Poemas neste tema
Vida e Existência
Carlos Drummond de Andrade
Adeus Ao Colégio
I
Adeus, colégio, adeus, vida
vivida sob inspeção,
dois anos jogados fora
ou dentro de um caldeirão
em que se fritam destinos
e se derrete a ilusão.
Já preparo minha trouxa
e durmo na solidão.
Amanhã cedo retiro-me,
pego o trem da Leopoldina,
vou ser de novo mineiro.
Da angústia a lâmina fina
começa a me cutucar.
É uma angústia menina,
ganhará forma de cruz
ou imagem serpentina.
Sei lá se sou inocente
ou sinistro criminoso.
Se rogo perdão a Deus
ou peço abrigo ao Tinhoso.
Que será do meu futuro
se o vejo tão amargoso?
Sou um ser estilhaçado
que faz do medo o seu gozo.
II
Nada mais insuportável do que essa viagem de trem.
Se me atirassem no vagão de gado a caminho do matadouro
talvez eu me soubesse menos infeliz.
Seria o fim, e há no fim uma gota de delícia,
um himalaia de silêncio para sempre.
Não quero ouvir falar de mim.
Não quero eu mesmo estar em mim.
Quero ser o barulho das ferragens me abafando,
quero evaporar-me na fumaça,
quero o não querer, quero o não quero.
Como custa a chegar o chão de Minas.
Será que se mudou ou se perdeu?
Olho para um lado. Para outro.
O esvoaçar de viuvez
no todo preto da senhora à esquerda,
no preto dos vestidos, das meias e sapatos
de duas mocinhas de olhos baixos,
não tão baixos assim. Essa os levanta,
cruza com os meus, detêm-se. O luto evola-se.
É um dealbar no trem tristonho,
sonata em miosótis, aragem na avenca
súbito surginte
em jarra cristalina.
Cuidados meus, desgraças minhas,
eia, fugi para bem longe.
O idílio dos olhos vos expulsa,
como expulso fui eu, ainda há pouco,
de outra forma — que forma? nem me lembra.
Vem do céu a menina e a ele me leva,
leves, levíssimos os dois.
Palavra não trocamos: impossível
mãe presente.
E para que trocá-las, se nem sei
se vigoram palavras nesta esfera
diáfana, a que me vejo transportado?
Nem ideia de amor acode à mente,
que o melhor de amar não é dizer-se,
nem mesmo sentir-se: é nos abrir
a mais sublime porta subterrânea.
Estou iluminado
por dentro, no passado,
no futuro mais longínquo
e meu presente é não estar no tempo
e alçar-me de toda contingência.
De banco de palhinha a banco de palhinha,
entre fagulhas de carvão
fosforescentes na vidraça,
entre conversas e pigarros,
diante do chefe de trem que picota bilhetes,
torna-se a vida bem não desgastável
se a menina sorri
quase sem perceber que está sorrindo.
Nem a irmã reparou. Mas eu colhi
a laranja de flores deste instante
que vou mastigando como um deus.
Foi preciso sofrer por merecê-la?
Agora que a alcancei, não deixo mais
este comboio, este sol…
III
Por que foi que inventaram
a estação de Entre Rios?
E por que se exige aqui baldeação
aos que precisam de Minas?
Já não preciso mais. Vou neste trem
até o infinito dos seus olhos.
Advertem-me glacialmente:
“Tome o trem da Central e vá com Deus”.
Como irei, se vou sozinho e sem mim mesmo,
se nunca mais, se nunca mais na vida
verei essa menina?
Expulso de sua vista
volto a saber-me expulso do colégio
e o Brasil é dor em mim por toda parte.
Adeus, colégio, adeus, vida
vivida sob inspeção,
dois anos jogados fora
ou dentro de um caldeirão
em que se fritam destinos
e se derrete a ilusão.
Já preparo minha trouxa
e durmo na solidão.
Amanhã cedo retiro-me,
pego o trem da Leopoldina,
vou ser de novo mineiro.
Da angústia a lâmina fina
começa a me cutucar.
É uma angústia menina,
ganhará forma de cruz
ou imagem serpentina.
Sei lá se sou inocente
ou sinistro criminoso.
Se rogo perdão a Deus
ou peço abrigo ao Tinhoso.
Que será do meu futuro
se o vejo tão amargoso?
Sou um ser estilhaçado
que faz do medo o seu gozo.
II
Nada mais insuportável do que essa viagem de trem.
Se me atirassem no vagão de gado a caminho do matadouro
talvez eu me soubesse menos infeliz.
Seria o fim, e há no fim uma gota de delícia,
um himalaia de silêncio para sempre.
Não quero ouvir falar de mim.
Não quero eu mesmo estar em mim.
Quero ser o barulho das ferragens me abafando,
quero evaporar-me na fumaça,
quero o não querer, quero o não quero.
Como custa a chegar o chão de Minas.
Será que se mudou ou se perdeu?
Olho para um lado. Para outro.
O esvoaçar de viuvez
no todo preto da senhora à esquerda,
no preto dos vestidos, das meias e sapatos
de duas mocinhas de olhos baixos,
não tão baixos assim. Essa os levanta,
cruza com os meus, detêm-se. O luto evola-se.
É um dealbar no trem tristonho,
sonata em miosótis, aragem na avenca
súbito surginte
em jarra cristalina.
Cuidados meus, desgraças minhas,
eia, fugi para bem longe.
O idílio dos olhos vos expulsa,
como expulso fui eu, ainda há pouco,
de outra forma — que forma? nem me lembra.
Vem do céu a menina e a ele me leva,
leves, levíssimos os dois.
Palavra não trocamos: impossível
mãe presente.
E para que trocá-las, se nem sei
se vigoram palavras nesta esfera
diáfana, a que me vejo transportado?
Nem ideia de amor acode à mente,
que o melhor de amar não é dizer-se,
nem mesmo sentir-se: é nos abrir
a mais sublime porta subterrânea.
Estou iluminado
por dentro, no passado,
no futuro mais longínquo
e meu presente é não estar no tempo
e alçar-me de toda contingência.
De banco de palhinha a banco de palhinha,
entre fagulhas de carvão
fosforescentes na vidraça,
entre conversas e pigarros,
diante do chefe de trem que picota bilhetes,
torna-se a vida bem não desgastável
se a menina sorri
quase sem perceber que está sorrindo.
Nem a irmã reparou. Mas eu colhi
a laranja de flores deste instante
que vou mastigando como um deus.
Foi preciso sofrer por merecê-la?
Agora que a alcancei, não deixo mais
este comboio, este sol…
III
Por que foi que inventaram
a estação de Entre Rios?
E por que se exige aqui baldeação
aos que precisam de Minas?
Já não preciso mais. Vou neste trem
até o infinito dos seus olhos.
Advertem-me glacialmente:
“Tome o trem da Central e vá com Deus”.
Como irei, se vou sozinho e sem mim mesmo,
se nunca mais, se nunca mais na vida
verei essa menina?
Expulso de sua vista
volto a saber-me expulso do colégio
e o Brasil é dor em mim por toda parte.
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Carlos Drummond de Andrade
Adeus Ao Colégio
I
Adeus, colégio, adeus, vida
vivida sob inspeção,
dois anos jogados fora
ou dentro de um caldeirão
em que se fritam destinos
e se derrete a ilusão.
Já preparo minha trouxa
e durmo na solidão.
Amanhã cedo retiro-me,
pego o trem da Leopoldina,
vou ser de novo mineiro.
Da angústia a lâmina fina
começa a me cutucar.
É uma angústia menina,
ganhará forma de cruz
ou imagem serpentina.
Sei lá se sou inocente
ou sinistro criminoso.
Se rogo perdão a Deus
ou peço abrigo ao Tinhoso.
Que será do meu futuro
se o vejo tão amargoso?
Sou um ser estilhaçado
que faz do medo o seu gozo.
II
Nada mais insuportável do que essa viagem de trem.
Se me atirassem no vagão de gado a caminho do matadouro
talvez eu me soubesse menos infeliz.
Seria o fim, e há no fim uma gota de delícia,
um himalaia de silêncio para sempre.
Não quero ouvir falar de mim.
Não quero eu mesmo estar em mim.
Quero ser o barulho das ferragens me abafando,
quero evaporar-me na fumaça,
quero o não querer, quero o não quero.
Como custa a chegar o chão de Minas.
