Poemas neste tema
Vida e Existência
Matilde Campilho
I´Ll Have What She´S Having
nunca vou ser bom para ti
quero dizer
i talk to you for 5 hours
and then i can’t sleep
vejo a meg ryan
and then i can’t sleep
sou a cara do billy crystal
and then i can’t sleep
isto aqui não é manhattan
and then i can’t sleep
acho que o teu corte
de cabelo faz lembrar
vagalumes no sangue
do menino Emanuel
que como eu disse
era feito de veias
perfume e ossos
campo elétrico uniforme
i talk to you for 5 hours
sobre genética divina
sobre genética humana
sobre jejum e urologia
and then i can’t sleep
porque fico pensando
em Deus no filho de Deus
nos filhos de Deus
nos cachos amarelados
nas camisas de colarinho blue
no espadachim do anjo torto
na estrada para Umbaúba
na barraquinha de
frankfurters and rolls
and then i lose my glasses
and then i can’t sleep
e tenho o rosto coberto de pó
quero dizer
i talk to you for 5 hours
and then i can’t sleep
vejo a meg ryan
and then i can’t sleep
sou a cara do billy crystal
and then i can’t sleep
isto aqui não é manhattan
and then i can’t sleep
acho que o teu corte
de cabelo faz lembrar
vagalumes no sangue
do menino Emanuel
que como eu disse
era feito de veias
perfume e ossos
campo elétrico uniforme
i talk to you for 5 hours
sobre genética divina
sobre genética humana
sobre jejum e urologia
and then i can’t sleep
porque fico pensando
em Deus no filho de Deus
nos filhos de Deus
nos cachos amarelados
nas camisas de colarinho blue
no espadachim do anjo torto
na estrada para Umbaúba
na barraquinha de
frankfurters and rolls
and then i lose my glasses
and then i can’t sleep
e tenho o rosto coberto de pó
1 002
Matilde Campilho
Desmembramento de Um Semicírculo
Certo que nos dedicamos
a místicas peregrinações.
Exercitamos a respiração,
lutamos brigas orientais,
praticamos uma e sete vezes
a tradução do poema chileno.
Mas no fundo sabemos
que o que importa mesmo
é roçar a superfície negra
da pele do peito do anjo
que está vivo
que não dorme.
a místicas peregrinações.
Exercitamos a respiração,
lutamos brigas orientais,
praticamos uma e sete vezes
a tradução do poema chileno.
Mas no fundo sabemos
que o que importa mesmo
é roçar a superfície negra
da pele do peito do anjo
que está vivo
que não dorme.
1 074
Matilde Campilho
Desmembramento de Um Semicírculo
Certo que nos dedicamos
a místicas peregrinações.
Exercitamos a respiração,
lutamos brigas orientais,
praticamos uma e sete vezes
a tradução do poema chileno.
Mas no fundo sabemos
que o que importa mesmo
é roçar a superfície negra
da pele do peito do anjo
que está vivo
que não dorme.
a místicas peregrinações.
Exercitamos a respiração,
lutamos brigas orientais,
praticamos uma e sete vezes
a tradução do poema chileno.
Mas no fundo sabemos
que o que importa mesmo
é roçar a superfície negra
da pele do peito do anjo
que está vivo
que não dorme.
1 074
Pero da Ponte
De [Dom] Fernam Diaz Estaturão
De [Dom] Fernam Diaz Estaturão
oí dizer novas, de que mi praz:
que é home que muito por Deus faz
e se quer ora meter ermitão;
e fará bom feito, se o fezer;
de mais, nunca lh'home soube molher
des que nasceu, tant'é de bom cristão.
Este tem o Paraís'en[a] mão,
que sempr[e] amou, com sem cristão, paz;
nem nunc'amou molher nem seu solaz,
nem desamou fidalgo nem vilão;
e mais vos [en] direi, se vos prouguer:
nunca molher amou, nem quis nem quer,
pero cata, falagueir'e loução.
E [em] tam bõo dia foi [el] nado
que tam bem soub'o pecad'enganar,
que nunca por molher rem [nom] quis dar,
e pero mete-s'el por namorado;
e os que o nom conhocemos bem
cuidamos del que folia mantém,
mais el d'haver molher nom é pensado.
Que se hoj'el foss[e] empardẽado,
nem se saberia melhor guardar
de nunca já com molher albergar,
por nom se riir [i] del o pecado,
ca nunca deu por molher nulha rem;
e pero vedes: se o vir alguém,
terrá que morre por seer casado.
E pois [s']em tal castidade mantém,
quand'el morrer, direi-vos ũa rem:
"Beati Oculi" será chamado.
oí dizer novas, de que mi praz:
que é home que muito por Deus faz
e se quer ora meter ermitão;
e fará bom feito, se o fezer;
de mais, nunca lh'home soube molher
des que nasceu, tant'é de bom cristão.
Este tem o Paraís'en[a] mão,
que sempr[e] amou, com sem cristão, paz;
nem nunc'amou molher nem seu solaz,
nem desamou fidalgo nem vilão;
e mais vos [en] direi, se vos prouguer:
nunca molher amou, nem quis nem quer,
pero cata, falagueir'e loução.
E [em] tam bõo dia foi [el] nado
que tam bem soub'o pecad'enganar,
que nunca por molher rem [nom] quis dar,
e pero mete-s'el por namorado;
e os que o nom conhocemos bem
cuidamos del que folia mantém,
mais el d'haver molher nom é pensado.
Que se hoj'el foss[e] empardẽado,
nem se saberia melhor guardar
de nunca já com molher albergar,
por nom se riir [i] del o pecado,
ca nunca deu por molher nulha rem;
e pero vedes: se o vir alguém,
terrá que morre por seer casado.
E pois [s']em tal castidade mantém,
quand'el morrer, direi-vos ũa rem:
"Beati Oculi" será chamado.
