Poemas neste tema
Vida e Existência
Simone Brantes
order in chaos
Meu relógio tem ponteiros soltos
os compromissos caem
e ficam no chão
De tempos em tempos
olho para eles
e lhes dou esperança
no meu relógio meu dia
é metade noite
minha noite
metade dia
os compromissos caem
e ficam no chão
De tempos em tempos
olho para eles
e lhes dou esperança
no meu relógio meu dia
é metade noite
minha noite
metade dia
678
Mailson Furtado Viana
das amizades distantes
o poeta escreveu algo
que agora não lembro de cor
mas o li
outros também
e depois outros e outros e outros
e pararipararaparara
ficou famoso
saiu no jornal
fez pose de importante
e a vida voou voou
fiquei amigo dele
depois de o matarem
no século dezenove
que agora não lembro de cor
mas o li
outros também
e depois outros e outros e outros
e pararipararaparara
ficou famoso
saiu no jornal
fez pose de importante
e a vida voou voou
fiquei amigo dele
depois de o matarem
no século dezenove
664
Mailson Furtado Viana
das amizades distantes
o poeta escreveu algo
que agora não lembro de cor
mas o li
outros também
e depois outros e outros e outros
e pararipararaparara
ficou famoso
saiu no jornal
fez pose de importante
e a vida voou voou
fiquei amigo dele
depois de o matarem
no século dezenove
que agora não lembro de cor
mas o li
outros também
e depois outros e outros e outros
e pararipararaparara
ficou famoso
saiu no jornal
fez pose de importante
e a vida voou voou
fiquei amigo dele
depois de o matarem
no século dezenove
664
Alexandre Guarnieri
A pele
homem-bomba vestindo roupa de escafandrista, seu
neoprene pressurizado capta estímulos, e por entre
pelos mínimos, válvulas regulatórias fazem-na suar
ou ressecar, contra as condições do habitat (algo
se interpõe aos poros, ou impermeabiliza as fibras);
seus sensores de calor, vigiados de uma sala
de controle, enquanto é mantida viva, (hidratado
adequadamente cada intrincado recanto) como
a máxima peça, de uma alfaiataria das mais complexas:
seria tão errado reduzi-la ao tato, costurando
ao tecido apenas um dos cinco sentidos?
neoprene pressurizado capta estímulos, e por entre
pelos mínimos, válvulas regulatórias fazem-na suar
ou ressecar, contra as condições do habitat (algo
se interpõe aos poros, ou impermeabiliza as fibras);
seus sensores de calor, vigiados de uma sala
de controle, enquanto é mantida viva, (hidratado
adequadamente cada intrincado recanto) como
a máxima peça, de uma alfaiataria das mais complexas:
seria tão errado reduzi-la ao tato, costurando
ao tecido apenas um dos cinco sentidos?
536
Alexandre Guarnieri
A pele
homem-bomba vestindo roupa de escafandrista, seu
neoprene pressurizado capta estímulos, e por entre
pelos mínimos, válvulas regulatórias fazem-na suar
ou ressecar, contra as condições do habitat (algo
se interpõe aos poros, ou impermeabiliza as fibras);
seus sensores de calor, vigiados de uma sala
de controle, enquanto é mantida viva, (hidratado
adequadamente cada intrincado recanto) como
a máxima peça, de uma alfaiataria das mais complexas:
seria tão errado reduzi-la ao tato, costurando
ao tecido apenas um dos cinco sentidos?
neoprene pressurizado capta estímulos, e por entre
pelos mínimos, válvulas regulatórias fazem-na suar
ou ressecar, contra as condições do habitat (algo
se interpõe aos poros, ou impermeabiliza as fibras);
seus sensores de calor, vigiados de uma sala
de controle, enquanto é mantida viva, (hidratado
adequadamente cada intrincado recanto) como
a máxima peça, de uma alfaiataria das mais complexas:
seria tão errado reduzi-la ao tato, costurando
ao tecido apenas um dos cinco sentidos?
536
Alexandre Guarnieri
A pele
homem-bomba vestindo roupa de escafandrista, seu
neoprene pressurizado capta estímulos, e por entre
pelos mínimos, válvulas regulatórias fazem-na suar
ou ressecar, contra as condições do habitat (algo
se interpõe aos poros, ou impermeabiliza as fibras);
seus sensores de calor, vigiados de uma sala
de controle, enquanto é mantida viva, (hidratado
adequadamente cada intrincado recanto) como
a máxima peça, de uma alfaiataria das mais complexas:
seria tão errado reduzi-la ao tato, costurando
ao tecido apenas um dos cinco sentidos?
neoprene pressurizado capta estímulos, e por entre
pelos mínimos, válvulas regulatórias fazem-na suar
ou ressecar, contra as condições do habitat (algo
se interpõe aos poros, ou impermeabiliza as fibras);
seus sensores de calor, vigiados de uma sala
de controle, enquanto é mantida viva, (hidratado
adequadamente cada intrincado recanto) como
a máxima peça, de uma alfaiataria das mais complexas:
seria tão errado reduzi-la ao tato, costurando
ao tecido apenas um dos cinco sentidos?
536
Maria Lúcia Dal Farra
Vida cava
Velho sofá de taquara da casa da Curuzu,
em cujas varas circula antiga emoção!
Lugar de aguardar o obscuro,
de acolhê-lo
nos túneis e nas veias.
