Poemas neste tema
Vida e Existência
Airas Nunes
Porque No Mundo Mengou a Verdade
Porque no mundo mengou a verdade,
punhei um dia de a ir buscar,
e, u por ela fui [a] preguntar,
disserom todos: - Alhur la buscade,
ca de tal guisa se foi a perder
que nom podemos en novas haver,
nem já nom anda na irmaindade.
Nos moesteiros dos frades negrados
a demandei, e disserom-m'assi:
- Nom busquedes vós a verdad'aqui,
ca muitos anos havemos passados
que nom morou nosco, per bõa fé,
[nem sabemos u ela agora x'é,]
e d'al havemos maiores coidados.
E em Cistel, u verdade soía
sempre morar, disserom-me que nom
morava i havia gram sazom,
nem frade d'i já a nom conhocia,
nem o abade outrossi, no estar,
sol nom queria que foss'i pousar,
e anda já fora d[a] abadia.
Em Santiago, seend'albergado
em mia pousada, chegarom romeus.
Preguntei-os e disserom: - Par Deus,
muito levade'lo caminh'errado!
Ca, se verdade quiserdes achar,
outro caminho convém a buscar,
ca nom sabem aqui dela mandado.
punhei um dia de a ir buscar,
e, u por ela fui [a] preguntar,
disserom todos: - Alhur la buscade,
ca de tal guisa se foi a perder
que nom podemos en novas haver,
nem já nom anda na irmaindade.
Nos moesteiros dos frades negrados
a demandei, e disserom-m'assi:
- Nom busquedes vós a verdad'aqui,
ca muitos anos havemos passados
que nom morou nosco, per bõa fé,
[nem sabemos u ela agora x'é,]
e d'al havemos maiores coidados.
E em Cistel, u verdade soía
sempre morar, disserom-me que nom
morava i havia gram sazom,
nem frade d'i já a nom conhocia,
nem o abade outrossi, no estar,
sol nom queria que foss'i pousar,
e anda já fora d[a] abadia.
Em Santiago, seend'albergado
em mia pousada, chegarom romeus.
Preguntei-os e disserom: - Par Deus,
muito levade'lo caminh'errado!
Ca, se verdade quiserdes achar,
outro caminho convém a buscar,
ca nom sabem aqui dela mandado.
849
Afonso X
Com'eu Em Dia de Páscoa Querria Bem Comer
Com'eu em dia de Páscoa querria bem comer,
assi querria bom som [e] ligeiro de dizer
pera meestre Joam.
Assi com[o] eu querria comer de bom salmom,
assi querria Avangelh'e mui pequena Paixom
pera meestre Joam.
Como [eu] querria comer que me soubesse bem,
assi queria bom som [d]e seculorum amen
pera meestre Joam.
Assi com'eu beveria [do] bom vinho d'Ourens,
assi querria bom som de Cunctipotens
pera meestre Joam.
assi querria bom som [e] ligeiro de dizer
pera meestre Joam.
Assi com[o] eu querria comer de bom salmom,
assi querria Avangelh'e mui pequena Paixom
pera meestre Joam.
Como [eu] querria comer que me soubesse bem,
assi queria bom som [d]e seculorum amen
pera meestre Joam.
Assi com'eu beveria [do] bom vinho d'Ourens,
assi querria bom som de Cunctipotens
pera meestre Joam.
627
Afonso X
De Grado Querria Ora Saber
De grado querria ora saber
destes que tragem saias encordadas,
em que s'apertam mui poucas vegadas,
se o fazem polos ventres mostrar,
porque se devam deles a pagar
sas senhores, que nom têm pagadas.
Ai Deus! Se me quisess'alguém dizer
por que tragem estas cintas sirgadas
muit'anchas, come molheres prenhadas:
se cuidam eles per i gaanhar
bem das com que nunca sabem falar,
ergo nas terras se som bem lavradas.
Encobrir nom vo-lhos vejo fazer,
cõn'as pontas dos mantos trastornadas,
em que semelham os bois das ferradas
quando as moscas los vêem coitar;
Deus!, se as cuidam per i d'enganar,
que sejam deles por en namoradas.
[E] outrossi lhis ar vejo trager
as mangas mui curtas e esfra[lda]das,
bem come se adubassem queijadas
ou se quisessem tortas amassar;
ou quiçá o fazem por delivrar
sas bestas, se fossem acevadadas.
destes que tragem saias encordadas,
em que s'apertam mui poucas vegadas,
se o fazem polos ventres mostrar,
porque se devam deles a pagar
sas senhores, que nom têm pagadas.
Ai Deus! Se me quisess'alguém dizer
por que tragem estas cintas sirgadas
muit'anchas, come molheres prenhadas:
se cuidam eles per i gaanhar
bem das com que nunca sabem falar,
ergo nas terras se som bem lavradas.
Encobrir nom vo-lhos vejo fazer,
cõn'as pontas dos mantos trastornadas,
em que semelham os bois das ferradas
quando as moscas los vêem coitar;
Deus!, se as cuidam per i d'enganar,
que sejam deles por en namoradas.
[E] outrossi lhis ar vejo trager
as mangas mui curtas e esfra[lda]das,
bem come se adubassem queijadas
ou se quisessem tortas amassar;
ou quiçá o fazem por delivrar
sas bestas, se fossem acevadadas.
644
Afonso X
Nom Me Posso Pagar Tanto
Nom me posso pagar tanto
do canto
das aves nem de seu som
nem d'amor nem de missom
nem d'armas - ca hei espanto
por quanto
mui perigo[o]sas som
- come d'um bom galeom
que mi alongue muit'aginha
deste demo da campinha,
u os alacrães som;
ca dentro, no coraçom,
senti deles a espinha.
