Poemas neste tema
Vida e Existência
João Ferry
Fim de Escola
Na escola toda vez, quando aparece
O exame final do fim do ano,
Nervoso cada qual faz uma prece,
Receando sofrer um desengano.
Boas notas só tem quem as merece,
E quem as obtém vaidoso e ufano,
Muitas vezes até depressa esquece,
Da professora e seu trabalho insano.
E o aluno fica alegre e mui contente,
Para gozar as férias bem feliz,
No lar para onde volta sorridente.
Mas acontece que o aluno mau,
Que de vadio estudar não quis,
Volta pra casa, mas só leva pau!...
O exame final do fim do ano,
Nervoso cada qual faz uma prece,
Receando sofrer um desengano.
Boas notas só tem quem as merece,
E quem as obtém vaidoso e ufano,
Muitas vezes até depressa esquece,
Da professora e seu trabalho insano.
E o aluno fica alegre e mui contente,
Para gozar as férias bem feliz,
No lar para onde volta sorridente.
Mas acontece que o aluno mau,
Que de vadio estudar não quis,
Volta pra casa, mas só leva pau!...
944
Jorge Fonseca Jr.
Haicai
Este abacateiro
acende, ante a luz do luar,
suas suaves lâmpadas...
Ah! Uns olhos sem luz
vêm ver jasmins florescer
diante de uma cruz...
acende, ante a luz do luar,
suas suaves lâmpadas...
Ah! Uns olhos sem luz
vêm ver jasmins florescer
diante de uma cruz...
1 299
João Marcio Furtado Costa
Reflexão
Reflexão
(03/96)
Não procuro consolo,
A inocência se foi,
Se não fomos um todo,
Nada fomos depois.
Mas eu busco o resgate,
Digo não à razão,
Se cresci no vazio,
Ainda tenho o meu chão.
Nesse resto de estrada,
Se é a paixão quem conduz,
Atravesso o túnel,
Ao encontro da luz.
Quero crer na verdade,
Ressuscito o meu fogo,
Se é fato, a vontade,
Venceremos o jogo.
Recomêço e respeito,
O início, principia do fim.
Se abrires teu peito,
Então serás meu jardim.
Se eu paro e espero,
Vou querer respirar,
Mas se sei o que quero,
Por que não te encontrar?
Rasgo o orgulho, proponho,
Viverás só pra mim!
Instância, és de sonho,
Quando dizes que sim.
Pois mais vale a acolhida,
Que forneces ao par,
E anuncias a vida,
Se puderes me amar.
(03/96)
Não procuro consolo,
A inocência se foi,
Se não fomos um todo,
Nada fomos depois.
Mas eu busco o resgate,
Digo não à razão,
Se cresci no vazio,
Ainda tenho o meu chão.
Nesse resto de estrada,
Se é a paixão quem conduz,
Atravesso o túnel,
Ao encontro da luz.
Quero crer na verdade,
Ressuscito o meu fogo,
Se é fato, a vontade,
Venceremos o jogo.
Recomêço e respeito,
O início, principia do fim.
Se abrires teu peito,
Então serás meu jardim.
Se eu paro e espero,
Vou querer respirar,
Mas se sei o que quero,
Por que não te encontrar?
Rasgo o orgulho, proponho,
Viverás só pra mim!
Instância, és de sonho,
Quando dizes que sim.
Pois mais vale a acolhida,
Que forneces ao par,
E anuncias a vida,
Se puderes me amar.
863
João Marcio Furtado Costa
Reflexão
Reflexão
(03/96)
Não procuro consolo,
A inocência se foi,
Se não fomos um todo,
Nada fomos depois.
Mas eu busco o resgate,
Digo não à razão,
Se cresci no vazio,
Ainda tenho o meu chão.
Nesse resto de estrada,
Se é a paixão quem conduz,
Atravesso o túnel,
Ao encontro da luz.
Quero crer na verdade,
Ressuscito o meu fogo,
Se é fato, a vontade,
Venceremos o jogo.
Recomêço e respeito,
O início, principia do fim.
Se abrires teu peito,
Então serás meu jardim.
Se eu paro e espero,
Vou querer respirar,
Mas se sei o que quero,
Por que não te encontrar?
Rasgo o orgulho, proponho,
Viverás só pra mim!
Instância, és de sonho,
Quando dizes que sim.
Pois mais vale a acolhida,
Que forneces ao par,
E anuncias a vida,
Se puderes me amar.
(03/96)
Não procuro consolo,
A inocência se foi,
Se não fomos um todo,
Nada fomos depois.
Mas eu busco o resgate,
Digo não à razão,
Se cresci no vazio,
Ainda tenho o meu chão.