Passeia nos seus ocos de bambu
(trafega em mim ainda)
a vida subterrânea,
a da saia de godê –
vincada de afagos do namoro vigiado,
engomada de pudor.
Ah que saudades desse assento
onde conheci
o meu primeiro prazer de baixo!
em cujas varas circula antiga emoção!
Lugar de aguardar o obscuro,
de acolhê-lo
nos túneis e nas veias.
Passeia nos seus ocos de bambu
(trafega em mim ainda)
a vida subterrânea,
a da saia de godê –
vincada de afagos do namoro vigiado,
engomada de pudor.
Ah que saudades desse assento
onde conheci
o meu primeiro prazer de baixo!
652
Maria Lúcia Dal Farra
A violinita
O silêncio enxuga
a arcada do violino
quando o rosto dela ao instrumento se arqueja.
Ruído que age nas veias
na boca
cujos dentes vibram
na contorção das cordas.
Um braço arrebata a madeira
pelo dorso mais oculto
(suas tripas de animal)
enquanto o outro (pernas de gafanhoto)
fricciona o metal subjugado à candura
das unhas.
Só então a música se torna audível:
quando o corpo a sanciona.
a arcada do violino
quando o rosto dela ao instrumento se arqueja.
Ruído que age nas veias
na boca
cujos dentes vibram
na contorção das cordas.
Um braço arrebata a madeira
pelo dorso mais oculto
(suas tripas de animal)
enquanto o outro (pernas de gafanhoto)
fricciona o metal subjugado à candura
das unhas.
Só então a música se torna audível:
quando o corpo a sanciona.
768
Maria Lúcia Dal Farra
Desabitação
Penso que a gente morre
tal qual o frango no prato que destrinçamos
(alheadamente)
em prosa com os convivas.
Às vezes sem ruído, outras esmagados
sob o pecado, a falta não redimida –
como um trem que atravessasse as vísceras.
Levantamos a cabeça por cima dos talheres
e fisgamos no ar a ideia
com que debicar o vinho –
mas o odor da marmita
faz quase vomitar.
Somos os habitantes e os visitantes
dessa casa que dá para o caos.
tal qual o frango no prato que destrinçamos
(alheadamente)
em prosa com os convivas.
Às vezes sem ruído, outras esmagados
sob o pecado, a falta não redimida –
como um trem que atravessasse as vísceras.
Levantamos a cabeça por cima dos talheres
e fisgamos no ar a ideia
com que debicar o vinho –
mas o odor da marmita
faz quase vomitar.
Somos os habitantes e os visitantes
dessa casa que dá para o caos.
708
Maria Lúcia Dal Farra
Desabitação
Penso que a gente morre
tal qual o frango no prato que destrinçamos
(alheadamente)
em prosa com os convivas.
Às vezes sem ruído, outras esmagados
sob o pecado, a falta não redimida –
como um trem que atravessasse as vísceras.
Levantamos a cabeça por cima dos talheres
e fisgamos no ar a ideia
com que debicar o vinho –
mas o odor da marmita
faz quase vomitar.
Somos os habitantes e os visitantes
dessa casa que dá para o caos.
tal qual o frango no prato que destrinçamos
(alheadamente)
em prosa com os convivas.
Às vezes sem ruído, outras esmagados
sob o pecado, a falta não redimida –
como um trem que atravessasse as vísceras.
Levantamos a cabeça por cima dos talheres
e fisgamos no ar a ideia
com que debicar o vinho –
mas o odor da marmita
faz quase vomitar.
Somos os habitantes e os visitantes
dessa casa que dá para o caos.
708
Simone Brantes
Os amigos
1.
Os amigos se encontram tantos anos depois,
os amigos começam a acreditar que os anos
não passaram de certa forma não passaram
ou que o passado está ali tão fácil entrar no
seu círculo encantado os amigos estão maravilhados
com isso e querem marcar outro encontro
os amigos voltam para casa pensando nisso
2.
Um dos amigos tem três lojas de móveis
um dos amigos tem uma loja de roupas
um dos amigos tem dois filhos
um dos amigos também tem dois filhos
os filhos de um dos amigos ainda estão
meio perdidos com suas escolhas profissionais
os filhos de um dos amigos já estão se formando
em medicina no final deste ano
o amigo quer fechar as três lojas de móveis
quando os filhos se formarem
o amigo quer abrir uma loja de
relógios relógios são mercadorias
mais fáceis do que armários modulados
e têm também mais valor agregado
o amigo pai dos filhos que ainda não se
formaram acha que tem ainda muito que trabalhar
os amigos só compram carros com airbags
os amigos moram em casas muito confortáveis
têm muitas histórias do comércio para contar
3.
A amiga é professora de português para
sobreviver
a amiga tem sobrevivido
o que falta aos amigos
não falta à amiga
a amiga tem tempo de sobra
embora seu tempo não sobre nunca
a amiga sempre precisa de
mais tempo
a amiga falou vagamente
nisso
O melhor da noite
foi que ela adorou
as histórias
do comércio
4.
