Poemas neste tema
Vida e Existência
António Ramos Rosa
A Caminho de Ti, Em Ti
Leve mobilização de um maquinismo suave e ardente.
A alta fenda do ar que se me abre.
A torre acessível ao meu abraço, inteira e viva.
Percorro-te, inundo-te: cálido tronco de água.
Energia liberta, seda que vibra.
Minha mulher viva.
A alta fenda do ar que se me abre.
A torre acessível ao meu abraço, inteira e viva.
Percorro-te, inundo-te: cálido tronco de água.
Energia liberta, seda que vibra.
Minha mulher viva.
1 077
António Ramos Rosa
Percursos
Atravesso a rua com o gosto do ar na língua, o silencioso pousar que me ergue do solo até à copa das árvores, o mar respirado, a sede entre o olhar e o tronco — estendo a mão para a terra, o ar: para rir entre as folhas na rua do ar.
Atravesso — alguma coisa (a folha/a mão) cai devagar, o corpo mais pequeno — em si — ligação firme da cabeça ao tronco — uma pequena mão moldando a nuca — ver como cego na corrente, descer agora — o momento em que a rua se abre.
Passo entre os que passam, sobre os que passam — consciência gostosa do ar com pequenas crepitações vegetais — o meu pulso bate, flui, retenho-me entre os muros numa febre de solidez consciente — ESTOU na corrente: sou um vivo: vejo o mar vertical.
A minha mão acaricia a esquina da rua: anónimo inexisto na corrente cega de mil olhos — a mão investe-me, retesa-me, osso em brasa, dilatada gota que se articula ao ritmo, à luz, à trepidação, à plenitude deste mar de inexistência, banho-me na mortalidade fluente: ar aglomerado inexisto único entre todos.
Atravesso — não rostos nem olhares — ritmo apenas, movimentos, deslizo como uma gota sem contactos, entre sinuosos sulcos que abro entre formas cegas que me ignoram — avanço cantando esta cegueira de pressa e massa movendo-se sem uma pausa, sem um MOMENTO para respirar, pequena gota que se eleva à alta abertura da rua, mão contida que se estende plana sobre o mar.
Atravesso — alguma coisa (a folha/a mão) cai devagar, o corpo mais pequeno — em si — ligação firme da cabeça ao tronco — uma pequena mão moldando a nuca — ver como cego na corrente, descer agora — o momento em que a rua se abre.
Passo entre os que passam, sobre os que passam — consciência gostosa do ar com pequenas crepitações vegetais — o meu pulso bate, flui, retenho-me entre os muros numa febre de solidez consciente — ESTOU na corrente: sou um vivo: vejo o mar vertical.
A minha mão acaricia a esquina da rua: anónimo inexisto na corrente cega de mil olhos — a mão investe-me, retesa-me, osso em brasa, dilatada gota que se articula ao ritmo, à luz, à trepidação, à plenitude deste mar de inexistência, banho-me na mortalidade fluente: ar aglomerado inexisto único entre todos.
Atravesso — não rostos nem olhares — ritmo apenas, movimentos, deslizo como uma gota sem contactos, entre sinuosos sulcos que abro entre formas cegas que me ignoram — avanço cantando esta cegueira de pressa e massa movendo-se sem uma pausa, sem um MOMENTO para respirar, pequena gota que se eleva à alta abertura da rua, mão contida que se estende plana sobre o mar.
1 223
António Ramos Rosa
Percursos
Atravesso a rua com o gosto do ar na língua, o silencioso pousar que me ergue do solo até à copa das árvores, o mar respirado, a sede entre o olhar e o tronco — estendo a mão para a terra, o ar: para rir entre as folhas na rua do ar.
Atravesso — alguma coisa (a folha/a mão) cai devagar, o corpo mais pequeno — em si — ligação firme da cabeça ao tronco — uma pequena mão moldando a nuca — ver como cego na corrente, descer agora — o momento em que a rua se abre.
Passo entre os que passam, sobre os que passam — consciência gostosa do ar com pequenas crepitações vegetais — o meu pulso bate, flui, retenho-me entre os muros numa febre de solidez consciente — ESTOU na corrente: sou um vivo: vejo o mar vertical.
A minha mão acaricia a esquina da rua: anónimo inexisto na corrente cega de mil olhos — a mão investe-me, retesa-me, osso em brasa, dilatada gota que se articula ao ritmo, à luz, à trepidação, à plenitude deste mar de inexistência, banho-me na mortalidade fluente: ar aglomerado inexisto único entre todos.
