Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Ednólia Fontenele
Espaço Livre
Na poesia
não há espaço
para coisas
pequenas, fugazes.
Falemos pois
da fome do povo,
da miséria do trabalhador,
das injustiças,
das dificuldades dos menos
favorecidos.
Falemos da lama verde
que enche os olhos e bolsos
daquela gente de lá.
Na poesia
não há espaço
para coisas pequenas,
amores mesquinhos.
Falemos pois
dos homens que
cultivam espinhos,
escondem loucuras,
roubam sonhos,
colhem sangue
de toda gente!
não há espaço
para coisas
pequenas, fugazes.
Falemos pois
da fome do povo,
da miséria do trabalhador,
das injustiças,
das dificuldades dos menos
favorecidos.
Falemos da lama verde
que enche os olhos e bolsos
daquela gente de lá.
Na poesia
não há espaço
para coisas pequenas,
amores mesquinhos.
Falemos pois
dos homens que
cultivam espinhos,
escondem loucuras,
roubam sonhos,
colhem sangue
de toda gente!
852
1
Ednólia Fontenele
Espaço Livre
Na poesia
não há espaço
para coisas
pequenas, fugazes.
Falemos pois
da fome do povo,
da miséria do trabalhador,
das injustiças,
das dificuldades dos menos
favorecidos.
Falemos da lama verde
que enche os olhos e bolsos
daquela gente de lá.
Na poesia
não há espaço
para coisas pequenas,
amores mesquinhos.
Falemos pois
dos homens que
cultivam espinhos,
escondem loucuras,
roubam sonhos,
colhem sangue
de toda gente!
não há espaço
para coisas
pequenas, fugazes.
Falemos pois
da fome do povo,
da miséria do trabalhador,
das injustiças,
das dificuldades dos menos
favorecidos.
Falemos da lama verde
que enche os olhos e bolsos
daquela gente de lá.
Na poesia
não há espaço
para coisas pequenas,
amores mesquinhos.
Falemos pois
dos homens que
cultivam espinhos,
escondem loucuras,
roubam sonhos,
colhem sangue
de toda gente!
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1
William Melo Soares
Rua Abaixo Lua Acima
Caso você siga
rua abaixo
lua acima
percorra toda a cidade
entre becos e esquinas
procure um rastro de estrela
no céu de Teresina
Caso você siga
rio abaixo
lua acima
passe pelo cais do rio
de um vapor que evaporou
pro remanso de outras águas
deixando ondas no peito
do Mano Velho barqueiro
Caso você siga
lua acima
rio abaixo
no movimento das barcas
me envolva num abraço
só não toque no meu manto
de solidão e cansaço
rua abaixo
lua acima
percorra toda a cidade
entre becos e esquinas
procure um rastro de estrela
no céu de Teresina
Caso você siga
rio abaixo
lua acima
passe pelo cais do rio
de um vapor que evaporou
pro remanso de outras águas
deixando ondas no peito
do Mano Velho barqueiro
Caso você siga
lua acima
rio abaixo
no movimento das barcas
me envolva num abraço
só não toque no meu manto
de solidão e cansaço
1 325
1
Viriato Gaspar
Índice
O homem é a matéria do meu canto
qualquer que seja a cor do que ele sente,
e não importa o motivo de seu pranto,
é um homem, meu irmão, e estou doente
de sua dor, e é meu o seu espanto
do mundo e desta hora incongruentes.
na trincheira do verbo me levanto
contra o que contra o homem se intente.
O homem é o objeto e o objetivo
de quanto sei cantar, e o canto é tudo
que pode me explicar porque estou vivo.
às vezes sou ateu, noutras sou crente,
em outras sou rebelde, em algumas mudo,
sou homem, e canto o homem no presente.
qualquer que seja a cor do que ele sente,
e não importa o motivo de seu pranto,
é um homem, meu irmão, e estou doente
de sua dor, e é meu o seu espanto
do mundo e desta hora incongruentes.
na trincheira do verbo me levanto
contra o que contra o homem se intente.
O homem é o objeto e o objetivo
de quanto sei cantar, e o canto é tudo
que pode me explicar porque estou vivo.
às vezes sou ateu, noutras sou crente,
em outras sou rebelde, em algumas mudo,
sou homem, e canto o homem no presente.
994
1
Viriato Gaspar
Índice
O homem é a matéria do meu canto
qualquer que seja a cor do que ele sente,
e não importa o motivo de seu pranto,
é um homem, meu irmão, e estou doente
de sua dor, e é meu o seu espanto
do mundo e desta hora incongruentes.
na trincheira do verbo me levanto
contra o que contra o homem se intente.
O homem é o objeto e o objetivo
de quanto sei cantar, e o canto é tudo
que pode me explicar porque estou vivo.
às vezes sou ateu, noutras sou crente,
em outras sou rebelde, em algumas mudo,
sou homem, e canto o homem no presente.
qualquer que seja a cor do que ele sente,
e não importa o motivo de seu pranto,
é um homem, meu irmão, e estou doente
de sua dor, e é meu o seu espanto
do mundo e desta hora incongruentes.
na trincheira do verbo me levanto
contra o que contra o homem se intente.
O homem é o objeto e o objetivo
de quanto sei cantar, e o canto é tudo
que pode me explicar porque estou vivo.
às vezes sou ateu, noutras sou crente,
em outras sou rebelde, em algumas mudo,
sou homem, e canto o homem no presente.
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1
João Augusto Sampaio
Gaia
Três seios tem Gaia no Morro de São Paulo
Seno/cosseno: Primeira Praia
Seno/cosseno: Segunda Praia
Seno/cosseno: Terceira Praia
Seno/cosseno: Primeira Praia
Seno/cosseno: Segunda Praia
Seno/cosseno: Terceira Praia
944
1
Alcenor Candeira Filho
Carga
Carrego uma carteira de identidade
e mais outra de motorista
um titulo de eleitor
um certificado de reservista
um cartão de C.P.F.
uma certidão de nascimento
e outra de casamento
um diploma de bacharel
um seguro de vida
(em todos eles ALCENOR RODRIGUES CANDEIRA FILHO)
carrego uma calça
(uns trocados no bolso)
uma camisa
uma cueca
um sapato
muitas chaves
um automóvel
e um relógio
— e mais o peso abstrato da existência.
e mais outra de motorista
um titulo de eleitor
um certificado de reservista
um cartão de C.P.F.
uma certidão de nascimento
e outra de casamento
um diploma de bacharel
um seguro de vida
(em todos eles ALCENOR RODRIGUES CANDEIRA FILHO)
carrego uma calça
(uns trocados no bolso)
uma camisa
uma cueca
um sapato
muitas chaves
um automóvel
e um relógio
— e mais o peso abstrato da existência.
1 136
1
Ana Júlia Monteiro Macedo Sança
É Urgente o Amor
A luz que a chama me prende
No caminho rude que meus pés me levam
E que meus olhos alcançam distâncias...
Mesmo no insólito, continuo resistindo
As notícias chegadas de todo o canto da terra
Ao encontro implacável do homem com a natureza
O sopro frio do vento, enrijecendo os caracteres
No perfil duro e fixo de cada ser
Milhares de lágrimas repartidas em cada pálpebra...
É urgente e necessário que se combata o mal
É tempo de solidarizar e construir o bem
Ainda é tempo de inventar o Amor.
No caminho rude que meus pés me levam
E que meus olhos alcançam distâncias...
Mesmo no insólito, continuo resistindo
As notícias chegadas de todo o canto da terra
Ao encontro implacável do homem com a natureza
O sopro frio do vento, enrijecendo os caracteres
No perfil duro e fixo de cada ser
Milhares de lágrimas repartidas em cada pálpebra...
É urgente e necessário que se combata o mal
É tempo de solidarizar e construir o bem
Ainda é tempo de inventar o Amor.
1 220
1
Ana Júlia Monteiro Macedo Sança
É Urgente o Amor
A luz que a chama me prende
No caminho rude que meus pés me levam
E que meus olhos alcançam distâncias...
Mesmo no insólito, continuo resistindo
As notícias chegadas de todo o canto da terra
Ao encontro implacável do homem com a natureza
O sopro frio do vento, enrijecendo os caracteres
No perfil duro e fixo de cada ser
Milhares de lágrimas repartidas em cada pálpebra...
É urgente e necessário que se combata o mal
É tempo de solidarizar e construir o bem
Ainda é tempo de inventar o Amor.
No caminho rude que meus pés me levam
E que meus olhos alcançam distâncias...
Mesmo no insólito, continuo resistindo
As notícias chegadas de todo o canto da terra
Ao encontro implacável do homem com a natureza
O sopro frio do vento, enrijecendo os caracteres
No perfil duro e fixo de cada ser
Milhares de lágrimas repartidas em cada pálpebra...
É urgente e necessário que se combata o mal
É tempo de solidarizar e construir o bem
Ainda é tempo de inventar o Amor.
1 220
1
Vitor Casimiro
Humanamente Desumanos
O que será de nós
Vozes roucas
Balbuciadas por bocas
De uma multidão a sós
O que se há de fazer
Senão cruzar o abismo
Fruto do eterno egoísmo
Entre eu e você
Pobres de nós, mortais,
E de nossas lutas banais.
O que somente nos faz
Humanamente desumanos
Vozes roucas
Balbuciadas por bocas
De uma multidão a sós
O que se há de fazer
Senão cruzar o abismo
Fruto do eterno egoísmo
Entre eu e você
Pobres de nós, mortais,
E de nossas lutas banais.
O que somente nos faz
Humanamente desumanos
1 023
1
Vitor Casimiro
Humanamente Desumanos
O que será de nós
Vozes roucas
Balbuciadas por bocas
De uma multidão a sós
O que se há de fazer
Senão cruzar o abismo
Fruto do eterno egoísmo
Entre eu e você
Pobres de nós, mortais,
E de nossas lutas banais.
O que somente nos faz
Humanamente desumanos
Vozes roucas
Balbuciadas por bocas
De uma multidão a sós
O que se há de fazer
Senão cruzar o abismo
Fruto do eterno egoísmo
Entre eu e você
Pobres de nós, mortais,
E de nossas lutas banais.
O que somente nos faz
Humanamente desumanos
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1
Vitor Casimiro
Mundo Cruel
Primeiro te dão uma estrada
Depois tu ganhas a vida
Se não der em nada
Não tinha saída
Depois tu ganhas a vida
Se não der em nada
Não tinha saída
1 017
1
Vitorino Nemésio
Requiescat
Direi, pela noite, não ódio que tivesse
Nem detestar vida corpórea e ninhos de manha,
Mas meu alto cansaço, a tristeza de lá
Onde se sente o aqui traído, a falsa entranha.
Direi --- não "fora!" ao mundo que me cinge
(Outro onde o sei e como chegaria?),
Mas dos anos de ver, pensar durando
Retiro uma moeda de nada,
Fruto do meu suor, e pago o pão que se me deve,
Compro o silêncio que se me deve
Por ter cumprido a palavra,
Trabalhado nas palavras,
E por elas merecido a terra leve.
15 de junho de 1971
(In: Obras completas. Vol. II.
Poesia. Lisboa, Imprensa Nacio
nal/Casa da Moeda, 1989, p. 634)
Nem detestar vida corpórea e ninhos de manha,
Mas meu alto cansaço, a tristeza de lá
Onde se sente o aqui traído, a falsa entranha.
Direi --- não "fora!" ao mundo que me cinge
(Outro onde o sei e como chegaria?),
Mas dos anos de ver, pensar durando
Retiro uma moeda de nada,
Fruto do meu suor, e pago o pão que se me deve,
Compro o silêncio que se me deve
Por ter cumprido a palavra,
Trabalhado nas palavras,
E por elas merecido a terra leve.
15 de junho de 1971
(In: Obras completas. Vol. II.
Poesia. Lisboa, Imprensa Nacio
nal/Casa da Moeda, 1989, p. 634)
1 823
1
Ascânio Lopes
Cataguazes
Para Carlos Drummond de Andrade
Nem Belo Horizonte, colcha de retalhos iguais,
cidade européia de ruas retas, árvores certas,
casas simétricas,
crepúsculos bonitos, sempre bonitos;
Nem juiz de Fora. Ruído. Rumor.
Apitos. Klaxons.
Cidade inglesa de céu enfumaçado, cheio de chaminés negras;
Nem Ouro Preto, cidade morta,
Bruges sem Rodenbach,
onde estudantes passadistas continuam a tradição das coisas que já esquecemos;
Nem Sabará, cidade relíquia,
onde não se pode tocar, para não desmanchar o passado arrumadinho;
Nem Estrela do Sul, a sonhar com tesouros,
tesouros nos cascalhos extintos de seu rio barrento;
Nem Uberaba, nem, nem, cidades arrivistas de gente que não pretende ficar:
Nã-o ! Cataguazes... Há coisa mais bela e serena oculta nos teus flancos.
Nas tuas ruas brinca a inconsciência das cidades
que nunca foram, que não cuidam de ser.
Não sabes, não sei, ninguém compreenderá jamais o que desejas, o que serás.
Não és do passado, não és do futuro; não tens idade...
Só sei que és
a mais mineira cidade de Minas Gerais...
Nem geometria, nem estilo europeu, nem invasão americana de bangalôs derniecri.
Tuas casas são largas casas mineiras feitas na previsão de muitos hóspedes.
Não há em ti o terror das cidades plantadas na mata virgem.
Nem o ramerrão dos bondes atrasados, cheios de gente apressada.
Nem os dísticos de aqui esteve aqui aconteceu.
Nem o tintim áspero dos padeiros.
Nem a buzina incômoda dos tintureiros.
Teus leiteiros ainda levam o leite em burricos.
Os padeiros deixam o pão à janela (cidade mineira).
Teu amanhecer é suave.
Que alegria de só ter gente conhecida faz teu habitante voltar-se para cumprimentar
todos que passam.
Delícia de não encontrar estrangeiros de olhar agudo esperto mau, a suspeitar
riquezas nas terras.
