Poemas neste tema
Vida e Existência
Pierre Albert-Birot
Décimo-Sétimo Poema
O tempo do mau tempo está entre nós
Tempo corcunda age em caretas e tudo em garras e longos urros
O inverno ao grande carniçal que nos engole
Bola idiota em buraco
Que fazer no estômago do inverno
Onde não florescem os canteiros de heliotrópios
Tu meu claro outro eu que não te deixas engolir
Envia um pouco de verão no inverno
A fim de anunciar-me a primavera
Deita-me
Nina-me sobre o passado mole em veludo
Onde eu acreditarei ouvir ver e tomar
Tudo o que me prometeste
Ou talvez tudo o que me prometi
Ou tudo o que me deste
Ou tudo o que tomei
No tempo loiro quando acreditamos
Tudo o que dizia
Decalcomania
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Dix-Septième Poème
Pierre Albert-Birot
Le temps du mauvais temps est avec nous
Temps bossu fait en grimaces et tout à griffes et longues hurles
L´hiver à grande goule qui nous avale
Stupide boule au troup
Que faire dans l´estomac de l´hiver
Où ne fleurissent pas les massifs d´héliotropes
Toi mon clair autre moi qui ne te laisses pas avaler
Envoie un peu d´été dans l´hiver
Afin de m´annoncer le printemps
Couche-moi
Berce-moi sur le passé mou velouté
Où je croirai entendre voir et prendre
Tout ce que tu m´as promis
Ou tout ce que tu m´as donné
Ou tout ce que j´ai pris
Dans les temps blond où l´on croit
Tout ce que l´on dit
Décalcomanie
793
Pierre Albert-Birot
Décimo-Sétimo Poema
O tempo do mau tempo está entre nós
Tempo corcunda age em caretas e tudo em garras e longos urros
O inverno ao grande carniçal que nos engole
Bola idiota em buraco
Que fazer no estômago do inverno
Onde não florescem os canteiros de heliotrópios
Tu meu claro outro eu que não te deixas engolir
Envia um pouco de verão no inverno
A fim de anunciar-me a primavera
Deita-me
Nina-me sobre o passado mole em veludo
Onde eu acreditarei ouvir ver e tomar
Tudo o que me prometeste
Ou talvez tudo o que me prometi
Ou tudo o que me deste
Ou tudo o que tomei
No tempo loiro quando acreditamos
Tudo o que dizia
Decalcomania
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Dix-Septième Poème
Pierre Albert-Birot
Le temps du mauvais temps est avec nous
Temps bossu fait en grimaces et tout à griffes et longues hurles
L´hiver à grande goule qui nous avale
Stupide boule au troup
Que faire dans l´estomac de l´hiver
Où ne fleurissent pas les massifs d´héliotropes
Toi mon clair autre moi qui ne te laisses pas avaler
Envoie un peu d´été dans l´hiver
Afin de m´annoncer le printemps
Couche-moi
Berce-moi sur le passé mou velouté
Où je croirai entendre voir et prendre
Tout ce que tu m´as promis
Ou tout ce que tu m´as donné
Ou tout ce que j´ai pris
Dans les temps blond où l´on croit
Tout ce que l´on dit
Décalcomanie
793
Heiner Müller
O pai
I.
Um pai morto teria sido talvez
Melhor pai. Ainda melhor
é um pai nado-morto.
Sempre nova cresce a grama sobre a fronteira.
A grama tem que ser arrancada
De novo e de novo que sobre a fronteira cresce.
II.
Eu queria que meu pai tivesse sido um tubarão
Que estraçalhara quarenta baleeiros
(E eu aprendido a nadar neste sangue)
Minha mãe uma baleia-azul meu nome Lautréamont
Morto em Paris
Em 1871 desconhecido
:
Der Vater
I.
Ein toter Vater wäre vielleicht
Ein besserer Vater gewesen. Am besten
Ist ein totgeborener Vater.
Immer neu wächst Gras über die Grenze.
Das Gras muß ausgerissen werden
Wieder und wieder das über die Grenze wächst.
II.
Ich wünschte mein Vater wäre ein Hai gewesen
Der vierzig Walfänger zerrissen hätte
(Und ich hätte schwimmen gelernt in ihrem Blut)
Meine Mutter ein Blauwal mein Name Lautréamont
Gestorben in Paris
1871 unbekannt
Um pai morto teria sido talvez
Melhor pai. Ainda melhor
é um pai nado-morto.
