Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Matilde Campilho
Rio de Janeiro — Lisboa
um dia você
adora meus óculos
adoro os teus óculos
no dia seguinte
não quero que venhas na fazenda
três dias antes
você ia adorar este lugar
você quer vir até à fazenda?
um dia eu rasgo
o tecido celular do rosto
realizo um sorriso constante
que atravessa o morro
o ponto mágico do morro
rasgão alegre que fulmina
o veio mínimo da folha
de amendoeira
e pelo feixe de luz tropiquente
vai parar na cara de João
vendedor de suco no leblon
em ricochete João grita açaí!
qualquer dia eu vou e chego
no outro dia
a cidade se aborrece
desdignificada pela
gigante roleta
que se chama medo
o urubu fica empoleirado
na trave enferrujada
daquilo que já foi suporte
ao cartaz que anunciava
o novo mundo das piscinas
fosforescentes
o pássaro suspenso
olhando a via rápida
e catando caca
debaixo da unha
temendo o gira girar
da pequena roda
que circula sorte e azar
um dia você
escreve para seus pais
falando sobre o amor
quarenta dias depois
teus pais te escrevem
falando sobre redes de pesca
e o perigo das redes de pesca
um dia você me envia uma carta
depois a outra
o rasgão explode
recordando ainda outra carta
de alguns meses antes
o postal eterno que dizia
still crazy (after all
these years)
faço voto de silêncio
mas na sacralização
horária das avenidas
eu penso que você
sua mãe e seu pai
conversam muito
sobre peixes
e que isso mantém quieta
a roleta negra
e que isso mantém aparada
a unha do urubu
e que isso faz homenagem
a João e à fruta espessa
que brilha vermelha
em cada copo de minha cidade
um dia você diz que me a****
eu a****-te
no dia seguinte
a amendoeira se expande
e floresce cinco folhas mais
nesse dia reparo
que estamos contribuindo
você e eu
para o florestamento da cidade
de duas cidades
faço voto de silêncio
mas na sacralização horária
da respiração eu penso
que apesar da sala de casino
abrigo da gigante roleta do medo
apesar dos golpes de gmt -3
apesar da fita de seda que fica
ondulando sua medida de 7 800 km
estamos dando utilidade ao amor
alargando os braços das amendoeiras
alargando os braços dos jacarandás
partindo as inúteis linhas de fronteira
e fazendo do mundo
a gigante floresta
adora meus óculos
adoro os teus óculos
no dia seguinte
não quero que venhas na fazenda
três dias antes
você ia adorar este lugar
você quer vir até à fazenda?
um dia eu rasgo
o tecido celular do rosto
realizo um sorriso constante
que atravessa o morro
o ponto mágico do morro
rasgão alegre que fulmina
o veio mínimo da folha
de amendoeira
e pelo feixe de luz tropiquente
vai parar na cara de João
vendedor de suco no leblon
em ricochete João grita açaí!
