Poemas neste tema
Vida e Existência
Tomas Tranströmer
SOLSTÍCIO DE INVERNO
Um brilho azul
escorre da minha roupa.
Solstício de Inverno
Pandeiretas de gelos tilintantes.
É um mundo silencioso,
é uma fenda
ali os mortos são passados
clandestinamente pelas fronteiras.
escorre da minha roupa.
Solstício de Inverno
Pandeiretas de gelos tilintantes.
É um mundo silencioso,
é uma fenda
ali os mortos são passados
clandestinamente pelas fronteiras.
890
Mauro Mota
INSTANTÂNEO
No pátio da igreja de São Sebastião,
depois da missa cantada e da comunhão,
Dona Santinha, em perfeito estado de graça,
com o véu, o livro e o terço na mão,
murmurava a um grupinho que Padre João
estava, na sacristia, se derretendo
para a filha mais nova do sacristão.
depois da missa cantada e da comunhão,
Dona Santinha, em perfeito estado de graça,
com o véu, o livro e o terço na mão,
murmurava a um grupinho que Padre João
estava, na sacristia, se derretendo
para a filha mais nova do sacristão.
630
Tomas Tranströmer
CARA A CARA
Em Fevereiro a vida parou.
Os pássaros não gostavam de voar e a alma
esfregava-se na paisagem como um barco
que se esfrega ao passadiço, onde está amarrado.
As árvores estavam de costas viradas para aqui.
Talos mortos mediam a profundidade da neve.
Pegadas envelheciam na neve áspera.
Sob um toldo a linguagem definhava.
Um dia apareceu uma coisa à janela.
O trabalho parou e eu ergui os olhos.
As cores ardiam. Tudo se transformara.
O solo e eu demos um salto em direcção um ao outro.
Os pássaros não gostavam de voar e a alma
esfregava-se na paisagem como um barco
que se esfrega ao passadiço, onde está amarrado.
As árvores estavam de costas viradas para aqui.
Talos mortos mediam a profundidade da neve.
Pegadas envelheciam na neve áspera.
Sob um toldo a linguagem definhava.
Um dia apareceu uma coisa à janela.
O trabalho parou e eu ergui os olhos.
As cores ardiam. Tudo se transformara.
O solo e eu demos um salto em direcção um ao outro.
830
Mauro Mota
Miragem
Amigo:
A vida é um lago cristalino…
Ele guarda consigo
o segredo eternal do teu destino!
Vês? É uma noite de prata!
E, lá no fundo do lago,
a lua se retrata…
Numa atitude de cegonha,
sonhador, como quem sonha
um sonho vago,
contempla aquela imagem lá no fundo
do lago…
Ela é a felicidade deste mundo!
No entanto,
si a buscasses tocando a superfície quieta,
a água se turvaria! morreria o teu canto
de poeta…
É que, por culpa tua,
desvendando o segredo do destino,
jamais verias, no lago cristalino,
a imagem da lua! a imagem da lua!
A vida é um lago cristalino…
Ele guarda consigo
o segredo eternal do teu destino!
Vês? É uma noite de prata!
E, lá no fundo do lago,
a lua se retrata…
Numa atitude de cegonha,
sonhador, como quem sonha
um sonho vago,
contempla aquela imagem lá no fundo
do lago…
Ela é a felicidade deste mundo!
No entanto,
si a buscasses tocando a superfície quieta,
a água se turvaria! morreria o teu canto
de poeta…
É que, por culpa tua,
desvendando o segredo do destino,
jamais verias, no lago cristalino,
a imagem da lua! a imagem da lua!
759
Nelly Sachs
MAS QUEM
Mas quem bateu a areia de vossos sapatos,
Quando tivestes de vos levantar para morrer?
A areia que Israel trouxe para casa,
Sua areia peregrina?
Ardente areia do Sinai,
Misturada com as gargantas dos rouxinóis,
Misturada com as asas da borboleta,
Misturada com o pó nostálgico das serpentes,
Misturada com tudo que transbordou da sabedoria de Salomão,
Misturada com o amargor do mistério do absinto –
Ó dedos,
Que batestes a areia dos sapatos dos mortos,
Já amanhã sereis pó
Nos sapatos dos vindouros!
Quando tivestes de vos levantar para morrer?
A areia que Israel trouxe para casa,
Sua areia peregrina?