Nesse resto de estrada,
Se é a paixão quem conduz,
Atravesso o túnel,
Ao encontro da luz.
Quero crer na verdade,
Ressuscito o meu fogo,
Se é fato, a vontade,
Venceremos o jogo.
Recomêço e respeito,
O início, principia do fim.
Se abrires teu peito,
Então serás meu jardim.
Se eu paro e espero,
Vou querer respirar,
Mas se sei o que quero,
Por que não te encontrar?
Rasgo o orgulho, proponho,
Viverás só pra mim!
Instância, és de sonho,
Quando dizes que sim.
Pois mais vale a acolhida,
Que forneces ao par,
E anuncias a vida,
Se puderes me amar.
863
João Marcio Furtado Costa
Gênero
Gênero
(11/96)
Não importa se acham que é bom
e muito menos se pensam que é mau
o que interessa é só o tom
usado pra elevar o moral
Quem procura e acha, pensa
que o achado o salvará
mas não vê que a recompensa
está mesmo é no alvará
Não concebo o descaso e espero
que venha, dos Deuses, a cólera
e desabe por sobre a cabeça
dos homens que permitem o cólera
Ao se pesar o passado
não é necessário fazer drama
vê-se logo que não tem tanto peso
se comparado ao grama
Vestidos de determinadas damas
me fazem perder os sentidos
o corpo consome-se em chamas
mesmo se dorme, a libido
Sabe o que penso do gênero?
é fundamental, pois a mensagem
pode ter sentido efêmero
se não incorporar a personagem
(11/96)
Não importa se acham que é bom
e muito menos se pensam que é mau
o que interessa é só o tom
usado pra elevar o moral
Quem procura e acha, pensa
que o achado o salvará
mas não vê que a recompensa
está mesmo é no alvará
Não concebo o descaso e espero
que venha, dos Deuses, a cólera
e desabe por sobre a cabeça
dos homens que permitem o cólera
Ao se pesar o passado
não é necessário fazer drama
vê-se logo que não tem tanto peso
se comparado ao grama
Vestidos de determinadas damas
me fazem perder os sentidos
o corpo consome-se em chamas
mesmo se dorme, a libido
Sabe o que penso do gênero?
é fundamental, pois a mensagem
pode ter sentido efêmero
se não incorporar a personagem
712
Jorge Nascimento
Temporalidade do Desígnio
Já é tempo de construir o poema,
sentir que tudo foi exposto à crítica
e assim revisitar ocultos locais da mente.
Já é tempo de codificar o estilo,
confrontá-lo com as horas mortas
e reanimar todos os sentimentos vazios.
Já é tempo de atribuir-se condição
e sobrepor-se acima do tédio vital,
reanimando sozinho todas as vicissitudes.
Já é tempo de não contemporizar com os erros
e demonstrá-los na imperfeita tábua da lei,
feita para administrar os mais íntimos conflitos.
Já é tempo de renunciar ao medo e expor-se
aos desígnios do tempo magoados de esperanças.
Já é tempo de retornar ao amor das palavras impronunciadas,
readquirindo confiança na sabedoria das sílabas tortas
e novamente sentir a febre de quem recomeça a vida
com a certeza de estiolar novas e gradativas angústias
em meio ao torpor das inutilidades,
fazendo-se monge da solidão e confessor de si mesmo
e fugir para o desvão das ruas noturnas e becos absconsos.
Somente assim será possível a reconstrução tão almejada
de reflorescer no presente as esperanças mortas do passado
que ainda insistem em sobreviver de alegorias
e expectativas elementares que se iniciam
com a nitidez das auroras e fundam-se
com o ácido arrebol das ilusões partidas.
Já é tempo de recomeçar a viver mais uma vez
cultivando sonhos e recusando realidades
e deste modo retornar tranqüilo e confiante
ao deserto onírico das mágoas crepusculares
tão sábias em tecer enigmas e decifrar antigos sofrimentos.
sentir que tudo foi exposto à crítica
e assim revisitar ocultos locais da mente.
Já é tempo de codificar o estilo,
confrontá-lo com as horas mortas
e reanimar todos os sentimentos vazios.
Já é tempo de atribuir-se condição
e sobrepor-se acima do tédio vital,
reanimando sozinho todas as vicissitudes.
Já é tempo de não contemporizar com os erros
e demonstrá-los na imperfeita tábua da lei,
feita para administrar os mais íntimos conflitos.
Já é tempo de renunciar ao medo e expor-se
aos desígnios do tempo magoados de esperanças.
