Poemas neste tema
Vida e Existência
Renato Rezende
[Rapina]
É a poesia que traz o homem para a terra.
Tempo estilhaçado.
Maneira de nunca mais pensar:
Passe um dia inteiro numa praia.
Melhor ainda: passe uma semana inteira. Dormindo na areia e comendo dos ambulantes:
Saiba apodrecer.
Um dia eu saio de mim mesmo e não volto.
Um dia abandono a casa iluminada.
Ninguém é de ninguém.
Ninguém combina com ninguém.
Tudo está solto.
Mariana é Deus.
Cocaína é Deus.
Não queimaria se não fosse fogo.
Tempo, doce companheiro.
Tempo: o melhor dos amantes.
Nossa conversa foi muito linda. Houve inclusive um momento mágico: o telefone quebrou, e ficamos os dois, mudos, cada um do seu lado, pensando que o outro havia se calado.
A linguagem está estruturada como o tempo, ou o tempo é experimentado de acordo com a linguagem.
Na noite escura, galopo uma mula no mar de sangue.
Estou apaixonado.
Vou pedir para ela me castrar. Encenar a castração.
O fim do fim.
Leonardo,
eu quero saber,
onde está a galinhona gorducha
que pode me aquecer do frio da loucura.
Onde?
Agora
Quando pensar, ao invés de prestar atenção nos pensamentos, preste atenção no espaço entre eles.
Caia nesse espaço
Até a morte:
Sem fazer nada, farei tudo—e farei qualquer coisa
(pois eu já não sou eu)
Sem fazer nada, farei tudo—e farei qualquer coisa (pois já não sou)
Escrevo para morrer.
Então tá, não sou poeta.
Minha pátria é minha língua.
Umbela Joeira
CONVENTO:
Meu reino
teândrico
O poeta é um b-urubu.
Bífido.
Eu sou uma pessoa que se esquarteja.
Tempo estilhaçado.
Maneira de nunca mais pensar:
Passe um dia inteiro numa praia.
Melhor ainda: passe uma semana inteira. Dormindo na areia e comendo dos ambulantes:
Saiba apodrecer.
Um dia eu saio de mim mesmo e não volto.
Um dia abandono a casa iluminada.
Ninguém é de ninguém.
Ninguém combina com ninguém.
Tudo está solto.
Mariana é Deus.
Cocaína é Deus.
Não queimaria se não fosse fogo.
Tempo, doce companheiro.
Tempo: o melhor dos amantes.
Nossa conversa foi muito linda. Houve inclusive um momento mágico: o telefone quebrou, e ficamos os dois, mudos, cada um do seu lado, pensando que o outro havia se calado.
A linguagem está estruturada como o tempo, ou o tempo é experimentado de acordo com a linguagem.
Na noite escura, galopo uma mula no mar de sangue.
Estou apaixonado.
Vou pedir para ela me castrar. Encenar a castração.
O fim do fim.
Leonardo,
eu quero saber,
onde está a galinhona gorducha
que pode me aquecer do frio da loucura.
Onde?
Agora
Quando pensar, ao invés de prestar atenção nos pensamentos, preste atenção no espaço entre eles.
Caia nesse espaço
Até a morte:
Sem fazer nada, farei tudo—e farei qualquer coisa
(pois eu já não sou eu)
Sem fazer nada, farei tudo—e farei qualquer coisa (pois já não sou)
Escrevo para morrer.
Então tá, não sou poeta.
Minha pátria é minha língua.
Umbela Joeira
CONVENTO:
Meu reino
teândrico
O poeta é um b-urubu.
Bífido.
Eu sou uma pessoa que se esquarteja.
969
Renato Rezende
[Ensaios]
Saberei renascer em vida?
De vez em quando paro de escrever, com vontade de morrer.
Várias vezes ao dia me deito na cama e durmo um pouco.
Ensaios.
Vou perder o medo de ficar louco.
Começar a ser o que eu sou.
Quanto a mim, continuo com essa idéia de que não tenho (nem quero ter) outra alternativa além de ser exatamente o que eu sou. Isto
Será um fracasso absoluto; mas não importa, essa é minha vida.
Eu nunca fui eu; eu sempre fui essa força dentro de mim.
Eu poderia ser facilmente qualquer pessoa.
Por acaso eu sou eu.
Eu:
Quando um prato quebra, eu digo, um prato a menos.
E sinto uma felicidade sincera, um júbilo.
Quando morre alguém, não me comovo.
Um dia serei eu, e pronto.
Para mim, a verdadeira vida sempre foi outra.
Ela cortou a ponta da minha cabeça. Me misturei ao céu.
Avisto o ponto de paz no qual a morte e o tempo já não existem como realidades limitantes.
Um homem que chegou cedo demais ao seu próprio enterro. Espero pacientemente sentado numa cadeira. Quando as pessoas enfim chegam, deito-me no caixão. Aí começam os ritos.
É preciso afirmar: Eu sou. Eu existo.
AMA ET FAC UT VIS
Tenho sido meticulosamente destruído.
Era uma casa abandonada, sem telhado
e as vacas
a haviam invadido
(e lambiam as paredes de barro):
era eu
quando por fim
me viraram
do avesso.
Meu Deus, muito obrigado por ajudar-me a ser quem eu sou. Ajudaime a ser quem eu sou. Ajudai-me a ser quem seu sou. Ajudai-me, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, meu belo Senhor, eu quero ser quem eu sou. Oh, Senhor, eu serei quem eu sou. É preciso que eu seja quem eu sou. Oh, Senhor, que eu seja quem eu sou.
Tem uma hora em que você abandona todo mundo e sai sozinho.
Eu vivo minha vida como se eu não existisse.
A pessoa sempre vai se sentir bem ou mal, ou uma coisa ou outra, mas eu não sou ela.
Não me importo com o que possa vir a acontecer.
Eu só sossegarei com o silêncio.
Estes têm sido os melhores e piores anos da minha vida.
Sei que não tenho um emprego, mas eu não vivo nessa realidade.
Eu não faço a menor idéia do que um poeta seja.
De vez em quando paro de escrever, com vontade de morrer.
Várias vezes ao dia me deito na cama e durmo um pouco.
Ensaios.
Vou perder o medo de ficar louco.
Começar a ser o que eu sou.
Quanto a mim, continuo com essa idéia de que não tenho (nem quero ter) outra alternativa além de ser exatamente o que eu sou. Isto
Será um fracasso absoluto; mas não importa, essa é minha vida.
Eu nunca fui eu; eu sempre fui essa força dentro de mim.
Eu poderia ser facilmente qualquer pessoa.
Por acaso eu sou eu.
Eu:
Quando um prato quebra, eu digo, um prato a menos.
E sinto uma felicidade sincera, um júbilo.
Quando morre alguém, não me comovo.
Um dia serei eu, e pronto.
Para mim, a verdadeira vida sempre foi outra.
Ela cortou a ponta da minha cabeça. Me misturei ao céu.
Avisto o ponto de paz no qual a morte e o tempo já não existem como realidades limitantes.
Um homem que chegou cedo demais ao seu próprio enterro. Espero pacientemente sentado numa cadeira. Quando as pessoas enfim chegam, deito-me no caixão. Aí começam os ritos.
É preciso afirmar: Eu sou. Eu existo.
AMA ET FAC UT VIS
Tenho sido meticulosamente destruído.
Era uma casa abandonada, sem telhado
e as vacas
a haviam invadido
(e lambiam as paredes de barro):
era eu
quando por fim
me viraram
do avesso.
Meu Deus, muito obrigado por ajudar-me a ser quem eu sou. Ajudaime a ser quem eu sou. Ajudai-me a ser quem seu sou. Ajudai-me, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, meu belo Senhor, eu quero ser quem eu sou. Oh, Senhor, eu serei quem eu sou. É preciso que eu seja quem eu sou. Oh, Senhor, que eu seja quem eu sou.
Tem uma hora em que você abandona todo mundo e sai sozinho.
Eu vivo minha vida como se eu não existisse.
A pessoa sempre vai se sentir bem ou mal, ou uma coisa ou outra, mas eu não sou ela.
Não me importo com o que possa vir a acontecer.
Eu só sossegarei com o silêncio.
Estes têm sido os melhores e piores anos da minha vida.
Sei que não tenho um emprego, mas eu não vivo nessa realidade.
Eu não faço a menor idéia do que um poeta seja.
829
Renato Rezende
[Ensaios]
Saberei renascer em vida?
De vez em quando paro de escrever, com vontade de morrer.
Várias vezes ao dia me deito na cama e durmo um pouco.
Ensaios.
Vou perder o medo de ficar louco.
Começar a ser o que eu sou.
Quanto a mim, continuo com essa idéia de que não tenho (nem quero ter) outra alternativa além de ser exatamente o que eu sou. Isto
Será um fracasso absoluto; mas não importa, essa é minha vida.
Eu nunca fui eu; eu sempre fui essa força dentro de mim.
Eu poderia ser facilmente qualquer pessoa.
Por acaso eu sou eu.
Eu:
Quando um prato quebra, eu digo, um prato a menos.
E sinto uma felicidade sincera, um júbilo.
Quando morre alguém, não me comovo.
Um dia serei eu, e pronto.
Para mim, a verdadeira vida sempre foi outra.
Ela cortou a ponta da minha cabeça. Me misturei ao céu.
Avisto o ponto de paz no qual a morte e o tempo já não existem como realidades limitantes.
Um homem que chegou cedo demais ao seu próprio enterro. Espero pacientemente sentado numa cadeira. Quando as pessoas enfim chegam, deito-me no caixão. Aí começam os ritos.
É preciso afirmar: Eu sou. Eu existo.
AMA ET FAC UT VIS
Tenho sido meticulosamente destruído.
Era uma casa abandonada, sem telhado
e as vacas
a haviam invadido
(e lambiam as paredes de barro):
era eu
quando por fim
me viraram
do avesso.
Meu Deus, muito obrigado por ajudar-me a ser quem eu sou. Ajudaime a ser quem eu sou. Ajudai-me a ser quem seu sou. Ajudai-me, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, meu belo Senhor, eu quero ser quem eu sou. Oh, Senhor, eu serei quem eu sou. É preciso que eu seja quem eu sou. Oh, Senhor, que eu seja quem eu sou.
Tem uma hora em que você abandona todo mundo e sai sozinho.
