Poemas neste tema
Vida e Existência
Maura Lopes Cançado
Era outono - não mudou de estação.
Era outono - não mudou de estação.
Águas tremiam eternizadas na planura dos lagos,
como no ar tremeluziam palavras.
Lentes espelhavam figuras catatônicas -
e nas extremidades dos dias, novas claridades
entravam - não de todo límpidas.
Rios solenes, leitos profundos, grave caminhar.
Se tive consciência é mistério dos nautas
- imagens elevadas até o desconhecido:
Não esmaguei prováveis flores da Primavera;
não mudou de estação.
(15/01/1960)
801
Maura Lopes Cançado
Era outono - não mudou de estação.
Era outono - não mudou de estação.
Águas tremiam eternizadas na planura dos lagos,
como no ar tremeluziam palavras.
Lentes espelhavam figuras catatônicas -
e nas extremidades dos dias, novas claridades
entravam - não de todo límpidas.
Rios solenes, leitos profundos, grave caminhar.
Se tive consciência é mistério dos nautas
- imagens elevadas até o desconhecido:
Não esmaguei prováveis flores da Primavera;
não mudou de estação.
(15/01/1960)
801
Patrícia Galvão
Canal
Nada mais sou que um canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal
Sabem vocês o que é ser um canal?
Apenas um canal?
Evidentemente um canal tem as suas nervuras
As suas nebulosidades
As suas algas
Nereidazinhas verdes, às vezes amarelas
Mas por favor
Não pensem que estou pretendendo falar
Em bandeiras
Isso não
Gosto de bandeiras alastradas ao vento
Bandeiras de navio
As ruas são as mesmas.
O asfalto com os mesmos buracos,
Os inferninhos acesos,
O que está acontecendo?
É verdade que está ventando noroeste,
Há garotos nos bares
Há, não sei mais o que há.
Digamos que seja a lua nova
Que seja esta plantinha voacejando na minha frente.
Lembranças dos meus amigos que morreram
Lembranças de todas as coisas ocorridas
Há coisas no ar…
Digamos que seja a lua nova
Iluminando o canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal.
(Publicado n’A Tribuna, Santos/SP, em 27-11-1960)
959
Patrícia Galvão
Canal
Nada mais sou que um canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal
Sabem vocês o que é ser um canal?
Apenas um canal?
Evidentemente um canal tem as suas nervuras
As suas nebulosidades
As suas algas
Nereidazinhas verdes, às vezes amarelas
Mas por favor
Não pensem que estou pretendendo falar
Em bandeiras
Isso não
Gosto de bandeiras alastradas ao vento
Bandeiras de navio
As ruas são as mesmas.
O asfalto com os mesmos buracos,
Os inferninhos acesos,
O que está acontecendo?
É verdade que está ventando noroeste,
Há garotos nos bares
Há, não sei mais o que há.
Digamos que seja a lua nova
Que seja esta plantinha voacejando na minha frente.
Lembranças dos meus amigos que morreram
Lembranças de todas as coisas ocorridas
Há coisas no ar…
Digamos que seja a lua nova
Iluminando o canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal.
(Publicado n’A Tribuna, Santos/SP, em 27-11-1960)
959
Isabel Câmara
ninguém morre ao travesseiro
ninguém morre ao travesseiro
só os sonhos
isto quando há travesseiro
ou lojas cheirosas
de
tanto capim-do-pará murta macela...
essas ervas que socorrem
a Santa Mãe Natureza
só os sonhos
isto quando há travesseiro
ou lojas cheirosas
de
tanto capim-do-pará murta macela...
essas ervas que socorrem
a Santa Mãe Natureza
744
Sandro Penna
A Eugenio Montale
É festa no poente e eu sigo
em direção oposta à multidão
que apressada e alegre deixa o estádio.
Não olho ninguém e a todos olho.
Recolho um sorriso vez em quando.
Mais raramente um amável aceno.
E não recordo mais quem é que eu sou.
Neste momento morrer não me agrada.
Morrer parece-me demasiado injusto.
Mesmo se não me lembro mais quem sou.
:
La festa verso l'imbrunire vado
in direzione opposta della folla
che allegra e svelta sorte dallo stadio.
Io non guardo nessuno e guardo tutti.
Un sorriso raccolgo ogni tanto.
Più raramente un festoso saluto.
Ed io non mi ricordo più chi sono.
Allora di morire mi dispiace.
Di morire mi pare troppo ingiusto.
Anche se non ricordo più chi sono.
de Il viaggiatore insonne (1977)
em direção oposta à multidão
que apressada e alegre deixa o estádio.
Não olho ninguém e a todos olho.
Recolho um sorriso vez em quando.
Mais raramente um amável aceno.
E não recordo mais quem é que eu sou.
Neste momento morrer não me agrada.
Morrer parece-me demasiado injusto.
Mesmo se não me lembro mais quem sou.
:
La festa verso l'imbrunire vado
in direzione opposta della folla
che allegra e svelta sorte dallo stadio.
Io non guardo nessuno e guardo tutti.
Un sorriso raccolgo ogni tanto.
Più raramente un festoso saluto.
Ed io non mi ricordo più chi sono.
Allora di morire mi dispiace.
Di morire mi pare troppo ingiusto.
Anche se non ricordo più chi sono.
de Il viaggiatore insonne (1977)
956
Sandro Penna
A Eugenio Montale
É festa no poente e eu sigo
em direção oposta à multidão
que apressada e alegre deixa o estádio.