Ardente areia do Sinai,
Misturada com as gargantas dos rouxinóis,
Misturada com as asas da borboleta,
Misturada com o pó nostálgico das serpentes,
Misturada com tudo que transbordou da sabedoria de Salomão,
Misturada com o amargor do mistério do absinto –
Ó dedos,
Que batestes a areia dos sapatos dos mortos,
Já amanhã sereis pó
Nos sapatos dos vindouros!
725
Nelly Sachs
MAS QUEM
Mas quem bateu a areia de vossos sapatos,
Quando tivestes de vos levantar para morrer?
A areia que Israel trouxe para casa,
Sua areia peregrina?
Ardente areia do Sinai,
Misturada com as gargantas dos rouxinóis,
Misturada com as asas da borboleta,
Misturada com o pó nostálgico das serpentes,
Misturada com tudo que transbordou da sabedoria de Salomão,
Misturada com o amargor do mistério do absinto –
Ó dedos,
Que batestes a areia dos sapatos dos mortos,
Já amanhã sereis pó
Nos sapatos dos vindouros!
Quando tivestes de vos levantar para morrer?
A areia que Israel trouxe para casa,
Sua areia peregrina?
Ardente areia do Sinai,
Misturada com as gargantas dos rouxinóis,
Misturada com as asas da borboleta,
Misturada com o pó nostálgico das serpentes,
Misturada com tudo que transbordou da sabedoria de Salomão,
Misturada com o amargor do mistério do absinto –
Ó dedos,
Que batestes a areia dos sapatos dos mortos,
Já amanhã sereis pó
Nos sapatos dos vindouros!
725
Nelly Sachs
MAS QUEM
Mas quem bateu a areia de vossos sapatos,
Quando tivestes de vos levantar para morrer?
A areia que Israel trouxe para casa,
Sua areia peregrina?
Ardente areia do Sinai,
Misturada com as gargantas dos rouxinóis,
Misturada com as asas da borboleta,
Misturada com o pó nostálgico das serpentes,
Misturada com tudo que transbordou da sabedoria de Salomão,
Misturada com o amargor do mistério do absinto –
Ó dedos,
Que batestes a areia dos sapatos dos mortos,
Já amanhã sereis pó
Nos sapatos dos vindouros!
Quando tivestes de vos levantar para morrer?
A areia que Israel trouxe para casa,
Sua areia peregrina?
Ardente areia do Sinai,
Misturada com as gargantas dos rouxinóis,
Misturada com as asas da borboleta,
Misturada com o pó nostálgico das serpentes,
Misturada com tudo que transbordou da sabedoria de Salomão,
Misturada com o amargor do mistério do absinto –
Ó dedos,
Que batestes a areia dos sapatos dos mortos,
Já amanhã sereis pó
Nos sapatos dos vindouros!
725
António Borges Coelho
Quando a noite curva os ombros
Quando a noite curva os ombros
mergulhando-nos nas coisas
apagando o espaço
que busco no teu corpo
porque me deito sobre o teu ventre
Encosto o ouvido
ao pulsar do seio
queimamo-nos lentamente
para acender o sol
mergulhando-nos nas coisas
apagando o espaço
que busco no teu corpo
porque me deito sobre o teu ventre
Encosto o ouvido
ao pulsar do seio
queimamo-nos lentamente
para acender o sol
731
Paio Soares de Taveirós
Cantiga de amor
Como morreu quem nunca amar
se faz pela coisa que mais amou,
e quanto dela receou
sofreu, morrendo de pesar,
ai, minha senhora, assim morro eu.
Como morreu quem foi amar
quem nunca bem lhe quis fazer,
e de quem Deus lhe fez saber
que a morte havia de alcançar,
ai, minha senhora, assim morro eu.
Igual ao homem que endoideceu
com a grande mágoa que sentiu,
senhora, e nunca mais dormiu,
perdeu a paz, depois morreu,
ai, minha senhora, assim morro eu.
Como morreu quem amou tal
mulher que nunca lhe quis bem
e a viu levada por alguém
que a não valia nem a vale,
ai, minha senhora, assim morro eu.
Português antigo
Como morreu quen nunca ben
houve da ren que máis amou,
e quen viu quanto receou
dela, e foi morto por én:
ai mia senhor, assí moir'eu!
Como morreu quen foi amar
quen lhe nunca quis ben fazer,
e de quen lhe fez Deus veer
de que foi morto con pesar:
ai mia senhor, assí moir'eu!
Com'home que ensandeceu,
senhor, con gran pesar que viu,
e non foi ledo nen dormiu
depois, mia senhor, e morreu:
ai mia senhor, assí moir'eu!
