Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Paulo Leminski
às vezes penso que as melhores inteligências
(...)
às vezes penso que as melhores inteligências como as nossas são
você riso caetano gil alice waly duda pedrinho sebastião
etc etc etc
etc etc
etc
não deviam se ocupar de arte/literatura/SIGNO
deviam partir para a militância
aplicar-se numa militância
A REVOLUÇÃO É SEMPRE NO PLANO PRAGMÁTICO DA MENSAGEM
o que interessa, o que a gente quer, no fundo, é MUDAR A VIDA
alterar as relações de propriedade a distribuição das riquezas
os equilíbrios de poder entre classe e classe nação e nação
este é o grande Poema: nossos poemas são índices dele
meramente
nossa poesia tem que estar a serviço de uma Utopia
ou como v. disse de uma ESPERANÇA
é isso que quero dizer quando falo
que o poeta para ser poeta tem que ser mais que poeta
é preciso deixar que a História chegue em você
dê choque em você
te chame te eleja te corteje
te envolva e te engaje
uma coisa pode ter certeza:
nascemos na classe errada
estou tomando o máximo de cuidado
para que tudo isso que estou dizendo
saia sem o menor resquício de stalinismo
sectarismo esquerdofrênico
and so on
mas não dá para jogar fora esse lance
nós que temos o know-how e o dont-know-how
temos que ter esse what
esse whatever it is
dont you think so?
chega de sutilezas críticas
com meia dúzia de slogans verdadeiros na cabeça
cerco a montanha
ponho cerco às fortificações
tomo a posição e a defendo
os patriarcas já teorizaram bastante por nós
foi seu martírio
estamos dentro de uma onda
uma grande vaga atlântica
me leva do pacífico
até as praias da Atlântida (a Terra Santa)
talvez não haja mais tempo
para grandes GESTOS INAUGURAIS
como a poesia concreta foi
a antropofagia foi
a tropicália foi
agora é tudo assim
ninguém sabe
as certezas se evaporam
que a estátua da liberdade
e a estátua do rigor
velem por todos nós
amor abraços
Leminski
Imagem - 00590007
In: LEMINSKI, Paulo. Uma carta e uma brasa através: cartas a Régis Bonvicino, 1976-1981. Seleção, introdução e notas de Régis Bonvicino. São Paulo: Iluminuras, 1992. p. 42-44
às vezes penso que as melhores inteligências como as nossas são
você riso caetano gil alice waly duda pedrinho sebastião
etc etc etc
etc etc
etc
não deviam se ocupar de arte/literatura/SIGNO
deviam partir para a militância
aplicar-se numa militância
A REVOLUÇÃO É SEMPRE NO PLANO PRAGMÁTICO DA MENSAGEM
o que interessa, o que a gente quer, no fundo, é MUDAR A VIDA
alterar as relações de propriedade a distribuição das riquezas
os equilíbrios de poder entre classe e classe nação e nação
este é o grande Poema: nossos poemas são índices dele
meramente
nossa poesia tem que estar a serviço de uma Utopia
ou como v. disse de uma ESPERANÇA
é isso que quero dizer quando falo
que o poeta para ser poeta tem que ser mais que poeta
é preciso deixar que a História chegue em você
dê choque em você
te chame te eleja te corteje
te envolva e te engaje
uma coisa pode ter certeza:
nascemos na classe errada
estou tomando o máximo de cuidado
para que tudo isso que estou dizendo
saia sem o menor resquício de stalinismo
sectarismo esquerdofrênico
and so on
mas não dá para jogar fora esse lance
nós que temos o know-how e o dont-know-how
temos que ter esse what
esse whatever it is
dont you think so?
chega de sutilezas críticas
com meia dúzia de slogans verdadeiros na cabeça
cerco a montanha
ponho cerco às fortificações
tomo a posição e a defendo
os patriarcas já teorizaram bastante por nós
foi seu martírio
estamos dentro de uma onda
uma grande vaga atlântica
me leva do pacífico
até as praias da Atlântida (a Terra Santa)
talvez não haja mais tempo
para grandes GESTOS INAUGURAIS
como a poesia concreta foi
a antropofagia foi
a tropicália foi
agora é tudo assim
ninguém sabe
as certezas se evaporam
que a estátua da liberdade
e a estátua do rigor
velem por todos nós
amor abraços
Leminski
Imagem - 00590007
In: LEMINSKI, Paulo. Uma carta e uma brasa através: cartas a Régis Bonvicino, 1976-1981. Seleção, introdução e notas de Régis Bonvicino. São Paulo: Iluminuras, 1992. p. 42-44
2 036
1
Luís Gama
Sortimento de Gorras para a Gente do Grande Tom
(...)
Se grosseiro alveitar ou charlatão
Entre nós se proclama sabichão;
E, com cartas compradas na Alemanha.
Por mil anos impinge ipecacuanha;
Se mata, por honrar a Medicina,
Mais voraz do que uma ave de rapina;
E num dia, se, errando na receita,
Pratica no mortal cura perfeita;
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!
Se os nobres desta terra, empanturrados,
Em Guiné têm parentes enterrados;
E, cedendo à prosápia, ou duros vícios,
Esquecem os negrinhos seus patrícios;
Se mulatos de cor esbranquiçada,
Já se julgam de origem refinada,
E, curvos à mania que os domina,
Desprezam a vovó que é preta-mina:
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!
Se o governo do Império Brasileiro,
Faz coisas de espantar o mundo inteiro,
Transcendendo o Autor da geração,
o jumento transforma em sor Barão;
Se estúpido matuto, apatetado,
Idolatra o papel de mascarado;
E fazendo-se o lorpa deputado,
N'Assembléia vai dar seu — apolhado,
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!
Se impera no Brasil o patronato,
Fazendo que o Camelo seja Gato,
Levando o seu domínio a ponto tal,
Que torna em sapiente o animal;
Se deslustram honrosos pergaminhos,
Patetas que nem servem p'ra meirinhos,
E que sendo formados Bacharéis,
Sabem menos do que pecos bedéis,
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!
Se temos Deputados, Senadores,
Bons Ministros e outros chuchadores;
Que se aferram às tetas da Nação
Com mais sanha que o tigre, ou que o Leão;
Se já temos calçados — mac-lama,
Novidade que esfalta a voz da Fama,
Blasonando as gazetas — que há progresso,
Quando tudo caminha p'ra o regresso:
Não te espantes, ó Leitor, da pepineira,
Pois que tudo no Brasil é chuchadeira!
Se contamos vadios empregados,
Porque são das potências afilhados,
E sucumbe, à matroca, abandonado,
O homem de critério, que é honrado;
Se temos militares de trapaça,
Que da guerra jamais viram fumaça,
Mas que empolgam chistosos ordenados,
Que ao povo, sem sentir, são arrancados;
Não te espantes ó Leitor, da pepineira,
Pois que tudo no Brasil é chuchadeira!
(...)
Imagem - 00270003
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1859).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.24-26. (Últimas gerações, 4)
NOTA: Poema composto de 13 parte
Se grosseiro alveitar ou charlatão
Entre nós se proclama sabichão;
E, com cartas compradas na Alemanha.
Por mil anos impinge ipecacuanha;
Se mata, por honrar a Medicina,
Mais voraz do que uma ave de rapina;
E num dia, se, errando na receita,
Pratica no mortal cura perfeita;
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!
Se os nobres desta terra, empanturrados,
Em Guiné têm parentes enterrados;
E, cedendo à prosápia, ou duros vícios,
Esquecem os negrinhos seus patrícios;
Se mulatos de cor esbranquiçada,
Já se julgam de origem refinada,
E, curvos à mania que os domina,
Desprezam a vovó que é preta-mina:
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!
Se o governo do Império Brasileiro,
Faz coisas de espantar o mundo inteiro,
Transcendendo o Autor da geração,
o jumento transforma em sor Barão;
Se estúpido matuto, apatetado,
Idolatra o papel de mascarado;
E fazendo-se o lorpa deputado,
N'Assembléia vai dar seu — apolhado,
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!
Se impera no Brasil o patronato,
Fazendo que o Camelo seja Gato,
Levando o seu domínio a ponto tal,
Que torna em sapiente o animal;
Se deslustram honrosos pergaminhos,
Patetas que nem servem p'ra meirinhos,
E que sendo formados Bacharéis,
Sabem menos do que pecos bedéis,
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!
Se temos Deputados, Senadores,
Bons Ministros e outros chuchadores;
Que se aferram às tetas da Nação
Com mais sanha que o tigre, ou que o Leão;
Se já temos calçados — mac-lama,
Novidade que esfalta a voz da Fama,
Blasonando as gazetas — que há progresso,
Quando tudo caminha p'ra o regresso:
Não te espantes, ó Leitor, da pepineira,
Pois que tudo no Brasil é chuchadeira!
Se contamos vadios empregados,
Porque são das potências afilhados,
E sucumbe, à matroca, abandonado,
O homem de critério, que é honrado;
Se temos militares de trapaça,
Que da guerra jamais viram fumaça,
Mas que empolgam chistosos ordenados,
Que ao povo, sem sentir, são arrancados;
Não te espantes ó Leitor, da pepineira,
Pois que tudo no Brasil é chuchadeira!
(...)
Imagem - 00270003
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1859).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.24-26. (Últimas gerações, 4)
NOTA: Poema composto de 13 parte
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Luís Gama
Sortimento de Gorras para a Gente do Grande Tom
(...)
Se grosseiro alveitar ou charlatão
Entre nós se proclama sabichão;
E, com cartas compradas na Alemanha.
Por mil anos impinge ipecacuanha;
Se mata, por honrar a Medicina,
Mais voraz do que uma ave de rapina;
E num dia, se, errando na receita,
Pratica no mortal cura perfeita;
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!
Se os nobres desta terra, empanturrados,
Em Guiné têm parentes enterrados;
E, cedendo à prosápia, ou duros vícios,
Esquecem os negrinhos seus patrícios;
Se mulatos de cor esbranquiçada,
Já se julgam de origem refinada,
E, curvos à mania que os domina,
Desprezam a vovó que é preta-mina:
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!
Se o governo do Império Brasileiro,
Faz coisas de espantar o mundo inteiro,
Transcendendo o Autor da geração,
o jumento transforma em sor Barão;
Se estúpido matuto, apatetado,
Idolatra o papel de mascarado;
E fazendo-se o lorpa deputado,
N'Assembléia vai dar seu — apolhado,
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!
Se impera no Brasil o patronato,
Fazendo que o Camelo seja Gato,
Levando o seu domínio a ponto tal,
Que torna em sapiente o animal;
Se deslustram honrosos pergaminhos,
Patetas que nem servem p'ra meirinhos,
E que sendo formados Bacharéis,
Sabem menos do que pecos bedéis,
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!
Se temos Deputados, Senadores,
Bons Ministros e outros chuchadores;
Que se aferram às tetas da Nação
Com mais sanha que o tigre, ou que o Leão;
Se já temos calçados — mac-lama,
Novidade que esfalta a voz da Fama,
Blasonando as gazetas — que há progresso,
Quando tudo caminha p'ra o regresso:
Não te espantes, ó Leitor, da pepineira,
Pois que tudo no Brasil é chuchadeira!
Se contamos vadios empregados,
Porque são das potências afilhados,
E sucumbe, à matroca, abandonado,
O homem de critério, que é honrado;
Se temos militares de trapaça,
Que da guerra jamais viram fumaça,
Mas que empolgam chistosos ordenados,
Que ao povo, sem sentir, são arrancados;
Não te espantes ó Leitor, da pepineira,
Pois que tudo no Brasil é chuchadeira!
(...)
Imagem - 00270003
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1859).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.24-26. (Últimas gerações, 4)
NOTA: Poema composto de 13 parte
Se grosseiro alveitar ou charlatão
Entre nós se proclama sabichão;
E, com cartas compradas na Alemanha.
Por mil anos impinge ipecacuanha;
Se mata, por honrar a Medicina,
Mais voraz do que uma ave de rapina;
E num dia, se, errando na receita,
Pratica no mortal cura perfeita;
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!
Se os nobres desta terra, empanturrados,
Em Guiné têm parentes enterrados;
E, cedendo à prosápia, ou duros vícios,
Esquecem os negrinhos seus patrícios;
Se mulatos de cor esbranquiçada,
Já se julgam de origem refinada,
E, curvos à mania que os domina,
Desprezam a vovó que é preta-mina:
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!
Se o governo do Império Brasileiro,
Faz coisas de espantar o mundo inteiro,
Transcendendo o Autor da geração,
o jumento transforma em sor Barão;
Se estúpido matuto, apatetado,
Idolatra o papel de mascarado;
E fazendo-se o lorpa deputado,
N'Assembléia vai dar seu — apolhado,
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!
Se impera no Brasil o patronato,
Fazendo que o Camelo seja Gato,
Levando o seu domínio a ponto tal,
Que torna em sapiente o animal;
Se deslustram honrosos pergaminhos,
Patetas que nem servem p'ra meirinhos,
E que sendo formados Bacharéis,
Sabem menos do que pecos bedéis,
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!
Se temos Deputados, Senadores,
Bons Ministros e outros chuchadores;
Que se aferram às tetas da Nação
Com mais sanha que o tigre, ou que o Leão;
Se já temos calçados — mac-lama,
Novidade que esfalta a voz da Fama,
Blasonando as gazetas — que há progresso,
Quando tudo caminha p'ra o regresso:
Não te espantes, ó Leitor, da pepineira,
Pois que tudo no Brasil é chuchadeira!
Se contamos vadios empregados,
Porque são das potências afilhados,
E sucumbe, à matroca, abandonado,
O homem de critério, que é honrado;
Se temos militares de trapaça,
Que da guerra jamais viram fumaça,
Mas que empolgam chistosos ordenados,
Que ao povo, sem sentir, são arrancados;
Não te espantes ó Leitor, da pepineira,
Pois que tudo no Brasil é chuchadeira!
(...)
Imagem - 00270003
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1859).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.24-26. (Últimas gerações, 4)
NOTA: Poema composto de 13 parte
3 736
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Luís Gama
Sortimento de Gorras para a Gente do Grande Tom
(...)
Se grosseiro alveitar ou charlatão
Entre nós se proclama sabichão;
E, com cartas compradas na Alemanha.
Por mil anos impinge ipecacuanha;
Se mata, por honrar a Medicina,
Mais voraz do que uma ave de rapina;
E num dia, se, errando na receita,
Pratica no mortal cura perfeita;
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!
Se os nobres desta terra, empanturrados,
Em Guiné têm parentes enterrados;
E, cedendo à prosápia, ou duros vícios,
Esquecem os negrinhos seus patrícios;
Se mulatos de cor esbranquiçada,
Já se julgam de origem refinada,
E, curvos à mania que os domina,
Desprezam a vovó que é preta-mina:
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!
Se o governo do Império Brasileiro,
Faz coisas de espantar o mundo inteiro,
Transcendendo o Autor da geração,
o jumento transforma em sor Barão;
Se estúpido matuto, apatetado,
Idolatra o papel de mascarado;
E fazendo-se o lorpa deputado,
N'Assembléia vai dar seu — apolhado,
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!
Se impera no Brasil o patronato,
Fazendo que o Camelo seja Gato,
Levando o seu domínio a ponto tal,
Que torna em sapiente o animal;
Se deslustram honrosos pergaminhos,
Patetas que nem servem p'ra meirinhos,
E que sendo formados Bacharéis,
Sabem menos do que pecos bedéis,
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!
