Poemas neste tema
Vida e Existência
Paulo Augusto Rodrigues
Choro
Revendo as mesmas velhas fotos,
Relendo as mesmas lindas cartas,
Revivendo cada instante,
Cada detalhe.
Alguém canta na vitrola
Aquelas músicas esquecidas.
Ingenuidade perdida.
Neste momento de tristeza
Lembranças são troncos na água,
Me salvando a vida.
Impedindo que me afogue,
Nas correntezas e abismos
Que sobressaem neste dia.
O peso vem de fora,
Mas a força para suportá-lo
Esgota energias interiores.
Já não sinto meus membros...
As recordações voam sobre minha cabeça,
Se vão a garra e o ardor.
O tronco se afasta mais e mais,
As águas me engolem com ânsia.
Afundo...
E sinto que lá no fundo,
Choro.
Relendo as mesmas lindas cartas,
Revivendo cada instante,
Cada detalhe.
Alguém canta na vitrola
Aquelas músicas esquecidas.
Ingenuidade perdida.
Neste momento de tristeza
Lembranças são troncos na água,
Me salvando a vida.
Impedindo que me afogue,
Nas correntezas e abismos
Que sobressaem neste dia.
O peso vem de fora,
Mas a força para suportá-lo
Esgota energias interiores.
Já não sinto meus membros...
As recordações voam sobre minha cabeça,
Se vão a garra e o ardor.
O tronco se afasta mais e mais,
As águas me engolem com ânsia.
Afundo...
E sinto que lá no fundo,
Choro.
876
Paulo Augusto Rodrigues
Diamante
Me assustam as crenças.
O sentimento da certeza
Espanta e
Esconde
Sementes idéias.
Muito me assustam as crenças.
As facetas,
Íntimas,
Se perdem
Ante a grandeza da pedra.
Difícil,
Ver por tantos ângulos,
Quando a gema por si
Ofusca minúcias,
Oculta detalhes,
E esmaga,
Tamanha beleza,
Pequenas verdades.
O sentimento da certeza
Espanta e
Esconde
Sementes idéias.
Muito me assustam as crenças.
As facetas,
Íntimas,
Se perdem
Ante a grandeza da pedra.
Difícil,
Ver por tantos ângulos,
Quando a gema por si
Ofusca minúcias,
Oculta detalhes,
E esmaga,
Tamanha beleza,
Pequenas verdades.
921
Romulo Gouvêa
Nossas bocas
Nossas bocas são portas
onde há fluxo e refluxo
por onde passa tudo.
Passa paixão
passa amor
passam sentimentos e carinhos.
Por elas passa o mar
passam os rios
passam todos os caminhos.
Por elas só não passa o tempo.
Elas têm a mesma temperatura,
mesmo calor, mesma ternura.
São de mesma estrutura.
Nossas bocas, neste beijo, são portas
portas abertas
por onde passam nossas descobertas.
onde há fluxo e refluxo
por onde passa tudo.
Passa paixão
passa amor
passam sentimentos e carinhos.
Por elas passa o mar
passam os rios
passam todos os caminhos.
Por elas só não passa o tempo.
Elas têm a mesma temperatura,
mesmo calor, mesma ternura.
São de mesma estrutura.
Nossas bocas, neste beijo, são portas
portas abertas
por onde passam nossas descobertas.
975
Renata Pallottini
O Pão Amargo
"Ela foi sentar-se em frente dele a boa distância,
como a de um tiro de arco;
pois disse:
que não veja eu a morte do menino.
Sentada em frente dele,
levantou sua voz e chorou."
Gênesis, 21:16
O pão amargo e a água consumada
do odre seco em cáustico deserto;
sob o mirrado arbusto a esquiva sombra
se nega pela areia e é como um rastro.
Sem planta fresca, a fruta apetecida
traz a longínqua fixação do incerto;
quando a brasa arenosa for alfombra
tornar-se-á carícia o fogo do astro.
Para a criança adormecida ao braço
o olhar alonga, e faz como se fosse
para nos olhos tê-la, traço a traço.
Lembrando a noite aquela e a face gêmea
que lhe roçara a face em mágoa doce,
a escrava chora a condição de fêmea.
como a de um tiro de arco;
pois disse:
que não veja eu a morte do menino.
Sentada em frente dele,
levantou sua voz e chorou."
