Poemas neste tema
Vida e Existência
Affonso Ávila
insólito
contato é impudicícia ou carência de tato
gesto que sai do corpo como um salto de gato
suave rude ardil ou busca de gozo
rei dos sentidos empós do amor ou do afeto
sondagem de quem sonhou e argui de fato
a empáfia escondida entre haustos do só
não temer o impacto da astúcia
colher a rosa no ramo propício enquanto é vermelha
e saborear o odor a cor o íntimo calor
é tarde é breve mas intensa de brilho
signo de infinito clamor
que não calou no estamento do tempo
e rói fundo o apetite que resta
via possível na corrosão do palor
e usá-la a furto oculto
imponderada lapela
fim ou princípio
sorte lançada
defasado cupido
gesto que sai do corpo como um salto de gato
suave rude ardil ou busca de gozo
rei dos sentidos empós do amor ou do afeto
sondagem de quem sonhou e argui de fato
a empáfia escondida entre haustos do só
não temer o impacto da astúcia
colher a rosa no ramo propício enquanto é vermelha
e saborear o odor a cor o íntimo calor
é tarde é breve mas intensa de brilho
signo de infinito clamor
que não calou no estamento do tempo
e rói fundo o apetite que resta
via possível na corrosão do palor
e usá-la a furto oculto
imponderada lapela
fim ou princípio
sorte lançada
defasado cupido
1 021
Affonso Ávila
insólito
contato é impudicícia ou carência de tato
gesto que sai do corpo como um salto de gato
suave rude ardil ou busca de gozo
rei dos sentidos empós do amor ou do afeto
sondagem de quem sonhou e argui de fato
a empáfia escondida entre haustos do só
não temer o impacto da astúcia
colher a rosa no ramo propício enquanto é vermelha
e saborear o odor a cor o íntimo calor
é tarde é breve mas intensa de brilho
signo de infinito clamor
que não calou no estamento do tempo
e rói fundo o apetite que resta
via possível na corrosão do palor
e usá-la a furto oculto
imponderada lapela
fim ou princípio
sorte lançada
defasado cupido
gesto que sai do corpo como um salto de gato
suave rude ardil ou busca de gozo
rei dos sentidos empós do amor ou do afeto
sondagem de quem sonhou e argui de fato
a empáfia escondida entre haustos do só
não temer o impacto da astúcia
colher a rosa no ramo propício enquanto é vermelha
e saborear o odor a cor o íntimo calor
é tarde é breve mas intensa de brilho
signo de infinito clamor
que não calou no estamento do tempo
e rói fundo o apetite que resta
via possível na corrosão do palor
e usá-la a furto oculto
imponderada lapela
fim ou princípio
sorte lançada
defasado cupido
1 021
al-Khansa
31.
Filhos de Sulaym! Quando deparardes os homens de Faqas
num lugar estreito e de difícil acesso
Cumprimentai-os com vossos sabres, vossas lanças e uma
saraivada de golpes, na noite negra de alcatrão.
Fazei deles hordas debandadas, à memória de Sakhr, cuja
morte ainda não foi vingada,
E à de nossos cavaleiros, mortos lá embaixo, numa batalha
decidida apenas pelo destino.
Ele enfrentou Rabia no combate, e este lhe mergulhou no
peito
Uma lança reta, de nós flexíveis, de ferro aguçado como a
cabeça de um abutre.
E Rabia, neste mesmo instante, salvou-se, não interrom-
pendo a corrida desvairada.
Um cavalo esbelto e delgado levou-o para longe das lanças
de ferro cortante, como uma águia que abando-
na o ninho
De Khalid nos apoderamos, mas Awf o protegeu e libertou,
por sua própria conta.
Se em relação a Khalid houvessem seguido nosso conselho,
não continuaria ele a infligir tão duro tratamento
aos cavalos, até o fim dos tempos.