Como morreu quen amou tal
dona que lhe nunca fez ben,
e quen a viu levar a quen
a non valía, nen a val:
ai mia senhor, assí moir'eu!
se faz pela coisa que mais amou,
e quanto dela receou
sofreu, morrendo de pesar,
ai, minha senhora, assim morro eu.
Como morreu quem foi amar
quem nunca bem lhe quis fazer,
e de quem Deus lhe fez saber
que a morte havia de alcançar,
ai, minha senhora, assim morro eu.
Igual ao homem que endoideceu
com a grande mágoa que sentiu,
senhora, e nunca mais dormiu,
perdeu a paz, depois morreu,
ai, minha senhora, assim morro eu.
Como morreu quem amou tal
mulher que nunca lhe quis bem
e a viu levada por alguém
que a não valia nem a vale,
ai, minha senhora, assim morro eu.
Português antigo
Como morreu quen nunca ben
houve da ren que máis amou,
e quen viu quanto receou
dela, e foi morto por én:
ai mia senhor, assí moir'eu!
Como morreu quen foi amar
quen lhe nunca quis ben fazer,
e de quen lhe fez Deus veer
de que foi morto con pesar:
ai mia senhor, assí moir'eu!
Com'home que ensandeceu,
senhor, con gran pesar que viu,
e non foi ledo nen dormiu
depois, mia senhor, e morreu:
ai mia senhor, assí moir'eu!
Como morreu quen amou tal
dona que lhe nunca fez ben,
e quen a viu levar a quen
a non valía, nen a val:
ai mia senhor, assí moir'eu!
3 678
Inger Christensen
A minha casa é um bosque
A minha casa é um bosque de bétulas na tempestade
mantém a terra firme
a minha casa é o vidro da janela sob a saraivada de granizo
mantém a parede firme
a minha casa é uma dor na pelve
mantém o corpo firme
Frágil é a minha casa
segura firme no ar rarefeito do amor
mantém a terra firme
a minha casa é o vidro da janela sob a saraivada de granizo
mantém a parede firme
a minha casa é uma dor na pelve
mantém o corpo firme
Frágil é a minha casa
segura firme no ar rarefeito do amor
747
Fernando Echevarría
A Nossa Inteligência as Está Vendo
A nossa inteligência as está vendo
quando, da luz da sua rodeadas,
criam a brisa pelo movimento
com que entram para o espaço das palavras.
Por ora irem mensura ainda o tempo
de aparecerem zonas sombreadas
conforme vinca músculos o lento
vaivém de luzes que organiza a marcha.
Mas caminham de fora para dentro.
Dentro de brisas diáfanas
onde, enigmático, se esconde esse silêncio
de que surdem figuras entrando nas palavras.
quando, da luz da sua rodeadas,
criam a brisa pelo movimento
com que entram para o espaço das palavras.
Por ora irem mensura ainda o tempo
de aparecerem zonas sombreadas
conforme vinca músculos o lento
vaivém de luzes que organiza a marcha.
Mas caminham de fora para dentro.
Dentro de brisas diáfanas
onde, enigmático, se esconde esse silêncio
de que surdem figuras entrando nas palavras.
777
Fernando Echevarría
Lentos nos Fomos Esquecendo
Lentos nos fomos esquecendo. Quando
o tempo da velhice nos foi vindo
a tez apareceu amorenada de anos
e afeita ao espírito.
A lavoura sabia aos nossos passos.
Até os desperdícios
iluminavam debilmente o armário
e a penumbra dos rincões escritos.
Mas nós só estávamos
em nos havermos esquecido.
Ou, às vezes, a aura do trabalho
quase fazia com que na mesa o sítio
aparecesse coroado de anos
sobre a mão a mover-se pelo seu próprio espírito.
o tempo da velhice nos foi vindo
a tez apareceu amorenada de anos
e afeita ao espírito.
A lavoura sabia aos nossos passos.
Até os desperdícios
iluminavam debilmente o armário
e a penumbra dos rincões escritos.
Mas nós só estávamos
em nos havermos esquecido.
Ou, às vezes, a aura do trabalho
quase fazia com que na mesa o sítio
aparecesse coroado de anos
sobre a mão a mover-se pelo seu próprio espírito.
671
Fernando Echevarría
Lentos nos Fomos Esquecendo
Lentos nos fomos esquecendo. Quando
o tempo da velhice nos foi vindo
a tez apareceu amorenada de anos
e afeita ao espírito.