E juro par Deus lo santo
que manto
nom tragerei, nem granhom,
nem terrei d'amor razom,
nem d'armas, porque quebranto
e chanto
vem delas tod'a sazom;
mais tragerei um dormom,
e irei pela marinha
vendend'azeite e farinha,
e fugirei do poçom
do alacrã, ca eu nom
lhi sei outra meezinha.
Nem de lançar a tavolado
pagado
nom sõo, se Deus m'ampar,
adés, nem de bafordar;
e andar de noute armado,
sem grado
o faço, e a roldar;
ca mais me pago do mar
que de seer cavaleiro;
ca eu foi já marinheiro
e quero-m'oimais guardar
do alacrã, e tornar
ao que me foi primeiro.
E direi-vos um recado:
pecado
já me nom pod'enganar
que me faça já falar
em armas, ca nom m'é dado
- doado
m'é de as eu razõar,
poilas nom hei a provar;
ante quer'andar sinlheiro
e ir come mercadeiro
algũa terra buscar
u me nom possam culpar
alacrã negro nem veiro.
do canto
das aves nem de seu som
nem d'amor nem de missom
nem d'armas - ca hei espanto
por quanto
mui perigo[o]sas som
- come d'um bom galeom
que mi alongue muit'aginha
deste demo da campinha,
u os alacrães som;
ca dentro, no coraçom,
senti deles a espinha.
E juro par Deus lo santo
que manto
nom tragerei, nem granhom,
nem terrei d'amor razom,
nem d'armas, porque quebranto
e chanto
vem delas tod'a sazom;
mais tragerei um dormom,
e irei pela marinha
vendend'azeite e farinha,
e fugirei do poçom
do alacrã, ca eu nom
lhi sei outra meezinha.
Nem de lançar a tavolado
pagado
nom sõo, se Deus m'ampar,
adés, nem de bafordar;
e andar de noute armado,
sem grado
o faço, e a roldar;
ca mais me pago do mar
que de seer cavaleiro;
ca eu foi já marinheiro
e quero-m'oimais guardar
do alacrã, e tornar
ao que me foi primeiro.
E direi-vos um recado:
pecado
já me nom pod'enganar
que me faça já falar
em armas, ca nom m'é dado
- doado
m'é de as eu razõar,
poilas nom hei a provar;
ante quer'andar sinlheiro
e ir come mercadeiro
algũa terra buscar
u me nom possam culpar
alacrã negro nem veiro.
380
Airas Nunes
O Meu Senhor o Bispo, Na Redondela, Um Dia
O meu senhor o bispo, na Redondela, um dia,
de noit'e com gram medo, de desonra fogia;
eu, indo-mi aguisando por ir com el mia via,
achei ũa companha assaz brava e crua
que me decerom logo de cima da mia mua:
azêmela e cama levarom-na por sua.
E des que eu nacera nunca entrara em lide;
[e] pero que já fora cabo Valedolide
escovardoas muitas fezerom em Molide.
E ali me lançarom a mim a falcatrua;
a meus 'scudeiros [em] cage o Churruchão [assua]
e atá aos sergentes, ca som gente befua.
Ali me desbulharom do tabardo e dos panos
e nom houverom vergonha dos meus cabelos canos,
nem me derom por ende grã[a]s nem adianos:
leixarom-me qual fui nado no meio da rua;
e um rapaz tinhoso, que há de par em 'strua,
chamava-mi "minhana, velha fududancua!"
de noit'e com gram medo, de desonra fogia;
eu, indo-mi aguisando por ir com el mia via,
achei ũa companha assaz brava e crua
que me decerom logo de cima da mia mua:
azêmela e cama levarom-na por sua.
E des que eu nacera nunca entrara em lide;
[e] pero que já fora cabo Valedolide
escovardoas muitas fezerom em Molide.
E ali me lançarom a mim a falcatrua;
a meus 'scudeiros [em] cage o Churruchão [assua]
e atá aos sergentes, ca som gente befua.
Ali me desbulharom do tabardo e dos panos
e nom houverom vergonha dos meus cabelos canos,
nem me derom por ende grã[a]s nem adianos:
leixarom-me qual fui nado no meio da rua;
e um rapaz tinhoso, que há de par em 'strua,
chamava-mi "minhana, velha fududancua!"
675
Afonso X
Se Me Graça Fezesse Este Papa de Roma!
Se me graça fezesse este Papa de Roma!
Pois que or'[estes] panos da mia reposte toma,
que levass'el os cabos e dess'a mi a soma;
mais doutra guisa me foi el vendê'la galdrapa.
Quisera eu assi deste nosso Papa
que me talhasse melhor aquesta capa.
Se m'el graça fezesse, con'os seus cardeaes,
[dos panos] que lh'eu desse que mos talhass'iguaes!
Mais vedes em que vi en'el[e] maos sinaes:
que do que me furtou, foi cobri-l[o] a sa capa.
Quisera eu assi deste nosso Papa
que me talhasse melhor aquesta capa.
Se con'os cardeaes com que faz seus conselhos
posesse que guardasse nós de maos trebelhos,
fezera gram mercêe, ca nom furtar com elhos
e [os] panos dos cristãos meter sô sa capa.
Quisera eu assi deste nosso Papa
que me talhasse melhor aquesta capa.
Pois que or'[estes] panos da mia reposte toma,
que levass'el os cabos e dess'a mi a soma;
mais doutra guisa me foi el vendê'la galdrapa.
Quisera eu assi deste nosso Papa
que me talhasse melhor aquesta capa.
Se m'el graça fezesse, con'os seus cardeaes,
[dos panos] que lh'eu desse que mos talhass'iguaes!
Mais vedes em que vi en'el[e] maos sinaes:
que do que me furtou, foi cobri-l[o] a sa capa.
Quisera eu assi deste nosso Papa
que me talhasse melhor aquesta capa.