Alegria dos fordes brincando (são dois) na praça.
(Depois vão dormir juntinhas numa só garagem).
Jacaré!
João Arara!
João Gostoso!
teus tipos populares.
A criançada atira-lhes pedras e eles se voltam imprecando.
Rondas alegres de meninas nas ruas, às tardes, sem perigo de veículos,
papagaios que se embaraçam nos fios de luz, balões que sobem,
foguetes obrigatórios nas festas de chegada do chefe político.
Jardins onde meninas ariscas passeiam meia hora só antes do cinema.
Ar morno e sensual de voluptuosidade gostosa que vibra
nas tuas tardes chuvosas, quando as goteiras pingam nos passantes
e batem isócronas nos passeios furados.
Há em ti a delícia da vida que passa porque vale a pena passar,
que passa sem dar por isso, sem supor que se vai transformando.
Em ti se dorme tranqüilo sem guardas-noturnos.
Mas com o cricri dos grilos,
o ranram dos sapos,
o sono é tranqüilo como o de uma criança de colo.
Vale a pena viver em ti.
Nem inquietude,
nem peso inútil de recordações
Mas a confiança que nasce das coisas que não mudam bruscas,
nem ficam eternas.
Nem Belo Horizonte, colcha de retalhos iguais,
cidade européia de ruas retas, árvores certas,
casas simétricas,
crepúsculos bonitos, sempre bonitos;
Nem juiz de Fora. Ruído. Rumor.
Apitos. Klaxons.
Cidade inglesa de céu enfumaçado, cheio de chaminés negras;
Nem Ouro Preto, cidade morta,
Bruges sem Rodenbach,
onde estudantes passadistas continuam a tradição das coisas que já esquecemos;
Nem Sabará, cidade relíquia,
onde não se pode tocar, para não desmanchar o passado arrumadinho;
Nem Estrela do Sul, a sonhar com tesouros,
tesouros nos cascalhos extintos de seu rio barrento;
Nem Uberaba, nem, nem, cidades arrivistas de gente que não pretende ficar:
Nã-o ! Cataguazes... Há coisa mais bela e serena oculta nos teus flancos.
Nas tuas ruas brinca a inconsciência das cidades
que nunca foram, que não cuidam de ser.
Não sabes, não sei, ninguém compreenderá jamais o que desejas, o que serás.
Não és do passado, não és do futuro; não tens idade...
Só sei que és
a mais mineira cidade de Minas Gerais...
Nem geometria, nem estilo europeu, nem invasão americana de bangalôs derniecri.
Tuas casas são largas casas mineiras feitas na previsão de muitos hóspedes.
Não há em ti o terror das cidades plantadas na mata virgem.
Nem o ramerrão dos bondes atrasados, cheios de gente apressada.
Nem os dísticos de aqui esteve aqui aconteceu.
Nem o tintim áspero dos padeiros.
Nem a buzina incômoda dos tintureiros.
Teus leiteiros ainda levam o leite em burricos.
Os padeiros deixam o pão à janela (cidade mineira).
Teu amanhecer é suave.
Que alegria de só ter gente conhecida faz teu habitante voltar-se para cumprimentar
todos que passam.
Delícia de não encontrar estrangeiros de olhar agudo esperto mau, a suspeitar
riquezas nas terras.
Alegria dos fordes brincando (são dois) na praça.
(Depois vão dormir juntinhas numa só garagem).
Jacaré!
João Arara!
João Gostoso!
teus tipos populares.
A criançada atira-lhes pedras e eles se voltam imprecando.
Rondas alegres de meninas nas ruas, às tardes, sem perigo de veículos,
papagaios que se embaraçam nos fios de luz, balões que sobem,
foguetes obrigatórios nas festas de chegada do chefe político.
Jardins onde meninas ariscas passeiam meia hora só antes do cinema.
Ar morno e sensual de voluptuosidade gostosa que vibra
nas tuas tardes chuvosas, quando as goteiras pingam nos passantes
e batem isócronas nos passeios furados.
Há em ti a delícia da vida que passa porque vale a pena passar,
que passa sem dar por isso, sem supor que se vai transformando.
Em ti se dorme tranqüilo sem guardas-noturnos.
Mas com o cricri dos grilos,
o ranram dos sapos,
o sono é tranqüilo como o de uma criança de colo.
Vale a pena viver em ti.
Nem inquietude,
nem peso inútil de recordações
Mas a confiança que nasce das coisas que não mudam bruscas,
nem ficam eternas.
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Ascânio Lopes
Cataguazes
Para Carlos Drummond de Andrade
Nem Belo Horizonte, colcha de retalhos iguais,
cidade européia de ruas retas, árvores certas,
casas simétricas,
crepúsculos bonitos, sempre bonitos;
Nem juiz de Fora. Ruído. Rumor.
Apitos. Klaxons.
Cidade inglesa de céu enfumaçado, cheio de chaminés negras;
Nem Ouro Preto, cidade morta,
Bruges sem Rodenbach,
onde estudantes passadistas continuam a tradição das coisas que já esquecemos;
Nem Sabará, cidade relíquia,
onde não se pode tocar, para não desmanchar o passado arrumadinho;
Nem Estrela do Sul, a sonhar com tesouros,
tesouros nos cascalhos extintos de seu rio barrento;
Nem Uberaba, nem, nem, cidades arrivistas de gente que não pretende ficar:
Nã-o ! Cataguazes... Há coisa mais bela e serena oculta nos teus flancos.
Nas tuas ruas brinca a inconsciência das cidades
que nunca foram, que não cuidam de ser.
Não sabes, não sei, ninguém compreenderá jamais o que desejas, o que serás.
Não és do passado, não és do futuro; não tens idade...
Só sei que és
a mais mineira cidade de Minas Gerais...
Nem geometria, nem estilo europeu, nem invasão americana de bangalôs derniecri.
Tuas casas são largas casas mineiras feitas na previsão de muitos hóspedes.
Não há em ti o terror das cidades plantadas na mata virgem.
Nem o ramerrão dos bondes atrasados, cheios de gente apressada.
Nem os dísticos de aqui esteve aqui aconteceu.
Nem o tintim áspero dos padeiros.
Nem a buzina incômoda dos tintureiros.
Teus leiteiros ainda levam o leite em burricos.
Os padeiros deixam o pão à janela (cidade mineira).
Teu amanhecer é suave.
Que alegria de só ter gente conhecida faz teu habitante voltar-se para cumprimentar
todos que passam.
Delícia de não encontrar estrangeiros de olhar agudo esperto mau, a suspeitar
riquezas nas terras.
Alegria dos fordes brincando (são dois) na praça.
(Depois vão dormir juntinhas numa só garagem).
Jacaré!
João Arara!
João Gostoso!
teus tipos populares.
A criançada atira-lhes pedras e eles se voltam imprecando.
Rondas alegres de meninas nas ruas, às tardes, sem perigo de veículos,
papagaios que se embaraçam nos fios de luz, balões que sobem,
foguetes obrigatórios nas festas de chegada do chefe político.
Jardins onde meninas ariscas passeiam meia hora só antes do cinema.
Ar morno e sensual de voluptuosidade gostosa que vibra
nas tuas tardes chuvosas, quando as goteiras pingam nos passantes
e batem isócronas nos passeios furados.
Há em ti a delícia da vida que passa porque vale a pena passar,
que passa sem dar por isso, sem supor que se vai transformando.
Em ti se dorme tranqüilo sem guardas-noturnos.
Mas com o cricri dos grilos,
o ranram dos sapos,
o sono é tranqüilo como o de uma criança de colo.
Vale a pena viver em ti.
Nem inquietude,
nem peso inútil de recordações
Mas a confiança que nasce das coisas que não mudam bruscas,
nem ficam eternas.
Nem Belo Horizonte, colcha de retalhos iguais,
cidade européia de ruas retas, árvores certas,
casas simétricas,
crepúsculos bonitos, sempre bonitos;
Nem juiz de Fora. Ruído. Rumor.
Apitos. Klaxons.
Cidade inglesa de céu enfumaçado, cheio de chaminés negras;
Nem Ouro Preto, cidade morta,
Bruges sem Rodenbach,
onde estudantes passadistas continuam a tradição das coisas que já esquecemos;
Nem Sabará, cidade relíquia,
onde não se pode tocar, para não desmanchar o passado arrumadinho;
Nem Estrela do Sul, a sonhar com tesouros,
tesouros nos cascalhos extintos de seu rio barrento;
Nem Uberaba, nem, nem, cidades arrivistas de gente que não pretende ficar:
Nã-o ! Cataguazes... Há coisa mais bela e serena oculta nos teus flancos.
Nas tuas ruas brinca a inconsciência das cidades
que nunca foram, que não cuidam de ser.
Não sabes, não sei, ninguém compreenderá jamais o que desejas, o que serás.
Não és do passado, não és do futuro; não tens idade...
Só sei que és
a mais mineira cidade de Minas Gerais...
Nem geometria, nem estilo europeu, nem invasão americana de bangalôs derniecri.
Tuas casas são largas casas mineiras feitas na previsão de muitos hóspedes.
Não há em ti o terror das cidades plantadas na mata virgem.
Nem o ramerrão dos bondes atrasados, cheios de gente apressada.
Nem os dísticos de aqui esteve aqui aconteceu.
Nem o tintim áspero dos padeiros.
Nem a buzina incômoda dos tintureiros.
Teus leiteiros ainda levam o leite em burricos.
Os padeiros deixam o pão à janela (cidade mineira).
Teu amanhecer é suave.
Que alegria de só ter gente conhecida faz teu habitante voltar-se para cumprimentar
todos que passam.
Delícia de não encontrar estrangeiros de olhar agudo esperto mau, a suspeitar
riquezas nas terras.
Alegria dos fordes brincando (são dois) na praça.
(Depois vão dormir juntinhas numa só garagem).
Jacaré!
João Arara!
João Gostoso!
teus tipos populares.
A criançada atira-lhes pedras e eles se voltam imprecando.
Rondas alegres de meninas nas ruas, às tardes, sem perigo de veículos,
papagaios que se embaraçam nos fios de luz, balões que sobem,
foguetes obrigatórios nas festas de chegada do chefe político.
Jardins onde meninas ariscas passeiam meia hora só antes do cinema.
Ar morno e sensual de voluptuosidade gostosa que vibra
nas tuas tardes chuvosas, quando as goteiras pingam nos passantes
e batem isócronas nos passeios furados.
Há em ti a delícia da vida que passa porque vale a pena passar,
que passa sem dar por isso, sem supor que se vai transformando.
Em ti se dorme tranqüilo sem guardas-noturnos.
Mas com o cricri dos grilos,
o ranram dos sapos,
o sono é tranqüilo como o de uma criança de colo.
Vale a pena viver em ti.
Nem inquietude,
nem peso inútil de recordações
Mas a confiança que nasce das coisas que não mudam bruscas,
nem ficam eternas.
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1
Teresa Bartholomeu
Das Ruas
Boca grande, boca pequena
chuta meninos cóa ponta da bota, cóa raquete de tenis, cóa jaqueta
xó xó xó sai de banda moleque!
que educação cumpadi, que educação coroné-boné
quem vive de cuspe em cuspe nas esquinas de babel
tem a vontade de trabalho na mão, porque mais nada resta não!
limpo todos os parabrisas dos olhares e vidraças de telhado e casas
grande.
xó xó xó danação dos canteiros, sua cara mesquinha!
Mas, dexa entrar, num favor! dexa um cantinho?
fico de boca pequena, ando devagarinho e só de quando em quando
descalça corro pelos latifúndios da poesia a conhecer as únicas glebas
produtivas dessas terras de bois que puxam barcos a arar imaginações.
corro descalça por esses alqueires a modo do vento da meiguice dos
poetas acariciar meu rosto. deixo meu burro e minha burrice atrelada na
entrada e entro lisa.
xó xó xó urubu mal quisto!
Nem me visto de frases e issos e aquilos (se bem que vai ser difícil)
deixo a tolice na gaiola da parvoice.
Minha fala tem a confusão das esquinas
Entende-se tanto quanto a fórmula dos soros das clínicas
sei lá quantos mortos
Entende-se tanto quanto suas economias e vacas profanas e cabritos
juro que nem trocado peço e não tropeço nos trecos e fico de boca
pequena. se me der um prato até que como.
xô xô xô quem nu vi mais gordo!
tou descalça. sou uma peste. meu olhar ácido te queima em medo. mas tô
sangrando tanto! a dor de tantos enxotos e tantas penduras e tantos
pedidos. além da dor dos homicídios: a faca, a revolver, a frase, ou
a negação!
xô xô xô desgruda a bunda do carro, menina!
tá bom recolho o corpo: dou meia volta: e engano
corro entre verdes de cana paraibanos cortando meu rosto
como cajús: também tenho meus dias de banquete imaginário!
xô xô xô
todos tem, todos tem
coitados (diria a madame antes de ser assaltada)
chuta meninos cóa ponta da bota, cóa raquete de tenis, cóa jaqueta
xó xó xó sai de banda moleque!
que educação cumpadi, que educação coroné-boné
quem vive de cuspe em cuspe nas esquinas de babel
tem a vontade de trabalho na mão, porque mais nada resta não!
limpo todos os parabrisas dos olhares e vidraças de telhado e casas
grande.
xó xó xó danação dos canteiros, sua cara mesquinha!
Mas, dexa entrar, num favor! dexa um cantinho?
fico de boca pequena, ando devagarinho e só de quando em quando
descalça corro pelos latifúndios da poesia a conhecer as únicas glebas
produtivas dessas terras de bois que puxam barcos a arar imaginações.
corro descalça por esses alqueires a modo do vento da meiguice dos
poetas acariciar meu rosto. deixo meu burro e minha burrice atrelada na
entrada e entro lisa.
xó xó xó urubu mal quisto!
Nem me visto de frases e issos e aquilos (se bem que vai ser difícil)
deixo a tolice na gaiola da parvoice.