332
Boris Vian
Morrerei de um câncer na coluna vertebral
Morrerei de um câncer na coluna vertebral
Será numa noite horrível
Clara, quente, perfumada, sensual
Morrerei de um apodrecimento
De certas células pouco conhecidas
Morrerei de uma perna arrancada
Por um rato gigante surgido de um buraco gigante
Morrerei de cem cortes
O céu terá desabado sobre mim
Estilhaçando-se como um vidro espesso
Morrerei de uma explosão de voz
Perfurando minhas orelhas
Morrerei de feridas silenciosas
Infligidas às duas da madrugada
Por assassinos indecisos e calvos
Morrerei sem perceber
Que morro, morrerei
Sepultado sob as ruínas secas
De mil metros de algodão tombado
Morrerei afogado em óleo de cárter
Espezinhado por imbecis indiferentes
E, logo a seguir, por imbecis diferentes
Morrerei nu, ou vestido com tecido vermelho
Ou costurado num saco com lâminas de barbear
Morrerei quem sabe sem me importar
Com o esmalte nos dedos do pé
E com as mãos cheias de lágrimas
E com as mãos cheias de lágrimas
Morrerei quando descolarem
Minhas pálpebras sob um sol raivoso
Quando me disserem lentamente
Maldades ao ouvido
Morrerei de ver torturar crianças
E homens pasmos e pálidos
Morrerei roído vivo
Por vermes, morrerei as
Mãos amarradas sob uma cascata
Morrerei queimado num incêndio triste
Morrerei um pouco, muito,
Sem paixão, mas com interesse
E quando tudo estiver acabado
Morrerei.
:
Je mourrai d´un cancer de la colonne vertébrale
Je mourrai d’un cancer de la colonne vertébrale
Ça sera par un soir horrible
Clair, chaud, parfumé, sensuel
Je mourrai d’un pourrissement
De certaines cellules peu connues
Je mourrai d’une jambe arrachée
Par un rat géant jailli d’un trou géant
Je mourrai de cent coupures
Le ciel sera tombé sur moi
Ça se brise comme une vitre lourde
Je mourrai d’un éclat de voix
Crevant mes oreilles
Je mourrai de blessures sourdes
Infligées à deux heures du matin
Par des tueurs indécis et chauves
Je mourrai sans m’apercevoir
Que je meurs, je mourrai
Enseveli sous les ruines sèches
De mille mètres de coton écroulé
Je mourrai noyé dans l’huille de vidange
Foulé aux pieds par des bêtes indifférentes
Et, juste après, par des bêtes différentes
Je mourrai nu, ou vêtu de toile rouge
Ou cousu dans un sac avec des lames de rasoir
Je mourrai peut-être sans m’en faire
Du vernis à ongles aux doigts de pied
Et des larmes plein les mains
Et des larmes plein les mains
Je mourrai quand on décollera
Mes paupières sous un soleil enragé
Quand on me dira lentement
Des méchancetés à l’oreille
Je mourrai de voir torturer des enfants
Et des hommes étonnés et blêmes
Je mourrai rongé vivant
Par des vers, je mourrai les
Mains attachées sous une cascade
Je mourrai brûlé dans un incendie triste
Je mourrai un peu, beaucoup,
Sans passion, mais avec intérêt
Et puis quand tout sera fini
Je mourrai.
Será numa noite horrível
Clara, quente, perfumada, sensual
Morrerei de um apodrecimento
De certas células pouco conhecidas
Morrerei de uma perna arrancada
Por um rato gigante surgido de um buraco gigante
Morrerei de cem cortes
O céu terá desabado sobre mim
Estilhaçando-se como um vidro espesso
Morrerei de uma explosão de voz
Perfurando minhas orelhas
Morrerei de feridas silenciosas
Infligidas às duas da madrugada
Por assassinos indecisos e calvos
Morrerei sem perceber
Que morro, morrerei
Sepultado sob as ruínas secas
De mil metros de algodão tombado
Morrerei afogado em óleo de cárter
Espezinhado por imbecis indiferentes
E, logo a seguir, por imbecis diferentes
Morrerei nu, ou vestido com tecido vermelho
Ou costurado num saco com lâminas de barbear
Morrerei quem sabe sem me importar
Com o esmalte nos dedos do pé
E com as mãos cheias de lágrimas
E com as mãos cheias de lágrimas
Morrerei quando descolarem
Minhas pálpebras sob um sol raivoso
Quando me disserem lentamente
Maldades ao ouvido
Morrerei de ver torturar crianças
E homens pasmos e pálidos
Morrerei roído vivo
Por vermes, morrerei as
Mãos amarradas sob uma cascata
Morrerei queimado num incêndio triste
Morrerei um pouco, muito,
Sem paixão, mas com interesse
E quando tudo estiver acabado
Morrerei.