Atravesso — não rostos nem olhares — ritmo apenas, movimentos, deslizo como uma gota sem contactos, entre sinuosos sulcos que abro entre formas cegas que me ignoram — avanço cantando esta cegueira de pressa e massa movendo-se sem uma pausa, sem um MOMENTO para respirar, pequena gota que se eleva à alta abertura da rua, mão contida que se estende plana sobre o mar.
Atravesso — alguma coisa (a folha/a mão) cai devagar, o corpo mais pequeno — em si — ligação firme da cabeça ao tronco — uma pequena mão moldando a nuca — ver como cego na corrente, descer agora — o momento em que a rua se abre.
Passo entre os que passam, sobre os que passam — consciência gostosa do ar com pequenas crepitações vegetais — o meu pulso bate, flui, retenho-me entre os muros numa febre de solidez consciente — ESTOU na corrente: sou um vivo: vejo o mar vertical.
A minha mão acaricia a esquina da rua: anónimo inexisto na corrente cega de mil olhos — a mão investe-me, retesa-me, osso em brasa, dilatada gota que se articula ao ritmo, à luz, à trepidação, à plenitude deste mar de inexistência, banho-me na mortalidade fluente: ar aglomerado inexisto único entre todos.
Atravesso — não rostos nem olhares — ritmo apenas, movimentos, deslizo como uma gota sem contactos, entre sinuosos sulcos que abro entre formas cegas que me ignoram — avanço cantando esta cegueira de pressa e massa movendo-se sem uma pausa, sem um MOMENTO para respirar, pequena gota que se eleva à alta abertura da rua, mão contida que se estende plana sobre o mar.
1 223
António Ramos Rosa
O Objecto
Nascer com ele,
ponte a descer,
à água e ao pó.
Vivo, imóvel.
Nascer com ele,
sede e gomo,
sabê-lo, sumo,
olhar sem nome.
Nascer com ele,
soprá-lo, pluma,
chama de ar.
Nascer com ele,
envolto e nu,
o corpo elástico
— salto e silêncio.
Renovo o sopro
de árido vento:
áspide, gume,
vácuo de amor.
ponte a descer,
à água e ao pó.
Vivo, imóvel.
Nascer com ele,
sede e gomo,
sabê-lo, sumo,
olhar sem nome.
Nascer com ele,
soprá-lo, pluma,
chama de ar.
Nascer com ele,
envolto e nu,
o corpo elástico
— salto e silêncio.
Renovo o sopro
de árido vento:
áspide, gume,
vácuo de amor.
1 046
António Ramos Rosa
O Objecto
Nascer com ele,
ponte a descer,
à água e ao pó.
Vivo, imóvel.
Nascer com ele,
sede e gomo,
sabê-lo, sumo,
olhar sem nome.
Nascer com ele,
soprá-lo, pluma,
chama de ar.
Nascer com ele,
envolto e nu,
o corpo elástico
— salto e silêncio.
Renovo o sopro
de árido vento:
áspide, gume,
vácuo de amor.
ponte a descer,
à água e ao pó.
Vivo, imóvel.
Nascer com ele,
sede e gomo,
sabê-lo, sumo,
olhar sem nome.
Nascer com ele,
soprá-lo, pluma,
chama de ar.
Nascer com ele,
envolto e nu,
o corpo elástico
— salto e silêncio.
Renovo o sopro
de árido vento:
áspide, gume,
vácuo de amor.
1 046
António Ramos Rosa
O Objecto
Nascer com ele,
ponte a descer,
à água e ao pó.
Vivo, imóvel.
Nascer com ele,
sede e gomo,
sabê-lo, sumo,
olhar sem nome.
Nascer com ele,
soprá-lo, pluma,
chama de ar.
Nascer com ele,
envolto e nu,
o corpo elástico
— salto e silêncio.
Renovo o sopro
de árido vento:
áspide, gume,
vácuo de amor.
ponte a descer,
à água e ao pó.
Vivo, imóvel.
Nascer com ele,
sede e gomo,
sabê-lo, sumo,
olhar sem nome.
Nascer com ele,
soprá-lo, pluma,
chama de ar.
Nascer com ele,
envolto e nu,
o corpo elástico
— salto e silêncio.
Renovo o sopro
de árido vento:
áspide, gume,
vácuo de amor.