Os amigos prometeram que não demorariam
trinta anos para se encontrar ademais os amigos
sabem que não terão todo esse tempo
os amigos já começam a fazer os cálculos do tempo
razoável que lhes resta e talvez pensem vagamente
que esse desejo de rever esses amigos faça parte
de um desejo de dar passos atrás de arrastar
o tempo para trás ou é possível que pensem
sem muita clareza que há ilhas poças largos
um pequeno enclave ou algo como dobras do tempo
aonde a morte parece não chegar os amigos quando
se encontram de certo modo visitam algo que parece
viver sem a sua presença que parece não depender
mais deles como os filhos que não param de crescer
Os amigos se encontram tantos anos depois,
os amigos começam a acreditar que os anos
não passaram de certa forma não passaram
ou que o passado está ali tão fácil entrar no
seu círculo encantado os amigos estão maravilhados
com isso e querem marcar outro encontro
os amigos voltam para casa pensando nisso
2.
Um dos amigos tem três lojas de móveis
um dos amigos tem uma loja de roupas
um dos amigos tem dois filhos
um dos amigos também tem dois filhos
os filhos de um dos amigos ainda estão
meio perdidos com suas escolhas profissionais
os filhos de um dos amigos já estão se formando
em medicina no final deste ano
o amigo quer fechar as três lojas de móveis
quando os filhos se formarem
o amigo quer abrir uma loja de
relógios relógios são mercadorias
mais fáceis do que armários modulados
e têm também mais valor agregado
o amigo pai dos filhos que ainda não se
formaram acha que tem ainda muito que trabalhar
os amigos só compram carros com airbags
os amigos moram em casas muito confortáveis
têm muitas histórias do comércio para contar
3.
A amiga é professora de português para
sobreviver
a amiga tem sobrevivido
o que falta aos amigos
não falta à amiga
a amiga tem tempo de sobra
embora seu tempo não sobre nunca
a amiga sempre precisa de
mais tempo
a amiga falou vagamente
nisso
O melhor da noite
foi que ela adorou
as histórias
do comércio
4.
Os amigos prometeram que não demorariam
trinta anos para se encontrar ademais os amigos
sabem que não terão todo esse tempo
os amigos já começam a fazer os cálculos do tempo
razoável que lhes resta e talvez pensem vagamente
que esse desejo de rever esses amigos faça parte
de um desejo de dar passos atrás de arrastar
o tempo para trás ou é possível que pensem
sem muita clareza que há ilhas poças largos
um pequeno enclave ou algo como dobras do tempo
aonde a morte parece não chegar os amigos quando
se encontram de certo modo visitam algo que parece
viver sem a sua presença que parece não depender
mais deles como os filhos que não param de crescer
621
Simone Brantes
Os amigos
1.
Os amigos se encontram tantos anos depois,
os amigos começam a acreditar que os anos
não passaram de certa forma não passaram
ou que o passado está ali tão fácil entrar no
seu círculo encantado os amigos estão maravilhados
com isso e querem marcar outro encontro
os amigos voltam para casa pensando nisso
2.
Um dos amigos tem três lojas de móveis
um dos amigos tem uma loja de roupas
um dos amigos tem dois filhos
um dos amigos também tem dois filhos
os filhos de um dos amigos ainda estão
meio perdidos com suas escolhas profissionais
os filhos de um dos amigos já estão se formando
em medicina no final deste ano
o amigo quer fechar as três lojas de móveis
quando os filhos se formarem
o amigo quer abrir uma loja de
relógios relógios são mercadorias
mais fáceis do que armários modulados
e têm também mais valor agregado
o amigo pai dos filhos que ainda não se
formaram acha que tem ainda muito que trabalhar
os amigos só compram carros com airbags
os amigos moram em casas muito confortáveis
têm muitas histórias do comércio para contar
3.
A amiga é professora de português para
sobreviver
a amiga tem sobrevivido
o que falta aos amigos
não falta à amiga
a amiga tem tempo de sobra
embora seu tempo não sobre nunca
a amiga sempre precisa de
mais tempo
a amiga falou vagamente
nisso
O melhor da noite
foi que ela adorou
as histórias
do comércio
4.
Os amigos prometeram que não demorariam
trinta anos para se encontrar ademais os amigos
sabem que não terão todo esse tempo
os amigos já começam a fazer os cálculos do tempo
razoável que lhes resta e talvez pensem vagamente
que esse desejo de rever esses amigos faça parte
de um desejo de dar passos atrás de arrastar
o tempo para trás ou é possível que pensem
sem muita clareza que há ilhas poças largos
um pequeno enclave ou algo como dobras do tempo
aonde a morte parece não chegar os amigos quando
se encontram de certo modo visitam algo que parece
viver sem a sua presença que parece não depender
mais deles como os filhos que não param de crescer
Os amigos se encontram tantos anos depois,
os amigos começam a acreditar que os anos
não passaram de certa forma não passaram
ou que o passado está ali tão fácil entrar no
seu círculo encantado os amigos estão maravilhados
com isso e querem marcar outro encontro
os amigos voltam para casa pensando nisso
2.
Um dos amigos tem três lojas de móveis
um dos amigos tem uma loja de roupas
um dos amigos tem dois filhos
um dos amigos também tem dois filhos
os filhos de um dos amigos ainda estão
meio perdidos com suas escolhas profissionais
os filhos de um dos amigos já estão se formando
em medicina no final deste ano
o amigo quer fechar as três lojas de móveis
quando os filhos se formarem
o amigo quer abrir uma loja de
relógios relógios são mercadorias
mais fáceis do que armários modulados
e têm também mais valor agregado
o amigo pai dos filhos que ainda não se
formaram acha que tem ainda muito que trabalhar
os amigos só compram carros com airbags
os amigos moram em casas muito confortáveis
têm muitas histórias do comércio para contar
3.