qualquer dia eu vou e chego
no outro dia
a cidade se aborrece
desdignificada pela
gigante roleta
que se chama medo
o urubu fica empoleirado
na trave enferrujada
daquilo que já foi suporte
ao cartaz que anunciava
o novo mundo das piscinas
fosforescentes
o pássaro suspenso
olhando a via rápida
e catando caca
debaixo da unha
temendo o gira girar
da pequena roda
que circula sorte e azar
um dia você
escreve para seus pais
falando sobre o amor
quarenta dias depois
teus pais te escrevem
falando sobre redes de pesca
e o perigo das redes de pesca
um dia você me envia uma carta
depois a outra
o rasgão explode
recordando ainda outra carta
de alguns meses antes
o postal eterno que dizia
still crazy (after all
these years)
faço voto de silêncio
mas na sacralização
horária das avenidas
eu penso que você
sua mãe e seu pai
conversam muito
sobre peixes
e que isso mantém quieta
a roleta negra
e que isso mantém aparada
a unha do urubu
e que isso faz homenagem
a João e à fruta espessa
que brilha vermelha
em cada copo de minha cidade
um dia você diz que me a****
eu a****-te
no dia seguinte
a amendoeira se expande
e floresce cinco folhas mais
nesse dia reparo
que estamos contribuindo
você e eu
para o florestamento da cidade
de duas cidades
faço voto de silêncio
mas na sacralização horária
da respiração eu penso
que apesar da sala de casino
abrigo da gigante roleta do medo
apesar dos golpes de gmt -3
apesar da fita de seda que fica
ondulando sua medida de 7 800 km
estamos dando utilidade ao amor
alargando os braços das amendoeiras
alargando os braços dos jacarandás
partindo as inúteis linhas de fronteira
e fazendo do mundo
a gigante floresta
1 083
Matilde Campilho
Rio de Janeiro — Lisboa
um dia você
adora meus óculos
adoro os teus óculos
no dia seguinte
não quero que venhas na fazenda
três dias antes
você ia adorar este lugar
você quer vir até à fazenda?
um dia eu rasgo
o tecido celular do rosto
realizo um sorriso constante
que atravessa o morro
o ponto mágico do morro
rasgão alegre que fulmina
o veio mínimo da folha
de amendoeira
e pelo feixe de luz tropiquente
vai parar na cara de João
vendedor de suco no leblon
em ricochete João grita açaí!
qualquer dia eu vou e chego
no outro dia
a cidade se aborrece
desdignificada pela
gigante roleta
que se chama medo
o urubu fica empoleirado
na trave enferrujada
daquilo que já foi suporte
ao cartaz que anunciava
o novo mundo das piscinas
fosforescentes
o pássaro suspenso
olhando a via rápida
e catando caca
debaixo da unha
temendo o gira girar
da pequena roda
que circula sorte e azar
um dia você
escreve para seus pais
falando sobre o amor
quarenta dias depois
teus pais te escrevem
falando sobre redes de pesca
e o perigo das redes de pesca
um dia você me envia uma carta
depois a outra
o rasgão explode
recordando ainda outra carta
de alguns meses antes
o postal eterno que dizia
still crazy (after all
these years)
faço voto de silêncio
mas na sacralização
horária das avenidas
eu penso que você
sua mãe e seu pai
conversam muito
sobre peixes
e que isso mantém quieta
a roleta negra
e que isso mantém aparada
a unha do urubu
e que isso faz homenagem
a João e à fruta espessa
que brilha vermelha
em cada copo de minha cidade
um dia você diz que me a****
eu a****-te
no dia seguinte
a amendoeira se expande
e floresce cinco folhas mais
nesse dia reparo
que estamos contribuindo
você e eu
para o florestamento da cidade
de duas cidades
faço voto de silêncio
mas na sacralização horária
da respiração eu penso
que apesar da sala de casino
abrigo da gigante roleta do medo
apesar dos golpes de gmt -3
apesar da fita de seda que fica
ondulando sua medida de 7 800 km
estamos dando utilidade ao amor
alargando os braços das amendoeiras
alargando os braços dos jacarandás
partindo as inúteis linhas de fronteira
e fazendo do mundo
a gigante floresta
adora meus óculos
adoro os teus óculos
no dia seguinte
não quero que venhas na fazenda
três dias antes
você ia adorar este lugar
você quer vir até à fazenda?
um dia eu rasgo
o tecido celular do rosto
realizo um sorriso constante
que atravessa o morro
o ponto mágico do morro
rasgão alegre que fulmina
o veio mínimo da folha
de amendoeira
e pelo feixe de luz tropiquente
vai parar na cara de João
vendedor de suco no leblon
em ricochete João grita açaí!