Eu vivo minha vida como se eu não existisse.
A pessoa sempre vai se sentir bem ou mal, ou uma coisa ou outra, mas eu não sou ela.
Não me importo com o que possa vir a acontecer.
Eu só sossegarei com o silêncio.
Estes têm sido os melhores e piores anos da minha vida.
Sei que não tenho um emprego, mas eu não vivo nessa realidade.
Eu não faço a menor idéia do que um poeta seja.
De vez em quando paro de escrever, com vontade de morrer.
Várias vezes ao dia me deito na cama e durmo um pouco.
Ensaios.
Vou perder o medo de ficar louco.
Começar a ser o que eu sou.
Quanto a mim, continuo com essa idéia de que não tenho (nem quero ter) outra alternativa além de ser exatamente o que eu sou. Isto
Será um fracasso absoluto; mas não importa, essa é minha vida.
Eu nunca fui eu; eu sempre fui essa força dentro de mim.
Eu poderia ser facilmente qualquer pessoa.
Por acaso eu sou eu.
Eu:
Quando um prato quebra, eu digo, um prato a menos.
E sinto uma felicidade sincera, um júbilo.
Quando morre alguém, não me comovo.
Um dia serei eu, e pronto.
Para mim, a verdadeira vida sempre foi outra.
Ela cortou a ponta da minha cabeça. Me misturei ao céu.
Avisto o ponto de paz no qual a morte e o tempo já não existem como realidades limitantes.
Um homem que chegou cedo demais ao seu próprio enterro. Espero pacientemente sentado numa cadeira. Quando as pessoas enfim chegam, deito-me no caixão. Aí começam os ritos.
É preciso afirmar: Eu sou. Eu existo.
AMA ET FAC UT VIS
Tenho sido meticulosamente destruído.
Era uma casa abandonada, sem telhado
e as vacas
a haviam invadido
(e lambiam as paredes de barro):
era eu
quando por fim
me viraram
do avesso.
Meu Deus, muito obrigado por ajudar-me a ser quem eu sou. Ajudaime a ser quem eu sou. Ajudai-me a ser quem seu sou. Ajudai-me, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, meu belo Senhor, eu quero ser quem eu sou. Oh, Senhor, eu serei quem eu sou. É preciso que eu seja quem eu sou. Oh, Senhor, que eu seja quem eu sou.
Tem uma hora em que você abandona todo mundo e sai sozinho.
Eu vivo minha vida como se eu não existisse.
A pessoa sempre vai se sentir bem ou mal, ou uma coisa ou outra, mas eu não sou ela.
Não me importo com o que possa vir a acontecer.
Eu só sossegarei com o silêncio.
Estes têm sido os melhores e piores anos da minha vida.
Sei que não tenho um emprego, mas eu não vivo nessa realidade.
Eu não faço a menor idéia do que um poeta seja.
829
Renato Rezende
[Ensaios]
Saberei renascer em vida?
De vez em quando paro de escrever, com vontade de morrer.
Várias vezes ao dia me deito na cama e durmo um pouco.
Ensaios.
Vou perder o medo de ficar louco.
Começar a ser o que eu sou.
Quanto a mim, continuo com essa idéia de que não tenho (nem quero ter) outra alternativa além de ser exatamente o que eu sou. Isto
Será um fracasso absoluto; mas não importa, essa é minha vida.
Eu nunca fui eu; eu sempre fui essa força dentro de mim.
Eu poderia ser facilmente qualquer pessoa.
Por acaso eu sou eu.
Eu:
Quando um prato quebra, eu digo, um prato a menos.
E sinto uma felicidade sincera, um júbilo.
Quando morre alguém, não me comovo.
Um dia serei eu, e pronto.
Para mim, a verdadeira vida sempre foi outra.
Ela cortou a ponta da minha cabeça. Me misturei ao céu.
Avisto o ponto de paz no qual a morte e o tempo já não existem como realidades limitantes.
Um homem que chegou cedo demais ao seu próprio enterro. Espero pacientemente sentado numa cadeira. Quando as pessoas enfim chegam, deito-me no caixão. Aí começam os ritos.
É preciso afirmar: Eu sou. Eu existo.
AMA ET FAC UT VIS
Tenho sido meticulosamente destruído.
Era uma casa abandonada, sem telhado
e as vacas
a haviam invadido
(e lambiam as paredes de barro):
era eu
quando por fim
me viraram
do avesso.
Meu Deus, muito obrigado por ajudar-me a ser quem eu sou. Ajudaime a ser quem eu sou. Ajudai-me a ser quem seu sou. Ajudai-me, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, meu belo Senhor, eu quero ser quem eu sou. Oh, Senhor, eu serei quem eu sou. É preciso que eu seja quem eu sou. Oh, Senhor, que eu seja quem eu sou.
Tem uma hora em que você abandona todo mundo e sai sozinho.
Eu vivo minha vida como se eu não existisse.
A pessoa sempre vai se sentir bem ou mal, ou uma coisa ou outra, mas eu não sou ela.
Não me importo com o que possa vir a acontecer.
Eu só sossegarei com o silêncio.
Estes têm sido os melhores e piores anos da minha vida.
Sei que não tenho um emprego, mas eu não vivo nessa realidade.
Eu não faço a menor idéia do que um poeta seja.
De vez em quando paro de escrever, com vontade de morrer.
Várias vezes ao dia me deito na cama e durmo um pouco.
Ensaios.
Vou perder o medo de ficar louco.
Começar a ser o que eu sou.
Quanto a mim, continuo com essa idéia de que não tenho (nem quero ter) outra alternativa além de ser exatamente o que eu sou. Isto
Será um fracasso absoluto; mas não importa, essa é minha vida.
Eu nunca fui eu; eu sempre fui essa força dentro de mim.
Eu poderia ser facilmente qualquer pessoa.
Por acaso eu sou eu.
Eu:
Quando um prato quebra, eu digo, um prato a menos.
E sinto uma felicidade sincera, um júbilo.
Quando morre alguém, não me comovo.
Um dia serei eu, e pronto.
Para mim, a verdadeira vida sempre foi outra.
Ela cortou a ponta da minha cabeça. Me misturei ao céu.
Avisto o ponto de paz no qual a morte e o tempo já não existem como realidades limitantes.
Um homem que chegou cedo demais ao seu próprio enterro. Espero pacientemente sentado numa cadeira. Quando as pessoas enfim chegam, deito-me no caixão. Aí começam os ritos.
É preciso afirmar: Eu sou. Eu existo.
AMA ET FAC UT VIS
Tenho sido meticulosamente destruído.
Era uma casa abandonada, sem telhado
e as vacas
a haviam invadido
(e lambiam as paredes de barro):
era eu
quando por fim
me viraram
do avesso.
Meu Deus, muito obrigado por ajudar-me a ser quem eu sou. Ajudaime a ser quem eu sou. Ajudai-me a ser quem seu sou. Ajudai-me, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, meu belo Senhor, eu quero ser quem eu sou. Oh, Senhor, eu serei quem eu sou. É preciso que eu seja quem eu sou. Oh, Senhor, que eu seja quem eu sou.
Tem uma hora em que você abandona todo mundo e sai sozinho.
Eu vivo minha vida como se eu não existisse.
A pessoa sempre vai se sentir bem ou mal, ou uma coisa ou outra, mas eu não sou ela.
Não me importo com o que possa vir a acontecer.
Eu só sossegarei com o silêncio.
Estes têm sido os melhores e piores anos da minha vida.
Sei que não tenho um emprego, mas eu não vivo nessa realidade.
Eu não faço a menor idéia do que um poeta seja.
829
Renato Rezende
[Ensaios]
Saberei renascer em vida?
De vez em quando paro de escrever, com vontade de morrer.
Várias vezes ao dia me deito na cama e durmo um pouco.
Ensaios.
Vou perder o medo de ficar louco.
Começar a ser o que eu sou.
Quanto a mim, continuo com essa idéia de que não tenho (nem quero ter) outra alternativa além de ser exatamente o que eu sou. Isto
Será um fracasso absoluto; mas não importa, essa é minha vida.
Eu nunca fui eu; eu sempre fui essa força dentro de mim.
Eu poderia ser facilmente qualquer pessoa.
Por acaso eu sou eu.
Eu:
Quando um prato quebra, eu digo, um prato a menos.
E sinto uma felicidade sincera, um júbilo.
Quando morre alguém, não me comovo.
Um dia serei eu, e pronto.
Para mim, a verdadeira vida sempre foi outra.
Ela cortou a ponta da minha cabeça. Me misturei ao céu.
Avisto o ponto de paz no qual a morte e o tempo já não existem como realidades limitantes.
Um homem que chegou cedo demais ao seu próprio enterro. Espero pacientemente sentado numa cadeira. Quando as pessoas enfim chegam, deito-me no caixão. Aí começam os ritos.
É preciso afirmar: Eu sou. Eu existo.
AMA ET FAC UT VIS
Tenho sido meticulosamente destruído.
Era uma casa abandonada, sem telhado
e as vacas
a haviam invadido
(e lambiam as paredes de barro):
era eu
quando por fim
me viraram
do avesso.
Meu Deus, muito obrigado por ajudar-me a ser quem eu sou. Ajudaime a ser quem eu sou. Ajudai-me a ser quem seu sou. Ajudai-me, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, meu belo Senhor, eu quero ser quem eu sou. Oh, Senhor, eu serei quem eu sou. É preciso que eu seja quem eu sou. Oh, Senhor, que eu seja quem eu sou.
Tem uma hora em que você abandona todo mundo e sai sozinho.
Eu vivo minha vida como se eu não existisse.
A pessoa sempre vai se sentir bem ou mal, ou uma coisa ou outra, mas eu não sou ela.
Não me importo com o que possa vir a acontecer.
Eu só sossegarei com o silêncio.
Estes têm sido os melhores e piores anos da minha vida.
Sei que não tenho um emprego, mas eu não vivo nessa realidade.
Eu não faço a menor idéia do que um poeta seja.
De vez em quando paro de escrever, com vontade de morrer.
Várias vezes ao dia me deito na cama e durmo um pouco.
Ensaios.
Vou perder o medo de ficar louco.
Começar a ser o que eu sou.
Quanto a mim, continuo com essa idéia de que não tenho (nem quero ter) outra alternativa além de ser exatamente o que eu sou. Isto
Será um fracasso absoluto; mas não importa, essa é minha vida.