:
Je mourrai d´un cancer de la colonne vertébrale
Je mourrai d’un cancer de la colonne vertébrale
Ça sera par un soir horrible
Clair, chaud, parfumé, sensuel
Je mourrai d’un pourrissement
De certaines cellules peu connues
Je mourrai d’une jambe arrachée
Par un rat géant jailli d’un trou géant
Je mourrai de cent coupures
Le ciel sera tombé sur moi
Ça se brise comme une vitre lourde
Je mourrai d’un éclat de voix
Crevant mes oreilles
Je mourrai de blessures sourdes
Infligées à deux heures du matin
Par des tueurs indécis et chauves
Je mourrai sans m’apercevoir
Que je meurs, je mourrai
Enseveli sous les ruines sèches
De mille mètres de coton écroulé
Je mourrai noyé dans l’huille de vidange
Foulé aux pieds par des bêtes indifférentes
Et, juste après, par des bêtes différentes
Je mourrai nu, ou vêtu de toile rouge
Ou cousu dans un sac avec des lames de rasoir
Je mourrai peut-être sans m’en faire
Du vernis à ongles aux doigts de pied
Et des larmes plein les mains
Et des larmes plein les mains
Je mourrai quand on décollera
Mes paupières sous un soleil enragé
Quand on me dira lentement
Des méchancetés à l’oreille
Je mourrai de voir torturer des enfants
Et des hommes étonnés et blêmes
Je mourrai rongé vivant
Par des vers, je mourrai les
Mains attachées sous une cascade
Je mourrai brûlé dans un incendie triste
Je mourrai un peu, beaucoup,
Sans passion, mais avec intérêt
Et puis quand tout sera fini
Je mourrai.
2 802
Alfred Starr Hamilton
Galeria Janeiro
Você disse hoje?
Você disse amanhã
Ou o próximo dia, ou o dia seguinte?
Você disse uma foto na Galeria Janeiro?
Você disse um olho de vidro para seu espelho
Para um pé torto para uma moita no bosque invernal?
Por um pouco de lavanda que o encara de volta
Hoje e amanhã, e nos dias seguintes.
:
January Gallery
Did you say today?
Did you say tomorrow
Or the next day, or the day afterwards?
Did you say a picture at a January Gallery?
Did you say a glass eye for your mirror
For a club foot for a clump of wintery woods?
For a little lavender that stares back at you
Today and tomorrow, and days afterwards.
575
En Hedu'anna
Inanna e a Essência Divina
Senhora de toda essência, luz plena,
mulher generosa vestida em radiância,
amada pelo céu e pela terra,
amiga templária de An,
tu vestes grandes ornamentos,
tu desejas a tiara da alta sacerdotisa
cujas mãos tomam as sete essências.
Oh minha Senhora, guardiã de toda essência,
tu as colheste e penduraste
nas mãos.
Tu recolheras as essências sagradas e as vestiste
tesas em teus seios.
1 098
En Hedu'anna
Inanna e a Essência Divina
Senhora de toda essência, luz plena,
mulher generosa vestida em radiância,
amada pelo céu e pela terra,
amiga templária de An,
tu vestes grandes ornamentos,
tu desejas a tiara da alta sacerdotisa
cujas mãos tomam as sete essências.
Oh minha Senhora, guardiã de toda essência,
tu as colheste e penduraste
nas mãos.
Tu recolheras as essências sagradas e as vestiste
tesas em teus seios.
1 098
Affonso Ávila
gaia ciência
sábio círculo em torno do nada
do além do aquém
de que é que de quem é quem
lição de cor do ardor do amor
signo perseguido em guia de dor
manifesta confusa desvairada
desvario ou alegria de trâmite curtido
palavra de real gozo de conceituai
léxico anverso controverso
capturado mel da defensiva abelha em sua colmeia
dispersivo pescar na convulsão da ideia
rio de acima de abaixo confluência de águas
e quem mais o quis menos o teve
breve perene sempiterno
nascente de prazer ou de frágua
o que ficou desse riso siso
retórico ressaibo
do além do aquém
de que é que de quem é quem
lição de cor do ardor do amor
signo perseguido em guia de dor
manifesta confusa desvairada
desvario ou alegria de trâmite curtido
palavra de real gozo de conceituai
léxico anverso controverso
capturado mel da defensiva abelha em sua colmeia
dispersivo pescar na convulsão da ideia
rio de acima de abaixo confluência de águas
e quem mais o quis menos o teve
breve perene sempiterno
nascente de prazer ou de frágua
o que ficou desse riso siso
retórico ressaibo
1 037
Sandro Penna
Juventude, amor, belas palavras,
Juventude, amor, belas palavras,
que coisa brilha em vós e vos resseca?