Será que se mudou ou se perdeu?
Olho para um lado. Para outro.
O esvoaçar de viuvez
no todo preto da senhora à esquerda,
no preto dos vestidos, das meias e sapatos
de duas mocinhas de olhos baixos,
não tão baixos assim. Essa os levanta,
cruza com os meus, detêm-se. O luto evola-se.
É um dealbar no trem tristonho,
sonata em miosótis, aragem na avenca
súbito surginte
em jarra cristalina.
Cuidados meus, desgraças minhas,
eia, fugi para bem longe.
O idílio dos olhos vos expulsa,
como expulso fui eu, ainda há pouco,
de outra forma — que forma? nem me lembra.
Vem do céu a menina e a ele me leva,
leves, levíssimos os dois.
Palavra não trocamos: impossível
mãe presente.
E para que trocá-las, se nem sei
se vigoram palavras nesta esfera
diáfana, a que me vejo transportado?
Nem ideia de amor acode à mente,
que o melhor de amar não é dizer-se,
nem mesmo sentir-se: é nos abrir
a mais sublime porta subterrânea.
Estou iluminado
por dentro, no passado,
no futuro mais longínquo
e meu presente é não estar no tempo
e alçar-me de toda contingência.
De banco de palhinha a banco de palhinha,
entre fagulhas de carvão
fosforescentes na vidraça,
entre conversas e pigarros,
diante do chefe de trem que picota bilhetes,
torna-se a vida bem não desgastável
se a menina sorri
quase sem perceber que está sorrindo.
Nem a irmã reparou. Mas eu colhi
a laranja de flores deste instante
que vou mastigando como um deus.
Foi preciso sofrer por merecê-la?
Agora que a alcancei, não deixo mais
este comboio, este sol…
III
Por que foi que inventaram
a estação de Entre Rios?
E por que se exige aqui baldeação
aos que precisam de Minas?
Já não preciso mais. Vou neste trem
até o infinito dos seus olhos.
Advertem-me glacialmente:
“Tome o trem da Central e vá com Deus”.
Como irei, se vou sozinho e sem mim mesmo,
se nunca mais, se nunca mais na vida
verei essa menina?
Expulso de sua vista
volto a saber-me expulso do colégio
e o Brasil é dor em mim por toda parte.
Adeus, colégio, adeus, vida
vivida sob inspeção,
dois anos jogados fora
ou dentro de um caldeirão
em que se fritam destinos
e se derrete a ilusão.
Já preparo minha trouxa
e durmo na solidão.
Amanhã cedo retiro-me,
pego o trem da Leopoldina,
vou ser de novo mineiro.
Da angústia a lâmina fina
começa a me cutucar.
É uma angústia menina,
ganhará forma de cruz
ou imagem serpentina.
Sei lá se sou inocente
ou sinistro criminoso.
Se rogo perdão a Deus
ou peço abrigo ao Tinhoso.
Que será do meu futuro
se o vejo tão amargoso?
Sou um ser estilhaçado
que faz do medo o seu gozo.
II
Nada mais insuportável do que essa viagem de trem.
Se me atirassem no vagão de gado a caminho do matadouro
talvez eu me soubesse menos infeliz.
Seria o fim, e há no fim uma gota de delícia,
um himalaia de silêncio para sempre.
Não quero ouvir falar de mim.
Não quero eu mesmo estar em mim.
Quero ser o barulho das ferragens me abafando,
quero evaporar-me na fumaça,
quero o não querer, quero o não quero.
Como custa a chegar o chão de Minas.
Será que se mudou ou se perdeu?
Olho para um lado. Para outro.
O esvoaçar de viuvez
no todo preto da senhora à esquerda,
no preto dos vestidos, das meias e sapatos
de duas mocinhas de olhos baixos,
não tão baixos assim. Essa os levanta,
cruza com os meus, detêm-se. O luto evola-se.
É um dealbar no trem tristonho,
sonata em miosótis, aragem na avenca
súbito surginte
em jarra cristalina.
Cuidados meus, desgraças minhas,
eia, fugi para bem longe.
O idílio dos olhos vos expulsa,
como expulso fui eu, ainda há pouco,
de outra forma — que forma? nem me lembra.
Vem do céu a menina e a ele me leva,
leves, levíssimos os dois.
Palavra não trocamos: impossível
mãe presente.
E para que trocá-las, se nem sei
se vigoram palavras nesta esfera
diáfana, a que me vejo transportado?
Nem ideia de amor acode à mente,
que o melhor de amar não é dizer-se,
nem mesmo sentir-se: é nos abrir
a mais sublime porta subterrânea.
Estou iluminado
por dentro, no passado,
no futuro mais longínquo
e meu presente é não estar no tempo
e alçar-me de toda contingência.
De banco de palhinha a banco de palhinha,
entre fagulhas de carvão
fosforescentes na vidraça,
entre conversas e pigarros,
diante do chefe de trem que picota bilhetes,
torna-se a vida bem não desgastável
se a menina sorri
quase sem perceber que está sorrindo.
Nem a irmã reparou. Mas eu colhi
a laranja de flores deste instante
que vou mastigando como um deus.
Foi preciso sofrer por merecê-la?
Agora que a alcancei, não deixo mais
este comboio, este sol…
III
Por que foi que inventaram
a estação de Entre Rios?
E por que se exige aqui baldeação
aos que precisam de Minas?
Já não preciso mais. Vou neste trem
até o infinito dos seus olhos.
Advertem-me glacialmente:
“Tome o trem da Central e vá com Deus”.
Como irei, se vou sozinho e sem mim mesmo,
se nunca mais, se nunca mais na vida
verei essa menina?
Expulso de sua vista
volto a saber-me expulso do colégio
e o Brasil é dor em mim por toda parte.
1 361
Carlos Drummond de Andrade
Graça Feminina
Que bom ouvir João Luso nesta sala
discorrer sobre a graça feminina!
Será que escuto? Alguém presta atenção?
A graça feminina está presente,
sorri, olha discreta, abana o leque,
imune à conferência.
A graça tem consciência de ser graça
e a si mesma dedica-se, enlevada.
discorrer sobre a graça feminina!
Será que escuto? Alguém presta atenção?
A graça feminina está presente,
sorri, olha discreta, abana o leque,
imune à conferência.
A graça tem consciência de ser graça
e a si mesma dedica-se, enlevada.
957
Carlos Drummond de Andrade
Campeonato de Pião
Bota parafuso no bico do pião.
Bota prego limado, bota tudo
pra rachar o pião competidor.
Roda, pião!
Racha, pião!
Se você não pode rachar este colégio,
nem o mundo nem a vida,
racha pelo menos o pião!
(Mas eu não sei, nunca aprendi
rachar pião. Imobilizo-me.)
Bota prego limado, bota tudo
pra rachar o pião competidor.
Roda, pião!
Racha, pião!
Se você não pode rachar este colégio,
nem o mundo nem a vida,
racha pelo menos o pião!
(Mas eu não sei, nunca aprendi
rachar pião. Imobilizo-me.)
1 256
Carlos Drummond de Andrade
Dormir Na Floresta
Dormir na Floresta
é dormir sem feras
rugiameaçando.
(A Floresta, bairro
de jardins olentes
com leões cerâmicos
a vigiar portões
e sonhos burgueses
de alunas internas
do Santa Maria.)
Dormir na Floresta
é dormir em paz
de família mineira
para todo o sempre
garantida em bancos
e gado de corte,
seguro de vida
na Equitativa,
crédito aberto
no Parc Royal,
guarda-chuva-e-vento
do P.R.M.,
indulgência plena
do Vaticano.
E ter a certeza,
na manhã seguinte,
de bom leite gordo
manado de vacas
da própria Floresta,
de bom pão cheiroso
cozido nos fornos
da Floresta próvida.
Dormir na Floresta
é esquecer Lenine,
o Kaiser, a crise,
a crase, o ginásio,
restaurar as fontes
do ser primitivo
que era todo lúdico
antes de sofrer
o esbarro, a facada
de pensar o mundo.
Mas de madrugada
ou talvez ainda
na curva das onze
(pois se dorme cedo
na Floresta calma,
de cedo acordar)
um lamento lúgubre,
um longo gemido,
um uivo trevoso
de animal sofrendo,
corta o sono a meio
e todo o sistema
de azul segurança
da Floresta rui.