Eu nunca fui eu; eu sempre fui essa força dentro de mim.
Eu poderia ser facilmente qualquer pessoa.
Por acaso eu sou eu.
Eu:
Quando um prato quebra, eu digo, um prato a menos.
E sinto uma felicidade sincera, um júbilo.
Quando morre alguém, não me comovo.
Um dia serei eu, e pronto.
Para mim, a verdadeira vida sempre foi outra.
Ela cortou a ponta da minha cabeça. Me misturei ao céu.
Avisto o ponto de paz no qual a morte e o tempo já não existem como realidades limitantes.
Um homem que chegou cedo demais ao seu próprio enterro. Espero pacientemente sentado numa cadeira. Quando as pessoas enfim chegam, deito-me no caixão. Aí começam os ritos.
É preciso afirmar: Eu sou. Eu existo.
AMA ET FAC UT VIS
Tenho sido meticulosamente destruído.
Era uma casa abandonada, sem telhado
e as vacas
a haviam invadido
(e lambiam as paredes de barro):
era eu
quando por fim
me viraram
do avesso.
Meu Deus, muito obrigado por ajudar-me a ser quem eu sou. Ajudaime a ser quem eu sou. Ajudai-me a ser quem seu sou. Ajudai-me, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, meu belo Senhor, eu quero ser quem eu sou. Oh, Senhor, eu serei quem eu sou. É preciso que eu seja quem eu sou. Oh, Senhor, que eu seja quem eu sou.
Tem uma hora em que você abandona todo mundo e sai sozinho.
Eu vivo minha vida como se eu não existisse.
A pessoa sempre vai se sentir bem ou mal, ou uma coisa ou outra, mas eu não sou ela.
Não me importo com o que possa vir a acontecer.
Eu só sossegarei com o silêncio.
Estes têm sido os melhores e piores anos da minha vida.
Sei que não tenho um emprego, mas eu não vivo nessa realidade.
Eu não faço a menor idéia do que um poeta seja.
829
Renato Rezende
[Ensaios]
Saberei renascer em vida?
De vez em quando paro de escrever, com vontade de morrer.
Várias vezes ao dia me deito na cama e durmo um pouco.
Ensaios.
Vou perder o medo de ficar louco.
Começar a ser o que eu sou.
Quanto a mim, continuo com essa idéia de que não tenho (nem quero ter) outra alternativa além de ser exatamente o que eu sou. Isto
Será um fracasso absoluto; mas não importa, essa é minha vida.
Eu nunca fui eu; eu sempre fui essa força dentro de mim.
Eu poderia ser facilmente qualquer pessoa.
Por acaso eu sou eu.
Eu:
Quando um prato quebra, eu digo, um prato a menos.
E sinto uma felicidade sincera, um júbilo.
Quando morre alguém, não me comovo.
Um dia serei eu, e pronto.
Para mim, a verdadeira vida sempre foi outra.
Ela cortou a ponta da minha cabeça. Me misturei ao céu.
Avisto o ponto de paz no qual a morte e o tempo já não existem como realidades limitantes.
Um homem que chegou cedo demais ao seu próprio enterro. Espero pacientemente sentado numa cadeira. Quando as pessoas enfim chegam, deito-me no caixão. Aí começam os ritos.
É preciso afirmar: Eu sou. Eu existo.
AMA ET FAC UT VIS
Tenho sido meticulosamente destruído.
Era uma casa abandonada, sem telhado
e as vacas
a haviam invadido
(e lambiam as paredes de barro):
era eu
quando por fim
me viraram
do avesso.
Meu Deus, muito obrigado por ajudar-me a ser quem eu sou. Ajudaime a ser quem eu sou. Ajudai-me a ser quem seu sou. Ajudai-me, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, meu belo Senhor, eu quero ser quem eu sou. Oh, Senhor, eu serei quem eu sou. É preciso que eu seja quem eu sou. Oh, Senhor, que eu seja quem eu sou.
Tem uma hora em que você abandona todo mundo e sai sozinho.
Eu vivo minha vida como se eu não existisse.
A pessoa sempre vai se sentir bem ou mal, ou uma coisa ou outra, mas eu não sou ela.
Não me importo com o que possa vir a acontecer.
Eu só sossegarei com o silêncio.
Estes têm sido os melhores e piores anos da minha vida.
Sei que não tenho um emprego, mas eu não vivo nessa realidade.
Eu não faço a menor idéia do que um poeta seja.
De vez em quando paro de escrever, com vontade de morrer.
Várias vezes ao dia me deito na cama e durmo um pouco.
Ensaios.
Vou perder o medo de ficar louco.
Começar a ser o que eu sou.
Quanto a mim, continuo com essa idéia de que não tenho (nem quero ter) outra alternativa além de ser exatamente o que eu sou. Isto
Será um fracasso absoluto; mas não importa, essa é minha vida.
Eu nunca fui eu; eu sempre fui essa força dentro de mim.
Eu poderia ser facilmente qualquer pessoa.
Por acaso eu sou eu.
Eu:
Quando um prato quebra, eu digo, um prato a menos.
E sinto uma felicidade sincera, um júbilo.
Quando morre alguém, não me comovo.
Um dia serei eu, e pronto.
Para mim, a verdadeira vida sempre foi outra.
Ela cortou a ponta da minha cabeça. Me misturei ao céu.
Avisto o ponto de paz no qual a morte e o tempo já não existem como realidades limitantes.
Um homem que chegou cedo demais ao seu próprio enterro. Espero pacientemente sentado numa cadeira. Quando as pessoas enfim chegam, deito-me no caixão. Aí começam os ritos.
É preciso afirmar: Eu sou. Eu existo.
AMA ET FAC UT VIS
Tenho sido meticulosamente destruído.
Era uma casa abandonada, sem telhado
e as vacas
a haviam invadido
(e lambiam as paredes de barro):
era eu
quando por fim
me viraram
do avesso.
Meu Deus, muito obrigado por ajudar-me a ser quem eu sou. Ajudaime a ser quem eu sou. Ajudai-me a ser quem seu sou. Ajudai-me, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, Senhor, ajudai-me a ser quem seu sou. Oh, meu belo Senhor, eu quero ser quem eu sou. Oh, Senhor, eu serei quem eu sou. É preciso que eu seja quem eu sou. Oh, Senhor, que eu seja quem eu sou.
Tem uma hora em que você abandona todo mundo e sai sozinho.
Eu vivo minha vida como se eu não existisse.
A pessoa sempre vai se sentir bem ou mal, ou uma coisa ou outra, mas eu não sou ela.
Não me importo com o que possa vir a acontecer.
Eu só sossegarei com o silêncio.
Estes têm sido os melhores e piores anos da minha vida.
Sei que não tenho um emprego, mas eu não vivo nessa realidade.
Eu não faço a menor idéia do que um poeta seja.
829
Francesca Angiolillo
Etiópia, Etiópia
Etiopía era a estação
de metrô da minha casa
quando eu me mudei daqui –
você logo
se lembrou
da Etiópia.
A estação de metrô tinha
uma cabeça de leão
como emblema
a sua Etiópia tinha
um filhote de chacal e
um imperador
segurando o filhote de animal
uma pedra no anel
no dedo do imperador
sobre a cabeça do filhote
– nela brilhava o sol.
O fascismo que você
deplorou do alto
de seus oito anos
na fila do leite
porque leite não havia
ergueu cidades
na Etiópia.
(No ano em que você nasceu
o imperador foi eleito
homem do ano
da Time Magazine;
depois disso
bem depois um tanto depois de
nascida eu
outras crianças passaram fome
sem direito a fila
no vale do rio Omo.)
Nunca soube das cidades
que você não ergueu
nas terras de Afar
onde Lucy nossa mãe
até hoje está
mas sei da pedra do anel
no dedo de
Haile
Selassie
como se eu estivesse lá
como se eu fosse você.
Sua Etiópia hoje é
uma fotografia
– nela você aparece
cercado de gente
negra pintada –
guardada
numa caixa
de papelão.
de metrô da minha casa
quando eu me mudei daqui –
você logo
se lembrou
da Etiópia.
A estação de metrô tinha
uma cabeça de leão
como emblema
a sua Etiópia tinha
um filhote de chacal e
um imperador
segurando o filhote de animal
uma pedra no anel
no dedo do imperador
sobre a cabeça do filhote
– nela brilhava o sol.
O fascismo que você
deplorou do alto
de seus oito anos
na fila do leite
porque leite não havia
ergueu cidades
na Etiópia.
(No ano em que você nasceu
o imperador foi eleito
homem do ano
da Time Magazine;
depois disso
bem depois um tanto depois de
nascida eu
outras crianças passaram fome
sem direito a fila
no vale do rio Omo.)
Nunca soube das cidades
que você não ergueu
nas terras de Afar
onde Lucy nossa mãe
até hoje está
mas sei da pedra do anel
no dedo de
Haile
Selassie
como se eu estivesse lá
como se eu fosse você.
Sua Etiópia hoje é
uma fotografia
– nela você aparece
cercado de gente
negra pintada –
guardada
numa caixa
de papelão.
726
Sérgio Medeiros
O que flutua
– a folha no chão é tal
qual a casca de uma banana
muito madura de
um marrom-escuro
mas de repente é
empurrada pelo vento
e flutua rente ao chão
indo embora loucamente
qual a casca de uma banana
muito madura de
um marrom-escuro
mas de repente é
empurrada pelo vento
e flutua rente ao chão
indo embora loucamente
771
Samarone Lima de Oliveira
Intenção
Esta dificuldade terna e antiga
De dizer adeus
De batizar as coisas simples
Com nome e sobrenome.
A intenção de morrer calado
De desfazer os pactos antigos
Dos que vieram antes.
A saudade morna e calma
Arrebenta os dias.
Desvãos sazonais entre os ossos
Em qualquer primavera
O mais triste nas privações do inverno.
A intenção de catalogar uma por uma
As folhas que caem
Como partes da família.
A certeza de que o chão descobre
Sua chance de amanhã.
Na esquina distante
Que sempre chega.
De dizer adeus
De batizar as coisas simples
Com nome e sobrenome.
A intenção de morrer calado
De desfazer os pactos antigos
Dos que vieram antes.
