do medo, uma escada.
Do sonho, uma ponte.
Da procura, um encontro.
2 221
1
Golgona Anghel
Quando sair daqui
Quando sair daqui,
arranco-te com os meus próprios dentes
as unhas dos pés, essas manias
e as chaves do carro,
sua ordinária, pensei, sua mentirosa, pensei,
sua puta, pensei,
mas pensei baixinho e com pouco entusiasmo:
era difícil sujar a minha mulher
sem rebaixar-me ainda mais.
Tens sorte, pensei.
Podia imaginar o teu futuro liso e bem esticado
como a pele de um leopardo
à entrada de uma loja de antiguidades.
Admito até provar o teu amargo sangue,
para lembrar-me que antes fui um escravo,
mas não consigo fazer de ti,
assim obesa e malcheirosa como andas,
o móbil de um crime passional.
arranco-te com os meus próprios dentes
as unhas dos pés, essas manias
e as chaves do carro,
sua ordinária, pensei, sua mentirosa, pensei,
sua puta, pensei,
mas pensei baixinho e com pouco entusiasmo:
era difícil sujar a minha mulher
sem rebaixar-me ainda mais.
Tens sorte, pensei.
Podia imaginar o teu futuro liso e bem esticado
como a pele de um leopardo
à entrada de uma loja de antiguidades.
Admito até provar o teu amargo sangue,
para lembrar-me que antes fui um escravo,
mas não consigo fazer de ti,
assim obesa e malcheirosa como andas,
o móbil de um crime passional.
1 301
1
Daniel Jonas
OSSÉTIA
Ou como uma foto de Karpukhin
a Madonna ampara com o braço um
dos lados do triângulo
e deixa um derradeiro beijo escorrer por ele
até à cabeça morta
do seu menino no catre.
Uma cena difícil: a contenção
das sombras, do chiaroscuro,
o profundo luto quando a luta
cedeu a sua luz.
De preto ela
emoldurando a palidez do seu querido,
o crânio envolto numa ligadura,
halo de mártires.
O inconsolável.
O fotojornalismo
tem fortes influências da renascença.
Algo de terror.
Algo de Leonardo.
a Madonna ampara com o braço um
dos lados do triângulo
e deixa um derradeiro beijo escorrer por ele
até à cabeça morta
do seu menino no catre.
Uma cena difícil: a contenção
das sombras, do chiaroscuro,
o profundo luto quando a luta
cedeu a sua luz.
De preto ela
emoldurando a palidez do seu querido,
o crânio envolto numa ligadura,
halo de mártires.
O inconsolável.
O fotojornalismo
tem fortes influências da renascença.
Algo de terror.
Algo de Leonardo.
1 106
1
António Carlos Cortez
Poesia
Quando não esperas nada
não esperas nada
Quando não esperas nada
tudo acontece
Quando não esperas nada
o nada é certo
Quando não esperas nada
das leis do verso
Quando não esperas nada
porque esperavas?
Quando não esperas nada
lembras fantasmas
Quando não esperas nada
o som concreto
do poema cresce e tu recebes
lição de um nada em tudo
e recomeças
não esperas nada
Quando não esperas nada
tudo acontece
Quando não esperas nada
o nada é certo
Quando não esperas nada
das leis do verso
Quando não esperas nada
porque esperavas?
Quando não esperas nada
lembras fantasmas
Quando não esperas nada
o som concreto
do poema cresce e tu recebes
lição de um nada em tudo
e recomeças
1 574
1
António Cabrita
SOPRA AS TUAS VELAS
O corpo com a idade impõe ora folga, ora um alpendre certo (com vinha de enforcado) aos apartes, enquanto surripia o humor aos corvos.
Um dia esquece-nos, expele pelos olhos uma faúlha preta, e eis-nos arredados
de toda a escuta como as flores de plástico, que macambuzam a televisão da avó.
Já fui mais festivo, fotografava ao acaso e, na ampliação, detectava a secreta geometria dos fundos, as gengivas que desbravam o riso de Deus.
Mais presciente a minha filha de três anos: «és a sereia Ariel ou o linguado?»
Nem hesita: o linguado!