1 046
António Ramos Rosa
Horizonte Imediato
Todos os dias me apoio em qualquer coisa
ando, como, esqueço
alguma coisa aprendo
e desaprendo
alguma coisa limpa nua grave
surge
ao lado passa
eu não sou este desejo
que às vezes arde
alto sobre o chão
ando, como, esqueço
alguma coisa aprendo
e desaprendo
alguma coisa limpa nua grave
surge
ao lado passa
eu não sou este desejo
que às vezes arde
alto sobre o chão
1 086
António Ramos Rosa
É Aqui: Talvez Uma Cidade
É aqui: talvez uma cidade.
Mas sem ninguém.
É aqui que não estou, corro, caminho, espero,
paro de súbito. Escuto. Palpo
um tronco largo, uma respiração?
Aqui, sem corpo.
Mas insisto: é uma cidade.
Ou é ela, a cidade, ou a respiração,
ou é o tronco largo no meio dela?
É o corpo que não existe ainda.
E insisto: uma golfada de ar.
Acorda, move-te, corpo, cidade, tronco,
uma só respiração possível?
Eu não sei: é talvez uma cidade.
Alguém só que respira e não tem corpo.
E o tronco calmo onde pousar a mão
e lentamente abrir o espaço.
Mas quem respira? Quem move o braço
de um corpo que ainda não existe?
E se a cidade existe, o tronco existe,
em vão designo o que em vão existe.
Mas é no vão do corpo que respiro
o corpo que procuro nesta cidade.
E o silêncio que se cava junto ao tronco
abre-me o espaço desse corpo vão.
Aqui é que eu tento e corro, espero, caminho.
É aqui: talvez uma cidade.
Mas sem ninguém.
É aqui que não estou, corro, caminho, espero,
paro de súbito. Escuto. Palpo
um tronco largo, uma respiração?
Aqui, sem corpo.
Mas insisto: é uma cidade.
Ou é ela, a cidade, ou a respiração,
ou é o tronco largo no meio dela?
É o corpo que não existe ainda.
E insisto: uma golfada de ar.
Acorda, move-te, corpo, cidade, tronco,
uma só respiração possível?
Eu não sei: é talvez uma cidade.
Alguém só que respira e não tem corpo.
E o tronco calmo onde pousar a mão
e lentamente abrir o espaço.
Mas quem respira? Quem move o braço
de um corpo que ainda não existe?
E se a cidade existe, o tronco existe,
em vão designo o que em vão existe.
Mas é no vão do corpo que respiro
o corpo que procuro nesta cidade.
E o silêncio que se cava junto ao tronco
abre-me o espaço desse corpo vão.
Aqui é que eu tento e corro, espero, caminho.
É aqui: talvez uma cidade.
1 067
António Ramos Rosa
É Aqui: Talvez Uma Cidade
É aqui: talvez uma cidade.
Mas sem ninguém.
É aqui que não estou, corro, caminho, espero,
paro de súbito. Escuto. Palpo
um tronco largo, uma respiração?
Aqui, sem corpo.
Mas insisto: é uma cidade.
Ou é ela, a cidade, ou a respiração,
ou é o tronco largo no meio dela?
É o corpo que não existe ainda.
E insisto: uma golfada de ar.
Acorda, move-te, corpo, cidade, tronco,
uma só respiração possível?
Eu não sei: é talvez uma cidade.
Alguém só que respira e não tem corpo.
E o tronco calmo onde pousar a mão
e lentamente abrir o espaço.
Mas quem respira? Quem move o braço
de um corpo que ainda não existe?
E se a cidade existe, o tronco existe,
em vão designo o que em vão existe.
Mas é no vão do corpo que respiro
o corpo que procuro nesta cidade.
E o silêncio que se cava junto ao tronco
abre-me o espaço desse corpo vão.
Aqui é que eu tento e corro, espero, caminho.
É aqui: talvez uma cidade.
Mas sem ninguém.
É aqui que não estou, corro, caminho, espero,
paro de súbito. Escuto. Palpo
um tronco largo, uma respiração?
Aqui, sem corpo.
Mas insisto: é uma cidade.
Ou é ela, a cidade, ou a respiração,
ou é o tronco largo no meio dela?
É o corpo que não existe ainda.
E insisto: uma golfada de ar.
Acorda, move-te, corpo, cidade, tronco,
uma só respiração possível?
Eu não sei: é talvez uma cidade.
Alguém só que respira e não tem corpo.
E o tronco calmo onde pousar a mão
e lentamente abrir o espaço.
Mas quem respira? Quem move o braço
de um corpo que ainda não existe?
E se a cidade existe, o tronco existe,
em vão designo o que em vão existe.
Mas é no vão do corpo que respiro
o corpo que procuro nesta cidade.
E o silêncio que se cava junto ao tronco
abre-me o espaço desse corpo vão.