Já é tempo de retornar ao amor das palavras impronunciadas,
readquirindo confiança na sabedoria das sílabas tortas
e novamente sentir a febre de quem recomeça a vida
com a certeza de estiolar novas e gradativas angústias
em meio ao torpor das inutilidades,
fazendo-se monge da solidão e confessor de si mesmo
e fugir para o desvão das ruas noturnas e becos absconsos.
Somente assim será possível a reconstrução tão almejada
de reflorescer no presente as esperanças mortas do passado
que ainda insistem em sobreviver de alegorias
e expectativas elementares que se iniciam
com a nitidez das auroras e fundam-se
com o ácido arrebol das ilusões partidas.
Já é tempo de recomeçar a viver mais uma vez
cultivando sonhos e recusando realidades
e deste modo retornar tranqüilo e confiante
ao deserto onírico das mágoas crepusculares
tão sábias em tecer enigmas e decifrar antigos sofrimentos.
877
João Manuel Simões
O Primeiro Dia da Criação
Cicatriz na epiderme
macia do silêncio,
ei-la que surge, nítida,
iluminada e frágil,
na geometria exata
do tempo feito espaço,
com gládio nas trevas,
como insígnia de fogo.
Haste de flor de som
sem memória plausível,
gesto puro de flâmula,
alarme sobre claustros
ou mero grito agreste
violando a morte obscena,
ei-la que desabrocha.
No Princípio era o caos,
(Era o cais, eram cães, eram Cains?)
E a palavra boiava,
ambígua, sobre as águas.
macia do silêncio,
ei-la que surge, nítida,
iluminada e frágil,
na geometria exata
do tempo feito espaço,
com gládio nas trevas,
como insígnia de fogo.
Haste de flor de som
sem memória plausível,
gesto puro de flâmula,
alarme sobre claustros
ou mero grito agreste
violando a morte obscena,
ei-la que desabrocha.
No Princípio era o caos,
(Era o cais, eram cães, eram Cains?)
E a palavra boiava,
ambígua, sobre as águas.
755
José Fernandes Fafe
Exegese
De que é feito esse amor?, perguntam-me e não sei...
Da matéria da noite mais impávida,
onde as estrelas inscrevem uma lei ...
Da estrada longa e da cegueira ávida
com que quiseste povoar de amor os ermos...
Longe, os cães das quintas ladravam-te com raiva
(Vejo o teu gesto, um franciscano aceno,
vejo a minha mão crispar-se, dolorida,
vejo unir-nos num abraço o desespero... )
Das trevas, do linho negro em que tecemos
a manta na noite dos pobres estendida...
(Senhora, acamaradando-se dói menos. . . )
Das mãos dadas, pelo sono dos casais, pela Vida,
pela emboscada — onde caíste de cansaço
e me rasgaram a rubra e funda ferida
donde manam — o baço tempo, o alaranjado lume
e a inexorável frialdade de aço
que um anjo tetular em si reúne.
Da matéria da noite mais impávida,
onde as estrelas inscrevem uma lei ...
Da estrada longa e da cegueira ávida
com que quiseste povoar de amor os ermos...
Longe, os cães das quintas ladravam-te com raiva
(Vejo o teu gesto, um franciscano aceno,
vejo a minha mão crispar-se, dolorida,
vejo unir-nos num abraço o desespero... )
Das trevas, do linho negro em que tecemos
a manta na noite dos pobres estendida...
(Senhora, acamaradando-se dói menos. . . )
Das mãos dadas, pelo sono dos casais, pela Vida,
pela emboscada — onde caíste de cansaço
e me rasgaram a rubra e funda ferida
donde manam — o baço tempo, o alaranjado lume
e a inexorável frialdade de aço
que um anjo tetular em si reúne.
873
José Maria Nascimento
A Vergonha
Estou me procurando a cada sombra
deste contraditório desencanto.
Estas mornas lágrimas cintilam
um afeto ruidosamente indeciso.
Já não sei se hoje estou despido
ou se neste Vale encontrarei o Manto
com que haverei nas tardes de cobrir
a nudez da minha vergonha no Paraíso.
deste contraditório desencanto.
Estas mornas lágrimas cintilam
um afeto ruidosamente indeciso.
Já não sei se hoje estou despido
ou se neste Vale encontrarei o Manto
com que haverei nas tardes de cobrir
a nudez da minha vergonha no Paraíso.
853
João Marcio Furtado Costa
Dois mil e BUM
Dois mil e BUM
(12/96)
Ao fim daquele segundo, nada se resolveu no mundo.
Por mais importante que fosse, daquele segundo, o fruto,
Seu maior feito, seu intuito, foi de encerrar o minuto.
