Poemas neste tema
Vida e Existência
Elisabeth Veiga
Enigma
Malícia, fidúcia:
as unhas pintadas de mel.
E o vestido da nudez oculta
a velhice da alma.
Verdes mares longínquos
da mocidade: ressaca
de vinho tinto.
Que punhal é esse que não vejo
e usas, de súbito
e engulo,
e com uma cobra por echarpe
sirvo a mesa
de luto:
não sou a mesma. E quem és?
Quem és? Responde
com a tua inocência de um tiro.
Em que bolso estava
quem eu vejo?
Mas tão depressa que parece nada.
A mesa é a mesma:
é madeira sem surpresa.
O que é servido evapora.
Quem eras?
as unhas pintadas de mel.
E o vestido da nudez oculta
a velhice da alma.
Verdes mares longínquos
da mocidade: ressaca
de vinho tinto.
Que punhal é esse que não vejo
e usas, de súbito
e engulo,
e com uma cobra por echarpe
sirvo a mesa
de luto:
não sou a mesma. E quem és?
Quem és? Responde
com a tua inocência de um tiro.
Em que bolso estava
quem eu vejo?
Mas tão depressa que parece nada.
A mesa é a mesma:
é madeira sem surpresa.
O que é servido evapora.
Quem eras?
843
Elisabeth Veiga
Enigma
Malícia, fidúcia:
as unhas pintadas de mel.
E o vestido da nudez oculta
a velhice da alma.
Verdes mares longínquos
da mocidade: ressaca
de vinho tinto.
Que punhal é esse que não vejo
e usas, de súbito
e engulo,
e com uma cobra por echarpe
sirvo a mesa
de luto:
não sou a mesma. E quem és?
Quem és? Responde
com a tua inocência de um tiro.
Em que bolso estava
quem eu vejo?
Mas tão depressa que parece nada.
A mesa é a mesma:
é madeira sem surpresa.
O que é servido evapora.
Quem eras?
as unhas pintadas de mel.
E o vestido da nudez oculta
a velhice da alma.
Verdes mares longínquos
da mocidade: ressaca
de vinho tinto.
Que punhal é esse que não vejo
e usas, de súbito
e engulo,
e com uma cobra por echarpe
sirvo a mesa
de luto:
não sou a mesma. E quem és?
Quem és? Responde
com a tua inocência de um tiro.
Em que bolso estava
quem eu vejo?
Mas tão depressa que parece nada.
A mesa é a mesma:
é madeira sem surpresa.
O que é servido evapora.
Quem eras?
843
Emílio Moura
Toada dos que não Podem Amar
Os que não podem amar
estão cantando.
A luz é tão pouca, o ar é tão raro
que ninguém sabe como eles ainda vivem.
Os que não podem amar
estão cantando,
estão cantando,
e morrendo.
Ninguém ouve o canto que soluça
por detrás das grades.
estão cantando.
A luz é tão pouca, o ar é tão raro
que ninguém sabe como eles ainda vivem.
Os que não podem amar
estão cantando,
estão cantando,
e morrendo.
Ninguém ouve o canto que soluça
por detrás das grades.
1 369
Eolo Yberê Líbera
Certezas
Não sei os mistérios, as mãos, as vidraças;
não sei a hora nem o dia do amor
que em vida é pressa, é vago, é frágil.
Não sei as heranças - o que existe
depois da última hora
do último beijo e da última espera
atrás da porta.
Não sei os meus passos e nem as esquinas.
Não sei se o que encaro é pura rotina
ou etapa que se vence, por mero acaso.
Não sei as vidas que me cercam
e que aguardam atentas, meu gesto
minhas palavras estéreis e amenas
- como algumas mulheres
que cortam a paisagem sem deixar marca.
Não sei o certo e o errado
o que fazer diante do impasse
na dúvida, não sei o resto
na certeza, não sei a meta.
Só sei mesmo que todo tempo é curto
e que meu chão é este :
feito de pedra e pluma
em barro e nuvem e irremediavelmente, meu.
não sei a hora nem o dia do amor
que em vida é pressa, é vago, é frágil.
Não sei as heranças - o que existe
depois da última hora
do último beijo e da última espera
atrás da porta.
Não sei os meus passos e nem as esquinas.
Não sei se o que encaro é pura rotina
ou etapa que se vence, por mero acaso.
Não sei as vidas que me cercam
e que aguardam atentas, meu gesto
minhas palavras estéreis e amenas
- como algumas mulheres
que cortam a paisagem sem deixar marca.
Não sei o certo e o errado
o que fazer diante do impasse
na dúvida, não sei o resto
na certeza, não sei a meta.
Só sei mesmo que todo tempo é curto
e que meu chão é este :
feito de pedra e pluma
em barro e nuvem e irremediavelmente, meu.
1 004
Eolo Yberê Líbera
Certezas
Não sei os mistérios, as mãos, as vidraças;
não sei a hora nem o dia do amor
que em vida é pressa, é vago, é frágil.
Não sei as heranças - o que existe
depois da última hora
do último beijo e da última espera
atrás da porta.
Não sei os meus passos e nem as esquinas.
Não sei se o que encaro é pura rotina
ou etapa que se vence, por mero acaso.
Não sei as vidas que me cercam
e que aguardam atentas, meu gesto
minhas palavras estéreis e amenas
- como algumas mulheres
que cortam a paisagem sem deixar marca.
Não sei o certo e o errado
o que fazer diante do impasse
na dúvida, não sei o resto
na certeza, não sei a meta.
Só sei mesmo que todo tempo é curto
e que meu chão é este :
feito de pedra e pluma
em barro e nuvem e irremediavelmente, meu.
não sei a hora nem o dia do amor
que em vida é pressa, é vago, é frágil.
Não sei as heranças - o que existe
depois da última hora
do último beijo e da última espera
atrás da porta.
Não sei os meus passos e nem as esquinas.
Não sei se o que encaro é pura rotina
ou etapa que se vence, por mero acaso.
Não sei as vidas que me cercam
e que aguardam atentas, meu gesto
minhas palavras estéreis e amenas
- como algumas mulheres
que cortam a paisagem sem deixar marca.
Não sei o certo e o errado
o que fazer diante do impasse
na dúvida, não sei o resto
na certeza, não sei a meta.
Só sei mesmo que todo tempo é curto
e que meu chão é este :
feito de pedra e pluma
em barro e nuvem e irremediavelmente, meu.
1 004
Eolo Yberê Líbera
Certezas
Não sei os mistérios, as mãos, as vidraças;
não sei a hora nem o dia do amor
que em vida é pressa, é vago, é frágil.
Não sei as heranças - o que existe
depois da última hora
do último beijo e da última espera
atrás da porta.
Não sei os meus passos e nem as esquinas.
Não sei se o que encaro é pura rotina
ou etapa que se vence, por mero acaso.
Não sei as vidas que me cercam
e que aguardam atentas, meu gesto
minhas palavras estéreis e amenas
- como algumas mulheres
que cortam a paisagem sem deixar marca.
Não sei o certo e o errado
o que fazer diante do impasse
na dúvida, não sei o resto
na certeza, não sei a meta.
Só sei mesmo que todo tempo é curto
e que meu chão é este :
feito de pedra e pluma
em barro e nuvem e irremediavelmente, meu.
não sei a hora nem o dia do amor
que em vida é pressa, é vago, é frágil.
Não sei as heranças - o que existe
depois da última hora
do último beijo e da última espera
atrás da porta.
Não sei os meus passos e nem as esquinas.
Não sei se o que encaro é pura rotina
ou etapa que se vence, por mero acaso.
Não sei as vidas que me cercam
e que aguardam atentas, meu gesto
minhas palavras estéreis e amenas
- como algumas mulheres
que cortam a paisagem sem deixar marca.
Não sei o certo e o errado
o que fazer diante do impasse
na dúvida, não sei o resto
na certeza, não sei a meta.
Só sei mesmo que todo tempo é curto
e que meu chão é este :
feito de pedra e pluma
em barro e nuvem e irremediavelmente, meu.
1 004
Everaldo Ygor
Uma Grande Fenda
Uma grande fenda se abre
Parece que tudo vai desabar
Tudo está rumando para sua direção
Os seres estão caindo
Neste precipício eterno
Lá se vai a escuridão
Lá se vão as trevas
Nem a luz sobrevive
Não existe mais nada
O plano desapareceu
Lá se vai o nada
Lá se vai a poesia
Lá se vai...