Que dor se derrama
sobre nossas camas
e embebe o lençol
de temor e alarma?
Que notícia ruim
do resto da Terra
não compendiado
em nossos domínios
invade o fortim
da noite serena?
Logo nossas vidas
e mais seus problemas
despem-se, descarnam-se
de todo ouropel.
Já não somos os
privilegiados
príncipes da paz.
Já somos viventes
intranquilos, pávidos,
como os da Lagoinha
ou de Carlos Prates,
à mercê de furtos,
de doenças, fomes,
letras protestadas,
e, pior do que isso,
carregando o mundo
e seus desconcertos
em ombros curvados.
Eis que se repete
o pungente guai,
perfurando as ruas
e casas e mentes
com seu aflitivo
doer dor sem nome.
De onde vem, aonde
vai, se vai ou vem?
Triste, ferroviário
apito de máquina
da Oeste de Minas
manobrando insone,
paralelo ao rouco
ir e vir arfante
de locomotiva
da Central, rasgando
a seda sem ruga
de dormir sem dívidas,
cobrando a vigília,
o amargo remoer
da consciência turva.
Não parte, não volta
de nenhum destino
o trem espectral,
roda sem horário,
passageiro ou carga,
senão nossa carga
interior, pesada,
de carvão, minério,
queijo de incertezas,
milho de perguntas
? ? ? ? ? ? ? ?
gado de omissões.
Fero, trem noturno
a semear angústia
na relva celeste
da Floresta em flor.
é dormir sem feras
rugiameaçando.
(A Floresta, bairro
de jardins olentes
com leões cerâmicos
a vigiar portões
e sonhos burgueses
de alunas internas
do Santa Maria.)
Dormir na Floresta
é dormir em paz
de família mineira
para todo o sempre
garantida em bancos
e gado de corte,
seguro de vida
na Equitativa,
crédito aberto
no Parc Royal,
guarda-chuva-e-vento
do P.R.M.,
indulgência plena
do Vaticano.
E ter a certeza,
na manhã seguinte,
de bom leite gordo
manado de vacas
da própria Floresta,
de bom pão cheiroso
cozido nos fornos
da Floresta próvida.
Dormir na Floresta
é esquecer Lenine,
o Kaiser, a crise,
a crase, o ginásio,
restaurar as fontes
do ser primitivo
que era todo lúdico
antes de sofrer
o esbarro, a facada
de pensar o mundo.
Mas de madrugada
ou talvez ainda
na curva das onze
(pois se dorme cedo
na Floresta calma,
de cedo acordar)
um lamento lúgubre,
um longo gemido,
um uivo trevoso
de animal sofrendo,
corta o sono a meio
e todo o sistema
de azul segurança
da Floresta rui.
Que dor se derrama
sobre nossas camas
e embebe o lençol
de temor e alarma?
Que notícia ruim
do resto da Terra
não compendiado
em nossos domínios
invade o fortim
da noite serena?
Logo nossas vidas
e mais seus problemas
despem-se, descarnam-se
de todo ouropel.
Já não somos os
privilegiados
príncipes da paz.
Já somos viventes
intranquilos, pávidos,
como os da Lagoinha
ou de Carlos Prates,
à mercê de furtos,
de doenças, fomes,
letras protestadas,
e, pior do que isso,
carregando o mundo
e seus desconcertos
em ombros curvados.
Eis que se repete
o pungente guai,
perfurando as ruas
e casas e mentes
com seu aflitivo
doer dor sem nome.
De onde vem, aonde
vai, se vai ou vem?
Triste, ferroviário
apito de máquina
da Oeste de Minas
manobrando insone,
paralelo ao rouco
ir e vir arfante
de locomotiva
da Central, rasgando
a seda sem ruga
de dormir sem dívidas,
cobrando a vigília,
o amargo remoer
da consciência turva.
Não parte, não volta
de nenhum destino
o trem espectral,
roda sem horário,
passageiro ou carga,
senão nossa carga
interior, pesada,
de carvão, minério,
queijo de incertezas,
milho de perguntas
? ? ? ? ? ? ? ?
gado de omissões.
Fero, trem noturno
a semear angústia
na relva celeste
da Floresta em flor.
1 713
Carlos Drummond de Andrade
Retiro Espiritual
Padre Natuzzi, voz de ouro,
fala do céu, essa infinita aurora
a que seremos todos transportados
se.
Fala também do abismo arquimedonho
em que, a gordurosas culpas amarrado,
de ponta-cabeça irei precipitar-me
se.
Nem preciso escutá-lo.
É pregador tão célebre, sua prédica
penetra na consciência sem passar
por distraída orelha.
Já deliberei: a santidade
é meu destino.
Juiz não quero ser, nem artilheiro,
médico, romancista ou navegante.
Quero ser e vou ser: apenas
santo.
Pode voltar, Padre Natuzzi, descansado.
Em beatitude sorvo o almo silêncio
do pátio onde passeiam pensativos
os de ontem ruidosos palradores.
A alma! A alma! Que beleza é a alma!
Ela salva! E eu salvo com ela…
se não fosse
esse colega aí, rangente, a remoer
em voz informativa autorizada
vidas de santos, único a falar,
perturbando a minha salvação.
E santo já não sou,
mas barro e palavrão,
humana falha, signo terrestre.
fala do céu, essa infinita aurora
a que seremos todos transportados
se.
Fala também do abismo arquimedonho
em que, a gordurosas culpas amarrado,
de ponta-cabeça irei precipitar-me
se.
Nem preciso escutá-lo.
É pregador tão célebre, sua prédica
penetra na consciência sem passar
por distraída orelha.
Já deliberei: a santidade
é meu destino.
Juiz não quero ser, nem artilheiro,
médico, romancista ou navegante.
Quero ser e vou ser: apenas
santo.
Pode voltar, Padre Natuzzi, descansado.
Em beatitude sorvo o almo silêncio
do pátio onde passeiam pensativos
os de ontem ruidosos palradores.
A alma! A alma! Que beleza é a alma!
Ela salva! E eu salvo com ela…
se não fosse
esse colega aí, rangente, a remoer
em voz informativa autorizada
vidas de santos, único a falar,
perturbando a minha salvação.
E santo já não sou,
mas barro e palavrão,
humana falha, signo terrestre.
1 159
Carlos Drummond de Andrade
Retiro Espiritual
Padre Natuzzi, voz de ouro,
fala do céu, essa infinita aurora
a que seremos todos transportados
se.
Fala também do abismo arquimedonho
em que, a gordurosas culpas amarrado,
de ponta-cabeça irei precipitar-me
se.
Nem preciso escutá-lo.
É pregador tão célebre, sua prédica
penetra na consciência sem passar
por distraída orelha.
Já deliberei: a santidade
é meu destino.
Juiz não quero ser, nem artilheiro,
médico, romancista ou navegante.
Quero ser e vou ser: apenas
santo.
Pode voltar, Padre Natuzzi, descansado.
Em beatitude sorvo o almo silêncio
do pátio onde passeiam pensativos
os de ontem ruidosos palradores.
A alma! A alma! Que beleza é a alma!
Ela salva! E eu salvo com ela…
se não fosse
esse colega aí, rangente, a remoer
em voz informativa autorizada
vidas de santos, único a falar,
perturbando a minha salvação.
E santo já não sou,
mas barro e palavrão,
humana falha, signo terrestre.
fala do céu, essa infinita aurora
a que seremos todos transportados
se.
Fala também do abismo arquimedonho
em que, a gordurosas culpas amarrado,
de ponta-cabeça irei precipitar-me
se.
Nem preciso escutá-lo.
É pregador tão célebre, sua prédica
penetra na consciência sem passar
por distraída orelha.
Já deliberei: a santidade
é meu destino.
Juiz não quero ser, nem artilheiro,
médico, romancista ou navegante.
Quero ser e vou ser: apenas
santo.
Pode voltar, Padre Natuzzi, descansado.
Em beatitude sorvo o almo silêncio
do pátio onde passeiam pensativos
os de ontem ruidosos palradores.
A alma! A alma! Que beleza é a alma!
Ela salva! E eu salvo com ela…
se não fosse
esse colega aí, rangente, a remoer
em voz informativa autorizada
vidas de santos, único a falar,
perturbando a minha salvação.
E santo já não sou,
mas barro e palavrão,
humana falha, signo terrestre.