Mas, também, o minuto, nada mudou de concreto, pois,
Por mais que fosse certo, por mais tempo que desse ao agora,
Nada mais de útil fizera, do que a troca da hora.
E a hora foi embora, radiante de alegria,
Na dicotomia da noite, terminara mais um dia.
Não fora um dia qualquer, aquele 31 de dezembro.
Nem maior, nem menor, nem mais claro ou mais escuro.
Tampouco foi mais puro. Porém, e sem engano,
Ao seu final foi-se o ano, e deu as caras, o futuro.
Foi-se o segundo, o minuto. Foi-se a hora e, junto, o ano,
E o tempo, que é cigano, resolveu baixar o pano,
E encerrar, de vez, o século.
Foste o vigésimo e terminaste. Nada em ti foi respeitado.
Aquele segundo arrogante, agindo qual meliante,
Roubou de ti o legado.
Sei que foi fatalidade, mas perdeste a identidade,
Em dois dígitos já não cabes mais. És a mazela,
Que nos computadores, gerou calamidade provocando dores,
Que ninguém duvide, universais.
Ficou a melancolia. Alvíssaras ao novo século.
A vida ficou vazia. Alvíssaras ao vinte e um.
Disseram que de mil tu passarias,
E que a dois mil não chegarias,
Mesmo se um por todos e todos por um.
Já houve quem pensasse, antever o apocalipse,
Consequência derradeira de um eclipse,
Ou suicídio coletivo, numa guerra mundial.
Porém, ninguém, por mais que fosse visionário,
Pensaria ser possível, resultar tal corolário,
Nem Nostradamus vislumbrou final igual.
Acabar-se na clandestinidade, morto-vivo, que infelicidade
nos bancos de dados institucionais.
(12/96)
Ao fim daquele segundo, nada se resolveu no mundo.
Por mais importante que fosse, daquele segundo, o fruto,
Seu maior feito, seu intuito, foi de encerrar o minuto.
Mas, também, o minuto, nada mudou de concreto, pois,
Por mais que fosse certo, por mais tempo que desse ao agora,
Nada mais de útil fizera, do que a troca da hora.
E a hora foi embora, radiante de alegria,
Na dicotomia da noite, terminara mais um dia.
Não fora um dia qualquer, aquele 31 de dezembro.
Nem maior, nem menor, nem mais claro ou mais escuro.
Tampouco foi mais puro. Porém, e sem engano,
Ao seu final foi-se o ano, e deu as caras, o futuro.
Foi-se o segundo, o minuto. Foi-se a hora e, junto, o ano,
E o tempo, que é cigano, resolveu baixar o pano,
E encerrar, de vez, o século.
Foste o vigésimo e terminaste. Nada em ti foi respeitado.
Aquele segundo arrogante, agindo qual meliante,
Roubou de ti o legado.
Sei que foi fatalidade, mas perdeste a identidade,
Em dois dígitos já não cabes mais. És a mazela,
Que nos computadores, gerou calamidade provocando dores,
Que ninguém duvide, universais.
Ficou a melancolia. Alvíssaras ao novo século.
A vida ficou vazia. Alvíssaras ao vinte e um.
Disseram que de mil tu passarias,
E que a dois mil não chegarias,
Mesmo se um por todos e todos por um.
Já houve quem pensasse, antever o apocalipse,
Consequência derradeira de um eclipse,
Ou suicídio coletivo, numa guerra mundial.
Porém, ninguém, por mais que fosse visionário,
Pensaria ser possível, resultar tal corolário,
Nem Nostradamus vislumbrou final igual.
Acabar-se na clandestinidade, morto-vivo, que infelicidade
nos bancos de dados institucionais.
759
João Marcio Furtado Costa
Dois mil e BUM
Dois mil e BUM
(12/96)
Ao fim daquele segundo, nada se resolveu no mundo.
Por mais importante que fosse, daquele segundo, o fruto,
Seu maior feito, seu intuito, foi de encerrar o minuto.
Mas, também, o minuto, nada mudou de concreto, pois,
Por mais que fosse certo, por mais tempo que desse ao agora,
Nada mais de útil fizera, do que a troca da hora.
E a hora foi embora, radiante de alegria,
Na dicotomia da noite, terminara mais um dia.
Não fora um dia qualquer, aquele 31 de dezembro.
Nem maior, nem menor, nem mais claro ou mais escuro.
Tampouco foi mais puro. Porém, e sem engano,
Ao seu final foi-se o ano, e deu as caras, o futuro.
Foi-se o segundo, o minuto. Foi-se a hora e, junto, o ano,
E o tempo, que é cigano, resolveu baixar o pano,
E encerrar, de vez, o século.