qualquer dia eu vou e chego
no outro dia
a cidade se aborrece
desdignificada pela
gigante roleta
que se chama medo
o urubu fica empoleirado
na trave enferrujada
daquilo que já foi suporte
ao cartaz que anunciava
o novo mundo das piscinas
fosforescentes
o pássaro suspenso
olhando a via rápida
e catando caca
debaixo da unha
temendo o gira girar
da pequena roda
que circula sorte e azar
um dia você
escreve para seus pais
falando sobre o amor
quarenta dias depois
teus pais te escrevem
falando sobre redes de pesca
e o perigo das redes de pesca
um dia você me envia uma carta
depois a outra
o rasgão explode
recordando ainda outra carta
de alguns meses antes
o postal eterno que dizia
still crazy (after all
these years)
faço voto de silêncio
mas na sacralização
horária das avenidas
eu penso que você
sua mãe e seu pai
conversam muito
sobre peixes
e que isso mantém quieta
a roleta negra
e que isso mantém aparada
a unha do urubu
e que isso faz homenagem
a João e à fruta espessa
que brilha vermelha
em cada copo de minha cidade
um dia você diz que me a****
eu a****-te
no dia seguinte
a amendoeira se expande
e floresce cinco folhas mais
nesse dia reparo
que estamos contribuindo
você e eu
para o florestamento da cidade
de duas cidades
faço voto de silêncio
mas na sacralização horária
da respiração eu penso
que apesar da sala de casino
abrigo da gigante roleta do medo
apesar dos golpes de gmt -3
apesar da fita de seda que fica
ondulando sua medida de 7 800 km
estamos dando utilidade ao amor
alargando os braços das amendoeiras
alargando os braços dos jacarandás
partindo as inúteis linhas de fronteira
e fazendo do mundo
a gigante floresta
1 083
Pero da Ponte
O Que Valença Conquereu
O que Valença conquereu
por sempre mais valenç'haver,
Valença se quer manteer
e sempr'em valença entendeu.
E de Valença é senhor,
pois el mantém prez e loor
e prês Valença por valer.
E per valença sempre obrou
por haver Valença, de pram;
e por valença lhi diram
que bem Valença gaanhou.
E o bom rei Valença tem
que, pois prez e valor mantém,
rei de Valença lhi diram.
Ca Deus lhi deu esforç'e sem
por sobre Valença reinar,
e lhi fez Valença acabar
com quanta valença convém.
El rei que Valença conquis,
que de valença est bem fiz
e per valença quer obrar,
rei de razom, rei de bom sem,
rei de prez, rei de todo bem
est, e rei d'Aragon, de pram!
por sempre mais valenç'haver,
Valença se quer manteer
e sempr'em valença entendeu.
E de Valença é senhor,
pois el mantém prez e loor
e prês Valença por valer.
E per valença sempre obrou
por haver Valença, de pram;
e por valença lhi diram
que bem Valença gaanhou.
E o bom rei Valença tem
que, pois prez e valor mantém,
rei de Valença lhi diram.
Ca Deus lhi deu esforç'e sem
por sobre Valença reinar,
e lhi fez Valença acabar
com quanta valença convém.
El rei que Valença conquis,
que de valença est bem fiz
e per valença quer obrar,
rei de razom, rei de bom sem,
rei de prez, rei de todo bem
est, e rei d'Aragon, de pram!
606
Pero da Ponte
O Que Valença Conquereu
O que Valença conquereu
por sempre mais valenç'haver,
Valença se quer manteer
e sempr'em valença entendeu.
E de Valença é senhor,
pois el mantém prez e loor
e prês Valença por valer.
E per valença sempre obrou
por haver Valença, de pram;
e por valença lhi diram
que bem Valença gaanhou.
E o bom rei Valença tem
que, pois prez e valor mantém,
rei de Valença lhi diram.
Ca Deus lhi deu esforç'e sem
por sobre Valença reinar,
e lhi fez Valença acabar
com quanta valença convém.