A lavoura sabia aos nossos passos.
Até os desperdícios
iluminavam debilmente o armário
e a penumbra dos rincões escritos.
Mas nós só estávamos
em nos havermos esquecido.
Ou, às vezes, a aura do trabalho
quase fazia com que na mesa o sítio
aparecesse coroado de anos
sobre a mão a mover-se pelo seu próprio espírito.
o tempo da velhice nos foi vindo
a tez apareceu amorenada de anos
e afeita ao espírito.
A lavoura sabia aos nossos passos.
Até os desperdícios
iluminavam debilmente o armário
e a penumbra dos rincões escritos.
Mas nós só estávamos
em nos havermos esquecido.
Ou, às vezes, a aura do trabalho
quase fazia com que na mesa o sítio
aparecesse coroado de anos
sobre a mão a mover-se pelo seu próprio espírito.
671
Fernando Echevarría
Lentos nos Fomos Esquecendo
Lentos nos fomos esquecendo. Quando
o tempo da velhice nos foi vindo
a tez apareceu amorenada de anos
e afeita ao espírito.
A lavoura sabia aos nossos passos.
Até os desperdícios
iluminavam debilmente o armário
e a penumbra dos rincões escritos.
Mas nós só estávamos
em nos havermos esquecido.
Ou, às vezes, a aura do trabalho
quase fazia com que na mesa o sítio
aparecesse coroado de anos
sobre a mão a mover-se pelo seu próprio espírito.
o tempo da velhice nos foi vindo
a tez apareceu amorenada de anos
e afeita ao espírito.
A lavoura sabia aos nossos passos.
Até os desperdícios
iluminavam debilmente o armário
e a penumbra dos rincões escritos.
Mas nós só estávamos
em nos havermos esquecido.
Ou, às vezes, a aura do trabalho
quase fazia com que na mesa o sítio
aparecesse coroado de anos
sobre a mão a mover-se pelo seu próprio espírito.
671
Alfredo Pedro de Meneses Guisado
BALOIÇO
Na minha quinta, em pequeno,
Tive um inquieto baloiço
Que ainda o vejo sereno
E nele os meus gritos oiço.
Longas horas baloiçava
Meu frágil corpo menino.
E ora subia ou baixava
Num constante desatino.
Nesse baloiço, à distância,
Chama por mim minha infância
E eu chamo p'lo que passou.
E sem haver quem me oiça
O baloiço me baloiça
Entre o que fui e o que sou.
Tive um inquieto baloiço
Que ainda o vejo sereno
E nele os meus gritos oiço.
Longas horas baloiçava
Meu frágil corpo menino.
E ora subia ou baixava
Num constante desatino.
Nesse baloiço, à distância,
Chama por mim minha infância
E eu chamo p'lo que passou.
E sem haver quem me oiça
O baloiço me baloiça
Entre o que fui e o que sou.
1 067
Alfredo Pedro de Meneses Guisado
BALOIÇO
Na minha quinta, em pequeno,
Tive um inquieto baloiço
Que ainda o vejo sereno
E nele os meus gritos oiço.
Longas horas baloiçava
Meu frágil corpo menino.
E ora subia ou baixava
Num constante desatino.
Nesse baloiço, à distância,
Chama por mim minha infância
E eu chamo p'lo que passou.
E sem haver quem me oiça
O baloiço me baloiça
Entre o que fui e o que sou.
Tive um inquieto baloiço
Que ainda o vejo sereno
E nele os meus gritos oiço.
Longas horas baloiçava
Meu frágil corpo menino.
E ora subia ou baixava
Num constante desatino.
Nesse baloiço, à distância,
Chama por mim minha infância
E eu chamo p'lo que passou.
E sem haver quem me oiça
O baloiço me baloiça
Entre o que fui e o que sou.
1 067
Alfredo Pedro de Meneses Guisado
BALOIÇO
Na minha quinta, em pequeno,
Tive um inquieto baloiço
Que ainda o vejo sereno
E nele os meus gritos oiço.
Longas horas baloiçava
Meu frágil corpo menino.
E ora subia ou baixava
Num constante desatino.
Nesse baloiço, à distância,
Chama por mim minha infância
E eu chamo p'lo que passou.
E sem haver quem me oiça
O baloiço me baloiça
Entre o que fui e o que sou.
Tive um inquieto baloiço
Que ainda o vejo sereno
E nele os meus gritos oiço.