Se temos Deputados, Senadores,
Bons Ministros e outros chuchadores;
Que se aferram às tetas da Nação
Com mais sanha que o tigre, ou que o Leão;
Se já temos calçados — mac-lama,
Novidade que esfalta a voz da Fama,
Blasonando as gazetas — que há progresso,
Quando tudo caminha p'ra o regresso:
Não te espantes, ó Leitor, da pepineira,
Pois que tudo no Brasil é chuchadeira!
Se contamos vadios empregados,
Porque são das potências afilhados,
E sucumbe, à matroca, abandonado,
O homem de critério, que é honrado;
Se temos militares de trapaça,
Que da guerra jamais viram fumaça,
Mas que empolgam chistosos ordenados,
Que ao povo, sem sentir, são arrancados;
Não te espantes ó Leitor, da pepineira,
Pois que tudo no Brasil é chuchadeira!
(...)
Imagem - 00270003
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1859).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.24-26. (Últimas gerações, 4)
NOTA: Poema composto de 13 parte
Se grosseiro alveitar ou charlatão
Entre nós se proclama sabichão;
E, com cartas compradas na Alemanha.
Por mil anos impinge ipecacuanha;
Se mata, por honrar a Medicina,
Mais voraz do que uma ave de rapina;
E num dia, se, errando na receita,
Pratica no mortal cura perfeita;
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!
Se os nobres desta terra, empanturrados,
Em Guiné têm parentes enterrados;
E, cedendo à prosápia, ou duros vícios,
Esquecem os negrinhos seus patrícios;
Se mulatos de cor esbranquiçada,
Já se julgam de origem refinada,
E, curvos à mania que os domina,
Desprezam a vovó que é preta-mina:
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!
Se o governo do Império Brasileiro,
Faz coisas de espantar o mundo inteiro,
Transcendendo o Autor da geração,
o jumento transforma em sor Barão;
Se estúpido matuto, apatetado,
Idolatra o papel de mascarado;
E fazendo-se o lorpa deputado,
N'Assembléia vai dar seu — apolhado,
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!
Se impera no Brasil o patronato,
Fazendo que o Camelo seja Gato,
Levando o seu domínio a ponto tal,
Que torna em sapiente o animal;
Se deslustram honrosos pergaminhos,
Patetas que nem servem p'ra meirinhos,
E que sendo formados Bacharéis,
Sabem menos do que pecos bedéis,
Não te espantes, ó Leitor, da novidade,
Pois que tudo no Brasil é raridade!
Se temos Deputados, Senadores,
Bons Ministros e outros chuchadores;
Que se aferram às tetas da Nação
Com mais sanha que o tigre, ou que o Leão;
Se já temos calçados — mac-lama,
Novidade que esfalta a voz da Fama,
Blasonando as gazetas — que há progresso,
Quando tudo caminha p'ra o regresso:
Não te espantes, ó Leitor, da pepineira,
Pois que tudo no Brasil é chuchadeira!
Se contamos vadios empregados,
Porque são das potências afilhados,
E sucumbe, à matroca, abandonado,
O homem de critério, que é honrado;
Se temos militares de trapaça,
Que da guerra jamais viram fumaça,
Mas que empolgam chistosos ordenados,
Que ao povo, sem sentir, são arrancados;
Não te espantes ó Leitor, da pepineira,
Pois que tudo no Brasil é chuchadeira!
(...)
Imagem - 00270003
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1859).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.24-26. (Últimas gerações, 4)
NOTA: Poema composto de 13 parte
3 736
1
Paulo Leminski
a propaganda meu meio de vida
(...)
a propaganda meu meio de vida
me dá algumas satisfações
afinal
todo layoutman é um pouco poeta concreto
e aliás é fantástico como os homens de arte das agências
entendem um trabalho concreto na hora
enquanto os literati dizem:
— o que é isso? que quer dizer? isso não é poesia.
só me dou com cartunistas fotógrafos cineastas desenhistas
tudo menos escritores
dos quais acabei por ter grande horror
o bom é que estar em propaganda
facilita enormemente as coisas para nós
em termos de letra-set execução produção fotografia papel
uma agência é um laboratório de mensagens
isso está muito bom
além disso me pagam bem
e eu disponho dos melhores homens de arte da praça
todos amigos meus
servo-mecânico para um senhor-mecanismo
conduzo com alguma elegância
meu destino de médico & monstro
fiz uma palestra/debate
proposta minha
na arquitetura daqui
sobre o tema O BELO VERSUS O NOVO
no qual desenvolvi a idéia seguinte
isso que se chama arte moderna
deslocou o centro da idéia de BELO
para a idéia de NOVO
q eu disse ser própria de sociedades industriais
em adiantado estado de consumismo
capitalistas ou socialistas
o pau que quebrou vou te contar
imensamente interessado em tudo que você
produz
me mande me diga me comunique
com toda a amizade
Leminski
In: LEMINSKI, Paulo. Uma carta e uma brasa através: cartas a Régis Bonvicino, 1976-1981. Seleção, introdução e notas de Régis Bonvicino. São Paulo: Iluminuras, 1992. p. 24-25
a propaganda meu meio de vida
me dá algumas satisfações
afinal
todo layoutman é um pouco poeta concreto
e aliás é fantástico como os homens de arte das agências
entendem um trabalho concreto na hora
enquanto os literati dizem:
— o que é isso? que quer dizer? isso não é poesia.
só me dou com cartunistas fotógrafos cineastas desenhistas
tudo menos escritores
dos quais acabei por ter grande horror
o bom é que estar em propaganda
facilita enormemente as coisas para nós
em termos de letra-set execução produção fotografia papel
uma agência é um laboratório de mensagens
isso está muito bom
além disso me pagam bem
e eu disponho dos melhores homens de arte da praça
todos amigos meus
servo-mecânico para um senhor-mecanismo
conduzo com alguma elegância
meu destino de médico & monstro
fiz uma palestra/debate
proposta minha
na arquitetura daqui
sobre o tema O BELO VERSUS O NOVO
no qual desenvolvi a idéia seguinte
isso que se chama arte moderna
deslocou o centro da idéia de BELO
para a idéia de NOVO
q eu disse ser própria de sociedades industriais
em adiantado estado de consumismo
capitalistas ou socialistas
o pau que quebrou vou te contar
imensamente interessado em tudo que você
produz
me mande me diga me comunique
com toda a amizade
Leminski
In: LEMINSKI, Paulo. Uma carta e uma brasa através: cartas a Régis Bonvicino, 1976-1981. Seleção, introdução e notas de Régis Bonvicino. São Paulo: Iluminuras, 1992. p. 24-25
1 893
1
Paulo Leminski
a propaganda meu meio de vida
(...)
a propaganda meu meio de vida
me dá algumas satisfações
afinal
todo layoutman é um pouco poeta concreto
e aliás é fantástico como os homens de arte das agências
entendem um trabalho concreto na hora
enquanto os literati dizem:
— o que é isso? que quer dizer? isso não é poesia.
só me dou com cartunistas fotógrafos cineastas desenhistas
tudo menos escritores
dos quais acabei por ter grande horror
o bom é que estar em propaganda
facilita enormemente as coisas para nós
em termos de letra-set execução produção fotografia papel
uma agência é um laboratório de mensagens
isso está muito bom
além disso me pagam bem
e eu disponho dos melhores homens de arte da praça
todos amigos meus
servo-mecânico para um senhor-mecanismo
conduzo com alguma elegância
meu destino de médico & monstro
fiz uma palestra/debate
proposta minha
na arquitetura daqui
sobre o tema O BELO VERSUS O NOVO
no qual desenvolvi a idéia seguinte
isso que se chama arte moderna
deslocou o centro da idéia de BELO
para a idéia de NOVO
q eu disse ser própria de sociedades industriais
em adiantado estado de consumismo
capitalistas ou socialistas
o pau que quebrou vou te contar
imensamente interessado em tudo que você
produz
me mande me diga me comunique
com toda a amizade
Leminski
In: LEMINSKI, Paulo. Uma carta e uma brasa através: cartas a Régis Bonvicino, 1976-1981. Seleção, introdução e notas de Régis Bonvicino. São Paulo: Iluminuras, 1992. p. 24-25
a propaganda meu meio de vida
me dá algumas satisfações
afinal
todo layoutman é um pouco poeta concreto
e aliás é fantástico como os homens de arte das agências
entendem um trabalho concreto na hora
enquanto os literati dizem:
— o que é isso? que quer dizer? isso não é poesia.
só me dou com cartunistas fotógrafos cineastas desenhistas
tudo menos escritores
dos quais acabei por ter grande horror
o bom é que estar em propaganda
facilita enormemente as coisas para nós
em termos de letra-set execução produção fotografia papel
uma agência é um laboratório de mensagens
isso está muito bom
além disso me pagam bem
e eu disponho dos melhores homens de arte da praça
todos amigos meus
servo-mecânico para um senhor-mecanismo
conduzo com alguma elegância
meu destino de médico & monstro
fiz uma palestra/debate
proposta minha
na arquitetura daqui
sobre o tema O BELO VERSUS O NOVO
no qual desenvolvi a idéia seguinte
isso que se chama arte moderna
deslocou o centro da idéia de BELO
para a idéia de NOVO
q eu disse ser própria de sociedades industriais
em adiantado estado de consumismo
capitalistas ou socialistas
o pau que quebrou vou te contar
imensamente interessado em tudo que você
produz
me mande me diga me comunique
com toda a amizade
Leminski
In: LEMINSKI, Paulo. Uma carta e uma brasa através: cartas a Régis Bonvicino, 1976-1981. Seleção, introdução e notas de Régis Bonvicino. São Paulo: Iluminuras, 1992. p. 24-25
1 893
1
Carlos Frydman
Menino de Hirochima
Hoje, que o sol raiou mais otimista,
peço a todos que não despertem bruscamente as crianças,
que não perturbem seu brincar profundo,
que não maculem sua imensa pureza.
Peço que contem com voz suave e penetrante
que existiu um menino, em Hirochima,
despertando sempre antes do sol
— seu fiel e necessário amigo.
Gostava de vê-lo surgir
sereno, lento, quente e belo,
por entre a madrugada fria.
E quando uma dor lhe abatia,
esperava do Diário-Sol-Gigante
o ansiado carinho.
Um dia, porém,
viu, de repente,
o Sol explodir
em insuportável clarão;
e pensou que o Sol enlouquecera,
que por algo se ofendeu,
que saltou sobre a terra
em sádica vingança.
E, então, perguntou,
ante a nuvem viva de átomos
endiabrados e irremediáveis,
queimando seu pueril amor matinal,
seu gesto de espanto e temor,
seu olhar meigo, curioso e interrogativo:
— "Por que me queimas tanto,
se teu calor tem sido sempre tão amigo?"
E não teve tempo de saber
que, antes de os homens libertarem
de cada átomo um sol,
já escravizavam e queimavam homens vivos.
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
peço a todos que não despertem bruscamente as crianças,
que não perturbem seu brincar profundo,
que não maculem sua imensa pureza.
Peço que contem com voz suave e penetrante
que existiu um menino, em Hirochima,
despertando sempre antes do sol
— seu fiel e necessário amigo.
Gostava de vê-lo surgir
sereno, lento, quente e belo,
por entre a madrugada fria.
E quando uma dor lhe abatia,
esperava do Diário-Sol-Gigante
o ansiado carinho.
Um dia, porém,
viu, de repente,
o Sol explodir
em insuportável clarão;
e pensou que o Sol enlouquecera,
que por algo se ofendeu,
que saltou sobre a terra
em sádica vingança.
E, então, perguntou,
ante a nuvem viva de átomos
endiabrados e irremediáveis,
queimando seu pueril amor matinal,
seu gesto de espanto e temor,
seu olhar meigo, curioso e interrogativo:
— "Por que me queimas tanto,
se teu calor tem sido sempre tão amigo?"
E não teve tempo de saber
que, antes de os homens libertarem
de cada átomo um sol,
já escravizavam e queimavam homens vivos.
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
1 033
1
Capinan
No Coração da Saideira
Hoje não tem dança
Não tem mais menina de trança
Nem cheiro de lança no ar
Hoje não tem frevo
Tem gente que passa com medo
E na praça, ninguém pra cantar
Me lembro tanto
É tão grande a saudade
Que até parece verdade que o tempo
Ainda pode voltar
Tempo de praia
De ponta de pedra
Das noites de lua
Dos blocos de rua
Do susto e a carreira
Da caramboleia
Do bumba-meu-boi
Que tempo que foi
Agulha frita, mugunzá cravo e canela (BIS)
Serenata eu fiz pra ela
Cada noite de luar
Tempo do corso
Na rua da Aurora
Moço na praça
Menina e senhora
No bonde de Olinda
Pra baixo e pra cima do caramanchão
Esqueço mais não
E frevo ainda
Apesar da quarta-feira
No coração da saideira
Vendo a vida se enfeitar
In: VIOLÃO e Guitarra, São Paulo, n. 58, p. 45-46, 1979
NOTA: Parceria com Edu Lob
Não tem mais menina de trança
Nem cheiro de lança no ar
Hoje não tem frevo
Tem gente que passa com medo
E na praça, ninguém pra cantar
Me lembro tanto
É tão grande a saudade
Que até parece verdade que o tempo
Ainda pode voltar
Tempo de praia
De ponta de pedra
Das noites de lua
Dos blocos de rua
Do susto e a carreira
Da caramboleia
Do bumba-meu-boi
Que tempo que foi
Agulha frita, mugunzá cravo e canela (BIS)
Serenata eu fiz pra ela
Cada noite de luar
Tempo do corso
Na rua da Aurora
Moço na praça
Menina e senhora
No bonde de Olinda
Pra baixo e pra cima do caramanchão
Esqueço mais não
E frevo ainda
Apesar da quarta-feira
No coração da saideira
Vendo a vida se enfeitar
In: VIOLÃO e Guitarra, São Paulo, n. 58, p. 45-46, 1979
NOTA: Parceria com Edu Lob
1 469
1
Carlos Frydman
Ansiedade
Tenho sede de palavras quentes
desgarradas dos limites formais.
Tenho fome da pureza
que a "diplomacia" da vida roubou.
Tenho saudade dos luares
que a simetria da cidade retalhou.
Sinto a tristeza e o frio dos cimentos
que fizeram dos homens aves sem vôo;
das crianças, criaturas sem jardins;
dos decênios, estações sem primaveras,
impingindo um formalismo e limitando
os seres em si.
Tenho a premência coletiva
de impor os sonhos à vida;
e, do artifício de viver,
fazer da vida a delícia
que as artes vivas
procuram viver.
Tenho ansiedade
de não ficar ansiando
o que estou buscando,
na busca que busco,
antes que a busca
me possa tragar.
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
desgarradas dos limites formais.
Tenho fome da pureza
que a "diplomacia" da vida roubou.
Tenho saudade dos luares
que a simetria da cidade retalhou.
Sinto a tristeza e o frio dos cimentos
que fizeram dos homens aves sem vôo;
das crianças, criaturas sem jardins;
dos decênios, estações sem primaveras,
impingindo um formalismo e limitando
os seres em si.
Tenho a premência coletiva
de impor os sonhos à vida;
e, do artifício de viver,
fazer da vida a delícia
que as artes vivas
procuram viver.
Tenho ansiedade
de não ficar ansiando
o que estou buscando,
na busca que busco,
antes que a busca
me possa tragar.
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
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1
Henriqueta Lisboa
Drama de Bárbara Heliodora
"Bárbara bela
do norte estrela
que o meu destino
sabes guiar."
