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Poemas neste tema

Vida e Existência

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ciclo

Sorrimos para as mulheres bojudas que passam como cargueiros adernando,
sorrimos sem interesse, porque a prenhez as circunda.
E levamos balões às crianças que afinal se revelam,
vemo-las criar folhas e temos cuidados especiais com sua segurança,
porque a rua é mortal e a seara não amadureceu.
Assistimos ao crescimento colegial das meninas e como é rude
infundir ritmo ao puro desengonço, forma ao espaço!
Nosso desejo, de ainda não desejar, não se sabe desejo,
e espera.
Como o bicho espera outro bicho.
E o furto espera o ladrão.
E a morte espera o morto.
E a mesma espera, sua esperança.

De repente, sentimos um arco ligando ao céu nossa medula,
e no fundamento do ser a hora fulgura.
É agora, o altar está brunido
e as alfaias cada uma tem seu brilho
e cada brilho seu destino.
Um antigo sacrifício já se alteia
e no linho amarfanhado um búfalo estampou
a sentença dos búfalos.

As crianças crescem tanto, e continuam
tão jardim, mas tão jardim na tarde rubra.
São eternas as crianças decepadas,
e lá embaixo da cama seus destroços
nem nos ferem a vista nem repugnam
a esse outro ser blindado que desponta
de sua própria e ingênua imolação.

E porque subsistem, as crianças,
e boiam na íris madura a censurar-nos,
e constrangem, derrotam
a solércia dos grandes,
há em certos amores essa distância de um a outro
que separa, não duas cidades, mas dois corpos.

Perturbação de entrar
no quarto de nus,
tristeza de nudez que se sabe julgada,
comparação de veia antiga a pele nova,
presença de relógio insinuada entre roupas íntimas,
um ontem ressoando sempre,
e ciência, entretanto, de que nada continua e nem mesmo talvez exista.

Então nos punimos em nossa delícia.
O amor atinge raso, e fere tanto.
Nu a nu,
fome a fome,
não confiscamos nada e nos vertemos.
E é terrivelmente adulto esse animal
a espreitar-nos, sorrindo,
como quem a si mesmo se revela.

As crianças estão vingadas no arrepio
com que vamos à caça; no abandono
de nós, em que se esfuma nossa posse.
(Que possuímos de ninguém, e em que nenhuma região nos sabemos pensados,
sequer admitidos como coisas vivendo
salvo no rasto de coisas outras, agressivas?)

Voltamos a nós mesmos, destroçados.
Ai, batalha do tempo contra a luz,
vitória do pequeno sobre o muito,
quem te previu na graça do desejo
a pular de cabrito sobre a relva
súbito incendiada em línguas de ira?
Quem te compôs de sábia timidez
e de suplicazinhas infantis
tão logo ouvidas como desdenhadas?
De impossíveis, de risos e de nadas
tu te formaste, só, em meio aos fortes;
crescente em véu e risco; disfarçaste
de ti mesma esse núcleo monstruoso
que faz sofrer os máximos guerreiros
e compaixão infunde às mesmas pedras
e a crótalos de bronze nos jardins.
Ei-los prostrados, sim, e nos seus rostos
poluídos de chuva e de excremento
uma formiga escreve, contra o vento,
a notícia dos erros cometidos;
e um cavalo relincha, galopando;
e um desespero sem amar, e amando,
tinge o espaço de um vinho episcopal,
tão roxo é o sangue borrifado a esmo,
de feridas expostas em vitrinas,
joias comuns em suas formas raras
de tarântula cobra
touro verme
feridas latejando sem os corpos
deslembrados de tudo na corrente.

Noturno e ambíguo esse sorriso em nosso rumo.
Sorrimos também — mas sem interesse — para as mulheres bojudas que passam,
cargueiros adernando em mar de promessa
contínua.
2 298 1
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ciclo

Sorrimos para as mulheres bojudas que passam como cargueiros adernando,
sorrimos sem interesse, porque a prenhez as circunda.
E levamos balões às crianças que afinal se revelam,
vemo-las criar folhas e temos cuidados especiais com sua segurança,
porque a rua é mortal e a seara não amadureceu.
Assistimos ao crescimento colegial das meninas e como é rude
infundir ritmo ao puro desengonço, forma ao espaço!
Nosso desejo, de ainda não desejar, não se sabe desejo,
e espera.
Como o bicho espera outro bicho.
E o furto espera o ladrão.
E a morte espera o morto.
E a mesma espera, sua esperança.

De repente, sentimos um arco ligando ao céu nossa medula,
e no fundamento do ser a hora fulgura.
É agora, o altar está brunido
e as alfaias cada uma tem seu brilho
e cada brilho seu destino.
Um antigo sacrifício já se alteia
e no linho amarfanhado um búfalo estampou
a sentença dos búfalos.