342
Matilde Campilho
O Aparecimento Das Caveiras No Lençol da Via Láctea
Minha cara está se envelhecendo
antes de mim
Reconheço meus deuses
e se supõe que Jonas
também tenha reconhecido a baleia
antes da grande meditação
antes do grande silêncio
ou antes de escavar
a costela de sal
Pratico mergulho-prego
desde a rocha mais alta
como é próprio da estação
E antes do salto
sempre peço a Deus
que a guerra não me seja
de todo indiferente
Porque foi assim
que me ensinou a santa
Foi assim que me segredou
a estrada de fogo
da oitava região
Há uma seleção de catástrofes
se apresentando firmes
Coisas do tipo
A figura da menina russa
que passa no parquinho
acenando 3 pêssegos
dentro da bolsa de plástico
Como se fosse um arqueiro
fazendo show-off
de suas setas douradas
no fio solar de Agosto
Minha cara está marcada
por revoluções e iodo
por estilhaços de cobre
e pelo silêncio profundo
de los angelitos negros
à hora do café com açúcar
Carrego nas costas
a espada de plástico
que corta o friso nublado
entre signo e ascendente
Sim eu me aproximo
cada vez mais de meu ascendente
enquando faço pazes com meu sol
Reconheço meus heróis
aqueles que vieram antes
e os que virão mais tarde
Recorto suas descobertas
mas pelo sim pelo não
ainda guardo em meu bolso
a nota de cinco dólares
que me ofereceu o nômade
que cantava no deserto.
antes de mim
Reconheço meus deuses
e se supõe que Jonas
também tenha reconhecido a baleia
antes da grande meditação
antes do grande silêncio
ou antes de escavar
a costela de sal
Pratico mergulho-prego
desde a rocha mais alta
como é próprio da estação
E antes do salto
sempre peço a Deus
que a guerra não me seja
de todo indiferente
Porque foi assim
que me ensinou a santa
Foi assim que me segredou
a estrada de fogo
da oitava região
Há uma seleção de catástrofes
se apresentando firmes
Coisas do tipo
A figura da menina russa
que passa no parquinho
acenando 3 pêssegos
dentro da bolsa de plástico
Como se fosse um arqueiro
fazendo show-off
de suas setas douradas
no fio solar de Agosto
Minha cara está marcada
por revoluções e iodo
por estilhaços de cobre
e pelo silêncio profundo
de los angelitos negros
à hora do café com açúcar
Carrego nas costas
a espada de plástico
que corta o friso nublado
entre signo e ascendente
Sim eu me aproximo
cada vez mais de meu ascendente
enquando faço pazes com meu sol
Reconheço meus heróis
aqueles que vieram antes
e os que virão mais tarde
Recorto suas descobertas
mas pelo sim pelo não
ainda guardo em meu bolso
a nota de cinco dólares
que me ofereceu o nômade
que cantava no deserto.
1 030
Matilde Campilho
O Aparecimento Das Caveiras No Lençol da Via Láctea
Minha cara está se envelhecendo
antes de mim
Reconheço meus deuses
e se supõe que Jonas
também tenha reconhecido a baleia
antes da grande meditação
antes do grande silêncio
ou antes de escavar
a costela de sal
Pratico mergulho-prego
desde a rocha mais alta
como é próprio da estação
E antes do salto
sempre peço a Deus
que a guerra não me seja
de todo indiferente
Porque foi assim
que me ensinou a santa
Foi assim que me segredou
a estrada de fogo
da oitava região
Há uma seleção de catástrofes
se apresentando firmes
Coisas do tipo
A figura da menina russa
que passa no parquinho
acenando 3 pêssegos
dentro da bolsa de plástico
Como se fosse um arqueiro
fazendo show-off
de suas setas douradas
no fio solar de Agosto
Minha cara está marcada
por revoluções e iodo
por estilhaços de cobre
e pelo silêncio profundo
de los angelitos negros
à hora do café com açúcar
Carrego nas costas
a espada de plástico
que corta o friso nublado
entre signo e ascendente
Sim eu me aproximo
cada vez mais de meu ascendente
enquando faço pazes com meu sol
Reconheço meus heróis
aqueles que vieram antes
e os que virão mais tarde
Recorto suas descobertas
mas pelo sim pelo não
ainda guardo em meu bolso
a nota de cinco dólares
que me ofereceu o nômade
que cantava no deserto.
antes de mim
Reconheço meus deuses
e se supõe que Jonas
também tenha reconhecido a baleia
antes da grande meditação
antes do grande silêncio
ou antes de escavar
a costela de sal
Pratico mergulho-prego
desde a rocha mais alta
como é próprio da estação
E antes do salto
sempre peço a Deus
que a guerra não me seja
de todo indiferente
Porque foi assim
que me ensinou a santa
Foi assim que me segredou
a estrada de fogo
da oitava região
Há uma seleção de catástrofes
se apresentando firmes
Coisas do tipo
A figura da menina russa
que passa no parquinho
acenando 3 pêssegos
dentro da bolsa de plástico
Como se fosse um arqueiro
fazendo show-off
de suas setas douradas
no fio solar de Agosto
Minha cara está marcada
por revoluções e iodo
por estilhaços de cobre
e pelo silêncio profundo
de los angelitos negros
à hora do café com açúcar
Carrego nas costas
a espada de plástico
que corta o friso nublado
entre signo e ascendente
Sim eu me aproximo
cada vez mais de meu ascendente
enquando faço pazes com meu sol
Reconheço meus heróis
aqueles que vieram antes
e os que virão mais tarde
Recorto suas descobertas
mas pelo sim pelo não
ainda guardo em meu bolso
a nota de cinco dólares
que me ofereceu o nômade
que cantava no deserto.
