Poemas neste tema
Vida e Existência
António Ramos Rosa
Um Óleo de Manuel Baptista
Na parede as teias
a cor de uma adega
o vinho que cheira
de séculos e o sol
debaixo da terra
ouro subterrâneo
poente que dura
a cor de uma adega
o vinho que cheira
de séculos e o sol
debaixo da terra
ouro subterrâneo
poente que dura
1 072
António Ramos Rosa
Sequência
Palpita sobre a página
desejo de olhar nu
Ó lucidez sem forma
Gruta fresca em silêncio
Golpes secos retumbam
onde deslizam dedos
na pelagem dum bicho
inerme oco à escuta
verde te espera alguém
*
Ave minúscula núcleo
radical obscuro
caroço dum soluço
dura sombra do sol
Na garganta redondo
visível quase nu
se escrevo e tento só
desmembrá-lo. Soluço.
*
Breves ramos visíveis
verde, móvel folhagem
respiro neste silêncio
de ar e luz.
Nas veias desta árvore
percorro lentamente
o silêncio da seiva.
Agora posso ver-te.
*
Movimentos que entronco
em palpitantes feixes
de fibras enervadas
num só corpo direito
afirmo esta presença
mais verde e intacta
como árvore ao ar que abraça.
*
Soluço ou semente
irredutível,
presença obscura mínima
sombra sempre tangente
de súbito só vento
deslizando
ausente.
desejo de olhar nu
Ó lucidez sem forma
Gruta fresca em silêncio
Golpes secos retumbam
onde deslizam dedos
na pelagem dum bicho
inerme oco à escuta
verde te espera alguém
*
Ave minúscula núcleo
radical obscuro
caroço dum soluço
dura sombra do sol
Na garganta redondo
visível quase nu
se escrevo e tento só
desmembrá-lo. Soluço.
*
Breves ramos visíveis
verde, móvel folhagem
respiro neste silêncio
de ar e luz.
Nas veias desta árvore
percorro lentamente
o silêncio da seiva.
Agora posso ver-te.
*
Movimentos que entronco
em palpitantes feixes
de fibras enervadas
num só corpo direito
afirmo esta presença
mais verde e intacta
como árvore ao ar que abraça.
*
Soluço ou semente
irredutível,
presença obscura mínima
sombra sempre tangente
de súbito só vento
deslizando
ausente.
1 038
António Ramos Rosa
Monólogo
Perdi a infância e as grandes horas
e procuro numa árvore não sei que intimidade
como se um sol para as mãos nascesse deste olhar
mas a inocência é rápida como o brilho
silenciosa
e existe em si mesma.
Uma forma, sim, sempre silenciosa
dia a dia nascida da surpresa e constância
dia a dia nascida da inocência, mas
como fugir a esta inútil presença?
e procuro numa árvore não sei que intimidade
como se um sol para as mãos nascesse deste olhar
mas a inocência é rápida como o brilho
silenciosa
e existe em si mesma.
Uma forma, sim, sempre silenciosa
dia a dia nascida da surpresa e constância
dia a dia nascida da inocência, mas
como fugir a esta inútil presença?
1 236
António Ramos Rosa
A Lâmpada
As palavras em chamas queimam veias e árvores,
lâmpadas em turbilhão fluem nas calçadas
entre pernas vermelhas e caixotes e cães.
Corro sobre o mar, esta palavra lâmpada
aquece-me por dentro, é um ovo de esperança,
corro, corro à espera de nascer no meu povo.
*
Quem dirá o contorno, o colo que se debruça
na imóvel finura dum punho silencioso
o fruto vigilante e submerso seio?
*
No silêncio da mesa sobre a lisa
dureza
ela é a inundação sem tempo e a presença
da origem e alta dignidade humana.
*
Ó lâmpada, exemplo de poema,
quando aprenderemos a tua dócil sombra
e as tuas sílabas em que o silêncio ama?
*
A esperança é vigilante em tua luz.
A luz é vigilante em tua esperança.
lâmpadas em turbilhão fluem nas calçadas
entre pernas vermelhas e caixotes e cães.
Corro sobre o mar, esta palavra lâmpada
aquece-me por dentro, é um ovo de esperança,
corro, corro à espera de nascer no meu povo.
*
Quem dirá o contorno, o colo que se debruça
na imóvel finura dum punho silencioso
o fruto vigilante e submerso seio?
*
No silêncio da mesa sobre a lisa
dureza
ela é a inundação sem tempo e a presença
da origem e alta dignidade humana.
*
Ó lâmpada, exemplo de poema,
quando aprenderemos a tua dócil sombra
e as tuas sílabas em que o silêncio ama?
*
A esperança é vigilante em tua luz.
A luz é vigilante em tua esperança.