Entra no teu silêncio e sopra as tuas velas, recomendava, astuto, o Victor Hugo
Um dia esquece-nos, expele pelos olhos uma faúlha preta, e eis-nos arredados
de toda a escuta como as flores de plástico, que macambuzam a televisão da avó.
Já fui mais festivo, fotografava ao acaso e, na ampliação, detectava a secreta geometria dos fundos, as gengivas que desbravam o riso de Deus.
Mais presciente a minha filha de três anos: «és a sereia Ariel ou o linguado?»
Nem hesita: o linguado!
Entra no teu silêncio e sopra as tuas velas, recomendava, astuto, o Victor Hugo
734
1
António Cabrita
SOPRA AS TUAS VELAS
O corpo com a idade impõe ora folga, ora um alpendre certo (com vinha de enforcado) aos apartes, enquanto surripia o humor aos corvos.
Um dia esquece-nos, expele pelos olhos uma faúlha preta, e eis-nos arredados
de toda a escuta como as flores de plástico, que macambuzam a televisão da avó.
Já fui mais festivo, fotografava ao acaso e, na ampliação, detectava a secreta geometria dos fundos, as gengivas que desbravam o riso de Deus.
Mais presciente a minha filha de três anos: «és a sereia Ariel ou o linguado?»
Nem hesita: o linguado!
Entra no teu silêncio e sopra as tuas velas, recomendava, astuto, o Victor Hugo
Um dia esquece-nos, expele pelos olhos uma faúlha preta, e eis-nos arredados
de toda a escuta como as flores de plástico, que macambuzam a televisão da avó.
Já fui mais festivo, fotografava ao acaso e, na ampliação, detectava a secreta geometria dos fundos, as gengivas que desbravam o riso de Deus.
Mais presciente a minha filha de três anos: «és a sereia Ariel ou o linguado?»
Nem hesita: o linguado!
Entra no teu silêncio e sopra as tuas velas, recomendava, astuto, o Victor Hugo
734
1
António Cabrita
SOPRA AS TUAS VELAS
O corpo com a idade impõe ora folga, ora um alpendre certo (com vinha de enforcado) aos apartes, enquanto surripia o humor aos corvos.
Um dia esquece-nos, expele pelos olhos uma faúlha preta, e eis-nos arredados
de toda a escuta como as flores de plástico, que macambuzam a televisão da avó.
Já fui mais festivo, fotografava ao acaso e, na ampliação, detectava a secreta geometria dos fundos, as gengivas que desbravam o riso de Deus.
Mais presciente a minha filha de três anos: «és a sereia Ariel ou o linguado?»
Nem hesita: o linguado!
Entra no teu silêncio e sopra as tuas velas, recomendava, astuto, o Victor Hugo
Um dia esquece-nos, expele pelos olhos uma faúlha preta, e eis-nos arredados
de toda a escuta como as flores de plástico, que macambuzam a televisão da avó.
Já fui mais festivo, fotografava ao acaso e, na ampliação, detectava a secreta geometria dos fundos, as gengivas que desbravam o riso de Deus.
Mais presciente a minha filha de três anos: «és a sereia Ariel ou o linguado?»
Nem hesita: o linguado!
Entra no teu silêncio e sopra as tuas velas, recomendava, astuto, o Victor Hugo
734
1
Yi Sáng
Poema n. 7
Nesta terra de remoto exílio um ramo • no ramo floresce uma
flora brilhante • peculiar árvore florida de abril • trinta voltas •
espelho claro nos dois lados pré pós trinta voltas • a lua cheia
que decai agora em direção ao horizonte alegrerridente feito
um broto novo • em meio ao ímpeto do riacho límpido do vale a
lua cheia toda estropiada que derrui penalizada com o nariz
decepado • uma carta vinda de casa atravessa essa terra de
exílio • eu de mal em mal protegi-me de louvores • broto da lua
esmaecido • o longínquo da camada atmosférica cobrindo esta
quietude • esta grande caverna oca de um ano e quatro meses
em meio à grandiosa miséria • astros coxeiam tropeçam e por
ruelas mortiças de astros milestilhaçados a grandiosa
neventania foge • cai nevasca • pedrassal tingida de vermelho-
sangue pulverizando-se • com o meu cérebro como pára-raio,
restos mortais encharcados de luz transbordantes de luz vão
sendo transportados • eu, uma cobra venenosa em exílio na
torre, acabei plantado no horizonte e nunca mais pude mover-
me • até que desça a graça dos céus.