Minha fala tem a confusão das esquinas
Entende-se tanto quanto a fórmula dos soros das clínicas
sei lá quantos mortos
Entende-se tanto quanto suas economias e vacas profanas e cabritos
juro que nem trocado peço e não tropeço nos trecos e fico de boca
pequena. se me der um prato até que como.
xô xô xô quem nu vi mais gordo!
tou descalça. sou uma peste. meu olhar ácido te queima em medo. mas tô
sangrando tanto! a dor de tantos enxotos e tantas penduras e tantos
pedidos. além da dor dos homicídios: a faca, a revolver, a frase, ou
a negação!
xô xô xô desgruda a bunda do carro, menina!
tá bom recolho o corpo: dou meia volta: e engano
corro entre verdes de cana paraibanos cortando meu rosto
como cajús: também tenho meus dias de banquete imaginário!
xô xô xô
todos tem, todos tem
coitados (diria a madame antes de ser assaltada)
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1
Teresa Bartholomeu
Das Ruas
Boca grande, boca pequena
chuta meninos cóa ponta da bota, cóa raquete de tenis, cóa jaqueta
xó xó xó sai de banda moleque!
que educação cumpadi, que educação coroné-boné
quem vive de cuspe em cuspe nas esquinas de babel
tem a vontade de trabalho na mão, porque mais nada resta não!
limpo todos os parabrisas dos olhares e vidraças de telhado e casas
grande.
xó xó xó danação dos canteiros, sua cara mesquinha!
Mas, dexa entrar, num favor! dexa um cantinho?
fico de boca pequena, ando devagarinho e só de quando em quando
descalça corro pelos latifúndios da poesia a conhecer as únicas glebas
produtivas dessas terras de bois que puxam barcos a arar imaginações.
corro descalça por esses alqueires a modo do vento da meiguice dos
poetas acariciar meu rosto. deixo meu burro e minha burrice atrelada na
entrada e entro lisa.
xó xó xó urubu mal quisto!
Nem me visto de frases e issos e aquilos (se bem que vai ser difícil)
deixo a tolice na gaiola da parvoice.
Minha fala tem a confusão das esquinas
Entende-se tanto quanto a fórmula dos soros das clínicas
sei lá quantos mortos
Entende-se tanto quanto suas economias e vacas profanas e cabritos
juro que nem trocado peço e não tropeço nos trecos e fico de boca
pequena. se me der um prato até que como.
xô xô xô quem nu vi mais gordo!
tou descalça. sou uma peste. meu olhar ácido te queima em medo. mas tô
sangrando tanto! a dor de tantos enxotos e tantas penduras e tantos
pedidos. além da dor dos homicídios: a faca, a revolver, a frase, ou
a negação!
xô xô xô desgruda a bunda do carro, menina!
tá bom recolho o corpo: dou meia volta: e engano
corro entre verdes de cana paraibanos cortando meu rosto
como cajús: também tenho meus dias de banquete imaginário!
xô xô xô
todos tem, todos tem
coitados (diria a madame antes de ser assaltada)
chuta meninos cóa ponta da bota, cóa raquete de tenis, cóa jaqueta
xó xó xó sai de banda moleque!
que educação cumpadi, que educação coroné-boné
quem vive de cuspe em cuspe nas esquinas de babel
tem a vontade de trabalho na mão, porque mais nada resta não!
limpo todos os parabrisas dos olhares e vidraças de telhado e casas
grande.
xó xó xó danação dos canteiros, sua cara mesquinha!
Mas, dexa entrar, num favor! dexa um cantinho?
fico de boca pequena, ando devagarinho e só de quando em quando
descalça corro pelos latifúndios da poesia a conhecer as únicas glebas
produtivas dessas terras de bois que puxam barcos a arar imaginações.
corro descalça por esses alqueires a modo do vento da meiguice dos
poetas acariciar meu rosto. deixo meu burro e minha burrice atrelada na
entrada e entro lisa.
xó xó xó urubu mal quisto!
Nem me visto de frases e issos e aquilos (se bem que vai ser difícil)
deixo a tolice na gaiola da parvoice.
Minha fala tem a confusão das esquinas
Entende-se tanto quanto a fórmula dos soros das clínicas
sei lá quantos mortos
Entende-se tanto quanto suas economias e vacas profanas e cabritos
juro que nem trocado peço e não tropeço nos trecos e fico de boca
pequena. se me der um prato até que como.
xô xô xô quem nu vi mais gordo!
tou descalça. sou uma peste. meu olhar ácido te queima em medo. mas tô
sangrando tanto! a dor de tantos enxotos e tantas penduras e tantos
pedidos. além da dor dos homicídios: a faca, a revolver, a frase, ou
a negação!
xô xô xô desgruda a bunda do carro, menina!
tá bom recolho o corpo: dou meia volta: e engano
corro entre verdes de cana paraibanos cortando meu rosto
como cajús: também tenho meus dias de banquete imaginário!
xô xô xô
todos tem, todos tem
coitados (diria a madame antes de ser assaltada)
963
1
Teresa Bartholomeu
Das Ruas
Boca grande, boca pequena
chuta meninos cóa ponta da bota, cóa raquete de tenis, cóa jaqueta
xó xó xó sai de banda moleque!
que educação cumpadi, que educação coroné-boné
quem vive de cuspe em cuspe nas esquinas de babel
tem a vontade de trabalho na mão, porque mais nada resta não!
limpo todos os parabrisas dos olhares e vidraças de telhado e casas
grande.
xó xó xó danação dos canteiros, sua cara mesquinha!
Mas, dexa entrar, num favor! dexa um cantinho?
fico de boca pequena, ando devagarinho e só de quando em quando
descalça corro pelos latifúndios da poesia a conhecer as únicas glebas
produtivas dessas terras de bois que puxam barcos a arar imaginações.
corro descalça por esses alqueires a modo do vento da meiguice dos
poetas acariciar meu rosto. deixo meu burro e minha burrice atrelada na
entrada e entro lisa.
xó xó xó urubu mal quisto!
Nem me visto de frases e issos e aquilos (se bem que vai ser difícil)
deixo a tolice na gaiola da parvoice.
Minha fala tem a confusão das esquinas
Entende-se tanto quanto a fórmula dos soros das clínicas
sei lá quantos mortos
Entende-se tanto quanto suas economias e vacas profanas e cabritos
juro que nem trocado peço e não tropeço nos trecos e fico de boca
pequena. se me der um prato até que como.
xô xô xô quem nu vi mais gordo!
tou descalça. sou uma peste. meu olhar ácido te queima em medo. mas tô
sangrando tanto! a dor de tantos enxotos e tantas penduras e tantos
pedidos. além da dor dos homicídios: a faca, a revolver, a frase, ou
a negação!
xô xô xô desgruda a bunda do carro, menina!
tá bom recolho o corpo: dou meia volta: e engano
corro entre verdes de cana paraibanos cortando meu rosto
como cajús: também tenho meus dias de banquete imaginário!
xô xô xô
todos tem, todos tem
coitados (diria a madame antes de ser assaltada)
chuta meninos cóa ponta da bota, cóa raquete de tenis, cóa jaqueta
xó xó xó sai de banda moleque!
que educação cumpadi, que educação coroné-boné
quem vive de cuspe em cuspe nas esquinas de babel
tem a vontade de trabalho na mão, porque mais nada resta não!
limpo todos os parabrisas dos olhares e vidraças de telhado e casas
grande.
xó xó xó danação dos canteiros, sua cara mesquinha!
Mas, dexa entrar, num favor! dexa um cantinho?
fico de boca pequena, ando devagarinho e só de quando em quando
descalça corro pelos latifúndios da poesia a conhecer as únicas glebas
produtivas dessas terras de bois que puxam barcos a arar imaginações.
corro descalça por esses alqueires a modo do vento da meiguice dos
poetas acariciar meu rosto. deixo meu burro e minha burrice atrelada na
entrada e entro lisa.
xó xó xó urubu mal quisto!
Nem me visto de frases e issos e aquilos (se bem que vai ser difícil)
deixo a tolice na gaiola da parvoice.
Minha fala tem a confusão das esquinas
Entende-se tanto quanto a fórmula dos soros das clínicas
sei lá quantos mortos
Entende-se tanto quanto suas economias e vacas profanas e cabritos
juro que nem trocado peço e não tropeço nos trecos e fico de boca
pequena. se me der um prato até que como.
xô xô xô quem nu vi mais gordo!
tou descalça. sou uma peste. meu olhar ácido te queima em medo. mas tô
sangrando tanto! a dor de tantos enxotos e tantas penduras e tantos
pedidos. além da dor dos homicídios: a faca, a revolver, a frase, ou
a negação!
xô xô xô desgruda a bunda do carro, menina!
tá bom recolho o corpo: dou meia volta: e engano
corro entre verdes de cana paraibanos cortando meu rosto
como cajús: também tenho meus dias de banquete imaginário!
xô xô xô
todos tem, todos tem
coitados (diria a madame antes de ser assaltada)
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1
Valéria Lamego
A musa contra o ditador
A musa contra o ditador
Nos autoritários anos 30, a poeta lutou na imprensa pela democracia
e contra o ensino religioso
especial para a Folha
"Cecília, és tão forte e tão frágil.
Como a onda ao termo da luta. Mas a onda é água que afoga:
Tu, não, és enxuta." Manuel Bandeira (em "Improviso", no
livro Belo Belo) Cecília Meireles na década de 30 rompeu
com todos os tabus de uma sociedade ao defender uma política menos
casuísta e uma educação moderna.
Por meio de seus artigos sobre política, educação
e cultura, Cecília nos oferece uma outra face daquela que foi considerada
a musa diáfana, fluida e etérea da literatura brasileira.
Sinônimo de ilha e isolamento (para Sérgio Milliet), a escritora
cuja poesia não estava "inserida no drama coletivo de sua geração"
(para o crítico Mário da Silva Brito), em sua trajetória
intelectual a Cecília Meireles que deixou suas marcas foi uma defensora
da idéia universal de democracia, num período em que a incoerência
e as paixões pelo autoritarismo arrastaram jovens intelectuais.
Coleção de inimigos
A estréia de Cecília Meireles na redação de
um jornal se dá em 30, década marcada pela transição
de duas grandes guerras e, no Brasil, pela revolução de outubro.
Na imprensa pipocavam jornais de adesão ao novo regime. Assim surgiu
o "Diário de Notícias", em junho de 1930.
Mais do que um simples matutino, o jornal de Orlando Dantas e Nóbrega
da Cunha trazia uma seção diária dedicada à
educação e à política, a "Página de
Educação", cuja diretora era então a jovem poeta.
Jornalista liberal, partidária incansável das liberdades
individuais, em seus 960 artigos publicados na "Página", entre junho
de 1930 e janeiro de 1933, lutou pela instauração de uma
república democrática, bem diferente daquela regida pelo
populismo autoritário do regime que se descortinava após
a revolução.
Crítica ferrenha das atitudes de Vargas, a quem se referia como
"Sr. ditador", Cecília realizava em sua "Página" uma espécie
de jornalismo "enragé". Ao sustentar uma idéia de nação
menos ufanista, colecionou inimigos e desafetos de suas convicções
sobre liberdade, dentre eles o ministro da Educação Francisco
Campos e o crítico católico Alceu de Amoroso Lima, que anos
depois em seu livro de memórias, "Companheiros de Viagem", de 1971,
reconheceu na poeta "uma grande figura feminina do modernismo".
A truculência ideológica do período nos encarrega de
mostrar, no entanto, que as perseguições por motivos ideológicos,
políticos e, por que não, estéticos, acompanharam
a estreante Cecília ao longo dos anos 30. E parecem acompanhá-la
até os dias de hoje, devido a leitura equivocada que se faz de sua
obra e de um desconhecimento total sobre sua passagem pela política
nos anos seguintes à Revolução de 30 e, mais tarde,
durante o período do Estado Novo.
Partidária dos princípios da Escola Nova, a escola moderna
do filósofo norte-americano John Dewey, junto com Anísio
Teixeira, Fernando de Azevedo e Lourenço Filho, Cecília assistiu
à ascensão de um estado autoritário e de uma Igreja
Católica que tentava recuperar seu poder após 40 anos de
uma república laica, com ares positivistas.
A Revolução de 30 traz para a Igreja Católica a possibilidade
de reaver o poder _embora sua popularidade fosse incontestável.
Em 1931, por exemplo, Nossa Senhora Aparecida é consagrada padroeira
do Brasil em grande festejo popular. E em 12 de outubro, também
de 1931, a título de comemoração de um ano de revolução,
é inaugurada, no Rio de Janeiro, Distrito Federal, a imagem mor
da fidelidade católica de um regime: o Cristo Redentor.
O ataque ao ministro
A inclusão do ensino religioso nas escolas públicas, em 1931,
por um decreto de Vargas, despertou a poeta e seus companheiros para a
verdadeira face da Revolução de 30. Um movimento, diga-se
de passagem, totalmente apoiado pelo grupo em seus primórdios.
Na batalha contra o decreto do ensino religioso, Francisco Campos foi figura
central das críticas da poeta.
"Os senhores viram o caso do sr. Francisco Campos", escreve no artigo "A
Hora do Espetáculo", "veio precedido de uma fama extraordinária
de menino prodígio. A cada passo era citada a reforma de ensino
mineira, que nós sempre aplaudimos com restrições,
como a obra glorificada do sábio de Indaiá. A reforma já
trazia no seu bojo agourento, o fantasma do clericalismo. Que foi que fez
como ministro da Educação? Anunciou uma reforma que apareceu
aos pedaços, confusa, como arrancada a ferros do seu cérebro
reputado genial. Todos os jornais protestaram, protestaram os interessados,
um por um, e o ministro ficou indo e vindo entre o Rio e Minas, como se
não tivesse a responsabilidade formidável do cargo que lhe
deram e com o qual, infelizmente, não se contentou. E ainda arranjou
o decreto sobre o ensino religioso, como a última e desgraçada
manobra para se inutilizar como ministro da Educação...".