A saudade morna e calma
Arrebenta os dias.
Desvãos sazonais entre os ossos
Em qualquer primavera
O mais triste nas privações do inverno.
A intenção de catalogar uma por uma
As folhas que caem
Como partes da família.
A certeza de que o chão descobre
Sua chance de amanhã.
Na esquina distante
Que sempre chega.
633
Samarone Lima de Oliveira
Intenção
Esta dificuldade terna e antiga
De dizer adeus
De batizar as coisas simples
Com nome e sobrenome.
A intenção de morrer calado
De desfazer os pactos antigos
Dos que vieram antes.
A saudade morna e calma
Arrebenta os dias.
Desvãos sazonais entre os ossos
Em qualquer primavera
O mais triste nas privações do inverno.
A intenção de catalogar uma por uma
As folhas que caem
Como partes da família.
A certeza de que o chão descobre
Sua chance de amanhã.
Na esquina distante
Que sempre chega.
De dizer adeus
De batizar as coisas simples
Com nome e sobrenome.
A intenção de morrer calado
De desfazer os pactos antigos
Dos que vieram antes.
A saudade morna e calma
Arrebenta os dias.
Desvãos sazonais entre os ossos
Em qualquer primavera
O mais triste nas privações do inverno.
A intenção de catalogar uma por uma
As folhas que caem
Como partes da família.
A certeza de que o chão descobre
Sua chance de amanhã.
Na esquina distante
Que sempre chega.
633
Samarone Lima de Oliveira
Formas do dia
Às vezes, ao escolher os sapatos
Erramos o dia.
E a cor, a forma,
Nos levam ao ponto primordial:
Como saímos de casa.
Às vezes, a falta de uma bênção
Nos leva ao segundo erro:
Saímos de casa desassistidos
E nos perdemos do próprio dia.
Às vezes, a falta de um aviso
De um recado
De um aceno
Nos faz seguir sem os pequenos gestos
Que nos salvam o dia.
Quase sempre
Voltamos para casa
Tão vivos
E nem sabemos
Que sapatos, bênçãos, avisos
Nos salvam a vida.
Erramos o dia.
E a cor, a forma,
Nos levam ao ponto primordial:
Como saímos de casa.
Às vezes, a falta de uma bênção
Nos leva ao segundo erro:
Saímos de casa desassistidos
E nos perdemos do próprio dia.
Às vezes, a falta de um aviso
De um recado
De um aceno
Nos faz seguir sem os pequenos gestos
Que nos salvam o dia.
Quase sempre
Voltamos para casa
Tão vivos
E nem sabemos
Que sapatos, bênçãos, avisos
Nos salvam a vida.
694
Renato Rezende
[Hosana]
Meu sexo se tornou uma rosa amarela
ereta e desabrochada
o seu uma vermelha?
Podemos viver sem o corpo
apenas mente
e sua matéria rara?
Qual a distância correta?
euforia e desamparo
Amamos melhor quando amamos em Presença?
Asa-palavra
Esse é um poema fora de órbita
Stella do Patrocínio:
Eu era gases puro, ar, espaço vazio, tempo
Eu quero sempre, em suspenso
—Poucos meses de namoro. Para mim, não era sério; nunca era. Eu gostava dela, mas... para mim era um rolo. Ela sabia que eu já havia estado com homens. Não tinha se importado. Daí ela propôs.
—Eu sou de escorpião. Não nego: tenho inveja do pau. Sempre quis ser homem. Sou feminina, me cuido, me visto. Tenho vaidade. Mas sou decidida, sei o que quero.
—Eu nunca soube o que quero. Numa noite, depois de uma festa, ela propôs. Tive medo. Achei que depois ela ia sentir nojo de mim. Perguntei.
—Claro que não sentiria. Não; pelo contrário. Meu coração bateu forte. Ele estava se oferecendo para mim. Me senti grata.
—Foi improvisado. Demorou. Foi ótimo. A gente ama quem nos dá prazer, não é mesmo? Sentimos muito amor mesmo.
—Dormimos abraçados. Ela como se fosse homem.
—Depois mandamos fazer um consolo preso num cinto. Sob medida. Perdi a vergonha, e daí? Sempre soube o que quero. Tem vez que ando com isso o dia inteiro.
—Já anos de casados. Duas filhas. Feitas com prazer, a gente varia.
—A gente vai levando. Negociando. Dando um jeito. A vida é assim.
Quem quer se casar comigo?
Deus, quer se casar comigo?
Estrela
Eu-sou
Eu-posso
Flamirromper
Florchamejar
Borboleta-girassol
Luz-delírio
Oh, Goethe!
ereta e desabrochada
o seu uma vermelha?
Podemos viver sem o corpo
apenas mente
e sua matéria rara?
Qual a distância correta?
euforia e desamparo
Amamos melhor quando amamos em Presença?
Asa-palavra
Esse é um poema fora de órbita
Stella do Patrocínio:
Eu era gases puro, ar, espaço vazio, tempo
Eu quero sempre, em suspenso
—Poucos meses de namoro. Para mim, não era sério; nunca era. Eu gostava dela, mas... para mim era um rolo. Ela sabia que eu já havia estado com homens. Não tinha se importado. Daí ela propôs.
—Eu sou de escorpião. Não nego: tenho inveja do pau. Sempre quis ser homem. Sou feminina, me cuido, me visto. Tenho vaidade. Mas sou decidida, sei o que quero.
—Eu nunca soube o que quero. Numa noite, depois de uma festa, ela propôs. Tive medo. Achei que depois ela ia sentir nojo de mim. Perguntei.
—Claro que não sentiria. Não; pelo contrário. Meu coração bateu forte. Ele estava se oferecendo para mim. Me senti grata.
—Foi improvisado. Demorou. Foi ótimo. A gente ama quem nos dá prazer, não é mesmo? Sentimos muito amor mesmo.
—Dormimos abraçados. Ela como se fosse homem.
—Depois mandamos fazer um consolo preso num cinto. Sob medida. Perdi a vergonha, e daí? Sempre soube o que quero. Tem vez que ando com isso o dia inteiro.
—Já anos de casados. Duas filhas. Feitas com prazer, a gente varia.
—A gente vai levando. Negociando. Dando um jeito. A vida é assim.
Quem quer se casar comigo?
Deus, quer se casar comigo?
Estrela
Eu-sou
Eu-posso
Flamirromper
Florchamejar
Borboleta-girassol
Luz-delírio
Oh, Goethe!
1 009
Renato Rezende
[Hosana]
Meu sexo se tornou uma rosa amarela
ereta e desabrochada
o seu uma vermelha?
Podemos viver sem o corpo
apenas mente
e sua matéria rara?
Qual a distância correta?
euforia e desamparo
Amamos melhor quando amamos em Presença?
Asa-palavra
Esse é um poema fora de órbita
Stella do Patrocínio:
Eu era gases puro, ar, espaço vazio, tempo
Eu quero sempre, em suspenso
—Poucos meses de namoro. Para mim, não era sério; nunca era. Eu gostava dela, mas... para mim era um rolo. Ela sabia que eu já havia estado com homens. Não tinha se importado. Daí ela propôs.
—Eu sou de escorpião. Não nego: tenho inveja do pau. Sempre quis ser homem. Sou feminina, me cuido, me visto. Tenho vaidade. Mas sou decidida, sei o que quero.
—Eu nunca soube o que quero. Numa noite, depois de uma festa, ela propôs. Tive medo. Achei que depois ela ia sentir nojo de mim. Perguntei.
—Claro que não sentiria. Não; pelo contrário. Meu coração bateu forte. Ele estava se oferecendo para mim. Me senti grata.
—Foi improvisado. Demorou. Foi ótimo. A gente ama quem nos dá prazer, não é mesmo? Sentimos muito amor mesmo.
—Dormimos abraçados. Ela como se fosse homem.
—Depois mandamos fazer um consolo preso num cinto. Sob medida. Perdi a vergonha, e daí? Sempre soube o que quero. Tem vez que ando com isso o dia inteiro.
—Já anos de casados. Duas filhas. Feitas com prazer, a gente varia.
—A gente vai levando. Negociando. Dando um jeito. A vida é assim.
Quem quer se casar comigo?
Deus, quer se casar comigo?
Estrela
Eu-sou
Eu-posso
Flamirromper
Florchamejar
Borboleta-girassol
Luz-delírio
Oh, Goethe!
ereta e desabrochada
o seu uma vermelha?
Podemos viver sem o corpo
apenas mente
e sua matéria rara?
Qual a distância correta?
euforia e desamparo
Amamos melhor quando amamos em Presença?
Asa-palavra
Esse é um poema fora de órbita
Stella do Patrocínio:
Eu era gases puro, ar, espaço vazio, tempo
Eu quero sempre, em suspenso
—Poucos meses de namoro. Para mim, não era sério; nunca era. Eu gostava dela, mas... para mim era um rolo. Ela sabia que eu já havia estado com homens. Não tinha se importado. Daí ela propôs.
—Eu sou de escorpião. Não nego: tenho inveja do pau. Sempre quis ser homem. Sou feminina, me cuido, me visto. Tenho vaidade. Mas sou decidida, sei o que quero.
—Eu nunca soube o que quero. Numa noite, depois de uma festa, ela propôs. Tive medo. Achei que depois ela ia sentir nojo de mim. Perguntei.
—Claro que não sentiria. Não; pelo contrário. Meu coração bateu forte. Ele estava se oferecendo para mim. Me senti grata.
—Foi improvisado. Demorou. Foi ótimo. A gente ama quem nos dá prazer, não é mesmo? Sentimos muito amor mesmo.
—Dormimos abraçados. Ela como se fosse homem.
—Depois mandamos fazer um consolo preso num cinto. Sob medida. Perdi a vergonha, e daí? Sempre soube o que quero. Tem vez que ando com isso o dia inteiro.
—Já anos de casados. Duas filhas. Feitas com prazer, a gente varia.
—A gente vai levando. Negociando. Dando um jeito. A vida é assim.
Quem quer se casar comigo?
Deus, quer se casar comigo?
Estrela
Eu-sou
Eu-posso
Flamirromper
Florchamejar
Borboleta-girassol
Luz-delírio
Oh, Goethe!
1 009
Samarone Lima de Oliveira
O Coração Sobre a Mesa
O coração sobre a mesa
não diz uma palavra.