1 150
António Ramos Rosa
Visão Ausência Presença Encontro
No vento inteira
No vento nua
Plena e branca
À beira d’água
verga suavemente ou é presença grave
cabeleira compacta
pernas harmoniosas justas
Demasiado duras
Demasiado inteiras
No vento ainda
esta presença obcecante branca
à beira d’água
*
A sua mão diz o amor das folhas
as suas ancas chamam os cavalos
Que inquietação te move, incorporada
ao vento, à água, ao sol?
Se me ignoras, porque não te despes
e não procuras confundir-te na água
ou não te deitas na erva, preciosa?
Sou livre e só, procuro-te, compacta.
Neste silêncio do sol e da água lisa
declino-te os braços que me inundam.
*
Se nos teus seios as chamas me queimassem
a água lavaria o duro fogo
o vento o corpo inteiro gravar-te-ia.
Se nos teus olhos os olhos se me perdessem
nova água, sol e vento se fariam
através de um só corpo de alegria.
*
Ausente nas folhagens
no rumor do vento,
o vestido branco
ou um cavalo?
*
Ela
entre as árvores
precipitada
ou o vento apenas
dizendo a crueldade clara?
Ela, a vida
banhando-se na água
pleno odor de fêmea
corpo grave?
*
Se ela é plena na água
e se os meus olhos a vêem
se pleno me confundo
na própria água que a rodeia
na delícia infinita que ela vive?
Se todo o corpo entre o ar e a água
é um tronco que vibra
na verdura plenitude?
Se todo eu sou a água
deliciada em extensão perfeita?
*
Na água
deitada ou levantada!
*
Erguida como um jorro
ou plena plana sobre a águacomo um barco
Ao sabor da água
ao gosto do ar
cabeleira desatada sobre os ombros
árvore culminada.
*
Regressar a terra
vir aos braços do vento
e às carícias da folhagem
abraçar o tronco
cabeleira exausta
Caminhar sobre a terra
ou sobre a água
ou nos braços do vento?
*
No ombro côncavo
meu rosto encontra
plena inserção
puro abandono
mas não do sono
de vida encontrada
*
Vitória propagada pela sombra
cabeleira compacta, firmes membros,
uma respiração feliz ombro a ombro
um caminhar sem solidão na noite.
No vento nua
Plena e branca
À beira d’água
verga suavemente ou é presença grave
cabeleira compacta
pernas harmoniosas justas
Demasiado duras
Demasiado inteiras
No vento ainda
esta presença obcecante branca
à beira d’água
*
A sua mão diz o amor das folhas
as suas ancas chamam os cavalos
Que inquietação te move, incorporada
ao vento, à água, ao sol?
Se me ignoras, porque não te despes
e não procuras confundir-te na água
ou não te deitas na erva, preciosa?
Sou livre e só, procuro-te, compacta.
Neste silêncio do sol e da água lisa
declino-te os braços que me inundam.
*
Se nos teus seios as chamas me queimassem
a água lavaria o duro fogo
o vento o corpo inteiro gravar-te-ia.
Se nos teus olhos os olhos se me perdessem
nova água, sol e vento se fariam
através de um só corpo de alegria.
*
Ausente nas folhagens
no rumor do vento,
o vestido branco
ou um cavalo?
*
Ela
entre as árvores
precipitada
ou o vento apenas
dizendo a crueldade clara?
Ela, a vida
banhando-se na água
pleno odor de fêmea
corpo grave?
*
Se ela é plena na água
e se os meus olhos a vêem
se pleno me confundo
na própria água que a rodeia
na delícia infinita que ela vive?
Se todo o corpo entre o ar e a água
é um tronco que vibra
na verdura plenitude?
Se todo eu sou a água
deliciada em extensão perfeita?
*
Na água
deitada ou levantada!
*
Erguida como um jorro
ou plena plana sobre a águacomo um barco
Ao sabor da água
ao gosto do ar
cabeleira desatada sobre os ombros
árvore culminada.
*
Regressar a terra
vir aos braços do vento
e às carícias da folhagem
abraçar o tronco
cabeleira exausta
Caminhar sobre a terra
ou sobre a água
ou nos braços do vento?
*
No ombro côncavo
meu rosto encontra
plena inserção
puro abandono
mas não do sono
de vida encontrada
*
Vitória propagada pela sombra
cabeleira compacta, firmes membros,
uma respiração feliz ombro a ombro
um caminhar sem solidão na noite.
1 122
António Ramos Rosa
Ocupação do Espaço
Assim te insurges, leal, frente ao silêncio.
O mesmo espaço visível, ocupa-o.
Conjugações, nexos, amplo vazio,
um campo côncavo em arco
ocupa-o.
Amanhã será sempre hoje este momento.