Sempre nova cresce a grama sobre a fronteira.
A grama tem que ser arrancada
De novo e de novo que sobre a fronteira cresce.
II.
Eu queria que meu pai tivesse sido um tubarão
Que estraçalhara quarenta baleeiros
(E eu aprendido a nadar neste sangue)
Minha mãe uma baleia-azul meu nome Lautréamont
Morto em Paris
Em 1871 desconhecido
:
Der Vater
I.
Ein toter Vater wäre vielleicht
Ein besserer Vater gewesen. Am besten
Ist ein totgeborener Vater.
Immer neu wächst Gras über die Grenze.
Das Gras muß ausgerissen werden
Wieder und wieder das über die Grenze wächst.
II.
Ich wünschte mein Vater wäre ein Hai gewesen
Der vierzig Walfänger zerrissen hätte
(Und ich hätte schwimmen gelernt in ihrem Blut)
Meine Mutter ein Blauwal mein Name Lautréamont
Gestorben in Paris
1871 unbekannt
1 406
Amiri Baraka
Em memória do rádio
Quem já parou pra pensar na divindade de Lamont Cranston?
(Só Jack Kerouac, que eu saiba: & eu.
Já vocês é provável estavam na WCBS ou na Kate Smith,
Ou em algo igualmente sem graça.)
Que posso dizer?
É melhor se apaixonar e perder
Que passar linóleo nas suas salas de estar?
Sou um sábio ou algo do tipo?
Mandrake e o truque hipnótico da semana?
(Lembrem, não tenho os poderes de cura de Oral Roberts …..
Não posso, como F.J. Sheen, te dar salvação & dinheiro!
Não posso sequer te mandar prum satori na câmara de gás
[como Hitler ou Goody Knight
& Amor é quase a morte
Mais duas letras/ e o que dá?
A morte, além do mais
Quem entende isso?
Eu é que não ia querer andar nessa corda bamba.
Sábado de manhã a gente ouvia o Lanterna Vermelha e sua turma
[submarina.
Às 11, Faz de Conta/ & a gente fazia/& eu, o poeta, ainda faço,
[Graças a Deus!
O que ele dizia mesmo (já transformado, seguro & invisível & os
[descrentes não podiam tacar pedras?) “Heh, heh, heh,
Quem sabe o mal que se esconde no coração dos homens?
[O Sombra sabe.”
(tradução de Dirceu Villa)
Nota do tradutor:
Lamont Cranston era a identidade secreta do Sombra, herói das HQs e do rádio na década de 1940.
WCBS: Rádio nova-iorquina.
Kate Smith (1907 – 1986) foi uma cantora típica da era do rádio, veiculada pela rede CBS na década de 1940.
Oral Roberts: Evangelista televisivo dos EUA.
F.J. Sheen: Bispo norte-americano. O primeiro pregador televisivo a se tornar famoso.
Satori: “Iluminação”, termo do zen budismo.
Goodwin Knight (1896 – 1970), do Partido Republicano, foi governador da Califórnia na década de 1960, e praticou, como uma porção de outros, a pena de morte em câmara de gás, incluindo um episódio famoso, em que tentou deter uma execução: seu telefonema chegou dois minutos atrasado. Baraka pode estar jogando com o trocadilho sonoro do nome do governador, que poderia ser ouvido como good night, ou seja, “boa noite”.
Red Lantern, programa de rádio da década de 1940 que contava aventuras marinhas.
Let’s Pretend, programa de rádio da CBS, década de 1940.
"(...) o Sombra sabe": essa era a frase inicial do programa, e a frase que diziam sobre o Sombra nas HQs.
:
In Memory of Radio
Amiri Baraka
Who has ever stopped to think of the divinity of Lamont Cranston?
(Only jack Kerouac, that I know of: & me.
The rest of you probably had on WCBS and Kate Smith,
Or something equally unattractive.)
What can I say?
It is better to haved loved and lost
Than to put linoleum in your living rooms?
Am I a sage or something?
Mandrake's hypnotic gesture of the week?
(Remember, I do not have the healing powers of Oral Roberts...
I cannot, like F. J. Sheen, tell you how to get saved & rich!