Gênesis, 21:16
O pão amargo e a água consumada
do odre seco em cáustico deserto;
sob o mirrado arbusto a esquiva sombra
se nega pela areia e é como um rastro.
Sem planta fresca, a fruta apetecida
traz a longínqua fixação do incerto;
quando a brasa arenosa for alfombra
tornar-se-á carícia o fogo do astro.
Para a criança adormecida ao braço
o olhar alonga, e faz como se fosse
para nos olhos tê-la, traço a traço.
Lembrando a noite aquela e a face gêmea
que lhe roçara a face em mágoa doce,
a escrava chora a condição de fêmea.
1 617
Romulo Gouvêa
Abstração
Há determinados momentos
em que penso em você.
Passo o tempo, divago,
montando os teus pedaços.
Recorto lembranças,
brinco com peças
de fácil encaixe
que se misturam e se separam.
Logo que te resgato
perco o foco da visão.
Busco o teu cheiro
no canto das minhas unhas.
Uso teus beijos, apelos, mensagens
teus ditos, segredos, olhares.
Uso tua boca, teus olhos
num sorriso.
Em determinados momentos
há um pensamento em você.
O tempo passa, monto teu retrato
com este material abstrato.
em que penso em você.
Passo o tempo, divago,
montando os teus pedaços.
Recorto lembranças,
brinco com peças
de fácil encaixe
que se misturam e se separam.
Logo que te resgato
perco o foco da visão.
Busco o teu cheiro
no canto das minhas unhas.
Uso teus beijos, apelos, mensagens
teus ditos, segredos, olhares.
Uso tua boca, teus olhos
num sorriso.
Em determinados momentos
há um pensamento em você.
O tempo passa, monto teu retrato
com este material abstrato.
916
Renata Pallottini
O Cântaro
"Então, Jacó beijou Raquel e,
levantando a voz,
chorou."
Gênesis, 20: l l
O cântaro poreja a água amena
que do poço brotou, e adoça a areia
e que corre nos ombros, e que enleia
pelas espáduas seu frescor moreno.
O lácteo manto que uma brisa ondeia
desenha formas, cujo talho apenas
a tamareira imita, a flor receia,
o vento afaga e a solidão serena.
Vê-la é um momento, desejá-la um sopro,
ouvir-lhe a voz uma doçura eleita,
roçar-lhe a fronte uma revelação.
O amante, incertas mãos, trêmulo corpo,
beija-lhe os olhos, cuja flor desfeita
catorze anos de vida pagarão.
levantando a voz,
chorou."
Gênesis, 20: l l
O cântaro poreja a água amena
que do poço brotou, e adoça a areia
e que corre nos ombros, e que enleia
pelas espáduas seu frescor moreno.
O lácteo manto que uma brisa ondeia
desenha formas, cujo talho apenas
a tamareira imita, a flor receia,
o vento afaga e a solidão serena.
Vê-la é um momento, desejá-la um sopro,
ouvir-lhe a voz uma doçura eleita,
roçar-lhe a fronte uma revelação.
O amante, incertas mãos, trêmulo corpo,
beija-lhe os olhos, cuja flor desfeita
catorze anos de vida pagarão.
1 412
Renata Pallottini
O Cântaro
"Então, Jacó beijou Raquel e,
levantando a voz,
chorou."
Gênesis, 20: l l
O cântaro poreja a água amena
que do poço brotou, e adoça a areia
e que corre nos ombros, e que enleia
pelas espáduas seu frescor moreno.
O lácteo manto que uma brisa ondeia
desenha formas, cujo talho apenas
a tamareira imita, a flor receia,
o vento afaga e a solidão serena.
Vê-la é um momento, desejá-la um sopro,
ouvir-lhe a voz uma doçura eleita,
roçar-lhe a fronte uma revelação.
O amante, incertas mãos, trêmulo corpo,
beija-lhe os olhos, cuja flor desfeita
catorze anos de vida pagarão.
levantando a voz,
chorou."
Gênesis, 20: l l
O cântaro poreja a água amena
que do poço brotou, e adoça a areia
e que corre nos ombros, e que enleia
pelas espáduas seu frescor moreno.
O lácteo manto que uma brisa ondeia
desenha formas, cujo talho apenas
a tamareira imita, a flor receia,
o vento afaga e a solidão serena.
