Poemas neste tema
Vida e Existência
Pablo Neruda
Manhã - XXX
Tens do arquipélago as fibras do alerce,
a carne trabalhada pelos séculos do tempo,
veias que conheceram o mar das madeiras,
sangue verde caído do céu à memória.
Ninguém recolherá meu coração perdido
entre tantas raízes, no frescor amargo
do sol multiplicado pela fúria da água,
ali vive a sombra que não viaja comigo.
Por isso tu saíste do Sul como uma ilha
povoada e coroada por plumas e madeira
e eu senti o aroma dos bosques errantes,
achei o mel escuro que conheci na selva,
e toquei em teus quadris as pétalas sombrias
que nasceram comigo e construíram minha alma.
a carne trabalhada pelos séculos do tempo,
veias que conheceram o mar das madeiras,
sangue verde caído do céu à memória.
Ninguém recolherá meu coração perdido
entre tantas raízes, no frescor amargo
do sol multiplicado pela fúria da água,
ali vive a sombra que não viaja comigo.
Por isso tu saíste do Sul como uma ilha
povoada e coroada por plumas e madeira
e eu senti o aroma dos bosques errantes,
achei o mel escuro que conheci na selva,
e toquei em teus quadris as pétalas sombrias
que nasceram comigo e construíram minha alma.
1 457
Pablo Neruda
Poderes
Talvez o amor restitui um cristal quebrantado no fundo
do ser, um sal espargido e perdido
e aparece entre sangue e silêncio como a criatura
o poder que não impera senão dentro do gozo e da alma
e assim neste equilíbrio poderia fundar uma abelha
ou encerrar as conquistas de todos os tempos em uma papoula,
porque assim de infinito é não amar e esperar à beira de um rio redondo
e assim são transmutados os vínculos no mínimo reino recém-descoberto.
do ser, um sal espargido e perdido
e aparece entre sangue e silêncio como a criatura
o poder que não impera senão dentro do gozo e da alma
e assim neste equilíbrio poderia fundar uma abelha
ou encerrar as conquistas de todos os tempos em uma papoula,
porque assim de infinito é não amar e esperar à beira de um rio redondo
e assim são transmutados os vínculos no mínimo reino recém-descoberto.
999
Pablo Neruda
Vallejo
Mais tarde na Rua Delambre com Vallejo bebendo calvados
e cerveja nos copos imensos da Rua Alegria,
porque então meu irmão tinha alegria no copo
e levantávamos juntos a felicidade de um minuto que ardia no ar
e que se apagaria em sua morte deixando-me cego.
e cerveja nos copos imensos da Rua Alegria,
porque então meu irmão tinha alegria no copo
e levantávamos juntos a felicidade de um minuto que ardia no ar
e que se apagaria em sua morte deixando-me cego.
1 107
Pablo Neruda
Vallejo
Mais tarde na Rua Delambre com Vallejo bebendo calvados
e cerveja nos copos imensos da Rua Alegria,
porque então meu irmão tinha alegria no copo
e levantávamos juntos a felicidade de um minuto que ardia no ar
e que se apagaria em sua morte deixando-me cego.
e cerveja nos copos imensos da Rua Alegria,
porque então meu irmão tinha alegria no copo
e levantávamos juntos a felicidade de um minuto que ardia no ar
e que se apagaria em sua morte deixando-me cego.
1 107
Pablo Neruda
Noite - XCVI
Penso, esta época em que tu me amaste
irá por outra azul substituída,
será outra pele sobre os mesmos ossos,
outros olhos verão a primavera.
Nenhum dos que amarraram esta hora,
dos que conversaram com o fumo,
governos, traficantes, transeuntes,
continuarão movendo-se em seus fios.
Irão os cruéis deuses com óculos,
os peludos carnívoros com livro,
os pulgões e os pipipasseiros5.
E quando estiver recém-lavado o mundo
nascerão outros olhos na água
e crescerá sem lágrimas o trigo.
5 Pipipasseiros – palavra composta, invenção nerudiana. (N.T.)
irá por outra azul substituída,
será outra pele sobre os mesmos ossos,
outros olhos verão a primavera.
Nenhum dos que amarraram esta hora,
dos que conversaram com o fumo,
governos, traficantes, transeuntes,
continuarão movendo-se em seus fios.