As crianças crescem tanto, e continuam
tão jardim, mas tão jardim na tarde rubra.
São eternas as crianças decepadas,
e lá embaixo da cama seus destroços
nem nos ferem a vista nem repugnam
a esse outro ser blindado que desponta
de sua própria e ingênua imolação.

E porque subsistem, as crianças,
e boiam na íris madura a censurar-nos,
e constrangem, derrotam
a solércia dos grandes,
há em certos amores essa distância de um a outro
que separa, não duas cidades, mas dois corpos.

Perturbação de entrar
no quarto de nus,
tristeza de nudez que se sabe julgada,
comparação de veia antiga a pele nova,
presença de relógio insinuada entre roupas íntimas,
um ontem ressoando sempre,
e ciência, entretanto, de que nada continua e nem mesmo talvez exista.

Então nos punimos em nossa delícia.
O amor atinge raso, e fere tanto.
Nu a nu,
fome a fome,
não confiscamos nada e nos vertemos.
E é terrivelmente adulto esse animal
a espreitar-nos, sorrindo,
como quem a si mesmo se revela.

As crianças estão vingadas no arrepio
com que vamos à caça; no abandono
de nós, em que se esfuma nossa posse.
(Que possuímos de ninguém, e em que nenhuma região nos sabemos pensados,
sequer admitidos como coisas vivendo
salvo no rasto de coisas outras, agressivas?)

Voltamos a nós mesmos, destroçados.
Ai, batalha do tempo contra a luz,
vitória do pequeno sobre o muito,
quem te previu na graça do desejo
a pular de cabrito sobre a relva
súbito incendiada em línguas de ira?
Quem te compôs de sábia timidez
e de suplicazinhas infantis
tão logo ouvidas como desdenhadas?
De impossíveis, de risos e de nadas
tu te formaste, só, em meio aos fortes;
crescente em véu e risco; disfarçaste
de ti mesma esse núcleo monstruoso
que faz sofrer os máximos guerreiros
e compaixão infunde às mesmas pedras
e a crótalos de bronze nos jardins.
Ei-los prostrados, sim, e nos seus rostos
poluídos de chuva e de excremento
uma formiga escreve, contra o vento,
a notícia dos erros cometidos;
e um cavalo relincha, galopando;
e um desespero sem amar, e amando,
tinge o espaço de um vinho episcopal,
tão roxo é o sangue borrifado a esmo,
de feridas expostas em vitrinas,
joias comuns em suas formas raras
de tarântula cobra
touro verme
feridas latejando sem os corpos
deslembrados de tudo na corrente.

Noturno e ambíguo esse sorriso em nosso rumo.
Sorrimos também — mas sem interesse — para as mulheres bojudas que passam,
cargueiros adernando em mar de promessa
contínua.
2 298 1
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Ciclo

Sorrimos para as mulheres bojudas que passam como cargueiros adernando,
sorrimos sem interesse, porque a prenhez as circunda.
E levamos balões às crianças que afinal se revelam,
vemo-las criar folhas e temos cuidados especiais com sua segurança,
porque a rua é mortal e a seara não amadureceu.
Assistimos ao crescimento colegial das meninas e como é rude
infundir ritmo ao puro desengonço, forma ao espaço!
Nosso desejo, de ainda não desejar, não se sabe desejo,
e espera.
Como o bicho espera outro bicho.
E o furto espera o ladrão.
E a morte espera o morto.
E a mesma espera, sua esperança.

De repente, sentimos um arco ligando ao céu nossa medula,
e no fundamento do ser a hora fulgura.
É agora, o altar está brunido
e as alfaias cada uma tem seu brilho
e cada brilho seu destino.
Um antigo sacrifício já se alteia
e no linho amarfanhado um búfalo estampou
a sentença dos búfalos.

As crianças crescem tanto, e continuam
tão jardim, mas tão jardim na tarde rubra.
São eternas as crianças decepadas,
e lá embaixo da cama seus destroços
nem nos ferem a vista nem repugnam
a esse outro ser blindado que desponta
de sua própria e ingênua imolação.

E porque subsistem, as crianças,
e boiam na íris madura a censurar-nos,
e constrangem, derrotam
a solércia dos grandes,
há em certos amores essa distância de um a outro
que separa, não duas cidades, mas dois corpos.

Perturbação de entrar
no quarto de nus,
tristeza de nudez que se sabe julgada,
comparação de veia antiga a pele nova,
presença de relógio insinuada entre roupas íntimas,
um ontem ressoando sempre,
e ciência, entretanto, de que nada continua e nem mesmo talvez exista.

Então nos punimos em nossa delícia.
O amor atinge raso, e fere tanto.
Nu a nu,
fome a fome,
não confiscamos nada e nos vertemos.
E é terrivelmente adulto esse animal
a espreitar-nos, sorrindo,
como quem a si mesmo se revela.