A amiga é professora de português para
sobreviver
a amiga tem sobrevivido
o que falta aos amigos
não falta à amiga
a amiga tem tempo de sobra
embora seu tempo não sobre nunca
a amiga sempre precisa de
mais tempo
a amiga falou vagamente
nisso
O melhor da noite
foi que ela adorou
as histórias
do comércio
4.
Os amigos prometeram que não demorariam
trinta anos para se encontrar ademais os amigos
sabem que não terão todo esse tempo
os amigos já começam a fazer os cálculos do tempo
razoável que lhes resta e talvez pensem vagamente
que esse desejo de rever esses amigos faça parte
de um desejo de dar passos atrás de arrastar
o tempo para trás ou é possível que pensem
sem muita clareza que há ilhas poças largos
um pequeno enclave ou algo como dobras do tempo
aonde a morte parece não chegar os amigos quando
se encontram de certo modo visitam algo que parece
viver sem a sua presença que parece não depender
mais deles como os filhos que não param de crescer
621
Mailson Furtado Viana
a estante deslocou a sala
a estante deslocou a sala
pro canto
tudo de importante
lá está
de canto
os outros três
existem
__________pra gente
__________por obrigação.
talvez
pra evitar intrigas com a física
ou mesmo só pra passeio
são só vistos
pela estante
que ali não pisou
na estante
um cristo redentor
que esteve no rio e lembrou-se d’alguém
se mistura à torre eiffel
que nem sabe de onde veio
um jarro desbotado
pintado de poeira
continua na mesma pose
e logo mais são paulo
em um flash na tv
se mistura também
no porta-retratos assistimos
mas não sabemos de nada
(nosso riso anda sem graça já)
dos outros cantos
sobram pra gente
a gente lá até vive
mas da estante é mais fácil lembrar
pro canto
tudo de importante
lá está
de canto
os outros três
existem
__________pra gente
__________por obrigação.
talvez
pra evitar intrigas com a física
ou mesmo só pra passeio
são só vistos
pela estante
que ali não pisou
na estante
um cristo redentor
que esteve no rio e lembrou-se d’alguém
se mistura à torre eiffel
que nem sabe de onde veio
um jarro desbotado
pintado de poeira
continua na mesma pose
e logo mais são paulo
em um flash na tv
se mistura também
no porta-retratos assistimos
mas não sabemos de nada
(nosso riso anda sem graça já)
dos outros cantos
sobram pra gente
a gente lá até vive
mas da estante é mais fácil lembrar
664
Alexandre Guarnieri
viagem fantástica
para Julio Verne e Harry Kleiner
toda profundeza concebida pelo homem
– conquistada ou ainda inexplorada –
sombria, ameaçadora ou prodigiosa,
toda mais longínqua profundidade,
recriada imaginativamente por séculos,
jazendo a apenas alguns centímetros
da superfície da pele, sob a trama de
nervos que segue a construir os sonhos,
da medula ao cérebro humano, esse
antro chiaroscuro – esponjosa massa
cinza sob o osso do crânio duro;
puséssemos numa seringa hipodérmica
a miniatura de um submarino nuclear
mergulhado em solução fisiológica e
injetássemos corpo adentro a peça
a sangue frio, navegaria submerso
com energia suficientemente gerada
para zelar sempre, sem erro, sem medo,
pelo mais perfeito funcionamento?
toda profundeza concebida pelo homem
– conquistada ou ainda inexplorada –
sombria, ameaçadora ou prodigiosa,
toda mais longínqua profundidade,
recriada imaginativamente por séculos,
jazendo a apenas alguns centímetros
da superfície da pele, sob a trama de
nervos que segue a construir os sonhos,
da medula ao cérebro humano, esse
antro chiaroscuro – esponjosa massa
cinza sob o osso do crânio duro;
puséssemos numa seringa hipodérmica
a miniatura de um submarino nuclear
mergulhado em solução fisiológica e
injetássemos corpo adentro a peça
a sangue frio, navegaria submerso
com energia suficientemente gerada
para zelar sempre, sem erro, sem medo,
pelo mais perfeito funcionamento?
607
Simone Brantes
O pau do doidinho
I
O doidinho me encontrou
uma vez sobre a ponte
O doidinho era só um pouco mais
velho que eu
irmão mais novo
de um menino com quem
eu jogava bola
O doidinho tirou
o pau de dentro
da calça
e me mostrou
Eu pedalei minha bicicleta
para longe
enquanto ele aflito
perguntava
– quer, quer, quer?