Outro, pleno e vão.
Fronte aberta,
olhando lentamente,
clara, dispersa união.
Em ti mesmo dá lugar ao espaço.
*
Do sono calmo emerge,
branco surto da sombra em movimento,
à procura de si, de um ombro
em que pouse, contorne
e demorando-se
se propague e desvaneça na brancura.
*
Um olhar único pousando
dá tempo ao espaço que se curva,
bacia ou anca aberta,
precisa inundação límpida e vasta,
precipitadas, ondulantes linhas,
fulguração branca
— praia que se prolonga.
O mesmo espaço visível, ocupa-o.
Conjugações, nexos, amplo vazio,
um campo côncavo em arco
ocupa-o.
Amanhã será sempre hoje este momento.
Outro, pleno e vão.
Fronte aberta,
olhando lentamente,
clara, dispersa união.
Em ti mesmo dá lugar ao espaço.
*
Do sono calmo emerge,
branco surto da sombra em movimento,
à procura de si, de um ombro
em que pouse, contorne
e demorando-se
se propague e desvaneça na brancura.
*
Um olhar único pousando
dá tempo ao espaço que se curva,
bacia ou anca aberta,
precisa inundação límpida e vasta,
precipitadas, ondulantes linhas,
fulguração branca
— praia que se prolonga.
741
António Ramos Rosa
Ocupação do Espaço
Assim te insurges, leal, frente ao silêncio.
O mesmo espaço visível, ocupa-o.
Conjugações, nexos, amplo vazio,
um campo côncavo em arco
ocupa-o.
Amanhã será sempre hoje este momento.
Outro, pleno e vão.
Fronte aberta,
olhando lentamente,
clara, dispersa união.
Em ti mesmo dá lugar ao espaço.
*
Do sono calmo emerge,
branco surto da sombra em movimento,
à procura de si, de um ombro
em que pouse, contorne
e demorando-se
se propague e desvaneça na brancura.
*
Um olhar único pousando
dá tempo ao espaço que se curva,
bacia ou anca aberta,
precisa inundação límpida e vasta,
precipitadas, ondulantes linhas,
fulguração branca
— praia que se prolonga.
O mesmo espaço visível, ocupa-o.
Conjugações, nexos, amplo vazio,
um campo côncavo em arco
ocupa-o.
Amanhã será sempre hoje este momento.
Outro, pleno e vão.
Fronte aberta,
olhando lentamente,
clara, dispersa união.
Em ti mesmo dá lugar ao espaço.
*
Do sono calmo emerge,
branco surto da sombra em movimento,
à procura de si, de um ombro
em que pouse, contorne
e demorando-se
se propague e desvaneça na brancura.
*
Um olhar único pousando
dá tempo ao espaço que se curva,
bacia ou anca aberta,
precisa inundação límpida e vasta,
precipitadas, ondulantes linhas,
fulguração branca
— praia que se prolonga.
741
António Ramos Rosa
Espaço a Espaço
Sem peso, que palavras soltas,
nos restituem o sal fixo: o edifício claro?
Na mina vaga tudo é tentativa
e decisão de linhas:
tudo posso afirmar se sigo a curva
e respiro, alimentando-me, no ar,
caminho, vejo, ocupo
espaço a espaço.
*
Cumprir o imóvel caminho
que nos tenta,
nada que toque a boca,
só em canais de silêncio, raios furtivos,
a luz que esplende sobre um telhado,
assim se estende a terra, um corpo,
assim um olhar encontra um mar,
as palavras se juntam e separam,
alguma coisa resta e para lá caminha,
um braço suspenso continua.
*
Interminavelmente e é apenas o dia,
a crespa cabeleira sem cintilações,
o quadro aberto e vasto, já contido,
um outro olhar, um outro gesto, a forma de outro
braço, o mesmo vulto sorri
na mesa, inclinado:
equívoco sem traços,
continuação, ausência, passos, risos,
e o ar em torno, sossego, e mais um novo alento
que surge e se confunde, mar.
*
A nuvem que se adensa e um rosto longe,
súbito um céu sem horizonte,
uma casa crepitando, um espelho escuro,
tudo é um obsessivo presente sem presença,
toda a espessura cerrada sem respiração,
um homem invadido escuta a chuva,
um absurdo cacarejar de galinhas.
*
Uma clareira, alguém veio a fugir
e, parando, um silêncio descoberto
tudo cobriu: então o corpo vivo
respirou na claridade o fogo calmo
e deus na plenitude era sem tempo
o ondular das ervas, sob a luz,
um corpo aberto: ó sangue puro!
nos restituem o sal fixo: o edifício claro?
Na mina vaga tudo é tentativa
e decisão de linhas:
tudo posso afirmar se sigo a curva
e respiro, alimentando-me, no ar,
caminho, vejo, ocupo
espaço a espaço.