A laicidade da escola, bem como a co-educação dos sexos e
a manutenção de uma escola pública livre dos arbítrios
da família e da igreja eram as principais bandeiras de Cecília
na "Página". Princípios esses encarados com verdadeira ojeriza
pelo porta-voz da Igreja Católica, o crítico Alceu Amoroso
Lima. No artigo "Absolutismo Pedagógico", de março de 1932,
sobre o Manifesto da Educação lançado pelo grupo da
Escola Nova, Alceu afirma: "Cinco são os meios que recomenda a nossa
NEP (1) para a obtenção dos seus dois filhos _o biologismo
e o estadismo pedagógicos: ruptura do quadro familiar, laicidade,
gratuidade, obrigatoriedade e co-educação".
A campanha de Meireles, na imprensa, não se limitava a defender
o programa liberal da Escola Nova. Seguida por um desejo irrefreável
de combate aos medalhões e à politicagem reinante, Cecília,
sem dúvida, se fazia ouvir no Palácio do Catete. "O sr. Francisco
Campos", dizia ela, "parece que resolveu dar cada dia prova mais convincente
de que não entende mesmo nada, absolutamente, de pedagogia. Que
a sua pedagogia é uma pedagogia de ministro, isto é, politicagem...".
Qualquer atitude sectária valia para a poeta-jornalista um artigo
reflexivo. E assim o fez quando Manuel Bandeira, convidado a participar
do júri do Salão de Belas-Artes de 1931, recebeu severas
críticas dos pintores acadêmicos. "Há uma coisa que
parece ter desagradado: a inclusão de um poeta numa comissão
de belas-artes. Talvez, se fosse um poeta parnasiano, acadêmico,
cheio de lugares-comuns e de preocupações pronominais, o
descontentamento fosse menor. Trata-se, porém, de Manuel Bandeira."
Cansada da política
A "Página de Educação" encerra para Cecília
em janeiro de 1933, quando um cansaço tremendo com as manobras políticas
do governo e o estado da educação no Rio de Janeiro a tomam
por completo. A poeta chega mesmo a manifestar em sua correspondência
o "horror" que lhe causava o jornalismo em sua vida.
Entretanto, logo após sua despedida da "Página de Educação",
Cecília Meireles volta aos jornais. Desta vez para o carioca "A
Nação", no qual foi contratada com um senão: poderia
escrever sobre tudo, menos sobre política!
Durante toda a sua vida a poeta se dedica ao jornalismo. Na década
de 40 escreve para "A Manhã" uma coluna semanal s
Nos autoritários anos 30, a poeta lutou na imprensa pela democracia
e contra o ensino religioso
especial para a Folha
"Cecília, és tão forte e tão frágil.
Como a onda ao termo da luta. Mas a onda é água que afoga:
Tu, não, és enxuta." Manuel Bandeira (em "Improviso", no
livro Belo Belo) Cecília Meireles na década de 30 rompeu
com todos os tabus de uma sociedade ao defender uma política menos
casuísta e uma educação moderna.
Por meio de seus artigos sobre política, educação
e cultura, Cecília nos oferece uma outra face daquela que foi considerada
a musa diáfana, fluida e etérea da literatura brasileira.
Sinônimo de ilha e isolamento (para Sérgio Milliet), a escritora
cuja poesia não estava "inserida no drama coletivo de sua geração"
(para o crítico Mário da Silva Brito), em sua trajetória
intelectual a Cecília Meireles que deixou suas marcas foi uma defensora
da idéia universal de democracia, num período em que a incoerência
e as paixões pelo autoritarismo arrastaram jovens intelectuais.
Coleção de inimigos
A estréia de Cecília Meireles na redação de
um jornal se dá em 30, década marcada pela transição
de duas grandes guerras e, no Brasil, pela revolução de outubro.
Na imprensa pipocavam jornais de adesão ao novo regime. Assim surgiu
o "Diário de Notícias", em junho de 1930.
Mais do que um simples matutino, o jornal de Orlando Dantas e Nóbrega
da Cunha trazia uma seção diária dedicada à
educação e à política, a "Página de
Educação", cuja diretora era então a jovem poeta.
Jornalista liberal, partidária incansável das liberdades
individuais, em seus 960 artigos publicados na "Página", entre junho
de 1930 e janeiro de 1933, lutou pela instauração de uma
república democrática, bem diferente daquela regida pelo
populismo autoritário do regime que se descortinava após
a revolução.
Crítica ferrenha das atitudes de Vargas, a quem se referia como
"Sr. ditador", Cecília realizava em sua "Página" uma espécie
de jornalismo "enragé". Ao sustentar uma idéia de nação
menos ufanista, colecionou inimigos e desafetos de suas convicções
sobre liberdade, dentre eles o ministro da Educação Francisco
Campos e o crítico católico Alceu de Amoroso Lima, que anos
depois em seu livro de memórias, "Companheiros de Viagem", de 1971,
reconheceu na poeta "uma grande figura feminina do modernismo".
A truculência ideológica do período nos encarrega de
mostrar, no entanto, que as perseguições por motivos ideológicos,
políticos e, por que não, estéticos, acompanharam
a estreante Cecília ao longo dos anos 30. E parecem acompanhá-la
até os dias de hoje, devido a leitura equivocada que se faz de sua
obra e de um desconhecimento total sobre sua passagem pela política
nos anos seguintes à Revolução de 30 e, mais tarde,
durante o período do Estado Novo.
Partidária dos princípios da Escola Nova, a escola moderna
do filósofo norte-americano John Dewey, junto com Anísio
Teixeira, Fernando de Azevedo e Lourenço Filho, Cecília assistiu
à ascensão de um estado autoritário e de uma Igreja
Católica que tentava recuperar seu poder após 40 anos de
uma república laica, com ares positivistas.
A Revolução de 30 traz para a Igreja Católica a possibilidade
de reaver o poder _embora sua popularidade fosse incontestável.
Em 1931, por exemplo, Nossa Senhora Aparecida é consagrada padroeira
do Brasil em grande festejo popular. E em 12 de outubro, também
de 1931, a título de comemoração de um ano de revolução,
é inaugurada, no Rio de Janeiro, Distrito Federal, a imagem mor
da fidelidade católica de um regime: o Cristo Redentor.
O ataque ao ministro
A inclusão do ensino religioso nas escolas públicas, em 1931,
por um decreto de Vargas, despertou a poeta e seus companheiros para a
verdadeira face da Revolução de 30. Um movimento, diga-se
de passagem, totalmente apoiado pelo grupo em seus primórdios.
Na batalha contra o decreto do ensino religioso, Francisco Campos foi figura
central das críticas da poeta.
"Os senhores viram o caso do sr. Francisco Campos", escreve no artigo "A
Hora do Espetáculo", "veio precedido de uma fama extraordinária
de menino prodígio. A cada passo era citada a reforma de ensino
mineira, que nós sempre aplaudimos com restrições,
como a obra glorificada do sábio de Indaiá. A reforma já
trazia no seu bojo agourento, o fantasma do clericalismo. Que foi que fez
como ministro da Educação? Anunciou uma reforma que apareceu
aos pedaços, confusa, como arrancada a ferros do seu cérebro
reputado genial. Todos os jornais protestaram, protestaram os interessados,
um por um, e o ministro ficou indo e vindo entre o Rio e Minas, como se
não tivesse a responsabilidade formidável do cargo que lhe
deram e com o qual, infelizmente, não se contentou. E ainda arranjou
o decreto sobre o ensino religioso, como a última e desgraçada
manobra para se inutilizar como ministro da Educação...".
A laicidade da escola, bem como a co-educação dos sexos e
a manutenção de uma escola pública livre dos arbítrios
da família e da igreja eram as principais bandeiras de Cecília
na "Página". Princípios esses encarados com verdadeira ojeriza
pelo porta-voz da Igreja Católica, o crítico Alceu Amoroso
Lima. No artigo "Absolutismo Pedagógico", de março de 1932,
sobre o Manifesto da Educação lançado pelo grupo da
Escola Nova, Alceu afirma: "Cinco são os meios que recomenda a nossa
NEP (1) para a obtenção dos seus dois filhos _o biologismo
e o estadismo pedagógicos: ruptura do quadro familiar, laicidade,
gratuidade, obrigatoriedade e co-educação".
A campanha de Meireles, na imprensa, não se limitava a defender
o programa liberal da Escola Nova. Seguida por um desejo irrefreável
de combate aos medalhões e à politicagem reinante, Cecília,
sem dúvida, se fazia ouvir no Palácio do Catete. "O sr. Francisco
Campos", dizia ela, "parece que resolveu dar cada dia prova mais convincente
de que não entende mesmo nada, absolutamente, de pedagogia. Que
a sua pedagogia é uma pedagogia de ministro, isto é, politicagem...".
Qualquer atitude sectária valia para a poeta-jornalista um artigo
reflexivo. E assim o fez quando Manuel Bandeira, convidado a participar
do júri do Salão de Belas-Artes de 1931, recebeu severas
críticas dos pintores acadêmicos. "Há uma coisa que
parece ter desagradado: a inclusão de um poeta numa comissão
de belas-artes. Talvez, se fosse um poeta parnasiano, acadêmico,
cheio de lugares-comuns e de preocupações pronominais, o
descontentamento fosse menor. Trata-se, porém, de Manuel Bandeira."
Cansada da política
A "Página de Educação" encerra para Cecília
em janeiro de 1933, quando um cansaço tremendo com as manobras políticas
do governo e o estado da educação no Rio de Janeiro a tomam
por completo. A poeta chega mesmo a manifestar em sua correspondência
o "horror" que lhe causava o jornalismo em sua vida.
Entretanto, logo após sua despedida da "Página de Educação",
Cecília Meireles volta aos jornais. Desta vez para o carioca "A
Nação", no qual foi contratada com um senão: poderia
escrever sobre tudo, menos sobre política!
Durante toda a sua vida a poeta se dedica ao jornalismo. Na década
de 40 escreve para "A Manhã" uma coluna semanal s
773
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Valéria Lamego
A musa contra o ditador
A musa contra o ditador
Nos autoritários anos 30, a poeta lutou na imprensa pela democracia
e contra o ensino religioso
especial para a Folha
"Cecília, és tão forte e tão frágil.
Como a onda ao termo da luta. Mas a onda é água que afoga:
Tu, não, és enxuta." Manuel Bandeira (em "Improviso", no
livro Belo Belo) Cecília Meireles na década de 30 rompeu
com todos os tabus de uma sociedade ao defender uma política menos
casuísta e uma educação moderna.
Por meio de seus artigos sobre política, educação
e cultura, Cecília nos oferece uma outra face daquela que foi considerada
a musa diáfana, fluida e etérea da literatura brasileira.
Sinônimo de ilha e isolamento (para Sérgio Milliet), a escritora
cuja poesia não estava "inserida no drama coletivo de sua geração"
(para o crítico Mário da Silva Brito), em sua trajetória
intelectual a Cecília Meireles que deixou suas marcas foi uma defensora
da idéia universal de democracia, num período em que a incoerência
e as paixões pelo autoritarismo arrastaram jovens intelectuais.
Coleção de inimigos
A estréia de Cecília Meireles na redação de
um jornal se dá em 30, década marcada pela transição
de duas grandes guerras e, no Brasil, pela revolução de outubro.
Na imprensa pipocavam jornais de adesão ao novo regime. Assim surgiu
o "Diário de Notícias", em junho de 1930.
Mais do que um simples matutino, o jornal de Orlando Dantas e Nóbrega
da Cunha trazia uma seção diária dedicada à
educação e à política, a "Página de
Educação", cuja diretora era então a jovem poeta.
Jornalista liberal, partidária incansável das liberdades
individuais, em seus 960 artigos publicados na "Página", entre junho
de 1930 e janeiro de 1933, lutou pela instauração de uma
república democrática, bem diferente daquela regida pelo
populismo autoritário do regime que se descortinava após
a revolução.
Crítica ferrenha das atitudes de Vargas, a quem se referia como
"Sr. ditador", Cecília realizava em sua "Página" uma espécie
de jornalismo "enragé". Ao sustentar uma idéia de nação
menos ufanista, colecionou inimigos e desafetos de suas convicções
sobre liberdade, dentre eles o ministro da Educação Francisco
Campos e o crítico católico Alceu de Amoroso Lima, que anos
depois em seu livro de memórias, "Companheiros de Viagem", de 1971,
reconheceu na poeta "uma grande figura feminina do modernismo".
A truculência ideológica do período nos encarrega de
mostrar, no entanto, que as perseguições por motivos ideológicos,
políticos e, por que não, estéticos, acompanharam
a estreante Cecília ao longo dos anos 30. E parecem acompanhá-la
até os dias de hoje, devido a leitura equivocada que se faz de sua
obra e de um desconhecimento total sobre sua passagem pela política
nos anos seguintes à Revolução de 30 e, mais tarde,
durante o período do Estado Novo.
Partidária dos princípios da Escola Nova, a escola moderna
do filósofo norte-americano John Dewey, junto com Anísio
Teixeira, Fernando de Azevedo e Lourenço Filho, Cecília assistiu
à ascensão de um estado autoritário e de uma Igreja
Católica que tentava recuperar seu poder após 40 anos de
uma república laica, com ares positivistas.
A Revolução de 30 traz para a Igreja Católica a possibilidade
de reaver o poder _embora sua popularidade fosse incontestável.
Em 1931, por exemplo, Nossa Senhora Aparecida é consagrada padroeira
do Brasil em grande festejo popular. E em 12 de outubro, também
de 1931, a título de comemoração de um ano de revolução,
é inaugurada, no Rio de Janeiro, Distrito Federal, a imagem mor
da fidelidade católica de um regime: o Cristo Redentor.
O ataque ao ministro
A inclusão do ensino religioso nas escolas públicas, em 1931,
por um decreto de Vargas, despertou a poeta e seus companheiros para a
verdadeira face da Revolução de 30. Um movimento, diga-se
de passagem, totalmente apoiado pelo grupo em seus primórdios.
Na batalha contra o decreto do ensino religioso, Francisco Campos foi figura
central das críticas da poeta.