Não olho ninguém e a todos olho.
Recolho um sorriso vez em quando.
Mais raramente um amável aceno.
E não recordo mais quem é que eu sou.
Neste momento morrer não me agrada.
Morrer parece-me demasiado injusto.
Mesmo se não me lembro mais quem sou.
:
La festa verso l'imbrunire vado
in direzione opposta della folla
che allegra e svelta sorte dallo stadio.
Io non guardo nessuno e guardo tutti.
Un sorriso raccolgo ogni tanto.
Più raramente un festoso saluto.
Ed io non mi ricordo più chi sono.
Allora di morire mi dispiace.
Di morire mi pare troppo ingiusto.
Anche se non ricordo più chi sono.
de Il viaggiatore insonne (1977)
em direção oposta à multidão
que apressada e alegre deixa o estádio.
Não olho ninguém e a todos olho.
Recolho um sorriso vez em quando.
Mais raramente um amável aceno.
E não recordo mais quem é que eu sou.
Neste momento morrer não me agrada.
Morrer parece-me demasiado injusto.
Mesmo se não me lembro mais quem sou.
:
La festa verso l'imbrunire vado
in direzione opposta della folla
che allegra e svelta sorte dallo stadio.
Io non guardo nessuno e guardo tutti.
Un sorriso raccolgo ogni tanto.
Più raramente un festoso saluto.
Ed io non mi ricordo più chi sono.
Allora di morire mi dispiace.
Di morire mi pare troppo ingiusto.
Anche se non ricordo più chi sono.
de Il viaggiatore insonne (1977)
956
Sandro Penna
Juventude, amor, belas palavras,
Juventude, amor, belas palavras,
que coisa brilha em vós e vos resseca?
Resta apenas um odor de merda seca
ao longo do caminho ensolarado.
:
Amore, gioventù, liete parole,
cosa splende su voi e vi dissecca?
Resta un odore come merda secca
lungo le siepe cariche di sole.
de Croce e delizia (1958)
que coisa brilha em vós e vos resseca?
Resta apenas um odor de merda seca
ao longo do caminho ensolarado.
:
Amore, gioventù, liete parole,
cosa splende su voi e vi dissecca?
Resta un odore come merda secca
lungo le siepe cariche di sole.
de Croce e delizia (1958)
986
Sandro Penna
Juventude, amor, belas palavras,
Juventude, amor, belas palavras,
que coisa brilha em vós e vos resseca?
Resta apenas um odor de merda seca
ao longo do caminho ensolarado.
:
Amore, gioventù, liete parole,
cosa splende su voi e vi dissecca?
Resta un odore come merda secca
lungo le siepe cariche di sole.
de Croce e delizia (1958)
que coisa brilha em vós e vos resseca?
Resta apenas um odor de merda seca
ao longo do caminho ensolarado.
:
Amore, gioventù, liete parole,
cosa splende su voi e vi dissecca?
Resta un odore come merda secca
lungo le siepe cariche di sole.
de Croce e delizia (1958)
986
Isabel Câmara
Lençóis
Aos domingos se vai ao longe. . .
Lavam-se panos brancos e os
denominamos roupas de cama:
Roupas de baixo
Roupas de cima –
Coisas da Casa
Aos Domingos todos se cansam cedo:
há enlaces matutinos
e muitos hinos.
Aos domingos há missa, música
entreveros. Há quem chore
nalguma hora e há também
possibilidades novas:
Há pares, bares, porres.
Aos domingos semeiam
as lavadeiras
seus azuis/brancos lençóis
lúcidos dos dias de semana.
Para elas lençóis
Prata da Casa
Lençóis louça de Porcelana
Lavam-se panos brancos e os
denominamos roupas de cama:
Roupas de baixo
Roupas de cima –
Coisas da Casa
Aos Domingos todos se cansam cedo:
há enlaces matutinos
e muitos hinos.
Aos domingos há missa, música
entreveros. Há quem chore
nalguma hora e há também
possibilidades novas:
Há pares, bares, porres.
Aos domingos semeiam
as lavadeiras
seus azuis/brancos lençóis
lúcidos dos dias de semana.
Para elas lençóis
Prata da Casa
Lençóis louça de Porcelana
935
Maura Lopes Cançado
permitam-me destruir o livro do Sagan
1
pausa:
permitam-me destruir o livro do Sagan.
É a seda pura que deve nos envolver; ter
música, no momento do beijo.
Inclinada, a rosa lembrará a brisa,
as grades rendadas, o jardim.
Além do mar, outros casais existem.
A noite nos destrói pelas esquinas (repetindo-se
e envelhecendo como almas.
2
Vim do sonho: um monge louco,
olímpico, acordou-me.
Homem de vestes alvas, onde chegará meu braço,
alongando-se, misturando-se às algas:
Sou leve, sílfide talvez, e no voo,
pareço rosa recuada.
Ninguém me salvará
da mentira que sou.
Senhor de vestes sombrias, quantos mundos visitei?
Minh'alma, nua, ela se permuta com a rocha.
Se alguém me procurar,
não pertenço a ninguém.
Senhor, quero um breviário
de contos infantis: carochinha (para ler no pátio
cinzento, prisão da rainha)
Senhor, falo coisas da vida, vim do sonho
ou da loucura?
Senhor, que dor é essa
abrigando meu amor?
3
Fizeram muros altos cinzentos,
esconderam a terra; mas o quadrado azul está presente -
sempre.
