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Poemas neste tema

Vida e Existência

Gerard Manley Hopkins

Gerard Manley Hopkins

A Grandeza de Deus

O mundo está carregado da grandeza de Deus.
Vai chamejar — chispas em sacudidas folhas de metal;
Vai expandir-se — óleo que imprensado escorre, tal e qual,
E alaga. Por que o homem não teme o açoite dos céus?
Gerações têm caminhado, quanto elas têm caminhado!
Tudo tem manchas de homem, partilha cheiro de homem,
O solo está desnudo, mas pés calçados não o sentem;
Pelas lides, pelo tráfego, um mundo sujo e crestado;
E, apesar disso tudo, a natureza nunca se esgota;
Todas as coisas nela vivem num frescor renovado;
Inda que no turvo ocaso sumam as últimas luzes,
A manhã, na fímbria castanha do oriente, brota —
Porque o Espírito Santo, sobre este mundo vergado,
Vigia com peito cálido e oh! luzentes asas.
(tradução de Aíla de Oliveira Gomes)
:
God’s Grandeur
Gerard Manley Hopkins
THE WORLD is charged with the grandeur of God.
It will flame out, like shining from shook foil;
It gathers to a greatness, like the ooze of oil
Crushed. Why do men then now not reck his rod?
Generations have trod, have trod, have trod;
And all is seared with trade; bleared, smeared with toil;
And wears man’s smudge and shares man’s smell: the soil
Is bare now, nor can foot feel, being shod.
And for all this, nature is never spent;
There lives the dearest freshness deep down things;
And though the last lights off the black West went
Oh, morning, at the brown brink eastward, springs—
Because the Holy Ghost over the bent
World broods with warm breast and with ah! bright wings.
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Silva Alvarenga

Silva Alvarenga

O Rio - Rondó XLIX

Chora o Rio entre arvoredos,
Nos penedos recostado:
Chora o prado, chora o monte,
Chora a fonte, a praia, o mar.

Vêm as Graças lagrimosas,
E os Amores sem ventura
Nesta fria sepultura
Pranto e rosas derramar.

Por ti, Glaura, a Natureza
Se cobriu de mágoa e luto:
Quanto vejo, quanto escuto
É tristeza, e é pesar.

Chora o Rio entre arvoredos,
Nos penedos recostado:
Chora o prado, chora o monte,
Chora a fonte, a praia, o mar.

A escondida, áspera furna
Deixam sátiros agrestes,
E de lúgubres ciprestes
Vem a urna circular.

Vêm saudades, vêm delírios,
Vem a dor, vem o desgosto
Com os cabelos sobre o rosto
Murta e lírios espalhar.

Chora o Rio entre arvoredos,
Nos penedos recostado:
Chora o prado, chora o monte,
Chora a fonte, a praia, o mar.

Nestes ramos flébil aura
Triste voa e presa gira:
Glaura aqui, e ali suspira,
Torna Glaura a suspirar.

Eco, as Dríades magoa,
O saudoso nome ouvindo;
E na gruta repetindo,
Glaura soa e geme o ar.

Chora o Rio entre arvoredos,
Nos penedos recostado:
Chora o prado, chora o monte,
Chora a fonte, a praia, o mar.

Glaura ó Morte enfurecida,
Expirou... que crueldade!
E pudeste sem piedade
Sua vida arrebatar?

Cai a noite, a névoa grossa
Turba os Céus com manto escuro;
E eu aflito em vão procuro
Quem me possa consolar.

Chora o Rio entre arvoredos,
Nos penedos recostado:
Chora o prado, chora o monte,
Chora a fonte, a praia, o mar.


Publicado no livro Glaura: poemas eróticos de Manuel Inácio da Silva Alvarenga, bacharel pela Universidade de Coimbra e professor de retórica no Rio de Janeiro. Na Arcádia, Alcindo Palmireno (1799).

In: ALVARENGA, Silva. Glaura: poemas eróticos. Pref. Afonso Arinos de Melo Franco. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1943. (Biblioteca popular brasileira, 16
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Alcides Villaça

Alcides Villaça

Amigo

O amigo
não é bem o que ele diz
nem (é perigoso) o suposto silêncio profundo:
repousa na retina do outro
imagem colada dispersa
recortada
cheia de roupas e gestos característicos.

O amigo
causa o mal-estar da amizade incumprível
persegue-nos na solidão
não faz bem algum,
é distante se o vemos, jamais comparável
ao guardado lá em casa.

O amigo
nada sabe de nós
mas fita-nos
ouve-nos
melhor que uma pedra
(e não diremos nunca).
Será por certo um charlatão
fera para o primeiro bote
ou — quem sabe? — o anjo de riso certo
na precisão.

Que coisa incômoda um amigo.
Melhor ficássemos desolados
sob o parapeito
sem a insinuação periscópica
de seu talento de investigador.
Mas que boas intenções afinal não estarão
na
mão
do
amigo? (estendida em silêncio em silêncio sempre)

O amigo e um exagero de olhares.
Nem sabemos se o mesmo chão nos sustenta
se a mesma palavra é a mesma
como saber se o amigo
é o amigo?
Espelho da fronteira nossa?
Força do rio que conduzimos,
o barco ao lado, de proteção?

O amigo se perde na outra margem.
Olá.
E ele ouve de sua concha acústica.
Ele é perfeito, o amigo, ou nós o desenhamos
no vazio que grita?
O amigo é o fantasma de nós, não permitido
entre os secos lábios colados?
Que nome afinal ostenta para
vir ao domicílio do orgulho, desvendá-lo,
sair com ele
estandarte?

Proibamos o amigo. Melhor matá-lo
na esquina. E encararmos a avenida na madrugada
na vitória da névoa
e do silêncio.
Fechados no quarto
tapados ouvidos
esqueçamos esqueçamos o amigo.
Que já não olha.
Sem mãos nomes gestos juízes.
Somos muito mais,
inviolados nos quatro cantos do quarto
asas (sem eco) de morcego, noite adentro.

Faz falta o aplauso do amigo?


In: VILLAÇA, Alcides. O tempo e outros remorsos. Pref. Alfredo Bosi. Il. Edgard Rodrigues de Souza. São Paulo: Ática, 1975. Poema integrante da série Os Amigos
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