"Os senhores viram o caso do sr. Francisco Campos", escreve no artigo "A
Hora do Espetáculo", "veio precedido de uma fama extraordinária
de menino prodígio. A cada passo era citada a reforma de ensino
mineira, que nós sempre aplaudimos com restrições,
como a obra glorificada do sábio de Indaiá. A reforma já
trazia no seu bojo agourento, o fantasma do clericalismo. Que foi que fez
como ministro da Educação? Anunciou uma reforma que apareceu
aos pedaços, confusa, como arrancada a ferros do seu cérebro
reputado genial. Todos os jornais protestaram, protestaram os interessados,
um por um, e o ministro ficou indo e vindo entre o Rio e Minas, como se
não tivesse a responsabilidade formidável do cargo que lhe
deram e com o qual, infelizmente, não se contentou. E ainda arranjou
o decreto sobre o ensino religioso, como a última e desgraçada
manobra para se inutilizar como ministro da Educação...".
A laicidade da escola, bem como a co-educação dos sexos e
a manutenção de uma escola pública livre dos arbítrios
da família e da igreja eram as principais bandeiras de Cecília
na "Página". Princípios esses encarados com verdadeira ojeriza
pelo porta-voz da Igreja Católica, o crítico Alceu Amoroso
Lima. No artigo "Absolutismo Pedagógico", de março de 1932,
sobre o Manifesto da Educação lançado pelo grupo da
Escola Nova, Alceu afirma: "Cinco são os meios que recomenda a nossa
NEP (1) para a obtenção dos seus dois filhos _o biologismo
e o estadismo pedagógicos: ruptura do quadro familiar, laicidade,
gratuidade, obrigatoriedade e co-educação".
A campanha de Meireles, na imprensa, não se limitava a defender
o programa liberal da Escola Nova. Seguida por um desejo irrefreável
de combate aos medalhões e à politicagem reinante, Cecília,
sem dúvida, se fazia ouvir no Palácio do Catete. "O sr. Francisco
Campos", dizia ela, "parece que resolveu dar cada dia prova mais convincente
de que não entende mesmo nada, absolutamente, de pedagogia. Que
a sua pedagogia é uma pedagogia de ministro, isto é, politicagem...".
Qualquer atitude sectária valia para a poeta-jornalista um artigo
reflexivo. E assim o fez quando Manuel Bandeira, convidado a participar
do júri do Salão de Belas-Artes de 1931, recebeu severas
críticas dos pintores acadêmicos. "Há uma coisa que
parece ter desagradado: a inclusão de um poeta numa comissão
de belas-artes. Talvez, se fosse um poeta parnasiano, acadêmico,
cheio de lugares-comuns e de preocupações pronominais, o
descontentamento fosse menor. Trata-se, porém, de Manuel Bandeira."
Cansada da política
A "Página de Educação" encerra para Cecília
em janeiro de 1933, quando um cansaço tremendo com as manobras políticas
do governo e o estado da educação no Rio de Janeiro a tomam
por completo. A poeta chega mesmo a manifestar em sua correspondência
o "horror" que lhe causava o jornalismo em sua vida.
Entretanto, logo após sua despedida da "Página de Educação",
Cecília Meireles volta aos jornais. Desta vez para o carioca "A
Nação", no qual foi contratada com um senão: poderia
escrever sobre tudo, menos sobre política!
Durante toda a sua vida a poeta se dedica ao jornalismo. Na década
de 40 escreve para "A Manhã" uma coluna semanal s
Nos autoritários anos 30, a poeta lutou na imprensa pela democracia
e contra o ensino religioso
especial para a Folha
"Cecília, és tão forte e tão frágil.
Como a onda ao termo da luta. Mas a onda é água que afoga:
Tu, não, és enxuta." Manuel Bandeira (em "Improviso", no
livro Belo Belo) Cecília Meireles na década de 30 rompeu
com todos os tabus de uma sociedade ao defender uma política menos
casuísta e uma educação moderna.
Por meio de seus artigos sobre política, educação
e cultura, Cecília nos oferece uma outra face daquela que foi considerada
a musa diáfana, fluida e etérea da literatura brasileira.
Sinônimo de ilha e isolamento (para Sérgio Milliet), a escritora
cuja poesia não estava "inserida no drama coletivo de sua geração"
(para o crítico Mário da Silva Brito), em sua trajetória
intelectual a Cecília Meireles que deixou suas marcas foi uma defensora
da idéia universal de democracia, num período em que a incoerência
e as paixões pelo autoritarismo arrastaram jovens intelectuais.
Coleção de inimigos
A estréia de Cecília Meireles na redação de
um jornal se dá em 30, década marcada pela transição
de duas grandes guerras e, no Brasil, pela revolução de outubro.
Na imprensa pipocavam jornais de adesão ao novo regime. Assim surgiu
o "Diário de Notícias", em junho de 1930.
Mais do que um simples matutino, o jornal de Orlando Dantas e Nóbrega
da Cunha trazia uma seção diária dedicada à
educação e à política, a "Página de
Educação", cuja diretora era então a jovem poeta.
Jornalista liberal, partidária incansável das liberdades
individuais, em seus 960 artigos publicados na "Página", entre junho
de 1930 e janeiro de 1933, lutou pela instauração de uma
república democrática, bem diferente daquela regida pelo
populismo autoritário do regime que se descortinava após
a revolução.
Crítica ferrenha das atitudes de Vargas, a quem se referia como
"Sr. ditador", Cecília realizava em sua "Página" uma espécie
de jornalismo "enragé". Ao sustentar uma idéia de nação
menos ufanista, colecionou inimigos e desafetos de suas convicções
sobre liberdade, dentre eles o ministro da Educação Francisco
Campos e o crítico católico Alceu de Amoroso Lima, que anos
depois em seu livro de memórias, "Companheiros de Viagem", de 1971,
reconheceu na poeta "uma grande figura feminina do modernismo".
A truculência ideológica do período nos encarrega de
mostrar, no entanto, que as perseguições por motivos ideológicos,
políticos e, por que não, estéticos, acompanharam
a estreante Cecília ao longo dos anos 30. E parecem acompanhá-la
até os dias de hoje, devido a leitura equivocada que se faz de sua
obra e de um desconhecimento total sobre sua passagem pela política
nos anos seguintes à Revolução de 30 e, mais tarde,
durante o período do Estado Novo.
Partidária dos princípios da Escola Nova, a escola moderna
do filósofo norte-americano John Dewey, junto com Anísio
Teixeira, Fernando de Azevedo e Lourenço Filho, Cecília assistiu
à ascensão de um estado autoritário e de uma Igreja
Católica que tentava recuperar seu poder após 40 anos de
uma república laica, com ares positivistas.
A Revolução de 30 traz para a Igreja Católica a possibilidade
de reaver o poder _embora sua popularidade fosse incontestável.
Em 1931, por exemplo, Nossa Senhora Aparecida é consagrada padroeira
do Brasil em grande festejo popular. E em 12 de outubro, também
de 1931, a título de comemoração de um ano de revolução,
é inaugurada, no Rio de Janeiro, Distrito Federal, a imagem mor
da fidelidade católica de um regime: o Cristo Redentor.
O ataque ao ministro
A inclusão do ensino religioso nas escolas públicas, em 1931,
por um decreto de Vargas, despertou a poeta e seus companheiros para a
verdadeira face da Revolução de 30. Um movimento, diga-se
de passagem, totalmente apoiado pelo grupo em seus primórdios.
Na batalha contra o decreto do ensino religioso, Francisco Campos foi figura
central das críticas da poeta.
"Os senhores viram o caso do sr. Francisco Campos", escreve no artigo "A
Hora do Espetáculo", "veio precedido de uma fama extraordinária
de menino prodígio. A cada passo era citada a reforma de ensino
mineira, que nós sempre aplaudimos com restrições,
como a obra glorificada do sábio de Indaiá. A reforma já
trazia no seu bojo agourento, o fantasma do clericalismo. Que foi que fez
como ministro da Educação? Anunciou uma reforma que apareceu
aos pedaços, confusa, como arrancada a ferros do seu cérebro
reputado genial. Todos os jornais protestaram, protestaram os interessados,
um por um, e o ministro ficou indo e vindo entre o Rio e Minas, como se
não tivesse a responsabilidade formidável do cargo que lhe
deram e com o qual, infelizmente, não se contentou. E ainda arranjou
o decreto sobre o ensino religioso, como a última e desgraçada
manobra para se inutilizar como ministro da Educação...".
A laicidade da escola, bem como a co-educação dos sexos e
a manutenção de uma escola pública livre dos arbítrios
da família e da igreja eram as principais bandeiras de Cecília
na "Página". Princípios esses encarados com verdadeira ojeriza
pelo porta-voz da Igreja Católica, o crítico Alceu Amoroso
Lima. No artigo "Absolutismo Pedagógico", de março de 1932,
sobre o Manifesto da Educação lançado pelo grupo da
Escola Nova, Alceu afirma: "Cinco são os meios que recomenda a nossa
NEP (1) para a obtenção dos seus dois filhos _o biologismo
e o estadismo pedagógicos: ruptura do quadro familiar, laicidade,
gratuidade, obrigatoriedade e co-educação".
A campanha de Meireles, na imprensa, não se limitava a defender
o programa liberal da Escola Nova. Seguida por um desejo irrefreável
de combate aos medalhões e à politicagem reinante, Cecília,
sem dúvida, se fazia ouvir no Palácio do Catete. "O sr. Francisco
Campos", dizia ela, "parece que resolveu dar cada dia prova mais convincente
de que não entende mesmo nada, absolutamente, de pedagogia. Que
a sua pedagogia é uma pedagogia de ministro, isto é, politicagem...".
Qualquer atitude sectária valia para a poeta-jornalista um artigo
reflexivo. E assim o fez quando Manuel Bandeira, convidado a participar
do júri do Salão de Belas-Artes de 1931, recebeu severas
críticas dos pintores acadêmicos. "Há uma coisa que
parece ter desagradado: a inclusão de um poeta numa comissão
de belas-artes. Talvez, se fosse um poeta parnasiano, acadêmico,
cheio de lugares-comuns e de preocupações pronominais, o
descontentamento fosse menor. Trata-se, porém, de Manuel Bandeira."
Cansada da política
A "Página de Educação" encerra para Cecília
em janeiro de 1933, quando um cansaço tremendo com as manobras políticas
do governo e o estado da educação no Rio de Janeiro a tomam
por completo. A poeta chega mesmo a manifestar em sua correspondência
o "horror" que lhe causava o jornalismo em sua vida.
Entretanto, logo após sua despedida da "Página de Educação",
Cecília Meireles volta aos jornais. Desta vez para o carioca "A
Nação", no qual foi contratada com um senão: poderia
escrever sobre tudo, menos sobre política!
Durante toda a sua vida a poeta se dedica ao jornalismo. Na década
de 40 escreve para "A Manhã" uma coluna semanal s
773
1
Valéria Lamego
A musa contra o ditador
A musa contra o ditador
Nos autoritários anos 30, a poeta lutou na imprensa pela democracia
e contra o ensino religioso
especial para a Folha
"Cecília, és tão forte e tão frágil.
Como a onda ao termo da luta. Mas a onda é água que afoga:
Tu, não, és enxuta." Manuel Bandeira (em "Improviso", no
livro Belo Belo) Cecília Meireles na década de 30 rompeu
com todos os tabus de uma sociedade ao defender uma política menos
casuísta e uma educação moderna.
Por meio de seus artigos sobre política, educação
e cultura, Cecília nos oferece uma outra face daquela que foi considerada
a musa diáfana, fluida e etérea da literatura brasileira.
Sinônimo de ilha e isolamento (para Sérgio Milliet), a escritora
cuja poesia não estava "inserida no drama coletivo de sua geração"
(para o crítico Mário da Silva Brito), em sua trajetória
intelectual a Cecília Meireles que deixou suas marcas foi uma defensora
da idéia universal de democracia, num período em que a incoerência
e as paixões pelo autoritarismo arrastaram jovens intelectuais.
Coleção de inimigos
A estréia de Cecília Meireles na redação de
um jornal se dá em 30, década marcada pela transição
de duas grandes guerras e, no Brasil, pela revolução de outubro.
Na imprensa pipocavam jornais de adesão ao novo regime. Assim surgiu
o "Diário de Notícias", em junho de 1930.
Mais do que um simples matutino, o jornal de Orlando Dantas e Nóbrega
da Cunha trazia uma seção diária dedicada à
educação e à política, a "Página de
Educação", cuja diretora era então a jovem poeta.
Jornalista liberal, partidária incansável das liberdades
individuais, em seus 960 artigos publicados na "Página", entre junho
de 1930 e janeiro de 1933, lutou pela instauração de uma
república democrática, bem diferente daquela regida pelo
populismo autoritário do regime que se descortinava após
a revolução.
Crítica ferrenha das atitudes de Vargas, a quem se referia como
"Sr. ditador", Cecília realizava em sua "Página" uma espécie
de jornalismo "enragé". Ao sustentar uma idéia de nação
menos ufanista, colecionou inimigos e desafetos de suas convicções
sobre liberdade, dentre eles o ministro da Educação Francisco
Campos e o crítico católico Alceu de Amoroso Lima, que anos
depois em seu livro de memórias, "Companheiros de Viagem", de 1971,
reconheceu na poeta "uma grande figura feminina do modernismo".
A truculência ideológica do período nos encarrega de
mostrar, no entanto, que as perseguições por motivos ideológicos,
políticos e, por que não, estéticos, acompanharam
a estreante Cecília ao longo dos anos 30. E parecem acompanhá-la
até os dias de hoje, devido a leitura equivocada que se faz de sua
obra e de um desconhecimento total sobre sua passagem pela política
nos anos seguintes à Revolução de 30 e, mais tarde,
durante o período do Estado Novo.