Quem é esse que assim canta
como quem está chorando?
Suas faces encovaram,
seus olhos se amorteceram,
sobre seus cabelos negros
cai uma chuva de cinza.
Ah! e havia tanta brasa
em torno de seus cabelos,
tanto sol na sua ilharga,
tanto ouro nas suas minas,
tanto potro galopando
nas suas terras sem fim.
Grão de poeira quando o vento
a madrugada castiga:
Já não é mais Alvarenga
quem foi Alvarenga um dia.
Do galho tomba uma fruta
verde sobre o lago fundo.
A árvore guardava a seiva
toda nessa fruta verde.
A mão trêmula do poeta
mal sabe aquilo que escreve:
"Tu entre os braços
ternos abraços
da filha amada
podes gozar."
A essas horas, na distância,
vai pela tarde dorida
sob a chuva, entre salpicos
de lama, um caixão mortuário
sem enfeites nem bordados,
senão os que a lama asperge
no pano que cobre as tábuas.
Quando a alvura da açucena
se refugiava nas moitas,
Maria Ifigênia encontra
sua gruta para sempre.
É deveras a Princesa
do Brasil, essa menina
de madeixas escorridas,
de lábios esmaecidos,
de túnica mal vestida?
Essa, a mesma por quem vinham
da Corte os melhores mestres
de dança e língua estrangeira?
A de damascos e auréolas
a quem brotavam nos dedos
tíbios ramos de coral?
Linda, lendária Princesa,
por quem chora já sem lágrimas
pobre mulher desvairada
de olhos que olham mas não vêem.
Chora Bárbara Heliodora
Guilhermina da Silveira.
E em suas artérias corre
o sangue de Amador Bueno!
Chora, porém já sem lágrimas.
É de mármore seu rosto.
Seu busto cai sobre os joelhos:
flores que de trepadeiras
pendem murchas para o solo.
Talvez já nem saiba como
– para donaire da estirpe –
na ponta dos pés erguida
em hora periclitante
ousou admoestar o esposo:
"Antes a miséria, a fome,
a morte, do que a traição!"
Valem muralhas de pedra
para represa dos rios,
certas palavras eternas
que decidem do destino.
Publicado no livro Madrinha Lua (1952)
LISBOA, Henriqueta. Obras completas: poesia geral: 1929-1983. São Paulo: Duas Cidades, 1985. p. 21.
do norte estrela
que o meu destino
sabes guiar."
Quem é esse que assim canta
como quem está chorando?
Suas faces encovaram,
seus olhos se amorteceram,
sobre seus cabelos negros
cai uma chuva de cinza.
Ah! e havia tanta brasa
em torno de seus cabelos,
tanto sol na sua ilharga,
tanto ouro nas suas minas,
tanto potro galopando
nas suas terras sem fim.
Grão de poeira quando o vento
a madrugada castiga:
Já não é mais Alvarenga
quem foi Alvarenga um dia.
Do galho tomba uma fruta
verde sobre o lago fundo.
A árvore guardava a seiva
toda nessa fruta verde.
A mão trêmula do poeta
mal sabe aquilo que escreve:
"Tu entre os braços
ternos abraços
da filha amada
podes gozar."
A essas horas, na distância,
vai pela tarde dorida
sob a chuva, entre salpicos
de lama, um caixão mortuário
sem enfeites nem bordados,
senão os que a lama asperge
no pano que cobre as tábuas.
Quando a alvura da açucena
se refugiava nas moitas,
Maria Ifigênia encontra
sua gruta para sempre.
É deveras a Princesa
do Brasil, essa menina
de madeixas escorridas,
de lábios esmaecidos,
de túnica mal vestida?
Essa, a mesma por quem vinham
da Corte os melhores mestres
de dança e língua estrangeira?
A de damascos e auréolas
a quem brotavam nos dedos
tíbios ramos de coral?
Linda, lendária Princesa,
por quem chora já sem lágrimas
pobre mulher desvairada
de olhos que olham mas não vêem.
Chora Bárbara Heliodora
Guilhermina da Silveira.
E em suas artérias corre
o sangue de Amador Bueno!
Chora, porém já sem lágrimas.
É de mármore seu rosto.
Seu busto cai sobre os joelhos:
flores que de trepadeiras
pendem murchas para o solo.
Talvez já nem saiba como
– para donaire da estirpe –
na ponta dos pés erguida
em hora periclitante
ousou admoestar o esposo:
"Antes a miséria, a fome,
a morte, do que a traição!"
Valem muralhas de pedra
para represa dos rios,
certas palavras eternas
que decidem do destino.
Publicado no livro Madrinha Lua (1952)
LISBOA, Henriqueta. Obras completas: poesia geral: 1929-1983. São Paulo: Duas Cidades, 1985. p. 21.
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1
Bernardino Lopes
Mameluca
A que aí anda, esguia mameluca,
De olhos de amêndoa e tranças azeviche,
Tem uns ares fidalgos da Tijuca
E petulantes trajos a Niniche.
É justo, é natural que ela capriche
Em mostrar o cabelo, a espádua, a nuca
E essas pálpebras roxas de derviche,
Como um goivo aromal que se machuca.
Abre às soalheiras, em sanguíneo estofo,
A escandalosa e original papoula
Do pára-sol clownesco, álacre e fofo;
E o lírio do alto, quando espia o glabro
Rosto oval da cabocla, abre a caçoula,
E a via-láctea acende em candelabro!
Publicado no livro Brasões (1895).
In: LOPES, B. Poesias completas. Pref. Andrade Muricy. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
De olhos de amêndoa e tranças azeviche,
Tem uns ares fidalgos da Tijuca
E petulantes trajos a Niniche.
É justo, é natural que ela capriche
Em mostrar o cabelo, a espádua, a nuca
E essas pálpebras roxas de derviche,
Como um goivo aromal que se machuca.
Abre às soalheiras, em sanguíneo estofo,
A escandalosa e original papoula
Do pára-sol clownesco, álacre e fofo;
E o lírio do alto, quando espia o glabro
Rosto oval da cabocla, abre a caçoula,
E a via-láctea acende em candelabro!
Publicado no livro Brasões (1895).
In: LOPES, B. Poesias completas. Pref. Andrade Muricy. Rio de Janeiro: Z. Valverde, 1945. v.
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1
Juó Bananére
O prugressu di Zan Baolo - Tuttos lugaro tenia só
O prugressu di Zan Baolo – Tuttos lugaro tenia só
matta virginia(1) – També d'abax'o a ponte do
viadutto – Io co Garonello arubamus
galligna lá muitas veíz
Altros appuntamenti.
Lustrissimu Ridattore
du "Pirralho"
Io té visto molto prugressu inda a mia vita che io tegno, sessantré annos, ma come questo prugressu di Zan Baolo só indo o prospero distritto do Abax'o Pigues mi té(2) visto uguali.
S’immagine che a genti vá pigá un girio disposa du jantáro e quano xiga inda a rua da Gonçolaçó tenía lá un tirreno tutto xiigno co gapino. Intó a genti vai ali p’ra dianti invisitá uno amighe e quano giá vurtó, spia p'ro tirreno, ma che!! non té(3) maise tírreno(4) nisciuno, ma inveiz stá flizida lá una bunita casa maise bunita da casa do Capitó.
Eh! mamma mia! si non fosse os intaliano, che speranza! non tenia né una casa chique come quella che fiz agora o Garonello inzima a rua Martigno Francesco.
També si non fosse os intalianos non tenia né u larghe du Arrusá, né o Bó Retiro, né as cumpania di operette do Vitale(5) e né o Bertini(6) che també é u migliore ingraziato di tutto o mondo interinho.
També o "garadura" furo os intalianos che indiscobriro.
Eh! ma si pensa che Zan Baolo furo tutta vita come oggi? Stó moltos inganatus si signore!
Primiere, quano minho avó xigá qui inzima o Brasile só tenia a ladere do Abax'o Pigues, o larghe du Arrusá e u barro da Liberdá.
A Villa Buarca, a Barafunda, o Bó Retiro stavo tutto coperto c'oa mattavirgia. També a Luiz e també a Bixiga.
D'Abx’o a ponte do viadutto(7) era tutto gapino e tenia moltos passarigno che io iva tuttos dí di magná cidigno matá co stilingo. També tenia lá a casa du Bargionase dove io co Garonello che in quello tempio era piqueno come o Alengaro, tuttos dí ia cum elli arrubá galligna.
Disposa io co Garonello ia vedê s'inforcá us negro ingoppa a pracia a Republiga che u Garonello tenia molta paura, perché una veiz una molhere veglia che si diceva feticera falló p'ra elli che també elli tenia da murrê inforcado.
Povero Garonello! xuró piore du leitó assado.
(Palpito p'ra manhá: porco).
També u Morse in quello tempio giá tenia inventadu u teligrame senza fili.
Oggi inveiz nó, pur causa che faiz u palpito do bixo inzima u giurná do Gartola.
Evviva u Gartola!
Evvivôôô.....
Con tutto o a stima dua cumideraçó, il suo griato
Rigumendaçós p'rá famiglia
Publicada no jornal O Pirralho, 20 abr. 1912, p. 13.
BANANÉRE, Juó. Crônicas avulsas, 1911/1917. O pirralho. São Paulo, 24 fev. 1912. Apud ANTUNES, Benedito. As cartas d’Abaixo Piques de Juó Bananére. Assis, 1996. P. 83-85. Tese de Doutorado. UNESP.
NOTAS:
(1) Pronúnc.: virgínia. (2) P. te. (3) P. nouté. (4) P. Tirreno, nisciuno. (5) Ettore Vitale, diretor da Companhia Italiana Ettore Vitale, de óperas bufas e operetas (MENEZES, 1969, p. 18). (6) Diretor da companhia de teatro que levava o seu nome. (7) Viaduto do Chá.
matta virginia(1) – També d'abax'o a ponte do
viadutto – Io co Garonello arubamus
galligna lá muitas veíz
Altros appuntamenti.
Lustrissimu Ridattore
du "Pirralho"
Io té visto molto prugressu inda a mia vita che io tegno, sessantré annos, ma come questo prugressu di Zan Baolo só indo o prospero distritto do Abax'o Pigues mi té(2) visto uguali.
S’immagine che a genti vá pigá un girio disposa du jantáro e quano xiga inda a rua da Gonçolaçó tenía lá un tirreno tutto xiigno co gapino. Intó a genti vai ali p’ra dianti invisitá uno amighe e quano giá vurtó, spia p'ro tirreno, ma che!! non té(3) maise tírreno(4) nisciuno, ma inveiz stá flizida lá una bunita casa maise bunita da casa do Capitó.
Eh! mamma mia! si non fosse os intaliano, che speranza! non tenia né una casa chique come quella che fiz agora o Garonello inzima a rua Martigno Francesco.
També si non fosse os intalianos non tenia né u larghe du Arrusá, né o Bó Retiro, né as cumpania di operette do Vitale(5) e né o Bertini(6) che també é u migliore ingraziato di tutto o mondo interinho.
També o "garadura" furo os intalianos che indiscobriro.
Eh! ma si pensa che Zan Baolo furo tutta vita come oggi? Stó moltos inganatus si signore!
Primiere, quano minho avó xigá qui inzima o Brasile só tenia a ladere do Abax'o Pigues, o larghe du Arrusá e u barro da Liberdá.
A Villa Buarca, a Barafunda, o Bó Retiro stavo tutto coperto c'oa mattavirgia. També a Luiz e també a Bixiga.
D'Abx’o a ponte do viadutto(7) era tutto gapino e tenia moltos passarigno che io iva tuttos dí di magná cidigno matá co stilingo. També tenia lá a casa du Bargionase dove io co Garonello che in quello tempio era piqueno come o Alengaro, tuttos dí ia cum elli arrubá galligna.
Disposa io co Garonello ia vedê s'inforcá us negro ingoppa a pracia a Republiga che u Garonello tenia molta paura, perché una veiz una molhere veglia che si diceva feticera falló p'ra elli che també elli tenia da murrê inforcado.
Povero Garonello! xuró piore du leitó assado.
(Palpito p'ra manhá: porco).
També u Morse in quello tempio giá tenia inventadu u teligrame senza fili.
Oggi inveiz nó, pur causa che faiz u palpito do bixo inzima u giurná do Gartola.
Evviva u Gartola!
Evvivôôô.....
Con tutto o a stima dua cumideraçó, il suo griato
Rigumendaçós p'rá famiglia
Publicada no jornal O Pirralho, 20 abr. 1912, p. 13.
BANANÉRE, Juó. Crônicas avulsas, 1911/1917. O pirralho. São Paulo, 24 fev. 1912. Apud ANTUNES, Benedito. As cartas d’Abaixo Piques de Juó Bananére. Assis, 1996. P. 83-85. Tese de Doutorado. UNESP.
NOTAS:
(1) Pronúnc.: virgínia. (2) P. te. (3) P. nouté. (4) P. Tirreno, nisciuno. (5) Ettore Vitale, diretor da Companhia Italiana Ettore Vitale, de óperas bufas e operetas (MENEZES, 1969, p. 18). (6) Diretor da companhia de teatro que levava o seu nome. (7) Viaduto do Chá.
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Juó Bananére
O prugressu di Zan Baolo - Tuttos lugaro tenia só
O prugressu di Zan Baolo – Tuttos lugaro tenia só
matta virginia(1) – També d'abax'o a ponte do
viadutto – Io co Garonello arubamus
galligna lá muitas veíz
Altros appuntamenti.
Lustrissimu Ridattore
du "Pirralho"
Io té visto molto prugressu inda a mia vita che io tegno, sessantré annos, ma come questo prugressu di Zan Baolo só indo o prospero distritto do Abax'o Pigues mi té(2) visto uguali.
S’immagine che a genti vá pigá un girio disposa du jantáro e quano xiga inda a rua da Gonçolaçó tenía lá un tirreno tutto xiigno co gapino. Intó a genti vai ali p’ra dianti invisitá uno amighe e quano giá vurtó, spia p'ro tirreno, ma che!! non té(3) maise tírreno(4) nisciuno, ma inveiz stá flizida lá una bunita casa maise bunita da casa do Capitó.
Eh! mamma mia! si non fosse os intaliano, che speranza! non tenia né una casa chique come quella che fiz agora o Garonello inzima a rua Martigno Francesco.
També si non fosse os intalianos non tenia né u larghe du Arrusá, né o Bó Retiro, né as cumpania di operette do Vitale(5) e né o Bertini(6) che també é u migliore ingraziato di tutto o mondo interinho.
També o "garadura" furo os intalianos che indiscobriro.
Eh! ma si pensa che Zan Baolo furo tutta vita come oggi? Stó moltos inganatus si signore!
Primiere, quano minho avó xigá qui inzima o Brasile só tenia a ladere do Abax'o Pigues, o larghe du Arrusá e u barro da Liberdá.
A Villa Buarca, a Barafunda, o Bó Retiro stavo tutto coperto c'oa mattavirgia. També a Luiz e també a Bixiga.
D'Abx’o a ponte do viadutto(7) era tutto gapino e tenia moltos passarigno che io iva tuttos dí di magná cidigno matá co stilingo. També tenia lá a casa du Bargionase dove io co Garonello che in quello tempio era piqueno come o Alengaro, tuttos dí ia cum elli arrubá galligna.
Disposa io co Garonello ia vedê s'inforcá us negro ingoppa a pracia a Republiga che u Garonello tenia molta paura, perché una veiz una molhere veglia che si diceva feticera falló p'ra elli che també elli tenia da murrê inforcado.