Me disseram que
até a morte do doidinho
ele tinha um medo
pânico e inexplicável
do meu pai
que ninguém sabia
por que
Hoje eu queria
poder dizer pro doidinho
que por muitos
anos eu me masturbei
pensando naquele
seu pau
que eu vi num relance
mas com a maior nitidez
um pau
roxo e cheio de veias
Que depois nenhum pau
pôde ser para mim O PAU
o arqui-pau
o pau do
doidinho
II
Tenho
um pau
acordo de noite
dentro de um sonho
e lá está ele
como sempre
incipiente
Não por ser pequeno
Não por ser disforme
Ele não é pequeno
não é disforme
É um pau quase igual a
qualquer outro
pau
É incipiente porque frágil
algo denso mas feito de
uma carne
orgânica e a desordenada
envolta por uma camada
de pele tão fina
tão à flor da pele
que penso que ele
vai romper
e seu conteúdo
estranho
vai se tornar visível
uma pele tão fina
tão rosa
tão transparente
fico com meu pau
na mão diante
do espelho
Me prometo que não
vou dormir
mas examiná-lo
em todos os seus detalhes
Talvez dar a ele uma duração
que prove a viabilidade
de um ser tão frágil
e dolorido
que ousa assim mostrar-se
pedir com delicadeza
um lugar no mundo
Tocam a campainha
e vou despachar quem bate
para voltar para junto
dele
Mas na volta
entre minhas
mãos
ele também se
foi
deixando como resto
um simples fio
III
O meu pau
sob uma pele
fina
frágil
rosa
uma carne
sem liga
uma carne amontoada
ali dentro
algo doce
e ao mesmo tempo
terrível
Agora sim é disforme
porque algo estranho
alguma entranha
vai sair dali
Me mantenho desperta
para olhar o pau
a sua cabeça
que é roxa
que é rosa
IV
Diante de um espelho
mas alguém bate na porta
eu vou atender
e despachar quem bate
Mas na volta
procuro o pau
e não há mais
só algo que míngua
entre as mãos
dentro do pijama
até se tornar
um fio
V
Há uma ponte no tempo
como há uma ponte
entre os sonhos
Agora sei que foi nessa ponte
que um dia encontrei o doidinho
o pau do doidinho
é o meu pau
Eu e o doidinho
o meu pau e o dele
no qual naquele
dia me amarrei
estão ligados
envoltos
na pele
de um cordão
umbilical
VI
Frágil
fino
rosa
roxo
dolorido
e
doce
terráqueo
e extraplanetário
como eu e o doidinho
como eu, o doidinho e você
O doidinho me encontrou
uma vez sobre a ponte
O doidinho era só um pouco mais
velho que eu
irmão mais novo
de um menino com quem
eu jogava bola
O doidinho tirou
o pau de dentro
da calça
e me mostrou
Eu pedalei minha bicicleta
para longe
enquanto ele aflito
perguntava
– quer, quer, quer?
Me disseram que
até a morte do doidinho
ele tinha um medo
pânico e inexplicável
do meu pai
que ninguém sabia
por que
Hoje eu queria
poder dizer pro doidinho
que por muitos
anos eu me masturbei
pensando naquele
seu pau
que eu vi num relance
mas com a maior nitidez
um pau
roxo e cheio de veias
Que depois nenhum pau
pôde ser para mim O PAU
o arqui-pau
o pau do
doidinho
II
Tenho
um pau
acordo de noite
dentro de um sonho
e lá está ele
como sempre
incipiente
Não por ser pequeno
Não por ser disforme
Ele não é pequeno
não é disforme
É um pau quase igual a
qualquer outro
pau
É incipiente porque frágil
algo denso mas feito de
uma carne
orgânica e a desordenada
envolta por uma camada
de pele tão fina
tão à flor da pele
que penso que ele
vai romper
e seu conteúdo
estranho
vai se tornar visível
uma pele tão fina
tão rosa
tão transparente
fico com meu pau
na mão diante
do espelho
Me prometo que não
vou dormir
mas examiná-lo
em todos os seus detalhes
Talvez dar a ele uma duração
que prove a viabilidade
de um ser tão frágil
e dolorido
que ousa assim mostrar-se
pedir com delicadeza
um lugar no mundo
Tocam a campainha
e vou despachar quem bate
para voltar para junto
dele
Mas na volta
entre minhas
mãos
ele também se
foi
deixando como resto
um simples fio
III
O meu pau
sob uma pele
fina
frágil
rosa
uma carne
sem liga
uma carne amontoada
ali dentro
algo doce
e ao mesmo tempo
terrível
Agora sim é disforme
porque algo estranho
alguma entranha
vai sair dali
Me mantenho desperta
para olhar o pau
a sua cabeça
que é roxa
que é rosa
IV
Diante de um espelho
mas alguém bate na porta
eu vou atender
e despachar quem bate
Mas na volta
procuro o pau
e não há mais
só algo que míngua
entre as mãos
dentro do pijama
até se tornar
um fio
V
Há uma ponte no tempo
como há uma ponte
entre os sonhos
Agora sei que foi nessa ponte
que um dia encontrei o doidinho
o pau do doidinho
é o meu pau
Eu e o doidinho
o meu pau e o dele
no qual naquele
dia me amarrei
estão ligados
envoltos
na pele
de um cordão
umbilical
VI
Frágil
fino
rosa
roxo
dolorido
e
doce
terráqueo
e extraplanetário
como eu e o doidinho
como eu, o doidinho e você
658
Simone Brantes
O pau do doidinho
I
O doidinho me encontrou
uma vez sobre a ponte
O doidinho era só um pouco mais
velho que eu
irmão mais novo
de um menino com quem
eu jogava bola
O doidinho tirou
o pau de dentro
da calça
e me mostrou
Eu pedalei minha bicicleta
para longe
enquanto ele aflito
perguntava
– quer, quer, quer?