Partidária dos princípios da Escola Nova, a escola moderna
do filósofo norte-americano John Dewey, junto com Anísio
Teixeira, Fernando de Azevedo e Lourenço Filho, Cecília assistiu
à ascensão de um estado autoritário e de uma Igreja
Católica que tentava recuperar seu poder após 40 anos de
uma república laica, com ares positivistas.
A Revolução de 30 traz para a Igreja Católica a possibilidade
de reaver o poder _embora sua popularidade fosse incontestável.
Em 1931, por exemplo, Nossa Senhora Aparecida é consagrada padroeira
do Brasil em grande festejo popular. E em 12 de outubro, também
de 1931, a título de comemoração de um ano de revolução,
é inaugurada, no Rio de Janeiro, Distrito Federal, a imagem mor
da fidelidade católica de um regime: o Cristo Redentor.
O ataque ao ministro
A inclusão do ensino religioso nas escolas públicas, em 1931,
por um decreto de Vargas, despertou a poeta e seus companheiros para a
verdadeira face da Revolução de 30. Um movimento, diga-se
de passagem, totalmente apoiado pelo grupo em seus primórdios.
Na batalha contra o decreto do ensino religioso, Francisco Campos foi figura
central das críticas da poeta.
"Os senhores viram o caso do sr. Francisco Campos", escreve no artigo "A
Hora do Espetáculo", "veio precedido de uma fama extraordinária
de menino prodígio. A cada passo era citada a reforma de ensino
mineira, que nós sempre aplaudimos com restrições,
como a obra glorificada do sábio de Indaiá. A reforma já
trazia no seu bojo agourento, o fantasma do clericalismo. Que foi que fez
como ministro da Educação? Anunciou uma reforma que apareceu
aos pedaços, confusa, como arrancada a ferros do seu cérebro
reputado genial. Todos os jornais protestaram, protestaram os interessados,
um por um, e o ministro ficou indo e vindo entre o Rio e Minas, como se
não tivesse a responsabilidade formidável do cargo que lhe
deram e com o qual, infelizmente, não se contentou. E ainda arranjou
o decreto sobre o ensino religioso, como a última e desgraçada
manobra para se inutilizar como ministro da Educação...".
A laicidade da escola, bem como a co-educação dos sexos e
a manutenção de uma escola pública livre dos arbítrios
da família e da igreja eram as principais bandeiras de Cecília
na "Página". Princípios esses encarados com verdadeira ojeriza
pelo porta-voz da Igreja Católica, o crítico Alceu Amoroso
Lima. No artigo "Absolutismo Pedagógico", de março de 1932,
sobre o Manifesto da Educação lançado pelo grupo da
Escola Nova, Alceu afirma: "Cinco são os meios que recomenda a nossa
NEP (1) para a obtenção dos seus dois filhos _o biologismo
e o estadismo pedagógicos: ruptura do quadro familiar, laicidade,
gratuidade, obrigatoriedade e co-educação".
A campanha de Meireles, na imprensa, não se limitava a defender
o programa liberal da Escola Nova. Seguida por um desejo irrefreável
de combate aos medalhões e à politicagem reinante, Cecília,
sem dúvida, se fazia ouvir no Palácio do Catete. "O sr. Francisco
Campos", dizia ela, "parece que resolveu dar cada dia prova mais convincente
de que não entende mesmo nada, absolutamente, de pedagogia. Que
a sua pedagogia é uma pedagogia de ministro, isto é, politicagem...".
Qualquer atitude sectária valia para a poeta-jornalista um artigo
reflexivo. E assim o fez quando Manuel Bandeira, convidado a participar
do júri do Salão de Belas-Artes de 1931, recebeu severas
críticas dos pintores acadêmicos. "Há uma coisa que
parece ter desagradado: a inclusão de um poeta numa comissão
de belas-artes. Talvez, se fosse um poeta parnasiano, acadêmico,
cheio de lugares-comuns e de preocupações pronominais, o
descontentamento fosse menor. Trata-se, porém, de Manuel Bandeira."
Cansada da política
A "Página de Educação" encerra para Cecília
em janeiro de 1933, quando um cansaço tremendo com as manobras políticas
do governo e o estado da educação no Rio de Janeiro a tomam
por completo. A poeta chega mesmo a manifestar em sua correspondência
o "horror" que lhe causava o jornalismo em sua vida.
Entretanto, logo após sua despedida da "Página de Educação",
Cecília Meireles volta aos jornais. Desta vez para o carioca "A
Nação", no qual foi contratada com um senão: poderia
escrever sobre tudo, menos sobre política!
Durante toda a sua vida a poeta se dedica ao jornalismo. Na década
de 40 escreve para "A Manhã" uma coluna semanal s
Nos autoritários anos 30, a poeta lutou na imprensa pela democracia
e contra o ensino religioso
especial para a Folha
"Cecília, és tão forte e tão frágil.
Como a onda ao termo da luta. Mas a onda é água que afoga:
Tu, não, és enxuta." Manuel Bandeira (em "Improviso", no
livro Belo Belo) Cecília Meireles na década de 30 rompeu
com todos os tabus de uma sociedade ao defender uma política menos
casuísta e uma educação moderna.
Por meio de seus artigos sobre política, educação
e cultura, Cecília nos oferece uma outra face daquela que foi considerada
a musa diáfana, fluida e etérea da literatura brasileira.
Sinônimo de ilha e isolamento (para Sérgio Milliet), a escritora
cuja poesia não estava "inserida no drama coletivo de sua geração"
(para o crítico Mário da Silva Brito), em sua trajetória
intelectual a Cecília Meireles que deixou suas marcas foi uma defensora
da idéia universal de democracia, num período em que a incoerência
e as paixões pelo autoritarismo arrastaram jovens intelectuais.
Coleção de inimigos
A estréia de Cecília Meireles na redação de
um jornal se dá em 30, década marcada pela transição
de duas grandes guerras e, no Brasil, pela revolução de outubro.
Na imprensa pipocavam jornais de adesão ao novo regime. Assim surgiu
o "Diário de Notícias", em junho de 1930.
Mais do que um simples matutino, o jornal de Orlando Dantas e Nóbrega
da Cunha trazia uma seção diária dedicada à
educação e à política, a "Página de
Educação", cuja diretora era então a jovem poeta.
Jornalista liberal, partidária incansável das liberdades
individuais, em seus 960 artigos publicados na "Página", entre junho
de 1930 e janeiro de 1933, lutou pela instauração de uma
república democrática, bem diferente daquela regida pelo
populismo autoritário do regime que se descortinava após
a revolução.
Crítica ferrenha das atitudes de Vargas, a quem se referia como
"Sr. ditador", Cecília realizava em sua "Página" uma espécie
de jornalismo "enragé". Ao sustentar uma idéia de nação
menos ufanista, colecionou inimigos e desafetos de suas convicções
sobre liberdade, dentre eles o ministro da Educação Francisco
Campos e o crítico católico Alceu de Amoroso Lima, que anos
depois em seu livro de memórias, "Companheiros de Viagem", de 1971,
reconheceu na poeta "uma grande figura feminina do modernismo".
A truculência ideológica do período nos encarrega de
mostrar, no entanto, que as perseguições por motivos ideológicos,
políticos e, por que não, estéticos, acompanharam
a estreante Cecília ao longo dos anos 30. E parecem acompanhá-la
até os dias de hoje, devido a leitura equivocada que se faz de sua
obra e de um desconhecimento total sobre sua passagem pela política
nos anos seguintes à Revolução de 30 e, mais tarde,
durante o período do Estado Novo.
Partidária dos princípios da Escola Nova, a escola moderna
do filósofo norte-americano John Dewey, junto com Anísio
Teixeira, Fernando de Azevedo e Lourenço Filho, Cecília assistiu
à ascensão de um estado autoritário e de uma Igreja
Católica que tentava recuperar seu poder após 40 anos de
uma república laica, com ares positivistas.
A Revolução de 30 traz para a Igreja Católica a possibilidade
de reaver o poder _embora sua popularidade fosse incontestável.
Em 1931, por exemplo, Nossa Senhora Aparecida é consagrada padroeira
do Brasil em grande festejo popular. E em 12 de outubro, também
de 1931, a título de comemoração de um ano de revolução,
é inaugurada, no Rio de Janeiro, Distrito Federal, a imagem mor
da fidelidade católica de um regime: o Cristo Redentor.
O ataque ao ministro
A inclusão do ensino religioso nas escolas públicas, em 1931,
por um decreto de Vargas, despertou a poeta e seus companheiros para a
verdadeira face da Revolução de 30. Um movimento, diga-se
de passagem, totalmente apoiado pelo grupo em seus primórdios.
Na batalha contra o decreto do ensino religioso, Francisco Campos foi figura
central das críticas da poeta.
"Os senhores viram o caso do sr. Francisco Campos", escreve no artigo "A
Hora do Espetáculo", "veio precedido de uma fama extraordinária
de menino prodígio. A cada passo era citada a reforma de ensino
mineira, que nós sempre aplaudimos com restrições,
como a obra glorificada do sábio de Indaiá. A reforma já
trazia no seu bojo agourento, o fantasma do clericalismo. Que foi que fez
como ministro da Educação? Anunciou uma reforma que apareceu
aos pedaços, confusa, como arrancada a ferros do seu cérebro
reputado genial. Todos os jornais protestaram, protestaram os interessados,
um por um, e o ministro ficou indo e vindo entre o Rio e Minas, como se
não tivesse a responsabilidade formidável do cargo que lhe
deram e com o qual, infelizmente, não se contentou. E ainda arranjou
o decreto sobre o ensino religioso, como a última e desgraçada
manobra para se inutilizar como ministro da Educação...".
A laicidade da escola, bem como a co-educação dos sexos e
a manutenção de uma escola pública livre dos arbítrios
da família e da igreja eram as principais bandeiras de Cecília
na "Página". Princípios esses encarados com verdadeira ojeriza
pelo porta-voz da Igreja Católica, o crítico Alceu Amoroso
Lima. No artigo "Absolutismo Pedagógico", de março de 1932,
sobre o Manifesto da Educação lançado pelo grupo da
Escola Nova, Alceu afirma: "Cinco são os meios que recomenda a nossa
NEP (1) para a obtenção dos seus dois filhos _o biologismo
e o estadismo pedagógicos: ruptura do quadro familiar, laicidade,
gratuidade, obrigatoriedade e co-educação".
A campanha de Meireles, na imprensa, não se limitava a defender
o programa liberal da Escola Nova. Seguida por um desejo irrefreável
de combate aos medalhões e à politicagem reinante, Cecília,
sem dúvida, se fazia ouvir no Palácio do Catete. "O sr. Francisco
Campos", dizia ela, "parece que resolveu dar cada dia prova mais convincente
de que não entende mesmo nada, absolutamente, de pedagogia. Que
a sua pedagogia é uma pedagogia de ministro, isto é, politicagem...".
Qualquer atitude sectária valia para a poeta-jornalista um artigo
reflexivo. E assim o fez quando Manuel Bandeira, convidado a participar
do júri do Salão de Belas-Artes de 1931, recebeu severas
críticas dos pintores acadêmicos. "Há uma coisa que
parece ter desagradado: a inclusão de um poeta numa comissão
de belas-artes. Talvez, se fosse um poeta parnasiano, acadêmico,
cheio de lugares-comuns e de preocupações pronominais, o
descontentamento fosse menor. Trata-se, porém, de Manuel Bandeira."
Cansada da política
A "Página de Educação" encerra para Cecília
em janeiro de 1933, quando um cansaço tremendo com as manobras políticas
do governo e o estado da educação no Rio de Janeiro a tomam
por completo. A poeta chega mesmo a manifestar em sua correspondência
o "horror" que lhe causava o jornalismo em sua vida.
Entretanto, logo após sua despedida da "Página de Educação",
Cecília Meireles volta aos jornais. Desta vez para o carioca "A
Nação", no qual foi contratada com um senão: poderia
escrever sobre tudo, menos sobre política!
Durante toda a sua vida a poeta se dedica ao jornalismo. Na década
de 40 escreve para "A Manhã" uma coluna semanal s
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Valéria Lamego
A musa contra o ditador
A musa contra o ditador
Nos autoritários anos 30, a poeta lutou na imprensa pela democracia
e contra o ensino religioso
especial para a Folha
"Cecília, és tão forte e tão frágil.
Como a onda ao termo da luta. Mas a onda é água que afoga:
Tu, não, és enxuta." Manuel Bandeira (em "Improviso", no
livro Belo Belo) Cecília Meireles na década de 30 rompeu
com todos os tabus de uma sociedade ao defender uma política menos
casuísta e uma educação moderna.
Por meio de seus artigos sobre política, educação
e cultura, Cecília nos oferece uma outra face daquela que foi considerada
a musa diáfana, fluida e etérea da literatura brasileira.
Sinônimo de ilha e isolamento (para Sérgio Milliet), a escritora
cuja poesia não estava "inserida no drama coletivo de sua geração"
(para o crítico Mário da Silva Brito), em sua trajetória
intelectual a Cecília Meireles que deixou suas marcas foi uma defensora
da idéia universal de democracia, num período em que a incoerência
e as paixões pelo autoritarismo arrastaram jovens intelectuais.
Coleção de inimigos
A estréia de Cecília Meireles na redação de
um jornal se dá em 30, década marcada pela transição
de duas grandes guerras e, no Brasil, pela revolução de outubro.
Na imprensa pipocavam jornais de adesão ao novo regime. Assim surgiu
o "Diário de Notícias", em junho de 1930.
Mais do que um simples matutino, o jornal de Orlando Dantas e Nóbrega
da Cunha trazia uma seção diária dedicada à
educação e à política, a "Página de
Educação", cuja diretora era então a jovem poeta.
Jornalista liberal, partidária incansável das liberdades
individuais, em seus 960 artigos publicados na "Página", entre junho
de 1930 e janeiro de 1933, lutou pela instauração de uma
república democrática, bem diferente daquela regida pelo
populismo autoritário do regime que se descortinava após
a revolução.