Se con'os cardeaes com que faz seus conselhos
posesse que guardasse nós de maos trebelhos,
fezera gram mercêe, ca nom furtar com elhos
e [os] panos dos cristãos meter sô sa capa.
Quisera eu assi deste nosso Papa
que me talhasse melhor aquesta capa.
724
Afonso X
Quero-Vos Ora Mui Bem Conselhar
Quero-vos ora mui bem conselhar,
meestre Joam, segundo meu sem:
que, macar preit'hajades com alguém,
nom queirades com el em voz entrar,
mais dad'a outrem que tenha por vós,
ca vossa honra é [de] todos nós,
a quantos nós havemos per amar.
E pero se a quiserdes tẽer,
nõn'a tenhades per rem ant'el-rei;
e direi-vos ora porque o hei:
porque nunca vo-lo vejo fazer
que vo-lo nom veja teer assi
que, pero vos el-rei queira des i
bem juïgar, nom há end'o poder.
E ainda vos conselharei al,
porque vos amo [mui] de coraçom:
que nunca voz em dia d'Acençom
tenhades, nem em dia de Natal,
nem doutras festas de Nostro Senhor,
nem de seus santos, ca hei gram pavor
de vos viir mui toste deles mal.
Nem na eigreja nom vos conselh'eu
de teer voz, ca vos nom há mester;
ca, se peleja sobr'ela houver,
o arcebispo, voss'amig'e meu,
a quen'o feito do sagrado jaz,
e a quem pesa do mal, se s'i faz,
querrá que seja quanto havedes seu.
E pol'amor de Deus, estad'em paz
e leixade maa voz, ca rapaz
sol nõn'a dev'a teer, nem judeu.
meestre Joam, segundo meu sem:
que, macar preit'hajades com alguém,
nom queirades com el em voz entrar,
mais dad'a outrem que tenha por vós,
ca vossa honra é [de] todos nós,
a quantos nós havemos per amar.
E pero se a quiserdes tẽer,
nõn'a tenhades per rem ant'el-rei;
e direi-vos ora porque o hei:
porque nunca vo-lo vejo fazer
que vo-lo nom veja teer assi
que, pero vos el-rei queira des i
bem juïgar, nom há end'o poder.
E ainda vos conselharei al,
porque vos amo [mui] de coraçom:
que nunca voz em dia d'Acençom
tenhades, nem em dia de Natal,
nem doutras festas de Nostro Senhor,
nem de seus santos, ca hei gram pavor
de vos viir mui toste deles mal.
Nem na eigreja nom vos conselh'eu
de teer voz, ca vos nom há mester;
ca, se peleja sobr'ela houver,
o arcebispo, voss'amig'e meu,
a quen'o feito do sagrado jaz,
e a quem pesa do mal, se s'i faz,
querrá que seja quanto havedes seu.
E pol'amor de Deus, estad'em paz
e leixade maa voz, ca rapaz
sol nõn'a dev'a teer, nem judeu.
691
Virgílio Martinho
A Bebida Branca
A bebida branca é o arbusto
que nasce na duna ventosa.
Ao longe o mar não assusta
é a nuvem que o vento agita.
Estava na rocha havia sal
nos olhos a fogueira do sol
o mar era recorte tinha rosto
parecia um ombro sem corpo.
Desci a ravina era íngreme
a rocha abismo era medo,
descê-la requeria cuidado,
havia uma estrela escura.
Entre o dia e a noite a visão
a sirene do aviso buuuuu
chegar à praia estar salvo
entrar no arbusto ser vento
corpo erecto no sol extenso
água dentro certeza de vida
vai, menino, acerta as horas,
à tua frente tens o longe.
O molhado era o reino quieto
quase azevia entre areias
só a bolha do respirar
com o mergulho do menino
Tudo vem da bebida arbusto
do entre ser, na praia da duna
nos idos da memória veja-se
isto palavras olhos poesia.
que nasce na duna ventosa.
Ao longe o mar não assusta
é a nuvem que o vento agita.
Estava na rocha havia sal
nos olhos a fogueira do sol
o mar era recorte tinha rosto
parecia um ombro sem corpo.
Desci a ravina era íngreme
a rocha abismo era medo,
descê-la requeria cuidado,
havia uma estrela escura.
Entre o dia e a noite a visão
a sirene do aviso buuuuu
chegar à praia estar salvo
entrar no arbusto ser vento
corpo erecto no sol extenso
água dentro certeza de vida
vai, menino, acerta as horas,
à tua frente tens o longe.
O molhado era o reino quieto
quase azevia entre areias
só a bolha do respirar
com o mergulho do menino
Tudo vem da bebida arbusto
do entre ser, na praia da duna
nos idos da memória veja-se
isto palavras olhos poesia.
1 153
Virgílio Martinho
A Bebida Branca
A bebida branca é o arbusto
que nasce na duna ventosa.
Ao longe o mar não assusta
é a nuvem que o vento agita.
Estava na rocha havia sal
nos olhos a fogueira do sol
o mar era recorte tinha rosto
parecia um ombro sem corpo.
Desci a ravina era íngreme
a rocha abismo era medo,
descê-la requeria cuidado,
havia uma estrela escura.
Entre o dia e a noite a visão
a sirene do aviso buuuuu
chegar à praia estar salvo
entrar no arbusto ser vento
corpo erecto no sol extenso
água dentro certeza de vida
vai, menino, acerta as horas,
à tua frente tens o longe.
O molhado era o reino quieto
quase azevia entre areias
só a bolha do respirar
com o mergulho do menino
Tudo vem da bebida arbusto
do entre ser, na praia da duna
nos idos da memória veja-se
isto palavras olhos poesia.
que nasce na duna ventosa.
Ao longe o mar não assusta
é a nuvem que o vento agita.
