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Poemas neste tema

Vida e Existência

Adriano Espínola

Adriano Espínola

Táxi

ou poema de amor passageiro

At the violet hour, when the eyes and back
turn upward from the desk, when the human engine waits
like a taxi throbbing waiting...

T.S. Eliot ("The waste land", 215-217)

Depois de tirar e enrolar no bolso minha gravata colorida;
depois do pique, atravessando ruas & portas,
bebendo a luz da tarde refletida em caras que nunca mais verei;
depois da ginástica bancária,
dos trambiques dados,
dos chopes na esquina;
de ter avistado as chapinhas de cerveja encravadas no asfalto
e o poema alucinado e cínico,
inscrito no corpo crivado de signos & senhas;

depois disso tudo:

de ter esquecido o dia,
sentir-me refeito e repleto, pronto para outra,
- me vejo aqui parado, esperando,
com o olhar atento, ansioso,
como se pela primeira vez,
à beira da calçada ou à beira de mim,
como se de repente
não pudesse perder o que exatamente não sei
nem saberia...

...TÁXI!
Êiii!... Aqui!
(Dou com a mão)

TUDO COMEÇA SUBITAMENTE ONDE ESTOU

- Ó Fortaleza, multidão de portas e postes batendo com sua luz
adolescente no olho da eternidade!
Fortaleza de 300 mil bocas ardentes como o sol,
famintas de amor e tragos de farinha.
Fortaleza de prédios mal-acabados, espetando a noite furiosa e redonda.
Fortaleza, avenida de neon, deslizando para todos os desejos.
Fortaleza, Bezerra de Menezes, seis mãos indo e voltando,
e uma dor viajando, num só sentido, no banco traseiro de um táxi,
para onde vamos?
Fortaleza, solidão escamosa, suor noturno, revelação.

EU TE PERCORRO

Eu, fiapo da mente de Deus que um dia avistei,
caminhando, sim, com o Universo inteiro,
que era sua própria cabeça iluminada,
pensando estrelas e galáxias
e as mais recôndidas nebulosas...

- Quem mais saberia disso?

(Este Táxi,
a rua rolando rente,
os telhados correndo, pensos, de um lado e outro,
a lata de lixo solitária,
as árvores caladas,
rostos e estrelas entrevistos da janela,
teu corpo passageiro,
tudo isso à tua frente ou dentro de ti,
que passa ou permanece no teu olhar-vida,
é o pensamento infinito de Deus
girando suas formas no espaço,
borbulhando mínimo e visível,
invisível e total,
surgindo
e desaparecendo,
transformando-se e ressurgindo
nas neuras insondáveis do tempo.)

Ó pensamento rugoso de Deus sobre os muros!
Sílabas soltas que são papéis pelas calçadas;
palavras, pés que transitam apressados
ruas, frases repentinas;

dias como sentenças cortando /
a cidade indiferente:

relâmpagos de sentido cruzando

o corpo

dentro da noite

dilacerantes
metáforas
dilaceradas

Balbucios

Orações entrecortadas

Gagueira fluente de tudo

- Ó áspera Linguagem em que viajamos sedentos de tradução!

No banco traseiro do carro, vamos nós, Moema e eu,
beijando já seus lábios levemente rachados
pelo sol da praia.

E porque em qualquer esquina posso me acabar
numa trombada,
e por certo sua dor será igual à minha,
{a alma espremida por entre ferragens}
- não importa onde,
você bem pode me entender, Steve,
lá na distante 175, Flower Rd., em Huntington, NY.

Ou se passo as mãos nas coxas de Moema
e percebo, excitado,
o tesão maior de Deus movendo as estrelas e todas as coisas,
você também me compreende, Affonso,
no alto de um edifício em Ipanema,
recitando Nietzsche, "a emoção é a vitória contra o tédio",
enquanto compõe para o JB a última crônica carnavalesca
da Nova República.

E você, metaleiro anônimo, lá de Cajazeiras, na Paraíba,
que não pôde ir ao Rock in Rio
curtir o Whitesnakes, o Queen, o heavymetal,
mas viu na TV,
e ficou ferido da maior solidão sonora do mundo,
- você também me entende, ó meu, no teu silêncio.
........................................................

Ok, minha filha, vamos nós,
zanzando neste Táxi muito louco,
por dentro da cidade,
rodando e girando,
girando e rodando
por aí, sempre.