Vê-la é um momento, desejá-la um sopro,
ouvir-lhe a voz uma doçura eleita,
roçar-lhe a fronte uma revelação.
O amante, incertas mãos, trêmulo corpo,
beija-lhe os olhos, cuja flor desfeita
catorze anos de vida pagarão.
1 412
Paulo Augusto Rodrigues
Astral
Energia incandescente
Baixando ao fundo.
Algo cosméticamente simples
Retocado de pureza.
O sentido ingênuo da admiração aguçado
Pela beleza repetidamente nova.
A indecência do vermelho
A força do amarelo.
E a nós, só nos cabe ver e sentir
Enquanto dure este momento mágico.
Baixe sol,
Porque amanhã quero vê-lo nascer.
Baixando ao fundo.
Algo cosméticamente simples
Retocado de pureza.
O sentido ingênuo da admiração aguçado
Pela beleza repetidamente nova.
A indecência do vermelho
A força do amarelo.
E a nós, só nos cabe ver e sentir
Enquanto dure este momento mágico.
Baixe sol,
Porque amanhã quero vê-lo nascer.
985
Rogério F. P.
Aqui onde só o vento é testemunha,
Aqui onde só o vento é testemunha,
onde minhalma bruxuleia,
meu pensamento divaga
em construções absurdas.
Quando em meio a clausura,
mesmo que, cercado de formosura
poderia eu dessa tristeza me libertar?
Sei que não observo com
alegria o desabrochar da primavera
em seu sincronismo que eleva a alma
a um patamar inacreditável.
Imperdoável seria se almenos
em um dia, eu não me precipitasse,
e com critério observasse
o que é para mim tão longe,
mas que é na verdade uma silenciosa prece.
Cálido báratro quero que em seus braços
me tome e que minhalma se evole calmamente
junto com o perfume das flores,
para que assim eu possa entender a vida,
e recomeçar na morte!
onde minhalma bruxuleia,
meu pensamento divaga
em construções absurdas.
Quando em meio a clausura,
mesmo que, cercado de formosura
poderia eu dessa tristeza me libertar?
Sei que não observo com
alegria o desabrochar da primavera
em seu sincronismo que eleva a alma
a um patamar inacreditável.
Imperdoável seria se almenos
em um dia, eu não me precipitasse,
e com critério observasse
o que é para mim tão longe,
mas que é na verdade uma silenciosa prece.
Cálido báratro quero que em seus braços
me tome e que minhalma se evole calmamente
junto com o perfume das flores,
para que assim eu possa entender a vida,
e recomeçar na morte!
980
Rogério F. P.
Aqui onde só o vento é testemunha,
Aqui onde só o vento é testemunha,
onde minhalma bruxuleia,
meu pensamento divaga
em construções absurdas.
Quando em meio a clausura,
mesmo que, cercado de formosura
poderia eu dessa tristeza me libertar?
Sei que não observo com
alegria o desabrochar da primavera
em seu sincronismo que eleva a alma
a um patamar inacreditável.
Imperdoável seria se almenos
em um dia, eu não me precipitasse,
e com critério observasse
o que é para mim tão longe,
mas que é na verdade uma silenciosa prece.
Cálido báratro quero que em seus braços
me tome e que minhalma se evole calmamente
junto com o perfume das flores,
para que assim eu possa entender a vida,
e recomeçar na morte!
onde minhalma bruxuleia,
meu pensamento divaga
em construções absurdas.
Quando em meio a clausura,
mesmo que, cercado de formosura
poderia eu dessa tristeza me libertar?
Sei que não observo com
alegria o desabrochar da primavera
em seu sincronismo que eleva a alma
a um patamar inacreditável.
Imperdoável seria se almenos
em um dia, eu não me precipitasse,
e com critério observasse
o que é para mim tão longe,
mas que é na verdade uma silenciosa prece.
Cálido báratro quero que em seus braços
me tome e que minhalma se evole calmamente
junto com o perfume das flores,
para que assim eu possa entender a vida,
e recomeçar na morte!
980
Paulo Augusto Rodrigues
Paraíso
Amas,
Amas,
Amas,
Concebes.
Gestas,
Gestas,
Gestas,
Pares.
Vai, filho,
Não te aflija.
Vai ter com anjos,
No lugar que te recebem.
Amas,
Amas,
Concebes.