flora brilhante • peculiar árvore florida de abril • trinta voltas •
espelho claro nos dois lados pré pós trinta voltas • a lua cheia
que decai agora em direção ao horizonte alegrerridente feito
um broto novo • em meio ao ímpeto do riacho límpido do vale a
lua cheia toda estropiada que derrui penalizada com o nariz
decepado • uma carta vinda de casa atravessa essa terra de
exílio • eu de mal em mal protegi-me de louvores • broto da lua
esmaecido • o longínquo da camada atmosférica cobrindo esta
quietude • esta grande caverna oca de um ano e quatro meses
em meio à grandiosa miséria • astros coxeiam tropeçam e por
ruelas mortiças de astros milestilhaçados a grandiosa
neventania foge • cai nevasca • pedrassal tingida de vermelho-
sangue pulverizando-se • com o meu cérebro como pára-raio,
restos mortais encharcados de luz transbordantes de luz vão
sendo transportados • eu, uma cobra venenosa em exílio na
torre, acabei plantado no horizonte e nunca mais pude mover-
me • até que desça a graça dos céus.
711
1
Paulo Henriques Britto
fim de verão - XIV
A noite total tarda a chegar:
aproveite-se a luz que há.
É um lume sensato, difuso,
que não dissipa o lusco-fusco
porém o disfarça e matiza,
atenuando o tom de cinza
com laivos quase sinceros
de azul, vermelho e amarelo,
proporcionando às retinas
já habituadas à rotina
de emprestar às sombras de agora
tons subtraídos da memória
uma oportunidade tardia
de gozar um quase dia.
Quase, sim: melhor do que nada,
melhor que o nada.
aproveite-se a luz que há.
É um lume sensato, difuso,
que não dissipa o lusco-fusco
porém o disfarça e matiza,
atenuando o tom de cinza
com laivos quase sinceros
de azul, vermelho e amarelo,
proporcionando às retinas
já habituadas à rotina
de emprestar às sombras de agora
tons subtraídos da memória
uma oportunidade tardia
de gozar um quase dia.
Quase, sim: melhor do que nada,
melhor que o nada.
570
1
Paulo Henriques Britto
fim de verão - XIV
A noite total tarda a chegar:
aproveite-se a luz que há.
É um lume sensato, difuso,
que não dissipa o lusco-fusco
porém o disfarça e matiza,
atenuando o tom de cinza
com laivos quase sinceros
de azul, vermelho e amarelo,
proporcionando às retinas
já habituadas à rotina
de emprestar às sombras de agora
tons subtraídos da memória
uma oportunidade tardia
de gozar um quase dia.
Quase, sim: melhor do que nada,
melhor que o nada.
aproveite-se a luz que há.
É um lume sensato, difuso,
que não dissipa o lusco-fusco
porém o disfarça e matiza,
atenuando o tom de cinza
com laivos quase sinceros
de azul, vermelho e amarelo,
proporcionando às retinas
já habituadas à rotina
de emprestar às sombras de agora
tons subtraídos da memória
uma oportunidade tardia
de gozar um quase dia.
Quase, sim: melhor do que nada,
melhor que o nada.
570
1
Zulmira Ribeiro Tavares
Jiboia
Depois do almoço
Palmira jiboia.
Tem cisma com termo mais light:
sesta - de socialite.
Palmira não gosta.
Olha para o alto.
Enxerga árvores
onde há telhados.
E telhas partidas caem.
Sopra a brisa do morro
esfriando-lhe a nuca.
Mas é o vento encanado
de portas batendo.
Palmira não escuta.
Palmira por trás da modorra
espiona a vida sebosa.
Acorda. Espirra.
E o lençol que a enrola
fabrica uma cobra de giz.
Palmira não gosta.
Por que não ter como sua
uma nova figura
que lhe sirva de espelho?
Uma cobra top model -
a coral, por exemplo.
Palmira boceja. Recusa.
E o seu corpanzil sem remorsos
navega nas horas da grande preguiça.