Aqui é que eu tento e corro, espero, caminho.
É aqui: talvez uma cidade.
1 067
António Ramos Rosa
Dia de Verão
Contra a muralha de ar
desfaço os nós da cinza dura
a ânsia larga larga
lucidamente embarco no meu corpo
e no ar
onde mulheres vivas rompem
com o sangue do Verão
rodopiando ancas sonoras
na vertigem direitas contra
a força do ar caindo como uma onda
sobre o sexo que respira violentamente
abertas vulvas felizes na febre fresca
corpos de seda e sede
livres em cada poro que o ar e a luz penetram
desfazendo todos os nós no ar
altas frescas fortalezas
desfaço os nós da cinza dura
a ânsia larga larga
lucidamente embarco no meu corpo
e no ar
onde mulheres vivas rompem
com o sangue do Verão
rodopiando ancas sonoras
na vertigem direitas contra
a força do ar caindo como uma onda
sobre o sexo que respira violentamente
abertas vulvas felizes na febre fresca
corpos de seda e sede
livres em cada poro que o ar e a luz penetram
desfazendo todos os nós no ar
altas frescas fortalezas
1 020
António Ramos Rosa
Lâminas
Um fogo frio sob as pedras
tela seca
a madeira no lugar dos ossos
o cheiro do ferro
a calma violência do sangue alimentado
punho acerado
porta de ar
lâmina entre os lábios
Manhã sem caminho
pedra alta e seca
e mão pousada ouvindo
cratera de cal
meio-dia sem relógio
um dedo na ranhura soletra
a boca da terra
Chão de seda
a flor ágil que respira
move-se
um tronco de água dura
o odor de ferro
a terra cheia até aos bordos
tela seca
a madeira no lugar dos ossos
o cheiro do ferro
a calma violência do sangue alimentado
punho acerado
porta de ar
lâmina entre os lábios
Manhã sem caminho
pedra alta e seca
e mão pousada ouvindo
cratera de cal
meio-dia sem relógio
um dedo na ranhura soletra
a boca da terra
Chão de seda
a flor ágil que respira
move-se
um tronco de água dura
o odor de ferro
a terra cheia até aos bordos
1 025
António Ramos Rosa
Caminhar Habitar
Se não tenho a força
que é tão fácil,
se não sei, não vejo,
não posso e desejo.
Se procuro, desfaço,
me entrego, não vou,
algo precipito,
tão pouco, e já é tudo.
Entre nada e nada,
nada se passou,
ou passou uma sombra
e é o espaço. E sou.
*
Aqui está a mão,
ali está a folha.
Acendo o cigarro.
Tudo começou.
É a vida aberta?
É a ilusão
da morte deserta.
É o sim e o não.
É, não é ainda:
mas o que vai ser
e nunca será?
Aqui, não jazer.
Eis a folha branca.
Eis talvez o mar.
Contra ela, o quê?
Um barco, uma caixa?
Ou algo mais neutro.
Uma pedra escura,
um calhau polido,
uma coisa opaca.
Que a palavra tenha
dureza de quina,
firmeza de punho.
Que a palavra seja.
*
Quem sou quando escrevo?
Quem sou? Eu vou ser
algo que não sou.
Eu vou e já voo.
Mas não vou e não voo
porque sempre aqui estou
onde o onde não é
senão onde vou.
*
Onde vou? Que ilusão
de ar, de algo vão?
Mas que importa sabê-lo,
se isto é respirar!
Se isto é querer e andar,
como o vento nas pedras,
se isto é desatar:
Caminhar. Habitar.
que é tão fácil,
se não sei, não vejo,
não posso e desejo.
Se procuro, desfaço,
me entrego, não vou,
algo precipito,
tão pouco, e já é tudo.
Entre nada e nada,
nada se passou,
ou passou uma sombra
e é o espaço. E sou.
*
Aqui está a mão,
ali está a folha.
Acendo o cigarro.
Tudo começou.
É a vida aberta?
É a ilusão
da morte deserta.
É o sim e o não.
É, não é ainda:
mas o que vai ser
e nunca será?
Aqui, não jazer.
Eis a folha branca.
Eis talvez o mar.
Contra ela, o quê?
Um barco, uma caixa?
Ou algo mais neutro.
Uma pedra escura,
um calhau polido,
uma coisa opaca.
Que a palavra tenha
dureza de quina,
firmeza de punho.
Que a palavra seja.
*
Quem sou quando escrevo?
Quem sou? Eu vou ser
algo que não sou.
Eu vou e já voo.