*
Cumprir o imóvel caminho
que nos tenta,
nada que toque a boca,
só em canais de silêncio, raios furtivos,
a luz que esplende sobre um telhado,
assim se estende a terra, um corpo,
assim um olhar encontra um mar,
as palavras se juntam e separam,
alguma coisa resta e para lá caminha,
um braço suspenso continua.
*
Interminavelmente e é apenas o dia,
a crespa cabeleira sem cintilações,
o quadro aberto e vasto, já contido,
um outro olhar, um outro gesto, a forma de outro
braço, o mesmo vulto sorri
na mesa, inclinado:
equívoco sem traços,
continuação, ausência, passos, risos,
e o ar em torno, sossego, e mais um novo alento
que surge e se confunde, mar.
*
A nuvem que se adensa e um rosto longe,
súbito um céu sem horizonte,
uma casa crepitando, um espelho escuro,
tudo é um obsessivo presente sem presença,
toda a espessura cerrada sem respiração,
um homem invadido escuta a chuva,
um absurdo cacarejar de galinhas.
*
Uma clareira, alguém veio a fugir
e, parando, um silêncio descoberto
tudo cobriu: então o corpo vivo
respirou na claridade o fogo calmo
e deus na plenitude era sem tempo
o ondular das ervas, sob a luz,
um corpo aberto: ó sangue puro!
1 145
António Ramos Rosa
Espaço a Espaço
Sem peso, que palavras soltas,
nos restituem o sal fixo: o edifício claro?
Na mina vaga tudo é tentativa
e decisão de linhas:
tudo posso afirmar se sigo a curva
e respiro, alimentando-me, no ar,
caminho, vejo, ocupo
espaço a espaço.
*
Cumprir o imóvel caminho
que nos tenta,
nada que toque a boca,
só em canais de silêncio, raios furtivos,
a luz que esplende sobre um telhado,
assim se estende a terra, um corpo,
assim um olhar encontra um mar,
as palavras se juntam e separam,
alguma coisa resta e para lá caminha,
um braço suspenso continua.
*
Interminavelmente e é apenas o dia,
a crespa cabeleira sem cintilações,
o quadro aberto e vasto, já contido,
um outro olhar, um outro gesto, a forma de outro
braço, o mesmo vulto sorri
na mesa, inclinado:
equívoco sem traços,
continuação, ausência, passos, risos,
e o ar em torno, sossego, e mais um novo alento
que surge e se confunde, mar.
*
A nuvem que se adensa e um rosto longe,
súbito um céu sem horizonte,
uma casa crepitando, um espelho escuro,
tudo é um obsessivo presente sem presença,
toda a espessura cerrada sem respiração,
um homem invadido escuta a chuva,
um absurdo cacarejar de galinhas.
*
Uma clareira, alguém veio a fugir
e, parando, um silêncio descoberto
tudo cobriu: então o corpo vivo
respirou na claridade o fogo calmo
e deus na plenitude era sem tempo
o ondular das ervas, sob a luz,
um corpo aberto: ó sangue puro!
nos restituem o sal fixo: o edifício claro?
Na mina vaga tudo é tentativa
e decisão de linhas:
tudo posso afirmar se sigo a curva
e respiro, alimentando-me, no ar,
caminho, vejo, ocupo
espaço a espaço.
*
Cumprir o imóvel caminho
que nos tenta,
nada que toque a boca,
só em canais de silêncio, raios furtivos,
a luz que esplende sobre um telhado,
assim se estende a terra, um corpo,
assim um olhar encontra um mar,
as palavras se juntam e separam,
alguma coisa resta e para lá caminha,
um braço suspenso continua.
*
Interminavelmente e é apenas o dia,
a crespa cabeleira sem cintilações,
o quadro aberto e vasto, já contido,
um outro olhar, um outro gesto, a forma de outro
braço, o mesmo vulto sorri
na mesa, inclinado:
equívoco sem traços,
continuação, ausência, passos, risos,
e o ar em torno, sossego, e mais um novo alento
que surge e se confunde, mar.
*
A nuvem que se adensa e um rosto longe,
súbito um céu sem horizonte,
uma casa crepitando, um espelho escuro,
tudo é um obsessivo presente sem presença,
toda a espessura cerrada sem respiração,
um homem invadido escuta a chuva,
um absurdo cacarejar de galinhas.
*
Uma clareira, alguém veio a fugir
e, parando, um silêncio descoberto
tudo cobriu: então o corpo vivo
respirou na claridade o fogo calmo
e deus na plenitude era sem tempo
o ondular das ervas, sob a luz,
um corpo aberto: ó sangue puro!