Irão os cruéis deuses com óculos,
os peludos carnívoros com livro,
os pulgões e os pipipasseiros5.
E quando estiver recém-lavado o mundo
nascerão outros olhos na água
e crescerá sem lágrimas o trigo.
5 Pipipasseiros – palavra composta, invenção nerudiana. (N.T.)
1 127
Pablo Neruda
Noite - XCVI
Penso, esta época em que tu me amaste
irá por outra azul substituída,
será outra pele sobre os mesmos ossos,
outros olhos verão a primavera.
Nenhum dos que amarraram esta hora,
dos que conversaram com o fumo,
governos, traficantes, transeuntes,
continuarão movendo-se em seus fios.
Irão os cruéis deuses com óculos,
os peludos carnívoros com livro,
os pulgões e os pipipasseiros5.
E quando estiver recém-lavado o mundo
nascerão outros olhos na água
e crescerá sem lágrimas o trigo.
5 Pipipasseiros – palavra composta, invenção nerudiana. (N.T.)
irá por outra azul substituída,
será outra pele sobre os mesmos ossos,
outros olhos verão a primavera.
Nenhum dos que amarraram esta hora,
dos que conversaram com o fumo,
governos, traficantes, transeuntes,
continuarão movendo-se em seus fios.
Irão os cruéis deuses com óculos,
os peludos carnívoros com livro,
os pulgões e os pipipasseiros5.
E quando estiver recém-lavado o mundo
nascerão outros olhos na água
e crescerá sem lágrimas o trigo.
5 Pipipasseiros – palavra composta, invenção nerudiana. (N.T.)
1 127
Pablo Neruda
Noite - XCVI
Penso, esta época em que tu me amaste
irá por outra azul substituída,
será outra pele sobre os mesmos ossos,
outros olhos verão a primavera.
Nenhum dos que amarraram esta hora,
dos que conversaram com o fumo,
governos, traficantes, transeuntes,
continuarão movendo-se em seus fios.
Irão os cruéis deuses com óculos,
os peludos carnívoros com livro,
os pulgões e os pipipasseiros5.
E quando estiver recém-lavado o mundo
nascerão outros olhos na água
e crescerá sem lágrimas o trigo.
5 Pipipasseiros – palavra composta, invenção nerudiana. (N.T.)
irá por outra azul substituída,
será outra pele sobre os mesmos ossos,
outros olhos verão a primavera.
Nenhum dos que amarraram esta hora,
dos que conversaram com o fumo,
governos, traficantes, transeuntes,
continuarão movendo-se em seus fios.
Irão os cruéis deuses com óculos,
os peludos carnívoros com livro,
os pulgões e os pipipasseiros5.
E quando estiver recém-lavado o mundo
nascerão outros olhos na água
e crescerá sem lágrimas o trigo.
5 Pipipasseiros – palavra composta, invenção nerudiana. (N.T.)
1 127
Pablo Neruda
Iii - Mas Deu Fruto
Porém quando
entre os áridos
sistemas dos píncaros
aparece
o homem,
transformado,
quando
da yurta
brota o homem
que lutará com a natureza,
o homem que é não só
de uma tribo,
mas da incendida massa humana,
não o errante
prófugo das altas solidões,
ginete da areia,
mas meu camarada,
associado ao destino de seu povo,
solidário de todo o ar humano,
filho e continuador da esperança,
então,
cumpriu-se a tarefa
entre as cicatrizes dos montes:
ali também o homem é nosso irmão.
Ali a terra dura deu seu fruto.
entre os áridos
sistemas dos píncaros
aparece
o homem,
transformado,
quando
da yurta
brota o homem
que lutará com a natureza,
o homem que é não só
de uma tribo,
mas da incendida massa humana,
não o errante
prófugo das altas solidões,
ginete da areia,
mas meu camarada,
associado ao destino de seu povo,
solidário de todo o ar humano,
filho e continuador da esperança,
então,
cumpriu-se a tarefa
entre as cicatrizes dos montes:
ali também o homem é nosso irmão.
Ali a terra dura deu seu fruto.