Mas não vou e não voo
porque sempre aqui estou
onde o onde não é
senão onde vou.
*
Onde vou? Que ilusão
de ar, de algo vão?
Mas que importa sabê-lo,
se isto é respirar!
Se isto é querer e andar,
como o vento nas pedras,
se isto é desatar:
Caminhar. Habitar.
1 030
António Ramos Rosa
Caminhar Habitar
Se não tenho a força
que é tão fácil,
se não sei, não vejo,
não posso e desejo.
Se procuro, desfaço,
me entrego, não vou,
algo precipito,
tão pouco, e já é tudo.
Entre nada e nada,
nada se passou,
ou passou uma sombra
e é o espaço. E sou.
*
Aqui está a mão,
ali está a folha.
Acendo o cigarro.
Tudo começou.
É a vida aberta?
É a ilusão
da morte deserta.
É o sim e o não.
É, não é ainda:
mas o que vai ser
e nunca será?
Aqui, não jazer.
Eis a folha branca.
Eis talvez o mar.
Contra ela, o quê?
Um barco, uma caixa?
Ou algo mais neutro.
Uma pedra escura,
um calhau polido,
uma coisa opaca.
Que a palavra tenha
dureza de quina,
firmeza de punho.
Que a palavra seja.
*
Quem sou quando escrevo?
Quem sou? Eu vou ser
algo que não sou.
Eu vou e já voo.
Mas não vou e não voo
porque sempre aqui estou
onde o onde não é
senão onde vou.
*
Onde vou? Que ilusão
de ar, de algo vão?
Mas que importa sabê-lo,
se isto é respirar!
Se isto é querer e andar,
como o vento nas pedras,
se isto é desatar:
Caminhar. Habitar.
que é tão fácil,
se não sei, não vejo,
não posso e desejo.
Se procuro, desfaço,
me entrego, não vou,
algo precipito,
tão pouco, e já é tudo.
Entre nada e nada,
nada se passou,
ou passou uma sombra
e é o espaço. E sou.
*
Aqui está a mão,
ali está a folha.
Acendo o cigarro.
Tudo começou.
É a vida aberta?
É a ilusão
da morte deserta.
É o sim e o não.
É, não é ainda:
mas o que vai ser
e nunca será?
Aqui, não jazer.
Eis a folha branca.
Eis talvez o mar.
Contra ela, o quê?
Um barco, uma caixa?
Ou algo mais neutro.
Uma pedra escura,
um calhau polido,
uma coisa opaca.
Que a palavra tenha
dureza de quina,
firmeza de punho.
Que a palavra seja.
*
Quem sou quando escrevo?
Quem sou? Eu vou ser
algo que não sou.
Eu vou e já voo.
Mas não vou e não voo
porque sempre aqui estou
onde o onde não é
senão onde vou.
*
Onde vou? Que ilusão
de ar, de algo vão?
Mas que importa sabê-lo,
se isto é respirar!
Se isto é querer e andar,
como o vento nas pedras,
se isto é desatar:
Caminhar. Habitar.
1 030
António Ramos Rosa
Caminhar Habitar
Se não tenho a força
que é tão fácil,
se não sei, não vejo,
não posso e desejo.
Se procuro, desfaço,
me entrego, não vou,
algo precipito,
tão pouco, e já é tudo.
Entre nada e nada,
nada se passou,
ou passou uma sombra
e é o espaço. E sou.
*
Aqui está a mão,
ali está a folha.
Acendo o cigarro.
Tudo começou.
É a vida aberta?
É a ilusão
da morte deserta.
É o sim e o não.
É, não é ainda:
mas o que vai ser
e nunca será?
Aqui, não jazer.
Eis a folha branca.
Eis talvez o mar.
Contra ela, o quê?
Um barco, uma caixa?
Ou algo mais neutro.
Uma pedra escura,
um calhau polido,
uma coisa opaca.
Que a palavra tenha
dureza de quina,
firmeza de punho.
Que a palavra seja.
*
Quem sou quando escrevo?
Quem sou? Eu vou ser
algo que não sou.
Eu vou e já voo.
Mas não vou e não voo
porque sempre aqui estou
onde o onde não é
senão onde vou.
*
Onde vou? Que ilusão
de ar, de algo vão?
Mas que importa sabê-lo,
se isto é respirar!
Se isto é querer e andar,
como o vento nas pedras,
se isto é desatar:
Caminhar. Habitar.
que é tão fácil,
se não sei, não vejo,
não posso e desejo.
Se procuro, desfaço,
me entrego, não vou,
algo precipito,
tão pouco, e já é tudo.