Me disseram que
até a morte do doidinho
ele tinha um medo
pânico e inexplicável
do meu pai
que ninguém sabia
por que
Hoje eu queria
poder dizer pro doidinho
que por muitos
anos eu me masturbei
pensando naquele
seu pau
que eu vi num relance
mas com a maior nitidez
um pau
roxo e cheio de veias
Que depois nenhum pau
pôde ser para mim O PAU
o arqui-pau
o pau do
doidinho
II
Tenho
um pau
acordo de noite
dentro de um sonho
e lá está ele
como sempre
incipiente
Não por ser pequeno
Não por ser disforme
Ele não é pequeno
não é disforme
É um pau quase igual a
qualquer outro
pau
É incipiente porque frágil
algo denso mas feito de
uma carne
orgânica e a desordenada
envolta por uma camada
de pele tão fina
tão à flor da pele
que penso que ele
vai romper
e seu conteúdo
estranho
vai se tornar visível
uma pele tão fina
tão rosa
tão transparente
fico com meu pau
na mão diante
do espelho
Me prometo que não
vou dormir
mas examiná-lo
em todos os seus detalhes
Talvez dar a ele uma duração
que prove a viabilidade
de um ser tão frágil
e dolorido
que ousa assim mostrar-se
pedir com delicadeza
um lugar no mundo
Tocam a campainha
e vou despachar quem bate
para voltar para junto
dele
Mas na volta
entre minhas
mãos
ele também se
foi
deixando como resto
um simples fio
III
O meu pau
sob uma pele
fina
frágil
rosa
uma carne
sem liga
uma carne amontoada
ali dentro
algo doce
e ao mesmo tempo
terrível
Agora sim é disforme
porque algo estranho
alguma entranha
vai sair dali
Me mantenho desperta
para olhar o pau
a sua cabeça
que é roxa
que é rosa
IV
Diante de um espelho
mas alguém bate na porta
eu vou atender
e despachar quem bate
Mas na volta
procuro o pau
e não há mais
só algo que míngua
entre as mãos
dentro do pijama
até se tornar
um fio
V
Há uma ponte no tempo
como há uma ponte
entre os sonhos
Agora sei que foi nessa ponte
que um dia encontrei o doidinho
o pau do doidinho
é o meu pau
Eu e o doidinho
o meu pau e o dele
no qual naquele
dia me amarrei
estão ligados
envoltos
na pele
de um cordão
umbilical
VI
Frágil
fino
rosa
roxo
dolorido
e
doce
terráqueo
e extraplanetário
como eu e o doidinho
como eu, o doidinho e você
O doidinho me encontrou
uma vez sobre a ponte
O doidinho era só um pouco mais
velho que eu
irmão mais novo
de um menino com quem
eu jogava bola
O doidinho tirou
o pau de dentro
da calça
e me mostrou
Eu pedalei minha bicicleta
para longe
enquanto ele aflito
perguntava
– quer, quer, quer?
Me disseram que
até a morte do doidinho
ele tinha um medo
pânico e inexplicável
do meu pai
que ninguém sabia
por que
Hoje eu queria
poder dizer pro doidinho
que por muitos
anos eu me masturbei
pensando naquele
seu pau
que eu vi num relance
mas com a maior nitidez
um pau
roxo e cheio de veias
Que depois nenhum pau
pôde ser para mim O PAU
o arqui-pau
o pau do
doidinho
II
Tenho
um pau
acordo de noite
dentro de um sonho
e lá está ele
como sempre
incipiente
Não por ser pequeno
Não por ser disforme
Ele não é pequeno
não é disforme
É um pau quase igual a
qualquer outro
pau
É incipiente porque frágil
algo denso mas feito de
uma carne
orgânica e a desordenada
envolta por uma camada
de pele tão fina
tão à flor da pele
que penso que ele
vai romper
e seu conteúdo
estranho
vai se tornar visível
uma pele tão fina
tão rosa
tão transparente
fico com meu pau
na mão diante
do espelho
Me prometo que não
vou dormir
mas examiná-lo
em todos os seus detalhes
Talvez dar a ele uma duração
que prove a viabilidade
de um ser tão frágil
e dolorido
que ousa assim mostrar-se
pedir com delicadeza
um lugar no mundo
Tocam a campainha
e vou despachar quem bate
para voltar para junto
dele
Mas na volta
entre minhas
mãos
ele também se
foi
deixando como resto
um simples fio
III
O meu pau
sob uma pele
fina
frágil
rosa
uma carne
sem liga
uma carne amontoada
ali dentro
algo doce
e ao mesmo tempo
terrível
Agora sim é disforme
porque algo estranho
alguma entranha
vai sair dali
Me mantenho desperta
para olhar o pau
a sua cabeça
que é roxa
que é rosa
IV
Diante de um espelho
mas alguém bate na porta
eu vou atender
e despachar quem bate
Mas na volta
procuro o pau
e não há mais
só algo que míngua
entre as mãos
dentro do pijama
até se tornar
um fio
V
Há uma ponte no tempo
como há uma ponte
entre os sonhos
Agora sei que foi nessa ponte
que um dia encontrei o doidinho
o pau do doidinho
é o meu pau
Eu e o doidinho
o meu pau e o dele
no qual naquele
dia me amarrei
estão ligados
envoltos
na pele
de um cordão
umbilical
VI
Frágil
fino
rosa
roxo
dolorido
e
doce
terráqueo
e extraplanetário
como eu e o doidinho
como eu, o doidinho e você
658
Simone Brantes
O pau do doidinho
I
O doidinho me encontrou
uma vez sobre a ponte
O doidinho era só um pouco mais
velho que eu
irmão mais novo
de um menino com quem
eu jogava bola
O doidinho tirou
o pau de dentro
da calça
e me mostrou
Eu pedalei minha bicicleta
para longe
enquanto ele aflito
perguntava
– quer, quer, quer?