1 030
Matilde Campilho
O Aparecimento Das Caveiras No Lençol da Via Láctea
Minha cara está se envelhecendo
antes de mim
Reconheço meus deuses
e se supõe que Jonas
também tenha reconhecido a baleia
antes da grande meditação
antes do grande silêncio
ou antes de escavar
a costela de sal
Pratico mergulho-prego
desde a rocha mais alta
como é próprio da estação
E antes do salto
sempre peço a Deus
que a guerra não me seja
de todo indiferente
Porque foi assim
que me ensinou a santa
Foi assim que me segredou
a estrada de fogo
da oitava região
Há uma seleção de catástrofes
se apresentando firmes
Coisas do tipo
A figura da menina russa
que passa no parquinho
acenando 3 pêssegos
dentro da bolsa de plástico
Como se fosse um arqueiro
fazendo show-off
de suas setas douradas
no fio solar de Agosto
Minha cara está marcada
por revoluções e iodo
por estilhaços de cobre
e pelo silêncio profundo
de los angelitos negros
à hora do café com açúcar
Carrego nas costas
a espada de plástico
que corta o friso nublado
entre signo e ascendente
Sim eu me aproximo
cada vez mais de meu ascendente
enquando faço pazes com meu sol
Reconheço meus heróis
aqueles que vieram antes
e os que virão mais tarde
Recorto suas descobertas
mas pelo sim pelo não
ainda guardo em meu bolso
a nota de cinco dólares
que me ofereceu o nômade
que cantava no deserto.
antes de mim
Reconheço meus deuses
e se supõe que Jonas
também tenha reconhecido a baleia
antes da grande meditação
antes do grande silêncio
ou antes de escavar
a costela de sal
Pratico mergulho-prego
desde a rocha mais alta
como é próprio da estação
E antes do salto
sempre peço a Deus
que a guerra não me seja
de todo indiferente
Porque foi assim
que me ensinou a santa
Foi assim que me segredou
a estrada de fogo
da oitava região
Há uma seleção de catástrofes
se apresentando firmes
Coisas do tipo
A figura da menina russa
que passa no parquinho
acenando 3 pêssegos
dentro da bolsa de plástico
Como se fosse um arqueiro
fazendo show-off
de suas setas douradas
no fio solar de Agosto
Minha cara está marcada
por revoluções e iodo
por estilhaços de cobre
e pelo silêncio profundo
de los angelitos negros
à hora do café com açúcar
Carrego nas costas
a espada de plástico
que corta o friso nublado
entre signo e ascendente
Sim eu me aproximo
cada vez mais de meu ascendente
enquando faço pazes com meu sol
Reconheço meus heróis
aqueles que vieram antes
e os que virão mais tarde
Recorto suas descobertas
mas pelo sim pelo não
ainda guardo em meu bolso
a nota de cinco dólares
que me ofereceu o nômade
que cantava no deserto.
1 030
Matilde Campilho
O Aparecimento Das Caveiras No Lençol da Via Láctea
Minha cara está se envelhecendo
antes de mim
Reconheço meus deuses
e se supõe que Jonas
também tenha reconhecido a baleia
antes da grande meditação
antes do grande silêncio
ou antes de escavar
a costela de sal
Pratico mergulho-prego
desde a rocha mais alta
como é próprio da estação
E antes do salto
sempre peço a Deus
que a guerra não me seja
de todo indiferente
Porque foi assim
que me ensinou a santa
Foi assim que me segredou
a estrada de fogo
da oitava região
Há uma seleção de catástrofes
se apresentando firmes
Coisas do tipo
A figura da menina russa
que passa no parquinho
acenando 3 pêssegos
dentro da bolsa de plástico
Como se fosse um arqueiro
fazendo show-off
de suas setas douradas
no fio solar de Agosto
Minha cara está marcada
por revoluções e iodo
por estilhaços de cobre
e pelo silêncio profundo
de los angelitos negros
à hora do café com açúcar
Carrego nas costas
a espada de plástico
que corta o friso nublado
entre signo e ascendente
Sim eu me aproximo
cada vez mais de meu ascendente
enquando faço pazes com meu sol
Reconheço meus heróis
aqueles que vieram antes
e os que virão mais tarde
Recorto suas descobertas
mas pelo sim pelo não
ainda guardo em meu bolso
a nota de cinco dólares
que me ofereceu o nômade
que cantava no deserto.
antes de mim
Reconheço meus deuses
e se supõe que Jonas
também tenha reconhecido a baleia
antes da grande meditação
antes do grande silêncio
ou antes de escavar
a costela de sal
Pratico mergulho-prego
desde a rocha mais alta
como é próprio da estação
E antes do salto
sempre peço a Deus
que a guerra não me seja
de todo indiferente
Porque foi assim
que me ensinou a santa
Foi assim que me segredou
a estrada de fogo
da oitava região
Há uma seleção de catástrofes
se apresentando firmes
Coisas do tipo
A figura da menina russa
que passa no parquinho
acenando 3 pêssegos
dentro da bolsa de plástico
Como se fosse um arqueiro
fazendo show-off
de suas setas douradas
no fio solar de Agosto
Minha cara está marcada
por revoluções e iodo
por estilhaços de cobre
e pelo silêncio profundo
de los angelitos negros
à hora do café com açúcar
Carrego nas costas
a espada de plástico
que corta o friso nublado
entre signo e ascendente
Sim eu me aproximo
cada vez mais de meu ascendente
enquando faço pazes com meu sol
Reconheço meus heróis
aqueles que vieram antes
e os que virão mais tarde
Recorto suas descobertas
mas pelo sim pelo não
ainda guardo em meu bolso
a nota de cinco dólares
que me ofereceu o nômade
que cantava no deserto.
1 030
Pero da Ponte
Marinha Foça Quis Saber
Marinha Foça quis saber
como lh'ia de parecer;
e fui-lh'eu log'assi dizer,
tanto que m'ela preguntou:
- Senhor, nom houver'a nacer
quem vos viu e vos desejou!
E bem vos podedes gabar
que vos nom sab'hoj'home par,
enas terras, de semelhar;
de mais diss'um, que vos catou,
que nom s'houver'a levantar
quem vos viu e vos desejou!
E pois parecedes assi,
tam negra ora vos eu vi,
que o meu cor sempre des i
nas vossas feituras cuidou;
e mal dia naceu por si
quem vos viu e vos desejou!
Mais que fará o pecador
que viu vós e vossa coor
e vos nom houv'a seu sabor?