Longas horas baloiçava
Meu frágil corpo menino.
E ora subia ou baixava
Num constante desatino.
Nesse baloiço, à distância,
Chama por mim minha infância
E eu chamo p'lo que passou.
E sem haver quem me oiça
O baloiço me baloiça
Entre o que fui e o que sou.
1 067
Alfredo Pedro de Meneses Guisado
BALOIÇO
Na minha quinta, em pequeno,
Tive um inquieto baloiço
Que ainda o vejo sereno
E nele os meus gritos oiço.
Longas horas baloiçava
Meu frágil corpo menino.
E ora subia ou baixava
Num constante desatino.
Nesse baloiço, à distância,
Chama por mim minha infância
E eu chamo p'lo que passou.
E sem haver quem me oiça
O baloiço me baloiça
Entre o que fui e o que sou.
Tive um inquieto baloiço
Que ainda o vejo sereno
E nele os meus gritos oiço.
Longas horas baloiçava
Meu frágil corpo menino.
E ora subia ou baixava
Num constante desatino.
Nesse baloiço, à distância,
Chama por mim minha infância
E eu chamo p'lo que passou.
E sem haver quem me oiça
O baloiço me baloiça
Entre o que fui e o que sou.
1 067
António Borges Coelho
Balouça as folhas
Balouça as folhas rústica a varrer
a terra verdes fazem de toalha
cobrindo os frutos verdes quase roxos
a barriga vermelha há milénios
que serve o homem com seu verde mel
mas Judas enforcou-se nos seus ramos
e quando não deu fruto o próprio Cristo
a declarou maldita o vento oeste
dobrou-a sobre o barro descarnou-a
esbarrondou-lhe o tronco as raízes
fincaram-se na terra ladras de água
curvada à maldição inclina os ramos
desfaz-se em fruto embala preso à corda
o cadáver de todos os malditos
a terra verdes fazem de toalha
cobrindo os frutos verdes quase roxos
a barriga vermelha há milénios
que serve o homem com seu verde mel
mas Judas enforcou-se nos seus ramos
e quando não deu fruto o próprio Cristo
a declarou maldita o vento oeste
dobrou-a sobre o barro descarnou-a
esbarrondou-lhe o tronco as raízes
fincaram-se na terra ladras de água
curvada à maldição inclina os ramos
desfaz-se em fruto embala preso à corda
o cadáver de todos os malditos
1 117
António Borges Coelho
Balouça as folhas
Balouça as folhas rústica a varrer
a terra verdes fazem de toalha
cobrindo os frutos verdes quase roxos
a barriga vermelha há milénios
que serve o homem com seu verde mel
mas Judas enforcou-se nos seus ramos
e quando não deu fruto o próprio Cristo
a declarou maldita o vento oeste
dobrou-a sobre o barro descarnou-a
esbarrondou-lhe o tronco as raízes
fincaram-se na terra ladras de água
curvada à maldição inclina os ramos
desfaz-se em fruto embala preso à corda
o cadáver de todos os malditos
a terra verdes fazem de toalha
cobrindo os frutos verdes quase roxos
a barriga vermelha há milénios
que serve o homem com seu verde mel
mas Judas enforcou-se nos seus ramos
e quando não deu fruto o próprio Cristo
a declarou maldita o vento oeste
dobrou-a sobre o barro descarnou-a
esbarrondou-lhe o tronco as raízes
fincaram-se na terra ladras de água
curvada à maldição inclina os ramos
desfaz-se em fruto embala preso à corda
o cadáver de todos os malditos
1 117
Yi Sáng
Poema n. 9
For te ven ta ni a to dos os di as e fi nal men te uma gran de mão
as sen ta so bre a mi nha cin tu ra. As sim que o chei ro do meu
su or al can çar o ma ra vi lho so va le da im pres sões di gi tais, a
ti re! He de a ti rar! Sin to o pe so do ca no do re vól ver so bre o
meu a pa re lho di ges ti vo e sin to a su per fí cie li sa de sua pon
ta den tro da mi nha bo ca cer ra da. Pou co de pois, fe cho os o
lhos co mo quem dá um ti ro, mas o que foi is to que cus pi pe la
bo ca no lu gar de um pro jé til?
as sen ta so bre a mi nha cin tu ra. As sim que o chei ro do meu
su or al can çar o ma ra vi lho so va le da im pres sões di gi tais, a
ti re! He de a ti rar! Sin to o pe so do ca no do re vól ver so bre o
meu a pa re lho di ges ti vo e sin to a su per fí cie li sa de sua pon
ta den tro da mi nha bo ca cer ra da. Pou co de pois, fe cho os o
lhos co mo quem dá um ti ro, mas o que foi is to que cus pi pe la
bo ca no lu gar de um pro jé til?