Crítica ferrenha das atitudes de Vargas, a quem se referia como
"Sr. ditador", Cecília realizava em sua "Página" uma espécie
de jornalismo "enragé". Ao sustentar uma idéia de nação
menos ufanista, colecionou inimigos e desafetos de suas convicções
sobre liberdade, dentre eles o ministro da Educação Francisco
Campos e o crítico católico Alceu de Amoroso Lima, que anos
depois em seu livro de memórias, "Companheiros de Viagem", de 1971,
reconheceu na poeta "uma grande figura feminina do modernismo".
A truculência ideológica do período nos encarrega de
mostrar, no entanto, que as perseguições por motivos ideológicos,
políticos e, por que não, estéticos, acompanharam
a estreante Cecília ao longo dos anos 30. E parecem acompanhá-la
até os dias de hoje, devido a leitura equivocada que se faz de sua
obra e de um desconhecimento total sobre sua passagem pela política
nos anos seguintes à Revolução de 30 e, mais tarde,
durante o período do Estado Novo.
Partidária dos princípios da Escola Nova, a escola moderna
do filósofo norte-americano John Dewey, junto com Anísio
Teixeira, Fernando de Azevedo e Lourenço Filho, Cecília assistiu
à ascensão de um estado autoritário e de uma Igreja
Católica que tentava recuperar seu poder após 40 anos de
uma república laica, com ares positivistas.
A Revolução de 30 traz para a Igreja Católica a possibilidade
de reaver o poder _embora sua popularidade fosse incontestável.
Em 1931, por exemplo, Nossa Senhora Aparecida é consagrada padroeira
do Brasil em grande festejo popular. E em 12 de outubro, também
de 1931, a título de comemoração de um ano de revolução,
é inaugurada, no Rio de Janeiro, Distrito Federal, a imagem mor
da fidelidade católica de um regime: o Cristo Redentor.
O ataque ao ministro
A inclusão do ensino religioso nas escolas públicas, em 1931,
por um decreto de Vargas, despertou a poeta e seus companheiros para a
verdadeira face da Revolução de 30. Um movimento, diga-se
de passagem, totalmente apoiado pelo grupo em seus primórdios.
Na batalha contra o decreto do ensino religioso, Francisco Campos foi figura
central das críticas da poeta.
"Os senhores viram o caso do sr. Francisco Campos", escreve no artigo "A
Hora do Espetáculo", "veio precedido de uma fama extraordinária
de menino prodígio. A cada passo era citada a reforma de ensino
mineira, que nós sempre aplaudimos com restrições,
como a obra glorificada do sábio de Indaiá. A reforma já
trazia no seu bojo agourento, o fantasma do clericalismo. Que foi que fez
como ministro da Educação? Anunciou uma reforma que apareceu
aos pedaços, confusa, como arrancada a ferros do seu cérebro
reputado genial. Todos os jornais protestaram, protestaram os interessados,
um por um, e o ministro ficou indo e vindo entre o Rio e Minas, como se
não tivesse a responsabilidade formidável do cargo que lhe
deram e com o qual, infelizmente, não se contentou. E ainda arranjou
o decreto sobre o ensino religioso, como a última e desgraçada
manobra para se inutilizar como ministro da Educação...".
A laicidade da escola, bem como a co-educação dos sexos e
a manutenção de uma escola pública livre dos arbítrios
da família e da igreja eram as principais bandeiras de Cecília
na "Página". Princípios esses encarados com verdadeira ojeriza
pelo porta-voz da Igreja Católica, o crítico Alceu Amoroso
Lima. No artigo "Absolutismo Pedagógico", de março de 1932,
sobre o Manifesto da Educação lançado pelo grupo da
Escola Nova, Alceu afirma: "Cinco são os meios que recomenda a nossa
NEP (1) para a obtenção dos seus dois filhos _o biologismo
e o estadismo pedagógicos: ruptura do quadro familiar, laicidade,
gratuidade, obrigatoriedade e co-educação".
A campanha de Meireles, na imprensa, não se limitava a defender
o programa liberal da Escola Nova. Seguida por um desejo irrefreável
de combate aos medalhões e à politicagem reinante, Cecília,
sem dúvida, se fazia ouvir no Palácio do Catete. "O sr. Francisco
Campos", dizia ela, "parece que resolveu dar cada dia prova mais convincente
de que não entende mesmo nada, absolutamente, de pedagogia. Que
a sua pedagogia é uma pedagogia de ministro, isto é, politicagem...".
Qualquer atitude sectária valia para a poeta-jornalista um artigo
reflexivo. E assim o fez quando Manuel Bandeira, convidado a participar
do júri do Salão de Belas-Artes de 1931, recebeu severas
críticas dos pintores acadêmicos. "Há uma coisa que
parece ter desagradado: a inclusão de um poeta numa comissão
de belas-artes. Talvez, se fosse um poeta parnasiano, acadêmico,
cheio de lugares-comuns e de preocupações pronominais, o
descontentamento fosse menor. Trata-se, porém, de Manuel Bandeira."
Cansada da política
A "Página de Educação" encerra para Cecília
em janeiro de 1933, quando um cansaço tremendo com as manobras políticas
do governo e o estado da educação no Rio de Janeiro a tomam
por completo. A poeta chega mesmo a manifestar em sua correspondência
o "horror" que lhe causava o jornalismo em sua vida.
Entretanto, logo após sua despedida da "Página de Educação",
Cecília Meireles volta aos jornais. Desta vez para o carioca "A
Nação", no qual foi contratada com um senão: poderia
escrever sobre tudo, menos sobre política!
Durante toda a sua vida a poeta se dedica ao jornalismo. Na década
de 40 escreve para "A Manhã" uma coluna semanal s
Nos autoritários anos 30, a poeta lutou na imprensa pela democracia
e contra o ensino religioso
especial para a Folha
"Cecília, és tão forte e tão frágil.
Como a onda ao termo da luta. Mas a onda é água que afoga:
Tu, não, és enxuta." Manuel Bandeira (em "Improviso", no
livro Belo Belo) Cecília Meireles na década de 30 rompeu
com todos os tabus de uma sociedade ao defender uma política menos
casuísta e uma educação moderna.
Por meio de seus artigos sobre política, educação
e cultura, Cecília nos oferece uma outra face daquela que foi considerada
a musa diáfana, fluida e etérea da literatura brasileira.
Sinônimo de ilha e isolamento (para Sérgio Milliet), a escritora
cuja poesia não estava "inserida no drama coletivo de sua geração"
(para o crítico Mário da Silva Brito), em sua trajetória
intelectual a Cecília Meireles que deixou suas marcas foi uma defensora
da idéia universal de democracia, num período em que a incoerência
e as paixões pelo autoritarismo arrastaram jovens intelectuais.
Coleção de inimigos
A estréia de Cecília Meireles na redação de
um jornal se dá em 30, década marcada pela transição
de duas grandes guerras e, no Brasil, pela revolução de outubro.
Na imprensa pipocavam jornais de adesão ao novo regime. Assim surgiu
o "Diário de Notícias", em junho de 1930.
Mais do que um simples matutino, o jornal de Orlando Dantas e Nóbrega
da Cunha trazia uma seção diária dedicada à
educação e à política, a "Página de
Educação", cuja diretora era então a jovem poeta.
Jornalista liberal, partidária incansável das liberdades
individuais, em seus 960 artigos publicados na "Página", entre junho
de 1930 e janeiro de 1933, lutou pela instauração de uma
república democrática, bem diferente daquela regida pelo
populismo autoritário do regime que se descortinava após
a revolução.
Crítica ferrenha das atitudes de Vargas, a quem se referia como
"Sr. ditador", Cecília realizava em sua "Página" uma espécie
de jornalismo "enragé". Ao sustentar uma idéia de nação
menos ufanista, colecionou inimigos e desafetos de suas convicções
sobre liberdade, dentre eles o ministro da Educação Francisco
Campos e o crítico católico Alceu de Amoroso Lima, que anos
depois em seu livro de memórias, "Companheiros de Viagem", de 1971,
reconheceu na poeta "uma grande figura feminina do modernismo".
A truculência ideológica do período nos encarrega de
mostrar, no entanto, que as perseguições por motivos ideológicos,
políticos e, por que não, estéticos, acompanharam
a estreante Cecília ao longo dos anos 30. E parecem acompanhá-la
até os dias de hoje, devido a leitura equivocada que se faz de sua
obra e de um desconhecimento total sobre sua passagem pela política
nos anos seguintes à Revolução de 30 e, mais tarde,
durante o período do Estado Novo.
Partidária dos princípios da Escola Nova, a escola moderna
do filósofo norte-americano John Dewey, junto com Anísio
Teixeira, Fernando de Azevedo e Lourenço Filho, Cecília assistiu
à ascensão de um estado autoritário e de uma Igreja
Católica que tentava recuperar seu poder após 40 anos de
uma república laica, com ares positivistas.
A Revolução de 30 traz para a Igreja Católica a possibilidade
de reaver o poder _embora sua popularidade fosse incontestável.
Em 1931, por exemplo, Nossa Senhora Aparecida é consagrada padroeira
do Brasil em grande festejo popular. E em 12 de outubro, também
de 1931, a título de comemoração de um ano de revolução,
é inaugurada, no Rio de Janeiro, Distrito Federal, a imagem mor
da fidelidade católica de um regime: o Cristo Redentor.
O ataque ao ministro
A inclusão do ensino religioso nas escolas públicas, em 1931,
por um decreto de Vargas, despertou a poeta e seus companheiros para a
verdadeira face da Revolução de 30. Um movimento, diga-se
de passagem, totalmente apoiado pelo grupo em seus primórdios.
Na batalha contra o decreto do ensino religioso, Francisco Campos foi figura
central das críticas da poeta.
"Os senhores viram o caso do sr. Francisco Campos", escreve no artigo "A
Hora do Espetáculo", "veio precedido de uma fama extraordinária
de menino prodígio. A cada passo era citada a reforma de ensino
mineira, que nós sempre aplaudimos com restrições,
como a obra glorificada do sábio de Indaiá. A reforma já
trazia no seu bojo agourento, o fantasma do clericalismo. Que foi que fez
como ministro da Educação? Anunciou uma reforma que apareceu
aos pedaços, confusa, como arrancada a ferros do seu cérebro
reputado genial. Todos os jornais protestaram, protestaram os interessados,
um por um, e o ministro ficou indo e vindo entre o Rio e Minas, como se
não tivesse a responsabilidade formidável do cargo que lhe
deram e com o qual, infelizmente, não se contentou. E ainda arranjou
o decreto sobre o ensino religioso, como a última e desgraçada
manobra para se inutilizar como ministro da Educação...".
A laicidade da escola, bem como a co-educação dos sexos e
a manutenção de uma escola pública livre dos arbítrios
da família e da igreja eram as principais bandeiras de Cecília
na "Página". Princípios esses encarados com verdadeira ojeriza
pelo porta-voz da Igreja Católica, o crítico Alceu Amoroso
Lima. No artigo "Absolutismo Pedagógico", de março de 1932,
sobre o Manifesto da Educação lançado pelo grupo da
Escola Nova, Alceu afirma: "Cinco são os meios que recomenda a nossa
NEP (1) para a obtenção dos seus dois filhos _o biologismo
e o estadismo pedagógicos: ruptura do quadro familiar, laicidade,
gratuidade, obrigatoriedade e co-educação".
A campanha de Meireles, na imprensa, não se limitava a defender
o programa liberal da Escola Nova. Seguida por um desejo irrefreável
de combate aos medalhões e à politicagem reinante, Cecília,
sem dúvida, se fazia ouvir no Palácio do Catete. "O sr. Francisco
Campos", dizia ela, "parece que resolveu dar cada dia prova mais convincente
de que não entende mesmo nada, absolutamente, de pedagogia. Que
a sua pedagogia é uma pedagogia de ministro, isto é, politicagem...".
Qualquer atitude sectária valia para a poeta-jornalista um artigo
reflexivo. E assim o fez quando Manuel Bandeira, convidado a participar
do júri do Salão de Belas-Artes de 1931, recebeu severas
críticas dos pintores acadêmicos. "Há uma coisa que
parece ter desagradado: a inclusão de um poeta numa comissão
de belas-artes. Talvez, se fosse um poeta parnasiano, acadêmico,
cheio de lugares-comuns e de preocupações pronominais, o
descontentamento fosse menor. Trata-se, porém, de Manuel Bandeira."
Cansada da política
A "Página de Educação" encerra para Cecília
em janeiro de 1933, quando um cansaço tremendo com as manobras políticas
do governo e o estado da educação no Rio de Janeiro a tomam
por completo. A poeta chega mesmo a manifestar em sua correspondência
o "horror" que lhe causava o jornalismo em sua vida.
Entretanto, logo após sua despedida da "Página de Educação",
Cecília Meireles volta aos jornais. Desta vez para o carioca "A
Nação", no qual foi contratada com um senão: poderia
escrever sobre tudo, menos sobre política!
Durante toda a sua vida a poeta se dedica ao jornalismo. Na década
de 40 escreve para "A Manhã" uma coluna semanal s
773
1
Valéria Lamego
A musa contra o ditador
A musa contra o ditador
Nos autoritários anos 30, a poeta lutou na imprensa pela democracia
e contra o ensino religioso
especial para a Folha
"Cecília, és tão forte e tão frágil.
Como a onda ao termo da luta. Mas a onda é água que afoga:
Tu, não, és enxuta." Manuel Bandeira (em "Improviso", no
livro Belo Belo) Cecília Meireles na década de 30 rompeu
com todos os tabus de uma sociedade ao defender uma política menos
casuísta e uma educação moderna.
Por meio de seus artigos sobre política, educação
e cultura, Cecília nos oferece uma outra face daquela que foi considerada
a musa diáfana, fluida e etérea da literatura brasileira.
Sinônimo de ilha e isolamento (para Sérgio Milliet), a escritora
cuja poesia não estava "inserida no drama coletivo de sua geração"
(para o crítico Mário da Silva Brito), em sua trajetória
intelectual a Cecília Meireles que deixou suas marcas foi uma defensora
da idéia universal de democracia, num período em que a incoerência
e as paixões pelo autoritarismo arrastaram jovens intelectuais.