Foste o vigésimo e terminaste. Nada em ti foi respeitado.
Aquele segundo arrogante, agindo qual meliante,
Roubou de ti o legado.
Sei que foi fatalidade, mas perdeste a identidade,
Em dois dígitos já não cabes mais. És a mazela,
Que nos computadores, gerou calamidade provocando dores,
Que ninguém duvide, universais.
Ficou a melancolia. Alvíssaras ao novo século.
A vida ficou vazia. Alvíssaras ao vinte e um.
Disseram que de mil tu passarias,
E que a dois mil não chegarias,
Mesmo se um por todos e todos por um.
Já houve quem pensasse, antever o apocalipse,
Consequência derradeira de um eclipse,
Ou suicídio coletivo, numa guerra mundial.
Porém, ninguém, por mais que fosse visionário,
Pensaria ser possível, resultar tal corolário,
Nem Nostradamus vislumbrou final igual.
Acabar-se na clandestinidade, morto-vivo, que infelicidade
nos bancos de dados institucionais.
(12/96)
Ao fim daquele segundo, nada se resolveu no mundo.
Por mais importante que fosse, daquele segundo, o fruto,
Seu maior feito, seu intuito, foi de encerrar o minuto.
Mas, também, o minuto, nada mudou de concreto, pois,
Por mais que fosse certo, por mais tempo que desse ao agora,
Nada mais de útil fizera, do que a troca da hora.
E a hora foi embora, radiante de alegria,
Na dicotomia da noite, terminara mais um dia.
Não fora um dia qualquer, aquele 31 de dezembro.
Nem maior, nem menor, nem mais claro ou mais escuro.
Tampouco foi mais puro. Porém, e sem engano,
Ao seu final foi-se o ano, e deu as caras, o futuro.
Foi-se o segundo, o minuto. Foi-se a hora e, junto, o ano,
E o tempo, que é cigano, resolveu baixar o pano,
E encerrar, de vez, o século.
Foste o vigésimo e terminaste. Nada em ti foi respeitado.
Aquele segundo arrogante, agindo qual meliante,
Roubou de ti o legado.
Sei que foi fatalidade, mas perdeste a identidade,
Em dois dígitos já não cabes mais. És a mazela,
Que nos computadores, gerou calamidade provocando dores,
Que ninguém duvide, universais.
Ficou a melancolia. Alvíssaras ao novo século.
A vida ficou vazia. Alvíssaras ao vinte e um.
Disseram que de mil tu passarias,
E que a dois mil não chegarias,
Mesmo se um por todos e todos por um.
Já houve quem pensasse, antever o apocalipse,
Consequência derradeira de um eclipse,
Ou suicídio coletivo, numa guerra mundial.
Porém, ninguém, por mais que fosse visionário,
Pensaria ser possível, resultar tal corolário,
Nem Nostradamus vislumbrou final igual.
Acabar-se na clandestinidade, morto-vivo, que infelicidade
nos bancos de dados institucionais.
759
José Eustáquio da Silva
Passou
desfiz todas as minhas ilusões
e as atirei no precipício profundo
da minha realidade
estraçalhei os teus olhos de diamante
devolvendo-te os teus olhos
de um ser humano qualquer
te despi de todos os áureos vestidos
que em sonho te dei
e te fiz novamente nua
apaguei toda poesia que derramei inutilmente
nos poemas feitos em tua homenagem
e quase chorei...
(ou será que chorei?)
abri os olhos para o mundo
e me deixei libertar
enfim, te esqueci...
hoje, vivendo o alívio de tão árduo tormento
ando pelos jardins da vida
colhendo as rosas da minha liberdade
sem temer os espinhos da tua existência
e as atirei no precipício profundo
da minha realidade
estraçalhei os teus olhos de diamante
devolvendo-te os teus olhos
de um ser humano qualquer
te despi de todos os áureos vestidos
que em sonho te dei
e te fiz novamente nua
apaguei toda poesia que derramei inutilmente
nos poemas feitos em tua homenagem
e quase chorei...
(ou será que chorei?)
abri os olhos para o mundo
e me deixei libertar
enfim, te esqueci...
hoje, vivendo o alívio de tão árduo tormento
ando pelos jardins da vida
colhendo as rosas da minha liberdade
sem temer os espinhos da tua existência
1 048
José Carlos Souza Santos
Do livro Estrelas Ausentes
A Tarde que Me Cabe
Eram quatro, as horas da manhã
quando nasci,
ainda não se havia completado
o meio-dia
quando os meus olhos se abeberaram
sôfregos,
de lembranças de nunca vistos pôr-do-sol,
de canelones que pela boca me desceram
sem lhes sentir o gosto,
de apaixonados beijos que os desejos
não me aplacaram,
e foi tão rápida a descoberta
de ter vivido somente o espaço de uma manhã
nos meus quarenta anos.