El rei que Valença conquis,
que de valença est bem fiz
e per valença quer obrar,
rei de razom, rei de bom sem,
rei de prez, rei de todo bem
est, e rei d'Aragon, de pram!
por sempre mais valenç'haver,
Valença se quer manteer
e sempr'em valença entendeu.
E de Valença é senhor,
pois el mantém prez e loor
e prês Valença por valer.
E per valença sempre obrou
por haver Valença, de pram;
e por valença lhi diram
que bem Valença gaanhou.
E o bom rei Valença tem
que, pois prez e valor mantém,
rei de Valença lhi diram.
Ca Deus lhi deu esforç'e sem
por sobre Valença reinar,
e lhi fez Valença acabar
com quanta valença convém.
El rei que Valença conquis,
que de valença est bem fiz
e per valença quer obrar,
rei de razom, rei de bom sem,
rei de prez, rei de todo bem
est, e rei d'Aragon, de pram!
606
Pero da Ponte
O Que Valença Conquereu
O que Valença conquereu
por sempre mais valenç'haver,
Valença se quer manteer
e sempr'em valença entendeu.
E de Valença é senhor,
pois el mantém prez e loor
e prês Valença por valer.
E per valença sempre obrou
por haver Valença, de pram;
e por valença lhi diram
que bem Valença gaanhou.
E o bom rei Valença tem
que, pois prez e valor mantém,
rei de Valença lhi diram.
Ca Deus lhi deu esforç'e sem
por sobre Valença reinar,
e lhi fez Valença acabar
com quanta valença convém.
El rei que Valença conquis,
que de valença est bem fiz
e per valença quer obrar,
rei de razom, rei de bom sem,
rei de prez, rei de todo bem
est, e rei d'Aragon, de pram!
por sempre mais valenç'haver,
Valença se quer manteer
e sempr'em valença entendeu.
E de Valença é senhor,
pois el mantém prez e loor
e prês Valença por valer.
E per valença sempre obrou
por haver Valença, de pram;
e por valença lhi diram
que bem Valença gaanhou.
E o bom rei Valença tem
que, pois prez e valor mantém,
rei de Valença lhi diram.
Ca Deus lhi deu esforç'e sem
por sobre Valença reinar,
e lhi fez Valença acabar
com quanta valença convém.
El rei que Valença conquis,
que de valença est bem fiz
e per valença quer obrar,
rei de razom, rei de bom sem,
rei de prez, rei de todo bem
est, e rei d'Aragon, de pram!
606
Pero da Ponte
Os de Burgos Som Coitados
Os de Burgos som coitados
- que perderom Pedr'Agudo -
de quem porrám por cornudo;
e disserom os jurados:
- Seja-o Pedro Bodinho,
que est'é nosso vezinho
tam bem come Pedr'Agudo.
E pois que [é d']o concelho
dos cornos apoderado,
quem lhe sair de mandado
fará-lh'el mao trebelho;
ca el, mentr'i for cornudo,
querrá i seer temudo
e da vil'apoderado.
E vedes em que gram brio
el - qui-lo Deus! - há chegado:
por seer cornud'alçado
em tamanho poderio,
home de seu padre filho;
por tanto me maravilho
d'a esto seer chegado.
E creede que em justiça
pod'i mais andá'la terra,
ca se nom fará i guerra
nem mui maa cobiiça;
ca el rogo nunca prende
de cornudos, mais entende
mui bem os foros da terra.
- que perderom Pedr'Agudo -
de quem porrám por cornudo;
e disserom os jurados:
- Seja-o Pedro Bodinho,
que est'é nosso vezinho
tam bem come Pedr'Agudo.
E pois que [é d']o concelho
dos cornos apoderado,
quem lhe sair de mandado
fará-lh'el mao trebelho;
ca el, mentr'i for cornudo,
querrá i seer temudo
e da vil'apoderado.
E vedes em que gram brio
el - qui-lo Deus! - há chegado:
por seer cornud'alçado
em tamanho poderio,
home de seu padre filho;
por tanto me maravilho
d'a esto seer chegado.