Dizer-vo-lo-ei já, pois me vou:
irad'houve Nostro Senhor
quem vos viu e vos desejou!
como lh'ia de parecer;
e fui-lh'eu log'assi dizer,
tanto que m'ela preguntou:
- Senhor, nom houver'a nacer
quem vos viu e vos desejou!
E bem vos podedes gabar
que vos nom sab'hoj'home par,
enas terras, de semelhar;
de mais diss'um, que vos catou,
que nom s'houver'a levantar
quem vos viu e vos desejou!
E pois parecedes assi,
tam negra ora vos eu vi,
que o meu cor sempre des i
nas vossas feituras cuidou;
e mal dia naceu por si
quem vos viu e vos desejou!
Mais que fará o pecador
que viu vós e vossa coor
e vos nom houv'a seu sabor?
Dizer-vo-lo-ei já, pois me vou:
irad'houve Nostro Senhor
quem vos viu e vos desejou!
461
Matilde Campilho
Panteão Nacional
Mercúrio, meu cabrão:
Tu que alinhaste a melena
de ouro em jeito de aviso
à queda, que penteaste teu
cabelinho todo para trás
antecipando o encontro:
Não podias ter soltado
pelo menos um conselho?
Meu grandessíssimo filho
de um deus velho, seu
moleque mimado: não
dava pra, sei lá, escrever
recado nos anéis do vovô
ou enfiar à socapa uma
mensagem no mapa
topográfico de Alicante?
Qualquer coisa servia, M.
Tu que puxaste o lustro
às sandálias e às asas
das tuas sandálias, que
jeitaste o paletó de herói
e te lavaste os pés: tu já
sabias no que isso dava.
Meu grande sacana, tua
obrigação era subir na boca
e um megafone dourado
e dizer: «Cuidado rapaziada,
tenham atenção a esse nó
que acontece no estômago
no preciso momento em que
esperam por vosso amante
Tu que alinhaste a melena
de ouro em jeito de aviso
à queda, que penteaste teu
cabelinho todo para trás
antecipando o encontro:
Não podias ter soltado
pelo menos um conselho?
Meu grandessíssimo filho
de um deus velho, seu
moleque mimado: não
dava pra, sei lá, escrever
recado nos anéis do vovô
ou enfiar à socapa uma
mensagem no mapa
topográfico de Alicante?
Qualquer coisa servia, M.
Tu que puxaste o lustro
às sandálias e às asas
das tuas sandálias, que
jeitaste o paletó de herói
e te lavaste os pés: tu já
sabias no que isso dava.
Meu grande sacana, tua
obrigação era subir na boca
e um megafone dourado
e dizer: «Cuidado rapaziada,
tenham atenção a esse nó
que acontece no estômago
no preciso momento em que
esperam por vosso amante
1 094
Matilde Campilho
Piscinão Blue
the real reason why we never jumped into the pool was
well freddy never was a good jumper betty never was a
good sport aunt amy always talked about tea pots and
tea plates and spoons and her lost loving pomegranates
and dad kept drawing leopards on every wall of our house
please don’t ask about mom or mom’s dress made of flowers
made of silk made of every shade of desmond’s fears
little timmy sang a song about our only friend kazakalim
whose skin was dark whose blood was dim whose chest
was shiny as the wooded flute that father used to clean
every morning every midday every night and every dawn
as mother danced around the oak tree which surely did
contain a bird contain a whale contain a stack of all our tears
well freddy never was a good jumper betty never was a
good sport aunt amy always talked about tea pots and
tea plates and spoons and her lost loving pomegranates
and dad kept drawing leopards on every wall of our house
please don’t ask about mom or mom’s dress made of flowers
made of silk made of every shade of desmond’s fears
little timmy sang a song about our only friend kazakalim
whose skin was dark whose blood was dim whose chest
was shiny as the wooded flute that father used to clean
every morning every midday every night and every dawn
as mother danced around the oak tree which surely did
contain a bird contain a whale contain a stack of all our tears
1 205
Matilde Campilho
Piscinão Blue
the real reason why we never jumped into the pool was
well freddy never was a good jumper betty never was a
good sport aunt amy always talked about tea pots and
tea plates and spoons and her lost loving pomegranates
and dad kept drawing leopards on every wall of our house
please don’t ask about mom or mom’s dress made of flowers
made of silk made of every shade of desmond’s fears
little timmy sang a song about our only friend kazakalim
whose skin was dark whose blood was dim whose chest
was shiny as the wooded flute that father used to clean
every morning every midday every night and every dawn
as mother danced around the oak tree which surely did
contain a bird contain a whale contain a stack of all our tears
well freddy never was a good jumper betty never was a
good sport aunt amy always talked about tea pots and
tea plates and spoons and her lost loving pomegranates
and dad kept drawing leopards on every wall of our house
please don’t ask about mom or mom’s dress made of flowers
made of silk made of every shade of desmond’s fears
little timmy sang a song about our only friend kazakalim
whose skin was dark whose blood was dim whose chest
was shiny as the wooded flute that father used to clean
every morning every midday every night and every dawn
as mother danced around the oak tree which surely did
contain a bird contain a whale contain a stack of all our tears
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Matilde Campilho
Descrição da Cidade de Lisboa
A rapariga a pensar naquilo, a rapariga ao sol, menina a comer cachorro quente, menina a dançar na rua, rapariga do dedo no olho, do dedo na árvore. Rapariga de braços levantados, rapariga de pés baixos, rapariga a roer as unhas, rapariga a ler jornal, rapariga a beber um líquido chardonnay, rapariga no vão de escada, rapariga a levar na cara. Rapariga aflita, rapariga solta, rapariga abraçada, rapariga precisada. Rapariga a fumar charuto, rapariga a ler Forster, rapariga encostada na palmeira, rapariga a tocar piano. Rapariga sentada em Mercúrio ao lado de um leão, rapariga a ouvir discurso de Ghandi, rapariguinha do shopping. Rapariga feita de átomos e sombra. Rapariga de um ponto ao outro e medindo quarenta e dois centímetros, rapariga impávida, rapariga serena. Rapariga apaixonada por igreja quinhentista, rapariga na moto a trocar velocidades a mudar o jeito. Rapariga que oferece à visão o hábito da escuridão e depois logo se vê. Rapariga de ossos partidos, rapariga de óculos negros, rapariga de camisola em poliéster, rapariga debruçada na cadeira da frente no cinema, rapariga a querer ser Antonioni. Rapariga estável, rapariga de mentira, rapariga a tomar café em copo de plástico, rapariga orgulhosa, rapariga na proa da nau africana. A rapariga a cair no chão, rapariga de pó na cara, rapariga abstémia, rapariga evolucionista. Rapariga de rosto cortado pela faca de Alfama, rapariga a fugir de compromissos, rapariga a mandar o talhante à merda, rapariga a assobiar, rapariga meio louca. Rapariga a deslizar manteiga no pão, rapariga a coçar um cotovelo, rapariga de cabelo azul. Rapariga a brincar com um isqueiro no bolso, rapariga a brincar com um revólver nas calças, rapariga a nadar, rapariga molhada, rapariga a pedir uma chance só mais uma ao santo da cidade. Rapariga a ostentar decote no inverno, rapariga a olhar pelo canto do olho esquerdo, rapariga a ser homem, rapariga na cama. Rapariga a subir o volume, rapariga a querer ser Dylan, rapariga a cuspir no chão. A rapariga a girar a girar a girar a girar no eixo de uma saia de seda amarela. Amarela da cor de um feixe de luz apanhado numa esquina.