1 145
António Ramos Rosa
Imagem Ou Astro
A imagem ou astro perseguido,
na sombra renascido, sob as mesas,
presença oval que luz a um olhar isento
mais além ou à mão ou nada que nos foge
ou tudo em que soçobra toda a espera
ou terra ou só contra o muro a sombra
esta inércia transparente sobre os ombros.
*
Não percorrer esta toalha obscura
nem saber qual rosto nela assoma
nem ver no espelho renascer a sombra.
Mas frente ao assalto sob a onda
mais do que compreender, a sombra ser,
subir, descer, no intervalo que fica,
opacamente respirar, não ver.
*
Um momento, o tronco mutilado
afirma a presença do incompleto.
À volta a clareira em que o repouso
é ver o mar quebrado. E mais que o tempo
se estendem em nós imaginários membros
transparentes.
na sombra renascido, sob as mesas,
presença oval que luz a um olhar isento
mais além ou à mão ou nada que nos foge
ou tudo em que soçobra toda a espera
ou terra ou só contra o muro a sombra
esta inércia transparente sobre os ombros.
*
Não percorrer esta toalha obscura
nem saber qual rosto nela assoma
nem ver no espelho renascer a sombra.
Mas frente ao assalto sob a onda
mais do que compreender, a sombra ser,
subir, descer, no intervalo que fica,
opacamente respirar, não ver.
*
Um momento, o tronco mutilado
afirma a presença do incompleto.
À volta a clareira em que o repouso
é ver o mar quebrado. E mais que o tempo
se estendem em nós imaginários membros
transparentes.
658
António Ramos Rosa
E Vem o Dia
E vem o dia, as casas juntas,
a evidência das calçadas, dos planos,
árvores presentes, verdes, gente andando,
uma planura no vento, esquinas breves,
uma rapariga dúctil e sonora acaso,
a claridade metálica, o estrépito do sol,
a água cerrada dum amor da cidade.
*
Não construo. Apenas cedo a este desejo
vago que infunde o ar.
Sou renovado e liso, sou, não sou,
ganho-me na espera e no desejo
de ser já ser, não ser, outro que sou
fora da miséria, na miséria, vivo,
respirando, abrindo-me, perdendo-me,
cedendo.
*
É esta a noite, este o dia já,
este o viver,
roubado ou não, lavado, sim,
de suores, de punhos, desta calma
aberta em si, total, amanhecida,
na noite próxima, devagar, assim.
a evidência das calçadas, dos planos,
árvores presentes, verdes, gente andando,
uma planura no vento, esquinas breves,
uma rapariga dúctil e sonora acaso,
a claridade metálica, o estrépito do sol,
a água cerrada dum amor da cidade.
*
Não construo. Apenas cedo a este desejo
vago que infunde o ar.
Sou renovado e liso, sou, não sou,
ganho-me na espera e no desejo
de ser já ser, não ser, outro que sou
fora da miséria, na miséria, vivo,
respirando, abrindo-me, perdendo-me,
cedendo.
*
É esta a noite, este o dia já,
este o viver,
roubado ou não, lavado, sim,
de suores, de punhos, desta calma
aberta em si, total, amanhecida,
na noite próxima, devagar, assim.
554
António Ramos Rosa
Se o Mar Entrar
Se o mar entrar em casa
com suas flores de som
inundar os tapetes
onde a cinza se instalou
com o tempo
e as minúcias do pó
O mar já está aberto
e voltado de borco
se o mar entrar
o chão já se rompeu
pelos buracos a cor
abre-se a floresta
é um tambor de paz
o dia fruto novo
com suas flores de som
inundar os tapetes
onde a cinza se instalou
com o tempo
e as minúcias do pó
O mar já está aberto
e voltado de borco
se o mar entrar
o chão já se rompeu
pelos buracos a cor
abre-se a floresta
é um tambor de paz
o dia fruto novo
586
António Ramos Rosa
Se o Mar Entrar
Se o mar entrar em casa
com suas flores de som
inundar os tapetes
onde a cinza se instalou
com o tempo
e as minúcias do pó
O mar já está aberto
e voltado de borco
se o mar entrar
o chão já se rompeu
pelos buracos a cor
abre-se a floresta
é um tambor de paz
o dia fruto novo
com suas flores de som
inundar os tapetes
onde a cinza se instalou
com o tempo
e as minúcias do pó
O mar já está aberto
e voltado de borco
se o mar entrar
o chão já se rompeu
pelos buracos a cor
abre-se a floresta
é um tambor de paz
o dia fruto novo
586
António Ramos Rosa
Fuga Ou Retorno
Fuga ou retorno — tudo pode ser.
Querer, escavar, perder os próprios passos.
Esperar como se um vale se fosse abrir.
Paciência no vazio, atenta vela
que espera o vento verde.