Povero Garonello! xuró piore du leitó assado.
(Palpito p'ra manhá: porco).
També u Morse in quello tempio giá tenia inventadu u teligrame senza fili.
Oggi inveiz nó, pur causa che faiz u palpito do bixo inzima u giurná do Gartola.
Evviva u Gartola!
Evvivôôô.....
Con tutto o a stima dua cumideraçó, il suo griato
Rigumendaçós p'rá famiglia
Publicada no jornal O Pirralho, 20 abr. 1912, p. 13.
BANANÉRE, Juó. Crônicas avulsas, 1911/1917. O pirralho. São Paulo, 24 fev. 1912. Apud ANTUNES, Benedito. As cartas d’Abaixo Piques de Juó Bananére. Assis, 1996. P. 83-85. Tese de Doutorado. UNESP.
NOTAS:
(1) Pronúnc.: virgínia. (2) P. te. (3) P. nouté. (4) P. Tirreno, nisciuno. (5) Ettore Vitale, diretor da Companhia Italiana Ettore Vitale, de óperas bufas e operetas (MENEZES, 1969, p. 18). (6) Diretor da companhia de teatro que levava o seu nome. (7) Viaduto do Chá.
matta virginia(1) – També d'abax'o a ponte do
viadutto – Io co Garonello arubamus
galligna lá muitas veíz
Altros appuntamenti.
Lustrissimu Ridattore
du "Pirralho"
Io té visto molto prugressu inda a mia vita che io tegno, sessantré annos, ma come questo prugressu di Zan Baolo só indo o prospero distritto do Abax'o Pigues mi té(2) visto uguali.
S’immagine che a genti vá pigá un girio disposa du jantáro e quano xiga inda a rua da Gonçolaçó tenía lá un tirreno tutto xiigno co gapino. Intó a genti vai ali p’ra dianti invisitá uno amighe e quano giá vurtó, spia p'ro tirreno, ma che!! non té(3) maise tírreno(4) nisciuno, ma inveiz stá flizida lá una bunita casa maise bunita da casa do Capitó.
Eh! mamma mia! si non fosse os intaliano, che speranza! non tenia né una casa chique come quella che fiz agora o Garonello inzima a rua Martigno Francesco.
També si non fosse os intalianos non tenia né u larghe du Arrusá, né o Bó Retiro, né as cumpania di operette do Vitale(5) e né o Bertini(6) che també é u migliore ingraziato di tutto o mondo interinho.
També o "garadura" furo os intalianos che indiscobriro.
Eh! ma si pensa che Zan Baolo furo tutta vita come oggi? Stó moltos inganatus si signore!
Primiere, quano minho avó xigá qui inzima o Brasile só tenia a ladere do Abax'o Pigues, o larghe du Arrusá e u barro da Liberdá.
A Villa Buarca, a Barafunda, o Bó Retiro stavo tutto coperto c'oa mattavirgia. També a Luiz e també a Bixiga.
D'Abx’o a ponte do viadutto(7) era tutto gapino e tenia moltos passarigno che io iva tuttos dí di magná cidigno matá co stilingo. També tenia lá a casa du Bargionase dove io co Garonello che in quello tempio era piqueno come o Alengaro, tuttos dí ia cum elli arrubá galligna.
Disposa io co Garonello ia vedê s'inforcá us negro ingoppa a pracia a Republiga che u Garonello tenia molta paura, perché una veiz una molhere veglia che si diceva feticera falló p'ra elli che també elli tenia da murrê inforcado.
Povero Garonello! xuró piore du leitó assado.
(Palpito p'ra manhá: porco).
També u Morse in quello tempio giá tenia inventadu u teligrame senza fili.
Oggi inveiz nó, pur causa che faiz u palpito do bixo inzima u giurná do Gartola.
Evviva u Gartola!
Evvivôôô.....
Con tutto o a stima dua cumideraçó, il suo griato
Rigumendaçós p'rá famiglia
Publicada no jornal O Pirralho, 20 abr. 1912, p. 13.
BANANÉRE, Juó. Crônicas avulsas, 1911/1917. O pirralho. São Paulo, 24 fev. 1912. Apud ANTUNES, Benedito. As cartas d’Abaixo Piques de Juó Bananére. Assis, 1996. P. 83-85. Tese de Doutorado. UNESP.
NOTAS:
(1) Pronúnc.: virgínia. (2) P. te. (3) P. nouté. (4) P. Tirreno, nisciuno. (5) Ettore Vitale, diretor da Companhia Italiana Ettore Vitale, de óperas bufas e operetas (MENEZES, 1969, p. 18). (6) Diretor da companhia de teatro que levava o seu nome. (7) Viaduto do Chá.
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Juó Bananére
U garnevallo inda a cittá - Também tive u corsego
U garnevallo inda a cittá – També tive u corsego(1)
Una roba che si xame u curdó – A indisgunhambaçó
– Os carros garnevallsco – O Fausdino
Rebero e o Garonello senza gabeza.
Lustrissimu Redattore
du "Piralho"
In questo I'anno u garnevallo inda a cittá istive xiinho.
Tenía genti piore da festa da a Penha.
També tive u corsego.
U corsego é una roba che si buta una purçó de intomovel uno atraiz du otro, e si incomincia da virá, virá, virá.. té di notte. U corsigo fui inda a avenidiga(2) Baoliste(3).
Intó io pigué a mia figlia. Ciurmelinha e o Beppino e flumos inda a cittá, ma quando io xigué proprio ingoppa a ladére do dottore Falcone(5) io inxergué(6) tutto o mondo lá e vurté inda a gasa mia pur causa di largá a Gurmelinha co Beppino, perchê sinó tenía da murré i sopra di quello aperto che tenía lá inda a cittá.
Intó io larghé us mios figlios e vurté.
Eh! ma che roba meravigliosa. Tutta a cittá stava illuminata co'as lamparina azzurra, virmeglio, marello, roxe e verdi (inda(7) a terra mia, "verdi" é uno maestro che té fazido a musiga(8) du "Guarani"(9), da "Molhere du Surdado"(10), ecc. ecc.).
S’imagine aóra che di repente incominció da pertá che a genti non poteva né andá.
Quano a genti vuleva andá giá tenía da levá un piscoço.
Ma io figava chéto, pur causa che o Lacarato mi disse che se io faceva qualche altra indisgunhambaçó e fosse preso p'ra gadeia, non mi surtava mais.
Intó io levé cinquantaquattro piscoçó inté xigá indo o larghe du Arrusá e non mi disse né(11) una parola.
Ma inveiz, quano io xigué lá, tenía una purçó d’ingafagesto che venía uno atraiz du otro, gridando come us imbriagone e currendo indo o meio du póvolo.
Io pregunté p'ro Beppino che robba fosse quella e u Beppino mi cuntaro che queflo si xame u curdó.
lo stavo mesimo indegninado(12) quando uno di quellos indisgraziato si pisó bnima di uno mio gallo che io tenho ingoppa u dedó.
Intó si signore che io non inxergué, né o Lacarato, né gadeia, né nada, ma inveiz mi fIz un puntapelo sopra di quello indisgraziato che elli fui acaí(13) mesimo ingoppa a gabeza do Lacarato che stavo(14) parado lá inda a porta du "Curréu Baolistano".
O Lacarato indisgambó inzima di mi, ma io che non só troxa p'ra burro, indisgambai indo u meie du póvolo, che o Lacarato non fui capaiz di mi pigá.
Intó io fui lá inda a porta d’un mio cumpadro che té lá inda a rua Quinze e, figué lá parado pur causa da vedé us prestiti(16) garnevallesco.
Di repenti vignó us Incentrico(17). Ih! mamma mia, come era bunito. Tenia mais de cinquanta carros tuttos molto bunito, molto xiigno da papelo durado, ma inveiz quello che io truvé(18) mais bunito fui quello carruçó che diceva che o Fausdino Rebéro, (quello que fui sbarrato) quano non gura, mata...
O Fausdino Rebéro é mio cumpanhero inda a "briosa".
Tenía també un’altro garro dove venía una gadera d’indeputado che tutto os mondo vuleva trepá, ma inveiz o Carlo Garcia é che stava quasi pigando. O Garonello inveiz no! questo giá tenía gabeza curtada e stavo supra du chon.
Povero(19) Garonello.
Con tutto o a stima c’ua sideraçó, il suo griato
Publicada no jornal O Pirralho, 24 fev. 1912. p. 12.
BANANÉRE, Juó. Crônicas avulsas, 1911/1917. O pirralho. São Paulo, 24 fev. 1912. Apud ANTUNES, Benedito. As cartas d’Abaixo Piques de Juó Bananére. Assis, 1996. P. 64-66. Tese de Doutorado. UNESP.
NOTAS:
(1) Pronúnc.: côrsego. (2) Pronúnc.: avenídiga. (3) Além dos dias de carnaval, o corso em São Paulo era uma prática comum nos domingos e dias festivos. Acontecia inicialmente na Av. Higienópolis, tendo passado depois para a Av. Paulista, que precisava ser irrigada, pois só foi asfaltada no início de 1915 (O Pirralho, 6 jan. 912, p. 16; 6 fev. 1915, p. 7). Dele tomava parte "toda a elite da sociedade paulistana" (SILVA, 1924, p. 73). (4) P. indá. (5) Ladeira Dr. Falcão, mais tarde denominada Travessa de Santo Antônio, era um dos trechos do caminho que ligava o centro da cidade ao interior. Em 1877, passou a se chamar Rua Dr. Falcão Filho (AMARAL, 1980, p. 467). (6) P. inxergué, tutto. (7) P. indá. (8) Pronúnc.: músiga. (9) P. Guarany. (10) Mulher ou soldado?, vaudeville que estreiou em São Paulo em novembro de 1911 (O Estado de S. Paulo, 18 nov. 1911, p.5). (11) P. ne. (12) P. indegniado. (13) P. acahi. (14) It. Stavo: estava (eu), forma usada aqui no lugar da terceira pessoal verbal. (15) P. indisgombó. (16) Pronúnc.: préstiti. (17) Pronúnc.: Incêntrico. Refere-se ao Clube dos Excêntricos, que no carnaval de 1912 procurou reviver em São Paulo o carnaval de outrora (O Estado de S. Paulo, 9 mar. 1912, p. 9). (18) It. Trovare: encontrar, achar. (19) Pronúnc.: póvero.
Una roba che si xame u curdó – A indisgunhambaçó
– Os carros garnevallsco – O Fausdino
Rebero e o Garonello senza gabeza.
Lustrissimu Redattore
du "Piralho"
In questo I'anno u garnevallo inda a cittá istive xiinho.
Tenía genti piore da festa da a Penha.
També tive u corsego.
U corsego é una roba che si buta una purçó de intomovel uno atraiz du otro, e si incomincia da virá, virá, virá.. té di notte. U corsigo fui inda a avenidiga(2) Baoliste(3).
Intó io pigué a mia figlia. Ciurmelinha e o Beppino e flumos inda a cittá, ma quando io xigué proprio ingoppa a ladére do dottore Falcone(5) io inxergué(6) tutto o mondo lá e vurté inda a gasa mia pur causa di largá a Gurmelinha co Beppino, perchê sinó tenía da murré i sopra di quello aperto che tenía lá inda a cittá.
Intó io larghé us mios figlios e vurté.
Eh! ma che roba meravigliosa. Tutta a cittá stava illuminata co'as lamparina azzurra, virmeglio, marello, roxe e verdi (inda(7) a terra mia, "verdi" é uno maestro che té fazido a musiga(8) du "Guarani"(9), da "Molhere du Surdado"(10), ecc. ecc.).
S’imagine aóra che di repente incominció da pertá che a genti non poteva né andá.
Quano a genti vuleva andá giá tenía da levá un piscoço.
Ma io figava chéto, pur causa che o Lacarato mi disse che se io faceva qualche altra indisgunhambaçó e fosse preso p'ra gadeia, non mi surtava mais.
Intó io levé cinquantaquattro piscoçó inté xigá indo o larghe du Arrusá e non mi disse né(11) una parola.
Ma inveiz, quano io xigué lá, tenía una purçó d’ingafagesto che venía uno atraiz du otro, gridando come us imbriagone e currendo indo o meio du póvolo.
Io pregunté p'ro Beppino che robba fosse quella e u Beppino mi cuntaro che queflo si xame u curdó.
lo stavo mesimo indegninado(12) quando uno di quellos indisgraziato si pisó bnima di uno mio gallo che io tenho ingoppa u dedó.
Intó si signore che io non inxergué, né o Lacarato, né gadeia, né nada, ma inveiz mi fIz un puntapelo sopra di quello indisgraziato che elli fui acaí(13) mesimo ingoppa a gabeza do Lacarato che stavo(14) parado lá inda a porta du "Curréu Baolistano".
O Lacarato indisgambó inzima di mi, ma io che non só troxa p'ra burro, indisgambai indo u meie du póvolo, che o Lacarato non fui capaiz di mi pigá.
Intó io fui lá inda a porta d’un mio cumpadro che té lá inda a rua Quinze e, figué lá parado pur causa da vedé us prestiti(16) garnevallesco.
Di repenti vignó us Incentrico(17). Ih! mamma mia, come era bunito. Tenia mais de cinquanta carros tuttos molto bunito, molto xiigno da papelo durado, ma inveiz quello che io truvé(18) mais bunito fui quello carruçó che diceva che o Fausdino Rebéro, (quello que fui sbarrato) quano non gura, mata...
O Fausdino Rebéro é mio cumpanhero inda a "briosa".
Tenía també un’altro garro dove venía una gadera d’indeputado che tutto os mondo vuleva trepá, ma inveiz o Carlo Garcia é che stava quasi pigando. O Garonello inveiz no! questo giá tenía gabeza curtada e stavo supra du chon.
Povero(19) Garonello.
Con tutto o a stima c’ua sideraçó, il suo griato
Publicada no jornal O Pirralho, 24 fev. 1912. p. 12.
BANANÉRE, Juó. Crônicas avulsas, 1911/1917. O pirralho. São Paulo, 24 fev. 1912. Apud ANTUNES, Benedito. As cartas d’Abaixo Piques de Juó Bananére. Assis, 1996. P. 64-66. Tese de Doutorado. UNESP.
NOTAS:
(1) Pronúnc.: côrsego. (2) Pronúnc.: avenídiga. (3) Além dos dias de carnaval, o corso em São Paulo era uma prática comum nos domingos e dias festivos. Acontecia inicialmente na Av. Higienópolis, tendo passado depois para a Av. Paulista, que precisava ser irrigada, pois só foi asfaltada no início de 1915 (O Pirralho, 6 jan. 912, p. 16; 6 fev. 1915, p. 7). Dele tomava parte "toda a elite da sociedade paulistana" (SILVA, 1924, p. 73). (4) P. indá. (5) Ladeira Dr. Falcão, mais tarde denominada Travessa de Santo Antônio, era um dos trechos do caminho que ligava o centro da cidade ao interior. Em 1877, passou a se chamar Rua Dr. Falcão Filho (AMARAL, 1980, p. 467). (6) P. inxergué, tutto. (7) P. indá. (8) Pronúnc.: músiga. (9) P. Guarany. (10) Mulher ou soldado?, vaudeville que estreiou em São Paulo em novembro de 1911 (O Estado de S. Paulo, 18 nov. 1911, p.5). (11) P. ne. (12) P. indegniado. (13) P. acahi. (14) It. Stavo: estava (eu), forma usada aqui no lugar da terceira pessoal verbal. (15) P. indisgombó. (16) Pronúnc.: préstiti. (17) Pronúnc.: Incêntrico. Refere-se ao Clube dos Excêntricos, que no carnaval de 1912 procurou reviver em São Paulo o carnaval de outrora (O Estado de S. Paulo, 9 mar. 1912, p. 9). (18) It. Trovare: encontrar, achar. (19) Pronúnc.: póvero.