Senhora rainha do Egito, dai-me pálpebras pesadas
de mistérios piramidais.
Quantas são? Onde a bola ou sou bola?
Santos coroados cantam, que vestidos rasgados não são
nódoas.
Senhora rainha do Egito, meus versos falam de areia quente,
e faraós, onde Cleópatra dançava,
Por que falar de calor
se vitrais já cintilavam no pátio?
Vidro
é saudade de louco
casado com grades.
4.
Cimento armado e é bezerro de ouro
pedindo pausas.
Esta cidade tem meus olhos,
sabem por que perdi-me?
Quando a cidade cresceu
morei no terceiro andar.
O dia brigou com a luz, eu,
incoerente, juntei-me às palavras,
subindo de elevador
1 083
Sandro Penna
Noite: sonho de esparsas
Noite: sonho de esparsas
janelas iluminadas.
Ouvir a clara voz
do mar. De um livro amado
ver as palavras
sumirem ... – Oh estrelas fugidias
o amor da vida!
:
Notte : sogno di sparse
finestre illuminate.
Sentir la chiara voce
dal mare. Da un amato
libro veder parole
sparire... – Oh stelle in corsa
l'amore della vita !
dePoesie (1939)
727
Edgar Bayley
É infinita esta riqueza abandonada
esta mão não é a mão nem a pele da tua alegria
no fim das ruas encontras sempre outro céu
atrás do céu há sempre outro gramado praias diversas
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada
nunca suponhas que a espuma da aurora se extinguiu
depois do rosto há outro rosto
atrás das pegadas do teu amante há outras pegadas
atrás do canto um novo sussurro se prolonga
e as madrugadas escondem alfabetos inauditos ilhas remotas
sempre será assim
algumas vezes teu sonho acredita ter dito tudo
mas outro sonho se levanta e não é o mesmo
então voltas as mãos ao coração de todos de qualquer um
não és o mesmo não são os mesmos
outros sabem a palavra tu a ignoras
outros sabem esquecer os fatos desnecessários
e levantam o polegar já esqueceram
tu voltarás não importa teu fracasso
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada
e cada gesto cada forma de amor ou de censura
entre as últimas risadas a dor e os inícios
encontrará o vento acre e as estrelas derrotadas
uma máscara de bétula pressagia a visão
tens querido ver
no fundo do dia o tens logrado algumas vezes
o rio chega até os deuses
murmúrios longínquos sobem à claridade do sol
ameaças
esplendor a frio
não esperas nada
a não ser a rota do sol e da pena
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada
(tradução de Renato Rezende)
no fim das ruas encontras sempre outro céu
atrás do céu há sempre outro gramado praias diversas
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada
nunca suponhas que a espuma da aurora se extinguiu
depois do rosto há outro rosto
atrás das pegadas do teu amante há outras pegadas
atrás do canto um novo sussurro se prolonga
e as madrugadas escondem alfabetos inauditos ilhas remotas
sempre será assim
algumas vezes teu sonho acredita ter dito tudo
mas outro sonho se levanta e não é o mesmo
então voltas as mãos ao coração de todos de qualquer um
não és o mesmo não são os mesmos
outros sabem a palavra tu a ignoras
outros sabem esquecer os fatos desnecessários
e levantam o polegar já esqueceram
tu voltarás não importa teu fracasso
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada
e cada gesto cada forma de amor ou de censura
entre as últimas risadas a dor e os inícios
encontrará o vento acre e as estrelas derrotadas
uma máscara de bétula pressagia a visão
tens querido ver
no fundo do dia o tens logrado algumas vezes
o rio chega até os deuses
murmúrios longínquos sobem à claridade do sol
ameaças
esplendor a frio
não esperas nada
a não ser a rota do sol e da pena
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada
(tradução de Renato Rezende)
935
Jean-Baptiste Tati Loutard
Notícias de minha mãe
Me alço alto agora na árvore das estações;
Embaixo, contemplo a terra firme do passado.
Quando os campos se abriam às semeaduras,
Antes que o baobá não ofereça o ombro ao passarinhos
Ao primeiro sinal do sol,
São esses os passos que cantavam ao meu redor:
Grãos de sininhos ritmando minhas abluções.
Me alço alto agora na árvore das estações.
Saiba através desse décimo quinto dia de lua
Que são as lágrimas – até aqui –
Que coroam tua ausência,
Alegam gota a gota tua imagem
Tão pesada sobre minha pupila;
À noite em minha esteira eu velo toda encharcada de ti
Como se tu me habitasses uma segunda vez.
(tradução de Leo Gonçalves)
:
Nouvelles de ma mère
Jean-Baptiste Tati Loutard
Je suis maintenant très haut dans l’arbre des saiasons;
En bas je contemple la terre ferme du passé.
Quando les champs s’ouvraient aux semailles,
Avant que le baobab n’épaule quelques oiseaux
Au premier signal du soleil,
Ce sont tes pas qui chantaient autor de moi:
Grains de clochettes rythmant mes ablutions.
Je suis maintenant très haut dans l’arbre des saisons.
Apprends par ce quinzième jour de lune,
Que ce sont les larmes – jusqu’ici –
Qui comblent ton absence,
Allègent goutte à goutte ton image
Trop lourde sur ma pupille;
Le soir sur ma natte je veille toute trempée de toi
Comme si tu m’habitais une seconde fois.
(do livro Poèmes de la mer, 1968)
.
.
.