Água derramada em coluna partida,
rechinar de brasas no frio do átrio,
sombra ligeira que avança, mal se vê,
recomeço, retorno,
uma pedra na areia,
uma onda no mar.
*
O quebrar da pedra na pedra
— a mesma mão que escreve na mesma argila branca —
tudo se volve igual, disperso,
no abandono possível desta mão,
na liberdade duma água abrupta,
num país que sussurra de presença e lonjura.
*
Ausência quando escrevo
e ausência quando não escrevo,
sede funda que se esforça
por ser sede consciente,
sede idêntica e unânime
— possibilidade de ser.
*
Nomeio a parte viva
ausente, ainda a nascer,
— talvez sempre a nascer—,
a paz duma alegria
que não existe e quero,
nomeio outro viver
que não tenho e que sou
se tão fundo o quiser
que só proferindo o seja
agora e de quem quer.
Querer, escavar, perder os próprios passos.
Esperar como se um vale se fosse abrir.
Paciência no vazio, atenta vela
que espera o vento verde.
Água derramada em coluna partida,
rechinar de brasas no frio do átrio,
sombra ligeira que avança, mal se vê,
recomeço, retorno,
uma pedra na areia,
uma onda no mar.
*
O quebrar da pedra na pedra
— a mesma mão que escreve na mesma argila branca —
tudo se volve igual, disperso,
no abandono possível desta mão,
na liberdade duma água abrupta,
num país que sussurra de presença e lonjura.
*
Ausência quando escrevo
e ausência quando não escrevo,
sede funda que se esforça
por ser sede consciente,
sede idêntica e unânime
— possibilidade de ser.
*
Nomeio a parte viva
ausente, ainda a nascer,
— talvez sempre a nascer—,
a paz duma alegria
que não existe e quero,
nomeio outro viver
que não tenho e que sou
se tão fundo o quiser
que só proferindo o seja
agora e de quem quer.
639
António Ramos Rosa
Fuga Ou Retorno
Fuga ou retorno — tudo pode ser.
Querer, escavar, perder os próprios passos.
Esperar como se um vale se fosse abrir.
Paciência no vazio, atenta vela
que espera o vento verde.
Água derramada em coluna partida,
rechinar de brasas no frio do átrio,
sombra ligeira que avança, mal se vê,
recomeço, retorno,
uma pedra na areia,
uma onda no mar.
*
O quebrar da pedra na pedra
— a mesma mão que escreve na mesma argila branca —
tudo se volve igual, disperso,
no abandono possível desta mão,
na liberdade duma água abrupta,
num país que sussurra de presença e lonjura.
*
Ausência quando escrevo
e ausência quando não escrevo,
sede funda que se esforça
por ser sede consciente,
sede idêntica e unânime
— possibilidade de ser.
*
Nomeio a parte viva
ausente, ainda a nascer,
— talvez sempre a nascer—,
a paz duma alegria
que não existe e quero,
nomeio outro viver
que não tenho e que sou
se tão fundo o quiser
que só proferindo o seja
agora e de quem quer.
Querer, escavar, perder os próprios passos.
Esperar como se um vale se fosse abrir.
Paciência no vazio, atenta vela
que espera o vento verde.
Água derramada em coluna partida,
rechinar de brasas no frio do átrio,
sombra ligeira que avança, mal se vê,
recomeço, retorno,
uma pedra na areia,
uma onda no mar.
*
O quebrar da pedra na pedra
— a mesma mão que escreve na mesma argila branca —
tudo se volve igual, disperso,
no abandono possível desta mão,
na liberdade duma água abrupta,
num país que sussurra de presença e lonjura.
*
Ausência quando escrevo
e ausência quando não escrevo,
sede funda que se esforça
por ser sede consciente,
sede idêntica e unânime
— possibilidade de ser.
*
Nomeio a parte viva
ausente, ainda a nascer,
— talvez sempre a nascer—,
a paz duma alegria
que não existe e quero,
nomeio outro viver
que não tenho e que sou
se tão fundo o quiser
que só proferindo o seja
agora e de quem quer.
639
António Ramos Rosa
Do Mar Para Terra
Impreparado ainda
te procuro na sombra.
Venho adiante,
proa que deslizas,
maré que me renova.
Destroçado, um torso
lavado e límpido,
da própria água obscura,
eis o que à praia jogo,
na líquida impulsão,
atirado na areia,
de sede mais ardente.
*
E na água me envolvo,
me afundo, corpo novo,
e movimento, abraço,
e me confundo e abarco,
os nomes me atravessam,
outros nomes procuro,
iguais ao dia que desejo,
à mulher que ondula
e da salsugem surge,
mais branca, mais real.