E creede que em justiça
pod'i mais andá'la terra,
ca se nom fará i guerra
nem mui maa cobiiça;
ca el rogo nunca prende
de cornudos, mais entende
mui bem os foros da terra.
495
Pero da Ponte
Quem Seu Parente Vendia
Quem seu parente vendia,
todo por fazer tesouro,
se xe foss'em corredura
e podesse prender mouro,
tenho que x'o venderia
quem seu parente vendia.
Quem seu parente vendia,
bem fidalg'e seu sobrinho,
se tevess'em Santiago
bõa adega de vinho,
tenho que x'o venderia,
quem seu parente vendia.
Quem seu parente vendia,
polo poerem no pao,
se pam sobrepost'houvesse,
e lhi chegass'ano mao,
tenho que x'o venderia,
quem seu parente vendia.
Quem seu parente vendia,
mui fidalg'e mui loução,
se cavalo sop'houvesse
e lho comprassem por são,
tenho que x'o venderia,
quem seu parente vendia.
todo por fazer tesouro,
se xe foss'em corredura
e podesse prender mouro,
tenho que x'o venderia
quem seu parente vendia.
Quem seu parente vendia,
bem fidalg'e seu sobrinho,
se tevess'em Santiago
bõa adega de vinho,
tenho que x'o venderia,
quem seu parente vendia.
Quem seu parente vendia,
polo poerem no pao,
se pam sobrepost'houvesse,
e lhi chegass'ano mao,
tenho que x'o venderia,
quem seu parente vendia.
Quem seu parente vendia,
mui fidalg'e mui loução,
se cavalo sop'houvesse
e lho comprassem por são,
tenho que x'o venderia,
quem seu parente vendia.
535
Pero da Ponte
Martim de Cornes Vi Queixar
Martim de Cornes vi queixar
de sa molher, a gram poder,
que lhi faz i, a seu cuidar,
torto; mais eu foi-lhi dizer:
- Falar quer'eu i, se vos praz:
Demo lev'o torto que faz
a gram puta desse foder.
[...]
Mais, se vós sodes i de mal sem,
de que lh'apoedes mal prez?
Ca salvar-se pod'ela bem
que nẽum torto nom vos fez;
nem torto nom faz o taful,
quando os dados acha algur,
de os jogar [i] ũa vez.
de sa molher, a gram poder,
que lhi faz i, a seu cuidar,
torto; mais eu foi-lhi dizer:
- Falar quer'eu i, se vos praz:
Demo lev'o torto que faz
a gram puta desse foder.
[...]
Mais, se vós sodes i de mal sem,
de que lh'apoedes mal prez?
Ca salvar-se pod'ela bem
que nẽum torto nom vos fez;
nem torto nom faz o taful,
quando os dados acha algur,
de os jogar [i] ũa vez.
539
Pero da Ponte
Pero da Pont', E[M] Um Vosso Cantar
- Pero da Pont', e[m] um vosso cantar,
que vós ogano fezestes d'amor,
foste-vos i escudeiro chamar.
E dized'ora tant', ai trobador:
pois vos escudeiro chamastes i,
porque vos queixades ora de mi,
por meus panos, que vos nom quero dar?
- Afons'Anes, se vos en pesar,
tornade-vos a vosso fiador;
e de m'eu i escudeiro chamar,
e por que nom, pois escudeiro for?
E se peç'algo, vedes quant'há i:
nom podemos todos guarir assi
come vós, que guarides per lidar.
- Pero da Ponte, quem a mi veer
desta razom ou doutra cometer,
querrei-vo-lh'eu responder, se souber,
como trobador deve responder:
em nossa terra, se Deus me perdom,
a tod'o 'scudeiro que pede dom
as mais das gentes lhe chamam segrel.