É barco, bote, bandeja, bacia
Jiboia gozando a sesta
de gente que pode
triturar pela boca o mundo arrastando nas cheias
benesses, roedores, reses.
Palmira jiboia.
Tem cisma com termo mais light:
sesta - de socialite.
Palmira não gosta.
Olha para o alto.
Enxerga árvores
onde há telhados.
E telhas partidas caem.
Sopra a brisa do morro
esfriando-lhe a nuca.
Mas é o vento encanado
de portas batendo.
Palmira não escuta.
Palmira por trás da modorra
espiona a vida sebosa.
Acorda. Espirra.
E o lençol que a enrola
fabrica uma cobra de giz.
Palmira não gosta.
Por que não ter como sua
uma nova figura
que lhe sirva de espelho?
Uma cobra top model -
a coral, por exemplo.
Palmira boceja. Recusa.
E o seu corpanzil sem remorsos
navega nas horas da grande preguiça.
É barco, bote, bandeja, bacia
Jiboia gozando a sesta
de gente que pode
triturar pela boca o mundo arrastando nas cheias
benesses, roedores, reses.
788
1
Luís Quintais
MÁQUINA
Nem sombra de fantasma dentro da máquina.
Ser apenas máquina.
Uma máquina de ler.
Uma máquina de dar de comer aos filhos.
Uma máquina de escrever sem qwerty ou azerty,
irreconhecível, mas uma máquina em todo o caso.
Uma máquina de foder.
Uma máquina de beber.
Uma máquina ser erro maquínico.
Uma máquina sem improvável intenção,
melancolia, elegia, meta-representação mortal
e desabrida.
Uma máquina que se finasse depois, sem dor,
de pura obsolescência.
Uma máquina sem dor nem tédio.
Uma máquina sem estados de alma.
Uma máquina sem alma.
Ser apenas máquina.
Uma máquina de ler.
Uma máquina de dar de comer aos filhos.
Uma máquina de escrever sem qwerty ou azerty,
irreconhecível, mas uma máquina em todo o caso.
Uma máquina de foder.
Uma máquina de beber.
Uma máquina ser erro maquínico.
Uma máquina sem improvável intenção,
melancolia, elegia, meta-representação mortal
e desabrida.
Uma máquina que se finasse depois, sem dor,
de pura obsolescência.
Uma máquina sem dor nem tédio.
Uma máquina sem estados de alma.
Uma máquina sem alma.
1 281
1
Luís Quintais
MÁQUINA
Nem sombra de fantasma dentro da máquina.
Ser apenas máquina.
Uma máquina de ler.
Uma máquina de dar de comer aos filhos.
Uma máquina de escrever sem qwerty ou azerty,
irreconhecível, mas uma máquina em todo o caso.
Uma máquina de foder.
Uma máquina de beber.
Uma máquina ser erro maquínico.
Uma máquina sem improvável intenção,
melancolia, elegia, meta-representação mortal
e desabrida.
Uma máquina que se finasse depois, sem dor,
de pura obsolescência.
Uma máquina sem dor nem tédio.
Uma máquina sem estados de alma.
Uma máquina sem alma.
Ser apenas máquina.
Uma máquina de ler.
Uma máquina de dar de comer aos filhos.
Uma máquina de escrever sem qwerty ou azerty,
irreconhecível, mas uma máquina em todo o caso.
Uma máquina de foder.
Uma máquina de beber.
Uma máquina ser erro maquínico.
Uma máquina sem improvável intenção,
melancolia, elegia, meta-representação mortal
e desabrida.
Uma máquina que se finasse depois, sem dor,
de pura obsolescência.
Uma máquina sem dor nem tédio.
Uma máquina sem estados de alma.
Uma máquina sem alma.
1 281
1
Marília Garcia
pelos grandes bulevares
[do lado de dentro]
o que ela vê quando fecha
os olhos? linhas sinuosas, um mapa
feito à mão, parece uma pista vista de cima —
os campos cortados ou poderia ser
uma sombra riscando o verde quando passa
lá no alto.
o que ela vê quando
olha em linha reta tentando
descrever
a garota que conheceu no café?
a transformada de
wavelets ou um peixe-lua-
circular em uma região abissal.
não é nada abissal
estar nesta superfície,
você quis dizer de vidro? esférico?
ou um animal marinho em miniatura:
um polvo de 1mm?
o cinema é 24 vezes
a verdade por segundo. este segundo
poderia ser 24 vezes a cara dela
quando fecha os olhos e vê.