Entre nada e nada,
nada se passou,
ou passou uma sombra
e é o espaço. E sou.
*
Aqui está a mão,
ali está a folha.
Acendo o cigarro.
Tudo começou.
É a vida aberta?
É a ilusão
da morte deserta.
É o sim e o não.
É, não é ainda:
mas o que vai ser
e nunca será?
Aqui, não jazer.
Eis a folha branca.
Eis talvez o mar.
Contra ela, o quê?
Um barco, uma caixa?
Ou algo mais neutro.
Uma pedra escura,
um calhau polido,
uma coisa opaca.
Que a palavra tenha
dureza de quina,
firmeza de punho.
Que a palavra seja.
*
Quem sou quando escrevo?
Quem sou? Eu vou ser
algo que não sou.
Eu vou e já voo.
Mas não vou e não voo
porque sempre aqui estou
onde o onde não é
senão onde vou.
*
Onde vou? Que ilusão
de ar, de algo vão?
Mas que importa sabê-lo,
se isto é respirar!
Se isto é querer e andar,
como o vento nas pedras,
se isto é desatar:
Caminhar. Habitar.
1 030
António Ramos Rosa
Um Rastro
Tangível mão quase, olho que não vês.
Inútil muro sobre outro muro.
Invisível o que se lê,
o visível que se não lê.
O que não sei, o que não vejo.
É desta sombra que me envolve
que eu posso ver e respirar.
No silêncio desta pausa,
onde me afundo, de onde me elevo,
persigo um rastro, um corpo novo.
Tangível quase, ouso não ver,
perder-me mais para te encontrar,
cegar-me em ti, muro consoante,
interior a ti, antes de mim.
Perdi-te… o muro corre.
O que eu ganhei foi esta sede.
Inútil muro sobre outro muro.
Invisível o que se lê,
o visível que se não lê.
O que não sei, o que não vejo.
É desta sombra que me envolve
que eu posso ver e respirar.
No silêncio desta pausa,
onde me afundo, de onde me elevo,
persigo um rastro, um corpo novo.
Tangível quase, ouso não ver,
perder-me mais para te encontrar,
cegar-me em ti, muro consoante,
interior a ti, antes de mim.
Perdi-te… o muro corre.
O que eu ganhei foi esta sede.
1 193
António Ramos Rosa
Velocidade
a manhã a moeda crespa
o princípio duma torre o peito rude
um boi na estrada
os pés as mãos um tronco a ponte
o corpo a terra
a mulher atravessada a raiva
a parede a sombra o peito
o corpo
o princípio duma torre o peito rude
um boi na estrada
os pés as mãos um tronco a ponte
o corpo a terra
a mulher atravessada a raiva
a parede a sombra o peito
o corpo
1 216
António Ramos Rosa
A Sombra de Uma Face a Face de Uma Sombra
Há uma face que não sei,
que não sou.
E o que sou é a face de uma sombra.
Escrever para essa sombra sem face.
Sou uma sombra sem face
na sombra da rua.
Escrevo nesse intervalo,
nessa sombra onde ninguém suspira,
onde ninguém passa,
onde ninguém me vê passar,
onde não passo,
onde vou passar.
Há uma face
página onde a sombra se fez face
frente à sombra.
Escrever contra a face sem face.
Escrever acender na sombra
árvores
mover a sombra até ao céu da rua.
Caminhar na sombra desatar a sombra
alta e viva
contra a face aberta
contra a face viva.
Sou somos uma face uma sombra
uma sombra uma face.
Escrever é abrir na sombra uma sombra
e respirar na sombra
um corpo de sombra.
Ninguém nos vê nem nos verá jamais.
Respirar a sombra viva.
que não sou.
E o que sou é a face de uma sombra.
Escrever para essa sombra sem face.
Sou uma sombra sem face
na sombra da rua.
Escrevo nesse intervalo,
nessa sombra onde ninguém suspira,
onde ninguém passa,
onde ninguém me vê passar,
onde não passo,
onde vou passar.
Há uma face
página onde a sombra se fez face
frente à sombra.
Escrever contra a face sem face.
Escrever acender na sombra
árvores
mover a sombra até ao céu da rua.
Caminhar na sombra desatar a sombra
alta e viva
contra a face aberta
contra a face viva.
Sou somos uma face uma sombra
uma sombra uma face.
Escrever é abrir na sombra uma sombra
e respirar na sombra
um corpo de sombra.
Ninguém nos vê nem nos verá jamais.
Respirar a sombra viva.