Sim, passageiros somos,
turistas do instante.
Make it new, say. Sei.

Por isso, sinta minha língua afiada
sussurrando no teu ouvido,
enquanto dedilho sobre tua calcinha
uma ode que Arquíloco não fez
para sua esquiva Neóbula,
de cabeleira fugaz como essa noite.

Ah, tua mão direita, ávida borboleta esmaltada!
Sim, a mais pura sabedoria nasce do amor
entre um homem e uma mulher.

(Claro, há homovariações da verdade. Que importa?)
Os lábios ardentes, tocando-se, sabem mais;
abraçados, os corpos, idênticos ou não,
conhecem mais. Mais - o que seja: oh!
- fisgada de Deus adorando (de qualquer forma)
suas criaturas.

Confira o lance:

toda sabedoria passa pela carne;
toda iluminação atravessa os sentidos;
toda visão viaja pelo corpo,
- ponte de sangue sensitivo entre o céu e a terra,
vertigem da consciência esbarrando
nas paredes das costelas,
pequeno cais nervoso de todas as sensações
à beira do nada
- oceano calado te espreitando,
as amarras do corpo
partindo-se a cada minuto
do porto de si mesmo...

E eu aqui, sábio com as mãos entre tuas coxas,
soprando ávido
no teu ouvido
a lição luminosa:
sessenta e nove

E tua língua veloz: love
love
logos.

Mais depressa!
Direto para um motel na Praia do Futuro.

Por cima de tudo:
buracos,
quebra-molas,
pedras,
calçadas,
transeuntes,

principalmente por cima desta hora que atravesso
com um estremecimento súbito das portas e da alma.

Porque tudo é tremor, companheiro.
A vida treme onde bate - no centro ou nas bordas: - não importa.
Minha mão treme tocando de leve os peitos de Moema;
o carro treme transitando por entre trilhos e temores;
as luzes de neon estremecem ao golpear rostos súbitos pelas calçadas;
a avenida treme sob pneus e pensamentos sobressaltados;
a cidade toda estremece subindo pelos edifícios,
sacudida por ondas e gestos na maré das ruas;
treme a noite com suas estrelas pulsando solidão e distância.
Ruge e estremece a Via Láctea
feito um animal ferido (Ursa Maior?)
fugindo pelo infinito,
sangrando luz e abismos
por onde passa...

Porque o frio espreita
e o silêncio devora,
ESTREMECEMOS TODOS
a cada instante,

homens -
máquinas -
coisas -

com os músculos,
as fibras
e a febre dos circuitos
- em cruel expectativa...

Em frente, o Mercado São Sebastião
- fim e começo da avenida,
entrada e saída desta hora indiferente,
correndo pela pista de sentido duplo para o infinito.

Mercado São Sebastião por onde passo:
- bagaços de laranja, cascas de banana,
tocos de cigarro, papéis e jornais sujos,
rolando pelas coxias da lembrança.

Tudo ali - solto - gestos desgarrados do tempo.

Eu te penetro, suburbano labirinto, por entre acres
balcões, sentindo a respiração ofegante
das alfaces e frutas
- sobre minha pele -
querendo juntas docemente apodrecer ali.

E ver por trás das balanças homens de camiseta
2 998
Adriano Espínola

Adriano Espínola

Táxi

ou poema de amor passageiro

At the violet hour, when the eyes and back
turn upward from the desk, when the human engine waits
like a taxi throbbing waiting...

T.S. Eliot ("The waste land", 215-217)

Depois de tirar e enrolar no bolso minha gravata colorida;
depois do pique, atravessando ruas & portas,
bebendo a luz da tarde refletida em caras que nunca mais verei;
depois da ginástica bancária,
dos trambiques dados,
dos chopes na esquina;
de ter avistado as chapinhas de cerveja encravadas no asfalto
e o poema alucinado e cínico,
inscrito no corpo crivado de signos & senhas;

depois disso tudo:

de ter esquecido o dia,
sentir-me refeito e repleto, pronto para outra,
- me vejo aqui parado, esperando,
com o olhar atento, ansioso,
como se pela primeira vez,
à beira da calçada ou à beira de mim,
como se de repente
não pudesse perder o que exatamente não sei
nem saberia...