Não pede, não cansa, não revela.
Observo, como um legista
o objeto alheio
a pulsação antiga que mantém
órgãos, intentos, entranhas, reflexos.
E súbito, em suas paredes
em carnosidades avermelhadas
surge desenhos, talhos, remendos.
Toco o peito vazio.
O coração respira, na mesa
movido por um moto-perpétuo.
Não há sístole ou diástole.
Sou eu, com medo de dormir sozinho
em alguma noite antiga.
É o telegrama com a morte
do tio Ademar.
São as lágrimas de minha mãe
na noite de Pentecostes.
É o dia em que cheguei ao Recife
com uma caixa de livros.
Na rodoviária, sentia frio
não sabia o que sentir
não sabia meu nome.
Meu coração ainda não era meu.
não diz uma palavra.
Não pede, não cansa, não revela.
Observo, como um legista
o objeto alheio
a pulsação antiga que mantém
órgãos, intentos, entranhas, reflexos.
E súbito, em suas paredes
em carnosidades avermelhadas
surge desenhos, talhos, remendos.
Toco o peito vazio.
O coração respira, na mesa
movido por um moto-perpétuo.
Não há sístole ou diástole.
Sou eu, com medo de dormir sozinho
em alguma noite antiga.
É o telegrama com a morte
do tio Ademar.
São as lágrimas de minha mãe
na noite de Pentecostes.
É o dia em que cheguei ao Recife
com uma caixa de livros.
Na rodoviária, sentia frio
não sabia o que sentir
não sabia meu nome.
Meu coração ainda não era meu.
654
Samarone Lima de Oliveira
O Coração Sobre a Mesa
O coração sobre a mesa
não diz uma palavra.
Não pede, não cansa, não revela.
Observo, como um legista
o objeto alheio
a pulsação antiga que mantém
órgãos, intentos, entranhas, reflexos.
E súbito, em suas paredes
em carnosidades avermelhadas
surge desenhos, talhos, remendos.
Toco o peito vazio.
O coração respira, na mesa
movido por um moto-perpétuo.
Não há sístole ou diástole.
Sou eu, com medo de dormir sozinho
em alguma noite antiga.
É o telegrama com a morte
do tio Ademar.
São as lágrimas de minha mãe
na noite de Pentecostes.
É o dia em que cheguei ao Recife
com uma caixa de livros.
Na rodoviária, sentia frio
não sabia o que sentir
não sabia meu nome.
Meu coração ainda não era meu.
não diz uma palavra.
Não pede, não cansa, não revela.
Observo, como um legista
o objeto alheio
a pulsação antiga que mantém
órgãos, intentos, entranhas, reflexos.
E súbito, em suas paredes
em carnosidades avermelhadas
surge desenhos, talhos, remendos.
Toco o peito vazio.
O coração respira, na mesa
movido por um moto-perpétuo.
Não há sístole ou diástole.
Sou eu, com medo de dormir sozinho
em alguma noite antiga.
É o telegrama com a morte
do tio Ademar.
São as lágrimas de minha mãe
na noite de Pentecostes.
É o dia em que cheguei ao Recife
com uma caixa de livros.
Na rodoviária, sentia frio
não sabia o que sentir
não sabia meu nome.
Meu coração ainda não era meu.
654
Samarone Lima de Oliveira
O Coração Sobre a Mesa
O coração sobre a mesa
não diz uma palavra.
Não pede, não cansa, não revela.
Observo, como um legista
o objeto alheio
a pulsação antiga que mantém
órgãos, intentos, entranhas, reflexos.
E súbito, em suas paredes
em carnosidades avermelhadas
surge desenhos, talhos, remendos.
Toco o peito vazio.
O coração respira, na mesa
movido por um moto-perpétuo.
Não há sístole ou diástole.
Sou eu, com medo de dormir sozinho
em alguma noite antiga.
É o telegrama com a morte
do tio Ademar.
São as lágrimas de minha mãe
na noite de Pentecostes.
É o dia em que cheguei ao Recife
com uma caixa de livros.
Na rodoviária, sentia frio
não sabia o que sentir
não sabia meu nome.
Meu coração ainda não era meu.
não diz uma palavra.
Não pede, não cansa, não revela.
Observo, como um legista
o objeto alheio
a pulsação antiga que mantém
órgãos, intentos, entranhas, reflexos.
E súbito, em suas paredes
em carnosidades avermelhadas
surge desenhos, talhos, remendos.
Toco o peito vazio.
O coração respira, na mesa
movido por um moto-perpétuo.
Não há sístole ou diástole.
Sou eu, com medo de dormir sozinho
em alguma noite antiga.
É o telegrama com a morte
do tio Ademar.
São as lágrimas de minha mãe
na noite de Pentecostes.
É o dia em que cheguei ao Recife
com uma caixa de livros.
Na rodoviária, sentia frio
não sabia o que sentir
não sabia meu nome.
Meu coração ainda não era meu.
654
Renato Rezende
[Furniture]
Vamos para os Alpes franceses na primavera? Vamos para a França nos tempos medievais? Vamos nos deitar na grama, entre rosas, tendo um castelo ao fundo e suaves nuvens sobre nós?
Eu já vivi bastante. Eu já conheci bastante. Agora é necessário que esse oceano exploda em meu peito. O amor—não mais para fora, mas para dentro.
Mas estou me esforçando muito, profissionalizando meu silêncio.
Vejo aquelas mulheres tão compenetradas diante da gôndola do mercado e ao mesmo tempo tão esquivas ao olhar alheio, tenho vontade de dizer a elas—agora eu também sinto isso. Como um monge que encontra pela primeira vez aquela passagem secreta no labirinto da abadia. Não digo para ninguém essas coisas, não posso dividir com ninguém.
Todos os anos que Camille Claudel passou no hospício já se passaram (sabe-se lá medidos por qual relógio). Os anos de Hölderlin também já se passaram. Artaud já não existe mais. Tudo passa. Minha vida logo também não será mais nada.
Mas o que não é sempre não é nunca?
(Vejo os rostos sorridentes e ternos dos meus pais acenando o aceno de despedida para seu filho antes de desaparecerem para nunca mais nas trevas)
O meu tempo é uma colcha de retalhos. Em círculos revolvo os meus dias pelos mesmos lugares, os mesmos rostos se acendem e se apagam, vêm e vão, em intervalos—até que um dia deixam de surgir ou são substituídos por outros rostos, outros lugares. Retalhos raramente alinhados, costurados aqui e ali, e para sempre finitos.
I’m cooking
Se é verdade que a velhice chega pelas pernas, eu há muito já convivo com ela—latejando.
Ando pelas ruas observando as pessoas, seus traços. Como eram há 20 anos, como serão em 20 anos. O corpo em constante transformação.
Intestinos. O que passa pela mente. O que passa pelo corpo. O sistema digestivo—dejetos, pensamentos, palavras. Quem sou, quem fomos? A memória toda esfarrapada.
A explosão no aqui e agora.
As mulheres lindas da juventude estão ficando velhas, parecidas com suas mães: barrigas, seios e nádegas caídas. Idéias tolas e convencionais. As jovens encantadoras vão ficar assim, também. O mistério se esvazia, o encanto se desfaz.
(Algumas se tornaram mais belas, teria valido a pena esperar por elas—o ouro peneirado entre mica, areia e água).
E isso vale para mim, também: o olhar ferino das mulheres (que eu achava natural, inconsciente do meu charme) já não acontece mais
Sou enfim um corpo neutro
outro
Did you pay a lot for your furniture?
Eu não paguei muito pelos meus móveis.
Eu não paguei nada pelos meus móveis.
Meus parcos móveis são e sempre foram esses cacos doados
por amigos ocasionais.
Sempre habitei uma tenda.
O que eu gosto mesmo é de habitar uma tenda no deserto.
Nômade.
Meu trabalho é um móvel velho.
Minha poesia é um móvel.
Descartáveis.
Uma vida descartável.
Tirar-se a vida como se tira uma calça.
Ah, o deserto.
A árvore da vida enraíza-se por dentro.
Eu já vivi bastante. Eu já conheci bastante. Agora é necessário que esse oceano exploda em meu peito. O amor—não mais para fora, mas para dentro.
Mas estou me esforçando muito, profissionalizando meu silêncio.
Vejo aquelas mulheres tão compenetradas diante da gôndola do mercado e ao mesmo tempo tão esquivas ao olhar alheio, tenho vontade de dizer a elas—agora eu também sinto isso. Como um monge que encontra pela primeira vez aquela passagem secreta no labirinto da abadia. Não digo para ninguém essas coisas, não posso dividir com ninguém.
Todos os anos que Camille Claudel passou no hospício já se passaram (sabe-se lá medidos por qual relógio). Os anos de Hölderlin também já se passaram. Artaud já não existe mais. Tudo passa. Minha vida logo também não será mais nada.
Mas o que não é sempre não é nunca?
(Vejo os rostos sorridentes e ternos dos meus pais acenando o aceno de despedida para seu filho antes de desaparecerem para nunca mais nas trevas)
O meu tempo é uma colcha de retalhos. Em círculos revolvo os meus dias pelos mesmos lugares, os mesmos rostos se acendem e se apagam, vêm e vão, em intervalos—até que um dia deixam de surgir ou são substituídos por outros rostos, outros lugares. Retalhos raramente alinhados, costurados aqui e ali, e para sempre finitos.
I’m cooking
Se é verdade que a velhice chega pelas pernas, eu há muito já convivo com ela—latejando.
Ando pelas ruas observando as pessoas, seus traços. Como eram há 20 anos, como serão em 20 anos. O corpo em constante transformação.
Intestinos. O que passa pela mente. O que passa pelo corpo. O sistema digestivo—dejetos, pensamentos, palavras. Quem sou, quem fomos? A memória toda esfarrapada.
A explosão no aqui e agora.
As mulheres lindas da juventude estão ficando velhas, parecidas com suas mães: barrigas, seios e nádegas caídas. Idéias tolas e convencionais. As jovens encantadoras vão ficar assim, também. O mistério se esvazia, o encanto se desfaz.
(Algumas se tornaram mais belas, teria valido a pena esperar por elas—o ouro peneirado entre mica, areia e água).
E isso vale para mim, também: o olhar ferino das mulheres (que eu achava natural, inconsciente do meu charme) já não acontece mais
Sou enfim um corpo neutro
outro
Did you pay a lot for your furniture?