1 035
António Ramos Rosa
O Que Escrevo Ou Não Escrevo
Caminho com a pequena lâmpada vazia
flutuando entre as árvores, lentas ancas.
Escrevo: corpo do dia ao fim da rua.
A lâmpada desenha com a minha mão os traços finos.
Lâmpada ou pulso que nasceu das pedras.
Caminho com o sol, acendo-o entre árvores e telhados.
É duro e seco em cada passo o dia que desliza.
O pulso acende-se junto às paredes no calor da sombra.
O que escrevo ou o que não escrevo é a pequena lâmpada,
solta ao rés da terra, estilhaçada a cada passo.
flutuando entre as árvores, lentas ancas.
Escrevo: corpo do dia ao fim da rua.
A lâmpada desenha com a minha mão os traços finos.
Lâmpada ou pulso que nasceu das pedras.
Caminho com o sol, acendo-o entre árvores e telhados.
É duro e seco em cada passo o dia que desliza.
O pulso acende-se junto às paredes no calor da sombra.
O que escrevo ou o que não escrevo é a pequena lâmpada,
solta ao rés da terra, estilhaçada a cada passo.
1 181
António Ramos Rosa
A Coexistência No Muro
A boca inerte na parede,
um sol,
um peixe,
uma estrela,
um dedo.
A boca escura
no chão levantado,
os olhos nas mãos.
Um sol,
um peixe
uma estrela,
um dedo.
um sol,
um peixe,
uma estrela,
um dedo.
A boca escura
no chão levantado,
os olhos nas mãos.
Um sol,
um peixe
uma estrela,
um dedo.
1 062
António Ramos Rosa
Campo de Acção
Quando as forças duras
nas faces dos muros
nas plantas rasteiras
nos intervalos nus
na rede solitária das ruas
quando um corpo através dos poros
interiormente nu
se desfaz entre as árvores
se refaz de ar verdadeiro rindo
toda a pobreza solta
claros intervalos altas forças
cantam
e caminhar
é a luz do vinho nos passos no olhar
altura de ser livre
aberto o arco da fronte sobre as ruas
O corpo é a chama dada
parte viva do ar
cúmplice do cálido rigor das alamedas
a mão é trespassada pela luz dourada
perpendicular caindo sobre o centro do corpo
a seda dos segundos solares
circula num tapete continuamente solto
Olhar é respirar respirar olhar
beber o ouro visível
roda imóvel verde
o corpo envolto
mais vivo do que as folhas mais alto e duro
reunido no silêncio
respira
banhando de ar e sangue todas as palavras
nas faces dos muros
nas plantas rasteiras
nos intervalos nus
na rede solitária das ruas
quando um corpo através dos poros
interiormente nu
se desfaz entre as árvores
se refaz de ar verdadeiro rindo
toda a pobreza solta
claros intervalos altas forças
cantam
e caminhar
é a luz do vinho nos passos no olhar
altura de ser livre
aberto o arco da fronte sobre as ruas
O corpo é a chama dada
parte viva do ar
cúmplice do cálido rigor das alamedas
a mão é trespassada pela luz dourada
perpendicular caindo sobre o centro do corpo
a seda dos segundos solares
circula num tapete continuamente solto
Olhar é respirar respirar olhar
beber o ouro visível
roda imóvel verde
o corpo envolto
mais vivo do que as folhas mais alto e duro
reunido no silêncio
respira
banhando de ar e sangue todas as palavras
969
António Ramos Rosa
Campo de Acção
Quando as forças duras
nas faces dos muros
nas plantas rasteiras
nos intervalos nus
na rede solitária das ruas
quando um corpo através dos poros
interiormente nu
se desfaz entre as árvores
se refaz de ar verdadeiro rindo
toda a pobreza solta
claros intervalos altas forças
cantam
e caminhar
é a luz do vinho nos passos no olhar
altura de ser livre
aberto o arco da fronte sobre as ruas
O corpo é a chama dada
parte viva do ar
cúmplice do cálido rigor das alamedas
a mão é trespassada pela luz dourada
perpendicular caindo sobre o centro do corpo
a seda dos segundos solares
circula num tapete continuamente solto
Olhar é respirar respirar olhar
beber o ouro visível
roda imóvel verde
o corpo envolto
mais vivo do que as folhas mais alto e duro
reunido no silêncio
respira
banhando de ar e sangue todas as palavras
nas faces dos muros
nas plantas rasteiras
nos intervalos nus
na rede solitária das ruas
quando um corpo através dos poros
interiormente nu
se desfaz entre as árvores
se refaz de ar verdadeiro rindo
toda a pobreza solta
claros intervalos altas forças
cantam
e caminhar
é a luz do vinho nos passos no olhar
altura de ser livre
aberto o arco da fronte sobre as ruas
O corpo é a chama dada
parte viva do ar
cúmplice do cálido rigor das alamedas
a mão é trespassada pela luz dourada
perpendicular caindo sobre o centro do corpo
a seda dos segundos solares
circula num tapete continuamente solto
Olhar é respirar respirar olhar
beber o ouro visível
roda imóvel verde
o corpo envolto
mais vivo do que as folhas mais alto e duro
reunido no silêncio
respira
banhando de ar e sangue todas as palavras
969
António Ramos Rosa
Uma Só Palavra
São quatro ou cinco ou duas
palavras duras e uma só mão.