Gestas,
Gestas,
Gestas,
Pares.
Vai, filho,
Não te aflija.
Vai ter com anjos,
No lugar que te recebem.
1 026
Roberto Pontes
Impressão
Havia um lago,
não é que havia?
Não sei se o que brilhava
era o sol.
Seria o mar.
Será que era?
Ou aquilo que rugia
era um bicho?
não é que havia?
Não sei se o que brilhava
era o sol.
Seria o mar.
Será que era?
Ou aquilo que rugia
era um bicho?
724
Rolf de Souza
Seu cabelo é raíz exposta
Seu cabelo é raíz exposta
que deixa a amostra
uma História que não se pode calar!
Uma História plantada na cabeça.
Para que não se esqueça
a áfrica de seus ancestrais.
Quem não conhece esta História
com a pele se conforma,
mas com o cabelo, não há perdão, o deforma.
De repente: uma história! Não: A História!
Uma História que, como não se fosse pouco,
vira dona de todo o corpo.
Nela se aprende que cabeça
não é só cabeça: é orí.
É nela que está a força que te faz existir.
Seu cabelo de fora será um escândalo!
Mas lembra da Rainha Nefertiti,
cuja coroa é a própria carapinha!
que deixa a amostra
uma História que não se pode calar!
Uma História plantada na cabeça.
Para que não se esqueça
a áfrica de seus ancestrais.
Quem não conhece esta História
com a pele se conforma,
mas com o cabelo, não há perdão, o deforma.
De repente: uma história! Não: A História!
Uma História que, como não se fosse pouco,
vira dona de todo o corpo.
Nela se aprende que cabeça
não é só cabeça: é orí.
É nela que está a força que te faz existir.
Seu cabelo de fora será um escândalo!
Mas lembra da Rainha Nefertiti,
cuja coroa é a própria carapinha!
845
Paulo Augusto Rodrigues
Será
Será que não se vêem,
Não se olham ou não se contemplam,
Não são eus,
Não se admiram ou se ressentem?
Será que não se ouvem,
Não se falam ou se tocam,
Não são outros?
Será que não se amam,
Aos outros nem tanto,
Mas um pouco a si próprios?
Será que vivem...
Será que inventaram Deus?
Não se olham ou não se contemplam,
Não são eus,
Não se admiram ou se ressentem?
Será que não se ouvem,
Não se falam ou se tocam,
Não são outros?
Será que não se amam,
Aos outros nem tanto,
Mas um pouco a si próprios?
Será que vivem...
Será que inventaram Deus?
1 009
Paulo Augusto Rodrigues
Será
Será que não se vêem,
Não se olham ou não se contemplam,
Não são eus,
Não se admiram ou se ressentem?
Será que não se ouvem,
Não se falam ou se tocam,
Não são outros?
Será que não se amam,
Aos outros nem tanto,
Mas um pouco a si próprios?
Será que vivem...
Será que inventaram Deus?
Não se olham ou não se contemplam,
Não são eus,
Não se admiram ou se ressentem?
Será que não se ouvem,
Não se falam ou se tocam,
Não são outros?
Será que não se amam,
Aos outros nem tanto,
Mas um pouco a si próprios?
Será que vivem...
Será que inventaram Deus?
1 009
Paulo Augusto Rodrigues
Será
Será que não se vêem,
Não se olham ou não se contemplam,
Não são eus,
Não se admiram ou se ressentem?
Será que não se ouvem,
Não se falam ou se tocam,
Não são outros?
Será que não se amam,
Aos outros nem tanto,
Mas um pouco a si próprios?
Será que vivem...
Será que inventaram Deus?
Não se olham ou não se contemplam,
Não são eus,
Não se admiram ou se ressentem?
Será que não se ouvem,
Não se falam ou se tocam,
Não são outros?
Será que não se amam,
Aos outros nem tanto,
Mas um pouco a si próprios?
Será que vivem...
Será que inventaram Deus?
1 009
Rogério F. P.
É alegre o baile dos restos
É alegre o baile dos restos
que me pendem do corpo
ao sabor dos ventos,
que sopram à leste.
Brincam entre meus
orifícios abertos pelas
mágoas que cultivei,
as inocentes criancinhas!