Esperem um pouco
O que é aquele pequeno ponto?
Lá embaixo!
Olhem só,
parece uma semente...
Parece que tudo vai desabar
Tudo está rumando para sua direção
Os seres estão caindo
Neste precipício eterno
Lá se vai a escuridão
Lá se vão as trevas
Nem a luz sobrevive
Não existe mais nada
O plano desapareceu
Lá se vai o nada
Lá se vai a poesia
Lá se vai...
Esperem um pouco
O que é aquele pequeno ponto?
Lá embaixo!
Olhem só,
parece uma semente...
881
Eunaldo Costa
Flamejam luzes no meu peito
Flamejam luzes no meu peito
Quando começo a ouvir
A primeira partitura da madrugada,
Então, em êxtase, vôo como um pássaro
E colho a estrela que o tempo
Modelou para as minhas mãos
Que vão traçar o rumo dos rios
Que andam com o corpo ferido de âncoras
Alado, sinto que eu e o som
Da vida somos um só,
E que minha alma, banhada
De prata e sol, se transforma
Numa rosa mágica de um signo do zodíaco,
Neste momento começo a ouvir
A segunda partitura da madrugada.
E a minha consciência se veste do verdor das algas.
Quando começo a ouvir
A primeira partitura da madrugada,
Então, em êxtase, vôo como um pássaro
E colho a estrela que o tempo
Modelou para as minhas mãos
Que vão traçar o rumo dos rios
Que andam com o corpo ferido de âncoras
Alado, sinto que eu e o som
Da vida somos um só,
E que minha alma, banhada
De prata e sol, se transforma
Numa rosa mágica de um signo do zodíaco,
Neste momento começo a ouvir
A segunda partitura da madrugada.
E a minha consciência se veste do verdor das algas.
904
Elisa Lucinda
Incompreensão dos Mistérios
Saudades de minha mãe.
Sua morte faz um ano e um fato
Essa coisa fez
eu brigar pela primeira vez
com a natureza das coisas:
que desperdício, que descuido
que burrice de Deus!
Não de ela perder a vida
mas a vida de perdê-la.
Olho pra ela e seu retrato.
Nesse dia, Deus deu uma saidinha
e o vice era fraco.
Sua morte faz um ano e um fato
Essa coisa fez
eu brigar pela primeira vez
com a natureza das coisas:
que desperdício, que descuido
que burrice de Deus!
Não de ela perder a vida
mas a vida de perdê-la.
Olho pra ela e seu retrato.
Nesse dia, Deus deu uma saidinha
e o vice era fraco.
2 035
Elisa Lucinda
Safena
Sabe o que é um coração
amar ao máximo de seu sangue?
Bater até o auge de seu baticum?
Não, você não sabe de jeito nenhum.
Agora chega.
Reforma no meu peito!
Pedreiros, pintores, raspadores de mágoas
aproximem-se!
Rolos, rolas, tinta, tijolo
comecem a obra!
Por favor, mestre de Horas
Tempo, meu fiel carpinteiro
comece você primeiro passando verniz nos móveis
e vamos tudo de novo do novo começo.
Iansã, Oxum, Afrodite, Vênus e Nossa Senhora
apertem os cintos
Adeus ao sinto muito do meu jeito
Pitos ventres pernas
aticem as velas
que lá vou de novo na solteirice
exposta ao mar da mulatice
à honra das novas uniões
Vassouras, rodos, águas, flanelas e cercas
Protejam as beiras
lustrem as superfícies
aspirem os tapetes
Vai começar o banquete
de amar de novo
Gatos, heróis, artistas, príncipes e foliões
Façam todos suas inscrições.
Sim. Vestirei vermelho carmim escarlate
O homem que hoje me amar
Encontrará outro lá dentro.
Pois que o mate.
amar ao máximo de seu sangue?
Bater até o auge de seu baticum?
Não, você não sabe de jeito nenhum.
Agora chega.
Reforma no meu peito!
Pedreiros, pintores, raspadores de mágoas
aproximem-se!
Rolos, rolas, tinta, tijolo
comecem a obra!
Por favor, mestre de Horas
Tempo, meu fiel carpinteiro
comece você primeiro passando verniz nos móveis
e vamos tudo de novo do novo começo.
Iansã, Oxum, Afrodite, Vênus e Nossa Senhora
apertem os cintos
Adeus ao sinto muito do meu jeito
Pitos ventres pernas
aticem as velas
que lá vou de novo na solteirice
exposta ao mar da mulatice
à honra das novas uniões
Vassouras, rodos, águas, flanelas e cercas
Protejam as beiras
lustrem as superfícies
aspirem os tapetes
Vai começar o banquete
de amar de novo
Gatos, heróis, artistas, príncipes e foliões
Façam todos suas inscrições.
Sim. Vestirei vermelho carmim escarlate
O homem que hoje me amar
Encontrará outro lá dentro.
Pois que o mate.
2 799
Elisa Lucinda
Safena
Sabe o que é um coração
amar ao máximo de seu sangue?
Bater até o auge de seu baticum?
Não, você não sabe de jeito nenhum.
Agora chega.
Reforma no meu peito!
Pedreiros, pintores, raspadores de mágoas
aproximem-se!
Rolos, rolas, tinta, tijolo
comecem a obra!
Por favor, mestre de Horas
Tempo, meu fiel carpinteiro
comece você primeiro passando verniz nos móveis
e vamos tudo de novo do novo começo.
Iansã, Oxum, Afrodite, Vênus e Nossa Senhora
apertem os cintos
Adeus ao sinto muito do meu jeito
Pitos ventres pernas
aticem as velas
que lá vou de novo na solteirice
exposta ao mar da mulatice
à honra das novas uniões
Vassouras, rodos, águas, flanelas e cercas
Protejam as beiras
lustrem as superfícies
aspirem os tapetes
Vai começar o banquete
de amar de novo
Gatos, heróis, artistas, príncipes e foliões
Façam todos suas inscrições.
Sim. Vestirei vermelho carmim escarlate
O homem que hoje me amar
Encontrará outro lá dentro.
Pois que o mate.
amar ao máximo de seu sangue?
Bater até o auge de seu baticum?
Não, você não sabe de jeito nenhum.
Agora chega.
Reforma no meu peito!
Pedreiros, pintores, raspadores de mágoas
aproximem-se!
Rolos, rolas, tinta, tijolo
comecem a obra!
Por favor, mestre de Horas
Tempo, meu fiel carpinteiro
comece você primeiro passando verniz nos móveis
e vamos tudo de novo do novo começo.
Iansã, Oxum, Afrodite, Vênus e Nossa Senhora
apertem os cintos
Adeus ao sinto muito do meu jeito
Pitos ventres pernas
aticem as velas
que lá vou de novo na solteirice
exposta ao mar da mulatice
à honra das novas uniões
Vassouras, rodos, águas, flanelas e cercas
Protejam as beiras
lustrem as superfícies
aspirem os tapetes
Vai começar o banquete
de amar de novo
Gatos, heróis, artistas, príncipes e foliões
Façam todos suas inscrições.
Sim. Vestirei vermelho carmim escarlate
O homem que hoje me amar
Encontrará outro lá dentro.
Pois que o mate.
2 799
Emílio Moura
Renúncia
Se eu cheguei a esta renúncia total, foi porque o meu sofrimento me transfigurou sem que eu o percebesse.
Aqui estou, tímido e humilde.
Parece que aqui estou há séculos.
Meus olhos já não compreendem outra realidade.
A realidade que amei dorme na sombra.
Aqui estou, tímido e humilde.
Parece que aqui estou há séculos.
Meus olhos já não compreendem outra realidade.
A realidade que amei dorme na sombra.
1 098
Epiphânia Nogueira
Saudade Ancestral
A saudade ancestral me trouxe ao mar,
e o líquido elemento me acolheu;
a imensidão azul foi o meu lar,
e fui peixe, e fui concha, e não fui eu.
Das ondas meu cabelo foi espuma
e brinquei nua e pura à luz da lua.
Com o verme e com o lodo me fiz uma,
e renasci, eterna, à voz que é tua.
Vivo, o incêndio do sol a água queimou,
e toda a minha vida vi arder
nesse mar onde a luz me penetrou.