I cannot even order you to the gaschamber satori like Hitler or Goddy Knight)
& love is an evil word.
Turn it backwards/see, see what I mean?
An evol word. & besides
who understands it?
I certainly wouldn't like to go out on that kind of limb.
Saturday mornings we listened to the Red Lantern & his undersea folk.
At 11, Let's Pretend
& we did
& I, the poet, still do. Thank God!
What was it he used to say (after the transformation when he was safe
& invisible & the unbelievers couldn't throw stones?) "Heh, heh, heh.
Who knows what evil lurks in the hearts of men? The Shadow knows."
O, yes he does
O, yes he does
An evil word it is,
This Love.
781
Amiri Baraka
Em memória do rádio
Quem já parou pra pensar na divindade de Lamont Cranston?
(Só Jack Kerouac, que eu saiba: & eu.
Já vocês é provável estavam na WCBS ou na Kate Smith,
Ou em algo igualmente sem graça.)
Que posso dizer?
É melhor se apaixonar e perder
Que passar linóleo nas suas salas de estar?
Sou um sábio ou algo do tipo?
Mandrake e o truque hipnótico da semana?
(Lembrem, não tenho os poderes de cura de Oral Roberts …..
Não posso, como F.J. Sheen, te dar salvação & dinheiro!
Não posso sequer te mandar prum satori na câmara de gás
[como Hitler ou Goody Knight
& Amor é quase a morte
Mais duas letras/ e o que dá?
A morte, além do mais
Quem entende isso?
Eu é que não ia querer andar nessa corda bamba.
Sábado de manhã a gente ouvia o Lanterna Vermelha e sua turma
[submarina.
Às 11, Faz de Conta/ & a gente fazia/& eu, o poeta, ainda faço,
[Graças a Deus!
O que ele dizia mesmo (já transformado, seguro & invisível & os
[descrentes não podiam tacar pedras?) “Heh, heh, heh,
Quem sabe o mal que se esconde no coração dos homens?
[O Sombra sabe.”
(tradução de Dirceu Villa)
Nota do tradutor:
Lamont Cranston era a identidade secreta do Sombra, herói das HQs e do rádio na década de 1940.
WCBS: Rádio nova-iorquina.
Kate Smith (1907 – 1986) foi uma cantora típica da era do rádio, veiculada pela rede CBS na década de 1940.
Oral Roberts: Evangelista televisivo dos EUA.
F.J. Sheen: Bispo norte-americano. O primeiro pregador televisivo a se tornar famoso.
Satori: “Iluminação”, termo do zen budismo.
Goodwin Knight (1896 – 1970), do Partido Republicano, foi governador da Califórnia na década de 1960, e praticou, como uma porção de outros, a pena de morte em câmara de gás, incluindo um episódio famoso, em que tentou deter uma execução: seu telefonema chegou dois minutos atrasado. Baraka pode estar jogando com o trocadilho sonoro do nome do governador, que poderia ser ouvido como good night, ou seja, “boa noite”.
Red Lantern, programa de rádio da década de 1940 que contava aventuras marinhas.
Let’s Pretend, programa de rádio da CBS, década de 1940.
"(...) o Sombra sabe": essa era a frase inicial do programa, e a frase que diziam sobre o Sombra nas HQs.
:
In Memory of Radio
Amiri Baraka
Who has ever stopped to think of the divinity of Lamont Cranston?
(Only jack Kerouac, that I know of: & me.
The rest of you probably had on WCBS and Kate Smith,
Or something equally unattractive.)
What can I say?
It is better to haved loved and lost
Than to put linoleum in your living rooms?
Am I a sage or something?
Mandrake's hypnotic gesture of the week?
(Remember, I do not have the healing powers of Oral Roberts...
I cannot, like F. J. Sheen, tell you how to get saved & rich!
I cannot even order you to the gaschamber satori like Hitler or Goddy Knight)
& love is an evil word.
Turn it backwards/see, see what I mean?
An evol word. & besides
who understands it?
I certainly wouldn't like to go out on that kind of limb.
Saturday mornings we listened to the Red Lantern & his undersea folk.
At 11, Let's Pretend
& we did
& I, the poet, still do. Thank God!
What was it he used to say (after the transformation when he was safe
& invisible & the unbelievers couldn't throw stones?) "Heh, heh, heh.
Who knows what evil lurks in the hearts of men? The Shadow knows."