1 207
Pablo Neruda
Iii - Mas Deu Fruto
Porém quando
entre os áridos
sistemas dos píncaros
aparece
o homem,
transformado,
quando
da yurta
brota o homem
que lutará com a natureza,
o homem que é não só
de uma tribo,
mas da incendida massa humana,
não o errante
prófugo das altas solidões,
ginete da areia,
mas meu camarada,
associado ao destino de seu povo,
solidário de todo o ar humano,
filho e continuador da esperança,
então,
cumpriu-se a tarefa
entre as cicatrizes dos montes:
ali também o homem é nosso irmão.
Ali a terra dura deu seu fruto.
entre os áridos
sistemas dos píncaros
aparece
o homem,
transformado,
quando
da yurta
brota o homem
que lutará com a natureza,
o homem que é não só
de uma tribo,
mas da incendida massa humana,
não o errante
prófugo das altas solidões,
ginete da areia,
mas meu camarada,
associado ao destino de seu povo,
solidário de todo o ar humano,
filho e continuador da esperança,
então,
cumpriu-se a tarefa
entre as cicatrizes dos montes:
ali também o homem é nosso irmão.
Ali a terra dura deu seu fruto.
1 207
Pablo Neruda
Tarde - LV
Espinhos, vidros rotos, enfermidades, pranto
assediam dia e noite o mel dos felizes
e não serve a torre, nem a viagem nem os muros:
a desventura atravessa a paz dos adormecidos,
a dor sobe e desce e acerca suas colheres
e não há homem sem este movimento,
não há natalício, não há teto nem cercado:
há que tomar em conta este atributo.
E no amor não valem tampouco olhos fechados,
profundos leitos longe do pestilente ferido,
ou do que passo a passo conquista sua bandeira.
Porque a vida pega como cólera ou rio
e abre um túnel sangrento por onde nos vigiam
os olhos de uma imensa família de dores.
assediam dia e noite o mel dos felizes
e não serve a torre, nem a viagem nem os muros:
a desventura atravessa a paz dos adormecidos,
a dor sobe e desce e acerca suas colheres
e não há homem sem este movimento,
não há natalício, não há teto nem cercado:
há que tomar em conta este atributo.
E no amor não valem tampouco olhos fechados,
profundos leitos longe do pestilente ferido,
ou do que passo a passo conquista sua bandeira.
Porque a vida pega como cólera ou rio
e abre um túnel sangrento por onde nos vigiam
os olhos de uma imensa família de dores.
1 234
Pablo Neruda
Meio-Dia - XLI
Desventuras do mês de janeiro quando o indiferente
meio-dia estabelece sua equação no céu,
um ouro duro como o vinho de uma taça repleta
satura a terra até seus limites azuis.
Desventuras deste tempo semelhantes a uvas
pequenas que agruparam verde amargo,
confusas, escondidas lágrimas dos dias,
até que a intempérie publicou seus cachos.
Sim, germes, dores, tudo o que palpita
aterrado, à luz crepitante de janeiro,
madurará, arderá como arderam os frutos.
Divididos serão os pesares: a alma
dará um golpe de vento, e a morada
ficará limpa como o pão novo na mesa.
meio-dia estabelece sua equação no céu,
um ouro duro como o vinho de uma taça repleta
satura a terra até seus limites azuis.
Desventuras deste tempo semelhantes a uvas
pequenas que agruparam verde amargo,
confusas, escondidas lágrimas dos dias,
até que a intempérie publicou seus cachos.
Sim, germes, dores, tudo o que palpita
aterrado, à luz crepitante de janeiro,
madurará, arderá como arderam os frutos.
Divididos serão os pesares: a alma
dará um golpe de vento, e a morada
ficará limpa como o pão novo na mesa.
1 111
Pablo Neruda
O desterro
Porque, bem-amada, é o homem que canta o que morre morrendo sem morte
quando já não tocaram seus braços as originárias tormentas,
quando já não queimaram seus olhos os intermitentes
conflitos natais
ou quando a pátria evasiva negou ao desterrado sua taça de amor e aspereza
não morre e morre quem canta, e padece morrendo e
vivendo o que cantas.
quando já não tocaram seus braços as originárias tormentas,
quando já não queimaram seus olhos os intermitentes
conflitos natais
ou quando a pátria evasiva negou ao desterrado sua taça de amor e aspereza
não morre e morre quem canta, e padece morrendo e
vivendo o que cantas.