- Afons'Anes, est'é meu mester,
e per esto dev'eu a guarecer
e per servir donas quanto poder;
mais ũa rem vos quero [eu] dizer:
em pedir algo nom dig'eu de nom,
a quem entendo que faço razom,
e alá lide quem lidar souber.
- Pero da Ponte, se Deus vos perdom,
nom faledes mais em armas, ca nom
vos está bem, esto sabe quem quer.
- Afons'Anes, filharei eu dom,
e lidade vós, ai cor de leom,
e faça quis cada quem seu mester.
que vós ogano fezestes d'amor,
foste-vos i escudeiro chamar.
E dized'ora tant', ai trobador:
pois vos escudeiro chamastes i,
porque vos queixades ora de mi,
por meus panos, que vos nom quero dar?
- Afons'Anes, se vos en pesar,
tornade-vos a vosso fiador;
e de m'eu i escudeiro chamar,
e por que nom, pois escudeiro for?
E se peç'algo, vedes quant'há i:
nom podemos todos guarir assi
come vós, que guarides per lidar.
- Pero da Ponte, quem a mi veer
desta razom ou doutra cometer,
querrei-vo-lh'eu responder, se souber,
como trobador deve responder:
em nossa terra, se Deus me perdom,
a tod'o 'scudeiro que pede dom
as mais das gentes lhe chamam segrel.
- Afons'Anes, est'é meu mester,
e per esto dev'eu a guarecer
e per servir donas quanto poder;
mais ũa rem vos quero [eu] dizer:
em pedir algo nom dig'eu de nom,
a quem entendo que faço razom,
e alá lide quem lidar souber.
- Pero da Ponte, se Deus vos perdom,
nom faledes mais em armas, ca nom
vos está bem, esto sabe quem quer.
- Afons'Anes, filharei eu dom,
e lidade vós, ai cor de leom,
e faça quis cada quem seu mester.
751
Pero da Ponte
Aos Mouros Que Aqui Som
Aos mouros que aqui som
Dom Álvaro rem nom lhis dá,
mais manda-lhis filhar raçom
da cachaça, e dar-lhis [nom] há
do al que na cozinh'houver;
mais o mouro que mi crever
a cachaça nom filhará.
Mais, se lha derem, log'entom
aos cães a deitará,
e direi-vos por qual razom:
ca nunca xe lhi cozerá;
e a cachaça nom há mester,
pois que se [lhi] nom cozer
a quanta lenha no mund'há.
Nen'os mouros, a meu cuidar,
poila virem, non'a querrám;
mais, se a quiserem filhar,
direi-vos como lhi farám:
i-la-am logo remolhar,
ca assi soem adubar
a cachaça, quando lha dam.
Dom Álvaro rem nom lhis dá,
mais manda-lhis filhar raçom
da cachaça, e dar-lhis [nom] há
do al que na cozinh'houver;
mais o mouro que mi crever
a cachaça nom filhará.
Mais, se lha derem, log'entom
aos cães a deitará,
e direi-vos por qual razom:
ca nunca xe lhi cozerá;
e a cachaça nom há mester,
pois que se [lhi] nom cozer
a quanta lenha no mund'há.
Nen'os mouros, a meu cuidar,
poila virem, non'a querrám;
mais, se a quiserem filhar,
direi-vos como lhi farám:
i-la-am logo remolhar,
ca assi soem adubar
a cachaça, quando lha dam.