Eu não paguei muito pelos meus móveis.
Eu não paguei nada pelos meus móveis.
Meus parcos móveis são e sempre foram esses cacos doados
por amigos ocasionais.
Sempre habitei uma tenda.
O que eu gosto mesmo é de habitar uma tenda no deserto.
Nômade.
Meu trabalho é um móvel velho.
Minha poesia é um móvel.
Descartáveis.
Uma vida descartável.
Tirar-se a vida como se tira uma calça.
Ah, o deserto.
A árvore da vida enraíza-se por dentro.
750
Renato Rezende
[Furniture]
Vamos para os Alpes franceses na primavera? Vamos para a França nos tempos medievais? Vamos nos deitar na grama, entre rosas, tendo um castelo ao fundo e suaves nuvens sobre nós?
Eu já vivi bastante. Eu já conheci bastante. Agora é necessário que esse oceano exploda em meu peito. O amor—não mais para fora, mas para dentro.
Mas estou me esforçando muito, profissionalizando meu silêncio.
Vejo aquelas mulheres tão compenetradas diante da gôndola do mercado e ao mesmo tempo tão esquivas ao olhar alheio, tenho vontade de dizer a elas—agora eu também sinto isso. Como um monge que encontra pela primeira vez aquela passagem secreta no labirinto da abadia. Não digo para ninguém essas coisas, não posso dividir com ninguém.
Todos os anos que Camille Claudel passou no hospício já se passaram (sabe-se lá medidos por qual relógio). Os anos de Hölderlin também já se passaram. Artaud já não existe mais. Tudo passa. Minha vida logo também não será mais nada.
Mas o que não é sempre não é nunca?
(Vejo os rostos sorridentes e ternos dos meus pais acenando o aceno de despedida para seu filho antes de desaparecerem para nunca mais nas trevas)
O meu tempo é uma colcha de retalhos. Em círculos revolvo os meus dias pelos mesmos lugares, os mesmos rostos se acendem e se apagam, vêm e vão, em intervalos—até que um dia deixam de surgir ou são substituídos por outros rostos, outros lugares. Retalhos raramente alinhados, costurados aqui e ali, e para sempre finitos.
I’m cooking
Se é verdade que a velhice chega pelas pernas, eu há muito já convivo com ela—latejando.
Ando pelas ruas observando as pessoas, seus traços. Como eram há 20 anos, como serão em 20 anos. O corpo em constante transformação.
Intestinos. O que passa pela mente. O que passa pelo corpo. O sistema digestivo—dejetos, pensamentos, palavras. Quem sou, quem fomos? A memória toda esfarrapada.
A explosão no aqui e agora.
As mulheres lindas da juventude estão ficando velhas, parecidas com suas mães: barrigas, seios e nádegas caídas. Idéias tolas e convencionais. As jovens encantadoras vão ficar assim, também. O mistério se esvazia, o encanto se desfaz.
(Algumas se tornaram mais belas, teria valido a pena esperar por elas—o ouro peneirado entre mica, areia e água).
E isso vale para mim, também: o olhar ferino das mulheres (que eu achava natural, inconsciente do meu charme) já não acontece mais
Sou enfim um corpo neutro
outro
Did you pay a lot for your furniture?
Eu não paguei muito pelos meus móveis.
Eu não paguei nada pelos meus móveis.
Meus parcos móveis são e sempre foram esses cacos doados
por amigos ocasionais.
Sempre habitei uma tenda.
O que eu gosto mesmo é de habitar uma tenda no deserto.
Nômade.
Meu trabalho é um móvel velho.
Minha poesia é um móvel.
Descartáveis.
Uma vida descartável.
Tirar-se a vida como se tira uma calça.
Ah, o deserto.
A árvore da vida enraíza-se por dentro.
Eu já vivi bastante. Eu já conheci bastante. Agora é necessário que esse oceano exploda em meu peito. O amor—não mais para fora, mas para dentro.
Mas estou me esforçando muito, profissionalizando meu silêncio.
Vejo aquelas mulheres tão compenetradas diante da gôndola do mercado e ao mesmo tempo tão esquivas ao olhar alheio, tenho vontade de dizer a elas—agora eu também sinto isso. Como um monge que encontra pela primeira vez aquela passagem secreta no labirinto da abadia. Não digo para ninguém essas coisas, não posso dividir com ninguém.
Todos os anos que Camille Claudel passou no hospício já se passaram (sabe-se lá medidos por qual relógio). Os anos de Hölderlin também já se passaram. Artaud já não existe mais. Tudo passa. Minha vida logo também não será mais nada.
Mas o que não é sempre não é nunca?
(Vejo os rostos sorridentes e ternos dos meus pais acenando o aceno de despedida para seu filho antes de desaparecerem para nunca mais nas trevas)
O meu tempo é uma colcha de retalhos. Em círculos revolvo os meus dias pelos mesmos lugares, os mesmos rostos se acendem e se apagam, vêm e vão, em intervalos—até que um dia deixam de surgir ou são substituídos por outros rostos, outros lugares. Retalhos raramente alinhados, costurados aqui e ali, e para sempre finitos.
I’m cooking
Se é verdade que a velhice chega pelas pernas, eu há muito já convivo com ela—latejando.
Ando pelas ruas observando as pessoas, seus traços. Como eram há 20 anos, como serão em 20 anos. O corpo em constante transformação.
Intestinos. O que passa pela mente. O que passa pelo corpo. O sistema digestivo—dejetos, pensamentos, palavras. Quem sou, quem fomos? A memória toda esfarrapada.
A explosão no aqui e agora.
As mulheres lindas da juventude estão ficando velhas, parecidas com suas mães: barrigas, seios e nádegas caídas. Idéias tolas e convencionais. As jovens encantadoras vão ficar assim, também. O mistério se esvazia, o encanto se desfaz.
(Algumas se tornaram mais belas, teria valido a pena esperar por elas—o ouro peneirado entre mica, areia e água).
E isso vale para mim, também: o olhar ferino das mulheres (que eu achava natural, inconsciente do meu charme) já não acontece mais
Sou enfim um corpo neutro
outro
Did you pay a lot for your furniture?
Eu não paguei muito pelos meus móveis.
Eu não paguei nada pelos meus móveis.
Meus parcos móveis são e sempre foram esses cacos doados
por amigos ocasionais.
Sempre habitei uma tenda.
O que eu gosto mesmo é de habitar uma tenda no deserto.
Nômade.
Meu trabalho é um móvel velho.
Minha poesia é um móvel.
Descartáveis.
Uma vida descartável.
Tirar-se a vida como se tira uma calça.
Ah, o deserto.
A árvore da vida enraíza-se por dentro.
750
Renato Rezende
[Furniture]
Vamos para os Alpes franceses na primavera? Vamos para a França nos tempos medievais? Vamos nos deitar na grama, entre rosas, tendo um castelo ao fundo e suaves nuvens sobre nós?
Eu já vivi bastante. Eu já conheci bastante. Agora é necessário que esse oceano exploda em meu peito. O amor—não mais para fora, mas para dentro.
Mas estou me esforçando muito, profissionalizando meu silêncio.
Vejo aquelas mulheres tão compenetradas diante da gôndola do mercado e ao mesmo tempo tão esquivas ao olhar alheio, tenho vontade de dizer a elas—agora eu também sinto isso. Como um monge que encontra pela primeira vez aquela passagem secreta no labirinto da abadia. Não digo para ninguém essas coisas, não posso dividir com ninguém.
Todos os anos que Camille Claudel passou no hospício já se passaram (sabe-se lá medidos por qual relógio). Os anos de Hölderlin também já se passaram. Artaud já não existe mais. Tudo passa. Minha vida logo também não será mais nada.
Mas o que não é sempre não é nunca?
(Vejo os rostos sorridentes e ternos dos meus pais acenando o aceno de despedida para seu filho antes de desaparecerem para nunca mais nas trevas)
O meu tempo é uma colcha de retalhos. Em círculos revolvo os meus dias pelos mesmos lugares, os mesmos rostos se acendem e se apagam, vêm e vão, em intervalos—até que um dia deixam de surgir ou são substituídos por outros rostos, outros lugares. Retalhos raramente alinhados, costurados aqui e ali, e para sempre finitos.
I’m cooking
Se é verdade que a velhice chega pelas pernas, eu há muito já convivo com ela—latejando.
Ando pelas ruas observando as pessoas, seus traços. Como eram há 20 anos, como serão em 20 anos. O corpo em constante transformação.
Intestinos. O que passa pela mente. O que passa pelo corpo. O sistema digestivo—dejetos, pensamentos, palavras. Quem sou, quem fomos? A memória toda esfarrapada.
A explosão no aqui e agora.
As mulheres lindas da juventude estão ficando velhas, parecidas com suas mães: barrigas, seios e nádegas caídas. Idéias tolas e convencionais. As jovens encantadoras vão ficar assim, também. O mistério se esvazia, o encanto se desfaz.
(Algumas se tornaram mais belas, teria valido a pena esperar por elas—o ouro peneirado entre mica, areia e água).
E isso vale para mim, também: o olhar ferino das mulheres (que eu achava natural, inconsciente do meu charme) já não acontece mais
Sou enfim um corpo neutro
outro
Did you pay a lot for your furniture?
Eu não paguei muito pelos meus móveis.
Eu não paguei nada pelos meus móveis.
Meus parcos móveis são e sempre foram esses cacos doados
por amigos ocasionais.
Sempre habitei uma tenda.
O que eu gosto mesmo é de habitar uma tenda no deserto.
Nômade.
Meu trabalho é um móvel velho.
Minha poesia é um móvel.
Descartáveis.
Uma vida descartável.
Tirar-se a vida como se tira uma calça.
Ah, o deserto.
A árvore da vida enraíza-se por dentro.
Eu já vivi bastante. Eu já conheci bastante. Agora é necessário que esse oceano exploda em meu peito. O amor—não mais para fora, mas para dentro.
Mas estou me esforçando muito, profissionalizando meu silêncio.
Vejo aquelas mulheres tão compenetradas diante da gôndola do mercado e ao mesmo tempo tão esquivas ao olhar alheio, tenho vontade de dizer a elas—agora eu também sinto isso. Como um monge que encontra pela primeira vez aquela passagem secreta no labirinto da abadia. Não digo para ninguém essas coisas, não posso dividir com ninguém.