1 163
Pablo Neruda
O desterro
Porque, bem-amada, é o homem que canta o que morre morrendo sem morte
quando já não tocaram seus braços as originárias tormentas,
quando já não queimaram seus olhos os intermitentes
conflitos natais
ou quando a pátria evasiva negou ao desterrado sua taça de amor e aspereza
não morre e morre quem canta, e padece morrendo e
vivendo o que cantas.
quando já não tocaram seus braços as originárias tormentas,
quando já não queimaram seus olhos os intermitentes
conflitos natais
ou quando a pátria evasiva negou ao desterrado sua taça de amor e aspereza
não morre e morre quem canta, e padece morrendo e
vivendo o que cantas.
1 163
Pablo Neruda
XLIX
Quando de novo vejo o mar
o mar me viu ou não me viu?
Por que me perguntam as ondas
o mesmo que lhes pergunto?
E por que golpeiam a rocha
com tanto entusiasmo perdido?
Não se cansam de repetir
sua declaração à areia?
o mar me viu ou não me viu?
Por que me perguntam as ondas
o mesmo que lhes pergunto?
E por que golpeiam a rocha
com tanto entusiasmo perdido?
Não se cansam de repetir
sua declaração à areia?
1 187
Pablo Neruda
Serenata de Paris
Formosa é a Rua da Huchette, pequena como uma romã
e opulenta em seu pobre esplendor de vitrine andrajosa:
ali entre os beatniks barbudos neste ano do sessenta e cinco
tu e eu transmigrados de estrela vivemos felizes e surdos.
Faz bem quando longe tremia e chovia na pátria
descansar uma vez na vida fechando a porta ao lamento,
suportar com a boca apertada a dor dos teus que é tua
e enterrar a cabeça na luz madurando o racimo do pranto.
Paris guarda em seus tetos tortos os olhos antigos do tempo
e em suas casas que apenas sustentam as vigas externas
há lugar de alguma maneira invisível para o caminhante,
e ninguém sabia que aquela cidade te esperava algum dia
e apenas chegaste sem língua e sem ganas soubeste sem que ninguém te dissesse
que estava teu pão na padaria e teu corpo podia sonhar em sua orla.
Cidade vagabunda e amada, coroa de todos os homens,
diadema radiante, sargaço de rotiserías5,
não há um só dia em teu rosto, nem uma folha de outono em tua copa:
és nova e renasces de guerra e lixo, de beijos e sangue,
como se em cada hora milhões de adeuses que partem
e de olhos que chegam te fossem fundando, assombrosa
e o pobre viajante assustado de repente sorri acreditando que o reconheces,
e em tua indiferença se sente esperado e amado
até que mais tarde não sabe que sua alma não é sua
e que teus costumes de fumaça guiavam seus passos
até que uma vez em seu espelho o olha a morte
e em seu enterro Paris continua caminhando com passos de criança,
com asas aéreas, com águas do rio e do tempo que nunca envelhecem.
e opulenta em seu pobre esplendor de vitrine andrajosa:
ali entre os beatniks barbudos neste ano do sessenta e cinco
tu e eu transmigrados de estrela vivemos felizes e surdos.
Faz bem quando longe tremia e chovia na pátria
descansar uma vez na vida fechando a porta ao lamento,
suportar com a boca apertada a dor dos teus que é tua
e enterrar a cabeça na luz madurando o racimo do pranto.
Paris guarda em seus tetos tortos os olhos antigos do tempo
e em suas casas que apenas sustentam as vigas externas
há lugar de alguma maneira invisível para o caminhante,
e ninguém sabia que aquela cidade te esperava algum dia
e apenas chegaste sem língua e sem ganas soubeste sem que ninguém te dissesse
que estava teu pão na padaria e teu corpo podia sonhar em sua orla.
Cidade vagabunda e amada, coroa de todos os homens,
diadema radiante, sargaço de rotiserías5,
não há um só dia em teu rosto, nem uma folha de outono em tua copa:
és nova e renasces de guerra e lixo, de beijos e sangue,
como se em cada hora milhões de adeuses que partem
e de olhos que chegam te fossem fundando, assombrosa
e o pobre viajante assustado de repente sorri acreditando que o reconheces,
e em tua indiferença se sente esperado e amado
até que mais tarde não sabe que sua alma não é sua
e que teus costumes de fumaça guiavam seus passos
até que uma vez em seu espelho o olha a morte
e em seu enterro Paris continua caminhando com passos de criança,
com asas aéreas, com águas do rio e do tempo que nunca envelhecem.