1 156
Matilde Campilho
Época da Colheita de Lã
Faz hoje um ano e meio que inundaram o canal de Danesdale para dar passagem à procissão dos castores. Ainda estou sem saber como é que se faz um poema mas pelo menos já sei dobrar a roupa. Tenho-me recusado a falar sobre aquelas coisas habituais, como o coração de Deus, a corrida dos gaiatos, a visão macroscópica que incide sobre a dobra dos calções do atleta, o cílio do peixe preto que todos os dias roça o peito do mergulhador das manhãs, o resultado da partida de baseball no Connecticut ou a forma mais correcta de escrever baseball. Acho que o esporte é uma coisa reconfortante porque se realiza sempre sobre um solo fértil e também porque o posso abandonar a qualquer instante ou voltar a ele em qualquer instante. Fred ainda está vivo, ainda limpa o balcão do bar com o pano encardido e sei que sempre que regressar à cidade posso entrar no bar, sentar-me ao balcão e perguntar-lhe sobre a performance de Hank Aaron. Fred sabe tudo sobre o voo. Descobri inúmeros elementos transformadores da vontade, mas também não vou distender-me aqui em palavrões ou frases demasiado compostas só para encontrar um sentido no decorrer da sentença. O melhor pianista do país morreu esta tarde e tinha os cabelos iluminados de fogo. Sônia diz que ele fazia lembrar erupções de querubins no asfalto, Eric não para de chorar. A amendoeira do canal foi rasgada a canivete mas o desenho gravado não é de todo a tatuagem mais feia do mundo. Etc. Etc. Etc.
1 030
Nuno Fernandes Torneol
Quer'eu a Deus Rogar de Coraçom
Quer'eu a Deus rogar de coraçom,
com'home que é coitado d'amor,
que El me leixe veer mia senhor
mui ced'; e se m'El nom quiser oir,
logo lh'eu querrei outra rem pedir:
que me nom leixe no mundo viver!
E se m'El há de fazer algum bem,
oir-mi-á 'questo que Lh'eu rogarei
e mostrar-mi-á quanto bem no mund'hei.
E se mi o El nom quiser amostrar,
logo Lh'eu outra rem querrei rogar:
que me nom leixe no mundo viver!
E se m'El amostrar a mia senhor,
que am'eu mais ca o meu coraçom,
vedes o que Lhe rogarei entom:
que me dê seu bem, que m'é mui mester;
e rogá'-Lh'-ei que, se o nom fezer,
que me nom leixe no mundo viver!
E rogá'-Lh'-ei, se me bem há fazer,
que El me leixe viver em logar
u a veja e lhe possa falar,
por quanta coita me por ela deu;
senom, vedes que Lhe rogarei eu:
que me nom leixe no mundo viver!
com'home que é coitado d'amor,
que El me leixe veer mia senhor
mui ced'; e se m'El nom quiser oir,
logo lh'eu querrei outra rem pedir:
que me nom leixe no mundo viver!
E se m'El há de fazer algum bem,
oir-mi-á 'questo que Lh'eu rogarei
e mostrar-mi-á quanto bem no mund'hei.
E se mi o El nom quiser amostrar,
logo Lh'eu outra rem querrei rogar:
que me nom leixe no mundo viver!
E se m'El amostrar a mia senhor,
que am'eu mais ca o meu coraçom,
vedes o que Lhe rogarei entom:
que me dê seu bem, que m'é mui mester;
e rogá'-Lh'-ei que, se o nom fezer,
que me nom leixe no mundo viver!
E rogá'-Lh'-ei, se me bem há fazer,
que El me leixe viver em logar
u a veja e lhe possa falar,
por quanta coita me por ela deu;
senom, vedes que Lhe rogarei eu:
que me nom leixe no mundo viver!
668
Pero da Ponte
O Mui Bom Rei Que Conquis a Fronteira
O mui bom rei que conquis a fronteira
e acabou quanto quis acabar
e que se fez, com razom verdadeira,
[em] tod'o mundo temer e amar,
este bom rei de prez, valent'e fiz,
rei dom Fernando, bom rei que conquis
terra de mouros, bem de mar a mar.
A quem Deus mostrou tam gram maravilha
que já no mundo sempr'ham que dizer
de quam bem soube conquerer Sevilha
per prez [e] per esforç'e per valer.
E da conquista mais vos contarei:
nom foi no mund'emperador nem rei
que tal conquista podesse fazer.
Nom sei hoj'home tam bem razõado
que podesse contar todo o bem
de Sevilha - e por end', a Deus grado,
já o bom rei em seu podê'la tem!