Todos os anos que Camille Claudel passou no hospício já se passaram (sabe-se lá medidos por qual relógio). Os anos de Hölderlin também já se passaram. Artaud já não existe mais. Tudo passa. Minha vida logo também não será mais nada.
Mas o que não é sempre não é nunca?
(Vejo os rostos sorridentes e ternos dos meus pais acenando o aceno de despedida para seu filho antes de desaparecerem para nunca mais nas trevas)
O meu tempo é uma colcha de retalhos. Em círculos revolvo os meus dias pelos mesmos lugares, os mesmos rostos se acendem e se apagam, vêm e vão, em intervalos—até que um dia deixam de surgir ou são substituídos por outros rostos, outros lugares. Retalhos raramente alinhados, costurados aqui e ali, e para sempre finitos.
I’m cooking
Se é verdade que a velhice chega pelas pernas, eu há muito já convivo com ela—latejando.
Ando pelas ruas observando as pessoas, seus traços. Como eram há 20 anos, como serão em 20 anos. O corpo em constante transformação.
Intestinos. O que passa pela mente. O que passa pelo corpo. O sistema digestivo—dejetos, pensamentos, palavras. Quem sou, quem fomos? A memória toda esfarrapada.
A explosão no aqui e agora.
As mulheres lindas da juventude estão ficando velhas, parecidas com suas mães: barrigas, seios e nádegas caídas. Idéias tolas e convencionais. As jovens encantadoras vão ficar assim, também. O mistério se esvazia, o encanto se desfaz.
(Algumas se tornaram mais belas, teria valido a pena esperar por elas—o ouro peneirado entre mica, areia e água).
E isso vale para mim, também: o olhar ferino das mulheres (que eu achava natural, inconsciente do meu charme) já não acontece mais
Sou enfim um corpo neutro
outro
Did you pay a lot for your furniture?
Eu não paguei muito pelos meus móveis.
Eu não paguei nada pelos meus móveis.
Meus parcos móveis são e sempre foram esses cacos doados
por amigos ocasionais.
Sempre habitei uma tenda.
O que eu gosto mesmo é de habitar uma tenda no deserto.
Nômade.
Meu trabalho é um móvel velho.
Minha poesia é um móvel.
Descartáveis.
Uma vida descartável.
Tirar-se a vida como se tira uma calça.
Ah, o deserto.
A árvore da vida enraíza-se por dentro.
750
Renato Rezende
[Furniture]
Vamos para os Alpes franceses na primavera? Vamos para a França nos tempos medievais? Vamos nos deitar na grama, entre rosas, tendo um castelo ao fundo e suaves nuvens sobre nós?
Eu já vivi bastante. Eu já conheci bastante. Agora é necessário que esse oceano exploda em meu peito. O amor—não mais para fora, mas para dentro.
Mas estou me esforçando muito, profissionalizando meu silêncio.
Vejo aquelas mulheres tão compenetradas diante da gôndola do mercado e ao mesmo tempo tão esquivas ao olhar alheio, tenho vontade de dizer a elas—agora eu também sinto isso. Como um monge que encontra pela primeira vez aquela passagem secreta no labirinto da abadia. Não digo para ninguém essas coisas, não posso dividir com ninguém.
Todos os anos que Camille Claudel passou no hospício já se passaram (sabe-se lá medidos por qual relógio). Os anos de Hölderlin também já se passaram. Artaud já não existe mais. Tudo passa. Minha vida logo também não será mais nada.
Mas o que não é sempre não é nunca?
(Vejo os rostos sorridentes e ternos dos meus pais acenando o aceno de despedida para seu filho antes de desaparecerem para nunca mais nas trevas)
O meu tempo é uma colcha de retalhos. Em círculos revolvo os meus dias pelos mesmos lugares, os mesmos rostos se acendem e se apagam, vêm e vão, em intervalos—até que um dia deixam de surgir ou são substituídos por outros rostos, outros lugares. Retalhos raramente alinhados, costurados aqui e ali, e para sempre finitos.
I’m cooking
Se é verdade que a velhice chega pelas pernas, eu há muito já convivo com ela—latejando.
Ando pelas ruas observando as pessoas, seus traços. Como eram há 20 anos, como serão em 20 anos. O corpo em constante transformação.
Intestinos. O que passa pela mente. O que passa pelo corpo. O sistema digestivo—dejetos, pensamentos, palavras. Quem sou, quem fomos? A memória toda esfarrapada.
A explosão no aqui e agora.
As mulheres lindas da juventude estão ficando velhas, parecidas com suas mães: barrigas, seios e nádegas caídas. Idéias tolas e convencionais. As jovens encantadoras vão ficar assim, também. O mistério se esvazia, o encanto se desfaz.
(Algumas se tornaram mais belas, teria valido a pena esperar por elas—o ouro peneirado entre mica, areia e água).
E isso vale para mim, também: o olhar ferino das mulheres (que eu achava natural, inconsciente do meu charme) já não acontece mais
Sou enfim um corpo neutro
outro
Did you pay a lot for your furniture?
Eu não paguei muito pelos meus móveis.
Eu não paguei nada pelos meus móveis.
Meus parcos móveis são e sempre foram esses cacos doados
por amigos ocasionais.
Sempre habitei uma tenda.
O que eu gosto mesmo é de habitar uma tenda no deserto.
Nômade.
Meu trabalho é um móvel velho.
Minha poesia é um móvel.
Descartáveis.
Uma vida descartável.
Tirar-se a vida como se tira uma calça.
Ah, o deserto.
A árvore da vida enraíza-se por dentro.
Eu já vivi bastante. Eu já conheci bastante. Agora é necessário que esse oceano exploda em meu peito. O amor—não mais para fora, mas para dentro.
Mas estou me esforçando muito, profissionalizando meu silêncio.
Vejo aquelas mulheres tão compenetradas diante da gôndola do mercado e ao mesmo tempo tão esquivas ao olhar alheio, tenho vontade de dizer a elas—agora eu também sinto isso. Como um monge que encontra pela primeira vez aquela passagem secreta no labirinto da abadia. Não digo para ninguém essas coisas, não posso dividir com ninguém.
Todos os anos que Camille Claudel passou no hospício já se passaram (sabe-se lá medidos por qual relógio). Os anos de Hölderlin também já se passaram. Artaud já não existe mais. Tudo passa. Minha vida logo também não será mais nada.
Mas o que não é sempre não é nunca?
(Vejo os rostos sorridentes e ternos dos meus pais acenando o aceno de despedida para seu filho antes de desaparecerem para nunca mais nas trevas)
O meu tempo é uma colcha de retalhos. Em círculos revolvo os meus dias pelos mesmos lugares, os mesmos rostos se acendem e se apagam, vêm e vão, em intervalos—até que um dia deixam de surgir ou são substituídos por outros rostos, outros lugares. Retalhos raramente alinhados, costurados aqui e ali, e para sempre finitos.
I’m cooking
Se é verdade que a velhice chega pelas pernas, eu há muito já convivo com ela—latejando.
Ando pelas ruas observando as pessoas, seus traços. Como eram há 20 anos, como serão em 20 anos. O corpo em constante transformação.
Intestinos. O que passa pela mente. O que passa pelo corpo. O sistema digestivo—dejetos, pensamentos, palavras. Quem sou, quem fomos? A memória toda esfarrapada.
A explosão no aqui e agora.
As mulheres lindas da juventude estão ficando velhas, parecidas com suas mães: barrigas, seios e nádegas caídas. Idéias tolas e convencionais. As jovens encantadoras vão ficar assim, também. O mistério se esvazia, o encanto se desfaz.
(Algumas se tornaram mais belas, teria valido a pena esperar por elas—o ouro peneirado entre mica, areia e água).
E isso vale para mim, também: o olhar ferino das mulheres (que eu achava natural, inconsciente do meu charme) já não acontece mais
Sou enfim um corpo neutro
outro
Did you pay a lot for your furniture?
Eu não paguei muito pelos meus móveis.
Eu não paguei nada pelos meus móveis.
Meus parcos móveis são e sempre foram esses cacos doados
por amigos ocasionais.
Sempre habitei uma tenda.
O que eu gosto mesmo é de habitar uma tenda no deserto.
Nômade.
Meu trabalho é um móvel velho.
Minha poesia é um móvel.
Descartáveis.
Uma vida descartável.
Tirar-se a vida como se tira uma calça.
Ah, o deserto.
A árvore da vida enraíza-se por dentro.
750
Renato Rezende
[Furniture]
Vamos para os Alpes franceses na primavera? Vamos para a França nos tempos medievais? Vamos nos deitar na grama, entre rosas, tendo um castelo ao fundo e suaves nuvens sobre nós?
Eu já vivi bastante. Eu já conheci bastante. Agora é necessário que esse oceano exploda em meu peito. O amor—não mais para fora, mas para dentro.
Mas estou me esforçando muito, profissionalizando meu silêncio.
Vejo aquelas mulheres tão compenetradas diante da gôndola do mercado e ao mesmo tempo tão esquivas ao olhar alheio, tenho vontade de dizer a elas—agora eu também sinto isso. Como um monge que encontra pela primeira vez aquela passagem secreta no labirinto da abadia. Não digo para ninguém essas coisas, não posso dividir com ninguém.
Todos os anos que Camille Claudel passou no hospício já se passaram (sabe-se lá medidos por qual relógio). Os anos de Hölderlin também já se passaram. Artaud já não existe mais. Tudo passa. Minha vida logo também não será mais nada.
Mas o que não é sempre não é nunca?
(Vejo os rostos sorridentes e ternos dos meus pais acenando o aceno de despedida para seu filho antes de desaparecerem para nunca mais nas trevas)
O meu tempo é uma colcha de retalhos. Em círculos revolvo os meus dias pelos mesmos lugares, os mesmos rostos se acendem e se apagam, vêm e vão, em intervalos—até que um dia deixam de surgir ou são substituídos por outros rostos, outros lugares. Retalhos raramente alinhados, costurados aqui e ali, e para sempre finitos.
I’m cooking
Se é verdade que a velhice chega pelas pernas, eu há muito já convivo com ela—latejando.
Ando pelas ruas observando as pessoas, seus traços. Como eram há 20 anos, como serão em 20 anos. O corpo em constante transformação.