Ainda não se tinha completado
o meio-dia,
e náufrago em tábua de conveniência,
não me permitira
ver a luz que me tocara,
me lambera, me inundara.
e só pelas tuas mãos,
e pelo teu silêncio em grito de ausência
transformado,
hei de viver o período da tarde
que me cabe,
e vivê-lo tão intensamente, que os refúgios
em nossos corpos usados
inatingíveis hão de se tornar
no compassado ritmo do amor.
Eram quatro, as horas da manhã
quando nasci,
ainda não se havia completado
o meio-dia
quando os meus olhos se abeberaram
sôfregos,
de lembranças de nunca vistos pôr-do-sol,
de canelones que pela boca me desceram
sem lhes sentir o gosto,
de apaixonados beijos que os desejos
não me aplacaram,
e foi tão rápida a descoberta
de ter vivido somente o espaço de uma manhã
nos meus quarenta anos.
Ainda não se tinha completado
o meio-dia,
e náufrago em tábua de conveniência,
não me permitira
ver a luz que me tocara,
me lambera, me inundara.
e só pelas tuas mãos,
e pelo teu silêncio em grito de ausência
transformado,
hei de viver o período da tarde
que me cabe,
e vivê-lo tão intensamente, que os refúgios
em nossos corpos usados
inatingíveis hão de se tornar
no compassado ritmo do amor.
883
José Carlos Souza Santos
Do livro Estrelas Ausentes
A Tarde que Me Cabe
Eram quatro, as horas da manhã
quando nasci,
ainda não se havia completado
o meio-dia
quando os meus olhos se abeberaram
sôfregos,
de lembranças de nunca vistos pôr-do-sol,
de canelones que pela boca me desceram
sem lhes sentir o gosto,
de apaixonados beijos que os desejos
não me aplacaram,
e foi tão rápida a descoberta
de ter vivido somente o espaço de uma manhã
nos meus quarenta anos.
Ainda não se tinha completado
o meio-dia,
e náufrago em tábua de conveniência,
não me permitira
ver a luz que me tocara,
me lambera, me inundara.
e só pelas tuas mãos,
e pelo teu silêncio em grito de ausência
transformado,
hei de viver o período da tarde
que me cabe,
e vivê-lo tão intensamente, que os refúgios
em nossos corpos usados
inatingíveis hão de se tornar
no compassado ritmo do amor.
Eram quatro, as horas da manhã
quando nasci,
ainda não se havia completado
o meio-dia
quando os meus olhos se abeberaram
sôfregos,
de lembranças de nunca vistos pôr-do-sol,
de canelones que pela boca me desceram
sem lhes sentir o gosto,
de apaixonados beijos que os desejos
não me aplacaram,
e foi tão rápida a descoberta
de ter vivido somente o espaço de uma manhã
nos meus quarenta anos.
Ainda não se tinha completado
o meio-dia,
e náufrago em tábua de conveniência,
não me permitira
ver a luz que me tocara,
me lambera, me inundara.
e só pelas tuas mãos,
e pelo teu silêncio em grito de ausência
transformado,
hei de viver o período da tarde
que me cabe,
e vivê-lo tão intensamente, que os refúgios
em nossos corpos usados
inatingíveis hão de se tornar
no compassado ritmo do amor.
883
José Carlos Souza Santos
Do livro Estrelas Ausentes
A Tarde que Me Cabe
Eram quatro, as horas da manhã
quando nasci,
ainda não se havia completado
o meio-dia
quando os meus olhos se abeberaram
sôfregos,
de lembranças de nunca vistos pôr-do-sol,
de canelones que pela boca me desceram
sem lhes sentir o gosto,
de apaixonados beijos que os desejos
não me aplacaram,
e foi tão rápida a descoberta
de ter vivido somente o espaço de uma manhã
nos meus quarenta anos.
Ainda não se tinha completado
o meio-dia,
e náufrago em tábua de conveniência,
não me permitira
ver a luz que me tocara,
me lambera, me inundara.
e só pelas tuas mãos,
e pelo teu silêncio em grito de ausência
transformado,
hei de viver o período da tarde
que me cabe,
e vivê-lo tão intensamente, que os refúgios
em nossos corpos usados
inatingíveis hão de se tornar
no compassado ritmo do amor.