O, yes he does
O, yes he does
An evil word it is,
This Love.
781
Vasko Popa
- Diante do final
Onde iremos agora
Onde a lugar algum
Onde poderiam ir dois ossos
O que faremos lá
Lá nos de há muito
Lá nos espera ansioso
Nada e sua mulher nada
De que lhes servimos nós
Envelheceram desossados
Seremos para eles como filhos
762
Konstantínos Kaváfis
Nos Arrabaldes de Antióquia
Ficámos siderados em Antióquia
com as últimas façanhas de Juliano.
Apolo "pessoalmente" em Dafne lhe dissera
que mais não proferia (forte pena!)
oráculo nenhum, enquanto o templo
não fosse, em Dafne, purificado.
Os mortos em redor incomodavam-no.
Em Dafne havia numerosos túmulos.
E um dos que lá estavam sepultados
era o magnífico – de nossa fé a glória -
Babilas, santo e triunfante mártir.
O falso deus a ele se referia, a ele é que temia,
enquanto ao pé o sentisse, não proferiria
oráculos: ficava mudo e quedo.
(Que os falsos deuses temem nossos mártires!)
O Apóstata Juliano arregaçou as mangas…
Todo irritado, vocifera: "Levem-no,
tirem daqui, quanto antes, o Babilas.
Não me ouvem? O grande Apolo está inquieto.
Levem-no sem demora, tirem-no daqui.
Desenterrem-no e levem-no para onde queiram.
Que é brincadeira julgam? Façam o que eu mando.
Apolo quer purificado o templo."
E assim exumámos as santas relíquias,
com honras devotas nós as transladámos.
O que afinal aproveitou ao templo!…
Não tardou um instante, e um fogo começou,
um grande incêndio que alastrou terrível:
e o templo ardeu e Apolo ardeu também.
A imagem? – cinza p'ra varrer no lixo.
Juliano esteve a ponto de estourar, e fez correr -
- que havia ele de fazer? – que o fogo fora posto
por nós, Cristãos, é claro. Deixem-no falar.
De resto, nada se provou. Que fale…
O caso é que por pouco não estourou de raiva.
[1933]
com as últimas façanhas de Juliano.
Apolo "pessoalmente" em Dafne lhe dissera
que mais não proferia (forte pena!)
oráculo nenhum, enquanto o templo
não fosse, em Dafne, purificado.
Os mortos em redor incomodavam-no.
Em Dafne havia numerosos túmulos.
E um dos que lá estavam sepultados
era o magnífico – de nossa fé a glória -
Babilas, santo e triunfante mártir.
O falso deus a ele se referia, a ele é que temia,
enquanto ao pé o sentisse, não proferiria
oráculos: ficava mudo e quedo.
(Que os falsos deuses temem nossos mártires!)
O Apóstata Juliano arregaçou as mangas…
Todo irritado, vocifera: "Levem-no,
tirem daqui, quanto antes, o Babilas.
Não me ouvem? O grande Apolo está inquieto.
Levem-no sem demora, tirem-no daqui.
Desenterrem-no e levem-no para onde queiram.
Que é brincadeira julgam? Façam o que eu mando.
Apolo quer purificado o templo."
E assim exumámos as santas relíquias,
com honras devotas nós as transladámos.
O que afinal aproveitou ao templo!…
Não tardou um instante, e um fogo começou,
um grande incêndio que alastrou terrível:
e o templo ardeu e Apolo ardeu também.
A imagem? – cinza p'ra varrer no lixo.
Juliano esteve a ponto de estourar, e fez correr -
- que havia ele de fazer? – que o fogo fora posto
por nós, Cristãos, é claro. Deixem-no falar.
De resto, nada se provou. Que fale…
O caso é que por pouco não estourou de raiva.
[1933]
1 308
Tite de Lemos
Fiducai. Confissões
1.
Meu pai morreu onde viveu, no mesmo quarto
por toda parte
havia um cheiro de charuto
2.
_ Do your own thing, man.
_ You do your own thing.
3.
Habito dois mundos.
O primeiro mundo e o segundo
4.
Já de meu pai, pequeno
herdei o ardor de precipícios
o gosto dos abismos
5.
Eu posso ser um impostor.
Eu sou.
6.
Posso não ser um impostor.
Eu sou.
7.
Não ser eu.
E não sou.