Quando alcançar finalmente os umbrais da morte
deixarei a cada amigo
então, um pedaço deste
melancólico pagão,
para que, em noites
melancólicas de inverno, se
lembrem que, aquele
que fora um deles,
agora repousa sossegado no inferno!
que me pendem do corpo
ao sabor dos ventos,
que sopram à leste.
Brincam entre meus
orifícios abertos pelas
mágoas que cultivei,
as inocentes criancinhas!
Quando alcançar finalmente os umbrais da morte
deixarei a cada amigo
então, um pedaço deste
melancólico pagão,
para que, em noites
melancólicas de inverno, se
lembrem que, aquele
que fora um deles,
agora repousa sossegado no inferno!
856
Rogério F. P.
É alegre o baile dos restos
É alegre o baile dos restos
que me pendem do corpo
ao sabor dos ventos,
que sopram à leste.
Brincam entre meus
orifícios abertos pelas
mágoas que cultivei,
as inocentes criancinhas!
Quando alcançar finalmente os umbrais da morte
deixarei a cada amigo
então, um pedaço deste
melancólico pagão,
para que, em noites
melancólicas de inverno, se
lembrem que, aquele
que fora um deles,
agora repousa sossegado no inferno!
que me pendem do corpo
ao sabor dos ventos,
que sopram à leste.
Brincam entre meus
orifícios abertos pelas
mágoas que cultivei,
as inocentes criancinhas!
Quando alcançar finalmente os umbrais da morte
deixarei a cada amigo
então, um pedaço deste
melancólico pagão,
para que, em noites
melancólicas de inverno, se
lembrem que, aquele
que fora um deles,
agora repousa sossegado no inferno!
856
Rosa Bruno
O meu bailador que vi
O meu bailador que vi
Fandangando, fandangando,
Labareda levantando
Esbelta, num frenesi,
Era bem de carne e osso,
Era morrendo um destroço
Do que não era de si...
Fandangava, fandangava,
Com volúpia de guerreiro
E era lume feiticeiro
Dos olhos de quem estava,
E era flecha e pião
A fugir pisando o chão
Que pisava e repisava...
O meu bailador que vi
Fandangando, fandangando,
Labareda levantando
Esbelta, num frenesi,
Era bem de carne e osso,
Era morrendo um destroço,
Do que não era de si...
Fandangando, fandangando,
Labareda levantando
Esbelta, num frenesi,
Era bem de carne e osso,
Era morrendo um destroço
Do que não era de si...
Fandangava, fandangava,
Com volúpia de guerreiro
E era lume feiticeiro
Dos olhos de quem estava,
E era flecha e pião
A fugir pisando o chão
Que pisava e repisava...
O meu bailador que vi
Fandangando, fandangando,
Labareda levantando
Esbelta, num frenesi,
Era bem de carne e osso,
Era morrendo um destroço,
Do que não era de si...
1 131
Romulo Gouvêa
Uma cena
Uma cena.
Não sei se tinha cenário
não me lembro de cenário.
Não sei se tinha música ao fundo
não me lembro de música alguma.
Não era um ato, era uma cena
sem tempo.
Uma cena que se imprimiu
na minha memória para sempre.
Como um retrato, uma pintura
um instante que parou no espaço.
Eu a olhava, ela me olhava.
A nossa imagem dentro do nosso olhar.
E os dois ângulos desta cena,
em retinas diferentes,
eu pude ter de repente
juntos num só lugar,
numa cena que se imprimiu
na minha memória para sempre,
a cena do nosso olhar.
Não sei se tinha cenário
não me lembro de cenário.
Não sei se tinha música ao fundo
não me lembro de música alguma.
Não era um ato, era uma cena
sem tempo.
Uma cena que se imprimiu
na minha memória para sempre.
Como um retrato, uma pintura
um instante que parou no espaço.
Eu a olhava, ela me olhava.
A nossa imagem dentro do nosso olhar.
E os dois ângulos desta cena,
em retinas diferentes,
eu pude ter de repente
juntos num só lugar,
numa cena que se imprimiu
na minha memória para sempre,
a cena do nosso olhar.
916
Renata Pallottini
Quando os Céus se Cerrarem
"ouve tu então nos céus e perdoa
o pecado do teu povo Israel
e torna a levá-lo à terra
que tens dado a seus pais.