Eram quatro, as horas da manhã
quando nasci,
ainda não se havia completado
o meio-dia
quando os meus olhos se abeberaram
sôfregos,
de lembranças de nunca vistos pôr-do-sol,
de canelones que pela boca me desceram
sem lhes sentir o gosto,
de apaixonados beijos que os desejos
não me aplacaram,
e foi tão rápida a descoberta
de ter vivido somente o espaço de uma manhã
nos meus quarenta anos.
Ainda não se tinha completado
o meio-dia,
e náufrago em tábua de conveniência,
não me permitira
ver a luz que me tocara,
me lambera, me inundara.
e só pelas tuas mãos,
e pelo teu silêncio em grito de ausência
transformado,
hei de viver o período da tarde
que me cabe,
e vivê-lo tão intensamente, que os refúgios
em nossos corpos usados
inatingíveis hão de se tornar
no compassado ritmo do amor.
883
José Blanc de Portugal
Dia de Todos-os-Santos
Supõe que morri
(Aos mortos se escreve também algumas vezes).
Não sou de cá.
O que me dizem estranho
E ouço o que não há.
Assim, talvez, como estrangeiro,
Encontres palavras que me interessem,
Saibas dar-me o que me tarda...
coisas perdidas que procuro
e talvez se possam dar
aos que partiram e esqueceram
e, por isso,
se lhes oferece o resto de tudo
sem mesmo se saber
que alguma coisa é dada.
Supõe que morri e diz
todas as verdades que se dão aos mortos
o que se confessa a quem não ouve
e espera resposta de ninguém ...
Dizem que os deuses morreram:
Sou da raça deles
à espera de Deus.
(Aos mortos se escreve também algumas vezes).
Não sou de cá.
O que me dizem estranho
E ouço o que não há.
Assim, talvez, como estrangeiro,
Encontres palavras que me interessem,
Saibas dar-me o que me tarda...
coisas perdidas que procuro
e talvez se possam dar
aos que partiram e esqueceram
e, por isso,
se lhes oferece o resto de tudo
sem mesmo se saber
que alguma coisa é dada.
Supõe que morri e diz
todas as verdades que se dão aos mortos
o que se confessa a quem não ouve
e espera resposta de ninguém ...
Dizem que os deuses morreram:
Sou da raça deles
à espera de Deus.
1 968
José Blanc de Portugal
Dia de Todos-os-Santos
Supõe que morri
(Aos mortos se escreve também algumas vezes).
Não sou de cá.
O que me dizem estranho
E ouço o que não há.
Assim, talvez, como estrangeiro,
Encontres palavras que me interessem,
Saibas dar-me o que me tarda...
coisas perdidas que procuro
e talvez se possam dar
aos que partiram e esqueceram
e, por isso,
se lhes oferece o resto de tudo
sem mesmo se saber
que alguma coisa é dada.
Supõe que morri e diz
todas as verdades que se dão aos mortos
o que se confessa a quem não ouve
e espera resposta de ninguém ...
Dizem que os deuses morreram:
Sou da raça deles
à espera de Deus.
(Aos mortos se escreve também algumas vezes).
Não sou de cá.
O que me dizem estranho
E ouço o que não há.
Assim, talvez, como estrangeiro,
Encontres palavras que me interessem,
Saibas dar-me o que me tarda...
coisas perdidas que procuro
e talvez se possam dar
aos que partiram e esqueceram
e, por isso,
se lhes oferece o resto de tudo
sem mesmo se saber
que alguma coisa é dada.
Supõe que morri e diz
todas as verdades que se dão aos mortos
o que se confessa a quem não ouve
e espera resposta de ninguém ...
Dizem que os deuses morreram:
Sou da raça deles
à espera de Deus.
1 968
José Eduardo Mendes Camargo
Leitura
Eu li em teus olhos as palavras
Que teus lábios não ousaram pronunciar
Eu vi em teu corpo o amor
que teus braços temeram aceitar
Eu senti no arrepio de minha pele
O arrepio de tua alma
Eu provei em tuas mãos o desejo
Que nossos corpos não conseguem dissimular.
Que teus lábios não ousaram pronunciar
Eu vi em teu corpo o amor
que teus braços temeram aceitar
Eu senti no arrepio de minha pele
O arrepio de tua alma
Eu provei em tuas mãos o desejo
Que nossos corpos não conseguem dissimular.
859
Jeremias Brasileiro
HORA DÍ BAI
Calemas silenciam-se ao sentir
Iansã Kéró deslizando em pleno ar
Òxúmaré surge no Órun
Névoa Amarela está no mar
Mabubas dos meus Ójos caem...