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Juó Bananére
U garnevallo inda a cittá - Também tive u corsego
U garnevallo inda a cittá – També tive u corsego(1)
Una roba che si xame u curdó – A indisgunhambaçó
– Os carros garnevallsco – O Fausdino
Rebero e o Garonello senza gabeza.
Lustrissimu Redattore
du "Piralho"
In questo I'anno u garnevallo inda a cittá istive xiinho.
Tenía genti piore da festa da a Penha.
També tive u corsego.
U corsego é una roba che si buta una purçó de intomovel uno atraiz du otro, e si incomincia da virá, virá, virá.. té di notte. U corsigo fui inda a avenidiga(2) Baoliste(3).
Intó io pigué a mia figlia. Ciurmelinha e o Beppino e flumos inda a cittá, ma quando io xigué proprio ingoppa a ladére do dottore Falcone(5) io inxergué(6) tutto o mondo lá e vurté inda a gasa mia pur causa di largá a Gurmelinha co Beppino, perchê sinó tenía da murré i sopra di quello aperto che tenía lá inda a cittá.
Intó io larghé us mios figlios e vurté.
Eh! ma che roba meravigliosa. Tutta a cittá stava illuminata co'as lamparina azzurra, virmeglio, marello, roxe e verdi (inda(7) a terra mia, "verdi" é uno maestro che té fazido a musiga(8) du "Guarani"(9), da "Molhere du Surdado"(10), ecc. ecc.).
S’imagine aóra che di repente incominció da pertá che a genti non poteva né andá.
Quano a genti vuleva andá giá tenía da levá un piscoço.
Ma io figava chéto, pur causa che o Lacarato mi disse che se io faceva qualche altra indisgunhambaçó e fosse preso p'ra gadeia, non mi surtava mais.
Intó io levé cinquantaquattro piscoçó inté xigá indo o larghe du Arrusá e non mi disse né(11) una parola.
Ma inveiz, quano io xigué lá, tenía una purçó d’ingafagesto che venía uno atraiz du otro, gridando come us imbriagone e currendo indo o meio du póvolo.
Io pregunté p'ro Beppino che robba fosse quella e u Beppino mi cuntaro che queflo si xame u curdó.
lo stavo mesimo indegninado(12) quando uno di quellos indisgraziato si pisó bnima di uno mio gallo che io tenho ingoppa u dedó.
Intó si signore che io non inxergué, né o Lacarato, né gadeia, né nada, ma inveiz mi fIz un puntapelo sopra di quello indisgraziato che elli fui acaí(13) mesimo ingoppa a gabeza do Lacarato che stavo(14) parado lá inda a porta du "Curréu Baolistano".
O Lacarato indisgambó inzima di mi, ma io che non só troxa p'ra burro, indisgambai indo u meie du póvolo, che o Lacarato non fui capaiz di mi pigá.
Intó io fui lá inda a porta d’un mio cumpadro che té lá inda a rua Quinze e, figué lá parado pur causa da vedé us prestiti(16) garnevallesco.
Di repenti vignó us Incentrico(17). Ih! mamma mia, come era bunito. Tenia mais de cinquanta carros tuttos molto bunito, molto xiigno da papelo durado, ma inveiz quello che io truvé(18) mais bunito fui quello carruçó che diceva che o Fausdino Rebéro, (quello que fui sbarrato) quano non gura, mata...
O Fausdino Rebéro é mio cumpanhero inda a "briosa".
Tenía també un’altro garro dove venía una gadera d’indeputado che tutto os mondo vuleva trepá, ma inveiz o Carlo Garcia é che stava quasi pigando. O Garonello inveiz no! questo giá tenía gabeza curtada e stavo supra du chon.
Povero(19) Garonello.
Con tutto o a stima c’ua sideraçó, il suo griato
Publicada no jornal O Pirralho, 24 fev. 1912. p. 12.
BANANÉRE, Juó. Crônicas avulsas, 1911/1917. O pirralho. São Paulo, 24 fev. 1912. Apud ANTUNES, Benedito. As cartas d’Abaixo Piques de Juó Bananére. Assis, 1996. P. 64-66. Tese de Doutorado. UNESP.
NOTAS:
(1) Pronúnc.: côrsego. (2) Pronúnc.: avenídiga. (3) Além dos dias de carnaval, o corso em São Paulo era uma prática comum nos domingos e dias festivos. Acontecia inicialmente na Av. Higienópolis, tendo passado depois para a Av. Paulista, que precisava ser irrigada, pois só foi asfaltada no início de 1915 (O Pirralho, 6 jan. 912, p. 16; 6 fev. 1915, p. 7). Dele tomava parte "toda a elite da sociedade paulistana" (SILVA, 1924, p. 73). (4) P. indá. (5) Ladeira Dr. Falcão, mais tarde denominada Travessa de Santo Antônio, era um dos trechos do caminho que ligava o centro da cidade ao interior. Em 1877, passou a se chamar Rua Dr. Falcão Filho (AMARAL, 1980, p. 467). (6) P. inxergué, tutto. (7) P. indá. (8) Pronúnc.: músiga. (9) P. Guarany. (10) Mulher ou soldado?, vaudeville que estreiou em São Paulo em novembro de 1911 (O Estado de S. Paulo, 18 nov. 1911, p.5). (11) P. ne. (12) P. indegniado. (13) P. acahi. (14) It. Stavo: estava (eu), forma usada aqui no lugar da terceira pessoal verbal. (15) P. indisgombó. (16) Pronúnc.: préstiti. (17) Pronúnc.: Incêntrico. Refere-se ao Clube dos Excêntricos, que no carnaval de 1912 procurou reviver em São Paulo o carnaval de outrora (O Estado de S. Paulo, 9 mar. 1912, p. 9). (18) It. Trovare: encontrar, achar. (19) Pronúnc.: póvero.
Una roba che si xame u curdó – A indisgunhambaçó
– Os carros garnevallsco – O Fausdino
Rebero e o Garonello senza gabeza.
Lustrissimu Redattore
du "Piralho"
In questo I'anno u garnevallo inda a cittá istive xiinho.
Tenía genti piore da festa da a Penha.
També tive u corsego.
U corsego é una roba che si buta una purçó de intomovel uno atraiz du otro, e si incomincia da virá, virá, virá.. té di notte. U corsigo fui inda a avenidiga(2) Baoliste(3).
Intó io pigué a mia figlia. Ciurmelinha e o Beppino e flumos inda a cittá, ma quando io xigué proprio ingoppa a ladére do dottore Falcone(5) io inxergué(6) tutto o mondo lá e vurté inda a gasa mia pur causa di largá a Gurmelinha co Beppino, perchê sinó tenía da murré i sopra di quello aperto che tenía lá inda a cittá.
Intó io larghé us mios figlios e vurté.
Eh! ma che roba meravigliosa. Tutta a cittá stava illuminata co'as lamparina azzurra, virmeglio, marello, roxe e verdi (inda(7) a terra mia, "verdi" é uno maestro che té fazido a musiga(8) du "Guarani"(9), da "Molhere du Surdado"(10), ecc. ecc.).
S’imagine aóra che di repente incominció da pertá che a genti non poteva né andá.
Quano a genti vuleva andá giá tenía da levá un piscoço.
Ma io figava chéto, pur causa che o Lacarato mi disse che se io faceva qualche altra indisgunhambaçó e fosse preso p'ra gadeia, non mi surtava mais.
Intó io levé cinquantaquattro piscoçó inté xigá indo o larghe du Arrusá e non mi disse né(11) una parola.
Ma inveiz, quano io xigué lá, tenía una purçó d’ingafagesto che venía uno atraiz du otro, gridando come us imbriagone e currendo indo o meio du póvolo.
Io pregunté p'ro Beppino che robba fosse quella e u Beppino mi cuntaro che queflo si xame u curdó.
lo stavo mesimo indegninado(12) quando uno di quellos indisgraziato si pisó bnima di uno mio gallo che io tenho ingoppa u dedó.
Intó si signore che io non inxergué, né o Lacarato, né gadeia, né nada, ma inveiz mi fIz un puntapelo sopra di quello indisgraziato che elli fui acaí(13) mesimo ingoppa a gabeza do Lacarato che stavo(14) parado lá inda a porta du "Curréu Baolistano".
O Lacarato indisgambó inzima di mi, ma io che non só troxa p'ra burro, indisgambai indo u meie du póvolo, che o Lacarato non fui capaiz di mi pigá.
Intó io fui lá inda a porta d’un mio cumpadro che té lá inda a rua Quinze e, figué lá parado pur causa da vedé us prestiti(16) garnevallesco.
Di repenti vignó us Incentrico(17). Ih! mamma mia, come era bunito. Tenia mais de cinquanta carros tuttos molto bunito, molto xiigno da papelo durado, ma inveiz quello che io truvé(18) mais bunito fui quello carruçó che diceva che o Fausdino Rebéro, (quello que fui sbarrato) quano non gura, mata...
O Fausdino Rebéro é mio cumpanhero inda a "briosa".
Tenía també un’altro garro dove venía una gadera d’indeputado che tutto os mondo vuleva trepá, ma inveiz o Carlo Garcia é che stava quasi pigando. O Garonello inveiz no! questo giá tenía gabeza curtada e stavo supra du chon.
Povero(19) Garonello.
Con tutto o a stima c’ua sideraçó, il suo griato
Publicada no jornal O Pirralho, 24 fev. 1912. p. 12.
BANANÉRE, Juó. Crônicas avulsas, 1911/1917. O pirralho. São Paulo, 24 fev. 1912. Apud ANTUNES, Benedito. As cartas d’Abaixo Piques de Juó Bananére. Assis, 1996. P. 64-66. Tese de Doutorado. UNESP.
NOTAS:
(1) Pronúnc.: côrsego. (2) Pronúnc.: avenídiga. (3) Além dos dias de carnaval, o corso em São Paulo era uma prática comum nos domingos e dias festivos. Acontecia inicialmente na Av. Higienópolis, tendo passado depois para a Av. Paulista, que precisava ser irrigada, pois só foi asfaltada no início de 1915 (O Pirralho, 6 jan. 912, p. 16; 6 fev. 1915, p. 7). Dele tomava parte "toda a elite da sociedade paulistana" (SILVA, 1924, p. 73). (4) P. indá. (5) Ladeira Dr. Falcão, mais tarde denominada Travessa de Santo Antônio, era um dos trechos do caminho que ligava o centro da cidade ao interior. Em 1877, passou a se chamar Rua Dr. Falcão Filho (AMARAL, 1980, p. 467). (6) P. inxergué, tutto. (7) P. indá. (8) Pronúnc.: músiga. (9) P. Guarany. (10) Mulher ou soldado?, vaudeville que estreiou em São Paulo em novembro de 1911 (O Estado de S. Paulo, 18 nov. 1911, p.5). (11) P. ne. (12) P. indegniado. (13) P. acahi. (14) It. Stavo: estava (eu), forma usada aqui no lugar da terceira pessoal verbal. (15) P. indisgombó. (16) Pronúnc.: préstiti. (17) Pronúnc.: Incêntrico. Refere-se ao Clube dos Excêntricos, que no carnaval de 1912 procurou reviver em São Paulo o carnaval de outrora (O Estado de S. Paulo, 9 mar. 1912, p. 9). (18) It. Trovare: encontrar, achar. (19) Pronúnc.: póvero.
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Joaquim Manuel de Macedo
A Sé do Rio de Janeiro
Positivamente não contáveis com um passeio à Sé do Rio de Janeiro.
Quando nos ocupamos do Palácio Imperial, visitastes e estudastes comigo a igreja do antigo Convento do Carmo, elevada a catedral desta cidade por alvará de 15 de junho de 1808, c, sem dúvida, vos supusestes por isso livres de um novo passeio exclusivamente destinado à Sé.
Acrescentai mais unia suave ilusão ao número das vossas ilusões perdidas. Armai-vos de paciência, porque eu resolvi dar na Sé com todos os meus companheiros de passeio, e temos muito que andar.
Aqui não há apelação nem agravo. Sou senhor absoluto nos meus passeios. Há tantos subdelegados que governam como reizinhos absolutos na sua terra, que não deve admirar que eu me faça ditador na minha obra. Aqueles bichos não são melhores do que eu.
Preparai-vos, já disse. Não julgueis que o passeio à Sé vai ser feito muito cômoda e agradavelmente, seguindo pela Rua do Ouvidor, parando diante da Notre Dame de Paris para admirar as sedas expostas, comprando coronéis no Desmarais, e ao chegar a Rua Direita, descansando um pouco nos banquinhos do boulevard Carceller, e entrando enfim na Capela Imperial para ouvir o cantochão dos cônegos, que realmente desafinam muito, porém, não tão desastradamente para o Tesouro Nacional como as companhias líricas italianas, que têm a sua Sé no Provisório, abismo permanente do dinheiro público.
Desenganem-se e aprontem-se. Temos que acompanhar a Sé e o competente cabido, que fizeram mais mudanças do que os franciscanos e os carmelitas, ou tantas como os inquilinos que deixam de pagar aos proprietários o aluguel das casas em que moram.
Comecemos.
A catedral do Rio de Janeiro e o corpo capitular estabeleceram-se apenas, se realizou a sua instituição na primeira matriz da cidade, tia igreja dedicada ao mártir S. Sebastião.
Mas onde era essa Igreja de S. Sebastião?
É impossível prosseguir no nosso passeio sem deixar esclarecido este ponto.
Cumpre contar em quatro palavras uma longa história.
Os franceses são tidos na conta de homens de tanto espírito como bom gosto, e eu creio que eles merecem, desde o meado do século décimo sexto, esta reputação, porque, enquanto os portugueses, descobridores do Brasil, depois de mais de vinte anos de empenhos de colonização dos seus domínios da América, deixavam deserta e desestimada a magnífica Niterói, namoraram-se da formosa cabocla tão perdidamente os franceses, que um belo dia ousaram com mão armada apoderar-se dela.
Os portugueses trocaram então, a indiferença por amor, e ciumentos daqueles intrusos apaixonados, vieram, no fim de cinco anos, em 1560, atacar o estrangeiro que dominava no Rio de Janeiro. Mem de Sá, o terceiro governador geral do Brasil, foi quem dirigiu a empresa e, ficou vencedor, mas chegou, viu, venceu, e... foi-se, e apenas foi-se, tornaram os franceses vencidos, porém não convencidos, a ocupar as suas posições.
Realmente fora um muito gastar de pólvora sem proveito algum. Mem de Sá regalou-se de dar pancada, e não colheu resultados reais. Deu pancada de cego. Pôs os intrusos fora de casa, mas logo retirou-se, deixando a casa sem moradores e com a porta aberta.
E que porta! – A barra do Rio de Janeiro.
Os franceses tornaram a entrar, e fizeram multo bem.
Portugal devia ter mandado um bom presente ao rei de França, que não soube ou não pôde acudir com reforços poderosos aos poucos vassalos seus que estavam sonhando com a França Antártica no Rio de Janeiro.
Mas, abandonados pelo seu governo, os franceses, no fim de outros cinco anos, viram chegar à formosa baía de Niterói Estácio de Sá, sobrinho do governador geral do Brasil, à frente de uma coluna de portugueses, para lançá-los fora das posições que ocupavam.