E o sangue que foi água se refez;
e a carne que foi lodo quis viver;
e, à luz do sol o mar o ser me fez
e o líquido elemento me acolheu;
a imensidão azul foi o meu lar,
e fui peixe, e fui concha, e não fui eu.
Das ondas meu cabelo foi espuma
e brinquei nua e pura à luz da lua.
Com o verme e com o lodo me fiz uma,
e renasci, eterna, à voz que é tua.
Vivo, o incêndio do sol a água queimou,
e toda a minha vida vi arder
nesse mar onde a luz me penetrou.
E o sangue que foi água se refez;
e a carne que foi lodo quis viver;
e, à luz do sol o mar o ser me fez
976
Eliane Minervina de Castro
O poeta Sotero
R. B. SOTERO é um poeta que segue uma linha regional, com traços de um existencialismo abstrato refletido em seus versos. Poderia comparar algumas de suas estrofes mais com o pensamento de Nietzche do que com o de Paul Sartre, pois existe um pessimismo aparente em seus poemas, um sentimento de angústia e desilusão que são envolvidos por metáforas, hipérboles e outras figuras.
Outra característica fundamental é que seus poemas são carregados de um arcaísmo lírico, herança talvez de algum poeta português que lhe tenha influenciado em algum momento de sua vida. Parece-me que se prende a estes detalhes de aspecto lusitano como vimos em Machado de Assis, o que o torna contraditório no que se refere ao seu caráter regionalista; mescla estas nuances produzindo um texto próprio, particular, de grande representação de seus sentimentos e emoções.
Considero-o um poeta emergente com uma grande tendência aos herméticos; alguns traços de erotismo mesclam-se com uma profunda carga místico-religiosa e depressiva.
Outra característica fundamental é que seus poemas são carregados de um arcaísmo lírico, herança talvez de algum poeta português que lhe tenha influenciado em algum momento de sua vida. Parece-me que se prende a estes detalhes de aspecto lusitano como vimos em Machado de Assis, o que o torna contraditório no que se refere ao seu caráter regionalista; mescla estas nuances produzindo um texto próprio, particular, de grande representação de seus sentimentos e emoções.
Considero-o um poeta emergente com uma grande tendência aos herméticos; alguns traços de erotismo mesclam-se com uma profunda carga místico-religiosa e depressiva.
931
Adriano Espínola
Táxi
ou poema de amor passageiro
At the violet hour, when the eyes and back
turn upward from the desk, when the human engine waits
like a taxi throbbing waiting...
T.S. Eliot ("The waste land", 215-217)
Depois de tirar e enrolar no bolso minha gravata colorida;
depois do pique, atravessando ruas & portas,
bebendo a luz da tarde refletida em caras que nunca mais verei;
depois da ginástica bancária,
dos trambiques dados,
dos chopes na esquina;
de ter avistado as chapinhas de cerveja encravadas no asfalto
e o poema alucinado e cínico,
inscrito no corpo crivado de signos & senhas;
depois disso tudo:
de ter esquecido o dia,
sentir-me refeito e repleto, pronto para outra,
- me vejo aqui parado, esperando,
com o olhar atento, ansioso,
como se pela primeira vez,
à beira da calçada ou à beira de mim,
como se de repente
não pudesse perder o que exatamente não sei
nem saberia...
...TÁXI!
Êiii!... Aqui!
(Dou com a mão)
TUDO COMEÇA SUBITAMENTE ONDE ESTOU
- Ó Fortaleza, multidão de portas e postes batendo com sua luz
adolescente no olho da eternidade!
Fortaleza de 300 mil bocas ardentes como o sol,
famintas de amor e tragos de farinha.
Fortaleza de prédios mal-acabados, espetando a noite furiosa e redonda.
Fortaleza, avenida de neon, deslizando para todos os desejos.
Fortaleza, Bezerra de Menezes, seis mãos indo e voltando,
e uma dor viajando, num só sentido, no banco traseiro de um táxi,
para onde vamos?
Fortaleza, solidão escamosa, suor noturno, revelação.
EU TE PERCORRO
Eu, fiapo da mente de Deus que um dia avistei,
caminhando, sim, com o Universo inteiro,
que era sua própria cabeça iluminada,
pensando estrelas e galáxias
e as mais recôndidas nebulosas...
- Quem mais saberia disso?
(Este Táxi,
a rua rolando rente,
os telhados correndo, pensos, de um lado e outro,
a lata de lixo solitária,
as árvores caladas,
rostos e estrelas entrevistos da janela,
teu corpo passageiro,
tudo isso à tua frente ou dentro de ti,
que passa ou permanece no teu olhar-vida,
é o pensamento infinito de Deus
girando suas formas no espaço,
borbulhando mínimo e visível,
invisível e total,
surgindo
e desaparecendo,
transformando-se e ressurgindo
nas neuras insondáveis do tempo.)
Ó pensamento rugoso de Deus sobre os muros!
Sílabas soltas que são papéis pelas calçadas;
palavras, pés que transitam apressados
ruas, frases repentinas;
dias como sentenças cortando /
a cidade indiferente:
relâmpagos de sentido cruzando
o corpo
dentro da noite
dilacerantes
metáforas
dilaceradas
Balbucios
Orações entrecortadas
Gagueira fluente de tudo
- Ó áspera Linguagem em que viajamos sedentos de tradução!
No banco traseiro do carro, vamos nós, Moema e eu,
beijando já seus lábios levemente rachados
pelo sol da praia.
E porque em qualquer esquina posso me acabar
numa trombada,
e por certo sua dor será igual à minha,
{a alma espremida por entre ferragens}
- não importa onde,
você bem pode me entender, Steve,
lá na distante 175, Flower Rd., em Huntington, NY.
Ou se passo as mãos nas coxas de Moema
e percebo, excitado,
o tesão maior de Deus movendo as estrelas e todas as coisas,
você também me compreende, Affonso,
no alto de um edifício em Ipanema,
recitando Nietzsche, "a emoção é a vitória contra o tédio",
enquanto compõe para o JB a última crônica carnavalesca
da Nova República.
E você, metaleiro anônimo, lá de Cajazeiras, na Paraíba,
que não pôde ir ao Rock in Rio
curtir o Whitesnakes, o Queen, o heavymetal,
mas viu na TV,
e ficou ferido da maior solidão sonora do mundo,
- você também me entende, ó meu, no teu silêncio.
........................................................
Ok, minha filha, vamos nós,
zanzando neste Táxi muito louco,
por dentro da cidade,
rodando e girando,
girando e rodando
por aí, sempre.
Sim, passageiros somos,
turistas do instante.
Make it new, say. Sei.
Por isso, sinta minha língua afiada
sussurrando no teu ouvido,
enquanto dedilho sobre tua calcinha
uma ode que Arquíloco não fez
para sua esquiva Neóbula,
de cabeleira fugaz como essa noite.
Ah, tua mão direita, ávida borboleta esmaltada!
Sim, a mais pura sabedoria nasce do amor
entre um homem e uma mulher.
(Claro, há homovariações da verdade. Que importa?)
Os lábios ardentes, tocando-se, sabem mais;
abraçados, os corpos, idênticos ou não,
conhecem mais. Mais - o que seja: oh!
- fisgada de Deus adorando (de qualquer forma)
suas criaturas.
Confira o lance:
toda sabedoria passa pela carne;
toda iluminação atravessa os sentidos;
toda visão viaja pelo corpo,
- ponte de sangue sensitivo entre o céu e a terra,
vertigem da consciência esbarrando
nas paredes das costelas,
pequeno cais nervoso de todas as sensações
à beira do nada
- oceano calado te espreitando,
as amarras do corpo
partindo-se a cada minuto
do porto de si mesmo...
E eu aqui, sábio com as mãos entre tuas coxas,
soprando ávido
no teu ouvido
a lição luminosa:
sessenta e nove
E tua língua veloz: love
love
logos.
Mais depressa!
Direto para um motel na Praia do Futuro.
Por cima de tudo:
buracos,
quebra-molas,
pedras,
calçadas,
transeuntes,
principalmente por cima desta hora que atravesso
com um estremecimento súbito das portas e da alma.
Porque tudo é tremor, companheiro.
A vida treme onde bate - no centro ou nas bordas: - não importa.