8.
Ser eu.
Sim.
9.
pela última vez
a voz das fontes mana sem cessar
pela última vez
diz oh diz
diz o poema
até silenciar
10.
diz o poema
até dizer
xAma
Meu pai morreu onde viveu, no mesmo quarto
por toda parte
havia um cheiro de charuto
2.
_ Do your own thing, man.
_ You do your own thing.
3.
Habito dois mundos.
O primeiro mundo e o segundo
4.
Já de meu pai, pequeno
herdei o ardor de precipícios
o gosto dos abismos
5.
Eu posso ser um impostor.
Eu sou.
6.
Posso não ser um impostor.
Eu sou.
7.
Não ser eu.
E não sou.
8.
Ser eu.
Sim.
9.
pela última vez
a voz das fontes mana sem cessar
pela última vez
diz oh diz
diz o poema
até silenciar
10.
diz o poema
até dizer
xAma
807
Tite de Lemos
Fiducai. Confissões
1.
Meu pai morreu onde viveu, no mesmo quarto
por toda parte
havia um cheiro de charuto
2.
_ Do your own thing, man.
_ You do your own thing.
3.
Habito dois mundos.
O primeiro mundo e o segundo
4.
Já de meu pai, pequeno
herdei o ardor de precipícios
o gosto dos abismos
5.
Eu posso ser um impostor.
Eu sou.
6.
Posso não ser um impostor.
Eu sou.
7.
Não ser eu.
E não sou.
8.
Ser eu.
Sim.
9.
pela última vez
a voz das fontes mana sem cessar
pela última vez
diz oh diz
diz o poema
até silenciar
10.
diz o poema
até dizer
xAma
Meu pai morreu onde viveu, no mesmo quarto
por toda parte
havia um cheiro de charuto
2.
_ Do your own thing, man.
_ You do your own thing.
3.
Habito dois mundos.
O primeiro mundo e o segundo
4.
Já de meu pai, pequeno
herdei o ardor de precipícios
o gosto dos abismos
5.
Eu posso ser um impostor.
Eu sou.
6.
Posso não ser um impostor.
Eu sou.
7.
Não ser eu.
E não sou.
8.
Ser eu.
Sim.
9.
pela última vez
a voz das fontes mana sem cessar
pela última vez
diz oh diz
diz o poema
até silenciar
10.
diz o poema
até dizer
xAma
807
Tite de Lemos
Fiducai. Confissões
1.
Meu pai morreu onde viveu, no mesmo quarto
por toda parte
havia um cheiro de charuto
2.
_ Do your own thing, man.
_ You do your own thing.
3.
Habito dois mundos.
O primeiro mundo e o segundo
4.
Já de meu pai, pequeno
herdei o ardor de precipícios
o gosto dos abismos
5.
Eu posso ser um impostor.
Eu sou.
6.
Posso não ser um impostor.
Eu sou.
7.
Não ser eu.
E não sou.
8.
Ser eu.
Sim.
9.
pela última vez
a voz das fontes mana sem cessar
pela última vez
diz oh diz
diz o poema
até silenciar
10.
diz o poema
até dizer
xAma
Meu pai morreu onde viveu, no mesmo quarto
por toda parte
havia um cheiro de charuto
2.
_ Do your own thing, man.
_ You do your own thing.
3.
Habito dois mundos.
O primeiro mundo e o segundo
4.
Já de meu pai, pequeno
herdei o ardor de precipícios
o gosto dos abismos
5.
Eu posso ser um impostor.
Eu sou.
6.
Posso não ser um impostor.
Eu sou.
7.
Não ser eu.
E não sou.
8.
Ser eu.
Sim.
9.
pela última vez
a voz das fontes mana sem cessar
pela última vez
diz oh diz
diz o poema
até silenciar
10.
diz o poema
até dizer
xAma
807
André Pieyre de Mandiargues
Brulote
O rosto desafiando a borrasca
Os cabelos cordames loucos
A boca aberta aos quatro ventos
Os braços levados pelas vagas
Os pés as mãos dispersos
O peito roto de golpes
O coração exposto à bordagem
Em trovão de fogo São Telmo
De amor morro de rir
No brulote de nossas breves vidas
Onde você me pulveriza.