[de fora]
não é por falta de repetição, mas não
encontrava a palavra exata.
o que ela vê não sabe e tudo fica tremido
se fast forward.
agora fecha os olhos para
entender, para ir mais
devagar.
não se perde alguém por duas
vezes, era o que achava
mas a essa altura chego no mesmo terminal
duas semanas depois e a cena se
repete.
— você está tendo um problema
de realidade, ele cochichou.
— qual é o desastre desta vez?
o que ela vê ao abrir a
claraboia? ao bater aquela foto da
ponte ou quando lê
a legenda:
“nos abismos a vida é submetida
ao frio, escuridão, pressão.
oito mil metros de profundidade”
uma montanha
ao contrário.
o que ela vê quando fecha
os olhos? linhas sinuosas, um mapa
feito à mão, parece uma pista vista de cima —
os campos cortados ou poderia ser
uma sombra riscando o verde quando passa
lá no alto.
o que ela vê quando
olha em linha reta tentando
descrever
a garota que conheceu no café?
a transformada de
wavelets ou um peixe-lua-
circular em uma região abissal.
não é nada abissal
estar nesta superfície,
você quis dizer de vidro? esférico?
ou um animal marinho em miniatura:
um polvo de 1mm?
o cinema é 24 vezes
a verdade por segundo. este segundo
poderia ser 24 vezes a cara dela
quando fecha os olhos e vê.
[de fora]
não é por falta de repetição, mas não
encontrava a palavra exata.
o que ela vê não sabe e tudo fica tremido
se fast forward.
agora fecha os olhos para
entender, para ir mais
devagar.
não se perde alguém por duas
vezes, era o que achava
mas a essa altura chego no mesmo terminal
duas semanas depois e a cena se
repete.
— você está tendo um problema
de realidade, ele cochichou.
— qual é o desastre desta vez?
o que ela vê ao abrir a
claraboia? ao bater aquela foto da
ponte ou quando lê
a legenda:
“nos abismos a vida é submetida
ao frio, escuridão, pressão.
oito mil metros de profundidade”
uma montanha
ao contrário.
711
1
Manuel Laranjeira
NA RUA
Ninguém por certo adivinha
como essa Desconhecida,
entre estes braços prendida,
jurava ser toda minha..
Minha sempre! – E em voz baixinha:
– "Tua ainda além da vida!..."
Hoje fita-me, esquecida
do grande amor que me tinha.
Juramos ser imortal
esse amor estranho e louco...
E o grande amor, afinal,
(Com que desprezo me lembro!)
foi morrendo pouco a pouco,
– como uma tarde em Setembro...
como essa Desconhecida,
entre estes braços prendida,
jurava ser toda minha..
Minha sempre! – E em voz baixinha:
– "Tua ainda além da vida!..."
Hoje fita-me, esquecida
do grande amor que me tinha.
Juramos ser imortal
esse amor estranho e louco...
E o grande amor, afinal,
(Com que desprezo me lembro!)
foi morrendo pouco a pouco,
– como uma tarde em Setembro...
799
1
Manuel Laranjeira
NA RUA
Ninguém por certo adivinha
como essa Desconhecida,
entre estes braços prendida,
jurava ser toda minha..
Minha sempre! – E em voz baixinha:
– "Tua ainda além da vida!..."
Hoje fita-me, esquecida
do grande amor que me tinha.
Juramos ser imortal
esse amor estranho e louco...
E o grande amor, afinal,
(Com que desprezo me lembro!)
foi morrendo pouco a pouco,
– como uma tarde em Setembro...
como essa Desconhecida,
entre estes braços prendida,
jurava ser toda minha..
Minha sempre! – E em voz baixinha:
– "Tua ainda além da vida!..."
Hoje fita-me, esquecida
do grande amor que me tinha.
Juramos ser imortal
esse amor estranho e louco...
E o grande amor, afinal,
(Com que desprezo me lembro!)
foi morrendo pouco a pouco,
– como uma tarde em Setembro...