1 019
Matilde Campilho
Explicação do Sopro
Século XXI. Certos homens se fecham em quartos de hotel porque nos lugares anônimos é muito possível ficar encostado numa parede branca vendo a água correr no chão do chu veiro. Dois rapazinhos pegam as bicicletas e pedalam quatro centos e vinte quilômetros até achar a costa. Ao alcançá-la, tiram suas roupas e não mergulham: só encostam a zona lombar na areia e repetem até ao infinito a ladainha da tabuada do sete. Um bombeiro termina seu turno de vinte e quatro horas e entra no boteco junto à estátua de São Tarso. Pede um conjunto de sete pães de queijo e nos espaços entre cada um dos pães ele fica procurando por algum pedaço da túnica de Deus. O motorista do ônibus sabe perfeitamente que dentro da mala da senhora de rosto limpo tem uma caixa de joias que contém uma caixa de medicamentos que contém uma caixa de anel que contém uma bala. O tocador de kalimba está muito consciente de que hoje o mantra nasce da mistura de um cântico de procissão com o latir do cachorro, e está consciente também de que todo o desenho acha sua acústica perfeita nas pequenas eremitas. Aquele que pinta a natureza, o ladrão de ossos, sabe que deve empreender seu trabalho em posição horizontal, de corpo muito junto ao chão. E se por acaso o observarmos no processo por mais de sete minutos, podemos reparar que sua caixa torácica constantemente toca a tela, sempre na mesma cadência. A moça de vinte e sete anos ainda está sentada ao toucador, de frente para o próprio rosto, absolutamente indecisa sobre qual dos objetos escolher. Entre o batom alaranjado, a carabina calibre 12, o pó de arroz e o crucifixo em miniatura vai uma distância de dois passos a galope.
1 358
Pero da Ponte
Marinha López, Oimais, a Seu Grado
Marinha López, oimais, a seu grado,
se quiser Deus, será bõa molher;
e se algum feito fez desaguisado,
non'o fará jamais, se Deus quiser;
e direi-vos como se quer guardar:
quer-s'ir ali em cas Dom Lop'andar,
u lhi semelha logar apartado.
E bem creede que est apartado
pera ela, que folia nom quer,
ca nom veerá i mais nulh'homem nado
de mil cavaleiros, se nom quiser;
e pois se quer de folia leixar,
de pram Deus lhi mostrou aquel logar:
i pode bem remiir seu pecado.
E pois bem quer remiir seu pecado,
logar achou qual havia mester,
u nom saberá parte nem mandado
de nulh'home, se d'alhur nom veer;
pero se pobr'ou coitado passar
per aquel porto, sabê-lo-á albergar
e, de mais, dar-lh'alberg'endõado.
se quiser Deus, será bõa molher;
e se algum feito fez desaguisado,
non'o fará jamais, se Deus quiser;
e direi-vos como se quer guardar:
quer-s'ir ali em cas Dom Lop'andar,
u lhi semelha logar apartado.
E bem creede que est apartado
pera ela, que folia nom quer,
ca nom veerá i mais nulh'homem nado
de mil cavaleiros, se nom quiser;
e pois se quer de folia leixar,
de pram Deus lhi mostrou aquel logar:
i pode bem remiir seu pecado.
E pois bem quer remiir seu pecado,
logar achou qual havia mester,
u nom saberá parte nem mandado
de nulh'home, se d'alhur nom veer;
pero se pobr'ou coitado passar
per aquel porto, sabê-lo-á albergar
e, de mais, dar-lh'alberg'endõado.
627
Pero da Ponte
Marinha López, Oimais, a Seu Grado
Marinha López, oimais, a seu grado,
se quiser Deus, será bõa molher;
e se algum feito fez desaguisado,
non'o fará jamais, se Deus quiser;
e direi-vos como se quer guardar:
quer-s'ir ali em cas Dom Lop'andar,
u lhi semelha logar apartado.
E bem creede que est apartado
pera ela, que folia nom quer,
ca nom veerá i mais nulh'homem nado
de mil cavaleiros, se nom quiser;
e pois se quer de folia leixar,
de pram Deus lhi mostrou aquel logar:
i pode bem remiir seu pecado.
E pois bem quer remiir seu pecado,
logar achou qual havia mester,
u nom saberá parte nem mandado
de nulh'home, se d'alhur nom veer;
pero se pobr'ou coitado passar
per aquel porto, sabê-lo-á albergar
e, de mais, dar-lh'alberg'endõado.
se quiser Deus, será bõa molher;
e se algum feito fez desaguisado,
non'o fará jamais, se Deus quiser;
e direi-vos como se quer guardar:
quer-s'ir ali em cas Dom Lop'andar,
u lhi semelha logar apartado.