(tradução de William Zeytounlian)
:
Brûlot
La figure défiant l'orage
Les cheveux cordages fous
La bouche bée aux quatre vents
Les bras emportés par les vagues
Les pieds les mains éparpillés
La poitrine rompue de coups
Le coeur exposé au bordage
Dans un éclat de feu Saint-Elme
D'amour je meurs de rire
Sur le brûlot de nos vies brèves
Où tu me réduis en poudre.
793
Mario Wirz
Autorretrato
Dos muitos
que eu sou
desconheço
todos eles
só de boato
conheço eu
este aqui
aquele ali
de passagem
eu permaneço
por mim
na busca
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Selbstbild
Von den vielen
die ich bin
sind alle
mir unbekannt
nur vom Hörensagen
kenne ich
den einen
die andere
flüchtig
bleibe ich
mir
auf der Spur
.
.
.
817
Pierre Albert-Birot
Nada
Ai perdoe as quatro letras a mais
Nem mesmo nada
E já é demais
Haveria que começar a História
Antes de seu começo
Creiamos que ela de fato começou
No branco a preceder este nada
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Rien
Pierre Albert-Birot
Oh pardon c´est quatre lettres de trop
Pas même rien
Et c´est encore trop
Il faudrait commencer l´Histoire
Avant son commencement
Qu´on veuille bien croire qu´elle commence en effet
Dans le blanc qui precède ce rien
769
Décio Pignatari
Escova
Plexiglás e nylon, da leve lucidez de
tua cútis, esses sessenta geisers se
levantam, podados a duralumínio, as
raízes translúcidas a nu na transparência – e
do cristal ao leite, os úberes capilares ex-
traem ou emitem a luz em extrato? es-
pelho escalpelado por dentro, refletindo o
avesso mais claro que o direito
pensas (em íons) o
obscuro exterior que te dá luz? perdes o
invisível palpável na poeira do uso? o
hábito da boca com
boqueira derrui o teu plexo glorioso de
nervos apolíneos, como os estalamitites-tites
brinquedos de carbonato aliciando luz em
escrínios de vácuo, espeleologia do
inútil adorável, de Vaucluse? pedra-ume
de angústia-standard, adstringindo o
espaço-luz, digesto cotidiano de um gesto ex-
perto, com louçanias de belle-époque, o
tracoma ofende o monopólio guloso de
estrita economia, apanágio malthus-
estrutural do teu sossego?
(teus es
pelhos por dentro) em linhas-d´água lique-
fazes as dúvidas, e enquanto o mundo passa, tu
és e bela, mas se mais de bilhão não
apreciam sequer os objetos concretos (pão) da
metáfora para te usar lindamente, só o
eterno te assegura a vida, ó
volúpia ótico –
manual, comestível epidérmico de
luxos módicos de alcovas-leoas de
invencível dentição, os teus ca-
belos têm o brilho perfeito das
calvícies do gênio, mas se o rigor conduz à
qualidade, 1/2 mundo está aquém de
tua água organizada e dura, lastro de
cristal de muitas fomes – ignorantes do
apetite verbal.
1 289
Vasko Popa
- No Final
Osso eu osso tu
Por que me engoliste
Não me vejo mais
O que tens
Tu é que me engoliste
Não me vejo a mim também
Onde estou agora
Agora não se sabe
Quem está onde quem é quem
Tudo é sonho horrível da poeira
Será que me ouves
Ouço a ti e a mim
O canto do galo canta em nós
663
Heiner Müller
A sós com estes corpos
Governos utopias
Cresce a grama
Entre os trilhos
As palavras apodrecem
No papel
Os olhos das mulheres
Ficam frios
Adeus amanhã
STATUS QUO
:
ALLEIN MIT DIESEN LEIBERN
Staaten Utopien
Gras wächst
Auf den Gleisen
Die Wörter verfaulen
Auf den Papier
Die Augen der Frauen
Werden kälter
Abschied von morgen
STATUS QUO
826
Pierre Albert-Birot
Fox Film
Ele vem a cavalo dos primórdios do mundo e enfim chega até nós
Seu sorriso brilhante como uma prata nova aparece antes de tudo
Abril antecede maio logo dois sorrisos que se olham formam uma ogiva
Zimmm... ele cruza as cidades atravessa a vida como um golpe de címbalos
Quatro sóis o iluminam por isso não há sombra que o persiga por detrás
Tudo se torna transparente o diabo é triste e gostaria de se matar
Todas as pequenas idéias se tornaram monumentos depois ele as esquece
O Mundo é grátis para os Poetas esses pais do Espaço e do Tempo
A gente deixa pra lá essa figura animal esse uniforme fashion que nos disfarça
E nos tornamos puros como um O os outros os outros estão fazendo fotos
Em nome do Pai eles que se entendam os que não têm nada a perder
Oh oh oh oh oh oh não se meta entre meus versos se você tem medo do fogo
Eles não servem para os que precisam que os dias se interliguem pelas noites
Os nomes que vestem as coisas ficaram no dicionário e tudo surgiu
As coisas então eram apenas nomes é inútil aprender a geografia
Antigamente havia cidades que se chamavam Moscou Melbourne ou Paris
(tradução de Marília Garcia, publicada no número impresso de estreia daModo de Usar & Co.)