Minha mão treme tocando de leve os peitos de Moema;
o carro treme transitando por entre trilhos e temores;
as luzes de neon estremecem ao golpear rostos súbitos pelas calçadas;
a avenida treme sob pneus e pensamentos sobressaltados;
a cidade toda estremece subindo pelos edifícios,
sacudida por ondas e gestos na maré das ruas;
treme a noite com suas estrelas pulsando solidão e distância.
Ruge e estremece a Via Láctea
feito um animal ferido (Ursa Maior?)
fugindo pelo infinito,
sangrando luz e abismos
por onde passa...
Porque o frio espreita
e o silêncio devora,
ESTREMECEMOS TODOS
a cada instante,
homens -
máquinas -
coisas -
com os músculos,
as fibras
e a febre dos circuitos
- em cruel expectativa...
Em frente, o Mercado São Sebastião
- fim e começo da avenida,
entrada e saída desta hora indiferente,
correndo pela pista de sentido duplo para o infinito.
Mercado São Sebastião por onde passo:
- bagaços de laranja, cascas de banana,
tocos de cigarro, papéis e jornais sujos,
rolando pelas coxias da lembrança.
Tudo ali - solto - gestos desgarrados do tempo.
Eu te penetro, suburbano labirinto, por entre acres
balcões, sentindo a respiração ofegante
das alfaces e frutas
- sobre minha pele -
querendo juntas docemente apodrecer ali.
E ver por trás das balanças homens de camiseta
At the violet hour, when the eyes and back
turn upward from the desk, when the human engine waits
like a taxi throbbing waiting...
T.S. Eliot ("The waste land", 215-217)
Depois de tirar e enrolar no bolso minha gravata colorida;
depois do pique, atravessando ruas & portas,
bebendo a luz da tarde refletida em caras que nunca mais verei;
depois da ginástica bancária,
dos trambiques dados,
dos chopes na esquina;
de ter avistado as chapinhas de cerveja encravadas no asfalto
e o poema alucinado e cínico,
inscrito no corpo crivado de signos & senhas;
depois disso tudo:
de ter esquecido o dia,
sentir-me refeito e repleto, pronto para outra,
- me vejo aqui parado, esperando,
com o olhar atento, ansioso,
como se pela primeira vez,
à beira da calçada ou à beira de mim,
como se de repente
não pudesse perder o que exatamente não sei
nem saberia...
...TÁXI!
Êiii!... Aqui!
(Dou com a mão)
TUDO COMEÇA SUBITAMENTE ONDE ESTOU
- Ó Fortaleza, multidão de portas e postes batendo com sua luz
adolescente no olho da eternidade!
Fortaleza de 300 mil bocas ardentes como o sol,
famintas de amor e tragos de farinha.
Fortaleza de prédios mal-acabados, espetando a noite furiosa e redonda.
Fortaleza, avenida de neon, deslizando para todos os desejos.
Fortaleza, Bezerra de Menezes, seis mãos indo e voltando,
e uma dor viajando, num só sentido, no banco traseiro de um táxi,
para onde vamos?
Fortaleza, solidão escamosa, suor noturno, revelação.
EU TE PERCORRO
Eu, fiapo da mente de Deus que um dia avistei,
caminhando, sim, com o Universo inteiro,
que era sua própria cabeça iluminada,
pensando estrelas e galáxias
e as mais recôndidas nebulosas...
- Quem mais saberia disso?
(Este Táxi,
a rua rolando rente,
os telhados correndo, pensos, de um lado e outro,
a lata de lixo solitária,
as árvores caladas,
rostos e estrelas entrevistos da janela,
teu corpo passageiro,
tudo isso à tua frente ou dentro de ti,
que passa ou permanece no teu olhar-vida,
é o pensamento infinito de Deus
girando suas formas no espaço,
borbulhando mínimo e visível,
invisível e total,
surgindo
e desaparecendo,
transformando-se e ressurgindo
nas neuras insondáveis do tempo.)
Ó pensamento rugoso de Deus sobre os muros!
Sílabas soltas que são papéis pelas calçadas;
palavras, pés que transitam apressados
ruas, frases repentinas;
dias como sentenças cortando /
a cidade indiferente:
relâmpagos de sentido cruzando
o corpo
dentro da noite
dilacerantes
metáforas
dilaceradas
Balbucios
Orações entrecortadas
Gagueira fluente de tudo
- Ó áspera Linguagem em que viajamos sedentos de tradução!
No banco traseiro do carro, vamos nós, Moema e eu,
beijando já seus lábios levemente rachados
pelo sol da praia.
E porque em qualquer esquina posso me acabar
numa trombada,
e por certo sua dor será igual à minha,
{a alma espremida por entre ferragens}
- não importa onde,
você bem pode me entender, Steve,
lá na distante 175, Flower Rd., em Huntington, NY.
Ou se passo as mãos nas coxas de Moema
e percebo, excitado,
o tesão maior de Deus movendo as estrelas e todas as coisas,
você também me compreende, Affonso,
no alto de um edifício em Ipanema,
recitando Nietzsche, "a emoção é a vitória contra o tédio",
enquanto compõe para o JB a última crônica carnavalesca
da Nova República.
E você, metaleiro anônimo, lá de Cajazeiras, na Paraíba,
que não pôde ir ao Rock in Rio
curtir o Whitesnakes, o Queen, o heavymetal,
mas viu na TV,
e ficou ferido da maior solidão sonora do mundo,
- você também me entende, ó meu, no teu silêncio.
........................................................
Ok, minha filha, vamos nós,
zanzando neste Táxi muito louco,
por dentro da cidade,
rodando e girando,
girando e rodando
por aí, sempre.
Sim, passageiros somos,
turistas do instante.
Make it new, say. Sei.
Por isso, sinta minha língua afiada
sussurrando no teu ouvido,
enquanto dedilho sobre tua calcinha
uma ode que Arquíloco não fez
para sua esquiva Neóbula,
de cabeleira fugaz como essa noite.
Ah, tua mão direita, ávida borboleta esmaltada!
Sim, a mais pura sabedoria nasce do amor
entre um homem e uma mulher.
(Claro, há homovariações da verdade. Que importa?)
Os lábios ardentes, tocando-se, sabem mais;
abraçados, os corpos, idênticos ou não,
conhecem mais. Mais - o que seja: oh!
- fisgada de Deus adorando (de qualquer forma)
suas criaturas.
Confira o lance:
toda sabedoria passa pela carne;
toda iluminação atravessa os sentidos;
toda visão viaja pelo corpo,
- ponte de sangue sensitivo entre o céu e a terra,
vertigem da consciência esbarrando
nas paredes das costelas,
pequeno cais nervoso de todas as sensações
à beira do nada
- oceano calado te espreitando,
as amarras do corpo
partindo-se a cada minuto
do porto de si mesmo...
E eu aqui, sábio com as mãos entre tuas coxas,
soprando ávido
no teu ouvido
a lição luminosa:
sessenta e nove
E tua língua veloz: love
love
logos.
Mais depressa!
Direto para um motel na Praia do Futuro.
Por cima de tudo:
buracos,
quebra-molas,
pedras,
calçadas,
transeuntes,
principalmente por cima desta hora que atravesso
com um estremecimento súbito das portas e da alma.
Porque tudo é tremor, companheiro.
A vida treme onde bate - no centro ou nas bordas: - não importa.
Minha mão treme tocando de leve os peitos de Moema;
o carro treme transitando por entre trilhos e temores;
as luzes de neon estremecem ao golpear rostos súbitos pelas calçadas;
a avenida treme sob pneus e pensamentos sobressaltados;
a cidade toda estremece subindo pelos edifícios,
sacudida por ondas e gestos na maré das ruas;
treme a noite com suas estrelas pulsando solidão e distância.
Ruge e estremece a Via Láctea
feito um animal ferido (Ursa Maior?)
fugindo pelo infinito,
sangrando luz e abismos
por onde passa...
Porque o frio espreita
e o silêncio devora,
ESTREMECEMOS TODOS
a cada instante,
homens -
máquinas -
coisas -
com os músculos,
as fibras
e a febre dos circuitos
- em cruel expectativa...
Em frente, o Mercado São Sebastião
- fim e começo da avenida,
entrada e saída desta hora indiferente,
correndo pela pista de sentido duplo para o infinito.