*
E é um torso, um dorso
que a água move,
trabalha,
donde despontam brancos
membros,
que na superfície ondeiam
e altos se levantam
cheios de luz.
*
Assim nasce o possível,
se mais fundo o procuro
e se largo demoro
na sede do ar,
no côncavo da água,
se mais fundo respiro
e formo os membros livres.
*
Aprendo a prender-te
soltando-te
e impelindo-me
para a forma que desato
— rígida e macia
seiva que transluz.
*
Tronco é que te quero,
redondo animal
de delicadas palmas,
afeito às ondas
— largas ancas
rodopiantes pernas
— sobre a terra,
mas formado no mar.
te procuro na sombra.
Venho adiante,
proa que deslizas,
maré que me renova.
Destroçado, um torso
lavado e límpido,
da própria água obscura,
eis o que à praia jogo,
na líquida impulsão,
atirado na areia,
de sede mais ardente.
*
E na água me envolvo,
me afundo, corpo novo,
e movimento, abraço,
e me confundo e abarco,
os nomes me atravessam,
outros nomes procuro,
iguais ao dia que desejo,
à mulher que ondula
e da salsugem surge,
mais branca, mais real.
*
E é um torso, um dorso
que a água move,
trabalha,
donde despontam brancos
membros,
que na superfície ondeiam
e altos se levantam
cheios de luz.
*
Assim nasce o possível,
se mais fundo o procuro
e se largo demoro
na sede do ar,
no côncavo da água,
se mais fundo respiro
e formo os membros livres.
*
Aprendo a prender-te
soltando-te
e impelindo-me
para a forma que desato
— rígida e macia
seiva que transluz.
*
Tronco é que te quero,
redondo animal
de delicadas palmas,
afeito às ondas
— largas ancas
rodopiantes pernas
— sobre a terra,
mas formado no mar.
628
António Ramos Rosa
Do Mar Para Terra
Impreparado ainda
te procuro na sombra.
Venho adiante,
proa que deslizas,
maré que me renova.
Destroçado, um torso
lavado e límpido,
da própria água obscura,
eis o que à praia jogo,
na líquida impulsão,
atirado na areia,
de sede mais ardente.
*
E na água me envolvo,
me afundo, corpo novo,
e movimento, abraço,
e me confundo e abarco,
os nomes me atravessam,
outros nomes procuro,
iguais ao dia que desejo,
à mulher que ondula
e da salsugem surge,
mais branca, mais real.
*
E é um torso, um dorso
que a água move,
trabalha,
donde despontam brancos
membros,
que na superfície ondeiam
e altos se levantam
cheios de luz.
*
Assim nasce o possível,
se mais fundo o procuro
e se largo demoro
na sede do ar,
no côncavo da água,
se mais fundo respiro
e formo os membros livres.
*
Aprendo a prender-te
soltando-te
e impelindo-me
para a forma que desato
— rígida e macia
seiva que transluz.
*
Tronco é que te quero,
redondo animal
de delicadas palmas,
afeito às ondas
— largas ancas
rodopiantes pernas
— sobre a terra,
mas formado no mar.
te procuro na sombra.
Venho adiante,
proa que deslizas,
maré que me renova.
Destroçado, um torso
lavado e límpido,
da própria água obscura,
eis o que à praia jogo,
na líquida impulsão,
atirado na areia,
de sede mais ardente.
*
E na água me envolvo,
me afundo, corpo novo,
e movimento, abraço,
e me confundo e abarco,
os nomes me atravessam,
outros nomes procuro,
iguais ao dia que desejo,
à mulher que ondula
e da salsugem surge,
mais branca, mais real.
*
E é um torso, um dorso
que a água move,
trabalha,
donde despontam brancos
membros,
que na superfície ondeiam
e altos se levantam
cheios de luz.
*
Assim nasce o possível,
se mais fundo o procuro
e se largo demoro
na sede do ar,
no côncavo da água,
se mais fundo respiro
e formo os membros livres.
*
Aprendo a prender-te
soltando-te
e impelindo-me
para a forma que desato
— rígida e macia
seiva que transluz.
*
Tronco é que te quero,
redondo animal
de delicadas palmas,
afeito às ondas
— largas ancas
rodopiantes pernas
— sobre a terra,
mas formado no mar.
628
António Ramos Rosa
De Coincidência Em Incoincidência
É um quadrado quase perfeito
em que a luz incide duramente
— uma sombra aguçada e lisa acompanha
o gesto de escrever. Ausência.
Mais exacta, mais viva
a sombra da mão e do lápis
forma um conjunto menos suspeito,
de uma harmonia subjacente.
*
A coincidência da ponta do lápis
com a ponta da sombra do lápis
convida a uma coincidência de todos os pontos
da incoincidência vasta em que escrevo.