672
Pierre Albert-Birot
Fox Film
Ele vem a cavalo dos primórdios do mundo e enfim chega até nós
Seu sorriso brilhante como uma prata nova aparece antes de tudo
Abril antecede maio logo dois sorrisos que se olham formam uma ogiva
Zimmm... ele cruza as cidades atravessa a vida como um golpe de címbalos
Quatro sóis o iluminam por isso não há sombra que o persiga por detrás
Tudo se torna transparente o diabo é triste e gostaria de se matar
Todas as pequenas idéias se tornaram monumentos depois ele as esquece
O Mundo é grátis para os Poetas esses pais do Espaço e do Tempo
A gente deixa pra lá essa figura animal esse uniforme fashion que nos disfarça
E nos tornamos puros como um O os outros os outros estão fazendo fotos
Em nome do Pai eles que se entendam os que não têm nada a perder
Oh oh oh oh oh oh não se meta entre meus versos se você tem medo do fogo
Eles não servem para os que precisam que os dias se interliguem pelas noites
Os nomes que vestem as coisas ficaram no dicionário e tudo surgiu
As coisas então eram apenas nomes é inútil aprender a geografia
Antigamente havia cidades que se chamavam Moscou Melbourne ou Paris
(tradução de Marília Garcia, publicada no número impresso de estreia daModo de Usar & Co.)
672
Vasko Popa
- Sob a lua
O que é isso agora
É como se uma carne uma carne de neve
Me envolvesse
Não sei o que é
É como se essa medula me varasse
Essa medula gelada
Nem eu sei o que é
Como se tudo recomeçasse
Com um começo mais terrível
Sabes o quê?
Será que ousas ladrar
698
Vasko Popa
- Sob a lua
O que é isso agora
É como se uma carne uma carne de neve
Me envolvesse
Não sei o que é
É como se essa medula me varasse
Essa medula gelada
Nem eu sei o que é
Como se tudo recomeçasse
Com um começo mais terrível
Sabes o quê?
Será que ousas ladrar
698
Vasko Popa
No suspiro
Pelas estradas da profundeza da alma
Pelas estradas azul-celeste
A erva-daninha viaja
As estradas se perdem
Sob os pés
Enxames de pregos violentam
As plantações cansadas
As lavouras desaparecem
Do campo
Lábios invisíveis
Apagaram o campo
A dimensão triunfa
Encantada pelas palmas de suas mãos lisas
Cinzalisas
782
Pierre Albert-Birot
Décimo-Terceiro Poema
Huh huh huh ha e então as palavras com seu ar de ser alguém
O verbo ele tudo e todos
Ama e presta-se à pessoa
Ela ama
Ruas casas cidades céu o verbo doou tudo
A pessoa caminha pelas cidades e olha o céu
Minha casa meu rosto as árvores ele e vós
O primeiro dia e o último
A pessoa trancada em pequenos quadrados de tempo
Presta atenção nos carros cura suas mãos e faz bebês
Paula ama sua mãe
Meu pai está em São Paulo
Ele retornará amanhã
Sem a bondade do verbo ficávamos no infinitivo
Este maravilhoso tudo e todos
Que a ninguém conhece
Mesmo assim melhor o tédio de nascer e morrer
Como fazemos o sol erguer-se ao dizer é dia
(tradução de Ricardo Domeneck, publicada no número impresso de estréia daModo de Usar & Co.)