E mais vos dig': em todas três las Leis,
quantas conquistas foram doutros rei[s],
após Sevilha todo nom foi rem!
Mailo bom rei, que Deus mantém e guia,
e quer que sempre faça o melhor,
este conquis bem a Andaluzia
e nom catou i custa nem pavor.
E direi-vos u a per conquereu:
u Sevilha a Mofamede tolheu
e herdou i Deus e Santa Maria!
E des aquel dia que Deus naceu,
nunca tam bel presente recebeu
como del recebeu aquel[e] dia
de Sam Clement', em que se conquereu,
e em outro tal dia se perdeu,
quatrocentos e nove anos havia.
e acabou quanto quis acabar
e que se fez, com razom verdadeira,
[em] tod'o mundo temer e amar,
este bom rei de prez, valent'e fiz,
rei dom Fernando, bom rei que conquis
terra de mouros, bem de mar a mar.
A quem Deus mostrou tam gram maravilha
que já no mundo sempr'ham que dizer
de quam bem soube conquerer Sevilha
per prez [e] per esforç'e per valer.
E da conquista mais vos contarei:
nom foi no mund'emperador nem rei
que tal conquista podesse fazer.
Nom sei hoj'home tam bem razõado
que podesse contar todo o bem
de Sevilha - e por end', a Deus grado,
já o bom rei em seu podê'la tem!
E mais vos dig': em todas três las Leis,
quantas conquistas foram doutros rei[s],
após Sevilha todo nom foi rem!
Mailo bom rei, que Deus mantém e guia,
e quer que sempre faça o melhor,
este conquis bem a Andaluzia
e nom catou i custa nem pavor.
E direi-vos u a per conquereu:
u Sevilha a Mofamede tolheu
e herdou i Deus e Santa Maria!
E des aquel dia que Deus naceu,
nunca tam bel presente recebeu
como del recebeu aquel[e] dia
de Sam Clement', em que se conquereu,
e em outro tal dia se perdeu,
quatrocentos e nove anos havia.
561
Pero da Ponte
Pois de Mia Morte Gram Sabor Havedes
Pois de mia morte gram sabor havedes,
senhor fremosa, mais que doutra rem,
nunca vos Deus mostr'o que vós queredes,
pois vós queredes mia mort'; e por en
rog'eu a Deus que nunca vós vejades,
senhor fremosa, o que desejades.
Nom vos and'eu per outras galhardias,
mais sempr'aquesto rogarei a Deus:
em tal que tolha El dos vossos dias,
senhor fremosa, e e[m] nada nos meus.
Rog'eu a Deus que nunca vós vejades,
senhor fremosa, o que desejades.
E Deus [que] sabe que vos am'eu muito,
e amarei enquant'eu vivo for,
El me leix'ante por vós trager luito
ca vós por mi; [e] por en mia senhor
rog'eu a Deus que nunca vós vejades,
senhor fremosa, o que desejades.
senhor fremosa, mais que doutra rem,
nunca vos Deus mostr'o que vós queredes,
pois vós queredes mia mort'; e por en
rog'eu a Deus que nunca vós vejades,
senhor fremosa, o que desejades.
Nom vos and'eu per outras galhardias,
mais sempr'aquesto rogarei a Deus:
em tal que tolha El dos vossos dias,
senhor fremosa, e e[m] nada nos meus.
Rog'eu a Deus que nunca vós vejades,
senhor fremosa, o que desejades.
E Deus [que] sabe que vos am'eu muito,
e amarei enquant'eu vivo for,
El me leix'ante por vós trager luito
ca vós por mi; [e] por en mia senhor
rog'eu a Deus que nunca vós vejades,
senhor fremosa, o que desejades.
666
Fernão Garcia Esgaravunha
Des Hojemais Já Sempr'eu Rogarei
Des hojemais já sempr'eu rogarei
Deus por mia mort', e se mi a dar quiser,
que mi a dê cedo, ca m'é mui mester,
senhor fremosa, pois eu per vós sei
ca nom há Deus sobre vós tal poder
per que me faça vosso bem haver.
E já eu sempre serei rogador
des hojemais pola mia mort'a Deus,
chorando muito destes olhos meus,
pois per vós sei, fremosa mia senhor,
ca nom há Deus sobre vós tal poder
per que me faça vosso bem haver.
Ca enquant'eu cuidei ou entendi
ca me podia Deus vosso bem dar,
nunca Lh'eu quis por mia morte rogar;
mais, mia senhor, já per vós sei assi
ca nom há Deus sobre vos tal poder
per que me faça vosso bem haver.
Deus por mia mort', e se mi a dar quiser,
que mi a dê cedo, ca m'é mui mester,
senhor fremosa, pois eu per vós sei
ca nom há Deus sobre vós tal poder
per que me faça vosso bem haver.
E já eu sempre serei rogador
des hojemais pola mia mort'a Deus,
chorando muito destes olhos meus,
pois per vós sei, fremosa mia senhor,
ca nom há Deus sobre vós tal poder
per que me faça vosso bem haver.
Ca enquant'eu cuidei ou entendi
ca me podia Deus vosso bem dar,
nunca Lh'eu quis por mia morte rogar;
mais, mia senhor, já per vós sei assi
ca nom há Deus sobre vos tal poder
per que me faça vosso bem haver.
591
Fernão Garcia Esgaravunha
Des Hojemais Já Sempr'eu Rogarei
Des hojemais já sempr'eu rogarei
Deus por mia mort', e se mi a dar quiser,
que mi a dê cedo, ca m'é mui mester,
senhor fremosa, pois eu per vós sei
ca nom há Deus sobre vós tal poder
per que me faça vosso bem haver.
E já eu sempre serei rogador
des hojemais pola mia mort'a Deus,
chorando muito destes olhos meus,
pois per vós sei, fremosa mia senhor,
ca nom há Deus sobre vós tal poder
per que me faça vosso bem haver.
Ca enquant'eu cuidei ou entendi
ca me podia Deus vosso bem dar,
nunca Lh'eu quis por mia morte rogar;
mais, mia senhor, já per vós sei assi
ca nom há Deus sobre vos tal poder
per que me faça vosso bem haver.