943
Jean-Baptiste Tati Loutard
Notícias de minha mãe
Me alço alto agora na árvore das estações;
Embaixo, contemplo a terra firme do passado.
Quando os campos se abriam às semeaduras,
Antes que o baobá não ofereça o ombro ao passarinhos
Ao primeiro sinal do sol,
São esses os passos que cantavam ao meu redor:
Grãos de sininhos ritmando minhas abluções.
Me alço alto agora na árvore das estações.
Saiba através desse décimo quinto dia de lua
Que são as lágrimas – até aqui –
Que coroam tua ausência,
Alegam gota a gota tua imagem
Tão pesada sobre minha pupila;
À noite em minha esteira eu velo toda encharcada de ti
Como se tu me habitasses uma segunda vez.
(tradução de Leo Gonçalves)
:
Nouvelles de ma mère
Jean-Baptiste Tati Loutard
Je suis maintenant très haut dans l’arbre des saiasons;
En bas je contemple la terre ferme du passé.
Quando les champs s’ouvraient aux semailles,
Avant que le baobab n’épaule quelques oiseaux
Au premier signal du soleil,
Ce sont tes pas qui chantaient autor de moi:
Grains de clochettes rythmant mes ablutions.
Je suis maintenant très haut dans l’arbre des saisons.
Apprends par ce quinzième jour de lune,
Que ce sont les larmes – jusqu’ici –
Qui comblent ton absence,
Allègent goutte à goutte ton image
Trop lourde sur ma pupille;
Le soir sur ma natte je veille toute trempée de toi
Comme si tu m’habitais une seconde fois.
(do livro Poèmes de la mer, 1968)
.
.
.
943
Ted Berrigan
Soneto 55
“Graça de nascer
e viver tão vário
quanto possível for”
-- Frank O`Hara
Graça de nascer e viver tão vário quanto possível for
Barcos brancos..... margens verdes.....poeira preta..... num tremor
Enormes como as coxas de Anne sobre a página
Enfureço-me numa camisa azul contra uma escrivaninha marrom num
Cômodo claro sustido por uma barrigacheia de comprimidos
“Os Poemas” não são um sonho por todas as coisas que lhes chegaram
Gratuitamente..... na rápida Nova Iorque imaginamos o Charles azul
Patsy desperta no cio e pronta pra briga
Nada de Poemas ela exige num comando de cobertas..... barriga
Com barriga quente nos deitamos..... serenamente brancos
De verdade, só meus poros suarentos na noite vazia
Estranhas combustões por toda a parte!..... temos fome e provamos
E vamos ao cinema..... depois corremos para casa encharcados de chama
À graça da cama de faz-de-conta
tradução de Ismar Tirelli Neto
796
Ted Berrigan
Soneto 55
“Graça de nascer
e viver tão vário
quanto possível for”
-- Frank O`Hara
Graça de nascer e viver tão vário quanto possível for
Barcos brancos..... margens verdes.....poeira preta..... num tremor
Enormes como as coxas de Anne sobre a página
Enfureço-me numa camisa azul contra uma escrivaninha marrom num
Cômodo claro sustido por uma barrigacheia de comprimidos
“Os Poemas” não são um sonho por todas as coisas que lhes chegaram
Gratuitamente..... na rápida Nova Iorque imaginamos o Charles azul
Patsy desperta no cio e pronta pra briga
Nada de Poemas ela exige num comando de cobertas..... barriga
Com barriga quente nos deitamos..... serenamente brancos
De verdade, só meus poros suarentos na noite vazia
Estranhas combustões por toda a parte!..... temos fome e provamos
E vamos ao cinema..... depois corremos para casa encharcados de chama
À graça da cama de faz-de-conta
tradução de Ismar Tirelli Neto
796
Sandro Penna
Se passa uma beleza que se apressa
Se passa uma beleza que se apressa
não te ensombra a alma não tê-la estreitado.
Voltas o rosto para o verde ocaso.
Numa bicicleta passou a Beleza.
:
Se passa una bellezza che va in fretta
non hai l'anima nera, per non averla stretta.
Tu guardi al cielo verde nella prima
sera. Passata è la Bellezza in bicicletta.
de Croce e delizia (1958)
não te ensombra a alma não tê-la estreitado.
Voltas o rosto para o verde ocaso.
Numa bicicleta passou a Beleza.
:
Se passa una bellezza che va in fretta
non hai l'anima nera, per non averla stretta.
Tu guardi al cielo verde nella prima
sera. Passata è la Bellezza in bicicletta.
de Croce e delizia (1958)
866
Maura Lopes Cançado
O Quadrado de Joana
Marcha completando o pátio, o fim da linha sendo justamente princípio da outra, sem descontinuidade, quebrando-se para o ângulo reto. Não cede um milímetro na posição do corpo, justo, ereto. Porque Joana julga-se absolutamente certa na nova ordem. Assim, anda de frente, o ombro direito junto à parede. Teima em flexionar as pernas, um passo, outro e mais, as solas dos pés quentes através do solado gasto. Agora o rosto sente a quentura do muro, voltado inteiramente, quase roçante – até o fim da linha onde junta ombro esquerdo e marcha de costas na retidão da parede.
Finalmente, acha-se na metade da quarta vez, todo pátio contido no âmbito do olhar parado. Anda certo, costas deslizantes como lâminas, na proteção do seu tempo, o muro. Repete, sentindo a certeza da quarta vez. Mais e mais, porque cumpre um dever.