...TÁXI!
Êiii!... Aqui!
(Dou com a mão)

TUDO COMEÇA SUBITAMENTE ONDE ESTOU

- Ó Fortaleza, multidão de portas e postes batendo com sua luz
adolescente no olho da eternidade!
Fortaleza de 300 mil bocas ardentes como o sol,
famintas de amor e tragos de farinha.
Fortaleza de prédios mal-acabados, espetando a noite furiosa e redonda.
Fortaleza, avenida de neon, deslizando para todos os desejos.
Fortaleza, Bezerra de Menezes, seis mãos indo e voltando,
e uma dor viajando, num só sentido, no banco traseiro de um táxi,
para onde vamos?
Fortaleza, solidão escamosa, suor noturno, revelação.

EU TE PERCORRO

Eu, fiapo da mente de Deus que um dia avistei,
caminhando, sim, com o Universo inteiro,
que era sua própria cabeça iluminada,
pensando estrelas e galáxias
e as mais recôndidas nebulosas...

- Quem mais saberia disso?

(Este Táxi,
a rua rolando rente,
os telhados correndo, pensos, de um lado e outro,
a lata de lixo solitária,
as árvores caladas,
rostos e estrelas entrevistos da janela,
teu corpo passageiro,
tudo isso à tua frente ou dentro de ti,
que passa ou permanece no teu olhar-vida,
é o pensamento infinito de Deus
girando suas formas no espaço,
borbulhando mínimo e visível,
invisível e total,
surgindo
e desaparecendo,
transformando-se e ressurgindo
nas neuras insondáveis do tempo.)

Ó pensamento rugoso de Deus sobre os muros!
Sílabas soltas que são papéis pelas calçadas;
palavras, pés que transitam apressados
ruas, frases repentinas;

dias como sentenças cortando /
a cidade indiferente:

relâmpagos de sentido cruzando

o corpo

dentro da noite

dilacerantes
metáforas
dilaceradas

Balbucios

Orações entrecortadas

Gagueira fluente de tudo

- Ó áspera Linguagem em que viajamos sedentos de tradução!

No banco traseiro do carro, vamos nós, Moema e eu,
beijando já seus lábios levemente rachados
pelo sol da praia.

E porque em qualquer esquina posso me acabar
numa trombada,
e por certo sua dor será igual à minha,
{a alma espremida por entre ferragens}
- não importa onde,
você bem pode me entender, Steve,
lá na distante 175, Flower Rd., em Huntington, NY.

Ou se passo as mãos nas coxas de Moema
e percebo, excitado,
o tesão maior de Deus movendo as estrelas e todas as coisas,
você também me compreende, Affonso,
no alto de um edifício em Ipanema,
recitando Nietzsche, "a emoção é a vitória contra o tédio",
enquanto compõe para o JB a última crônica carnavalesca
da Nova República.

E você, metaleiro anônimo, lá de Cajazeiras, na Paraíba,
que não pôde ir ao Rock in Rio
curtir o Whitesnakes, o Queen, o heavymetal,
mas viu na TV,
e ficou ferido da maior solidão sonora do mundo,
- você também me entende, ó meu, no teu silêncio.
........................................................

Ok, minha filha, vamos nós,
zanzando neste Táxi muito louco,
por dentro da cidade,
rodando e girando,
girando e rodando
por aí, sempre.

Sim, passageiros somos,
turistas do instante.
Make it new, say. Sei.

Por isso, sinta minha língua afiada
sussurrando no teu ouvido,
enquanto dedilho sobre tua calcinha
uma ode que Arquíloco não fez
para sua esquiva Neóbula,
de cabeleira fugaz como essa noite.

Ah, tua mão direita, ávida borboleta esmaltada!
Sim, a mais pura sabedoria nasce do amor
entre um homem e uma mulher.

(Claro, há homovariações da verdade. Que importa?)
Os lábios ardentes, tocando-se, sabem mais;
abraçados, os corpos, idênticos ou não,
conhecem mais. Mais - o que seja: oh!
- fisgada de Deus adorando (de qualquer forma)
suas criaturas.