Intestinos. O que passa pela mente. O que passa pelo corpo. O sistema digestivo—dejetos, pensamentos, palavras. Quem sou, quem fomos? A memória toda esfarrapada.
A explosão no aqui e agora.
As mulheres lindas da juventude estão ficando velhas, parecidas com suas mães: barrigas, seios e nádegas caídas. Idéias tolas e convencionais. As jovens encantadoras vão ficar assim, também. O mistério se esvazia, o encanto se desfaz.
(Algumas se tornaram mais belas, teria valido a pena esperar por elas—o ouro peneirado entre mica, areia e água).
E isso vale para mim, também: o olhar ferino das mulheres (que eu achava natural, inconsciente do meu charme) já não acontece mais
Sou enfim um corpo neutro
outro
Did you pay a lot for your furniture?
Eu não paguei muito pelos meus móveis.
Eu não paguei nada pelos meus móveis.
Meus parcos móveis são e sempre foram esses cacos doados
por amigos ocasionais.
Sempre habitei uma tenda.
O que eu gosto mesmo é de habitar uma tenda no deserto.
Nômade.
Meu trabalho é um móvel velho.
Minha poesia é um móvel.
Descartáveis.
Uma vida descartável.
Tirar-se a vida como se tira uma calça.
Ah, o deserto.
A árvore da vida enraíza-se por dentro.
Eu já vivi bastante. Eu já conheci bastante. Agora é necessário que esse oceano exploda em meu peito. O amor—não mais para fora, mas para dentro.
Mas estou me esforçando muito, profissionalizando meu silêncio.
Vejo aquelas mulheres tão compenetradas diante da gôndola do mercado e ao mesmo tempo tão esquivas ao olhar alheio, tenho vontade de dizer a elas—agora eu também sinto isso. Como um monge que encontra pela primeira vez aquela passagem secreta no labirinto da abadia. Não digo para ninguém essas coisas, não posso dividir com ninguém.
Todos os anos que Camille Claudel passou no hospício já se passaram (sabe-se lá medidos por qual relógio). Os anos de Hölderlin também já se passaram. Artaud já não existe mais. Tudo passa. Minha vida logo também não será mais nada.
Mas o que não é sempre não é nunca?
(Vejo os rostos sorridentes e ternos dos meus pais acenando o aceno de despedida para seu filho antes de desaparecerem para nunca mais nas trevas)
O meu tempo é uma colcha de retalhos. Em círculos revolvo os meus dias pelos mesmos lugares, os mesmos rostos se acendem e se apagam, vêm e vão, em intervalos—até que um dia deixam de surgir ou são substituídos por outros rostos, outros lugares. Retalhos raramente alinhados, costurados aqui e ali, e para sempre finitos.
I’m cooking
Se é verdade que a velhice chega pelas pernas, eu há muito já convivo com ela—latejando.
Ando pelas ruas observando as pessoas, seus traços. Como eram há 20 anos, como serão em 20 anos. O corpo em constante transformação.
Intestinos. O que passa pela mente. O que passa pelo corpo. O sistema digestivo—dejetos, pensamentos, palavras. Quem sou, quem fomos? A memória toda esfarrapada.
A explosão no aqui e agora.
As mulheres lindas da juventude estão ficando velhas, parecidas com suas mães: barrigas, seios e nádegas caídas. Idéias tolas e convencionais. As jovens encantadoras vão ficar assim, também. O mistério se esvazia, o encanto se desfaz.
(Algumas se tornaram mais belas, teria valido a pena esperar por elas—o ouro peneirado entre mica, areia e água).
E isso vale para mim, também: o olhar ferino das mulheres (que eu achava natural, inconsciente do meu charme) já não acontece mais
Sou enfim um corpo neutro
outro
Did you pay a lot for your furniture?
Eu não paguei muito pelos meus móveis.
Eu não paguei nada pelos meus móveis.
Meus parcos móveis são e sempre foram esses cacos doados
por amigos ocasionais.
Sempre habitei uma tenda.
O que eu gosto mesmo é de habitar uma tenda no deserto.
Nômade.
Meu trabalho é um móvel velho.
Minha poesia é um móvel.
Descartáveis.
Uma vida descartável.
Tirar-se a vida como se tira uma calça.
Ah, o deserto.
A árvore da vida enraíza-se por dentro.
750
Renato Rezende
[Furniture]
Vamos para os Alpes franceses na primavera? Vamos para a França nos tempos medievais? Vamos nos deitar na grama, entre rosas, tendo um castelo ao fundo e suaves nuvens sobre nós?
Eu já vivi bastante. Eu já conheci bastante. Agora é necessário que esse oceano exploda em meu peito. O amor—não mais para fora, mas para dentro.
Mas estou me esforçando muito, profissionalizando meu silêncio.
Vejo aquelas mulheres tão compenetradas diante da gôndola do mercado e ao mesmo tempo tão esquivas ao olhar alheio, tenho vontade de dizer a elas—agora eu também sinto isso. Como um monge que encontra pela primeira vez aquela passagem secreta no labirinto da abadia. Não digo para ninguém essas coisas, não posso dividir com ninguém.
Todos os anos que Camille Claudel passou no hospício já se passaram (sabe-se lá medidos por qual relógio). Os anos de Hölderlin também já se passaram. Artaud já não existe mais. Tudo passa. Minha vida logo também não será mais nada.
Mas o que não é sempre não é nunca?
(Vejo os rostos sorridentes e ternos dos meus pais acenando o aceno de despedida para seu filho antes de desaparecerem para nunca mais nas trevas)
O meu tempo é uma colcha de retalhos. Em círculos revolvo os meus dias pelos mesmos lugares, os mesmos rostos se acendem e se apagam, vêm e vão, em intervalos—até que um dia deixam de surgir ou são substituídos por outros rostos, outros lugares. Retalhos raramente alinhados, costurados aqui e ali, e para sempre finitos.
I’m cooking
Se é verdade que a velhice chega pelas pernas, eu há muito já convivo com ela—latejando.
Ando pelas ruas observando as pessoas, seus traços. Como eram há 20 anos, como serão em 20 anos. O corpo em constante transformação.
Intestinos. O que passa pela mente. O que passa pelo corpo. O sistema digestivo—dejetos, pensamentos, palavras. Quem sou, quem fomos? A memória toda esfarrapada.
A explosão no aqui e agora.
As mulheres lindas da juventude estão ficando velhas, parecidas com suas mães: barrigas, seios e nádegas caídas. Idéias tolas e convencionais. As jovens encantadoras vão ficar assim, também. O mistério se esvazia, o encanto se desfaz.
(Algumas se tornaram mais belas, teria valido a pena esperar por elas—o ouro peneirado entre mica, areia e água).
E isso vale para mim, também: o olhar ferino das mulheres (que eu achava natural, inconsciente do meu charme) já não acontece mais
Sou enfim um corpo neutro
outro
Did you pay a lot for your furniture?
Eu não paguei muito pelos meus móveis.
Eu não paguei nada pelos meus móveis.
Meus parcos móveis são e sempre foram esses cacos doados
por amigos ocasionais.
Sempre habitei uma tenda.
O que eu gosto mesmo é de habitar uma tenda no deserto.
Nômade.
Meu trabalho é um móvel velho.
Minha poesia é um móvel.
Descartáveis.
Uma vida descartável.
Tirar-se a vida como se tira uma calça.
Ah, o deserto.
A árvore da vida enraíza-se por dentro.
Eu já vivi bastante. Eu já conheci bastante. Agora é necessário que esse oceano exploda em meu peito. O amor—não mais para fora, mas para dentro.
Mas estou me esforçando muito, profissionalizando meu silêncio.
Vejo aquelas mulheres tão compenetradas diante da gôndola do mercado e ao mesmo tempo tão esquivas ao olhar alheio, tenho vontade de dizer a elas—agora eu também sinto isso. Como um monge que encontra pela primeira vez aquela passagem secreta no labirinto da abadia. Não digo para ninguém essas coisas, não posso dividir com ninguém.
Todos os anos que Camille Claudel passou no hospício já se passaram (sabe-se lá medidos por qual relógio). Os anos de Hölderlin também já se passaram. Artaud já não existe mais. Tudo passa. Minha vida logo também não será mais nada.
Mas o que não é sempre não é nunca?
(Vejo os rostos sorridentes e ternos dos meus pais acenando o aceno de despedida para seu filho antes de desaparecerem para nunca mais nas trevas)
O meu tempo é uma colcha de retalhos. Em círculos revolvo os meus dias pelos mesmos lugares, os mesmos rostos se acendem e se apagam, vêm e vão, em intervalos—até que um dia deixam de surgir ou são substituídos por outros rostos, outros lugares. Retalhos raramente alinhados, costurados aqui e ali, e para sempre finitos.
I’m cooking
Se é verdade que a velhice chega pelas pernas, eu há muito já convivo com ela—latejando.
Ando pelas ruas observando as pessoas, seus traços. Como eram há 20 anos, como serão em 20 anos. O corpo em constante transformação.
Intestinos. O que passa pela mente. O que passa pelo corpo. O sistema digestivo—dejetos, pensamentos, palavras. Quem sou, quem fomos? A memória toda esfarrapada.
A explosão no aqui e agora.
As mulheres lindas da juventude estão ficando velhas, parecidas com suas mães: barrigas, seios e nádegas caídas. Idéias tolas e convencionais. As jovens encantadoras vão ficar assim, também. O mistério se esvazia, o encanto se desfaz.
(Algumas se tornaram mais belas, teria valido a pena esperar por elas—o ouro peneirado entre mica, areia e água).
E isso vale para mim, também: o olhar ferino das mulheres (que eu achava natural, inconsciente do meu charme) já não acontece mais
Sou enfim um corpo neutro
outro
Did you pay a lot for your furniture?
Eu não paguei muito pelos meus móveis.
Eu não paguei nada pelos meus móveis.
Meus parcos móveis são e sempre foram esses cacos doados
por amigos ocasionais.
Sempre habitei uma tenda.
O que eu gosto mesmo é de habitar uma tenda no deserto.
Nômade.
Meu trabalho é um móvel velho.
Minha poesia é um móvel.
Descartáveis.
Uma vida descartável.
Tirar-se a vida como se tira uma calça.
Ah, o deserto.
A árvore da vida enraíza-se por dentro.
750