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Carlos Drummond de Andrade
Retiro Espiritual
Padre Natuzzi, voz de ouro,
fala do céu, essa infinita aurora
a que seremos todos transportados
se.
Fala também do abismo arquimedonho
em que, a gordurosas culpas amarrado,
de ponta-cabeça irei precipitar-me
se.
Nem preciso escutá-lo.
É pregador tão célebre, sua prédica
penetra na consciência sem passar
por distraída orelha.
Já deliberei: a santidade
é meu destino.
Juiz não quero ser, nem artilheiro,
médico, romancista ou navegante.
Quero ser e vou ser: apenas
santo.
Pode voltar, Padre Natuzzi, descansado.
Em beatitude sorvo o almo silêncio
do pátio onde passeiam pensativos
os de ontem ruidosos palradores.
A alma! A alma! Que beleza é a alma!
Ela salva! E eu salvo com ela…
se não fosse
esse colega aí, rangente, a remoer
em voz informativa autorizada
vidas de santos, único a falar,
perturbando a minha salvação.
E santo já não sou,
mas barro e palavrão,
humana falha, signo terrestre.
fala do céu, essa infinita aurora
a que seremos todos transportados
se.
Fala também do abismo arquimedonho
em que, a gordurosas culpas amarrado,
de ponta-cabeça irei precipitar-me
se.
Nem preciso escutá-lo.
É pregador tão célebre, sua prédica
penetra na consciência sem passar
por distraída orelha.
Já deliberei: a santidade
é meu destino.
Juiz não quero ser, nem artilheiro,
médico, romancista ou navegante.
Quero ser e vou ser: apenas
santo.
Pode voltar, Padre Natuzzi, descansado.
Em beatitude sorvo o almo silêncio
do pátio onde passeiam pensativos
os de ontem ruidosos palradores.
A alma! A alma! Que beleza é a alma!
Ela salva! E eu salvo com ela…
se não fosse
esse colega aí, rangente, a remoer
em voz informativa autorizada
vidas de santos, único a falar,
perturbando a minha salvação.
E santo já não sou,
mas barro e palavrão,
humana falha, signo terrestre.
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Carlos Drummond de Andrade
Arte Fulminada
O tapete de areia colorida
que vamos delineando no recreio
há de ser celebrado toda a vida
como arte maior do nosso tempo.
O risco não é nosso. Irmão Luís
concebeu o mirífico traçado,
mas se ajudo na obra estou feliz.
Cada bloco amarelo é meu florão.
Medieval já me sinto a construir
a catedral em ouro friburguense,
em parte, pelo menos, coisa minha.
Contemplo a criação. Deus fez o mesmo?
Talvez. E enciumado, num momento,
destrói nosso tapete a chuva e vento.
que vamos delineando no recreio
há de ser celebrado toda a vida
como arte maior do nosso tempo.
O risco não é nosso. Irmão Luís
concebeu o mirífico traçado,
mas se ajudo na obra estou feliz.
Cada bloco amarelo é meu florão.
Medieval já me sinto a construir
a catedral em ouro friburguense,
em parte, pelo menos, coisa minha.
Contemplo a criação. Deus fez o mesmo?
Talvez. E enciumado, num momento,
destrói nosso tapete a chuva e vento.
1 001
Carlos Drummond de Andrade
Vigília
A qualquer hora do dia ou da noite,
o ano inteiro, a vida inteira,
os padres da Boa Viagem,
os padres de Santa Efigênia dos Militares
atendem a chamados para confissão de agonizantes.
Sai aviso no Minas
e a morte, que paira sobre Belo Horizonte
e sobre todas as cidades, em qualquer tempo,
sente limitado o seu poder.
Já não chega à traição,
já não golpeia sem que o pecador
possa arrepender-se
e na mão de Deus, na sua mão direita,
como queria Antero, apascentar-se.
A noite mineira é mais tranquila:
convida, camarada,
a pecar mais um momento, um só, bem lento.
o ano inteiro, a vida inteira,
os padres da Boa Viagem,
os padres de Santa Efigênia dos Militares
atendem a chamados para confissão de agonizantes.
Sai aviso no Minas
e a morte, que paira sobre Belo Horizonte
e sobre todas as cidades, em qualquer tempo,
sente limitado o seu poder.
Já não chega à traição,
já não golpeia sem que o pecador
possa arrepender-se
e na mão de Deus, na sua mão direita,
como queria Antero, apascentar-se.
A noite mineira é mais tranquila:
convida, camarada,
a pecar mais um momento, um só, bem lento.
1 190
Carlos Drummond de Andrade
Vigília
A qualquer hora do dia ou da noite,
o ano inteiro, a vida inteira,
os padres da Boa Viagem,
os padres de Santa Efigênia dos Militares
atendem a chamados para confissão de agonizantes.
Sai aviso no Minas
e a morte, que paira sobre Belo Horizonte
e sobre todas as cidades, em qualquer tempo,
sente limitado o seu poder.
Já não chega à traição,
já não golpeia sem que o pecador
possa arrepender-se
e na mão de Deus, na sua mão direita,
como queria Antero, apascentar-se.
A noite mineira é mais tranquila:
convida, camarada,
a pecar mais um momento, um só, bem lento.
o ano inteiro, a vida inteira,
os padres da Boa Viagem,
os padres de Santa Efigênia dos Militares
atendem a chamados para confissão de agonizantes.
Sai aviso no Minas
e a morte, que paira sobre Belo Horizonte
e sobre todas as cidades, em qualquer tempo,
sente limitado o seu poder.
Já não chega à traição,
já não golpeia sem que o pecador
possa arrepender-se
e na mão de Deus, na sua mão direita,
como queria Antero, apascentar-se.
A noite mineira é mais tranquila:
convida, camarada,
a pecar mais um momento, um só, bem lento.
1 190
Carlos Drummond de Andrade
Passeio Geral
Uma vez por mês
café da manhã
com pão e manteiga.
Nesse pão de sempre
a manteiga é signo
de um dia feliz.
Uma vez por mês
passeio geral.
Saímos aos três
em fila informal,
vigilante ao lado,
no rumo sabido:
chácara do Braga.
Manhãzinha branca,
fantasmas nevoentos
saindo da bruma,
passamos na ponte
do Rio Bengalas.
Latões de tutu,
de linguiça e arroz
vão na carrocinha.
Uma vez por mês
é a liberdade
ou seu faz de conta
por algumas horas:
água, mato, riso,
canto, bola, gruta
onde se penetra
um de cada vez
e só entra quem
no peito escorraça
outro candidato.
Lá dentro gritamos
sob o teto baixo
chamando o paciente
mistério do eco.
Diverte-se o medo
na volta instantânea
ao adormecido
homem da caverna.
Que estrondo lá fora
transforma o brinquedo
em puro terror?
Os maximalistas
chegam a Friburgo
instaurando a guerra
em pleno passeio?
Saio a quatro pernas:
o boneco estranho,
o bicho-preguiça
que o Irmão Primavera
preparou com arte
e gordo recheio
de bombas e traques
explode na luz
qual fosse o demônio.
Uma vez por mês
acontecem coisas
não convencionais.
Sentados no chão
ou em tocos de árvore
nosso piquenique
é comer de deuses.
Come-se dobrado,
come-se com fome
de comer o raro
prazer do ar livre.
Mas que é isso? Um pingo,
outro pingo, pingos
na minha comida
que já se derrete
sob a chuva forte.
Depressa, correr
e pedir abrigo
na casa do Braga
onde uma sanfona
acompanha lenta
o chicote rápido
da chuva nas folhas.
Uma vez por mês
essa expectativa
de um dia feliz
ou dia frustrado.
Vigilante ao lado,
em fila de três
depois da estiada
a volta na lama
do chão encharcado.
Todo um mês à frente
a passar na espera
dessa vez por mês.
café da manhã
com pão e manteiga.
Nesse pão de sempre
a manteiga é signo
de um dia feliz.
Uma vez por mês
passeio geral.
Saímos aos três
em fila informal,
vigilante ao lado,
no rumo sabido:
chácara do Braga.
Manhãzinha branca,
fantasmas nevoentos
saindo da bruma,
passamos na ponte
do Rio Bengalas.
Latões de tutu,
de linguiça e arroz
vão na carrocinha.