799
1
Soares de Passos
Amor e Eternidade
Repara, doce amiga, olha esta lousa,
E junto aquella que lhe fica unida:
Aqui d'um terno amor, aqui repousa
O despojo mortal, sem luz, sem vida.
Esgotando talvez o fel da sorte,
Poderam ambos descançar tranquillos;
Amaram-se na vida, e inda na morte
Não pôde a fria tumba desunil-os.
Oh! quão saudosa a viração murmura
No cypreste virente
Que lhes protege as urnas funerárias!
E o sol, ao descahir lá no occidente,
Quão bello lhes fulgura
Nas campas solitárias!
Assim, anjo adorado, assim um dia
De nossas vidas murcharão flores...
Assim ao menos sob a campa fria
Se reunam também nossos amores!
Mas que vejo! estremeces, e teu rosto,
Teu bello rosto no meu seio inclinas,
Pallido como o lírio que ao sol posto
Desmaia nas campinas?
Oh? vem, não perturbemos a ventura
Do coração, que jubiloso anceia...
Vem, gosemos da vida em quanto dura;
Desterremos da morte a negra ideia!
Longe, longe de nós essa lembrança!
Mas não receies o funesto corte...
Doce amiga, descança:
Quem ama como nós, sorri à morte.
Vês estas sepulturas?
Aqui cinzas escuras,
Sem vida, sem vigor, jazem agora;
Mas esse ardor que as animou outr'ora,
Voou nas azas d'immortal aurora
A regiões mais puras.
Não, a chamma que o peito ao peito envia
Não morre extincta no funéreo gelo.
O coração é immenso: a campa fria
É pequena de mais para contê-lo.
Nada receies, pois: a tumba encerra
Um breve espaço e uma breve idade:
É o amor tem por pátria o céo e a terra,
Por vida a eternidade!
E junto aquella que lhe fica unida:
Aqui d'um terno amor, aqui repousa
O despojo mortal, sem luz, sem vida.
Esgotando talvez o fel da sorte,
Poderam ambos descançar tranquillos;
Amaram-se na vida, e inda na morte
Não pôde a fria tumba desunil-os.
Oh! quão saudosa a viração murmura
No cypreste virente
Que lhes protege as urnas funerárias!
E o sol, ao descahir lá no occidente,
Quão bello lhes fulgura
Nas campas solitárias!
Assim, anjo adorado, assim um dia
De nossas vidas murcharão flores...
Assim ao menos sob a campa fria
Se reunam também nossos amores!
Mas que vejo! estremeces, e teu rosto,
Teu bello rosto no meu seio inclinas,
Pallido como o lírio que ao sol posto
Desmaia nas campinas?
Oh? vem, não perturbemos a ventura
Do coração, que jubiloso anceia...
Vem, gosemos da vida em quanto dura;
Desterremos da morte a negra ideia!
Longe, longe de nós essa lembrança!
Mas não receies o funesto corte...
Doce amiga, descança:
Quem ama como nós, sorri à morte.
Vês estas sepulturas?
Aqui cinzas escuras,
Sem vida, sem vigor, jazem agora;
Mas esse ardor que as animou outr'ora,
Voou nas azas d'immortal aurora
A regiões mais puras.
Não, a chamma que o peito ao peito envia
Não morre extincta no funéreo gelo.
O coração é immenso: a campa fria
É pequena de mais para contê-lo.
Nada receies, pois: a tumba encerra
Um breve espaço e uma breve idade:
É o amor tem por pátria o céo e a terra,
Por vida a eternidade!
881
1
Soares de Passos
Amor e Eternidade
Repara, doce amiga, olha esta lousa,
E junto aquella que lhe fica unida:
Aqui d'um terno amor, aqui repousa
O despojo mortal, sem luz, sem vida.
Esgotando talvez o fel da sorte,
Poderam ambos descançar tranquillos;
Amaram-se na vida, e inda na morte
Não pôde a fria tumba desunil-os.
Oh! quão saudosa a viração murmura
No cypreste virente
Que lhes protege as urnas funerárias!
E o sol, ao descahir lá no occidente,
Quão bello lhes fulgura
Nas campas solitárias!
Assim, anjo adorado, assim um dia
De nossas vidas murcharão flores...
Assim ao menos sob a campa fria
Se reunam também nossos amores!