Resta apenas um odor de merda seca
ao longo do caminho ensolarado.
:
Amore, gioventù, liete parole,
cosa splende su voi e vi dissecca?
Resta un odore come merda secca
lungo le siepe cariche di sole.
de Croce e delizia (1958)
que coisa brilha em vós e vos resseca?
Resta apenas um odor de merda seca
ao longo do caminho ensolarado.
:
Amore, gioventù, liete parole,
cosa splende su voi e vi dissecca?
Resta un odore come merda secca
lungo le siepe cariche di sole.
de Croce e delizia (1958)
993
Sandro Penna
Juventude, amor, belas palavras,
Juventude, amor, belas palavras,
que coisa brilha em vós e vos resseca?
Resta apenas um odor de merda seca
ao longo do caminho ensolarado.
:
Amore, gioventù, liete parole,
cosa splende su voi e vi dissecca?
Resta un odore come merda secca
lungo le siepe cariche di sole.
de Croce e delizia (1958)
que coisa brilha em vós e vos resseca?
Resta apenas um odor de merda seca
ao longo do caminho ensolarado.
:
Amore, gioventù, liete parole,
cosa splende su voi e vi dissecca?
Resta un odore come merda secca
lungo le siepe cariche di sole.
de Croce e delizia (1958)
993
Yannis Ritsos
Coisas simples e incompreensíveis
Nada de novo — repete ele. Os homens matam-se ou morrem,
sobretudo envelhecem, envelhecem, envelhecem — os dentes,
os cabelos, as mãos, os espelhos.
Aquele vidro do candeeiro, quebrado — foi consertado com um jornal.
E o pior de tudo: quando aprendes que algo vale a pena, já passou.
Então se faz uma grande serenidade. Chega o verão. As árvores
são altas e verdes — muito provocantes. As cigarras cantam.
À tardinha, as montanhas azulecem. Lá de cima descem
homens obscuros. Coxeiam ladeira abaixo (fingem que coxeiam).
Lançam cães mortos ao rio, e depois, muito tristes e como que irritados
dobram os sacos de linho, coçam os testículos e olham a lua
na água. Somente essa coisa inexplicável:
fingirem-se de coxos, sem que ninguém esteja a vê-los.
sobretudo envelhecem, envelhecem, envelhecem — os dentes,
os cabelos, as mãos, os espelhos.
Aquele vidro do candeeiro, quebrado — foi consertado com um jornal.
E o pior de tudo: quando aprendes que algo vale a pena, já passou.
Então se faz uma grande serenidade. Chega o verão. As árvores
são altas e verdes — muito provocantes. As cigarras cantam.
À tardinha, as montanhas azulecem. Lá de cima descem
homens obscuros. Coxeiam ladeira abaixo (fingem que coxeiam).
Lançam cães mortos ao rio, e depois, muito tristes e como que irritados
dobram os sacos de linho, coçam os testículos e olham a lua
na água. Somente essa coisa inexplicável:
fingirem-se de coxos, sem que ninguém esteja a vê-los.
1 079
Yannis Ritsos
Coisas simples e incompreensíveis
Nada de novo — repete ele. Os homens matam-se ou morrem,
sobretudo envelhecem, envelhecem, envelhecem — os dentes,
os cabelos, as mãos, os espelhos.
Aquele vidro do candeeiro, quebrado — foi consertado com um jornal.
E o pior de tudo: quando aprendes que algo vale a pena, já passou.
Então se faz uma grande serenidade. Chega o verão. As árvores
são altas e verdes — muito provocantes. As cigarras cantam.
À tardinha, as montanhas azulecem. Lá de cima descem
homens obscuros. Coxeiam ladeira abaixo (fingem que coxeiam).