Os franceses eram poucos. Tinham, porém, a seu favor o concurso valioso dos tamoios, que os estimavam.
Estácio de Sá reconheceu que a expulsão dos franceses do Rio de Janeiro não era questão de pouco mais ou menos, e como trazia a incumbência gloriosa de fundar uma cidade que dominasse a majestosa baía, desembarcou junto do Pão de Açúcar, e na bela praia, que durante algum tempo se denominou de Martim Afonso e depois ficou sendo chamada Praia Vermelha, lançou, no ano de 1565, os fundamentos de uma cidade a que deu o nome de São Sebastião do Rio de Janeiro.
Convém saber, pelo sim pelo não, que o nome da cidade foi mais aconselhado pela devoção a um grande senhor da terra do que pela que era devida àquele santo mártir do céu. Estácio de Sá, neste caso, fez de S. Sebastião um pau de cabeleira para render seus cultos ao rei de Portugal D. Sebastião. Foi um dom escondido atrás de um santo.
Não me chamem má língua. Brito Freire foi quem me revelou o segredo dessa mistificação de que foi vítima o santo, porque escreveu no livro 1, § 78 da sua Guerra Brasílica, que "chamaram (a cidade) de S. Sebastião, vinculando a lisonja de el-rei, que era do mesmo nome daquele tempo, à devoção do santo".
E o mais é que a lisonja sabe a açúcar mesmo ao paladar dos santos. S. Sebastião tanto gostou da lembrança de Estácio de Sá, que chegou a descer do céu, como em breve terei ocasião de dizer, e pôs em debandada os franceses e tamoios, que teimavam em resistir.
Continuemos, porém, a história. Lançados os fundamentos da cidade, isto é, resolvida a sua fundação na praia de Martim Afonso, levantou-se uma igreja a S. Sebastião. Foi um templo edificado em poucos dias, e não passou de uma casa de pau-a-pique com o seu teto coberto de palha.
Não tenhais pena de S. Sebastião pela rudeza e humildade da sua primeira igreja entre nós. Eu creio que nessa casa de palha ele foi mais sincera e piedosamente adorado do que o são atualmente todos os santos e santas em seus ricos templos e com as suas brilhantíssimas festas, anunciadas pelas gazetas a modo de espetáculos de teatros, com a declaração do mestre que vai reger a música, das moças bonitas que vão cantar os solos, e não sei mesmo se do fogueteiro que fabricou as girândolas.
Quase dois anos correram em que Estácio de Sá, com os portugueses na praia de Martim Afonso, e os franceses nos pontos que ocupavam, levaram a trocar balas e seus índios a trocar flechas com verdadeira inutilidade, até que a 19 de janeiro de 1567, chegou o governador geral Mem, de Sá em socorro do sobrinho, e como o dia seguinte, 20 de janeiro, fosse consagrado a S. Sebastião, aproveitou a coincidência para atacar os franceses, e o fez com tanto ardor, que completamente os derrotou, tomando-lhes todas as suas fortificações e destruindo todas as suas esperanças de França Antártica.
Renhida e terrível foi a peleja. A vitória, porém, não podia deixar de declarar-se pelos portugueses, porque do lado contrário batalhavam os sectários de Calvino e nas colunas de Mem de Sá verdadeiros católicos, entre os quais combatia, segundo a voz da tradição, o próprio santo mártir S. Sebastião.
Declaro que neste ponto não invento um romance de mau gosto, nem repito história que me fosse contada pelo meu amigo o padre velho. Apenas e simplesmente retiro uma tradição conservada por alguns autores.
Brito Freire diz relativamente a S. Sebastião as seguintes palavras: "a quem os portugueses aclamaram padroeiro em esta guerra, porque em algumas ocasiões mais apertadas (referem às relações manuscritas do venerável padre José de Anchieta) que a favor dos nossos se vira pelejar contra os inimigos".
Rocha Pita, ainda mais positivo, tratando da fundação da cidade do Rio de Janeiro, escreve o seguinte: "deu-se-lhe o nome de S. Sebastião, a cujo patrocínio atribuíram todos aquela vitória, em que houve indícios certos (como é tradição constante) que fora nela capitão, sendo por mu
Quando nos ocupamos do Palácio Imperial, visitastes e estudastes comigo a igreja do antigo Convento do Carmo, elevada a catedral desta cidade por alvará de 15 de junho de 1808, c, sem dúvida, vos supusestes por isso livres de um novo passeio exclusivamente destinado à Sé.
Acrescentai mais unia suave ilusão ao número das vossas ilusões perdidas. Armai-vos de paciência, porque eu resolvi dar na Sé com todos os meus companheiros de passeio, e temos muito que andar.
Aqui não há apelação nem agravo. Sou senhor absoluto nos meus passeios. Há tantos subdelegados que governam como reizinhos absolutos na sua terra, que não deve admirar que eu me faça ditador na minha obra. Aqueles bichos não são melhores do que eu.
Preparai-vos, já disse. Não julgueis que o passeio à Sé vai ser feito muito cômoda e agradavelmente, seguindo pela Rua do Ouvidor, parando diante da Notre Dame de Paris para admirar as sedas expostas, comprando coronéis no Desmarais, e ao chegar a Rua Direita, descansando um pouco nos banquinhos do boulevard Carceller, e entrando enfim na Capela Imperial para ouvir o cantochão dos cônegos, que realmente desafinam muito, porém, não tão desastradamente para o Tesouro Nacional como as companhias líricas italianas, que têm a sua Sé no Provisório, abismo permanente do dinheiro público.
Desenganem-se e aprontem-se. Temos que acompanhar a Sé e o competente cabido, que fizeram mais mudanças do que os franciscanos e os carmelitas, ou tantas como os inquilinos que deixam de pagar aos proprietários o aluguel das casas em que moram.
Comecemos.
A catedral do Rio de Janeiro e o corpo capitular estabeleceram-se apenas, se realizou a sua instituição na primeira matriz da cidade, tia igreja dedicada ao mártir S. Sebastião.
Mas onde era essa Igreja de S. Sebastião?
É impossível prosseguir no nosso passeio sem deixar esclarecido este ponto.
Cumpre contar em quatro palavras uma longa história.
Os franceses são tidos na conta de homens de tanto espírito como bom gosto, e eu creio que eles merecem, desde o meado do século décimo sexto, esta reputação, porque, enquanto os portugueses, descobridores do Brasil, depois de mais de vinte anos de empenhos de colonização dos seus domínios da América, deixavam deserta e desestimada a magnífica Niterói, namoraram-se da formosa cabocla tão perdidamente os franceses, que um belo dia ousaram com mão armada apoderar-se dela.
Os portugueses trocaram então, a indiferença por amor, e ciumentos daqueles intrusos apaixonados, vieram, no fim de cinco anos, em 1560, atacar o estrangeiro que dominava no Rio de Janeiro. Mem de Sá, o terceiro governador geral do Brasil, foi quem dirigiu a empresa e, ficou vencedor, mas chegou, viu, venceu, e... foi-se, e apenas foi-se, tornaram os franceses vencidos, porém não convencidos, a ocupar as suas posições.
Realmente fora um muito gastar de pólvora sem proveito algum. Mem de Sá regalou-se de dar pancada, e não colheu resultados reais. Deu pancada de cego. Pôs os intrusos fora de casa, mas logo retirou-se, deixando a casa sem moradores e com a porta aberta.
E que porta! – A barra do Rio de Janeiro.
Os franceses tornaram a entrar, e fizeram multo bem.
Portugal devia ter mandado um bom presente ao rei de França, que não soube ou não pôde acudir com reforços poderosos aos poucos vassalos seus que estavam sonhando com a França Antártica no Rio de Janeiro.
Mas, abandonados pelo seu governo, os franceses, no fim de outros cinco anos, viram chegar à formosa baía de Niterói Estácio de Sá, sobrinho do governador geral do Brasil, à frente de uma coluna de portugueses, para lançá-los fora das posições que ocupavam.
Os franceses eram poucos. Tinham, porém, a seu favor o concurso valioso dos tamoios, que os estimavam.
Estácio de Sá reconheceu que a expulsão dos franceses do Rio de Janeiro não era questão de pouco mais ou menos, e como trazia a incumbência gloriosa de fundar uma cidade que dominasse a majestosa baía, desembarcou junto do Pão de Açúcar, e na bela praia, que durante algum tempo se denominou de Martim Afonso e depois ficou sendo chamada Praia Vermelha, lançou, no ano de 1565, os fundamentos de uma cidade a que deu o nome de São Sebastião do Rio de Janeiro.
Convém saber, pelo sim pelo não, que o nome da cidade foi mais aconselhado pela devoção a um grande senhor da terra do que pela que era devida àquele santo mártir do céu. Estácio de Sá, neste caso, fez de S. Sebastião um pau de cabeleira para render seus cultos ao rei de Portugal D. Sebastião. Foi um dom escondido atrás de um santo.
Não me chamem má língua. Brito Freire foi quem me revelou o segredo dessa mistificação de que foi vítima o santo, porque escreveu no livro 1, § 78 da sua Guerra Brasílica, que "chamaram (a cidade) de S. Sebastião, vinculando a lisonja de el-rei, que era do mesmo nome daquele tempo, à devoção do santo".
E o mais é que a lisonja sabe a açúcar mesmo ao paladar dos santos. S. Sebastião tanto gostou da lembrança de Estácio de Sá, que chegou a descer do céu, como em breve terei ocasião de dizer, e pôs em debandada os franceses e tamoios, que teimavam em resistir.
Continuemos, porém, a história. Lançados os fundamentos da cidade, isto é, resolvida a sua fundação na praia de Martim Afonso, levantou-se uma igreja a S. Sebastião. Foi um templo edificado em poucos dias, e não passou de uma casa de pau-a-pique com o seu teto coberto de palha.
Não tenhais pena de S. Sebastião pela rudeza e humildade da sua primeira igreja entre nós. Eu creio que nessa casa de palha ele foi mais sincera e piedosamente adorado do que o são atualmente todos os santos e santas em seus ricos templos e com as suas brilhantíssimas festas, anunciadas pelas gazetas a modo de espetáculos de teatros, com a declaração do mestre que vai reger a música, das moças bonitas que vão cantar os solos, e não sei mesmo se do fogueteiro que fabricou as girândolas.
Quase dois anos correram em que Estácio de Sá, com os portugueses na praia de Martim Afonso, e os franceses nos pontos que ocupavam, levaram a trocar balas e seus índios a trocar flechas com verdadeira inutilidade, até que a 19 de janeiro de 1567, chegou o governador geral Mem, de Sá em socorro do sobrinho, e como o dia seguinte, 20 de janeiro, fosse consagrado a S. Sebastião, aproveitou a coincidência para atacar os franceses, e o fez com tanto ardor, que completamente os derrotou, tomando-lhes todas as suas fortificações e destruindo todas as suas esperanças de França Antártica.
Renhida e terrível foi a peleja. A vitória, porém, não podia deixar de declarar-se pelos portugueses, porque do lado contrário batalhavam os sectários de Calvino e nas colunas de Mem de Sá verdadeiros católicos, entre os quais combatia, segundo a voz da tradição, o próprio santo mártir S. Sebastião.
Declaro que neste ponto não invento um romance de mau gosto, nem repito história que me fosse contada pelo meu amigo o padre velho. Apenas e simplesmente retiro uma tradição conservada por alguns autores.
Brito Freire diz relativamente a S. Sebastião as seguintes palavras: "a quem os portugueses aclamaram padroeiro em esta guerra, porque em algumas ocasiões mais apertadas (referem às relações manuscritas do venerável padre José de Anchieta) que a favor dos nossos se vira pelejar contra os inimigos".
Rocha Pita, ainda mais positivo, tratando da fundação da cidade do Rio de Janeiro, escreve o seguinte: "deu-se-lhe o nome de S. Sebastião, a cujo patrocínio atribuíram todos aquela vitória, em que houve indícios certos (como é tradição constante) que fora nela capitão, sendo por mu
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1
Joaquim Manuel de Macedo
Pelo dinheiro um homem de juízo
(...)
Pelo dinheiro um homem de juízo
Sofre o diabo sem sentir abalo;
Vende afeições, aluga a consciência,
E até às vezes serve de cavalo.
Casa com a velha mais pateta e feia
Se um rico dote a bruxa lhe oferecer,
E até se curva, põe-se de gatinhas,
E faz das costas mesa de escrever.
(...)
Publicado no livro Teatro do Doutor Joaquim Manuel de Macedo (1863).
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Teatro completo. Apres. Orlando Miranda de Carvalho. Introd. Márcio Jabur Yunes. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1979. v.1, p.217. (Clássicos do teatro brasileiro, 3
Pelo dinheiro um homem de juízo
Sofre o diabo sem sentir abalo;
Vende afeições, aluga a consciência,
E até às vezes serve de cavalo.
Casa com a velha mais pateta e feia
Se um rico dote a bruxa lhe oferecer,
E até se curva, põe-se de gatinhas,
E faz das costas mesa de escrever.
(...)
Publicado no livro Teatro do Doutor Joaquim Manuel de Macedo (1863).
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Teatro completo. Apres. Orlando Miranda de Carvalho. Introd. Márcio Jabur Yunes. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1979. v.1, p.217. (Clássicos do teatro brasileiro, 3
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Joaquim Manuel de Macedo
Pelo dinheiro um homem de juízo
(...)
Pelo dinheiro um homem de juízo
Sofre o diabo sem sentir abalo;
Vende afeições, aluga a consciência,
E até às vezes serve de cavalo.
Casa com a velha mais pateta e feia
Se um rico dote a bruxa lhe oferecer,
E até se curva, põe-se de gatinhas,
E faz das costas mesa de escrever.
(...)
Publicado no livro Teatro do Doutor Joaquim Manuel de Macedo (1863).
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Teatro completo. Apres. Orlando Miranda de Carvalho. Introd. Márcio Jabur Yunes. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1979. v.1, p.217. (Clássicos do teatro brasileiro, 3
Pelo dinheiro um homem de juízo
Sofre o diabo sem sentir abalo;
Vende afeições, aluga a consciência,
E até às vezes serve de cavalo.
Casa com a velha mais pateta e feia
Se um rico dote a bruxa lhe oferecer,
E até se curva, põe-se de gatinhas,
E faz das costas mesa de escrever.
(...)
Publicado no livro Teatro do Doutor Joaquim Manuel de Macedo (1863).
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Teatro completo. Apres. Orlando Miranda de Carvalho. Introd. Márcio Jabur Yunes. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1979. v.1, p.217. (Clássicos do teatro brasileiro, 3
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Joaquim Manuel de Macedo
Pelo dinheiro um homem de juízo
(...)
Pelo dinheiro um homem de juízo
Sofre o diabo sem sentir abalo;
Vende afeições, aluga a consciência,
E até às vezes serve de cavalo.
Casa com a velha mais pateta e feia
Se um rico dote a bruxa lhe oferecer,
E até se curva, põe-se de gatinhas,
E faz das costas mesa de escrever.
(...)
Publicado no livro Teatro do Doutor Joaquim Manuel de Macedo (1863).
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Teatro completo. Apres. Orlando Miranda de Carvalho. Introd. Márcio Jabur Yunes. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1979. v.1, p.217. (Clássicos do teatro brasileiro, 3
Pelo dinheiro um homem de juízo
Sofre o diabo sem sentir abalo;
Vende afeições, aluga a consciência,
E até às vezes serve de cavalo.