Estava na rocha havia sal
nos olhos a fogueira do sol
o mar era recorte tinha rosto
parecia um ombro sem corpo.
Desci a ravina era íngreme
a rocha abismo era medo,
descê-la requeria cuidado,
havia uma estrela escura.
Entre o dia e a noite a visão
a sirene do aviso buuuuu
chegar à praia estar salvo
entrar no arbusto ser vento
corpo erecto no sol extenso
água dentro certeza de vida
vai, menino, acerta as horas,
à tua frente tens o longe.
O molhado era o reino quieto
quase azevia entre areias
só a bolha do respirar
com o mergulho do menino
Tudo vem da bebida arbusto
do entre ser, na praia da duna
nos idos da memória veja-se
isto palavras olhos poesia.
1 153
Virgílio Martinho
O Limiar
Numa casa entre o castelo e o rio,
A mãe dos dentes brancos sofria,
De dentro dela um menino solar,
Vindo das águas maternais, nascia.
Antes e depois o mesmo crepúsculo,
As mesmas matérias cor de salsa,
Uma expulsão lenta, uma certa vida,
Que vem do escuro para a luz do dia.
As suas pequenas mãos fecharam-se,
Era dele o cenário, o mundo todo,
Menino de coração fora do peito,
Menino de olhos fundos cor de lodo.
Mãe, tu viste da janela antiga,
Entre o castelo e o rio,
Uma estrela de sete pontas
A cintilar em águas maternais?
Era eu com vida e com morte,
No líquido do meu alvorecer,
Dentro de ti para vir à luz,
Dentro de mim para viver.
A mãe dos dentes brancos sofria,
De dentro dela um menino solar,
Vindo das águas maternais, nascia.
Antes e depois o mesmo crepúsculo,
As mesmas matérias cor de salsa,
Uma expulsão lenta, uma certa vida,
Que vem do escuro para a luz do dia.
As suas pequenas mãos fecharam-se,
Era dele o cenário, o mundo todo,
Menino de coração fora do peito,
Menino de olhos fundos cor de lodo.
Mãe, tu viste da janela antiga,
Entre o castelo e o rio,
Uma estrela de sete pontas
A cintilar em águas maternais?
Era eu com vida e com morte,
No líquido do meu alvorecer,
Dentro de ti para vir à luz,
Dentro de mim para viver.
1 064
Virgílio Martinho
Viagem Para Dentro
Nasci dentro da terra,
Percorri as estações,
Nos anos vivi os anos,
Tenho olhos de prata.
Um dia fiz a viagem,
Acordei quem dormia,
A bola vermelha rolou,
Saiu-me a lotaria.
Pus-me ao caminho,
Fiz o passe de crescer,
Encontrei quem amar,
Renasci onde nasci.
Falei com poetas,
Tangi as harpas,
Meti-me no deserto,
Ergui-me em pirâmide.
No interior da mina
A palavra descobri,
O mineiro escavou-a,
Abriu-se em metais.
Longe havia o horizonte,
A linha onde tudo flutua,
Naveguei para nascente,
Arpoei o sol que vinha.
Quis agitar a onda,
Ver o delfim emergir,
Vi ao longe o poeta,
Tinha olhos de goraz.
Trouxe-me o poema,
O mapa dos meus olhos,
A pele que me cobre,
A respiração que vivo.
Percorri as estações,
Nos anos vivi os anos,
Tenho olhos de prata.
Um dia fiz a viagem,
Acordei quem dormia,
A bola vermelha rolou,
Saiu-me a lotaria.
Pus-me ao caminho,
Fiz o passe de crescer,
Encontrei quem amar,
Renasci onde nasci.
Falei com poetas,
Tangi as harpas,
Meti-me no deserto,
Ergui-me em pirâmide.
No interior da mina
A palavra descobri,
O mineiro escavou-a,
Abriu-se em metais.
Longe havia o horizonte,
A linha onde tudo flutua,
Naveguei para nascente,
Arpoei o sol que vinha.
Quis agitar a onda,
Ver o delfim emergir,
Vi ao longe o poeta,
Tinha olhos de goraz.
Trouxe-me o poema,
O mapa dos meus olhos,
A pele que me cobre,
A respiração que vivo.
1 000
Virgílio Martinho
Viagem Para Dentro
Nasci dentro da terra,
Percorri as estações,
Nos anos vivi os anos,
Tenho olhos de prata.
Um dia fiz a viagem,
Acordei quem dormia,
A bola vermelha rolou,
Saiu-me a lotaria.
Pus-me ao caminho,
Fiz o passe de crescer,
Encontrei quem amar,
Renasci onde nasci.
Falei com poetas,
Tangi as harpas,
Meti-me no deserto,
Ergui-me em pirâmide.
No interior da mina
A palavra descobri,
O mineiro escavou-a,
Abriu-se em metais.
Longe havia o horizonte,
A linha onde tudo flutua,
Naveguei para nascente,
Arpoei o sol que vinha.
Quis agitar a onda,
Ver o delfim emergir,
Vi ao longe o poeta,
Tinha olhos de goraz.
Trouxe-me o poema,
O mapa dos meus olhos,
A pele que me cobre,
A respiração que vivo.
Percorri as estações,
Nos anos vivi os anos,
Tenho olhos de prata.
Um dia fiz a viagem,
Acordei quem dormia,
A bola vermelha rolou,
Saiu-me a lotaria.
Pus-me ao caminho,
Fiz o passe de crescer,
Encontrei quem amar,
Renasci onde nasci.
Falei com poetas,
Tangi as harpas,
Meti-me no deserto,
Ergui-me em pirâmide.
No interior da mina
A palavra descobri,
O mineiro escavou-a,
Abriu-se em metais.