524
Pablo Neruda
Serenata de Paris
Formosa é a Rua da Huchette, pequena como uma romã
e opulenta em seu pobre esplendor de vitrine andrajosa:
ali entre os beatniks barbudos neste ano do sessenta e cinco
tu e eu transmigrados de estrela vivemos felizes e surdos.
Faz bem quando longe tremia e chovia na pátria
descansar uma vez na vida fechando a porta ao lamento,
suportar com a boca apertada a dor dos teus que é tua
e enterrar a cabeça na luz madurando o racimo do pranto.
Paris guarda em seus tetos tortos os olhos antigos do tempo
e em suas casas que apenas sustentam as vigas externas
há lugar de alguma maneira invisível para o caminhante,
e ninguém sabia que aquela cidade te esperava algum dia
e apenas chegaste sem língua e sem ganas soubeste sem que ninguém te dissesse
que estava teu pão na padaria e teu corpo podia sonhar em sua orla.
Cidade vagabunda e amada, coroa de todos os homens,
diadema radiante, sargaço de rotiserías5,
não há um só dia em teu rosto, nem uma folha de outono em tua copa:
és nova e renasces de guerra e lixo, de beijos e sangue,
como se em cada hora milhões de adeuses que partem
e de olhos que chegam te fossem fundando, assombrosa
e o pobre viajante assustado de repente sorri acreditando que o reconheces,
e em tua indiferença se sente esperado e amado
até que mais tarde não sabe que sua alma não é sua
e que teus costumes de fumaça guiavam seus passos
até que uma vez em seu espelho o olha a morte
e em seu enterro Paris continua caminhando com passos de criança,
com asas aéreas, com águas do rio e do tempo que nunca envelhecem.
e opulenta em seu pobre esplendor de vitrine andrajosa:
ali entre os beatniks barbudos neste ano do sessenta e cinco
tu e eu transmigrados de estrela vivemos felizes e surdos.
Faz bem quando longe tremia e chovia na pátria
descansar uma vez na vida fechando a porta ao lamento,
suportar com a boca apertada a dor dos teus que é tua
e enterrar a cabeça na luz madurando o racimo do pranto.
Paris guarda em seus tetos tortos os olhos antigos do tempo
e em suas casas que apenas sustentam as vigas externas
há lugar de alguma maneira invisível para o caminhante,
e ninguém sabia que aquela cidade te esperava algum dia
e apenas chegaste sem língua e sem ganas soubeste sem que ninguém te dissesse
que estava teu pão na padaria e teu corpo podia sonhar em sua orla.
Cidade vagabunda e amada, coroa de todos os homens,
diadema radiante, sargaço de rotiserías5,
não há um só dia em teu rosto, nem uma folha de outono em tua copa:
és nova e renasces de guerra e lixo, de beijos e sangue,
como se em cada hora milhões de adeuses que partem
e de olhos que chegam te fossem fundando, assombrosa
e o pobre viajante assustado de repente sorri acreditando que o reconheces,
e em tua indiferença se sente esperado e amado
até que mais tarde não sabe que sua alma não é sua
e que teus costumes de fumaça guiavam seus passos
até que uma vez em seu espelho o olha a morte
e em seu enterro Paris continua caminhando com passos de criança,
com asas aéreas, com águas do rio e do tempo que nunca envelhecem.
524
Pablo Neruda
A nostalgia
Daquelas aldeias que cruzam o inverno e as ferrovias
invicto saía apesar dos anos meu escuro relâmpago
que ainda ilumina as ruas adversas onde se uniram o frio
e a lama como as duas asas de uma ave terrível:
agora ao chegar à minha vida teu aroma escarlate
tremeu minha memória na sombra perdida como se no bosque
rompesse um elétrico canto a palpitação da terra.
invicto saía apesar dos anos meu escuro relâmpago
que ainda ilumina as ruas adversas onde se uniram o frio
e a lama como as duas asas de uma ave terrível:
agora ao chegar à minha vida teu aroma escarlate
tremeu minha memória na sombra perdida como se no bosque
rompesse um elétrico canto a palpitação da terra.