Mercado São Sebastião por onde passo:
- bagaços de laranja, cascas de banana,
tocos de cigarro, papéis e jornais sujos,
rolando pelas coxias da lembrança.
Tudo ali - solto - gestos desgarrados do tempo.
Eu te penetro, suburbano labirinto, por entre acres
balcões, sentindo a respiração ofegante
das alfaces e frutas
- sobre minha pele -
querendo juntas docemente apodrecer ali.
E ver por trás das balanças homens de camiseta
2 998
Adriano Espínola
Táxi
ou poema de amor passageiro
At the violet hour, when the eyes and back
turn upward from the desk, when the human engine waits
like a taxi throbbing waiting...
T.S. Eliot ("The waste land", 215-217)
Depois de tirar e enrolar no bolso minha gravata colorida;
depois do pique, atravessando ruas & portas,
bebendo a luz da tarde refletida em caras que nunca mais verei;
depois da ginástica bancária,
dos trambiques dados,
dos chopes na esquina;
de ter avistado as chapinhas de cerveja encravadas no asfalto
e o poema alucinado e cínico,
inscrito no corpo crivado de signos & senhas;
depois disso tudo:
de ter esquecido o dia,
sentir-me refeito e repleto, pronto para outra,
- me vejo aqui parado, esperando,
com o olhar atento, ansioso,
como se pela primeira vez,
à beira da calçada ou à beira de mim,
como se de repente
não pudesse perder o que exatamente não sei
nem saberia...
...TÁXI!
Êiii!... Aqui!
(Dou com a mão)
TUDO COMEÇA SUBITAMENTE ONDE ESTOU
- Ó Fortaleza, multidão de portas e postes batendo com sua luz
adolescente no olho da eternidade!
Fortaleza de 300 mil bocas ardentes como o sol,
famintas de amor e tragos de farinha.
Fortaleza de prédios mal-acabados, espetando a noite furiosa e redonda.
Fortaleza, avenida de neon, deslizando para todos os desejos.
Fortaleza, Bezerra de Menezes, seis mãos indo e voltando,
e uma dor viajando, num só sentido, no banco traseiro de um táxi,
para onde vamos?
Fortaleza, solidão escamosa, suor noturno, revelação.
EU TE PERCORRO
Eu, fiapo da mente de Deus que um dia avistei,
caminhando, sim, com o Universo inteiro,
que era sua própria cabeça iluminada,
pensando estrelas e galáxias
e as mais recôndidas nebulosas...
- Quem mais saberia disso?
(Este Táxi,
a rua rolando rente,
os telhados correndo, pensos, de um lado e outro,
a lata de lixo solitária,
as árvores caladas,
rostos e estrelas entrevistos da janela,
teu corpo passageiro,
tudo isso à tua frente ou dentro de ti,
que passa ou permanece no teu olhar-vida,
é o pensamento infinito de Deus
girando suas formas no espaço,
borbulhando mínimo e visível,
invisível e total,
surgindo
e desaparecendo,
transformando-se e ressurgindo
nas neuras insondáveis do tempo.)
Ó pensamento rugoso de Deus sobre os muros!
Sílabas soltas que são papéis pelas calçadas;
palavras, pés que transitam apressados
ruas, frases repentinas;
dias como sentenças cortando /
a cidade indiferente:
relâmpagos de sentido cruzando
o corpo
dentro da noite
dilacerantes
metáforas
dilaceradas
Balbucios
Orações entrecortadas
Gagueira fluente de tudo
- Ó áspera Linguagem em que viajamos sedentos de tradução!
No banco traseiro do carro, vamos nós, Moema e eu,
beijando já seus lábios levemente rachados
pelo sol da praia.
E porque em qualquer esquina posso me acabar
numa trombada,
e por certo sua dor será igual à minha,
{a alma espremida por entre ferragens}
- não importa onde,
você bem pode me entender, Steve,
lá na distante 175, Flower Rd., em Huntington, NY.
Ou se passo as mãos nas coxas de Moema
e percebo, excitado,
o tesão maior de Deus movendo as estrelas e todas as coisas,
você também me compreende, Affonso,
no alto de um edifício em Ipanema,
recitando Nietzsche, "a emoção é a vitória contra o tédio",
enquanto compõe para o JB a última crônica carnavalesca
da Nova República.
E você, metaleiro anônimo, lá de Cajazeiras, na Paraíba,
que não pôde ir ao Rock in Rio
curtir o Whitesnakes, o Queen, o heavymetal,
mas viu na TV,
e ficou ferido da maior solidão sonora do mundo,
- você também me entende, ó meu, no teu silêncio.
........................................................
Ok, minha filha, vamos nós,
zanzando neste Táxi muito louco,
por dentro da cidade,
rodando e girando,
girando e rodando
por aí, sempre.
Sim, passageiros somos,
turistas do instante.
Make it new, say. Sei.
Por isso, sinta minha língua afiada
sussurrando no teu ouvido,
enquanto dedilho sobre tua calcinha
uma ode que Arquíloco não fez
para sua esquiva Neóbula,
de cabeleira fugaz como essa noite.
Ah, tua mão direita, ávida borboleta esmaltada!
Sim, a mais pura sabedoria nasce do amor
entre um homem e uma mulher.
(Claro, há homovariações da verdade. Que importa?)
Os lábios ardentes, tocando-se, sabem mais;
abraçados, os corpos, idênticos ou não,
conhecem mais. Mais - o que seja: oh!
- fisgada de Deus adorando (de qualquer forma)
suas criaturas.
Confira o lance:
toda sabedoria passa pela carne;
toda iluminação atravessa os sentidos;
toda visão viaja pelo corpo,
- ponte de sangue sensitivo entre o céu e a terra,
vertigem da consciência esbarrando
nas paredes das costelas,
pequeno cais nervoso de todas as sensações
à beira do nada
- oceano calado te espreitando,
as amarras do corpo
partindo-se a cada minuto
do porto de si mesmo...
E eu aqui, sábio com as mãos entre tuas coxas,
soprando ávido
no teu ouvido
a lição luminosa:
sessenta e nove
E tua língua veloz: love
love
logos.
Mais depressa!
Direto para um motel na Praia do Futuro.
Por cima de tudo:
buracos,
quebra-molas,
pedras,
calçadas,
transeuntes,
principalmente por cima desta hora que atravesso
com um estremecimento súbito das portas e da alma.
Porque tudo é tremor, companheiro.
A vida treme onde bate - no centro ou nas bordas: - não importa.
Minha mão treme tocando de leve os peitos de Moema;
o carro treme transitando por entre trilhos e temores;
as luzes de neon estremecem ao golpear rostos súbitos pelas calçadas;
a avenida treme sob pneus e pensamentos sobressaltados;
a cidade toda estremece subindo pelos edifícios,
sacudida por ondas e gestos na maré das ruas;
treme a noite com suas estrelas pulsando solidão e distância.
Ruge e estremece a Via Láctea
feito um animal ferido (Ursa Maior?)
fugindo pelo infinito,
sangrando luz e abismos
por onde passa...
Porque o frio espreita
e o silêncio devora,
ESTREMECEMOS TODOS
a cada instante,
homens -
máquinas -
coisas -
com os músculos,
as fibras
e a febre dos circuitos
- em cruel expectativa...
Em frente, o Mercado São Sebastião
- fim e começo da avenida,
entrada e saída desta hora indiferente,
correndo pela pista de sentido duplo para o infinito.
Mercado São Sebastião por onde passo:
- bagaços de laranja, cascas de banana,
tocos de cigarro, papéis e jornais sujos,
rolando pelas coxias da lembrança.
Tudo ali - solto - gestos desgarrados do tempo.
Eu te penetro, suburbano labirinto, por entre acres
balcões, sentindo a respiração ofegante
das alfaces e frutas
- sobre minha pele -
querendo juntas docemente apodrecer ali.
E ver por trás das balanças homens de camiseta
At the violet hour, when the eyes and back
turn upward from the desk, when the human engine waits
like a taxi throbbing waiting...