Longe havia o horizonte,
A linha onde tudo flutua,
Naveguei para nascente,
Arpoei o sol que vinha.
Quis agitar a onda,
Ver o delfim emergir,
Vi ao longe o poeta,
Tinha olhos de goraz.
Trouxe-me o poema,
O mapa dos meus olhos,
A pele que me cobre,
A respiração que vivo.
1 000
Virgílio Martinho
Viagem Para Dentro
Nasci dentro da terra,
Percorri as estações,
Nos anos vivi os anos,
Tenho olhos de prata.
Um dia fiz a viagem,
Acordei quem dormia,
A bola vermelha rolou,
Saiu-me a lotaria.
Pus-me ao caminho,
Fiz o passe de crescer,
Encontrei quem amar,
Renasci onde nasci.
Falei com poetas,
Tangi as harpas,
Meti-me no deserto,
Ergui-me em pirâmide.
No interior da mina
A palavra descobri,
O mineiro escavou-a,
Abriu-se em metais.
Longe havia o horizonte,
A linha onde tudo flutua,
Naveguei para nascente,
Arpoei o sol que vinha.
Quis agitar a onda,
Ver o delfim emergir,
Vi ao longe o poeta,
Tinha olhos de goraz.
Trouxe-me o poema,
O mapa dos meus olhos,
A pele que me cobre,
A respiração que vivo.
Percorri as estações,
Nos anos vivi os anos,
Tenho olhos de prata.
Um dia fiz a viagem,
Acordei quem dormia,
A bola vermelha rolou,
Saiu-me a lotaria.
Pus-me ao caminho,
Fiz o passe de crescer,
Encontrei quem amar,
Renasci onde nasci.
Falei com poetas,
Tangi as harpas,
Meti-me no deserto,
Ergui-me em pirâmide.
No interior da mina
A palavra descobri,
O mineiro escavou-a,
Abriu-se em metais.
Longe havia o horizonte,
A linha onde tudo flutua,
Naveguei para nascente,
Arpoei o sol que vinha.
Quis agitar a onda,
Ver o delfim emergir,
Vi ao longe o poeta,
Tinha olhos de goraz.
Trouxe-me o poema,
O mapa dos meus olhos,
A pele que me cobre,
A respiração que vivo.
1 000
Virgílio Martinho
Viagem Para Dentro
Nasci dentro da terra,
Percorri as estações,
Nos anos vivi os anos,
Tenho olhos de prata.
Um dia fiz a viagem,
Acordei quem dormia,
A bola vermelha rolou,
Saiu-me a lotaria.
Pus-me ao caminho,
Fiz o passe de crescer,
Encontrei quem amar,
Renasci onde nasci.
Falei com poetas,
Tangi as harpas,
Meti-me no deserto,
Ergui-me em pirâmide.
No interior da mina
A palavra descobri,
O mineiro escavou-a,
Abriu-se em metais.
Longe havia o horizonte,
A linha onde tudo flutua,
Naveguei para nascente,
Arpoei o sol que vinha.
Quis agitar a onda,
Ver o delfim emergir,
Vi ao longe o poeta,
Tinha olhos de goraz.
Trouxe-me o poema,
O mapa dos meus olhos,
A pele que me cobre,
A respiração que vivo.
Percorri as estações,
Nos anos vivi os anos,
Tenho olhos de prata.
Um dia fiz a viagem,
Acordei quem dormia,
A bola vermelha rolou,
Saiu-me a lotaria.
Pus-me ao caminho,
Fiz o passe de crescer,
Encontrei quem amar,
Renasci onde nasci.
Falei com poetas,
Tangi as harpas,
Meti-me no deserto,
Ergui-me em pirâmide.
No interior da mina
A palavra descobri,
O mineiro escavou-a,
Abriu-se em metais.
Longe havia o horizonte,
A linha onde tudo flutua,
Naveguei para nascente,
Arpoei o sol que vinha.
Quis agitar a onda,
Ver o delfim emergir,
Vi ao longe o poeta,
Tinha olhos de goraz.
Trouxe-me o poema,
O mapa dos meus olhos,
A pele que me cobre,
A respiração que vivo.
1 000
Afonso Mendes de Besteiros
Oimais Quer'eu Punhar de Me Partir
Oimais quer'eu punhar de me partir
daqueste mund', e farei gram razom,
poilo leixou a mia senhor, e nom
pud'i viver e fui alhur guarir.
E por esto quer'eu, por seu amor,
leixá'lo mundo falso, traedor,
desemparado, que me foi falir.
E nom haverá pois quen'o servir
com'eu servi, nem tam longa sazom;
e ficará desemparad'entom,
pois m'end'eu for, que mia senhor fez ir.
E pois que já nom há prez nem valor
eno mundo d'u se foi mia senhor,
Deus me cofonda se eu i guarir!
E pois que eu i mia senhor nom vir,
e vir as outras que no mundo som,
nom me podia dar o coraçom
de ficar i. E por vos nom mentir,
quero-m'end'ir; e pois que m'end'eu for
daqueste mundo, que est a peor
cousa que sei, querrei-me del riir!
daqueste mund', e farei gram razom,
poilo leixou a mia senhor, e nom
pud'i viver e fui alhur guarir.
E por esto quer'eu, por seu amor,
leixá'lo mundo falso, traedor,
desemparado, que me foi falir.
E nom haverá pois quen'o servir
com'eu servi, nem tam longa sazom;
e ficará desemparad'entom,
pois m'end'eu for, que mia senhor fez ir.
E pois que já nom há prez nem valor
eno mundo d'u se foi mia senhor,
Deus me cofonda se eu i guarir!
E pois que eu i mia senhor nom vir,
e vir as outras que no mundo som,
nom me podia dar o coraçom
de ficar i. E por vos nom mentir,
quero-m'end'ir; e pois que m'end'eu for
daqueste mundo, que est a peor
cousa que sei, querrei-me del riir!