Quantas vezes Joana marcha rigidamente de ângulo a ângulo?
– Ninguém sabe. Nem Joana.
Vê-se parada, imaginando o quadrado das horas. Isto vem justamente aliviá-la da sensação incômoda de que um corpo redondo ilumina o pátio. Retesa-se, ajustando-se no espaço certo, fora de perigo. Perfeitamente integrada, em forma. Uma pausa completa. Como na pedra. Joana imóvel, quadriculada no pano do vestido, marcando um tempo ainda imarcado, porque novo. Um novo tempo, nascido duro, sofredor. O quadrado das horas.
No meio do pátio, parada, obedecendo a ordem. Não sabe por que, a palavra meio salta-lhe morna, insinuante como uma ameaça remota. Um orifício no muro, meio de fuga.
– Para onde e por quê?
Deve ter ouvido isto. Ela não se desviaria tanto da lógica, mesmo pensando num momento de descuido e a lógica está no quadro. Precisa pensar certo. Joana não pode deixar-se trair. Entretanto, não sabe de régua que lhe permita certificar-se da justeza, da retidão das palavras. Há neste verbo precisar uma sinuosidade que vagamente percebe e isto é uma ameaça. Não poderá admitir contrariando sua posição na vida como verbo poder, neste tempo, fere sua época.
Época de Joana.
Não lhe foi dada ainda uma linguagem adequada e não consegue pensar sem palavras. Sente-se incompleta. Sente-se incompleta, sem os instrumentos necessários.
– Não pensar, em posição de sentido, é a ordem, por enquanto.
E Joana enquadra-se no momento.
Plana – lisa – justa.
Um marco no novo tempo. Cumprido o dever, fortalecida e distanciada das curvas, o pensamento quadrado no ar, quase sólido e o olhar, reto como lâmina sofrendo o impacto, voltando e enquadrando-se nos olhos impossíveis. Joana está certa no plano vertical.
Ela somente compreende o grande significado disto. Imóvel poupando o corpo, principalmente o rosto que sente duro na parte inferior, sustentando o quadro. Não pode mutilar-se na lisura da curva. Não pode perder a forma. Mas a impertinência do seu nome é uma realidade e Joana escuta-o num tom irritado, sentindo-se gelar nos ângulos, pontos vulneráveis. Procura a proteção do novo tempo e sem pensar anda de costas dois passos, sofrendo as modulações das vozes, que como um espelho mostram-se refletidas no corpo de Joana; como um espelho o corpo reflete sem aberturas. Na perfeição do quadro, sente-se sensível ao formigamento que a rodeia. A futilidade das coisas irrita até o muro de pedra. Joana acredita no que é e na certeza do seu tempo.
Entretanto, está só, num quadro ainda infecto de moscas e serpentes ondeadas. Dançam ao seu redor e Joana não tem palavras. Num tempo quadrado, vive-se sem elas na perfeição das coisas, mas a dança dos sons é característica fútil dum subtempo e ela não deve perder-se. Joana teme a roda que ameaçou mostrar-se nos rostos redondos fitando-a. Concentra-se nas linhas certas do seu próprio e vê-se refletida no muro cinzento. Uma nova figura, um destino.
Nasceu, inaugurando um tempo. É o marco da nova época.
Entretanto, um milímetro de desatenção pode levar-lhe os olhos a rotações incalculáveis, catastróficas. Pode até cair numa espiral e, em ascensão, transformar-se num ponto irritante como a cabeça de um alfinete. Luta para manter-se enquadrada na hora, o pensamento liso à espera da forma de expressão: uma nova linguagem. Fugindo das palavras, pensa em números certos, como 44 e 77. Desenha-os mentalmente no muro para a sua sobrevivência, até que estremece na sinuosidade do 60. Ah! Joana não sabe por que, mas o número 60 aproxima-se qual cobrinha traiçoeira. Uma áspide. Também os números têm nome. Figuras sinuosas passeiam no âmbito de sua visão quadrada. Não procura vê-las. Impõem-se impertinentes formando uma quase culpa para Joana que nasceu sem lembranças, porque estas chegariam sinuosas, e isto é outro mundo.
– A pedra não repele os flocos fúteis de neve. Apenas pedra é pedra.
Mas pessoas são como moscas, tentando atrair atenção, fazendo dançar, correr o risco de quebrar-se nas curvas, caindo esfacelada, sem significado. Joana ignora, propositadamente, a curva duma folha banal perto de seus pés. Esqueceu as flores e espera sons rápidos, retos, geométricos para fazer-se entender. Vagamente tem noção das figuras incomodativas, ondeadas de banalidade que tentam atrair-lhe atenção.
– não cede um milímetro para não desmoralizar-se. Deve sobreviver.
Alarmada, sente o suor correr-lhe pela testa, numa linha reta. Uma intermitência, o ponto trazendo-lhe o caos.
– Não, não admito bagas de suor.
Haverá sim, uma linha reta até o solo, subindo imediatamente evaporada. Porque uma pocinha
seria seu afogamento.
Foge do círculo.
– Mas a linha é formada de pontos!
Não no seu tempo, raciocina rápido, quadrando o pensamento.
Joana não pode sentir-se alarmada. O alarma começa de um ponto. Significativo ou consciencioso, atingindo num crescendo o grau de alerta ou alarma?
– Alarma pode surgir como numa tela de cinema, de repente?
Ah! Como faltam instrumentos!