Lançam cães mortos ao rio, e depois, muito tristes e como que irritados
dobram os sacos de linho, coçam os testículos e olham a lua
na água. Somente essa coisa inexplicável:
fingirem-se de coxos, sem que ninguém esteja a vê-los.
sobretudo envelhecem, envelhecem, envelhecem — os dentes,
os cabelos, as mãos, os espelhos.
Aquele vidro do candeeiro, quebrado — foi consertado com um jornal.
E o pior de tudo: quando aprendes que algo vale a pena, já passou.
Então se faz uma grande serenidade. Chega o verão. As árvores
são altas e verdes — muito provocantes. As cigarras cantam.
À tardinha, as montanhas azulecem. Lá de cima descem
homens obscuros. Coxeiam ladeira abaixo (fingem que coxeiam).
Lançam cães mortos ao rio, e depois, muito tristes e como que irritados
dobram os sacos de linho, coçam os testículos e olham a lua
na água. Somente essa coisa inexplicável:
fingirem-se de coxos, sem que ninguém esteja a vê-los.
1 079
Yannis Ritsos
Versos na tarde
A escrivaninha negra com entalhes,
os dois candelabros de prata, o cachimbo vermelho.
Está sentado, quase invisível, na poltrona, com a janela sempre às suas costas.
Por detrás dos óculos, enormes e cautos, observa o interlocutor à luz intensa,
ele próprio oculto dentro de suas palavras, dentro da História,
com personagens seus, distantes, invulneráveis,
capturando a atenção dos outros nos delicados revérberos
da safira que traz num dedo, e alerta sempre para saborear-lhes as
expressões, nos momentos em que os tolos efebos
umedecem os lábios com a língua, admirativamente. E ele,
astuto, sôfrego, sensual, o grande inocente,
entre o sim e o não, entre o desejo e o remorso,
qual balança na mão de um deus, ele oscila por inteiro,
enquanto a luz da janela atrás lhe põe na cabeça
uma coroa de absolvição e santidade.
“Se a poesia não for a remissão – murmura a sós consigo -
não esperemos então misericórdia de ninguém”.
(tradução de José Paulo Paes)
os dois candelabros de prata, o cachimbo vermelho.
Está sentado, quase invisível, na poltrona, com a janela sempre às suas costas.
Por detrás dos óculos, enormes e cautos, observa o interlocutor à luz intensa,
ele próprio oculto dentro de suas palavras, dentro da História,
com personagens seus, distantes, invulneráveis,
capturando a atenção dos outros nos delicados revérberos
da safira que traz num dedo, e alerta sempre para saborear-lhes as
expressões, nos momentos em que os tolos efebos
umedecem os lábios com a língua, admirativamente. E ele,
astuto, sôfrego, sensual, o grande inocente,
entre o sim e o não, entre o desejo e o remorso,
qual balança na mão de um deus, ele oscila por inteiro,
enquanto a luz da janela atrás lhe põe na cabeça
uma coroa de absolvição e santidade.
“Se a poesia não for a remissão – murmura a sós consigo -
não esperemos então misericórdia de ninguém”.
(tradução de José Paulo Paes)
995
Kenneth Rexroth
Sobrevivência do mais forte
Me dou conta
Quando alcanço o lago
A treze mil pés –
Não sei onde você está.
Já se vão anos desde que
Casamos e tivemos filhos
Por pessoas que sequer
Conhecíamos naqueles dias.
Mas eu ainda pesco peixes com anzóis
Feitos com os teus pentelhos loiros.
SURVIVAL OF THE FITTEST
I realize as I
Cast out over the lake
At thirteen thousand feet –
I don’t know where you are.
It has been years since we
Married and had children
By people neither of
Us knew in the old days.
But I still catch fish with flies
Made from your blonde pubic hair.
Quando alcanço o lago
A treze mil pés –
Não sei onde você está.
Já se vão anos desde que
Casamos e tivemos filhos
Por pessoas que sequer
Conhecíamos naqueles dias.
Mas eu ainda pesco peixes com anzóis
Feitos com os teus pentelhos loiros.
SURVIVAL OF THE FITTEST
I realize as I
Cast out over the lake
At thirteen thousand feet –
I don’t know where you are.
It has been years since we
Married and had children
By people neither of
Us knew in the old days.
But I still catch fish with flies
Made from your blonde pubic hair.