488
Virgílio Martinho
A Luz Encarnada
A luz encarnada é o proibido
Na cidade povoada de fendas.
A luz encarnada é o pigmento
Dos rostos tintados de cólera.
A luz encarnada é a corrida Sade,
Explosão sem princípio nem fim.
A luz encarnada é o meu amor assim,
Visão que às vezes é peixe galo.
A luz encarnada é o sangue da cabra
Imolada no altar da capela papal.
A luz encarnada é o homem na cruz,
Sonho antigo para se morrer santo.
A luz encarnada é o devasso nu
Erecto no horizonte dos ventres.
A luz encarnada é a erva daninha
Que tudo envenena com seu hálito.
A luz encarnada é o gás letal
Na câmara escura da inocência.
A luz encarnada é a praga do sangue
Que bolça dos ouvidos da criança.
Veio ao mundo havia uma guerra grega,
Havia também um olho cor de âmbar,
Farol da máquina macho de Jarry.
Só não havia o meu amor assim.
Na cidade povoada de fendas.
A luz encarnada é o pigmento
Dos rostos tintados de cólera.
A luz encarnada é a corrida Sade,
Explosão sem princípio nem fim.
A luz encarnada é o meu amor assim,
Visão que às vezes é peixe galo.
A luz encarnada é o sangue da cabra
Imolada no altar da capela papal.
A luz encarnada é o homem na cruz,
Sonho antigo para se morrer santo.
A luz encarnada é o devasso nu
Erecto no horizonte dos ventres.
A luz encarnada é a erva daninha
Que tudo envenena com seu hálito.
A luz encarnada é o gás letal
Na câmara escura da inocência.
A luz encarnada é a praga do sangue
Que bolça dos ouvidos da criança.
Veio ao mundo havia uma guerra grega,
Havia também um olho cor de âmbar,
Farol da máquina macho de Jarry.
Só não havia o meu amor assim.
1 065
Afonso Lopes de Baião
Oí D'alvelo Que Era Casado
Oí d'Alvelo que era casado
mais nõn'o creo, se Deus mi perdom;
e quero-vos logo mostrar razom,
que entendades que digo recado:
ca lh'oí eu muitas vezes jurar
que tam pastor nom podia casar;
e por en creo que nom é casado.
Sabia-m'eu ca x'era esposado
mais há d'um ano, nom dig'eu de nom,
ca mi mostrou el bem seu coraçom,
per quanto el a mi havia jurado:
que, mentr'atam pastor fosse com'é,
que nom casaria, per boa fé;
mais esposou-s'e anda esposado.
E seus parentes têm por guisado
que se casass'há i gram sazom;
os que lho dizem diz-lhis el entom:
- Do que dizedes nom sõo pagado,
ca me nom podedes tanto coitar
que eu tam pastor quisesse casar;
mais casarei quand'[o] houver guisado.
De me coitardes fazedes mal sem,
ca nom podedes já, per nulha rem,
que per mi seja o preito juntado.
mais nõn'o creo, se Deus mi perdom;
e quero-vos logo mostrar razom,
que entendades que digo recado:
ca lh'oí eu muitas vezes jurar
que tam pastor nom podia casar;
e por en creo que nom é casado.
Sabia-m'eu ca x'era esposado
mais há d'um ano, nom dig'eu de nom,
ca mi mostrou el bem seu coraçom,
per quanto el a mi havia jurado:
que, mentr'atam pastor fosse com'é,
que nom casaria, per boa fé;
mais esposou-s'e anda esposado.
E seus parentes têm por guisado
que se casass'há i gram sazom;
os que lho dizem diz-lhis el entom:
- Do que dizedes nom sõo pagado,
ca me nom podedes tanto coitar
que eu tam pastor quisesse casar;
mais casarei quand'[o] houver guisado.
De me coitardes fazedes mal sem,
ca nom podedes já, per nulha rem,
que per mi seja o preito juntado.
626
Afonso Lopes de Baião
O Meu Senhor [Deus] Me Guisou
O meu Senhor [Deus] me guisou
de sempr'eu já coita sofrer,
enquanto no mundo viver,
u m'El atal dona mostrou
que me fez filhar por senhor,
e nom lh'ouso dizer "senhor".
E se Deus houve gram prazer
de me fazer coita levar,
que bem s'end'El soube guisar
u m'El fez tal dona veer,
que me fez filhar por senhor,
e nom lh'ouso dizer "senhor".
Se m'eu a Deus mal mereci,
nom vos quis El muito tardar
que se nom quisesse vingar
de mi, u eu tal dona vi
que me fez filhar por senhor,
e nom lh'ouso dizer "senhor".
de sempr'eu já coita sofrer,
enquanto no mundo viver,
u m'El atal dona mostrou
que me fez filhar por senhor,
e nom lh'ouso dizer "senhor".
E se Deus houve gram prazer
de me fazer coita levar,
que bem s'end'El soube guisar
u m'El fez tal dona veer,
que me fez filhar por senhor,
e nom lh'ouso dizer "senhor".
Se m'eu a Deus mal mereci,
nom vos quis El muito tardar
que se nom quisesse vingar
de mi, u eu tal dona vi
que me fez filhar por senhor,
e nom lh'ouso dizer "senhor".
807
Virgílio Martinho
Canção Nocturna
Hesitei na escolha, cresceu a dúvida,
Mas sou como sou, um caso que faz fumo.
Quem dera que fosse crente, era bom,
Sou apenas um poço rodeado de olhos.
Vejo o mundo como quem vê o líquido,
Durmo enterrado na erva vermelha,
Minhas mãos são algas tacteantes
E o que percorrem tem a cor da água.