– Joana, saia do pátio, venha para o dormitório.
Muitas danças numa banalidade sônica. Entretanto, escutou quase contorcendo-se. Não pode responder, que não tem ainda meio de expressão. Como fazer pra explicar que está enquadrada num novo tempo? Não pode sequer dar meia volta. Precisa poupar-se, conservando a forma. Entretanto, precisa explicar o que só ela entende. Puseram-na quadrada, certa, objetiva, num tempo novo, forte, mas ameaçado até por flores. Sim, Joana será vencida na curva de um pétala. A palavra beleza, levada a sério, pode desconjuntá-la e nuances, mesmo de cores ou principalmente cores, seriam, a sua perdição. Tenta ainda ignorar os sons inúteis. Mais um pouco e fica livre de pensamentos, na hora quarta do tempo morto. É aí que Joana inveja a estátua imóvel há muitos anos. Não sabe que a estátua perdeu a contagem dos anos. Também com a nova ordem não há concessão. A realidade é o quadrado do pátio ainda cheio de moscas e serpentes ondeadas. A realidade é o perigo de ser levada para cama. A realidade é a pedra.
Joana pode dependurar a hora na parede e acrescentar realidade a isto. Foi feita certa, num tempo certo, num mundo remoto. Haverá a nova língua que a dança dos sons talvez esteja impedindo de se formar. Joana é grande e teme um laço de fita cor de rosa. Não pode ferir-se nas curvas ou deixar-se mutilar.
Está sozinha neste novo tempo. Só ela o conhece e às suas regras. Não deseja nem pode sair dele. Mas nunca poderá deitar-se que isto é cair escombrada num monte. Tenta observar as regras absolutamente certas, mas não compreendidas. Joana está só. Por exemplo: qualquer inclinação será o encontro da curva e Joana não passará deste plano para o horizontal se vergar-se, perdendo-se. Decididamente não pode deitar-se. Antevê-se amassada e, junto a outros ingredientes, aproveitada numa construção.
Será seu destino se for para a cama.
– Sentir os membros distantes, dentes opacos, pé no terceiro andar e a boca no ângulo direito da porta principal.
Os olhos, sim, estes verão as noites enquadradas nos azulejos frente à janela do banheiro.
Sim, porque na melhor das hipóteses, Joana ficará no arranha-céu, mas sem a marcha que ainda lhe é permitida. E nem haverá esperança da nova linguagem, tendo a boca fixa.
Joana não pode, não deixar-se perder.
– Joana.
Movem-se ao seu redor. Sente que alguém quer forçá-la. Joana, sem virar-se, marcha de costas dois passos para sentir-se hirta ainda antes da queda. Não sabe onde estão os olhos teimosos olhando. Sabe-se desmoronada, sem salvação, ferida de morte. Mais que isso, ruída.
Joana ruiu.
Os olhos enfrentam rostos impacientes.
Fica no ar uma palavra nova:
Catatônica.
Joana gostaria de medi-la:
Ca-ta-tô-ni-ca.
Pensa desesperada: será o princípio da nova língua, agora que estou desmoronada?
2 096
Maura Lopes Cançado
O Quadrado de Joana
Marcha completando o pátio, o fim da linha sendo justamente princípio da outra, sem descontinuidade, quebrando-se para o ângulo reto. Não cede um milímetro na posição do corpo, justo, ereto. Porque Joana julga-se absolutamente certa na nova ordem. Assim, anda de frente, o ombro direito junto à parede. Teima em flexionar as pernas, um passo, outro e mais, as solas dos pés quentes através do solado gasto. Agora o rosto sente a quentura do muro, voltado inteiramente, quase roçante – até o fim da linha onde junta ombro esquerdo e marcha de costas na retidão da parede.
Finalmente, acha-se na metade da quarta vez, todo pátio contido no âmbito do olhar parado. Anda certo, costas deslizantes como lâminas, na proteção do seu tempo, o muro. Repete, sentindo a certeza da quarta vez. Mais e mais, porque cumpre um dever.
Quantas vezes Joana marcha rigidamente de ângulo a ângulo?
– Ninguém sabe. Nem Joana.
Vê-se parada, imaginando o quadrado das horas. Isto vem justamente aliviá-la da sensação incômoda de que um corpo redondo ilumina o pátio. Retesa-se, ajustando-se no espaço certo, fora de perigo. Perfeitamente integrada, em forma. Uma pausa completa. Como na pedra. Joana imóvel, quadriculada no pano do vestido, marcando um tempo ainda imarcado, porque novo. Um novo tempo, nascido duro, sofredor. O quadrado das horas.
No meio do pátio, parada, obedecendo a ordem. Não sabe por que, a palavra meio salta-lhe morna, insinuante como uma ameaça remota. Um orifício no muro, meio de fuga.
– Para onde e por quê?
Deve ter ouvido isto. Ela não se desviaria tanto da lógica, mesmo pensando num momento de descuido e a lógica está no quadro. Precisa pensar certo. Joana não pode deixar-se trair. Entretanto, não sabe de régua que lhe permita certificar-se da justeza, da retidão das palavras. Há neste verbo precisar uma sinuosidade que vagamente percebe e isto é uma ameaça. Não poderá admitir contrariando sua posição na vida como verbo poder, neste tempo, fere sua época.
Época de Joana.
Não lhe foi dada ainda uma linguagem adequada e não consegue pensar sem palavras. Sente-se incompleta. Sente-se incompleta, sem os instrumentos necessários.