Deus por mia mort', e se mi a dar quiser,
que mi a dê cedo, ca m'é mui mester,
senhor fremosa, pois eu per vós sei
ca nom há Deus sobre vós tal poder
per que me faça vosso bem haver.
E já eu sempre serei rogador
des hojemais pola mia mort'a Deus,
chorando muito destes olhos meus,
pois per vós sei, fremosa mia senhor,
ca nom há Deus sobre vós tal poder
per que me faça vosso bem haver.
Ca enquant'eu cuidei ou entendi
ca me podia Deus vosso bem dar,
nunca Lh'eu quis por mia morte rogar;
mais, mia senhor, já per vós sei assi
ca nom há Deus sobre vos tal poder
per que me faça vosso bem haver.
591
Fernão Garcia Esgaravunha
Nenguem-Mim, Que Vistes Mal Doente
Nenguem-mim, que vistes mal doente
de mao mal, ond'houver'a morrer,
eu puj'a mão em el e caente
o achei muit', e mandei-lhi fazer
mui boa cama, e adormeceu;
e espertou-s'e cobriu-s'e peeu
e or[a] já mais guarido se sente.
Achei-o eu jazer desacordado,
que nom cuidei que podesse guarir;
e pois eu vi que era mal coitado,
mandei-o bem caentar e cobrir;
e des que s'el bem coberto sentiu,
estornudou três peidos e guariu
já quanto mais, e é mais arriçado.
Achei-o eu mal doente, u jazia
desacordado todo com o mal;
e nom cuidava que guareceria;
mais a mercêe de Deus quanto val!
Que, u sa gente del desasperou,
feriu três peidos e determinhou
e conhoceu, ca já nom conhocia.
Deste mal nom cuidei que guarecesse,
pero mandei-lhi fazer ũa rem:
que aquel dia per rem nom comesse
e se deitasse e se cobrisse bem;
e el deitou-se e cobriu-s'entom,
e peeu bem e houve coraçom
pois de bever, e dix'eu que bevesse.
de mao mal, ond'houver'a morrer,
eu puj'a mão em el e caente
o achei muit', e mandei-lhi fazer
mui boa cama, e adormeceu;
e espertou-s'e cobriu-s'e peeu
e or[a] já mais guarido se sente.
Achei-o eu jazer desacordado,
que nom cuidei que podesse guarir;
e pois eu vi que era mal coitado,
mandei-o bem caentar e cobrir;
e des que s'el bem coberto sentiu,
estornudou três peidos e guariu
já quanto mais, e é mais arriçado.
Achei-o eu mal doente, u jazia
desacordado todo com o mal;
e nom cuidava que guareceria;
mais a mercêe de Deus quanto val!
Que, u sa gente del desasperou,
feriu três peidos e determinhou
e conhoceu, ca já nom conhocia.
Deste mal nom cuidei que guarecesse,
pero mandei-lhi fazer ũa rem:
que aquel dia per rem nom comesse
e se deitasse e se cobrisse bem;
e el deitou-se e cobriu-s'entom,
e peeu bem e houve coraçom
pois de bever, e dix'eu que bevesse.
610
Fernão Garcia Esgaravunha
Nenguem-Mim, Que Vistes Mal Doente
Nenguem-mim, que vistes mal doente
de mao mal, ond'houver'a morrer,
eu puj'a mão em el e caente
o achei muit', e mandei-lhi fazer
mui boa cama, e adormeceu;
e espertou-s'e cobriu-s'e peeu
e or[a] já mais guarido se sente.
Achei-o eu jazer desacordado,
que nom cuidei que podesse guarir;
e pois eu vi que era mal coitado,
mandei-o bem caentar e cobrir;
e des que s'el bem coberto sentiu,
estornudou três peidos e guariu
já quanto mais, e é mais arriçado.
Achei-o eu mal doente, u jazia
desacordado todo com o mal;
e nom cuidava que guareceria;
mais a mercêe de Deus quanto val!
Que, u sa gente del desasperou,
feriu três peidos e determinhou
e conhoceu, ca já nom conhocia.
Deste mal nom cuidei que guarecesse,
pero mandei-lhi fazer ũa rem:
que aquel dia per rem nom comesse
e se deitasse e se cobrisse bem;
e el deitou-se e cobriu-s'entom,
e peeu bem e houve coraçom
pois de bever, e dix'eu que bevesse.
de mao mal, ond'houver'a morrer,
eu puj'a mão em el e caente
o achei muit', e mandei-lhi fazer
mui boa cama, e adormeceu;
e espertou-s'e cobriu-s'e peeu
e or[a] já mais guarido se sente.
Achei-o eu jazer desacordado,
que nom cuidei que podesse guarir;
e pois eu vi que era mal coitado,
mandei-o bem caentar e cobrir;
e des que s'el bem coberto sentiu,
estornudou três peidos e guariu
já quanto mais, e é mais arriçado.
Achei-o eu mal doente, u jazia
desacordado todo com o mal;
e nom cuidava que guareceria;
mais a mercêe de Deus quanto val!
Que, u sa gente del desasperou,
feriu três peidos e determinhou
e conhoceu, ca já nom conhocia.
Deste mal nom cuidei que guarecesse,
pero mandei-lhi fazer ũa rem:
que aquel dia per rem nom comesse
e se deitasse e se cobrisse bem;
e el deitou-se e cobriu-s'entom,
e peeu bem e houve coraçom
pois de bever, e dix'eu que bevesse.
610
Fernão Garcia Esgaravunha
Nenguem-Mim, Que Vistes Mal Doente
Nenguem-mim, que vistes mal doente
de mao mal, ond'houver'a morrer,
eu puj'a mão em el e caente
o achei muit', e mandei-lhi fazer
mui boa cama, e adormeceu;
e espertou-s'e cobriu-s'e peeu
e or[a] já mais guarido se sente.
Achei-o eu jazer desacordado,
que nom cuidei que podesse guarir;
e pois eu vi que era mal coitado,
mandei-o bem caentar e cobrir;
e des que s'el bem coberto sentiu,
estornudou três peidos e guariu
já quanto mais, e é mais arriçado.