623
Fernando Echevarría
A Solidão é Sempre Fundamento da Liberdade
A solidão é sempre fundamento
da liberdade. Mas também do espaço
por onde se desenvolve o alargar do tempo
à volta da atenção estrita do acto.
Húmus, e alma, é a solidão. E vento,
quando da imóvel solenidade clama
o mudo susto do grito, ainda suspenso
do nome que vai ser sua prisão pensada.
A menos que esse nome seja estremecimento
fruto de solidão compenetrada
que, por dentro da sombra, nomeia o movimento
de cada corpo entrando por sua luz sagrada.
da liberdade. Mas também do espaço
por onde se desenvolve o alargar do tempo
à volta da atenção estrita do acto.
Húmus, e alma, é a solidão. E vento,
quando da imóvel solenidade clama
o mudo susto do grito, ainda suspenso
do nome que vai ser sua prisão pensada.
A menos que esse nome seja estremecimento
fruto de solidão compenetrada
que, por dentro da sombra, nomeia o movimento
de cada corpo entrando por sua luz sagrada.
862
Fernando Echevarría
A Solidão é Sempre Fundamento da Liberdade
A solidão é sempre fundamento
da liberdade. Mas também do espaço
por onde se desenvolve o alargar do tempo
à volta da atenção estrita do acto.
Húmus, e alma, é a solidão. E vento,
quando da imóvel solenidade clama
o mudo susto do grito, ainda suspenso
do nome que vai ser sua prisão pensada.
A menos que esse nome seja estremecimento
fruto de solidão compenetrada
que, por dentro da sombra, nomeia o movimento
de cada corpo entrando por sua luz sagrada.
da liberdade. Mas também do espaço
por onde se desenvolve o alargar do tempo
à volta da atenção estrita do acto.
Húmus, e alma, é a solidão. E vento,
quando da imóvel solenidade clama
o mudo susto do grito, ainda suspenso
do nome que vai ser sua prisão pensada.
A menos que esse nome seja estremecimento
fruto de solidão compenetrada
que, por dentro da sombra, nomeia o movimento
de cada corpo entrando por sua luz sagrada.
862
Mário Chamie
Plantio
Lavrado o trato, fica o homem em seu domínio.
Joga o jogo do roçado. Calca a planta do plantio,
cava a cova para a sobra. Mas se o jogo que ele
joga faz do ganho o seu contrário, dá em troça
com o contrato então lavrado.
Cava,
então descansa.
Enxada: fio de corte corre o braço
de cima
e marca: pés, pés de barro.
Cova.
Joga,
então não pensa.
Semente; grão de poda larga a palma
de lado
e sonda: foz, foz de água.
Cava.
Calca
e não relembra.
Demência; mão de louco lança a pedra
de perto
e sopra: céu, céu de treva.
Cova.
Molha
e não dispensa.
Adubo; pó de esterco mancha o lodo
de longo
e forma: nó, nó de mofo.
Joga.
Troca,
então condena.
Contrato; quê de paga perde o ganho
de hora
e troça: mais, mais de ano.
Calca.
Cova:
e não se espanta.
Plantio; fé e safra sofre o homem
de morte
e morre: rês, rés de fome
cava.
Joga o jogo do roçado. Calca a planta do plantio,
cava a cova para a sobra. Mas se o jogo que ele
joga faz do ganho o seu contrário, dá em troça
com o contrato então lavrado.
Cava,
então descansa.
Enxada: fio de corte corre o braço
de cima
e marca: pés, pés de barro.
Cova.
Joga,
então não pensa.
Semente; grão de poda larga a palma
de lado
e sonda: foz, foz de água.
Cava.
Calca
e não relembra.
Demência; mão de louco lança a pedra
de perto
e sopra: céu, céu de treva.
Cova.
Molha
e não dispensa.
Adubo; pó de esterco mancha o lodo
de longo
e forma: nó, nó de mofo.
Joga.
Troca,
então condena.
Contrato; quê de paga perde o ganho
de hora
e troça: mais, mais de ano.
Calca.
Cova:
e não se espanta.
Plantio; fé e safra sofre o homem
de morte
e morre: rês, rés de fome
cava.
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