– Não pensar, em posição de sentido, é a ordem, por enquanto.
E Joana enquadra-se no momento.
Plana – lisa – justa.
Um marco no novo tempo. Cumprido o dever, fortalecida e distanciada das curvas, o pensamento quadrado no ar, quase sólido e o olhar, reto como lâmina sofrendo o impacto, voltando e enquadrando-se nos olhos impossíveis. Joana está certa no plano vertical.
Ela somente compreende o grande significado disto. Imóvel poupando o corpo, principalmente o rosto que sente duro na parte inferior, sustentando o quadro. Não pode mutilar-se na lisura da curva. Não pode perder a forma. Mas a impertinência do seu nome é uma realidade e Joana escuta-o num tom irritado, sentindo-se gelar nos ângulos, pontos vulneráveis. Procura a proteção do novo tempo e sem pensar anda de costas dois passos, sofrendo as modulações das vozes, que como um espelho mostram-se refletidas no corpo de Joana; como um espelho o corpo reflete sem aberturas. Na perfeição do quadro, sente-se sensível ao formigamento que a rodeia. A futilidade das coisas irrita até o muro de pedra. Joana acredita no que é e na certeza do seu tempo.
Entretanto, está só, num quadro ainda infecto de moscas e serpentes ondeadas. Dançam ao seu redor e Joana não tem palavras. Num tempo quadrado, vive-se sem elas na perfeição das coisas, mas a dança dos sons é característica fútil dum subtempo e ela não deve perder-se. Joana teme a roda que ameaçou mostrar-se nos rostos redondos fitando-a. Concentra-se nas linhas certas do seu próprio e vê-se refletida no muro cinzento. Uma nova figura, um destino.
Nasceu, inaugurando um tempo. É o marco da nova época.
Entretanto, um milímetro de desatenção pode levar-lhe os olhos a rotações incalculáveis, catastróficas. Pode até cair numa espiral e, em ascensão, transformar-se num ponto irritante como a cabeça de um alfinete. Luta para manter-se enquadrada na hora, o pensamento liso à espera da forma de expressão: uma nova linguagem. Fugindo das palavras, pensa em números certos, como 44 e 77. Desenha-os mentalmente no muro para a sua sobrevivência, até que estremece na sinuosidade do 60. Ah! Joana não sabe por que, mas o número 60 aproxima-se qual cobrinha traiçoeira. Uma áspide. Também os números têm nome. Figuras sinuosas passeiam no âmbito de sua visão quadrada. Não procura vê-las. Impõem-se impertinentes formando uma quase culpa para Joana que nasceu sem lembranças, porque estas chegariam sinuosas, e isto é outro mundo.
– A pedra não repele os flocos fúteis de neve. Apenas pedra é pedra.
Mas pessoas são como moscas, tentando atrair atenção, fazendo dançar, correr o risco de quebrar-se nas curvas, caindo esfacelada, sem significado. Joana ignora, propositadamente, a curva duma folha banal perto de seus pés. Esqueceu as flores e espera sons rápidos, retos, geométricos para fazer-se entender. Vagamente tem noção das figuras incomodativas, ondeadas de banalidade que tentam atrair-lhe atenção.
– não cede um milímetro para não desmoralizar-se. Deve sobreviver.
Alarmada, sente o suor correr-lhe pela testa, numa linha reta. Uma intermitência, o ponto trazendo-lhe o caos.
– Não, não admito bagas de suor.
Haverá sim, uma linha reta até o solo, subindo imediatamente evaporada. Porque uma pocinha
seria seu afogamento.
Foge do círculo.
– Mas a linha é formada de pontos!
Não no seu tempo, raciocina rápido, quadrando o pensamento.
Joana não pode sentir-se alarmada. O alarma começa de um ponto. Significativo ou consciencioso, atingindo num crescendo o grau de alerta ou alarma?
– Alarma pode surgir como numa tela de cinema, de repente?
Ah! Como faltam instrumentos!
– Joana, saia do pátio, venha para o dormitório.
Muitas danças numa banalidade sônica. Entretanto, escutou quase contorcendo-se. Não pode responder, que não tem ainda meio de expressão. Como fazer pra explicar que está enquadrada num novo tempo? Não pode sequer dar meia volta. Precisa poupar-se, conservando a forma. Entretanto, precisa explicar o que só ela entende. Puseram-na quadrada, certa, objetiva, num tempo novo, forte, mas ameaçado até por flores. Sim, Joana será vencida na curva de um pétala. A palavra beleza, levada a sério, pode desconjuntá-la e nuances, mesmo de cores ou principalmente cores, seriam, a sua perdição. Tenta ainda ignorar os sons inúteis. Mais um pouco e fica livre de pensamentos, na hora quarta do tempo morto. É aí que Joana inveja a estátua imóvel há muitos anos. Não sabe que a estátua perdeu a contagem dos anos. Também com a nova ordem não há concessão. A realidade é o quadrado do pátio ainda cheio de moscas e serpentes ondeadas. A realidade é o perigo de ser levada para cama. A realidade é a pedra.
Joana pode dependurar a hora na parede e acrescentar realidade a isto. Foi feita certa, num tempo certo, num mundo remoto. Haverá a nova língua que a dança dos sons talvez esteja impedindo de se formar. Joana é grande e teme um laço de fita cor de rosa. Não pode ferir-se nas curvas ou deixar-se mutilar.