Uma vez por mês
é a liberdade
ou seu faz de conta
por algumas horas:
água, mato, riso,
canto, bola, gruta
onde se penetra
um de cada vez
e só entra quem
no peito escorraça
outro candidato.
Lá dentro gritamos
sob o teto baixo
chamando o paciente
mistério do eco.
Diverte-se o medo
na volta instantânea
ao adormecido
homem da caverna.
Que estrondo lá fora
transforma o brinquedo
em puro terror?
Os maximalistas
chegam a Friburgo
instaurando a guerra
em pleno passeio?
Saio a quatro pernas:
o boneco estranho,
o bicho-preguiça
que o Irmão Primavera
preparou com arte
e gordo recheio
de bombas e traques
explode na luz
qual fosse o demônio.
Uma vez por mês
acontecem coisas
não convencionais.
Sentados no chão
ou em tocos de árvore
nosso piquenique
é comer de deuses.
Come-se dobrado,
come-se com fome
de comer o raro
prazer do ar livre.
Mas que é isso? Um pingo,
outro pingo, pingos
na minha comida
que já se derrete
sob a chuva forte.
Depressa, correr
e pedir abrigo
na casa do Braga
onde uma sanfona
acompanha lenta
o chicote rápido
da chuva nas folhas.
Uma vez por mês
essa expectativa
de um dia feliz
ou dia frustrado.
Vigilante ao lado,
em fila de três
depois da estiada
a volta na lama
do chão encharcado.
Todo um mês à frente
a passar na espera
dessa vez por mês.
858
Carlos Drummond de Andrade
Direito de Fumar
O pensamento de cigarro
vem, ondulante, frequentar-me,
eu que não fumo.
Bem que o pai podia consentir:
“O 74 está crescido,
pode fumar dois Sônia por semana”.
Assim decide a lei,
aos Grandes permissiva,
quando o pai autoriza esse limite.
Privilégio de Grandes, e sou Grande.
Hei de fingir que fumo, se puder
levar à boca este direito
e à vista de todos a eminência
de ser fumante às claras.
Mas se eu pedir ao pai e ele me nega?
Pior: se ele concede?
Não sei, não sei tragar
(tragar, essencial entre varões).
Abomino o que sonho, me divido
e dividido entro na conjura
escusa dos fumantes clandestinos.
Atento às numerosas portas de privadas,
o Prefeito não vê que em cada uma
no tampo da latrina
um toco de cigarro está à espera
de ser fumado e conservado
para outro fumante e mais um outro
até que apenas cinza
desapareça na descarga.
Um infinito resto de cigarro,
mais duradouro que o cigarro inteiro,
e ai de quem esgote essa riqueza
ainda a tantos outros destinada.
Mas qual o desgraçado
a sair de boca aberta, revelando
o cheiro do prazer, ou que lá dentro
fez soltar a treda fumacinha
que a discrição das portas atravessa
e acaba com a festa das baganas
antes que eu (e sou Grande) participe?
vem, ondulante, frequentar-me,
eu que não fumo.
Bem que o pai podia consentir:
“O 74 está crescido,
pode fumar dois Sônia por semana”.
Assim decide a lei,
aos Grandes permissiva,
quando o pai autoriza esse limite.
Privilégio de Grandes, e sou Grande.
Hei de fingir que fumo, se puder
levar à boca este direito
e à vista de todos a eminência
de ser fumante às claras.
Mas se eu pedir ao pai e ele me nega?
Pior: se ele concede?
Não sei, não sei tragar
(tragar, essencial entre varões).
Abomino o que sonho, me divido
e dividido entro na conjura
escusa dos fumantes clandestinos.
Atento às numerosas portas de privadas,
o Prefeito não vê que em cada uma
no tampo da latrina
um toco de cigarro está à espera
de ser fumado e conservado
para outro fumante e mais um outro
até que apenas cinza
desapareça na descarga.
Um infinito resto de cigarro,
mais duradouro que o cigarro inteiro,
e ai de quem esgote essa riqueza
ainda a tantos outros destinada.
Mas qual o desgraçado
a sair de boca aberta, revelando
o cheiro do prazer, ou que lá dentro
fez soltar a treda fumacinha
que a discrição das portas atravessa
e acaba com a festa das baganas
antes que eu (e sou Grande) participe?
1 834
Carlos Drummond de Andrade
Direito de Fumar
O pensamento de cigarro
vem, ondulante, frequentar-me,
eu que não fumo.
Bem que o pai podia consentir:
“O 74 está crescido,
pode fumar dois Sônia por semana”.
Assim decide a lei,
aos Grandes permissiva,
quando o pai autoriza esse limite.
Privilégio de Grandes, e sou Grande.
Hei de fingir que fumo, se puder
levar à boca este direito
e à vista de todos a eminência
de ser fumante às claras.
Mas se eu pedir ao pai e ele me nega?
Pior: se ele concede?
Não sei, não sei tragar
(tragar, essencial entre varões).
Abomino o que sonho, me divido
e dividido entro na conjura
escusa dos fumantes clandestinos.
Atento às numerosas portas de privadas,
o Prefeito não vê que em cada uma
no tampo da latrina
um toco de cigarro está à espera
de ser fumado e conservado
para outro fumante e mais um outro
até que apenas cinza
desapareça na descarga.
Um infinito resto de cigarro,
mais duradouro que o cigarro inteiro,
e ai de quem esgote essa riqueza
ainda a tantos outros destinada.
Mas qual o desgraçado
a sair de boca aberta, revelando
o cheiro do prazer, ou que lá dentro
fez soltar a treda fumacinha
que a discrição das portas atravessa
e acaba com a festa das baganas
antes que eu (e sou Grande) participe?
vem, ondulante, frequentar-me,
eu que não fumo.
Bem que o pai podia consentir:
“O 74 está crescido,
pode fumar dois Sônia por semana”.
Assim decide a lei,
aos Grandes permissiva,
quando o pai autoriza esse limite.
Privilégio de Grandes, e sou Grande.
Hei de fingir que fumo, se puder
levar à boca este direito
e à vista de todos a eminência
de ser fumante às claras.
Mas se eu pedir ao pai e ele me nega?
Pior: se ele concede?
Não sei, não sei tragar
(tragar, essencial entre varões).
Abomino o que sonho, me divido
e dividido entro na conjura
escusa dos fumantes clandestinos.
Atento às numerosas portas de privadas,
o Prefeito não vê que em cada uma
no tampo da latrina
um toco de cigarro está à espera
de ser fumado e conservado
para outro fumante e mais um outro
até que apenas cinza
desapareça na descarga.
Um infinito resto de cigarro,
mais duradouro que o cigarro inteiro,
e ai de quem esgote essa riqueza
ainda a tantos outros destinada.
Mas qual o desgraçado
a sair de boca aberta, revelando
o cheiro do prazer, ou que lá dentro
fez soltar a treda fumacinha
que a discrição das portas atravessa
e acaba com a festa das baganas
antes que eu (e sou Grande) participe?
1 834
Carlos Drummond de Andrade
O Colegial E a Cidade
Fizeram bem os suíços
fundando Nova Friburgo,
pois um século depois
esta semana de festas
celebra o acontecimento.
Menos aulas; mais saídas.
Vamos cantar pelas ruas
louvores a Deus e à Pátria,
mas vamos principalmente
ver as doces friburguenses
com quem sonhamos à noite
e, mesmo durante o dia,
sonhamos… sem esperança.
Barcos no Rio Bengalas
despertam admiração
e mitos venezianos.
Pudéssemos nós levar
essas meninas nos barcos
e de rio em rio até
às ondas do mar infindo
para cruzeiros bem longe
dos padres que nos vigiam…
Carlos, não pense mais nisso,
contente-se em ver as flores
desabrochadas adrede
para exaltar os suíços.
Entre os alunos, cantores
de bela voz empostada
na missa campal entoam
motetes bem ensaiados.
Têm seu minuto de glória.
Você não sabe cantar.
Pegou então a espingarda,
saiu fardado e chibante
(não muito, é claro), formando
no batalhão escolar,
Tenente Brasil à frente,
nessa rude caminhada
ao ritmo da Pátria Amada.
Dor nas costas! A que vieram
esses suíços? Fundaram
sua colônia, e um colégio
depois se plantou aqui?
Estava bem descansado
em meu sobrado mineiro,
era rei da minha vida,
imperador de mim mesmo,
e agora essa confusão.