:
Treizième Poème
Pierre Albert-Birot
Heu heu heu ha et puis des mots qui ont l´air d´être quelqu´un
Le verbe lui le tout et le toujours
Aime et se prête à la personne
Elle aime
Rues maisons villes ciel le verbe a tout donné
La personne marche dans les villes et regarde le ciel
Ma maison mon visage les arbres lui et vous
Le premier jour et le dernier
La personne enfermée dans les petits carrés du temps
Prend garde aux voitures soigne ses mains et fait des enfants
Paul aime sa mère
Mon père est à Paris
Il reviendra demain
Sans la bonté du verbe nous restions à l´infinitif
Ce merveilleux tout et toujours
Qui ne connaît personne
Pourtant mieux vaut l´ennui de naître et de mourir
Puisqu´on fait lever le soleil en disant it fait jour
733
Pierre Albert-Birot
Décimo-Terceiro Poema
Huh huh huh ha e então as palavras com seu ar de ser alguém
O verbo ele tudo e todos
Ama e presta-se à pessoa
Ela ama
Ruas casas cidades céu o verbo doou tudo
A pessoa caminha pelas cidades e olha o céu
Minha casa meu rosto as árvores ele e vós
O primeiro dia e o último
A pessoa trancada em pequenos quadrados de tempo
Presta atenção nos carros cura suas mãos e faz bebês
Paula ama sua mãe
Meu pai está em São Paulo
Ele retornará amanhã
Sem a bondade do verbo ficávamos no infinitivo
Este maravilhoso tudo e todos
Que a ninguém conhece
Mesmo assim melhor o tédio de nascer e morrer
Como fazemos o sol erguer-se ao dizer é dia
(tradução de Ricardo Domeneck, publicada no número impresso de estréia daModo de Usar & Co.)
:
Treizième Poème
Pierre Albert-Birot
Heu heu heu ha et puis des mots qui ont l´air d´être quelqu´un
Le verbe lui le tout et le toujours
Aime et se prête à la personne
Elle aime
Rues maisons villes ciel le verbe a tout donné
La personne marche dans les villes et regarde le ciel
Ma maison mon visage les arbres lui et vous
Le premier jour et le dernier
La personne enfermée dans les petits carrés du temps
Prend garde aux voitures soigne ses mains et fait des enfants
Paul aime sa mère
Mon père est à Paris
Il reviendra demain
Sans la bonté du verbe nous restions à l´infinitif
Ce merveilleux tout et toujours
Qui ne connaît personne
Pourtant mieux vaut l´ennui de naître et de mourir
Puisqu´on fait lever le soleil en disant it fait jour
733
Pierre Albert-Birot
Décimo-Terceiro Poema
Huh huh huh ha e então as palavras com seu ar de ser alguém
O verbo ele tudo e todos
Ama e presta-se à pessoa
Ela ama
Ruas casas cidades céu o verbo doou tudo
A pessoa caminha pelas cidades e olha o céu
Minha casa meu rosto as árvores ele e vós
O primeiro dia e o último
A pessoa trancada em pequenos quadrados de tempo
Presta atenção nos carros cura suas mãos e faz bebês
Paula ama sua mãe
Meu pai está em São Paulo
Ele retornará amanhã
Sem a bondade do verbo ficávamos no infinitivo
Este maravilhoso tudo e todos
Que a ninguém conhece
Mesmo assim melhor o tédio de nascer e morrer
Como fazemos o sol erguer-se ao dizer é dia
(tradução de Ricardo Domeneck, publicada no número impresso de estréia daModo de Usar & Co.)
:
Treizième Poème
Pierre Albert-Birot
Heu heu heu ha et puis des mots qui ont l´air d´être quelqu´un
Le verbe lui le tout et le toujours
Aime et se prête à la personne
Elle aime
Rues maisons villes ciel le verbe a tout donné
La personne marche dans les villes et regarde le ciel
Ma maison mon visage les arbres lui et vous
Le premier jour et le dernier
La personne enfermée dans les petits carrés du temps
Prend garde aux voitures soigne ses mains et fait des enfants
Paul aime sa mère
Mon père est à Paris
Il reviendra demain
Sans la bonté du verbe nous restions à l´infinitif
Ce merveilleux tout et toujours
Qui ne connaît personne
Pourtant mieux vaut l´ennui de naître et de mourir
Puisqu´on fait lever le soleil en disant it fait jour
733