No fundo é isso, o castelo é transparente,
Tem linhas vagas, não pode sobreviver,
É um labirinto com a saída gradeada.
Nunca saberei o que sou, fumo e chega.
Mas não estou no final, não estou, vivo
com um pé no eixo, outro na margem, nado
Num mar pleno de cabeças, tu e tu e tu,
Nomes com rostos vistos ao longe, de longe.
Mas sou como sou, um caso que faz fumo.
Quem dera que fosse crente, era bom,
Sou apenas um poço rodeado de olhos.
Vejo o mundo como quem vê o líquido,
Durmo enterrado na erva vermelha,
Minhas mãos são algas tacteantes
E o que percorrem tem a cor da água.
No fundo é isso, o castelo é transparente,
Tem linhas vagas, não pode sobreviver,
É um labirinto com a saída gradeada.
Nunca saberei o que sou, fumo e chega.
Mas não estou no final, não estou, vivo
com um pé no eixo, outro na margem, nado
Num mar pleno de cabeças, tu e tu e tu,
Nomes com rostos vistos ao longe, de longe.
996
Virgílio Martinho
Canção Nocturna
Hesitei na escolha, cresceu a dúvida,
Mas sou como sou, um caso que faz fumo.
Quem dera que fosse crente, era bom,
Sou apenas um poço rodeado de olhos.
Vejo o mundo como quem vê o líquido,
Durmo enterrado na erva vermelha,
Minhas mãos são algas tacteantes
E o que percorrem tem a cor da água.
No fundo é isso, o castelo é transparente,
Tem linhas vagas, não pode sobreviver,
É um labirinto com a saída gradeada.
Nunca saberei o que sou, fumo e chega.
Mas não estou no final, não estou, vivo
com um pé no eixo, outro na margem, nado
Num mar pleno de cabeças, tu e tu e tu,
Nomes com rostos vistos ao longe, de longe.
Mas sou como sou, um caso que faz fumo.
Quem dera que fosse crente, era bom,
Sou apenas um poço rodeado de olhos.
Vejo o mundo como quem vê o líquido,
Durmo enterrado na erva vermelha,
Minhas mãos são algas tacteantes
E o que percorrem tem a cor da água.
No fundo é isso, o castelo é transparente,
Tem linhas vagas, não pode sobreviver,
É um labirinto com a saída gradeada.
Nunca saberei o que sou, fumo e chega.
Mas não estou no final, não estou, vivo
com um pé no eixo, outro na margem, nado
Num mar pleno de cabeças, tu e tu e tu,
Nomes com rostos vistos ao longe, de longe.
996
Baltazar Dias
Malícia das mulheres
No que digo podeis ver
ser a mulher imperfeita,
no genesis podeis ler,
onde Deus a mandou ser
ao homem sempre sujeita.
Têm muitas, tão pouca fé,
por ter no mundo os sentidos,
que vemos (e assim é)
que tratam a seus maridos
como negros da guiné.
É já coisa tão comua
que os homens pisam c’os pés,
são tão feitas ao revés
se os maridos dizem ũa
elas lhes respondem dez.
Há aí homens tão sofridos,
e mulheres tão malvadas,
que quando estão agastadas
pelam barbas aos maridos
e os moem às pancadas.
Há aí mulher tão singela
que se ao lume põe o comer,
chama outra tal como ela,
comem as sopas da panela
e o mais que está a cozer.
E quando vem o marido,
ou da roça ou do mato
ou doutro qualquer partido,
por escuzar arruido
diz que o comeu o gato.
Cuidando que era verdade
o coitado, como peco,
e ela por sua maldade,
faz-lhe comer o pão seco
mui contra sua vontade.
Um homem em Roma havia
que se algum filho casava,
publicamente o chorava,
porque escravo o fazia
da mulher a quem o dava.
Se casava a filha rica,
quando alguém lhe perguntava,
alegremente dizia:
― Que um escravo comprava,
que seu cativo seria.
O homem que agora casa
sempre cativo há-de ser
da que lhe dão por mulher,
e ela há-de ter em casa
quem lhe ganhe de comer.
E, pois que a liberdade
é preço, que não tem par,
Senhor, esta é a verdade,
que não me quero casar
porque não tenho vontade.
Vosso conselho mui são,
não cura minha ferida,
perdoai-me, meu irmão,
pois sabeis que sujeição
encurta os dias da vida.
ser a mulher imperfeita,
no genesis podeis ler,
onde Deus a mandou ser
ao homem sempre sujeita.
Têm muitas, tão pouca fé,
por ter no mundo os sentidos,
que vemos (e assim é)
que tratam a seus maridos
como negros da guiné.
É já coisa tão comua
que os homens pisam c’os pés,
são tão feitas ao revés
se os maridos dizem ũa
elas lhes respondem dez.
Há aí homens tão sofridos,
e mulheres tão malvadas,
que quando estão agastadas
pelam barbas aos maridos
e os moem às pancadas.
Há aí mulher tão singela
que se ao lume põe o comer,
chama outra tal como ela,
comem as sopas da panela
e o mais que está a cozer.
E quando vem o marido,
ou da roça ou do mato
ou doutro qualquer partido,
por escuzar arruido
diz que o comeu o gato.
Cuidando que era verdade
o coitado, como peco,
e ela por sua maldade,
faz-lhe comer o pão seco
mui contra sua vontade.
Um homem em Roma havia
que se algum filho casava,
publicamente o chorava,
porque escravo o fazia
da mulher a quem o dava.
Se casava a filha rica,
quando alguém lhe perguntava,
alegremente dizia:
― Que um escravo comprava,
que seu cativo seria.
O homem que agora casa
sempre cativo há-de ser
da que lhe dão por mulher,
e ela há-de ter em casa
quem lhe ganhe de comer.