Mas que vejo! estremeces, e teu rosto,
Teu bello rosto no meu seio inclinas,
Pallido como o lírio que ao sol posto
Desmaia nas campinas?
Oh? vem, não perturbemos a ventura
Do coração, que jubiloso anceia...
Vem, gosemos da vida em quanto dura;
Desterremos da morte a negra ideia!
Longe, longe de nós essa lembrança!
Mas não receies o funesto corte...
Doce amiga, descança:
Quem ama como nós, sorri à morte.
Vês estas sepulturas?
Aqui cinzas escuras,
Sem vida, sem vigor, jazem agora;
Mas esse ardor que as animou outr'ora,
Voou nas azas d'immortal aurora
A regiões mais puras.
Não, a chamma que o peito ao peito envia
Não morre extincta no funéreo gelo.
O coração é immenso: a campa fria
É pequena de mais para contê-lo.
Nada receies, pois: a tumba encerra
Um breve espaço e uma breve idade:
É o amor tem por pátria o céo e a terra,
Por vida a eternidade!
E junto aquella que lhe fica unida:
Aqui d'um terno amor, aqui repousa
O despojo mortal, sem luz, sem vida.
Esgotando talvez o fel da sorte,
Poderam ambos descançar tranquillos;
Amaram-se na vida, e inda na morte
Não pôde a fria tumba desunil-os.
Oh! quão saudosa a viração murmura
No cypreste virente
Que lhes protege as urnas funerárias!
E o sol, ao descahir lá no occidente,
Quão bello lhes fulgura
Nas campas solitárias!
Assim, anjo adorado, assim um dia
De nossas vidas murcharão flores...
Assim ao menos sob a campa fria
Se reunam também nossos amores!
Mas que vejo! estremeces, e teu rosto,
Teu bello rosto no meu seio inclinas,
Pallido como o lírio que ao sol posto
Desmaia nas campinas?
Oh? vem, não perturbemos a ventura
Do coração, que jubiloso anceia...
Vem, gosemos da vida em quanto dura;
Desterremos da morte a negra ideia!
Longe, longe de nós essa lembrança!
Mas não receies o funesto corte...
Doce amiga, descança:
Quem ama como nós, sorri à morte.
Vês estas sepulturas?
Aqui cinzas escuras,
Sem vida, sem vigor, jazem agora;
Mas esse ardor que as animou outr'ora,
Voou nas azas d'immortal aurora
A regiões mais puras.
Não, a chamma que o peito ao peito envia
Não morre extincta no funéreo gelo.
O coração é immenso: a campa fria
É pequena de mais para contê-lo.
Nada receies, pois: a tumba encerra
Um breve espaço e uma breve idade:
É o amor tem por pátria o céo e a terra,
Por vida a eternidade!
881
1
Daniel Jonas
UMA SAISON NOS INFERNOS
Tudo é breve: um deus,
o plâncton, o ferro.
O meu poema é uma miséria
comparado com o teu nome
no edital.
A voragem dos grandes estúdios,
a saída dos operários da fábrica,
a grande depressão
dos trinta anos:
Eu bebo
porque se não beber
não conduzo
este corpo a casa.
o plâncton, o ferro.
O meu poema é uma miséria
comparado com o teu nome
no edital.
A voragem dos grandes estúdios,
a saída dos operários da fábrica,
a grande depressão
dos trinta anos:
Eu bebo
porque se não beber
não conduzo
este corpo a casa.
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Charles Bukowski
Confissão
esperando pela morte
como um gato
que vai pular
na cama
sinto muita pena de
minha mulher
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo e
talvez
sacudi-lo de novo:
"Henry!"
e Henry não vai
responder.
não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.
no entanto
eu quero que ela
saiba
que dormir
todas as noites
a seu lado
e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas
e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de
dizer
podem agora
ser ditas:
eu te
amo.
como um gato
que vai pular
na cama
sinto muita pena de
minha mulher
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo e
talvez
sacudi-lo de novo:
"Henry!"
e Henry não vai
responder.
não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.
no entanto
eu quero que ela
saiba
que dormir
todas as noites
a seu lado
e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas
e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de
dizer
podem agora
ser ditas:
eu te
amo.
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