Casa com a velha mais pateta e feia
Se um rico dote a bruxa lhe oferecer,
E até se curva, põe-se de gatinhas,
E faz das costas mesa de escrever.
(...)
Publicado no livro Teatro do Doutor Joaquim Manuel de Macedo (1863).
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Teatro completo. Apres. Orlando Miranda de Carvalho. Introd. Márcio Jabur Yunes. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1979. v.1, p.217. (Clássicos do teatro brasileiro, 3
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Cacaso
Estilos de Época
Havia
os irmãos Concretos
H. e A. consanguíneos
e por afinidade D.P.,
um trio bem informado:
dado é a palavra dado
E foi assim que a poesia
deu lugar à tautologia
(e ao elogio à coisa dada)
em sutil lance de dados:
se o triângulo é concreto
já sabemos: tem 3 lados.
Publicado no livro Grupo Escolar (1974). Poema integrante da série 2a. Lição: Rachados e Perdidos.
In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.106
NOTA: Referência aos poetas Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari, signatários do 'Plano Piloto para Poesia Concreta' (1958); ao verso 'flor é a palavra flor', de João Cabral de Melo Neto ("Antiode"); Ao poema "Um Lance de Dados", de Mallarm
os irmãos Concretos
H. e A. consanguíneos
e por afinidade D.P.,
um trio bem informado:
dado é a palavra dado
E foi assim que a poesia
deu lugar à tautologia
(e ao elogio à coisa dada)
em sutil lance de dados:
se o triângulo é concreto
já sabemos: tem 3 lados.
Publicado no livro Grupo Escolar (1974). Poema integrante da série 2a. Lição: Rachados e Perdidos.
In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.106
NOTA: Referência aos poetas Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari, signatários do 'Plano Piloto para Poesia Concreta' (1958); ao verso 'flor é a palavra flor', de João Cabral de Melo Neto ("Antiode"); Ao poema "Um Lance de Dados", de Mallarm
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1
Joaquim Manuel de Macedo
Eu me curvo ao destino de meu sexo; (Ato II, Cena I)
(...)
Eu me curvo ao destino de meu sexo;
É preciso viver no nosso mundo;
Receber como leis suas cadeias;
Ter o riso no rosto, e o pranto n'alma,
E dizer — sou feliz!... — Que sorte iníqua!
É a mulher excepcional vivente,
Que tem alma, e não querem que ela sinta!
Tem coração, e ordenam que não ame!...
A mulher sempre é vítima no mundo.
Sujeita des que nasce até que morre,
De pai passa a tutor, irmão, marido...
Sempre um senhor... (O nome é que se muda);
Sempre a seu lado um homem se levanta
Para pensar e desejar por ela;
Criança, junto a quem sempre vigiam;
Cego, que sempre pela mão se leva;
Eis a mulher!... eis o que eu sou, e todas!...
E ao muito se consegue ser amada;
É escrava, que num altar se prende,
Divindade, que em ferros se conserva.
E a quem se chama (Oh! irrisão!!!) SENHORA!
E portanto, eu serei como mil outras
Mártires nobres. Ver-me-ão passando
(Como essas tantas) Silenciosa... pálida
Sorrindo com o sorrir que esconde as mágoas:
Talvez digam ao ver-me — ela é ditosa!
Sim, que eu hei de saber (como outras fazem)
Abafar meus suspiros e gemidos,
E esconder os tormentos de minh'alma
Desse mundo egoísta, e sem piedade,
Que faz do homem "senhor" da mulher "mártir"
(...)
Publicado no livro O cego: drama em cinco atos em verso (1851).
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Teatro completo. Apres. Orlando Miranda de Carvalho. Introd. Márcio Jabur Yunes. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1979. v.1, p.253. (Clássicos do teatro brasileiro, 3
Eu me curvo ao destino de meu sexo;
É preciso viver no nosso mundo;
Receber como leis suas cadeias;
Ter o riso no rosto, e o pranto n'alma,
E dizer — sou feliz!... — Que sorte iníqua!
É a mulher excepcional vivente,
Que tem alma, e não querem que ela sinta!
Tem coração, e ordenam que não ame!...
A mulher sempre é vítima no mundo.
Sujeita des que nasce até que morre,
De pai passa a tutor, irmão, marido...
Sempre um senhor... (O nome é que se muda);
Sempre a seu lado um homem se levanta
Para pensar e desejar por ela;
Criança, junto a quem sempre vigiam;
Cego, que sempre pela mão se leva;
Eis a mulher!... eis o que eu sou, e todas!...
E ao muito se consegue ser amada;
É escrava, que num altar se prende,
Divindade, que em ferros se conserva.
E a quem se chama (Oh! irrisão!!!) SENHORA!
E portanto, eu serei como mil outras
Mártires nobres. Ver-me-ão passando
(Como essas tantas) Silenciosa... pálida
Sorrindo com o sorrir que esconde as mágoas:
Talvez digam ao ver-me — ela é ditosa!
Sim, que eu hei de saber (como outras fazem)
Abafar meus suspiros e gemidos,
E esconder os tormentos de minh'alma
Desse mundo egoísta, e sem piedade,
Que faz do homem "senhor" da mulher "mártir"
(...)
Publicado no livro O cego: drama em cinco atos em verso (1851).
In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Teatro completo. Apres. Orlando Miranda de Carvalho. Introd. Márcio Jabur Yunes. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1979. v.1, p.253. (Clássicos do teatro brasileiro, 3
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Olavo Bilac
O Rio Convalesce
Não há interesse mais vivo, não há atenção mais ansiosa, do que o interesse e a atenção com que, depois de uma longa enfermidade gravíssima, as pessoas que amam o enfermo espiam na sua face, no seu olhar, nas suas maneiras, o lento progredir da convalescença. É a ressurreição...
No organismo, que a morte gulosa andou rondando, como uma fera ronda uma presa cobiçada, a vida reponta aos poucos, num brando anseio de maré que sobe; nos olhos, em que já tinham começado a crescer as névoas do aniquilamento, acorda vagamente a luz da saúde; o sangue começa a transparecer na face, ainda pálida — como uma nuvem cor-de-rosa sob a água límpida de um rio; todo o corpo desperta do torpor prolongado; a voz principia a calor e animação; o sorriso reaparece à flor da adquirir boca; o apetite renasce...
Mas as pessoas amigas, que ansiosamente acompanham esse moroso ressurgimento do enfermo, ainda têm desconfiança e susto. Não venha uma recaída estragar todo esse esforço do organismo! não seja essa melhora uma cilada da Morte insidiosa, que, às vezes, gosta de brincar com a sua presa, antes de a tragar, como um gato cruelmente se diverte com o ratinho prisioneiro, fingindo soltá-lo, fingindo distraí-lo, dando-lhe segundos de enganadora esperança, antes de lhe arrancar o último anseio de vida com uma dentada misericordiosa! E esse receio é um sobressalto constante, uma contínua preocupação...
Não de outro modo, os cariocas (os verdadeiros, os legítimos — porque há muitos cariocas que só se preocupam com a beleza e a saúde de... Paris) acompanham, atentamente, interessadamente, carinhosamente, e assustadamente, a convalescença do Rio de Janeiro — pobre e bela cidade, que quase morreu de lazeira, e, por um milagre mil vezes bendito, foi arrancada às garras da morte.
Os médicos ainda se não despediram. A moléstia foi longa e séria — e o tratamento também há de ser sério e longo. Mas a cura parece, agora, infalível. A cidade engorda, ganha cores, faz-se mais bela de dia em dia. E, a cada novo sinal de saúde, a cada novo progresso da beleza, a cada novo sintoma de renascimento que lhe notam — os seus amigos exultam, e sentem a alma alagada de uma ventura infinita...
Agora, o que está particularmente interessando os cariocas é a rapidez maravilhosa com que se vai erguendo o majestoso pavilhão São Luís, no fim da Avenida.
A qualquer hora do dia ou da noite, quando por ali passa um bonde, há dentro dele um rebuliço. Interrompe-se a leitura dos jornais, suspendem-se as conversas, e todos os olhares se fixam na formosa construção, que está pouco a pouco subindo, esplêndida e altiva, da casca dos andaimes, já revelando a suprema beleza em que daqui a pouco pompeará.
As velhas casas de em torno ruem demolidas. Rasga-se ali, no coração da cidade, um imenso espaço livre, para que mais formoso avulte o palácio. No alto das cúpulas imponentes, agitam-se os operários como formigas, completando a toilette do monumento. E a cidade não pensa em outra cousa. Ficará pronto ou não, em julho, o palácio? Ferve a discussão, chocam-se as opiniões, fazem-se as apostas — porque o carioca é um homem que nada faz sem aposta e sem jogo.
Sim! o Pavilhão ficará pronto! será dignamente hospedada a Conferência Pan-Americana, e aqueles que, por birra ou vício, apostaram pela não-conclusão do trabalho, hão de perder o seu dinheiro e ficar corridos de vergonha... E, por felicidade, não é apenas materialmente que a cidade convalesce: é moralmente também. A população naturalmente vai perdendo certos hábitos e certos vícios, cuja abolição parecia difícil, se não impossível.
Verdade é que, para outros vícios, é ainda necessária a intervenção da autoridade, com o argumento sempre poderoso e decisivo da multa... Mas, voluntária ou obrigada, espontânea ou forçada, o essencial é que a reforma dos costumes se opere.
Ainda ontem, a prefeitura publicou um edital, proibindo, sob pena de multa, "a exposição de roupas, e outros objetos de uso doméstico, nas portas, janelas e mais dependências das habitações que tenham face na via pública...".
Era esse, e ainda é, um dos mais feios hábitos do Rio de Janeiro...
Já não falo das casas humildes, nos bairros modestos da cidade. Que há de fazer a gente pobre, que mora em casinhas sem quintal, senão fazer da rua lavadouro, e das janelas coradouro da sua minguada roupa? Não falo das míseras vestes que, nas estalagens dos subúrbios, aparecem aos olhos de quem passa, estendidas em cordas, ou desdobradas no chão, lembrando os farrapos de Jó, de que fala Raimundo Correia, "[ ...]Voando — desfraldadas/ Bandeiras da miséria imensa e triunfante...".
Não! muita cousa deve ser permitida aos pobres, para quem a pobreza já é uma lei pesada demais...
O que se não compreende é que essa exibição de roupas de uso íntimo seja feita em palacetes nobres, de bairros elegantes. De manhã, ainda é comum ver, em casas ricas, essa exposição impudica e ridícula. Na janela desta casa, vê-se um alvo roupão de banho, sacudido ao vento matinal; e a casa parece estar dizendo, com orgulho: "Vejam bem! aqui mora gente asseada, que se lava todos os dias!...". Mais adiante, vêem-se saias de fino linho bordado, ricas anáguas de seda; e a casa proclama, pela boca escancarada da janela: "Reparem! aqui moram senhoras de bom gosto, que usam lençarias de luxo!...". Que cousa abominável! A casa de família deve ser um santuário: não se compreende que se transformem as janelas da sua fachada em vidraçarias de exposição permanente, para alarde gabola do que a vida doméstica tem de mais recatado e melindroso...
Não seria também possível, ó cidade bem-amada! que, em muitas das tuas casas dos bairros centrais, pudéssemos deixar de ver tanta gente em mangas de camisa?
Já sei que o calor explica tudo... Mas, santo Deus! se é só para se ver livre do calor, e não por economia ou pobreza, que essa gente quer viver à frescata, por que não adotar o uso de um leve jaleco de brim, ou de uma leve blusa de linho? A frescura do trajo não é incompatível com a compostura! e não há de ser o uso de um tênue paletó de fazenda rala que há de assar em vida essa gente tão calorenta!
Mas, vamos devagar! Roma não se fez em um só dia. Os convalescentes querem ser tratados com tino e prudência. Depois de uma longa dieta, os primeiros dias têm de ser de uma alimentação moderada e sóbria. Não vá a cidade morrer de pletora, quando escapou de morrer de anemia. Já que evitamos a inanição, não provoquemos a indigestão.
Tudo virá com o tempo, e a tempo.
O progresso já é grande, e será cada vez maior. Que é que não é lícito esperar a quem já viu o que era o Rio há cinco anos e vê o que ele é hoje?
Publicada no jornal Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 20 maio 1906.
BILAC, Olavo. Vossa insolência: crônicas. Organização e introdução de Antonio Dimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 268-274
No organismo, que a morte gulosa andou rondando, como uma fera ronda uma presa cobiçada, a vida reponta aos poucos, num brando anseio de maré que sobe; nos olhos, em que já tinham começado a crescer as névoas do aniquilamento, acorda vagamente a luz da saúde; o sangue começa a transparecer na face, ainda pálida — como uma nuvem cor-de-rosa sob a água límpida de um rio; todo o corpo desperta do torpor prolongado; a voz principia a calor e animação; o sorriso reaparece à flor da adquirir boca; o apetite renasce...
Mas as pessoas amigas, que ansiosamente acompanham esse moroso ressurgimento do enfermo, ainda têm desconfiança e susto. Não venha uma recaída estragar todo esse esforço do organismo! não seja essa melhora uma cilada da Morte insidiosa, que, às vezes, gosta de brincar com a sua presa, antes de a tragar, como um gato cruelmente se diverte com o ratinho prisioneiro, fingindo soltá-lo, fingindo distraí-lo, dando-lhe segundos de enganadora esperança, antes de lhe arrancar o último anseio de vida com uma dentada misericordiosa! E esse receio é um sobressalto constante, uma contínua preocupação...
Não de outro modo, os cariocas (os verdadeiros, os legítimos — porque há muitos cariocas que só se preocupam com a beleza e a saúde de... Paris) acompanham, atentamente, interessadamente, carinhosamente, e assustadamente, a convalescença do Rio de Janeiro — pobre e bela cidade, que quase morreu de lazeira, e, por um milagre mil vezes bendito, foi arrancada às garras da morte.
Os médicos ainda se não despediram. A moléstia foi longa e séria — e o tratamento também há de ser sério e longo. Mas a cura parece, agora, infalível. A cidade engorda, ganha cores, faz-se mais bela de dia em dia. E, a cada novo sinal de saúde, a cada novo progresso da beleza, a cada novo sintoma de renascimento que lhe notam — os seus amigos exultam, e sentem a alma alagada de uma ventura infinita...
Agora, o que está particularmente interessando os cariocas é a rapidez maravilhosa com que se vai erguendo o majestoso pavilhão São Luís, no fim da Avenida.
A qualquer hora do dia ou da noite, quando por ali passa um bonde, há dentro dele um rebuliço. Interrompe-se a leitura dos jornais, suspendem-se as conversas, e todos os olhares se fixam na formosa construção, que está pouco a pouco subindo, esplêndida e altiva, da casca dos andaimes, já revelando a suprema beleza em que daqui a pouco pompeará.
As velhas casas de em torno ruem demolidas. Rasga-se ali, no coração da cidade, um imenso espaço livre, para que mais formoso avulte o palácio. No alto das cúpulas imponentes, agitam-se os operários como formigas, completando a toilette do monumento. E a cidade não pensa em outra cousa. Ficará pronto ou não, em julho, o palácio? Ferve a discussão, chocam-se as opiniões, fazem-se as apostas — porque o carioca é um homem que nada faz sem aposta e sem jogo.