1 202
Pablo Neruda
Manhã - XIII
A luz que de teus pés sobe a tua cabeleira,
a turgência que envolve tua forma delicada,
não é de nácar marinho, nunca de prata fria:
é de pão, de pão amado pelo fogo.
A farinha acumulou seu celeiro contigo
e cresceu incrementada pela idade venturosa,
quando os cereais duplicaram teu peito
meu amor era o carvão trabalhando na terra.
Oh, pão tua fronte, pão tuas pernas, pão tua boca,
pão que devoro e nasce com luz cada manhã,
bem-amada, bandeira das fornadas,
uma lição de sangue te concedeu o fogo,
da farinha aprendeste a ser sagrada,
e do pão o idioma e o aroma.
a turgência que envolve tua forma delicada,
não é de nácar marinho, nunca de prata fria:
é de pão, de pão amado pelo fogo.
A farinha acumulou seu celeiro contigo
e cresceu incrementada pela idade venturosa,
quando os cereais duplicaram teu peito
meu amor era o carvão trabalhando na terra.
Oh, pão tua fronte, pão tuas pernas, pão tua boca,
pão que devoro e nasce com luz cada manhã,
bem-amada, bandeira das fornadas,
uma lição de sangue te concedeu o fogo,
da farinha aprendeste a ser sagrada,
e do pão o idioma e o aroma.
1 254
Pablo Neruda
Meio-Dia - XLIX
É hoje: todo o ontem foi caindo
entre dedos de luz e olhos de sonho,
amanhã chegará com passos verdes:
ninguém detém o rio da aurora.
Ninguém detém o rio de tuas mãos,
os olhos de teu sonho, bem-amada,
és tremor do tempo que transcorre
entre luz vertical e sol sombrio,
e o céu fecha sobre ti suas asas
levando-te e trazendo-te a meus braços
com pontual, misteriosa cortesia:
por isso canto ao dia e à lua,
ao mar, ao tempo, a todos os planetas,
a tua voz diurna e a tua pele noturna.
entre dedos de luz e olhos de sonho,
amanhã chegará com passos verdes:
ninguém detém o rio da aurora.
Ninguém detém o rio de tuas mãos,
os olhos de teu sonho, bem-amada,
és tremor do tempo que transcorre
entre luz vertical e sol sombrio,
e o céu fecha sobre ti suas asas
levando-te e trazendo-te a meus braços
com pontual, misteriosa cortesia:
por isso canto ao dia e à lua,
ao mar, ao tempo, a todos os planetas,
a tua voz diurna e a tua pele noturna.
1 230
Pablo Neruda
Iii - Tu o Fizeste
Houve muitos homens,
muitos Fucik
que fizeram bem todas as coisas da vida.
Tu, Julius Fucik,
também as fizeste.
Os pequenos e grandes deveres dolorosos
e os indispensáveis
pequenos movimentos,
cumprir, cumprir:
a retidão é um ponto severo
que se repete até ser uma linha,
uma norma, um caminho,
e este ponto o fizeste
como todos os homens simples
por dever e por alegria,
porque assim temos que ser.
muitos Fucik
que fizeram bem todas as coisas da vida.
Tu, Julius Fucik,
também as fizeste.
Os pequenos e grandes deveres dolorosos
e os indispensáveis
pequenos movimentos,
cumprir, cumprir:
a retidão é um ponto severo
que se repete até ser uma linha,
uma norma, um caminho,
e este ponto o fizeste
como todos os homens simples
por dever e por alegria,
porque assim temos que ser.
1 065
Pablo Neruda
Iii - Tu o Fizeste
Houve muitos homens,
muitos Fucik
que fizeram bem todas as coisas da vida.
Tu, Julius Fucik,
também as fizeste.
Os pequenos e grandes deveres dolorosos
e os indispensáveis
pequenos movimentos,
cumprir, cumprir:
a retidão é um ponto severo
que se repete até ser uma linha,
uma norma, um caminho,
e este ponto o fizeste
como todos os homens simples
por dever e por alegria,
porque assim temos que ser.
muitos Fucik
que fizeram bem todas as coisas da vida.
Tu, Julius Fucik,
também as fizeste.
Os pequenos e grandes deveres dolorosos
e os indispensáveis
pequenos movimentos,
cumprir, cumprir:
a retidão é um ponto severo
que se repete até ser uma linha,
uma norma, um caminho,
e este ponto o fizeste
como todos os homens simples
por dever e por alegria,
porque assim temos que ser.