As crianças estão vingadas no arrepio
com que vamos à caça; no abandono
de nós, em que se esfuma nossa posse.
(Que possuímos de ninguém, e em que nenhuma região nos sabemos pensados,
sequer admitidos como coisas vivendo
salvo no rasto de coisas outras, agressivas?)

Voltamos a nós mesmos, destroçados.
Ai, batalha do tempo contra a luz,
vitória do pequeno sobre o muito,
quem te previu na graça do desejo
a pular de cabrito sobre a relva
súbito incendiada em línguas de ira?
Quem te compôs de sábia timidez
e de suplicazinhas infantis
tão logo ouvidas como desdenhadas?
De impossíveis, de risos e de nadas
tu te formaste, só, em meio aos fortes;
crescente em véu e risco; disfarçaste
de ti mesma esse núcleo monstruoso
que faz sofrer os máximos guerreiros
e compaixão infunde às mesmas pedras
e a crótalos de bronze nos jardins.
Ei-los prostrados, sim, e nos seus rostos
poluídos de chuva e de excremento
uma formiga escreve, contra o vento,
a notícia dos erros cometidos;
e um cavalo relincha, galopando;
e um desespero sem amar, e amando,
tinge o espaço de um vinho episcopal,
tão roxo é o sangue borrifado a esmo,
de feridas expostas em vitrinas,
joias comuns em suas formas raras
de tarântula cobra
touro verme
feridas latejando sem os corpos
deslembrados de tudo na corrente.

Noturno e ambíguo esse sorriso em nosso rumo.
Sorrimos também — mas sem interesse — para as mulheres bojudas que passam,
cargueiros adernando em mar de promessa
contínua.
2 298 1
Jorge de Sousa Braga

Jorge de Sousa Braga

Portugal

Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse
oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de
África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo uma mentira
que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
aparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de
rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do
Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr uma pérola que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentugal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada
de ressentimentos
um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca



"De manhã vamos todos acordar com uma peróla no cu”, Fenda, 1981
1 063 1
Jorge de Sousa Braga

Jorge de Sousa Braga

Portugal

Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse
oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de
África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo uma mentira
que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
aparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de
rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do
Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr uma pérola que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentugal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada
de ressentimentos
um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca



"De manhã vamos todos acordar com uma peróla no cu”, Fenda, 1981
1 063 1
Pier Paolo Pasolini

Pier Paolo Pasolini

Versos do testamento

A solidão: é preciso ser muito forte
para amar a solidão; é preciso ter pernas firmes
e uma resistência fora do comum; não se deve arriscar
pegar um resfriado, gripe ou dor de garganta; não se devem temer
assaltantes ou assassinos; há que caminhar
por toda a tarde ou talvez por toda a noite
é preciso saber fazê-lo sem dar-se conta; sentar-se nem pensar;
sobretudo no inverno, com o vento que sopra na grama molhada
e grandes pedras em meio à sujeira úmida e lamacenta;
não existe realmente nenhum conforto, sobre isso não há dúvida,
exceto o de ter pela frente todo um dia e uma noite
sem obrigações ou limites de qualquer espécie.
O sexo é um pretexto. Sejam quais forem os encontros
― e mesmo no inverno, pelas ruas abandonadas ao vento,
ao longo das fileiras de lixo junto aos edifícios distantes,
que são muitos ― eles não passam de momentos da solidão;
mais quente e vivo é o corpo gentil
que exala sêmen e se vai,
mais frio e mortal é o querido deserto ao redor;
é isso o que enche de alegria, como um vento milagroso,
não o sorriso inocente ou a prepotência turva
de quem depois vai embora; ele traz consigo uma juventude
enormemente jovem; e nisso é desumano,
porque não deixa rastros, ou melhor, deixa um único rastro
que é sempre o mesmo em todas as estações.
Um jovem em seus primeiros amores
não é senão a fecundidade do mundo.
É o mundo que chega assim com ele; aparece e desaparece,
como uma forma que muda. Restam intactas todas as coisas,
e você poderia percorrer meia cidade, não voltaria a encontrá-lo;
o ato está cumprido, sua repetição é um rito; pois
a solidão é ainda maior se uma multidão inteira
espera sua vez; cresce de fato o número dos desaparecimentos ―
ir embora é fugir ― e o instante seguinte paira sobre o presente
como um dever; um sacrifício a cumprir como um desejo de morte.
Ao envelhecer, porém, o cansaço começa a se fazer sentir,
sobretudo naquela hora imediatamente após o jantar,
e para você nada mudou; então por um triz você não grita ou chora;
e isso seria enorme se não fosse mesmo apenas cansaço,
e talvez um pouco de fome. Enorme, porque significaria
que o seu desejo de solidão já não poderia ser satisfeito;
e então o que o aguarda, se isto que não se considera solidão
é a verdadeira solidão, aquela que você não pode aceitar?
Não há almoço ou jantar ou satisfação do mundo
que valha uma caminhada sem fim pelas ruas pobres,
onde é preciso ser desgraçado e forte, irmão dos cães.
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