Friburgo Futebol Clube
acolhe nossos dois times.
Por 4 a 1 os vermelhos
ganham folgado dos pretos.
Você nem é dos vencidos.
Que faz aí, de boboca?
Já vem a sombra caindo
sobre o musgo das encostas
e os alados movimentos
e os bigarrados vestidos
das moças perturbadoras
em grupos pelos canteiros.
E quando a tarde falece
fica tudo mais difícil
no peito de aluno interno.
Adeus, cidade, adeus, vida
cá fora rumorejante.
Pior ainda na tarde,
pois já se acendem os fogos
da noite festejadora.
Toda Friburgo relumbra
de luzes especiais
e nós só podemos vê-las
do interior do chatô
como os cativos de Antero,
lidos em livro escondido,
contemplam o firmamento.
É nisso que dão leituras
de poesias sombrias.
A noite do centenário
da chegada dos suíços
é noite maior na gente.
Sentir que lá fora estão
se divertindo fagueiros,
que há risos, beijos, cerveja
e não sei mais que delícias,
e eu aqui me torturando
com tábua de logaritmos…
Vão pro inferno os centenários!
fundando Nova Friburgo,
pois um século depois
esta semana de festas
celebra o acontecimento.
Menos aulas; mais saídas.
Vamos cantar pelas ruas
louvores a Deus e à Pátria,
mas vamos principalmente
ver as doces friburguenses
com quem sonhamos à noite
e, mesmo durante o dia,
sonhamos… sem esperança.
Barcos no Rio Bengalas
despertam admiração
e mitos venezianos.
Pudéssemos nós levar
essas meninas nos barcos
e de rio em rio até
às ondas do mar infindo
para cruzeiros bem longe
dos padres que nos vigiam…
Carlos, não pense mais nisso,
contente-se em ver as flores
desabrochadas adrede
para exaltar os suíços.
Entre os alunos, cantores
de bela voz empostada
na missa campal entoam
motetes bem ensaiados.
Têm seu minuto de glória.
Você não sabe cantar.
Pegou então a espingarda,
saiu fardado e chibante
(não muito, é claro), formando
no batalhão escolar,
Tenente Brasil à frente,
nessa rude caminhada
ao ritmo da Pátria Amada.
Dor nas costas! A que vieram
esses suíços? Fundaram
sua colônia, e um colégio
depois se plantou aqui?
Estava bem descansado
em meu sobrado mineiro,
era rei da minha vida,
imperador de mim mesmo,
e agora essa confusão.
Friburgo Futebol Clube
acolhe nossos dois times.
Por 4 a 1 os vermelhos
ganham folgado dos pretos.
Você nem é dos vencidos.
Que faz aí, de boboca?
Já vem a sombra caindo
sobre o musgo das encostas
e os alados movimentos
e os bigarrados vestidos
das moças perturbadoras
em grupos pelos canteiros.
E quando a tarde falece
fica tudo mais difícil
no peito de aluno interno.
Adeus, cidade, adeus, vida
cá fora rumorejante.
Pior ainda na tarde,
pois já se acendem os fogos
da noite festejadora.
Toda Friburgo relumbra
de luzes especiais
e nós só podemos vê-las
do interior do chatô
como os cativos de Antero,
lidos em livro escondido,
contemplam o firmamento.
É nisso que dão leituras
de poesias sombrias.
A noite do centenário
da chegada dos suíços
é noite maior na gente.
Sentir que lá fora estão
se divertindo fagueiros,
que há risos, beijos, cerveja
e não sei mais que delícias,
e eu aqui me torturando
com tábua de logaritmos…
Vão pro inferno os centenários!
620
Carlos Drummond de Andrade
Doidinhos
Também não alcancei os Jardineiros do Ideal,
mocidade morta de Belo Horizonte.
Não conheci os Raros,
os Magnificentes,
— oh que delícia: os Malditos,
do tempo em que o autor falava a leitores hipotéticos:
“Este é um livro de estreia. Caluniai-o”.
Resta, de tantas brumas, o velho Horácio
e seu ceticismo sorridente
na cartorária redação do Diário de Minas.
Não me conta do Barão do Sete-Estrelo
nem do Cavaleiro da Rosa-Cruz.
Os tempos já não são os tempos. Ou nunca foram?
Governa, de pince-nez, Raul Soares,
vem aí Melo Viana, e Bernardes domina,
do alto dos altos, de pince-nez redondo,
o céu nacional.
Horácio? Sorri apenas,
diz alguma coisa que não entendo bem,
nem é para entender: suave cortesia
de quem pressente em mim um novo Raro,
novo Maldito, novo Magnificente,
ocupando na promíscua Pensão Alves um castelo de nuvens.
Não, meu, nosso castelo, a Confeitaria Estrela
é bem terrestre, com sua vitrina de salgadinhos,
e já não somos nem Raros nem Malditos,
mas simples Doidinhos de nova espécie,
arrancadores de placas de advogados e dentistas
em noites de pouca ronda,
pequenos incendiários sem tutano
de atear completas labaredas.
Somos o que somos, mestre Horácio.
mocidade morta de Belo Horizonte.
Não conheci os Raros,
os Magnificentes,
— oh que delícia: os Malditos,
do tempo em que o autor falava a leitores hipotéticos:
“Este é um livro de estreia. Caluniai-o”.
Resta, de tantas brumas, o velho Horácio
e seu ceticismo sorridente
na cartorária redação do Diário de Minas.
Não me conta do Barão do Sete-Estrelo
nem do Cavaleiro da Rosa-Cruz.
Os tempos já não são os tempos. Ou nunca foram?
Governa, de pince-nez, Raul Soares,
vem aí Melo Viana, e Bernardes domina,
do alto dos altos, de pince-nez redondo,
o céu nacional.
Horácio? Sorri apenas,
diz alguma coisa que não entendo bem,
nem é para entender: suave cortesia
de quem pressente em mim um novo Raro,
novo Maldito, novo Magnificente,
ocupando na promíscua Pensão Alves um castelo de nuvens.
Não, meu, nosso castelo, a Confeitaria Estrela
é bem terrestre, com sua vitrina de salgadinhos,
e já não somos nem Raros nem Malditos,
mas simples Doidinhos de nova espécie,
arrancadores de placas de advogados e dentistas
em noites de pouca ronda,
pequenos incendiários sem tutano
de atear completas labaredas.
Somos o que somos, mestre Horácio.
987
Carlos Drummond de Andrade
Doidinhos
Também não alcancei os Jardineiros do Ideal,
mocidade morta de Belo Horizonte.
Não conheci os Raros,
os Magnificentes,
— oh que delícia: os Malditos,
do tempo em que o autor falava a leitores hipotéticos:
“Este é um livro de estreia. Caluniai-o”.
Resta, de tantas brumas, o velho Horácio
e seu ceticismo sorridente
na cartorária redação do Diário de Minas.
Não me conta do Barão do Sete-Estrelo
nem do Cavaleiro da Rosa-Cruz.
Os tempos já não são os tempos. Ou nunca foram?
Governa, de pince-nez, Raul Soares,
vem aí Melo Viana, e Bernardes domina,
do alto dos altos, de pince-nez redondo,
o céu nacional.
Horácio? Sorri apenas,
diz alguma coisa que não entendo bem,
nem é para entender: suave cortesia
de quem pressente em mim um novo Raro,
novo Maldito, novo Magnificente,
ocupando na promíscua Pensão Alves um castelo de nuvens.
Não, meu, nosso castelo, a Confeitaria Estrela
é bem terrestre, com sua vitrina de salgadinhos,
e já não somos nem Raros nem Malditos,
mas simples Doidinhos de nova espécie,
arrancadores de placas de advogados e dentistas
em noites de pouca ronda,
pequenos incendiários sem tutano
de atear completas labaredas.
Somos o que somos, mestre Horácio.
mocidade morta de Belo Horizonte.
Não conheci os Raros,
os Magnificentes,
— oh que delícia: os Malditos,
do tempo em que o autor falava a leitores hipotéticos:
“Este é um livro de estreia. Caluniai-o”.
Resta, de tantas brumas, o velho Horácio
e seu ceticismo sorridente
na cartorária redação do Diário de Minas.
Não me conta do Barão do Sete-Estrelo
nem do Cavaleiro da Rosa-Cruz.
Os tempos já não são os tempos. Ou nunca foram?