T.S. Eliot ("The waste land", 215-217)
Depois de tirar e enrolar no bolso minha gravata colorida;
depois do pique, atravessando ruas & portas,
bebendo a luz da tarde refletida em caras que nunca mais verei;
depois da ginástica bancária,
dos trambiques dados,
dos chopes na esquina;
de ter avistado as chapinhas de cerveja encravadas no asfalto
e o poema alucinado e cínico,
inscrito no corpo crivado de signos & senhas;
depois disso tudo:
de ter esquecido o dia,
sentir-me refeito e repleto, pronto para outra,
- me vejo aqui parado, esperando,
com o olhar atento, ansioso,
como se pela primeira vez,
à beira da calçada ou à beira de mim,
como se de repente
não pudesse perder o que exatamente não sei
nem saberia...
...TÁXI!
Êiii!... Aqui!
(Dou com a mão)
TUDO COMEÇA SUBITAMENTE ONDE ESTOU
- Ó Fortaleza, multidão de portas e postes batendo com sua luz
adolescente no olho da eternidade!
Fortaleza de 300 mil bocas ardentes como o sol,
famintas de amor e tragos de farinha.
Fortaleza de prédios mal-acabados, espetando a noite furiosa e redonda.
Fortaleza, avenida de neon, deslizando para todos os desejos.
Fortaleza, Bezerra de Menezes, seis mãos indo e voltando,
e uma dor viajando, num só sentido, no banco traseiro de um táxi,
para onde vamos?
Fortaleza, solidão escamosa, suor noturno, revelação.
EU TE PERCORRO
Eu, fiapo da mente de Deus que um dia avistei,
caminhando, sim, com o Universo inteiro,
que era sua própria cabeça iluminada,
pensando estrelas e galáxias
e as mais recôndidas nebulosas...
- Quem mais saberia disso?
(Este Táxi,
a rua rolando rente,
os telhados correndo, pensos, de um lado e outro,
a lata de lixo solitária,
as árvores caladas,
rostos e estrelas entrevistos da janela,
teu corpo passageiro,
tudo isso à tua frente ou dentro de ti,
que passa ou permanece no teu olhar-vida,
é o pensamento infinito de Deus
girando suas formas no espaço,
borbulhando mínimo e visível,
invisível e total,
surgindo
e desaparecendo,
transformando-se e ressurgindo
nas neuras insondáveis do tempo.)
Ó pensamento rugoso de Deus sobre os muros!
Sílabas soltas que são papéis pelas calçadas;
palavras, pés que transitam apressados
ruas, frases repentinas;
dias como sentenças cortando /
a cidade indiferente:
relâmpagos de sentido cruzando
o corpo
dentro da noite
dilacerantes
metáforas
dilaceradas
Balbucios
Orações entrecortadas
Gagueira fluente de tudo
- Ó áspera Linguagem em que viajamos sedentos de tradução!
No banco traseiro do carro, vamos nós, Moema e eu,
beijando já seus lábios levemente rachados
pelo sol da praia.
E porque em qualquer esquina posso me acabar
numa trombada,
e por certo sua dor será igual à minha,
{a alma espremida por entre ferragens}
- não importa onde,
você bem pode me entender, Steve,
lá na distante 175, Flower Rd., em Huntington, NY.
Ou se passo as mãos nas coxas de Moema
e percebo, excitado,
o tesão maior de Deus movendo as estrelas e todas as coisas,
você também me compreende, Affonso,
no alto de um edifício em Ipanema,
recitando Nietzsche, "a emoção é a vitória contra o tédio",
enquanto compõe para o JB a última crônica carnavalesca
da Nova República.
E você, metaleiro anônimo, lá de Cajazeiras, na Paraíba,
que não pôde ir ao Rock in Rio
curtir o Whitesnakes, o Queen, o heavymetal,
mas viu na TV,
e ficou ferido da maior solidão sonora do mundo,
- você também me entende, ó meu, no teu silêncio.
........................................................
Ok, minha filha, vamos nós,
zanzando neste Táxi muito louco,
por dentro da cidade,
rodando e girando,
girando e rodando
por aí, sempre.
Sim, passageiros somos,
turistas do instante.
Make it new, say. Sei.
Por isso, sinta minha língua afiada
sussurrando no teu ouvido,
enquanto dedilho sobre tua calcinha
uma ode que Arquíloco não fez
para sua esquiva Neóbula,
de cabeleira fugaz como essa noite.
Ah, tua mão direita, ávida borboleta esmaltada!
Sim, a mais pura sabedoria nasce do amor
entre um homem e uma mulher.
(Claro, há homovariações da verdade. Que importa?)
Os lábios ardentes, tocando-se, sabem mais;
abraçados, os corpos, idênticos ou não,
conhecem mais. Mais - o que seja: oh!
- fisgada de Deus adorando (de qualquer forma)
suas criaturas.
Confira o lance:
toda sabedoria passa pela carne;
toda iluminação atravessa os sentidos;
toda visão viaja pelo corpo,
- ponte de sangue sensitivo entre o céu e a terra,
vertigem da consciência esbarrando
nas paredes das costelas,
pequeno cais nervoso de todas as sensações
à beira do nada
- oceano calado te espreitando,
as amarras do corpo
partindo-se a cada minuto
do porto de si mesmo...
E eu aqui, sábio com as mãos entre tuas coxas,
soprando ávido
no teu ouvido
a lição luminosa:
sessenta e nove
E tua língua veloz: love
love
logos.
Mais depressa!
Direto para um motel na Praia do Futuro.
Por cima de tudo:
buracos,
quebra-molas,
pedras,
calçadas,
transeuntes,
principalmente por cima desta hora que atravesso
com um estremecimento súbito das portas e da alma.
Porque tudo é tremor, companheiro.
A vida treme onde bate - no centro ou nas bordas: - não importa.
Minha mão treme tocando de leve os peitos de Moema;
o carro treme transitando por entre trilhos e temores;
as luzes de neon estremecem ao golpear rostos súbitos pelas calçadas;
a avenida treme sob pneus e pensamentos sobressaltados;
a cidade toda estremece subindo pelos edifícios,
sacudida por ondas e gestos na maré das ruas;
treme a noite com suas estrelas pulsando solidão e distância.
Ruge e estremece a Via Láctea
feito um animal ferido (Ursa Maior?)
fugindo pelo infinito,
sangrando luz e abismos
por onde passa...
Porque o frio espreita
e o silêncio devora,
ESTREMECEMOS TODOS
a cada instante,
homens -
máquinas -
coisas -
com os músculos,
as fibras
e a febre dos circuitos
- em cruel expectativa...
Em frente, o Mercado São Sebastião
- fim e começo da avenida,
entrada e saída desta hora indiferente,
correndo pela pista de sentido duplo para o infinito.
Mercado São Sebastião por onde passo:
- bagaços de laranja, cascas de banana,
tocos de cigarro, papéis e jornais sujos,
rolando pelas coxias da lembrança.
Tudo ali - solto - gestos desgarrados do tempo.
Eu te penetro, suburbano labirinto, por entre acres
balcões, sentindo a respiração ofegante
das alfaces e frutas
- sobre minha pele -
querendo juntas docemente apodrecer ali.
E ver por trás das balanças homens de camiseta
2 998
Elisa Sayeg
Visita
Santa Alva trazia no peito
Um mártir de flores bordadas.
O veículo da noite a trazia
Da estrela fosforescente.
De repente voltava a brilhar
O coágulo precioso do peito
Como sopram na primavera
Os perfumes do campo.
Um mártir de flores bordadas.
O veículo da noite a trazia
Da estrela fosforescente.
De repente voltava a brilhar
O coágulo precioso do peito
Como sopram na primavera
Os perfumes do campo.
939
Éric Ponty
Transmutação do Pó
Pode o pobre nobre pó recriar
o vazio dissimulado nas entranhas do significado
na aurora primaveril do novotempo.
O pó morre envelhecendo só,
no nó das esparralhadas histórias
e o poeta ardiloso
quer recriar a musíngua num febril gesto.
O antanho e o amanhecer falecem na espera
um minuto de perspectiva apenas mais um minuto
entre vozes que soaram bem claro opacas foram
em inexprimir o de uma só condição
sintaxe articulada em malicias da contradição
um detalhe de uma renascença
um detalhe de aliteração
não se deve exprimir e silenciar no antanho
um amanhecer claro, porém escuro
uma história oculta dentro de outra história
ecoando
no amarelecimento da memória.