E, pois que a liberdade
é preço, que não tem par,
Senhor, esta é a verdade,
que não me quero casar
porque não tenho vontade.
Vosso conselho mui são,
não cura minha ferida,
perdoai-me, meu irmão,
pois sabeis que sujeição
encurta os dias da vida.
1 038
Virgílio Martinho
Uma Canção de Amor
Na cidade a noite
Entre nós o peixe
Estamos sós, amor,
Somos um do outro,
É simples.
Quando nos conhecemos,
Chovia.
Era inverno no mar.
Havia dinheiro,
Fomos ao baile.
Uma luz tinha nome,
Não era Deus, não era,
Havia também uma cama
E os nossos corpos eram macios.
Viajámos vezes sem conta,
Porque somos pessoas humildes,
Com um segredo apenas:
Vermo-nos no dia seguinte.
Por isso,
Lemos nos intervalos dos gestos,
Aprendemos a tabuada dos sentidos,
Bebemos cerveja gelada,
Fazemos canções castas.
Somos puros, é verdade,
Tanto que ninguém nos quer,
E tão inocentes no dia a dia,
Que temos dívidas.
Devemos os olhos que temos,
Devemos o vermelho dos lábios,
Devemos todos os sonhos,
Devemos o pão e o sal.
Certo temos sinais diferentes,
Luas que não acertam com eles,
Por vezes chegamos a ser perversos,
Porque eles são redondos, nós esguios,
Amor.
Mas o beijo que nos une
É um silêncio justo, alegre,
E o amor que fazemos
É como o vento sobre o vento.
Entre nós o peixe
Estamos sós, amor,
Somos um do outro,
É simples.
Quando nos conhecemos,
Chovia.
Era inverno no mar.
Havia dinheiro,
Fomos ao baile.
Uma luz tinha nome,
Não era Deus, não era,
Havia também uma cama
E os nossos corpos eram macios.
Viajámos vezes sem conta,
Porque somos pessoas humildes,
Com um segredo apenas:
Vermo-nos no dia seguinte.
Por isso,
Lemos nos intervalos dos gestos,
Aprendemos a tabuada dos sentidos,
Bebemos cerveja gelada,
Fazemos canções castas.
Somos puros, é verdade,
Tanto que ninguém nos quer,
E tão inocentes no dia a dia,
Que temos dívidas.
Devemos os olhos que temos,
Devemos o vermelho dos lábios,
Devemos todos os sonhos,
Devemos o pão e o sal.
Certo temos sinais diferentes,
Luas que não acertam com eles,
Por vezes chegamos a ser perversos,
Porque eles são redondos, nós esguios,
Amor.
Mas o beijo que nos une
É um silêncio justo, alegre,
E o amor que fazemos
É como o vento sobre o vento.
916
Virgílio Martinho
Já Sei o Que Se Passa No Mundo
Já sei o que se passa no mundo.
Ouvi a música da vitória,
vi a multidão hiante a correr,
os rostos como narizes compridos.
Ouvi as vozes da vitória,
mastigavam como vulcões, mordiam.
Eram todos bonitos, ganharam.
Tinham as caras dos pais, ganiam.
Vieram do campeonato, tinham alma,
eram jovens, comiam, como comiam!
Tisnados da praia, olhos pardos, barba,
tudo que faz parte da agonia.
Têm rabo, picha grande, acne,
são o futuro, conhecem dinheiro,
mas ganharam, alpista para eles,
vitória para nós, parecem bigodes.
Têm razão, são as vozes, os voos
do mundo, são os corredores da morte,
os rapazes do grande balão,
os amortecedores do colchão.
Ouvi a música da vitória,
vi a multidão hiante a correr,
os rostos como narizes compridos.
Ouvi as vozes da vitória,
mastigavam como vulcões, mordiam.
Eram todos bonitos, ganharam.
Tinham as caras dos pais, ganiam.
Vieram do campeonato, tinham alma,
eram jovens, comiam, como comiam!
Tisnados da praia, olhos pardos, barba,
tudo que faz parte da agonia.
Têm rabo, picha grande, acne,
são o futuro, conhecem dinheiro,
mas ganharam, alpista para eles,
vitória para nós, parecem bigodes.
Têm razão, são as vozes, os voos
do mundo, são os corredores da morte,
os rapazes do grande balão,
os amortecedores do colchão.
1 013
Afonso Lopes de Baião
Disserom-Mi Uas Novas de Que M'é Mui Gram Bem
Disserom-mi ũas novas de que m'é mui gram bem:
ca chegou meu amigo, e, se el ali vem,
a Santa Maria das Leiras irei, velida,
se i vem meu amigo.
Disserom-m'ũas novas de que hei gram sabor:
ca chegou meu amigo, e, se el ali for,
a Santa Maria das Leiras irei, velida,
se i vem meu amigo.
Disserom-m'ũas novas de que hei gram prazer:
ca chegou meu amigo, mais eu, polo veer,
a Santa Maria das Leiras irei velida,
se i vem meu amigo.
Nunca com taes novas tam leda foi molher
com'eu sõo com estas, e, se [el] i veer,
a Santa Maria das Leiras irei, velida,
se i vem meu amigo.
ca chegou meu amigo, e, se el ali vem,
a Santa Maria das Leiras irei, velida,
se i vem meu amigo.
Disserom-m'ũas novas de que hei gram sabor:
ca chegou meu amigo, e, se el ali for,
a Santa Maria das Leiras irei, velida,
se i vem meu amigo.
Disserom-m'ũas novas de que hei gram prazer:
ca chegou meu amigo, mais eu, polo veer,
a Santa Maria das Leiras irei velida,
se i vem meu amigo.
Nunca com taes novas tam leda foi molher
com'eu sõo com estas, e, se [el] i veer,
a Santa Maria das Leiras irei, velida,
se i vem meu amigo.
647