Governa, de pince-nez, Raul Soares,
vem aí Melo Viana, e Bernardes domina,
do alto dos altos, de pince-nez redondo,
o céu nacional.
Horácio? Sorri apenas,
diz alguma coisa que não entendo bem,
nem é para entender: suave cortesia
de quem pressente em mim um novo Raro,
novo Maldito, novo Magnificente,
ocupando na promíscua Pensão Alves um castelo de nuvens.
Não, meu, nosso castelo, a Confeitaria Estrela
é bem terrestre, com sua vitrina de salgadinhos,
e já não somos nem Raros nem Malditos,
mas simples Doidinhos de nova espécie,
arrancadores de placas de advogados e dentistas
em noites de pouca ronda,
pequenos incendiários sem tutano
de atear completas labaredas.
Somos o que somos, mestre Horácio.
987
Carlos Drummond de Andrade
As Letras Em Jantar
Meu primeiro banquete literário.
O espelho art nouveau do Hotel Avenida
reflete doze ilustres escritores.
Convidado! sento à mesa dos ilustres,
ilustre me tornando em potencial,
representante da escola, por nascer,
dos bárbaros futuristas do Curral.
Osvaldo de Araújo, Aldo Delfino,
Mário Mendes Campos, cristais, flores,
Abílio Barreto, Silva Guimaraens,
Rangel Coelho, quem mais? Não os distingo,
pois nem distingo a mim, de tão repleta
esta hora (o vinho, a carne) de horizontes.
Qual a razão do bródio? Precisa haver razão
para bródios? As letras mandam
comer, sorver a glória deste instante,
Agripa de Vasconcelos, o poeta,
recém-eleito acadêmico mineiro,
oferece-nos o prândio. Na verdade
nós é que devíamos prestar-lhe
este preito ritual.
Mas ele paga. E recita
à sobremesa, com voz clara:
“O meu destino… onde me levará?”.
A pergunta ressoa (garfos, copos)
e ninguém na mesa em festa ousa fazer
de si para si mesmo
a grave indagação.
Quedamos importantes, paralisados,
na foto de magnésio.
O espelho art nouveau do Hotel Avenida
reflete doze ilustres escritores.
Convidado! sento à mesa dos ilustres,
ilustre me tornando em potencial,
representante da escola, por nascer,
dos bárbaros futuristas do Curral.
Osvaldo de Araújo, Aldo Delfino,
Mário Mendes Campos, cristais, flores,
Abílio Barreto, Silva Guimaraens,
Rangel Coelho, quem mais? Não os distingo,
pois nem distingo a mim, de tão repleta
esta hora (o vinho, a carne) de horizontes.
Qual a razão do bródio? Precisa haver razão
para bródios? As letras mandam
comer, sorver a glória deste instante,
Agripa de Vasconcelos, o poeta,
recém-eleito acadêmico mineiro,
oferece-nos o prândio. Na verdade
nós é que devíamos prestar-lhe
este preito ritual.
Mas ele paga. E recita
à sobremesa, com voz clara:
“O meu destino… onde me levará?”.
A pergunta ressoa (garfos, copos)
e ninguém na mesa em festa ousa fazer
de si para si mesmo
a grave indagação.
Quedamos importantes, paralisados,
na foto de magnésio.
1 043
Carlos Drummond de Andrade
As Letras Em Jantar
Meu primeiro banquete literário.
O espelho art nouveau do Hotel Avenida
reflete doze ilustres escritores.
Convidado! sento à mesa dos ilustres,
ilustre me tornando em potencial,
representante da escola, por nascer,
dos bárbaros futuristas do Curral.
Osvaldo de Araújo, Aldo Delfino,
Mário Mendes Campos, cristais, flores,
Abílio Barreto, Silva Guimaraens,
Rangel Coelho, quem mais? Não os distingo,
pois nem distingo a mim, de tão repleta
esta hora (o vinho, a carne) de horizontes.
Qual a razão do bródio? Precisa haver razão
para bródios? As letras mandam
comer, sorver a glória deste instante,
Agripa de Vasconcelos, o poeta,
recém-eleito acadêmico mineiro,
oferece-nos o prândio. Na verdade
nós é que devíamos prestar-lhe
este preito ritual.
Mas ele paga. E recita
à sobremesa, com voz clara:
“O meu destino… onde me levará?”.
A pergunta ressoa (garfos, copos)
e ninguém na mesa em festa ousa fazer
de si para si mesmo
a grave indagação.
Quedamos importantes, paralisados,
na foto de magnésio.
O espelho art nouveau do Hotel Avenida
reflete doze ilustres escritores.
Convidado! sento à mesa dos ilustres,
ilustre me tornando em potencial,
representante da escola, por nascer,
dos bárbaros futuristas do Curral.
Osvaldo de Araújo, Aldo Delfino,
Mário Mendes Campos, cristais, flores,
Abílio Barreto, Silva Guimaraens,
Rangel Coelho, quem mais? Não os distingo,
pois nem distingo a mim, de tão repleta
esta hora (o vinho, a carne) de horizontes.
Qual a razão do bródio? Precisa haver razão
para bródios? As letras mandam
comer, sorver a glória deste instante,
Agripa de Vasconcelos, o poeta,
recém-eleito acadêmico mineiro,
oferece-nos o prândio. Na verdade
nós é que devíamos prestar-lhe
este preito ritual.
Mas ele paga. E recita
à sobremesa, com voz clara:
“O meu destino… onde me levará?”.
A pergunta ressoa (garfos, copos)
e ninguém na mesa em festa ousa fazer
de si para si mesmo
a grave indagação.
Quedamos importantes, paralisados,
na foto de magnésio.
1 043
Carlos Drummond de Andrade
A Tentação de Comprar
Com anúncios de página inteira
(coisa nunca vista nos sertões)
inaugura-se na Rua da Bahia
o fabuloso Parc Royal.
Três andares das mais finas futilidades
vindas diretamente da Rue de la Paix.
Seu Teotônio Caldeira, gerente,
manipula novas técnicas de vender.
As virgens loucas compram compram compram
e as mães das virgens loucas, outro tanto.
Pais de família, em pânico,
veem germinar no solo imáculo de Minas
a semente de luxo e desperdício.
Nada podem fazer, cruzam os braços:
o Parc Royal tem como padroeira
nada menos que Nossa Senhora da Conceição.
— Meu pai, posso botar na sua conta
três camisas de seda, um alfinete de gravata?
— Até você, meu filho, até você?!
(coisa nunca vista nos sertões)
inaugura-se na Rua da Bahia
o fabuloso Parc Royal.
Três andares das mais finas futilidades
vindas diretamente da Rue de la Paix.
Seu Teotônio Caldeira, gerente,
manipula novas técnicas de vender.
As virgens loucas compram compram compram
e as mães das virgens loucas, outro tanto.
Pais de família, em pânico,
veem germinar no solo imáculo de Minas
a semente de luxo e desperdício.
Nada podem fazer, cruzam os braços:
o Parc Royal tem como padroeira
nada menos que Nossa Senhora da Conceição.
— Meu pai, posso botar na sua conta
três camisas de seda, um alfinete de gravata?
— Até você, meu filho, até você?!
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Carlos Drummond de Andrade
O Passado Presente
Vejo o conde D’Eu no Grande Hotel.
Fala francês com Dr. Rodolfo Jacob.
O fantasma da Monarquia
é o terceiro, invisível, interlocutor.
Lá fora o sol encandece, republicano.
Ah, nunca pensei que o passado existisse
assim tocável, a mexer-se.
Existe. E fala baixo. Daqui a pouco
toma o trem da Central, rumo ao silêncio.
Fala francês com Dr. Rodolfo Jacob.
O fantasma da Monarquia
é o terceiro, invisível, interlocutor.
Lá fora o sol encandece, republicano.
Ah, nunca pensei que o passado existisse
assim tocável, a mexer-se.
Existe. E fala baixo. Daqui a pouco
toma o trem da Central, rumo ao silêncio.
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Carlos Drummond de Andrade
O Passado Presente
Vejo o conde D’Eu no Grande Hotel.
Fala francês com Dr. Rodolfo Jacob.
O fantasma da Monarquia
é o terceiro, invisível, interlocutor.
Lá fora o sol encandece, republicano.
Ah, nunca pensei que o passado existisse
assim tocável, a mexer-se.