Me disseram que
até a morte do doidinho
ele tinha um medo
pânico e inexplicável
do meu pai
que ninguém sabia
por que
Hoje eu queria
poder dizer pro doidinho
que por muitos
anos eu me masturbei
pensando naquele
seu pau
que eu vi num relance
mas com a maior nitidez
um pau
roxo e cheio de veias
Que depois nenhum pau
pôde ser para mim O PAU
o arqui-pau
o pau do
doidinho
II
Tenho
um pau
acordo de noite
dentro de um sonho
e lá está ele
como sempre
incipiente
Não por ser pequeno
Não por ser disforme
Ele não é pequeno
não é disforme
É um pau quase igual a
qualquer outro
pau
É incipiente porque frágil
algo denso mas feito de
uma carne
orgânica e a desordenada
envolta por uma camada
de pele tão fina
tão à flor da pele
que penso que ele
vai romper
e seu conteúdo
estranho
vai se tornar visível
uma pele tão fina
tão rosa
tão transparente
fico com meu pau
na mão diante
do espelho
Me prometo que não
vou dormir
mas examiná-lo
em todos os seus detalhes
Talvez dar a ele uma duração
que prove a viabilidade
de um ser tão frágil
e dolorido
que ousa assim mostrar-se
pedir com delicadeza
um lugar no mundo
Tocam a campainha
e vou despachar quem bate
para voltar para junto
dele
Mas na volta
entre minhas
mãos
ele também se
foi
deixando como resto
um simples fio
III
O meu pau
sob uma pele
fina
frágil
rosa
uma carne
sem liga
uma carne amontoada
ali dentro
algo doce
e ao mesmo tempo
terrível
Agora sim é disforme
porque algo estranho
alguma entranha
vai sair dali
Me mantenho desperta
para olhar o pau
a sua cabeça
que é roxa
que é rosa
IV
Diante de um espelho
mas alguém bate na porta
eu vou atender
e despachar quem bate
Mas na volta
procuro o pau
e não há mais
só algo que míngua
entre as mãos
dentro do pijama
até se tornar
um fio
V
Há uma ponte no tempo
como há uma ponte
entre os sonhos
Agora sei que foi nessa ponte
que um dia encontrei o doidinho
o pau do doidinho
é o meu pau
Eu e o doidinho
o meu pau e o dele
no qual naquele
dia me amarrei
estão ligados
envoltos
na pele
de um cordão
umbilical
VI
Frágil
fino
rosa
roxo
dolorido
e
doce
terráqueo
e extraplanetário
como eu e o doidinho
como eu, o doidinho e você
O doidinho me encontrou
uma vez sobre a ponte
O doidinho era só um pouco mais
velho que eu
irmão mais novo
de um menino com quem
eu jogava bola
O doidinho tirou
o pau de dentro
da calça
e me mostrou
Eu pedalei minha bicicleta
para longe
enquanto ele aflito
perguntava
– quer, quer, quer?
Me disseram que
até a morte do doidinho
ele tinha um medo
pânico e inexplicável
do meu pai
que ninguém sabia
por que
Hoje eu queria
poder dizer pro doidinho
que por muitos
anos eu me masturbei
pensando naquele
seu pau
que eu vi num relance
mas com a maior nitidez
um pau
roxo e cheio de veias
Que depois nenhum pau
pôde ser para mim O PAU
o arqui-pau
o pau do
doidinho
II
Tenho
um pau
acordo de noite
dentro de um sonho
e lá está ele
como sempre
incipiente
Não por ser pequeno
Não por ser disforme
Ele não é pequeno
não é disforme
É um pau quase igual a
qualquer outro
pau
É incipiente porque frágil
algo denso mas feito de
uma carne
orgânica e a desordenada
envolta por uma camada
de pele tão fina
tão à flor da pele
que penso que ele
vai romper
e seu conteúdo
estranho
vai se tornar visível
uma pele tão fina
tão rosa
tão transparente
fico com meu pau
na mão diante
do espelho
Me prometo que não
vou dormir
mas examiná-lo
em todos os seus detalhes
Talvez dar a ele uma duração
que prove a viabilidade
de um ser tão frágil
e dolorido
que ousa assim mostrar-se
pedir com delicadeza
um lugar no mundo
Tocam a campainha
e vou despachar quem bate
para voltar para junto
dele
Mas na volta
entre minhas
mãos
ele também se
foi
deixando como resto
um simples fio
III
O meu pau
sob uma pele
fina
frágil
rosa
uma carne
sem liga
uma carne amontoada
ali dentro
algo doce
e ao mesmo tempo
terrível
Agora sim é disforme
porque algo estranho
alguma entranha
vai sair dali
Me mantenho desperta
para olhar o pau
a sua cabeça
que é roxa
que é rosa
IV
Diante de um espelho
mas alguém bate na porta
eu vou atender
e despachar quem bate
Mas na volta
procuro o pau
e não há mais
só algo que míngua
entre as mãos
dentro do pijama
até se tornar
um fio
V
Há uma ponte no tempo
como há uma ponte
entre os sonhos
Agora sei que foi nessa ponte
que um dia encontrei o doidinho
o pau do doidinho
é o meu pau
Eu e o doidinho
o meu pau e o dele
no qual naquele
dia me amarrei
estão ligados
envoltos
na pele
de um cordão
umbilical
VI
Frágil
fino
rosa
roxo
dolorido
e
doce
terráqueo
e extraplanetário
como eu e o doidinho
como eu, o doidinho e você
658
Paulo Teixeira
Os contendores
Eles lutaram a medir a sua por uma força maior,
tendo na penumbra lêveda do quarto
o campo de batalha e no outro o fim a alcançar.