Achei-o eu mal doente, u jazia
desacordado todo com o mal;
e nom cuidava que guareceria;
mais a mercêe de Deus quanto val!
Que, u sa gente del desasperou,
feriu três peidos e determinhou
e conhoceu, ca já nom conhocia.
Deste mal nom cuidei que guarecesse,
pero mandei-lhi fazer ũa rem:
que aquel dia per rem nom comesse
e se deitasse e se cobrisse bem;
e el deitou-se e cobriu-s'entom,
e peeu bem e houve coraçom
pois de bever, e dix'eu que bevesse.
de mao mal, ond'houver'a morrer,
eu puj'a mão em el e caente
o achei muit', e mandei-lhi fazer
mui boa cama, e adormeceu;
e espertou-s'e cobriu-s'e peeu
e or[a] já mais guarido se sente.
Achei-o eu jazer desacordado,
que nom cuidei que podesse guarir;
e pois eu vi que era mal coitado,
mandei-o bem caentar e cobrir;
e des que s'el bem coberto sentiu,
estornudou três peidos e guariu
já quanto mais, e é mais arriçado.
Achei-o eu mal doente, u jazia
desacordado todo com o mal;
e nom cuidava que guareceria;
mais a mercêe de Deus quanto val!
Que, u sa gente del desasperou,
feriu três peidos e determinhou
e conhoceu, ca já nom conhocia.
Deste mal nom cuidei que guarecesse,
pero mandei-lhi fazer ũa rem:
que aquel dia per rem nom comesse
e se deitasse e se cobrisse bem;
e el deitou-se e cobriu-s'entom,
e peeu bem e houve coraçom
pois de bever, e dix'eu que bevesse.
610
Pero da Ponte
Que Mal S'este Mundo Guisou
Que mal s'este mundo guisou
de nulh'home per el fiar!
Nem Deus non'o quis[o] guisar,
pero o fez e o firmou;
ante o quise destroir,
pois que dom Telo fez end'ir,
que sempre bem fez e cuidou
des quando naceu, e punhou
sempr'em bondade gaanhar
e em seu bom prez avantar,
e nunca se d'al trabalhou.
E quem sas manhas bem cousir
pode jurar, por nom mentir,
que tôdalas Deus acabou.
Mais a mim já esto leixou
com que me posso conortar:
que hei gram sabor de contar
do bem que fez, mentre durou;
e tod'home que mi oir,
sempr'haverá que departir
em quanto bom prez del ficou.
E a dom Telo Deus x'o amou
pera si e x'o quis levar;
e nom se quis de nós nembrar,
que nos assi desemparou.
E mailo fez por se riir
deste mal mund'e escarnir,
que sempre com aleiv'andou.
E quen'a bem quiser oir,
que forte palavra d'oir:
"Dom Tel'Afons'ora finou!"
de nulh'home per el fiar!
Nem Deus non'o quis[o] guisar,
pero o fez e o firmou;
ante o quise destroir,
pois que dom Telo fez end'ir,
que sempre bem fez e cuidou
des quando naceu, e punhou
sempr'em bondade gaanhar
e em seu bom prez avantar,
e nunca se d'al trabalhou.
E quem sas manhas bem cousir
pode jurar, por nom mentir,
que tôdalas Deus acabou.
Mais a mim já esto leixou
com que me posso conortar:
que hei gram sabor de contar
do bem que fez, mentre durou;
e tod'home que mi oir,
sempr'haverá que departir
em quanto bom prez del ficou.
E a dom Telo Deus x'o amou
pera si e x'o quis levar;
e nom se quis de nós nembrar,
que nos assi desemparou.
E mailo fez por se riir
deste mal mund'e escarnir,
que sempre com aleiv'andou.
E quen'a bem quiser oir,
que forte palavra d'oir:
"Dom Tel'Afons'ora finou!"
372
Pero da Ponte
Que Mal S'este Mundo Guisou
Que mal s'este mundo guisou
de nulh'home per el fiar!
Nem Deus non'o quis[o] guisar,
pero o fez e o firmou;
ante o quise destroir,
pois que dom Telo fez end'ir,
que sempre bem fez e cuidou
des quando naceu, e punhou
sempr'em bondade gaanhar
e em seu bom prez avantar,
e nunca se d'al trabalhou.
E quem sas manhas bem cousir
pode jurar, por nom mentir,
que tôdalas Deus acabou.
Mais a mim já esto leixou
com que me posso conortar:
que hei gram sabor de contar
do bem que fez, mentre durou;
e tod'home que mi oir,
sempr'haverá que departir
em quanto bom prez del ficou.
E a dom Telo Deus x'o amou
pera si e x'o quis levar;
e nom se quis de nós nembrar,
que nos assi desemparou.
E mailo fez por se riir
deste mal mund'e escarnir,
que sempre com aleiv'andou.
E quen'a bem quiser oir,
que forte palavra d'oir:
"Dom Tel'Afons'ora finou!"
de nulh'home per el fiar!
Nem Deus non'o quis[o] guisar,
pero o fez e o firmou;
ante o quise destroir,
pois que dom Telo fez end'ir,
que sempre bem fez e cuidou
des quando naceu, e punhou
sempr'em bondade gaanhar
e em seu bom prez avantar,
e nunca se d'al trabalhou.
E quem sas manhas bem cousir
pode jurar, por nom mentir,
que tôdalas Deus acabou.
Mais a mim já esto leixou
com que me posso conortar:
que hei gram sabor de contar
do bem que fez, mentre durou;
e tod'home que mi oir,
sempr'haverá que departir
em quanto bom prez del ficou.
E a dom Telo Deus x'o amou
pera si e x'o quis levar;
e nom se quis de nós nembrar,
que nos assi desemparou.
E mailo fez por se riir
deste mal mund'e escarnir,
que sempre com aleiv'andou.
E quen'a bem quiser oir,
que forte palavra d'oir:
"Dom Tel'Afons'ora finou!"
372