Está sozinha neste novo tempo. Só ela o conhece e às suas regras. Não deseja nem pode sair dele. Mas nunca poderá deitar-se que isto é cair escombrada num monte. Tenta observar as regras absolutamente certas, mas não compreendidas. Joana está só. Por exemplo: qualquer inclinação será o encontro da curva e Joana não passará deste plano para o horizontal se vergar-se, perdendo-se. Decididamente não pode deitar-se. Antevê-se amassada e, junto a outros ingredientes, aproveitada numa construção.
Será seu destino se for para a cama.
– Sentir os membros distantes, dentes opacos, pé no terceiro andar e a boca no ângulo direito da porta principal.
Os olhos, sim, estes verão as noites enquadradas nos azulejos frente à janela do banheiro.
Sim, porque na melhor das hipóteses, Joana ficará no arranha-céu, mas sem a marcha que ainda lhe é permitida. E nem haverá esperança da nova linguagem, tendo a boca fixa.
Joana não pode, não deixar-se perder.
– Joana.
Movem-se ao seu redor. Sente que alguém quer forçá-la. Joana, sem virar-se, marcha de costas dois passos para sentir-se hirta ainda antes da queda. Não sabe onde estão os olhos teimosos olhando. Sabe-se desmoronada, sem salvação, ferida de morte. Mais que isso, ruída.
Joana ruiu.
Os olhos enfrentam rostos impacientes.
Fica no ar uma palavra nova:
Catatônica.
Joana gostaria de medi-la:
Ca-ta-tô-ni-ca.
Pensa desesperada: será o princípio da nova língua, agora que estou desmoronada?
2 096
Isabel Câmara
Fim (13° volume)
Você me falou
que me mandasse porta afora
Eu vou
Vou com força total
esta porta não é metal
é o nosso mental
transparente
correndo da corrente
que pega gente exigente.
Vou enxugando a alma.
na palma que segura
a espada.
Vou pedindo calma.
que me mandasse porta afora
Eu vou
Vou com força total
esta porta não é metal
é o nosso mental
transparente
correndo da corrente
que pega gente exigente.
Vou enxugando a alma.
na palma que segura
a espada.
Vou pedindo calma.
817
Isabel Câmara
I.
I.
Se por acaso ao cruzar a luz
teu pé não se apegar a mim e o
trespassar em ti a espada
fruto masculino prazer de dolorosa e umbrática sombra
Saiba que por ti
ignorantemente passei sem querer
sem que sequer presumisses
e se supunhas
então era eu o tempo devido
fossem Outroras ou não
quando Aurora
(ah sacra palavra)
Aurora
AURORA
que em inglês também pressupõe pés sujos
de americanos forjadores de matracas...
...não fique aí parado
escoou – foi para baixo e sumiu na Noite
DAWN
E quando todo lógico-poema
não quiser assinalar-se à ponta da escrita
aquieta-te pássaro e força o prazer de pássaro
olhando à revelia o céu
porém ali
sentadinho mas num poleirinho.
II.
Se fosse moça (se moça fora) não teria nome
chamar-se-ia em boa gramática
de escrita antiga apenas Moça.
Só se faria maiúsculo o m de três pernas
que duas já devera de ter por causa dos sustos
e do medo de perder. A terceira perda
a perna terceira
tecera infindável
o recomeço
para o Futuro...
Quanta estranheza senhor Deus
nas orações de dona Rozenda.
Toda Ave-Maria era um coroar-se de rei
e de salve-rainhas a perder de vista
Depois
se por acaso alguém perdesse o dom de Ver
A Visão
até isso era um coroar-se da Vida
933
Isabel Câmara
I.
I.
Se por acaso ao cruzar a luz
teu pé não se apegar a mim e o
trespassar em ti a espada
fruto masculino prazer de dolorosa e umbrática sombra
Saiba que por ti
ignorantemente passei sem querer
sem que sequer presumisses
e se supunhas
então era eu o tempo devido
fossem Outroras ou não
quando Aurora
(ah sacra palavra)
Aurora
AURORA
que em inglês também pressupõe pés sujos
de americanos forjadores de matracas...
...não fique aí parado
escoou – foi para baixo e sumiu na Noite
DAWN
E quando todo lógico-poema
não quiser assinalar-se à ponta da escrita
aquieta-te pássaro e força o prazer de pássaro
olhando à revelia o céu
porém ali
sentadinho mas num poleirinho.
II.
Se fosse moça (se moça fora) não teria nome
chamar-se-ia em boa gramática
de escrita antiga apenas Moça.
Só se faria maiúsculo o m de três pernas
que duas já devera de ter por causa dos sustos
e do medo de perder. A terceira perda
a perna terceira
tecera infindável
o recomeço
para o Futuro...
Quanta estranheza senhor Deus
nas orações de dona Rozenda.
Toda Ave-Maria era um coroar-se de rei
e de salve-rainhas a perder de vista
Depois
se por acaso alguém perdesse o dom de Ver
A Visão
até isso era um coroar-se da Vida
933
Henriqueta Lisboa
É estranho que, após o pranto
É estranho que, após o pranto
vertido em rios sobre os mares,
venha pousar-te no ombro
o pássaro das ilhas, ó náufrago.
É estranho que, depois das trevas
semeadas por sobre as valas,
teus sentidos se adelgacem
diante das clareiras, ó cego.
É estranho que, depois de morto,
rompidos os esteios da alma
e descaminhado o corpo,
homem, tenhas reino mais alto.
deA flor da morte (1949).
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