Confira o lance:

toda sabedoria passa pela carne;
toda iluminação atravessa os sentidos;
toda visão viaja pelo corpo,
- ponte de sangue sensitivo entre o céu e a terra,
vertigem da consciência esbarrando
nas paredes das costelas,
pequeno cais nervoso de todas as sensações
à beira do nada
- oceano calado te espreitando,
as amarras do corpo
partindo-se a cada minuto
do porto de si mesmo...

E eu aqui, sábio com as mãos entre tuas coxas,
soprando ávido
no teu ouvido
a lição luminosa:
sessenta e nove

E tua língua veloz: love
love
logos.

Mais depressa!
Direto para um motel na Praia do Futuro.

Por cima de tudo:
buracos,
quebra-molas,
pedras,
calçadas,
transeuntes,

principalmente por cima desta hora que atravesso
com um estremecimento súbito das portas e da alma.

Porque tudo é tremor, companheiro.
A vida treme onde bate - no centro ou nas bordas: - não importa.
Minha mão treme tocando de leve os peitos de Moema;
o carro treme transitando por entre trilhos e temores;
as luzes de neon estremecem ao golpear rostos súbitos pelas calçadas;
a avenida treme sob pneus e pensamentos sobressaltados;
a cidade toda estremece subindo pelos edifícios,
sacudida por ondas e gestos na maré das ruas;
treme a noite com suas estrelas pulsando solidão e distância.
Ruge e estremece a Via Láctea
feito um animal ferido (Ursa Maior?)
fugindo pelo infinito,
sangrando luz e abismos
por onde passa...

Porque o frio espreita
e o silêncio devora,
ESTREMECEMOS TODOS
a cada instante,

homens -
máquinas -
coisas -

com os músculos,
as fibras
e a febre dos circuitos
- em cruel expectativa...

Em frente, o Mercado São Sebastião
- fim e começo da avenida,
entrada e saída desta hora indiferente,
correndo pela pista de sentido duplo para o infinito.

Mercado São Sebastião por onde passo:
- bagaços de laranja, cascas de banana,
tocos de cigarro, papéis e jornais sujos,
rolando pelas coxias da lembrança.

Tudo ali - solto - gestos desgarrados do tempo.

Eu te penetro, suburbano labirinto, por entre acres
balcões, sentindo a respiração ofegante
das alfaces e frutas
- sobre minha pele -
querendo juntas docemente apodrecer ali.

E ver por trás das balanças homens de camiseta
2 998
Éric Ponty

Éric Ponty

Transmutação do Pó

Pode o pobre nobre pó recriar
o vazio dissimulado nas entranhas do significado
na aurora primaveril do novotempo.

O pó morre envelhecendo só,
no nó das esparralhadas histórias
e o poeta ardiloso
quer recriar a musíngua num febril gesto.

O antanho e o amanhecer falecem na espera
um minuto de perspectiva apenas mais um minuto
entre vozes que soaram bem claro opacas foram
em inexprimir o de uma só condição
sintaxe articulada em malicias da contradição
um detalhe de uma renascença
um detalhe de aliteração
não se deve exprimir e silenciar no antanho
um amanhecer claro, porém escuro
uma história oculta dentro de outra história
ecoando
no amarelecimento da memória.

Nas áreas esquecidas da memória, o pó é um Dó,
arquivado nas lembranças dos versos inversos da dor,
articulada conjugação do primeiro último verso
implantado nos isolados seres em dor e divagação
radioativas imagens cavalgadas de silêncio pleno
no eloqüente murmuro anunciado em tropel,
desencanto envolto no pó.

E o pó se fez homem se fez poeta
envolvido pelo silêncio de imagens
de tanto percorrer para fora deste universo
fundido antes de ser e antes de estar
solidão é longínqua
e o espectador
não percebe a eloqüência da complexidade
transferida num rápido olhar do objeto
na facilidade tão fácil a perda de profundidade
de um instante abjeto e fugas de subjetividade
do gesto de se fazer compreensível.

Do alto da pedra em mar alto
observar luzindo embarcação náutica
noite traz seus preceitos, seus medos,
neste negro caminho de águas claras
onipotência e fragilidade sussurrando versos vãos
último toque da linguarte
último toque do pode ser
último toque de proporcionar uma visão
último toque do penúltimo toque do tocador
e a vida foi vida em fibra
jaz um mar.