Existe. E fala baixo. Daqui a pouco
toma o trem da Central, rumo ao silêncio.
Fala francês com Dr. Rodolfo Jacob.
O fantasma da Monarquia
é o terceiro, invisível, interlocutor.
Lá fora o sol encandece, republicano.
Ah, nunca pensei que o passado existisse
assim tocável, a mexer-se.
Existe. E fala baixo. Daqui a pouco
toma o trem da Central, rumo ao silêncio.
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Carlos Drummond de Andrade
O Passado Presente
Vejo o conde D’Eu no Grande Hotel.
Fala francês com Dr. Rodolfo Jacob.
O fantasma da Monarquia
é o terceiro, invisível, interlocutor.
Lá fora o sol encandece, republicano.
Ah, nunca pensei que o passado existisse
assim tocável, a mexer-se.
Existe. E fala baixo. Daqui a pouco
toma o trem da Central, rumo ao silêncio.
Fala francês com Dr. Rodolfo Jacob.
O fantasma da Monarquia
é o terceiro, invisível, interlocutor.
Lá fora o sol encandece, republicano.
Ah, nunca pensei que o passado existisse
assim tocável, a mexer-se.
Existe. E fala baixo. Daqui a pouco
toma o trem da Central, rumo ao silêncio.
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Carlos Drummond de Andrade
Carnaval E Moças
Minas Gerais está mudando?
As moças vão para o corso fantasiadas de Malandrinhas.
Não cantam “A malandragem eu não posso deixar”
nem “Eu quero é nota”,
mas do alto dos carros de capota arriada,
sorrindo, atirando serpentinas nos outros carros,
entoam desenvoltas
“Levanta o pé,
esconde a mão,
quero saber se tu gostas de mim
ou não”.
Os pais deixaram.
Aí vem o Bloco Papai Deixou:
as Tamm de Lima, as Franzen de Lima,
as Tamm Bias Fortes, as Tamm Loreto,
irmãs, primas, cunhadas, a família mineira
descobrindo e revelando uma alegria carioca,
a alegria do carnaval.
Moulin Rouge? Assim também não. Mas pode ser Moulin Bleu
com Maria Rosa Pena, Célia de Carvalho,
Iolanda Vieira, Iolanda Bandeira,
outras que vão desfilando, vão cantando
ou, se não cantam, cantam os seus braços.
Cuidado! capitalistas de Belo Horizonte,
a Mão Negra está chegando e ameaçando.
Maria Geralda Sales, Irene e Pequetita Giffoni
fazem tremer o mineiro, que tem sempre
um dinheirinho guardado nas dobras do silêncio
e um pecado, talvez, de todos ignorado.
Felizmente nos salvam os Três
ou as Três Mosqueteiras, galhardas e galantes.
Lúcia Machado é Porthos,
Maria Helena Caldeira é Athos,
e Aramis, Maria Helena Pena.
Cadê o D’Artagnan? Elas respondem:
“Foi ferido no último duelo,
mas nós três damos conta do recado”.
Neste bloco maior vejo as Boêmias,
Ilka e Luizinha Andrada, Lurdes Rocha,
Hilda Borges da Costa, Heloísa Sales,
e Tinice e Clarita e Cidinha e quem mais.
Nomeá-las todas não posso: são dois carros
e é preciso olhar, passando na Avenida,
as Sevilhanas, as Aviadoras,
os Fantasmas da Ópera, as Caçadoras de Corações,
as Senhoritas Barba-Azul, copiadas de Bebé Daniels,
as Funcionárias (da Secretaria das Finanças),
e na calçada os Netos de Gambrinus
fantasiados de Barril de Chope.
Meu Deus, de cada rua
no bloco irrompe, e é tudo animação.
Bailarinas do Xeque, sem o Xeque,
nem eu queria vê-lo: elas sozinhas
cercam de Oriente minha sertanice.
De cada município agora sinto
afluir foliões em sarabanda.
Minas perdeu o sério. Minas pula,
revoluteia, grita, esquece a história
comedida, o severo “vou pensar”.
Minas não pensa mais, Minas se agita
ao som do jazz, ao som do bumbo, zum-zum-zum.
Vejo tudo isto ou estou sonhando
à mesa do Trianon, junto de Emílio,
poeta amigo, e Almeida,
sorvendo uma frappée, lenço molhado
de Rodo, pasárgada dos tímidos?
Ao clube não irei, nem aspirante
de sócio me tornei. Na minha face
gravado foi por lei hereditária:
“Este não dança”. Sei apenas ver,
e o que vejo na Rua da Bahia
é chuva chuva chuva sem parar,
é chuva e guarda-chuva, luva-dilúvio
a envolver os dedos da cidade.
Na cara dos garçons, nas fustigadas
árvores, no desolado cão fuginte,
na deserta calçada noturnal,
esta leitura faço, da sentença:
“Por aqui, a Quaresma
no sábado de carnaval é que começa”.
As moças vão para o corso fantasiadas de Malandrinhas.
Não cantam “A malandragem eu não posso deixar”
nem “Eu quero é nota”,
mas do alto dos carros de capota arriada,
sorrindo, atirando serpentinas nos outros carros,
entoam desenvoltas
“Levanta o pé,
esconde a mão,
quero saber se tu gostas de mim
ou não”.
Os pais deixaram.
Aí vem o Bloco Papai Deixou:
as Tamm de Lima, as Franzen de Lima,
as Tamm Bias Fortes, as Tamm Loreto,
irmãs, primas, cunhadas, a família mineira
descobrindo e revelando uma alegria carioca,
a alegria do carnaval.
Moulin Rouge? Assim também não. Mas pode ser Moulin Bleu
com Maria Rosa Pena, Célia de Carvalho,
Iolanda Vieira, Iolanda Bandeira,
outras que vão desfilando, vão cantando
ou, se não cantam, cantam os seus braços.
Cuidado! capitalistas de Belo Horizonte,
a Mão Negra está chegando e ameaçando.
Maria Geralda Sales, Irene e Pequetita Giffoni
fazem tremer o mineiro, que tem sempre
um dinheirinho guardado nas dobras do silêncio
e um pecado, talvez, de todos ignorado.
Felizmente nos salvam os Três
ou as Três Mosqueteiras, galhardas e galantes.
Lúcia Machado é Porthos,
Maria Helena Caldeira é Athos,
e Aramis, Maria Helena Pena.
Cadê o D’Artagnan? Elas respondem:
“Foi ferido no último duelo,
mas nós três damos conta do recado”.
Neste bloco maior vejo as Boêmias,
Ilka e Luizinha Andrada, Lurdes Rocha,
Hilda Borges da Costa, Heloísa Sales,
e Tinice e Clarita e Cidinha e quem mais.
Nomeá-las todas não posso: são dois carros
e é preciso olhar, passando na Avenida,
as Sevilhanas, as Aviadoras,
os Fantasmas da Ópera, as Caçadoras de Corações,
as Senhoritas Barba-Azul, copiadas de Bebé Daniels,
as Funcionárias (da Secretaria das Finanças),
e na calçada os Netos de Gambrinus
fantasiados de Barril de Chope.
Meu Deus, de cada rua
no bloco irrompe, e é tudo animação.
Bailarinas do Xeque, sem o Xeque,
nem eu queria vê-lo: elas sozinhas
cercam de Oriente minha sertanice.
De cada município agora sinto
afluir foliões em sarabanda.
Minas perdeu o sério. Minas pula,
revoluteia, grita, esquece a história
comedida, o severo “vou pensar”.
Minas não pensa mais, Minas se agita
ao som do jazz, ao som do bumbo, zum-zum-zum.
Vejo tudo isto ou estou sonhando
à mesa do Trianon, junto de Emílio,
poeta amigo, e Almeida,
sorvendo uma frappée, lenço molhado
de Rodo, pasárgada dos tímidos?
Ao clube não irei, nem aspirante
de sócio me tornei. Na minha face
gravado foi por lei hereditária:
“Este não dança”. Sei apenas ver,
e o que vejo na Rua da Bahia
é chuva chuva chuva sem parar,
é chuva e guarda-chuva, luva-dilúvio
a envolver os dedos da cidade.
Na cara dos garçons, nas fustigadas
árvores, no desolado cão fuginte,
na deserta calçada noturnal,
esta leitura faço, da sentença:
“Por aqui, a Quaresma
no sábado de carnaval é que começa”.
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