Nas áreas esquecidas da memória, o pó é um Dó,
arquivado nas lembranças dos versos inversos da dor,
articulada conjugação do primeiro último verso
implantado nos isolados seres em dor e divagação
radioativas imagens cavalgadas de silêncio pleno
no eloqüente murmuro anunciado em tropel,
desencanto envolto no pó.
E o pó se fez homem se fez poeta
envolvido pelo silêncio de imagens
de tanto percorrer para fora deste universo
fundido antes de ser e antes de estar
solidão é longínqua
e o espectador
não percebe a eloqüência da complexidade
transferida num rápido olhar do objeto
na facilidade tão fácil a perda de profundidade
de um instante abjeto e fugas de subjetividade
do gesto de se fazer compreensível.
Do alto da pedra em mar alto
observar luzindo embarcação náutica
noite traz seus preceitos, seus medos,
neste negro caminho de águas claras
onipotência e fragilidade sussurrando versos vãos
último toque da linguarte
último toque do pode ser
último toque de proporcionar uma visão
último toque do penúltimo toque do tocador
e a vida foi vida em fibra
jaz um mar.
Elaborada palavra desfigurando-se em nada
um enlace foi formado de um grito em suspiro
endiabrada cantata só de vento lento
virgens imagens no arpoador foram pronunciadas
sopro de uma trombeta marinha
e o fundo funda-se no próprio fundo
irregular omivisão do tempo cru em movimento
e o homem se fez pó se fez poeta se fez Dó
era um início de um outro princípio
eis as gêneses consumidas em marinhas águas
um inevitável encontro louco
metamorfosear-se em pó para ser novo
e ressurgir cantando e ressurgir do fundo
deste oco que é o sopro da sobrevida de um cantador.
Nobre pó rima em Dó de uma sinfonia finda
ninfas do desejo em asas falhas sobrevoam
a recriar novas línguas,e a recriar ainda
último verso da criação
e o pó se fez presente que se fez ausente
transfigurar-se do desenlace febril
tudo não passara de um sonho senil
diante de um penhasco
agora ressuscitado dos pesadelos
adquire lento
perspectiva da observação.
O primeiro verbo do início foi um sopro
delirio interior de um Deus-Tudo
de barro,
este artefato de lodo fez o homem,
e com um novo sopro de novo o desfez seu ato
que do pó fênix redimiu todas as formas
num novo ato só.
o vazio dissimulado nas entranhas do significado
na aurora primaveril do novotempo.
O pó morre envelhecendo só,
no nó das esparralhadas histórias
e o poeta ardiloso
quer recriar a musíngua num febril gesto.
O antanho e o amanhecer falecem na espera
um minuto de perspectiva apenas mais um minuto
entre vozes que soaram bem claro opacas foram
em inexprimir o de uma só condição
sintaxe articulada em malicias da contradição
um detalhe de uma renascença
um detalhe de aliteração
não se deve exprimir e silenciar no antanho
um amanhecer claro, porém escuro
uma história oculta dentro de outra história
ecoando
no amarelecimento da memória.
Nas áreas esquecidas da memória, o pó é um Dó,
arquivado nas lembranças dos versos inversos da dor,
articulada conjugação do primeiro último verso
implantado nos isolados seres em dor e divagação
radioativas imagens cavalgadas de silêncio pleno
no eloqüente murmuro anunciado em tropel,
desencanto envolto no pó.
E o pó se fez homem se fez poeta
envolvido pelo silêncio de imagens
de tanto percorrer para fora deste universo
fundido antes de ser e antes de estar
solidão é longínqua
e o espectador
não percebe a eloqüência da complexidade
transferida num rápido olhar do objeto
na facilidade tão fácil a perda de profundidade
de um instante abjeto e fugas de subjetividade
do gesto de se fazer compreensível.
Do alto da pedra em mar alto
observar luzindo embarcação náutica
noite traz seus preceitos, seus medos,
neste negro caminho de águas claras
onipotência e fragilidade sussurrando versos vãos
último toque da linguarte
último toque do pode ser
último toque de proporcionar uma visão
último toque do penúltimo toque do tocador
e a vida foi vida em fibra
jaz um mar.
Elaborada palavra desfigurando-se em nada
um enlace foi formado de um grito em suspiro
endiabrada cantata só de vento lento
virgens imagens no arpoador foram pronunciadas
sopro de uma trombeta marinha
e o fundo funda-se no próprio fundo
irregular omivisão do tempo cru em movimento
e o homem se fez pó se fez poeta se fez Dó
era um início de um outro princípio
eis as gêneses consumidas em marinhas águas
um inevitável encontro louco
metamorfosear-se em pó para ser novo
e ressurgir cantando e ressurgir do fundo
deste oco que é o sopro da sobrevida de um cantador.
Nobre pó rima em Dó de uma sinfonia finda
ninfas do desejo em asas falhas sobrevoam
a recriar novas línguas,e a recriar ainda
último verso da criação
e o pó se fez presente que se fez ausente
transfigurar-se do desenlace febril
tudo não passara de um sonho senil
diante de um penhasco
agora ressuscitado dos pesadelos
adquire lento
perspectiva da observação.
O primeiro verbo do início foi um sopro
delirio interior de um Deus-Tudo
de barro,
este artefato de lodo fez o homem,
e com um novo sopro de novo o desfez seu ato
que do pó fênix redimiu todas as formas
num novo ato só.
884
Éric Ponty
Transmutação do Pó
Pode o pobre nobre pó recriar
o vazio dissimulado nas entranhas do significado
na aurora primaveril do novotempo.
O pó morre envelhecendo só,
no nó das esparralhadas histórias
e o poeta ardiloso
quer recriar a musíngua num febril gesto.
O antanho e o amanhecer falecem na espera
um minuto de perspectiva apenas mais um minuto
entre vozes que soaram bem claro opacas foram
em inexprimir o de uma só condição
sintaxe articulada em malicias da contradição
um detalhe de uma renascença
um detalhe de aliteração
não se deve exprimir e silenciar no antanho
um amanhecer claro, porém escuro
uma história oculta dentro de outra história
ecoando
no amarelecimento da memória.
Nas áreas esquecidas da memória, o pó é um Dó,
arquivado nas lembranças dos versos inversos da dor,
articulada conjugação do primeiro último verso
implantado nos isolados seres em dor e divagação
radioativas imagens cavalgadas de silêncio pleno
no eloqüente murmuro anunciado em tropel,
desencanto envolto no pó.
E o pó se fez homem se fez poeta
envolvido pelo silêncio de imagens
de tanto percorrer para fora deste universo
fundido antes de ser e antes de estar
solidão é longínqua
e o espectador
não percebe a eloqüência da complexidade
transferida num rápido olhar do objeto
na facilidade tão fácil a perda de profundidade
de um instante abjeto e fugas de subjetividade
do gesto de se fazer compreensível.
Do alto da pedra em mar alto
observar luzindo embarcação náutica
noite traz seus preceitos, seus medos,
neste negro caminho de águas claras
onipotência e fragilidade sussurrando versos vãos
último toque da linguarte
último toque do pode ser
último toque de proporcionar uma visão
último toque do penúltimo toque do tocador
e a vida foi vida em fibra
jaz um mar.
Elaborada palavra desfigurando-se em nada
um enlace foi formado de um grito em suspiro
endiabrada cantata só de vento lento
virgens imagens no arpoador foram pronunciadas
sopro de uma trombeta marinha
e o fundo funda-se no próprio fundo
irregular omivisão do tempo cru em movimento
e o homem se fez pó se fez poeta se fez Dó
era um início de um outro princípio
eis as gêneses consumidas em marinhas águas
um inevitável encontro louco
metamorfosear-se em pó para ser novo
e ressurgir cantando e ressurgir do fundo
deste oco que é o sopro da sobrevida de um cantador.
Nobre pó rima em Dó de uma sinfonia finda
ninfas do desejo em asas falhas sobrevoam
a recriar novas línguas,e a recriar ainda
último verso da criação
e o pó se fez presente que se fez ausente
transfigurar-se do desenlace febril
tudo não passara de um sonho senil
diante de um penhasco
agora ressuscitado dos pesadelos
adquire lento
perspectiva da observação.
O primeiro verbo do início foi um sopro
delirio interior de um Deus-Tudo
de barro,
este artefato de lodo fez o homem,
e com um novo sopro de novo o desfez seu ato
que do pó fênix redimiu todas as formas
num novo ato só.
o vazio dissimulado nas entranhas do significado
na aurora primaveril do novotempo.