Elaborada palavra desfigurando-se em nada
um enlace foi formado de um grito em suspiro
endiabrada cantata só de vento lento
virgens imagens no arpoador foram pronunciadas
sopro de uma trombeta marinha
e o fundo funda-se no próprio fundo
irregular omivisão do tempo cru em movimento
e o homem se fez pó se fez poeta se fez Dó
era um início de um outro princípio
eis as gêneses consumidas em marinhas águas
um inevitável encontro louco
metamorfosear-se em pó para ser novo
e ressurgir cantando e ressurgir do fundo
deste oco que é o sopro da sobrevida de um cantador.

Nobre pó rima em Dó de uma sinfonia finda
ninfas do desejo em asas falhas sobrevoam
a recriar novas línguas,e a recriar ainda
último verso da criação
e o pó se fez presente que se fez ausente
transfigurar-se do desenlace febril
tudo não passara de um sonho senil
diante de um penhasco
agora ressuscitado dos pesadelos
adquire lento
perspectiva da observação.

O primeiro verbo do início foi um sopro
delirio interior de um Deus-Tudo
de barro,
este artefato de lodo fez o homem,
e com um novo sopro de novo o desfez seu ato
que do pó fênix redimiu todas as formas
num novo ato só.

884
Éric Ponty

Éric Ponty

Transmutação do Pó

Pode o pobre nobre pó recriar
o vazio dissimulado nas entranhas do significado
na aurora primaveril do novotempo.

O pó morre envelhecendo só,
no nó das esparralhadas histórias
e o poeta ardiloso
quer recriar a musíngua num febril gesto.

O antanho e o amanhecer falecem na espera
um minuto de perspectiva apenas mais um minuto
entre vozes que soaram bem claro opacas foram
em inexprimir o de uma só condição
sintaxe articulada em malicias da contradição
um detalhe de uma renascença
um detalhe de aliteração
não se deve exprimir e silenciar no antanho
um amanhecer claro, porém escuro
uma história oculta dentro de outra história
ecoando
no amarelecimento da memória.

Nas áreas esquecidas da memória, o pó é um Dó,
arquivado nas lembranças dos versos inversos da dor,
articulada conjugação do primeiro último verso
implantado nos isolados seres em dor e divagação
radioativas imagens cavalgadas de silêncio pleno
no eloqüente murmuro anunciado em tropel,
desencanto envolto no pó.

E o pó se fez homem se fez poeta
envolvido pelo silêncio de imagens
de tanto percorrer para fora deste universo
fundido antes de ser e antes de estar
solidão é longínqua
e o espectador
não percebe a eloqüência da complexidade
transferida num rápido olhar do objeto
na facilidade tão fácil a perda de profundidade
de um instante abjeto e fugas de subjetividade
do gesto de se fazer compreensível.

Do alto da pedra em mar alto
observar luzindo embarcação náutica
noite traz seus preceitos, seus medos,
neste negro caminho de águas claras
onipotência e fragilidade sussurrando versos vãos
último toque da linguarte
último toque do pode ser
último toque de proporcionar uma visão
último toque do penúltimo toque do tocador
e a vida foi vida em fibra
jaz um mar.

Elaborada palavra desfigurando-se em nada
um enlace foi formado de um grito em suspiro
endiabrada cantata só de vento lento
virgens imagens no arpoador foram pronunciadas
sopro de uma trombeta marinha
e o fundo funda-se no próprio fundo
irregular omivisão do tempo cru em movimento
e o homem se fez pó se fez poeta se fez Dó
era um início de um outro princípio
eis as gêneses consumidas em marinhas águas
um inevitável encontro louco
metamorfosear-se em pó para ser novo
e ressurgir cantando e ressurgir do fundo
deste oco que é o sopro da sobrevida de um cantador.

Nobre pó rima em Dó de uma sinfonia finda
ninfas do desejo em asas falhas sobrevoam
a recriar novas línguas,e a recriar ainda
último verso da criação
e o pó se fez presente que se fez ausente
transfigurar-se do desenlace febril
tudo não passara de um sonho senil
diante de um penhasco
agora ressuscitado dos pesadelos
adquire lento
perspectiva da observação.

O primeiro verbo do início foi um sopro
delirio interior de um Deus-Tudo
de barro,
este artefato de lodo fez o homem,
e com um novo sopro de novo o desfez seu ato
que do pó fênix redimiu todas as formas
num novo ato só.

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