Notas: Hora dí Bai = Hora da despedida
Calemas = Ondas agitadas
Iansã kéró = Orixá dos ventos e tempestades
Kéró = Suavemente
Òxúmaré = Orixá do arco-íris
Órun = Céu
Mabubas = Cascatas
Ójos = Olhos
Iansã Kéró deslizando em pleno ar
Òxúmaré surge no Órun
Névoa Amarela está no mar
Mabubas dos meus Ójos caem...
Notas: Hora dí Bai = Hora da despedida
Calemas = Ondas agitadas
Iansã kéró = Orixá dos ventos e tempestades
Kéró = Suavemente
Òxúmaré = Orixá do arco-íris
Órun = Céu
Mabubas = Cascatas
Ójos = Olhos
887
José Eduardo Mendes Camargo
Esta Noite
Sonhei que eras uma borboleta,
E da lua desceste num facho de luz,
E repousaste nas nuvens,
E delas partiste em uma lágrima
de chuva,
E nas areias do mar te
transmutaste em sereia
E durante a madrugada me
seduziste
E pela manhã, quando despertei,
estavas a meu lado.
E da lua desceste num facho de luz,
E repousaste nas nuvens,
E delas partiste em uma lágrima
de chuva,
E nas areias do mar te
transmutaste em sereia
E durante a madrugada me
seduziste
E pela manhã, quando despertei,
estavas a meu lado.
979
José Eduardo Mendes Camargo
Recordações
Desejo me enlear em teus braços,
Envolver o teu corpo,
Penetrar a tua alma...
E num momento de fusão e intenso prazer,
Exorcizar todos os medos e julgamentos,
Libertar-me de quaisquer preconceitos
E na alegria sublime do amor
Encontrar a paz e a eternidade,
No encontro de mim mesmo
E com o passar do tempo,
Recolher este momento mágico de ternura,
Em nosso álbum das melhores recordações.
Envolver o teu corpo,
Penetrar a tua alma...
E num momento de fusão e intenso prazer,
Exorcizar todos os medos e julgamentos,
Libertar-me de quaisquer preconceitos
E na alegria sublime do amor
Encontrar a paz e a eternidade,
No encontro de mim mesmo
E com o passar do tempo,
Recolher este momento mágico de ternura,
Em nosso álbum das melhores recordações.
734
José Eduardo Mendes Camargo
Ouça
Quem silenciosamente
Provou o fel da dúvida,
Derramou lágrimas de tristeza,
Amargou longas esperas,
Sentiu-se só e abandonado,
Teve o descrédito de quase todos
E a tudo superou,
Hoje, nada assombra,
Tudo encanta,
Até mesmo os desencantos.
Provou o fel da dúvida,
Derramou lágrimas de tristeza,
Amargou longas esperas,
Sentiu-se só e abandonado,
Teve o descrédito de quase todos
E a tudo superou,
Hoje, nada assombra,
Tudo encanta,
Até mesmo os desencantos.
963
José Eduardo Mendes Camargo
Ouça
Quem silenciosamente
Provou o fel da dúvida,
Derramou lágrimas de tristeza,
Amargou longas esperas,
Sentiu-se só e abandonado,
Teve o descrédito de quase todos
E a tudo superou,
Hoje, nada assombra,
Tudo encanta,
Até mesmo os desencantos.
Provou o fel da dúvida,
Derramou lágrimas de tristeza,
Amargou longas esperas,
Sentiu-se só e abandonado,
Teve o descrédito de quase todos
E a tudo superou,
Hoje, nada assombra,
Tudo encanta,
Até mesmo os desencantos.
963
José Eduardo Mendes Camargo
Propósito
Não quero viver sob o signo do medo
Que paralisa os abraços,
Nos desperta o temor à morte e, ao depois dela,
Como dizia o poeta Drummond,
E então morrermos de medo
E nascerem flores pálidas e medrosas
Em nossos túmulos.
Quero sentir o ar puro da manhã em meus pulmões,
E tocar a terra com a sola de meus pés.
E fascinar-me com o canto dos pássaros,
As cores da natureza, o perfume das flores
E a beleza das mulheres.
E saltar, gritar e dizer:
Estou vivo, não me importa o grau de loucura
Que se me atribuam.
Que paralisa os abraços,
Nos desperta o temor à morte e, ao depois dela,
Como dizia o poeta Drummond,
E então morrermos de medo
E nascerem flores pálidas e medrosas
Em nossos túmulos.
Quero sentir o ar puro da manhã em meus pulmões,
E tocar a terra com a sola de meus pés.
E fascinar-me com o canto dos pássaros,
As cores da natureza, o perfume das flores
E a beleza das mulheres.
E saltar, gritar e dizer:
Estou vivo, não me importa o grau de loucura
Que se me atribuam.
778