Para o corpo inteiro a boca única,
o braço estende-se aos limites: quatro.
O pulso livre o branco aberto
um único sol pelo corpo todo
enche a cabeça o tronco o ventre
um sol interior no corpo.
É uma palavra ou quatro
ou todas as palavras rodando num olho fixo
ou só duas palavras dois ovos sobre o branco
duas iguais sobre a branca igualdade.
Duas brancas alvo, quatro cinco
proliferam moscas negras azuis
mas o suspiro do ventre sobe
à garganta, à língua, à fronte,
as comportas do cérebro abrem-se uma
bola branca solta e tensa
sol terra e ar: brancura extrema
um solo essencial um único solo
adere.
Um pé que ganhou gosto e sabor adere
a um soalho limpo, uma madeira cálida,
onde a nudez se sente e sabe viva. Uma palavra
em corpo ganhou o pé redondo e firme.
Eis no extremo limite o peso material
a que a língua adere: planta, dorso, palma.
Dali, do solo liso, jorra uma água sólida,
articulada e ágil, repousa, ascende em corpo,
pesa, pesa, eleva-se, massa de altura viva,
sol que se aperta, sol e solo, sol.
palavras duras e uma só mão.
Para o corpo inteiro a boca única,
o braço estende-se aos limites: quatro.
O pulso livre o branco aberto
um único sol pelo corpo todo
enche a cabeça o tronco o ventre
um sol interior no corpo.
É uma palavra ou quatro
ou todas as palavras rodando num olho fixo
ou só duas palavras dois ovos sobre o branco
duas iguais sobre a branca igualdade.
Duas brancas alvo, quatro cinco
proliferam moscas negras azuis
mas o suspiro do ventre sobe
à garganta, à língua, à fronte,
as comportas do cérebro abrem-se uma
bola branca solta e tensa
sol terra e ar: brancura extrema
um solo essencial um único solo
adere.
Um pé que ganhou gosto e sabor adere
a um soalho limpo, uma madeira cálida,
onde a nudez se sente e sabe viva. Uma palavra
em corpo ganhou o pé redondo e firme.
Eis no extremo limite o peso material
a que a língua adere: planta, dorso, palma.
Dali, do solo liso, jorra uma água sólida,
articulada e ágil, repousa, ascende em corpo,
pesa, pesa, eleva-se, massa de altura viva,
sol que se aperta, sol e solo, sol.
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António Ramos Rosa
Contemplação
Tudo o que avança ou quer,
afirmação serena,
sobre as fachadas limpas
sem sombra, desoladas.
Igualdade sem normas,
tão larga lassitude,
um homem se eleva lentamente
frente às fachadas lisas.
Contemplada casa
entre verdes disfarces,
luz jovem, luz serena,
na estação recriada.
Um nome acorda o ar.
Instante outro me iguala
à esquecida sombra
bronzeada, desperta.
Regresso quase sem pálpebras,
primeiras folhas altas,
à luminosa vontade
sem esforço, à flor, atenta.
Abro os olhos ao vento.
O que me falta respiro,
o que não tenho sou
esquecidamente firme.
afirmação serena,
sobre as fachadas limpas
sem sombra, desoladas.
Igualdade sem normas,
tão larga lassitude,
um homem se eleva lentamente
frente às fachadas lisas.
Contemplada casa
entre verdes disfarces,
luz jovem, luz serena,
na estação recriada.
Um nome acorda o ar.
Instante outro me iguala
à esquecida sombra
bronzeada, desperta.
Regresso quase sem pálpebras,
primeiras folhas altas,
à luminosa vontade
sem esforço, à flor, atenta.
Abro os olhos ao vento.
O que me falta respiro,
o que não tenho sou
esquecidamente firme.
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