O pó morre envelhecendo só,
no nó das esparralhadas histórias
e o poeta ardiloso
quer recriar a musíngua num febril gesto.
O antanho e o amanhecer falecem na espera
um minuto de perspectiva apenas mais um minuto
entre vozes que soaram bem claro opacas foram
em inexprimir o de uma só condição
sintaxe articulada em malicias da contradição
um detalhe de uma renascença
um detalhe de aliteração
não se deve exprimir e silenciar no antanho
um amanhecer claro, porém escuro
uma história oculta dentro de outra história
ecoando
no amarelecimento da memória.
Nas áreas esquecidas da memória, o pó é um Dó,
arquivado nas lembranças dos versos inversos da dor,
articulada conjugação do primeiro último verso
implantado nos isolados seres em dor e divagação
radioativas imagens cavalgadas de silêncio pleno
no eloqüente murmuro anunciado em tropel,
desencanto envolto no pó.
E o pó se fez homem se fez poeta
envolvido pelo silêncio de imagens
de tanto percorrer para fora deste universo
fundido antes de ser e antes de estar
solidão é longínqua
e o espectador
não percebe a eloqüência da complexidade
transferida num rápido olhar do objeto
na facilidade tão fácil a perda de profundidade
de um instante abjeto e fugas de subjetividade
do gesto de se fazer compreensível.
Do alto da pedra em mar alto
observar luzindo embarcação náutica
noite traz seus preceitos, seus medos,
neste negro caminho de águas claras
onipotência e fragilidade sussurrando versos vãos
último toque da linguarte
último toque do pode ser
último toque de proporcionar uma visão
último toque do penúltimo toque do tocador
e a vida foi vida em fibra
jaz um mar.
Elaborada palavra desfigurando-se em nada
um enlace foi formado de um grito em suspiro
endiabrada cantata só de vento lento
virgens imagens no arpoador foram pronunciadas
sopro de uma trombeta marinha
e o fundo funda-se no próprio fundo
irregular omivisão do tempo cru em movimento
e o homem se fez pó se fez poeta se fez Dó
era um início de um outro princípio
eis as gêneses consumidas em marinhas águas
um inevitável encontro louco
metamorfosear-se em pó para ser novo
e ressurgir cantando e ressurgir do fundo
deste oco que é o sopro da sobrevida de um cantador.
Nobre pó rima em Dó de uma sinfonia finda
ninfas do desejo em asas falhas sobrevoam
a recriar novas línguas,e a recriar ainda
último verso da criação
e o pó se fez presente que se fez ausente
transfigurar-se do desenlace febril
tudo não passara de um sonho senil
diante de um penhasco
agora ressuscitado dos pesadelos
adquire lento
perspectiva da observação.
O primeiro verbo do início foi um sopro
delirio interior de um Deus-Tudo
de barro,
este artefato de lodo fez o homem,
e com um novo sopro de novo o desfez seu ato
que do pó fênix redimiu todas as formas
num novo ato só.
884
Emílio Moura
Noturno de Ouro Preto
Que alada figura aquela
transformada em algo lívido?
Que pedia? Que falava
de sua órbita aérea,
com suas múltiplas vozes?
Ah, noite, há muito submersa
em labirintos de sono!
Quem chamava? Quem sofria?
Quem jogava com o segredo
de tantas áreas ignotas?
Que espectro, a vagar, tecia
o próprio avesso do sonho?
E aquele morrer de novo
a cada inútil aurora?
O ardor, o ritmo brusco
da vida jogada fora,
com tantas, tantas raízes
perdidas, esmigalhadas?
Que era tudo? Que era
aquele fluir do tempo
como invisível cortejo
como vento no caminho?
transformada em algo lívido?
Que pedia? Que falava
de sua órbita aérea,
com suas múltiplas vozes?
Ah, noite, há muito submersa
em labirintos de sono!
Quem chamava? Quem sofria?
Quem jogava com o segredo
de tantas áreas ignotas?
Que espectro, a vagar, tecia
o próprio avesso do sonho?
E aquele morrer de novo
a cada inútil aurora?
O ardor, o ritmo brusco
da vida jogada fora,
com tantas, tantas raízes
perdidas, esmigalhadas?
Que era tudo? Que era
aquele fluir do tempo
como invisível cortejo
como vento no caminho?
927
Emílio Moura
Noturno de Ouro Preto
Que alada figura aquela
transformada em algo lívido?
Que pedia? Que falava
de sua órbita aérea,
com suas múltiplas vozes?
Ah, noite, há muito submersa
em labirintos de sono!
Quem chamava? Quem sofria?
Quem jogava com o segredo
de tantas áreas ignotas?
Que espectro, a vagar, tecia
o próprio avesso do sonho?
E aquele morrer de novo
a cada inútil aurora?
O ardor, o ritmo brusco
da vida jogada fora,
com tantas, tantas raízes
perdidas, esmigalhadas?
Que era tudo? Que era
aquele fluir do tempo
como invisível cortejo
como vento no caminho?
transformada em algo lívido?
Que pedia? Que falava
de sua órbita aérea,
com suas múltiplas vozes?
Ah, noite, há muito submersa
em labirintos de sono!
Quem chamava? Quem sofria?
Quem jogava com o segredo
de tantas áreas ignotas?
Que espectro, a vagar, tecia
o próprio avesso do sonho?
E aquele morrer de novo
a cada inútil aurora?
O ardor, o ritmo brusco
da vida jogada fora,
com tantas, tantas raízes
perdidas, esmigalhadas?
Que era tudo? Que era
aquele fluir do tempo
como invisível cortejo
como vento no caminho?
927
Elisa Sayeg
De Nicole Sangue de Nuvem
A Porta do Amor gira sobre os gonzos
Pesadamente
Deixando-nos o Lado de Fora
Ao passante solitário
nenhum revide o espera
no cemitério.
Nenhum violento se erga
da campa dourada
Onde a lápide é folheada
com o sol morto.
Não o enjoe uma névoa incensada
Nenhum violento
sono se erga.
Pesadamente
Deixando-nos o Lado de Fora
Ao passante solitário
nenhum revide o espera
no cemitério.
Nenhum violento se erga
da campa dourada
Onde a lápide é folheada
com o sol morto.
Não o enjoe uma névoa incensada
Nenhum violento
sono se erga.
790
Ernani Sátyro
Louvação de Maria
Maria, simplesmente Maria.
Nem do Carmo, nem das Dores,
Nem da Luz e nem da Guia.
Só Maria!
Nem do Céu e nem de Lourdes,
Nem sequer da Conceição,
Simplesmente só Maria:
— O resto é no coração.
Simplesmente Maria.
Nem Maria Anunciada
Nem Maria Aparecida.
Só Maria, sem mais nada,
Só Maria, toda a vida.
Só Maria,
Mas, Maria noite e dia.
Nem do Carmo, nem das Dores,
Nem da Luz e nem da Guia.
Só Maria!
Nem do Céu e nem de Lourdes,
Nem sequer da Conceição,
Simplesmente só Maria:
— O resto é no coração.
Simplesmente Maria.
Nem Maria Anunciada
Nem Maria Aparecida.
Só Maria, sem mais nada,
Só Maria, toda a vida.
Só Maria,
Mas, Maria noite e dia.
985
Ernani Sátyro
Louvação de Maria
Maria, simplesmente Maria.
Nem do Carmo, nem das Dores,
Nem da Luz e nem da Guia.
Só Maria!
Nem do Céu e nem de Lourdes,
Nem sequer da Conceição,
Simplesmente só Maria:
— O resto é no coração.
Simplesmente Maria.
Nem Maria Anunciada
Nem Maria Aparecida.
Só Maria, sem mais nada,
Só Maria, toda a vida.
Só Maria,
Mas, Maria noite e dia.
Nem do Carmo, nem das Dores,
Nem da Luz e nem da Guia.
Só Maria!
Nem do Céu e nem de Lourdes,
Nem sequer da Conceição,
Simplesmente só Maria:
— O resto é no coração.
Simplesmente Maria.
Nem Maria Anunciada
Nem Maria Aparecida.
Só Maria, sem mais nada,
Só Maria, toda a vida.
Só Maria,
Mas, Maria noite e dia.
985