Ilusão de uma perfeita justiça,
ilusão dum amor recto como o mármore,
tentação dum espelho claro, inflexível.
*
Não como um espelho,
mas com a lisura e a tranquilidade do espelho.
Alto ou largo ou baixo, imóvel,
não para passear ao longo duma estrada,
mas fragmento de um turbilhão contido.
em que a luz incide duramente
— uma sombra aguçada e lisa acompanha
o gesto de escrever. Ausência.
Mais exacta, mais viva
a sombra da mão e do lápis
forma um conjunto menos suspeito,
de uma harmonia subjacente.
*
A coincidência da ponta do lápis
com a ponta da sombra do lápis
convida a uma coincidência de todos os pontos
da incoincidência vasta em que escrevo.
Ilusão de uma perfeita justiça,
ilusão dum amor recto como o mármore,
tentação dum espelho claro, inflexível.
*
Não como um espelho,
mas com a lisura e a tranquilidade do espelho.
Alto ou largo ou baixo, imóvel,
não para passear ao longo duma estrada,
mas fragmento de um turbilhão contido.
650
António Ramos Rosa
A Mulher a Casa
A casa é viva
(A mulher dorme)
Dorme na espuma
nas cores puras
Dorme na espuma do silêncio
Planos brancos
e cores lisas
Dorme no vidro
tranquilo
Dorme viva
*
A casa é branca
É mais branca no silêncio
É mais branca entre as árvores
A própria cidade é branca
*
A cabra
cheirou a casa
cheirou o branco
O puro nó
do silêncio
*
Chego em silêncio
à mulher viva
dormindo
A casa é ela
em espiral
rodando
branca
*
É fino o ar
quase sem pó
Uma árvore dá
uma curta sombra
Uma brisa lava
a casa fresca
A varanda nua
é seca e branca
com sede de mar
*
A varanda é nua
A mulher é nua
*
Da casa branca
vê-se o mar
o fulvo dorso
da praia
nu
mulher de areia
deitada e panda
na frescura azul
*
Uma vela branca
de minúcia fresca
dá ao olhar a brisa
dá ao silêncio o mar
*
A mulher dorme
viva
na espuma
do silêncio
(A mulher dorme)
Dorme na espuma
nas cores puras
Dorme na espuma do silêncio
Planos brancos
e cores lisas
Dorme no vidro
tranquilo
Dorme viva
*
A casa é branca
É mais branca no silêncio
É mais branca entre as árvores
A própria cidade é branca
*
A cabra
cheirou a casa
cheirou o branco
O puro nó
do silêncio
*
Chego em silêncio
à mulher viva
dormindo
A casa é ela
em espiral
rodando
branca
*
É fino o ar
quase sem pó
Uma árvore dá
uma curta sombra
Uma brisa lava
a casa fresca
A varanda nua
é seca e branca
com sede de mar
*
A varanda é nua
A mulher é nua
*
Da casa branca
vê-se o mar
o fulvo dorso
da praia
nu
mulher de areia
deitada e panda
na frescura azul
*
Uma vela branca
de minúcia fresca
dá ao olhar a brisa
dá ao silêncio o mar
*
A mulher dorme
viva
na espuma
do silêncio
1 276
António Ramos Rosa
Homens Caminhando No Escuro
Resíduos frescos entre estames caídos.
Mínimas luzes. Marcha branda.
Caminhamos colados ao vento
faces devoradas
— um tilintar de copos numa casa para além do caminho —
a terra restituída
a um sonho em pé.
(Sob a luz das estrelas, ávidos passos
entre árvores.
Respiramos o bafo de uma terra
rente ao peito.)
Mínimas luzes. Marcha branda.
Caminhamos colados ao vento
faces devoradas
— um tilintar de copos numa casa para além do caminho —
a terra restituída
a um sonho em pé.
(Sob a luz das estrelas, ávidos passos
entre árvores.
Respiramos o bafo de uma terra
rente ao peito.)
966
António Ramos Rosa
Terra Dos Silêncios Grandes
Terra dos silêncios grandes
e numerosos quartos
livros e homens dormem
e prolongam-se os arcos
nas memórias e nos sonhos
pastam cavalos nas
nuvens rente ao horizonte
cantam mulheres na branca
tranquilidade do mundo
e nos espelhos velhos
corpos novos resplendem
e numerosos quartos
livros e homens dormem
e prolongam-se os arcos
nas memórias e nos sonhos
pastam cavalos nas
nuvens rente ao horizonte
cantam mulheres na branca
tranquilidade do mundo
e nos espelhos velhos
corpos novos resplendem
1 171
António Ramos Rosa
Voz Inicial
Quem sou já não interessa
se o disse na certeza
que começa outro ser
se o disse na certeza
que começa outro ser
715