I Reis, 8:34
Quando os céus se cerrarem, não por seca,
mas por extrema dor, sobre o teu povo,
que pecou contra ti e ainda peca
e pecará, o mísero, de novo,
e houver fome na terra, não de trigo
ou de carne, mas fome de ternura,
para estancar a fúria do inimigo
e a sua enorme e súbita loucura,
ouve do céu, Senhor, ouve e perdoa:
a gente que ontem fez a tua casa
e a fez grandiosa, e a fez dourada e boa
hoje, expulsa do Anjo e de sua asa,
entrepara e pergunta, se esqueceste:
para que herança, ó Deus, nos elegeste?
o pecado do teu povo Israel
e torna a levá-lo à terra
que tens dado a seus pais.
I Reis, 8:34
Quando os céus se cerrarem, não por seca,
mas por extrema dor, sobre o teu povo,
que pecou contra ti e ainda peca
e pecará, o mísero, de novo,
e houver fome na terra, não de trigo
ou de carne, mas fome de ternura,
para estancar a fúria do inimigo
e a sua enorme e súbita loucura,
ouve do céu, Senhor, ouve e perdoa:
a gente que ontem fez a tua casa
e a fez grandiosa, e a fez dourada e boa
hoje, expulsa do Anjo e de sua asa,
entrepara e pergunta, se esqueceste:
para que herança, ó Deus, nos elegeste?
1 494
Roberto Pontes
As Durações
O ocaso passeia pela morte
no ruço alazão que ama e trata
e anuncia nas serras e cidades
o belo ataúde que precede.
O arauto esmaece seu mistério
e estende a fronha negra
sobre o sol.
Tudo fica envolto numa sombra,
uma espécie de eclipse total,
e então os frutos verdes amaduram,
processo da matéria progredindo.
Todos os seres dão seu passo além
e eu marco o sol jacente
e a nova lua
lá onde inscrevo sempre as durações.
no ruço alazão que ama e trata
e anuncia nas serras e cidades
o belo ataúde que precede.
O arauto esmaece seu mistério
e estende a fronha negra
sobre o sol.
Tudo fica envolto numa sombra,
uma espécie de eclipse total,
e então os frutos verdes amaduram,
processo da matéria progredindo.
Todos os seres dão seu passo além
e eu marco o sol jacente
e a nova lua
lá onde inscrevo sempre as durações.
983
Roberto Pontes
As Durações
O ocaso passeia pela morte
no ruço alazão que ama e trata
e anuncia nas serras e cidades
o belo ataúde que precede.
O arauto esmaece seu mistério
e estende a fronha negra
sobre o sol.
Tudo fica envolto numa sombra,
uma espécie de eclipse total,
e então os frutos verdes amaduram,
processo da matéria progredindo.
Todos os seres dão seu passo além
e eu marco o sol jacente
e a nova lua
lá onde inscrevo sempre as durações.
no ruço alazão que ama e trata
e anuncia nas serras e cidades
o belo ataúde que precede.
O arauto esmaece seu mistério
e estende a fronha negra
sobre o sol.
Tudo fica envolto numa sombra,
uma espécie de eclipse total,
e então os frutos verdes amaduram,
processo da matéria progredindo.
Todos os seres dão seu passo além
e eu marco o sol jacente
e a nova lua
lá onde inscrevo sempre as durações.
983
Rogério F. P.
Quantas palavras serão necessárias
Quantas palavras serão necessárias
para convencer uma pessoa
austera a se tornar uma insólita
criatura, que não enxerga em nada beleza alguma?
Quais serão os motivos que,
ao suspender da aurora
transformam aquele pacato e cômodo cidadão
no mais mórbido e maldito histrião ?
Ninguém será capaz de julgar
essas forças infernais que em nós
ficam alojadas e que, em tempos
afloram?
Não será possível sob criteriosa
vistoria, ser julgada esta perversa
melancolia, que se entranha
silenciosa?
para convencer uma pessoa
austera a se tornar uma insólita
criatura, que não enxerga em nada beleza alguma?
Quais serão os motivos que,
ao suspender da aurora
transformam aquele pacato e cômodo cidadão
no mais mórbido e maldito histrião ?
Ninguém será capaz de julgar
essas forças infernais que em nós
ficam alojadas e que, em tempos
afloram?
Não será possível sob criteriosa
vistoria, ser julgada esta perversa
melancolia, que se entranha
silenciosa?
865