829
Kenneth Rexroth
Sobrevivência do mais forte
Me dou conta
Quando alcanço o lago
A treze mil pés –
Não sei onde você está.
Já se vão anos desde que
Casamos e tivemos filhos
Por pessoas que sequer
Conhecíamos naqueles dias.
Mas eu ainda pesco peixes com anzóis
Feitos com os teus pentelhos loiros.
SURVIVAL OF THE FITTEST
I realize as I
Cast out over the lake
At thirteen thousand feet –
I don’t know where you are.
It has been years since we
Married and had children
By people neither of
Us knew in the old days.
But I still catch fish with flies
Made from your blonde pubic hair.
Quando alcanço o lago
A treze mil pés –
Não sei onde você está.
Já se vão anos desde que
Casamos e tivemos filhos
Por pessoas que sequer
Conhecíamos naqueles dias.
Mas eu ainda pesco peixes com anzóis
Feitos com os teus pentelhos loiros.
SURVIVAL OF THE FITTEST
I realize as I
Cast out over the lake
At thirteen thousand feet –
I don’t know where you are.
It has been years since we
Married and had children
By people neither of
Us knew in the old days.
But I still catch fish with flies
Made from your blonde pubic hair.
829
Isabel Câmara
Cartilha
VOGAIS
A E I O U
a e i o u
Consoantes
B C D F G H J L M N P Q R S T V X Z
b c d f g h j l m n p q r s t v x z
A grande é Maiúsculo
A é vogal maiúscula
A maiúsculo se escreve após um ponto final (.) uma interrogação (?) uma afirmação (!)
E os nomes das pessoas devem começar com letra maiúscula.
Aquela menina é tua irmã?
Não. Aquela menina é minha amiga.
Eu sou a amiga da amiga.
Eu sou o amigo do amigo.
Eu sou amiga das amigas e dos amigos.
Aprendo a escrever.
Aprendo a perguntar: o que é ser Amigo?
Ia procurando a estrada. Era durante o dia.
Dia e meio já eram.
Era meio-dia e parecia mais.
Ia me escondendo, sol forte castiga.
Dia e meio é mais que meio dia.
Dia e meio são dois dias mais doze horas.
{Aqui existe erro. Você sabe dizer qual?}
Era manhã e eu ia só, sozinha pela estrada. Estrada longa.
Difícil. Outra pessoa apareceu.
Outros amigos vieram chegando.
Éramos amigos, pessoas, colegas caminhando pela longa estrada.
Uns brincavam, outros caminhavam sérios, pensativos,
até tristes. Seria fome? Seria medo?
Seria o Negrinho do Pastoreio no vento que embalava tanto silêncio?
A Escola já estava a meio caminho andado.
O outro caminho todos ainda havíamos de aprender.
Tem um aluno novo que é loiro. O outro é uma menina
bem pretinha de alumiar.
As duas crianças vão de braços dados.
Às vezes comem separadas.
O sol brinca no carrapincho de um e faz contraste com o
cabelo lourinho do outro. É bom de se olhar. Aprende-se
muito com o olhar.
Se a Escola ficasse mais perto das nossas casas, a gente
sentia menos fome, menos preguiça e até menos medo,
feito aquele menino do vento cujo vento era amigo do
Negrinho do Pastoreio.
A professora também mora longe.
Quando não vem de carroça, de charrete, tem coragem até
para os solavancos do carro de bois.
Por hoje é só.
Resposta:
Dia e meio são doze horas mais seis horas. São 12 + 6 = 18 horas.
18horas são as seis da tarde. Hora da Ave Maria.
Para escrever a gente pode começar assim:
Se esforçando na Caligrafia.
Ia me esquecendo de um relato:
B-b- de Belezura de belezura.
Beleza longamente. Sem hora.
Formosura. Sem usura. Sem avarícia ou indecência do olhar.
Beleza que dura, que permanece, guardadinha na gaveta
verde de alguma árvore da longa estrada.
Belezura é aprendizado de Liberdade. É a beleza da forma.
Por isso é complicado definir.
Eu vi duas amigas. Pareciam mais duas aves benzendo
a terra árida. Benedita saltava sobre brejos secos onde muitas
vezes se banhou.
Branca fitava os seixos, serena.
Branca a Benedita. Belezuras. Formosuras.
Um dia começou a chover.