Entre investidas e recuos, golfes desferidos
no ar com os punhos e sevícia nas palavras,
um adiantou-se a deitar o outro por terra.
Este buscava, furtando-se ao peso do corpo, breve,
um suprimento de ar, mas enlanguescia a demorar
depois essa intimidade no espaço fechado.
O primeiro olhava com faces sanguíneas
do alto, como presa ao seu alcance,
o amigo confinado nesse abraço circunpolar.
Ao reduzir uma antiga distância pronominal,
aproximou-lhe do ouvido a boca a segredar
cantada, como um sentimento, a sua vitória.
tendo na penumbra lêveda do quarto
o campo de batalha e no outro o fim a alcançar.
Entre investidas e recuos, golfes desferidos
no ar com os punhos e sevícia nas palavras,
um adiantou-se a deitar o outro por terra.
Este buscava, furtando-se ao peso do corpo, breve,
um suprimento de ar, mas enlanguescia a demorar
depois essa intimidade no espaço fechado.
O primeiro olhava com faces sanguíneas
do alto, como presa ao seu alcance,
o amigo confinado nesse abraço circunpolar.
Ao reduzir uma antiga distância pronominal,
aproximou-lhe do ouvido a boca a segredar
cantada, como um sentimento, a sua vitória.
646
Paulo Teixeira
Árvore dos corvos
I
São uma coroa fúnebre
nos ramos da árvore posta.
II
O bater das suas asas é agora
o rumor das folhas que lhe faltam.
III
Nublada pelo círculo das suas vozes
e cativa como moldura para o sono.
IV
O vento estuda-lhe os gestos,
não se sabe se numa dança ébria
V
ou em acenos que ficaram gravados
como serpente enleada até às raízes em pleno ar.
VI
Sabe como demora deixar de ser,
sumir-se a partir de dentro,
VII
cadáver decompondo-se ainda em vida
num outeiro com vista sobre o mar.
São uma coroa fúnebre
nos ramos da árvore posta.
II
O bater das suas asas é agora
o rumor das folhas que lhe faltam.
III
Nublada pelo círculo das suas vozes
e cativa como moldura para o sono.
IV
O vento estuda-lhe os gestos,
não se sabe se numa dança ébria
V
ou em acenos que ficaram gravados
como serpente enleada até às raízes em pleno ar.
VI
Sabe como demora deixar de ser,
sumir-se a partir de dentro,
VII
cadáver decompondo-se ainda em vida
num outeiro com vista sobre o mar.
673
António Carlos Cortez
Um barco no rio
Rompem barcos
em Lisboa
na barra e
entram devagar
na lâmina da página
comigo a olhar
a ossatura do poema
a escrever-se no seu
máximo equilíbrio
Um barco no rio
foi o título
que dei ao livro
onde falei desse animal
mnemónico que traz
à superfície os meus olhos
a esse animal do sul
em aresta viva dedico
afinal desde que escrevo
a viva memória do que lembro
em Lisboa
na barra e
entram devagar
na lâmina da página
comigo a olhar
a ossatura do poema
a escrever-se no seu
máximo equilíbrio
Um barco no rio
foi o título
que dei ao livro
onde falei desse animal
mnemónico que traz
à superfície os meus olhos
a esse animal do sul
em aresta viva dedico
afinal desde que escrevo
a viva memória do que lembro
795
Carlos Soulié do Amaral
Espelho III
Enquanto nessa frente fria brilha
o peso do passado, o contratempo
do presente se torce numa trilha
sem saída aparente. E sem retorno.
Então é que se faz urgente ver
de novo o que há de novo longe e fora
da fira frente, e mergulhar no forno
do dia, e incandescer todo o universo.
Se o que contempla não enxerga mais
em si o portal da lendas e aventuras,
há que entender o espelho de outro modo
e ser, do que se vê, o contrário, o inverso.
o peso do passado, o contratempo
do presente se torce numa trilha
sem saída aparente. E sem retorno.
Então é que se faz urgente ver
de novo o que há de novo longe e fora
da fira frente, e mergulhar no forno
do dia, e incandescer todo o universo.
Se o que contempla não enxerga mais
em si o portal da lendas e aventuras,
há que entender o espelho de outro modo
e ser, do que se vê, o contrário, o inverso.
719
Carlos Soulié do Amaral
Espelho III
Enquanto nessa frente fria brilha
o peso do passado, o contratempo
do presente se torce numa trilha
sem saída aparente. E sem retorno.
Então é que se faz urgente ver
de novo o que há de novo longe e fora
da fira frente, e mergulhar no forno
do dia, e incandescer todo o universo.
Se o que contempla não enxerga mais
em si o portal da lendas e aventuras,
há que entender o espelho de outro modo
e ser, do que se vê, o contrário, o inverso.
o peso do passado, o contratempo
do presente se torce numa trilha
sem saída aparente. E sem retorno.
Então é que se faz urgente ver
de novo o que há de novo longe e fora
da fira frente, e mergulhar no forno
do dia, e incandescer todo o universo.
Se o que contempla não enxerga mais
em si o portal da lendas e aventuras,
há que entender o espelho de outro modo
e ser, do que se vê, o contrário, o inverso.
719