Sim! o Pavilhão ficará pronto! será dignamente hospedada a Conferência Pan-Americana, e aqueles que, por birra ou vício, apostaram pela não-conclusão do trabalho, hão de perder o seu dinheiro e ficar corridos de vergonha... E, por felicidade, não é apenas materialmente que a cidade convalesce: é moralmente também. A população naturalmente vai perdendo certos hábitos e certos vícios, cuja abolição parecia difícil, se não impossível.
Verdade é que, para outros vícios, é ainda necessária a intervenção da autoridade, com o argumento sempre poderoso e decisivo da multa... Mas, voluntária ou obrigada, espontânea ou forçada, o essencial é que a reforma dos costumes se opere.
Ainda ontem, a prefeitura publicou um edital, proibindo, sob pena de multa, "a exposição de roupas, e outros objetos de uso doméstico, nas portas, janelas e mais dependências das habitações que tenham face na via pública...".
Era esse, e ainda é, um dos mais feios hábitos do Rio de Janeiro...
Já não falo das casas humildes, nos bairros modestos da cidade. Que há de fazer a gente pobre, que mora em casinhas sem quintal, senão fazer da rua lavadouro, e das janelas coradouro da sua minguada roupa? Não falo das míseras vestes que, nas estalagens dos subúrbios, aparecem aos olhos de quem passa, estendidas em cordas, ou desdobradas no chão, lembrando os farrapos de Jó, de que fala Raimundo Correia, "[ ...]Voando — desfraldadas/ Bandeiras da miséria imensa e triunfante...".
Não! muita cousa deve ser permitida aos pobres, para quem a pobreza já é uma lei pesada demais...
O que se não compreende é que essa exibição de roupas de uso íntimo seja feita em palacetes nobres, de bairros elegantes. De manhã, ainda é comum ver, em casas ricas, essa exposição impudica e ridícula. Na janela desta casa, vê-se um alvo roupão de banho, sacudido ao vento matinal; e a casa parece estar dizendo, com orgulho: "Vejam bem! aqui mora gente asseada, que se lava todos os dias!...". Mais adiante, vêem-se saias de fino linho bordado, ricas anáguas de seda; e a casa proclama, pela boca escancarada da janela: "Reparem! aqui moram senhoras de bom gosto, que usam lençarias de luxo!...". Que cousa abominável! A casa de família deve ser um santuário: não se compreende que se transformem as janelas da sua fachada em vidraçarias de exposição permanente, para alarde gabola do que a vida doméstica tem de mais recatado e melindroso...
Não seria também possível, ó cidade bem-amada! que, em muitas das tuas casas dos bairros centrais, pudéssemos deixar de ver tanta gente em mangas de camisa?
Já sei que o calor explica tudo... Mas, santo Deus! se é só para se ver livre do calor, e não por economia ou pobreza, que essa gente quer viver à frescata, por que não adotar o uso de um leve jaleco de brim, ou de uma leve blusa de linho? A frescura do trajo não é incompatível com a compostura! e não há de ser o uso de um tênue paletó de fazenda rala que há de assar em vida essa gente tão calorenta!
Mas, vamos devagar! Roma não se fez em um só dia. Os convalescentes querem ser tratados com tino e prudência. Depois de uma longa dieta, os primeiros dias têm de ser de uma alimentação moderada e sóbria. Não vá a cidade morrer de pletora, quando escapou de morrer de anemia. Já que evitamos a inanição, não provoquemos a indigestão.
Tudo virá com o tempo, e a tempo.
O progresso já é grande, e será cada vez maior. Que é que não é lícito esperar a quem já viu o que era o Rio há cinco anos e vê o que ele é hoje?
Publicada no jornal Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 20 maio 1906.
BILAC, Olavo. Vossa insolência: crônicas. Organização e introdução de Antonio Dimas. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 268-274
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Aureliano Lessa
A Tarde
II
Mãe da melancolia, ó meiga tarde.
Que mágico pintor bordou teu manto
Co'as duvidosas sombras do mistério!...
— Talvez são elas encantados manes
De nossos pais, que errando pelos ares
Vêm segredar co'a nossa consciência
Dúbios emblemas de celestes frases...
— Talvez são elas pálido reflexo
De um coro d'anjos que a milhões de léguas
Sobre uma nuvem d'ouro descantando
Ante a face do sol longínquos passam...
Não sei! Há dentro d'alma tantas coisas
Que jamais proferiram lábios d'homens...
Entretanto me ecoam pelo espírito
Etéreos sons de peregrina orquestra.
Um doce peso o coração me oprime.
Meu pensamento em sonhos se evapora.
Té de mim próprio sinto um vago olvido.
Um sereno rumor, que a alma dormenta.
III
Salve, filha dos raios e das trevas.
Melancólica irmã das noites pálidas!
Quem te não ama?... A natureza toda
Murmura ao teu passar místicas vozes
Repassadas de unção: — todos os olhos
Passeiam tuas tépidas campinas
Bafejadas de nuvens — té parece
Que a terra, suspendendo o giro, escuta
O adeus que o sol te envia além dos montes.
— Limpa o suór o peregrino errante.
E arrimado ao bordão mudo contempla-te
Esquecido do pouso: — sobre o cabo
Da rude enxada recostado cisma
Nos africanos céus o pobre escravo
Que exausto de fadiga te abençoa
Do fundo d'alma em bárbara linguagem.
Mensageira de amor, tu anuncias
A hora propícia aos sôfregos amantes
Da noturna entrevista; e a donzela
Erma de amor te acolhe pensativa,
Fantasiando quadros de ventura.
Que o vazio do coração lhe supram.
— Talvez agora na floresta anosa.
Proscrito errante, o índio americano
Pára e eleva-te um cântico selvagem
Nunca ouvido dos troncos que o circundam.
— Fadem os deuses pouso ao peregrino.
Liberdade ao escravo, amor à virgem.
E tardes, como esta, ao triste bardo.
Imagem - 01200003
In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
Mãe da melancolia, ó meiga tarde.
Que mágico pintor bordou teu manto
Co'as duvidosas sombras do mistério!...
— Talvez são elas encantados manes
De nossos pais, que errando pelos ares
Vêm segredar co'a nossa consciência
Dúbios emblemas de celestes frases...
— Talvez são elas pálido reflexo
De um coro d'anjos que a milhões de léguas
Sobre uma nuvem d'ouro descantando
Ante a face do sol longínquos passam...
Não sei! Há dentro d'alma tantas coisas
Que jamais proferiram lábios d'homens...
Entretanto me ecoam pelo espírito
Etéreos sons de peregrina orquestra.
Um doce peso o coração me oprime.
Meu pensamento em sonhos se evapora.
Té de mim próprio sinto um vago olvido.
Um sereno rumor, que a alma dormenta.
III
Salve, filha dos raios e das trevas.
Melancólica irmã das noites pálidas!
Quem te não ama?... A natureza toda
Murmura ao teu passar místicas vozes
Repassadas de unção: — todos os olhos
Passeiam tuas tépidas campinas
Bafejadas de nuvens — té parece
Que a terra, suspendendo o giro, escuta
O adeus que o sol te envia além dos montes.
— Limpa o suór o peregrino errante.
E arrimado ao bordão mudo contempla-te
Esquecido do pouso: — sobre o cabo
Da rude enxada recostado cisma
Nos africanos céus o pobre escravo
Que exausto de fadiga te abençoa
Do fundo d'alma em bárbara linguagem.
Mensageira de amor, tu anuncias
A hora propícia aos sôfregos amantes
Da noturna entrevista; e a donzela
Erma de amor te acolhe pensativa,
Fantasiando quadros de ventura.
Que o vazio do coração lhe supram.
— Talvez agora na floresta anosa.
Proscrito errante, o índio americano
Pára e eleva-te um cântico selvagem
Nunca ouvido dos troncos que o circundam.
— Fadem os deuses pouso ao peregrino.
Liberdade ao escravo, amor à virgem.
E tardes, como esta, ao triste bardo.
Imagem - 01200003
In: LESSA, Aureliano. Poesias póstumas. Colecionadas por Francisco e Joaquim Lessa. Pref. Augusto de Lima. 2.ed. corr. e aum. Belo Horizonte: Beltrão, 1909
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Raul Pompéia
A Perseguição às Cartomantes
A perseguição às cartomantes, que constitui boa parte do movimento da semana, não se pode dizer que esteja de acordo com a liberdade de cultos que existe e que se apregoa na atualidade.
Não há dúvida.
A superstição é a filosofia dos pobres. Dos pobres de espírito por natureza, e dos que, somente porque não encontraram nos recursos materiais da vida um meio de serem ricos de espírito, tiveram de permanecer irremediavelmente na penúria. Ser tolo, que imenso mal! Crer no milagre e na revelação da cartomante... Porventura será uma obrigação possuir a filosofia dos atilados?
Todos nós temos no cérebro uma porção mais ou menos considerável de imaginação voltada para o sobrenatural. Desde que se não acha meio de imaginar. Por exemplo, a correta religião, a gente vai-se arranjando com um cultozinho de meia tigela, que é um ridículo para muitos, mas que para a gente é uma grande coisa e dá satisfação sofrivelmente a todas as suspeitas e curiosidade da ignorância.
A seita das cartomantes é desta espécie. Vem da necessidade entre profana e religiosa do milagre barato. Quem não tem cabeça nem latim para se entender familiarmente com o mistério da Transubstanciação, vai-se arranjando com o misteriozinho de Mme. Joséphine, que é capaz de adivinhar, sem mais nem menos, onde está o gato ou quem matou o cão.
Mas especulam, recebem dinheiro pelas consultas velhacas. Que tem a polícia com a despesa particular dos tolos? A curatela dos insensatos que desperdiçam não foi ainda armada de apito para entrar em função. Espere a polícia que transpareça um caso de fraude comum ou de violência.
Outrora, no tempo da fé privilegiada, elas viviam livres, as cartomantes, com o seu baralho mágico, carteando a sua jogatina com os tolos e os tolos perdendo sempre.
Pensava-se que os que perdiam, lucravam contudo a embriaguez da sua toleima, que voltava da consulta lisonjeada e aplaudida. Que necessitam em rigor as ânsias espirituais? Que um processo espiritual as acalme. Imaginem a tolice assoberbada por uma grande ansiedade moral, parecida com essas que para os espíritos de melhor quilate encontrariam desafogo num conselho filosófico ou num preceito religioso, o terror boçal de um feitiço, por exemplo. A cartomante em vez de aplicar ao caso a regra de um filósofo ou de um padre da igreja, raciocinava que a tolice é tola e como tola deve ser tratada, e, para a asneira do feitiço, receitava com sucesso a asneira do contrafeitiço. Poder-se-ia considerar a vítima de uma fraude alguém que às cartomantes recorria para alcançar o seu sossego de espírito, e voltava da consulta realmente sossegado?
Permitia-se então outrora que a religião da tolice fizesse sua vida, com a condição apenas de se não patentear pela forma exterior de nenhum escândalo.
Se assim sucedia outrora, como é que hoje, que os foros da cidade foram facilitados a todos os cultos, vai-se contra a pobre e simpática religião dos tolos desenvolver a oposição das ameaças aterradoras do xadrez?!
Se ao folhetim se consultasse qual deveria ser o procedimento lógico do momento, dir-se-ia aqui em resposta: liberdade aos tolos da sua tolice; que se deixem esfolar os parvos pelo preço da sua parvoíce; dêem cartas as cartomantes como um mandão da roça; conselhos, medicina, adivinhações, toda a espécie de sortilégio do desfrute tenha livre prática. Reúnam-se até em sinagoga, se quiserem, todas as espertas ledoras de buena dicha. Quando a todas as religiões se permite a liberdade absoluta dos seus ritos é de elementar eqüidade que aos tolos se faculte a religião da toleima, o livre exercício do seu culto, a livre presença do seu templo, mesmo, se eles ambicionarem na linha ordinária de todas as outras casas de culto, com a forma exterior que muito bem resolvam, assinalando em plena evidência a arquitetura simbólica da letra T.
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 8 jun. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 2. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 6. p. 355-357
Não há dúvida.
A superstição é a filosofia dos pobres. Dos pobres de espírito por natureza, e dos que, somente porque não encontraram nos recursos materiais da vida um meio de serem ricos de espírito, tiveram de permanecer irremediavelmente na penúria. Ser tolo, que imenso mal! Crer no milagre e na revelação da cartomante... Porventura será uma obrigação possuir a filosofia dos atilados?
Todos nós temos no cérebro uma porção mais ou menos considerável de imaginação voltada para o sobrenatural. Desde que se não acha meio de imaginar. Por exemplo, a correta religião, a gente vai-se arranjando com um cultozinho de meia tigela, que é um ridículo para muitos, mas que para a gente é uma grande coisa e dá satisfação sofrivelmente a todas as suspeitas e curiosidade da ignorância.
A seita das cartomantes é desta espécie. Vem da necessidade entre profana e religiosa do milagre barato. Quem não tem cabeça nem latim para se entender familiarmente com o mistério da Transubstanciação, vai-se arranjando com o misteriozinho de Mme. Joséphine, que é capaz de adivinhar, sem mais nem menos, onde está o gato ou quem matou o cão.
Mas especulam, recebem dinheiro pelas consultas velhacas. Que tem a polícia com a despesa particular dos tolos? A curatela dos insensatos que desperdiçam não foi ainda armada de apito para entrar em função. Espere a polícia que transpareça um caso de fraude comum ou de violência.
Outrora, no tempo da fé privilegiada, elas viviam livres, as cartomantes, com o seu baralho mágico, carteando a sua jogatina com os tolos e os tolos perdendo sempre.
Pensava-se que os que perdiam, lucravam contudo a embriaguez da sua toleima, que voltava da consulta lisonjeada e aplaudida. Que necessitam em rigor as ânsias espirituais? Que um processo espiritual as acalme. Imaginem a tolice assoberbada por uma grande ansiedade moral, parecida com essas que para os espíritos de melhor quilate encontrariam desafogo num conselho filosófico ou num preceito religioso, o terror boçal de um feitiço, por exemplo. A cartomante em vez de aplicar ao caso a regra de um filósofo ou de um padre da igreja, raciocinava que a tolice é tola e como tola deve ser tratada, e, para a asneira do feitiço, receitava com sucesso a asneira do contrafeitiço. Poder-se-ia considerar a vítima de uma fraude alguém que às cartomantes recorria para alcançar o seu sossego de espírito, e voltava da consulta realmente sossegado?
Permitia-se então outrora que a religião da tolice fizesse sua vida, com a condição apenas de se não patentear pela forma exterior de nenhum escândalo.
Se assim sucedia outrora, como é que hoje, que os foros da cidade foram facilitados a todos os cultos, vai-se contra a pobre e simpática religião dos tolos desenvolver a oposição das ameaças aterradoras do xadrez?!
Se ao folhetim se consultasse qual deveria ser o procedimento lógico do momento, dir-se-ia aqui em resposta: liberdade aos tolos da sua tolice; que se deixem esfolar os parvos pelo preço da sua parvoíce; dêem cartas as cartomantes como um mandão da roça; conselhos, medicina, adivinhações, toda a espécie de sortilégio do desfrute tenha livre prática. Reúnam-se até em sinagoga, se quiserem, todas as espertas ledoras de buena dicha. Quando a todas as religiões se permite a liberdade absoluta dos seus ritos é de elementar eqüidade que aos tolos se faculte a religião da toleima, o livre exercício do seu culto, a livre presença do seu templo, mesmo, se eles ambicionarem na linha ordinária de todas as outras casas de culto, com a forma exterior que muito bem resolvam, assinalando em plena evidência a arquitetura simbólica da letra T.
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 8 jun. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 2. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 6. p. 355-357
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