Então a terra-mundo adormeceu feliz.
.
.
.
A E I O U
a e i o u
Consoantes
B C D F G H J L M N P Q R S T V X Z
b c d f g h j l m n p q r s t v x z
A grande é Maiúsculo
A é vogal maiúscula
A maiúsculo se escreve após um ponto final (.) uma interrogação (?) uma afirmação (!)
E os nomes das pessoas devem começar com letra maiúscula.
Aquela menina é tua irmã?
Não. Aquela menina é minha amiga.
Eu sou a amiga da amiga.
Eu sou o amigo do amigo.
Eu sou amiga das amigas e dos amigos.
Aprendo a escrever.
Aprendo a perguntar: o que é ser Amigo?
Ia procurando a estrada. Era durante o dia.
Dia e meio já eram.
Era meio-dia e parecia mais.
Ia me escondendo, sol forte castiga.
Dia e meio é mais que meio dia.
Dia e meio são dois dias mais doze horas.
{Aqui existe erro. Você sabe dizer qual?}
Era manhã e eu ia só, sozinha pela estrada. Estrada longa.
Difícil. Outra pessoa apareceu.
Outros amigos vieram chegando.
Éramos amigos, pessoas, colegas caminhando pela longa estrada.
Uns brincavam, outros caminhavam sérios, pensativos,
até tristes. Seria fome? Seria medo?
Seria o Negrinho do Pastoreio no vento que embalava tanto silêncio?
A Escola já estava a meio caminho andado.
O outro caminho todos ainda havíamos de aprender.
Tem um aluno novo que é loiro. O outro é uma menina
bem pretinha de alumiar.
As duas crianças vão de braços dados.
Às vezes comem separadas.
O sol brinca no carrapincho de um e faz contraste com o
cabelo lourinho do outro. É bom de se olhar. Aprende-se
muito com o olhar.
Se a Escola ficasse mais perto das nossas casas, a gente
sentia menos fome, menos preguiça e até menos medo,
feito aquele menino do vento cujo vento era amigo do
Negrinho do Pastoreio.
A professora também mora longe.
Quando não vem de carroça, de charrete, tem coragem até
para os solavancos do carro de bois.
Por hoje é só.
Resposta:
Dia e meio são doze horas mais seis horas. São 12 + 6 = 18 horas.
18horas são as seis da tarde. Hora da Ave Maria.
Para escrever a gente pode começar assim:
Se esforçando na Caligrafia.
Ia me esquecendo de um relato:
B-b- de Belezura de belezura.
Beleza longamente. Sem hora.
Formosura. Sem usura. Sem avarícia ou indecência do olhar.
Beleza que dura, que permanece, guardadinha na gaveta
verde de alguma árvore da longa estrada.
Belezura é aprendizado de Liberdade. É a beleza da forma.
Por isso é complicado definir.
Eu vi duas amigas. Pareciam mais duas aves benzendo
a terra árida. Benedita saltava sobre brejos secos onde muitas
vezes se banhou.
Branca fitava os seixos, serena.
Branca a Benedita. Belezuras. Formosuras.
Um dia começou a chover.
Então a terra-mundo adormeceu feliz.
.
.
.
996
Paulo Leminski
a gente ia ser homero
um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada
depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um eluárd um ginsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada
depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um eluárd um ginsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores
3 791
Paulo Leminski
a gente ia ser homero
um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada
depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um eluárd um ginsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada
depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um eluárd um ginsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores
3 791
Guillermo Fernández
Discurso em homenagem a Heráclito
I
Tudo preenche o instante
que virá
que passa
que passou
II
Cogito, ergo, fuit
III
Ninguém se banha duas vezes
em algo que foi um rio
IV
Vamos fazer amor
nesta cama
encontraremos
ainda frouxos
nossos cadáveres
V
Deixem que as crianças
lancem a primeira pedra
porque dos velhos
foi o reino dos céus
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Discurso en homenaje a Heráclito
Guillermo Fernández
I
Todo lo llena el instante
que vendrá
que pasa
que pasó
II
Cogito, ergo, fuit
III
Nadie se baña dos veces
en algo que fue un río
IV
Hagamos el amor
en esta cama
encontraremos
tibios aún
nuestros cadáveres
V
Dejad que los niños
arrojen la primera piedra
porque de los ancianos fue
el reino de los cielos
.