1 065
Pablo Neruda
Nas Ruas de Praga
Recordas as ruas de Praga que duras sonhavam
como se tambores de pedra sonhassem na solidão
daquele que através dos mares buscou tua lembrança:
tua imagem em cima da ponte San Carlos era uma laranja.
Então cruzamos a neve de sete fronteiras
desde Budapeste que agregava roseiras e pão à sua estirpe
até os amantes, tu e eu, perseguidos, sedentos e famintos,
nos reconhecemos ferindo-nos com dentes e beijos e espadas.
Oh dias cortados pelas cimitarras do fogo e da fúria
sofrendo o amante e a amante sem trégua e sem pranto
como se o sentimento se houvesse enterrado em um páramo entre as urtigas
e cada expressão se turbasse queimando e virando lava.
como se tambores de pedra sonhassem na solidão
daquele que através dos mares buscou tua lembrança:
tua imagem em cima da ponte San Carlos era uma laranja.
Então cruzamos a neve de sete fronteiras
desde Budapeste que agregava roseiras e pão à sua estirpe
até os amantes, tu e eu, perseguidos, sedentos e famintos,
nos reconhecemos ferindo-nos com dentes e beijos e espadas.
Oh dias cortados pelas cimitarras do fogo e da fúria
sofrendo o amante e a amante sem trégua e sem pranto
como se o sentimento se houvesse enterrado em um páramo entre as urtigas
e cada expressão se turbasse queimando e virando lava.
1 089
Pablo Neruda
Viii - Os Materiais
O mundo se encheu de entretantos,
de infundados temores e dor,
mas tem-se de reconhecer que sobre o pão salobro
ou junto de tal ou qual iniquidade
os vegetais, quando não foram queimados,
continuaram florescendo e repartindo
e continuaram seu trabalho verde.
Não há dúvida que a terra
entregou a duras penas outras coisas
de seu baú que parecia eterno:
morre o cobre, soluça o manganês,
o petróleo é um último estertor,
o ferro se despede do carvão,
o carvão já fechou suas cavidades.
Agora este século deve assassinar
com outras máquinas de guerra, vamos
inaugurar a morte de outro modo,
mobilizar o sangue em outras naves.
de infundados temores e dor,
mas tem-se de reconhecer que sobre o pão salobro
ou junto de tal ou qual iniquidade
os vegetais, quando não foram queimados,
continuaram florescendo e repartindo
e continuaram seu trabalho verde.
Não há dúvida que a terra
entregou a duras penas outras coisas
de seu baú que parecia eterno:
morre o cobre, soluça o manganês,
o petróleo é um último estertor,
o ferro se despede do carvão,
o carvão já fechou suas cavidades.
Agora este século deve assassinar
com outras máquinas de guerra, vamos
inaugurar a morte de outro modo,
mobilizar o sangue em outras naves.
999
Pablo Neruda
Viii - Os Materiais
O mundo se encheu de entretantos,
de infundados temores e dor,
mas tem-se de reconhecer que sobre o pão salobro
ou junto de tal ou qual iniquidade
os vegetais, quando não foram queimados,
continuaram florescendo e repartindo
e continuaram seu trabalho verde.
Não há dúvida que a terra
entregou a duras penas outras coisas
de seu baú que parecia eterno:
morre o cobre, soluça o manganês,
o petróleo é um último estertor,
o ferro se despede do carvão,
o carvão já fechou suas cavidades.
Agora este século deve assassinar
com outras máquinas de guerra, vamos
inaugurar a morte de outro modo,
mobilizar o sangue em outras naves.
de infundados temores e dor,
mas tem-se de reconhecer que sobre o pão salobro
ou junto de tal ou qual iniquidade
os vegetais, quando não foram queimados,
continuaram florescendo e repartindo
e continuaram seu trabalho verde.
Não há dúvida que a terra
entregou a duras penas outras coisas
de seu baú que parecia eterno:
morre o cobre, soluça o manganês,
o petróleo é um último estertor,
o ferro se despede do carvão,
o carvão já fechou suas cavidades.
Agora este século deve assassinar
com outras máquinas de guerra, vamos
inaugurar a morte de outro modo,
mobilizar o sangue em outras naves.
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