Coleção de inimigos
A estréia de Cecília Meireles na redação de
um jornal se dá em 30, década marcada pela transição
de duas grandes guerras e, no Brasil, pela revolução de outubro.
Na imprensa pipocavam jornais de adesão ao novo regime. Assim surgiu
o "Diário de Notícias", em junho de 1930.
Mais do que um simples matutino, o jornal de Orlando Dantas e Nóbrega
da Cunha trazia uma seção diária dedicada à
educação e à política, a "Página de
Educação", cuja diretora era então a jovem poeta.
Jornalista liberal, partidária incansável das liberdades
individuais, em seus 960 artigos publicados na "Página", entre junho
de 1930 e janeiro de 1933, lutou pela instauração de uma
república democrática, bem diferente daquela regida pelo
populismo autoritário do regime que se descortinava após
a revolução.
Crítica ferrenha das atitudes de Vargas, a quem se referia como
"Sr. ditador", Cecília realizava em sua "Página" uma espécie
de jornalismo "enragé". Ao sustentar uma idéia de nação
menos ufanista, colecionou inimigos e desafetos de suas convicções
sobre liberdade, dentre eles o ministro da Educação Francisco
Campos e o crítico católico Alceu de Amoroso Lima, que anos
depois em seu livro de memórias, "Companheiros de Viagem", de 1971,
reconheceu na poeta "uma grande figura feminina do modernismo".
A truculência ideológica do período nos encarrega de
mostrar, no entanto, que as perseguições por motivos ideológicos,
políticos e, por que não, estéticos, acompanharam
a estreante Cecília ao longo dos anos 30. E parecem acompanhá-la
até os dias de hoje, devido a leitura equivocada que se faz de sua
obra e de um desconhecimento total sobre sua passagem pela política
nos anos seguintes à Revolução de 30 e, mais tarde,
durante o período do Estado Novo.
Partidária dos princípios da Escola Nova, a escola moderna
do filósofo norte-americano John Dewey, junto com Anísio
Teixeira, Fernando de Azevedo e Lourenço Filho, Cecília assistiu
à ascensão de um estado autoritário e de uma Igreja
Católica que tentava recuperar seu poder após 40 anos de
uma república laica, com ares positivistas.
A Revolução de 30 traz para a Igreja Católica a possibilidade
de reaver o poder _embora sua popularidade fosse incontestável.
Em 1931, por exemplo, Nossa Senhora Aparecida é consagrada padroeira
do Brasil em grande festejo popular. E em 12 de outubro, também
de 1931, a título de comemoração de um ano de revolução,
é inaugurada, no Rio de Janeiro, Distrito Federal, a imagem mor
da fidelidade católica de um regime: o Cristo Redentor.
O ataque ao ministro
A inclusão do ensino religioso nas escolas públicas, em 1931,
por um decreto de Vargas, despertou a poeta e seus companheiros para a
verdadeira face da Revolução de 30. Um movimento, diga-se
de passagem, totalmente apoiado pelo grupo em seus primórdios.
Na batalha contra o decreto do ensino religioso, Francisco Campos foi figura
central das críticas da poeta.
"Os senhores viram o caso do sr. Francisco Campos", escreve no artigo "A
Hora do Espetáculo", "veio precedido de uma fama extraordinária
de menino prodígio. A cada passo era citada a reforma de ensino
mineira, que nós sempre aplaudimos com restrições,
como a obra glorificada do sábio de Indaiá. A reforma já
trazia no seu bojo agourento, o fantasma do clericalismo. Que foi que fez
como ministro da Educação? Anunciou uma reforma que apareceu
aos pedaços, confusa, como arrancada a ferros do seu cérebro
reputado genial. Todos os jornais protestaram, protestaram os interessados,
um por um, e o ministro ficou indo e vindo entre o Rio e Minas, como se
não tivesse a responsabilidade formidável do cargo que lhe
deram e com o qual, infelizmente, não se contentou. E ainda arranjou
o decreto sobre o ensino religioso, como a última e desgraçada
manobra para se inutilizar como ministro da Educação...".
A laicidade da escola, bem como a co-educação dos sexos e
a manutenção de uma escola pública livre dos arbítrios
da família e da igreja eram as principais bandeiras de Cecília
na "Página". Princípios esses encarados com verdadeira ojeriza
pelo porta-voz da Igreja Católica, o crítico Alceu Amoroso
Lima. No artigo "Absolutismo Pedagógico", de março de 1932,
sobre o Manifesto da Educação lançado pelo grupo da
Escola Nova, Alceu afirma: "Cinco são os meios que recomenda a nossa
NEP (1) para a obtenção dos seus dois filhos _o biologismo
e o estadismo pedagógicos: ruptura do quadro familiar, laicidade,
gratuidade, obrigatoriedade e co-educação".
A campanha de Meireles, na imprensa, não se limitava a defender
o programa liberal da Escola Nova. Seguida por um desejo irrefreável
de combate aos medalhões e à politicagem reinante, Cecília,
sem dúvida, se fazia ouvir no Palácio do Catete. "O sr. Francisco
Campos", dizia ela, "parece que resolveu dar cada dia prova mais convincente
de que não entende mesmo nada, absolutamente, de pedagogia. Que
a sua pedagogia é uma pedagogia de ministro, isto é, politicagem...".
Qualquer atitude sectária valia para a poeta-jornalista um artigo
reflexivo. E assim o fez quando Manuel Bandeira, convidado a participar
do júri do Salão de Belas-Artes de 1931, recebeu severas
críticas dos pintores acadêmicos. "Há uma coisa que
parece ter desagradado: a inclusão de um poeta numa comissão
de belas-artes. Talvez, se fosse um poeta parnasiano, acadêmico,
cheio de lugares-comuns e de preocupações pronominais, o
descontentamento fosse menor. Trata-se, porém, de Manuel Bandeira."
Cansada da política
A "Página de Educação" encerra para Cecília
em janeiro de 1933, quando um cansaço tremendo com as manobras políticas
do governo e o estado da educação no Rio de Janeiro a tomam
por completo. A poeta chega mesmo a manifestar em sua correspondência
o "horror" que lhe causava o jornalismo em sua vida.
Entretanto, logo após sua despedida da "Página de Educação",
Cecília Meireles volta aos jornais. Desta vez para o carioca "A
Nação", no qual foi contratada com um senão: poderia
escrever sobre tudo, menos sobre política!
Durante toda a sua vida a poeta se dedica ao jornalismo. Na década
de 40 escreve para "A Manhã" uma coluna semanal s
Nos autoritários anos 30, a poeta lutou na imprensa pela democracia
e contra o ensino religioso
especial para a Folha
"Cecília, és tão forte e tão frágil.
Como a onda ao termo da luta. Mas a onda é água que afoga:
Tu, não, és enxuta." Manuel Bandeira (em "Improviso", no
livro Belo Belo) Cecília Meireles na década de 30 rompeu
com todos os tabus de uma sociedade ao defender uma política menos
casuísta e uma educação moderna.
Por meio de seus artigos sobre política, educação
e cultura, Cecília nos oferece uma outra face daquela que foi considerada
a musa diáfana, fluida e etérea da literatura brasileira.
Sinônimo de ilha e isolamento (para Sérgio Milliet), a escritora
cuja poesia não estava "inserida no drama coletivo de sua geração"
(para o crítico Mário da Silva Brito), em sua trajetória
intelectual a Cecília Meireles que deixou suas marcas foi uma defensora
da idéia universal de democracia, num período em que a incoerência
e as paixões pelo autoritarismo arrastaram jovens intelectuais.
Coleção de inimigos
A estréia de Cecília Meireles na redação de
um jornal se dá em 30, década marcada pela transição
de duas grandes guerras e, no Brasil, pela revolução de outubro.
Na imprensa pipocavam jornais de adesão ao novo regime. Assim surgiu
o "Diário de Notícias", em junho de 1930.
Mais do que um simples matutino, o jornal de Orlando Dantas e Nóbrega
da Cunha trazia uma seção diária dedicada à
educação e à política, a "Página de
Educação", cuja diretora era então a jovem poeta.
Jornalista liberal, partidária incansável das liberdades
individuais, em seus 960 artigos publicados na "Página", entre junho
de 1930 e janeiro de 1933, lutou pela instauração de uma
república democrática, bem diferente daquela regida pelo
populismo autoritário do regime que se descortinava após
a revolução.
Crítica ferrenha das atitudes de Vargas, a quem se referia como
"Sr. ditador", Cecília realizava em sua "Página" uma espécie
de jornalismo "enragé". Ao sustentar uma idéia de nação
menos ufanista, colecionou inimigos e desafetos de suas convicções
sobre liberdade, dentre eles o ministro da Educação Francisco
Campos e o crítico católico Alceu de Amoroso Lima, que anos
depois em seu livro de memórias, "Companheiros de Viagem", de 1971,
reconheceu na poeta "uma grande figura feminina do modernismo".
A truculência ideológica do período nos encarrega de
mostrar, no entanto, que as perseguições por motivos ideológicos,
políticos e, por que não, estéticos, acompanharam
a estreante Cecília ao longo dos anos 30. E parecem acompanhá-la
até os dias de hoje, devido a leitura equivocada que se faz de sua
obra e de um desconhecimento total sobre sua passagem pela política
nos anos seguintes à Revolução de 30 e, mais tarde,
durante o período do Estado Novo.
Partidária dos princípios da Escola Nova, a escola moderna
do filósofo norte-americano John Dewey, junto com Anísio
Teixeira, Fernando de Azevedo e Lourenço Filho, Cecília assistiu
à ascensão de um estado autoritário e de uma Igreja
Católica que tentava recuperar seu poder após 40 anos de
uma república laica, com ares positivistas.
A Revolução de 30 traz para a Igreja Católica a possibilidade
de reaver o poder _embora sua popularidade fosse incontestável.
Em 1931, por exemplo, Nossa Senhora Aparecida é consagrada padroeira
do Brasil em grande festejo popular. E em 12 de outubro, também
de 1931, a título de comemoração de um ano de revolução,
é inaugurada, no Rio de Janeiro, Distrito Federal, a imagem mor
da fidelidade católica de um regime: o Cristo Redentor.
O ataque ao ministro
A inclusão do ensino religioso nas escolas públicas, em 1931,
por um decreto de Vargas, despertou a poeta e seus companheiros para a
verdadeira face da Revolução de 30. Um movimento, diga-se
de passagem, totalmente apoiado pelo grupo em seus primórdios.
Na batalha contra o decreto do ensino religioso, Francisco Campos foi figura
central das críticas da poeta.
"Os senhores viram o caso do sr. Francisco Campos", escreve no artigo "A
Hora do Espetáculo", "veio precedido de uma fama extraordinária
de menino prodígio. A cada passo era citada a reforma de ensino
mineira, que nós sempre aplaudimos com restrições,
como a obra glorificada do sábio de Indaiá. A reforma já
trazia no seu bojo agourento, o fantasma do clericalismo. Que foi que fez
como ministro da Educação? Anunciou uma reforma que apareceu
aos pedaços, confusa, como arrancada a ferros do seu cérebro
reputado genial. Todos os jornais protestaram, protestaram os interessados,
um por um, e o ministro ficou indo e vindo entre o Rio e Minas, como se
não tivesse a responsabilidade formidável do cargo que lhe
deram e com o qual, infelizmente, não se contentou. E ainda arranjou
o decreto sobre o ensino religioso, como a última e desgraçada
manobra para se inutilizar como ministro da Educação...".
A laicidade da escola, bem como a co-educação dos sexos e
a manutenção de uma escola pública livre dos arbítrios
da família e da igreja eram as principais bandeiras de Cecília
na "Página". Princípios esses encarados com verdadeira ojeriza
pelo porta-voz da Igreja Católica, o crítico Alceu Amoroso
Lima. No artigo "Absolutismo Pedagógico", de março de 1932,
sobre o Manifesto da Educação lançado pelo grupo da
Escola Nova, Alceu afirma: "Cinco são os meios que recomenda a nossa
NEP (1) para a obtenção dos seus dois filhos _o biologismo
e o estadismo pedagógicos: ruptura do quadro familiar, laicidade,
gratuidade, obrigatoriedade e co-educação".
A campanha de Meireles, na imprensa, não se limitava a defender
o programa liberal da Escola Nova. Seguida por um desejo irrefreável
de combate aos medalhões e à politicagem reinante, Cecília,
sem dúvida, se fazia ouvir no Palácio do Catete. "O sr. Francisco
Campos", dizia ela, "parece que resolveu dar cada dia prova mais convincente
de que não entende mesmo nada, absolutamente, de pedagogia. Que
a sua pedagogia é uma pedagogia de ministro, isto é, politicagem...".
Qualquer atitude sectária valia para a poeta-jornalista um artigo
reflexivo. E assim o fez quando Manuel Bandeira, convidado a participar
do júri do Salão de Belas-Artes de 1931, recebeu severas
críticas dos pintores acadêmicos. "Há uma coisa que
parece ter desagradado: a inclusão de um poeta numa comissão
de belas-artes. Talvez, se fosse um poeta parnasiano, acadêmico,
cheio de lugares-comuns e de preocupações pronominais, o
descontentamento fosse menor. Trata-se, porém, de Manuel Bandeira."
Cansada da política
A "Página de Educação" encerra para Cecília
em janeiro de 1933, quando um cansaço tremendo com as manobras políticas
do governo e o estado da educação no Rio de Janeiro a tomam
por completo. A poeta chega mesmo a manifestar em sua correspondência
o "horror" que lhe causava o jornalismo em sua vida.
Entretanto, logo após sua despedida da "Página de Educação",
Cecília Meireles volta aos jornais. Desta vez para o carioca "A
Nação", no qual foi contratada com um senão: poderia
escrever sobre tudo, menos sobre política!
Durante toda a sua vida a poeta se dedica ao jornalismo. Na década
de 40 escreve para "A Manhã" uma coluna semanal s
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