.
.
592
Guillermo Fernández
Discurso em homenagem a Heráclito
I
Tudo preenche o instante
que virá
que passa
que passou
II
Cogito, ergo, fuit
III
Ninguém se banha duas vezes
em algo que foi um rio
IV
Vamos fazer amor
nesta cama
encontraremos
ainda frouxos
nossos cadáveres
V
Deixem que as crianças
lancem a primeira pedra
porque dos velhos
foi o reino dos céus
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Discurso en homenaje a Heráclito
Guillermo Fernández
I
Todo lo llena el instante
que vendrá
que pasa
que pasó
II
Cogito, ergo, fuit
III
Nadie se baña dos veces
en algo que fue un río
IV
Hagamos el amor
en esta cama
encontraremos
tibios aún
nuestros cadáveres
V
Dejad que los niños
arrojen la primera piedra
porque de los ancianos fue
el reino de los cielos
.
.
.
592
Guillermo Fernández
Discurso em homenagem a Heráclito
I
Tudo preenche o instante
que virá
que passa
que passou
II
Cogito, ergo, fuit
III
Ninguém se banha duas vezes
em algo que foi um rio
IV
Vamos fazer amor
nesta cama
encontraremos
ainda frouxos
nossos cadáveres
V
Deixem que as crianças
lancem a primeira pedra
porque dos velhos
foi o reino dos céus
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Discurso en homenaje a Heráclito
Guillermo Fernández
I
Todo lo llena el instante
que vendrá
que pasa
que pasó
II
Cogito, ergo, fuit
III
Nadie se baña dos veces
en algo que fue un río
IV
Hagamos el amor
en esta cama
encontraremos
tibios aún
nuestros cadáveres
V
Dejad que los niños
arrojen la primera piedra
porque de los ancianos fue
el reino de los cielos
.
.
.
592
Guillermo Fernández
Discurso em homenagem a Heráclito
I
Tudo preenche o instante
que virá
que passa
que passou
II
Cogito, ergo, fuit
III
Ninguém se banha duas vezes
em algo que foi um rio
IV
Vamos fazer amor
nesta cama
encontraremos
ainda frouxos
nossos cadáveres
V
Deixem que as crianças
lancem a primeira pedra
porque dos velhos
foi o reino dos céus
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Discurso en homenaje a Heráclito
Guillermo Fernández
I
Todo lo llena el instante
que vendrá
que pasa
que pasó
II
Cogito, ergo, fuit
III
Nadie se baña dos veces
en algo que fue un río
IV
Hagamos el amor
en esta cama
encontraremos
tibios aún
nuestros cadáveres
V
Dejad que los niños
arrojen la primera piedra
porque de los ancianos fue
el reino de los cielos
.
.
.
592
Guillermo Fernández
Discurso em homenagem a Heráclito
I
Tudo preenche o instante
que virá
que passa
que passou
II
Cogito, ergo, fuit
III
Ninguém se banha duas vezes
em algo que foi um rio
IV
Vamos fazer amor
nesta cama
encontraremos
ainda frouxos
nossos cadáveres
V
Deixem que as crianças
lancem a primeira pedra
porque dos velhos
foi o reino dos céus
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Discurso en homenaje a Heráclito
Guillermo Fernández
I
Todo lo llena el instante
que vendrá
que pasa
que pasó
II
Cogito, ergo, fuit
III
Nadie se baña dos veces
en algo que fue un río
IV
Hagamos el amor
en esta cama
encontraremos
tibios aún
nuestros cadáveres
V
Dejad que los niños
arrojen la primera piedra
porque de los ancianos fue
el reino de los cielos
.
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592
Meridel Le Sueur
Oferece-me refúgio
Meu povo da campina é meu lar
Pássaro eu volto em voo a seus seios.
Fluindo para fora de todo espaço em exílio
Elas oferecem-me refúgio
Para morrer e ressuscitar em sua
floração sazonal.
Meu alimento seus seios
ordenhados pelo vento
para dentro de minha faminta boca urbana.
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Offer me refuge
My prairie people are my home
Bird I return flying to their breasts.
Waving out of all exiled space
They offer me refuge
To die and be resurrected in their
seasonal flowering.
My food their breasts
milked by wind
Into my starving city mouth.
.
.
.
368