E bem creede que est apartado
pera ela, que folia nom quer,
ca nom veerá i mais nulh'homem nado
de mil cavaleiros, se nom quiser;
e pois se quer de folia leixar,
de pram Deus lhi mostrou aquel logar:
i pode bem remiir seu pecado.
E pois bem quer remiir seu pecado,
logar achou qual havia mester,
u nom saberá parte nem mandado
de nulh'home, se d'alhur nom veer;
pero se pobr'ou coitado passar
per aquel porto, sabê-lo-á albergar
e, de mais, dar-lh'alberg'endõado.
627
Pero da Ponte
Que Bem Se Soub'acompanhar
Que bem se soub'acompanhar
Nostro Senhor esta sazom!
Que filhou tam bom companhom,
de qual vos eu quero contar:
rei dom Fernando, tam de prez,
que tanto bem no mundo fez
e que conquis de mar a mar!
Tal companhom foi Deus filhar
no bom rei, a que Deus perdom,
que jamais nom disse de nom
a nulh'hom[e] por lh'algo dar,
e que sempre fez o melhor;
por en x'o quis Nostro Senhor
põer consigo par a par!
E quant'home em ele mais falar,
tant'achará melhor razom:
ca, dos reis que forom nem som
no mundo por bom prez ganhar,
este rei foi o melhor rei,
que soub'eixalçar nossa Lei
e a dos mouros abaixar!
Mais u Deus pera si levar
quis o bom rei, i log'entom
se nembrou de nós, poilo bom
rei dom Afonso nos foi dar
por senhor. E bem nos cobrou:
ca, se nos bom senhor levou,
mui bom senhor nos foi leixar!
E Deus bom senhor nos levou!
Mais, pois nos tam bom rei leixou,
nom nos devemos a queixar.
Mais façamos tal oraçom:
que Deus, que prês mort'e paixom,
o mande muito bem reinar.
Amen! Aleluia!
Nostro Senhor esta sazom!
Que filhou tam bom companhom,
de qual vos eu quero contar:
rei dom Fernando, tam de prez,
que tanto bem no mundo fez
e que conquis de mar a mar!
Tal companhom foi Deus filhar
no bom rei, a que Deus perdom,
que jamais nom disse de nom
a nulh'hom[e] por lh'algo dar,
e que sempre fez o melhor;
por en x'o quis Nostro Senhor
põer consigo par a par!
E quant'home em ele mais falar,
tant'achará melhor razom:
ca, dos reis que forom nem som
no mundo por bom prez ganhar,
este rei foi o melhor rei,
que soub'eixalçar nossa Lei
e a dos mouros abaixar!
Mais u Deus pera si levar
quis o bom rei, i log'entom
se nembrou de nós, poilo bom
rei dom Afonso nos foi dar
por senhor. E bem nos cobrou:
ca, se nos bom senhor levou,
mui bom senhor nos foi leixar!
E Deus bom senhor nos levou!
Mais, pois nos tam bom rei leixou,
nom nos devemos a queixar.
Mais façamos tal oraçom:
que Deus, que prês mort'e paixom,
o mande muito bem reinar.
Amen! Aleluia!
351
Pero da Ponte
Que Bem Se Soub'acompanhar
Que bem se soub'acompanhar
Nostro Senhor esta sazom!
Que filhou tam bom companhom,
de qual vos eu quero contar:
rei dom Fernando, tam de prez,
que tanto bem no mundo fez
e que conquis de mar a mar!
Tal companhom foi Deus filhar
no bom rei, a que Deus perdom,
que jamais nom disse de nom
a nulh'hom[e] por lh'algo dar,
e que sempre fez o melhor;
por en x'o quis Nostro Senhor
põer consigo par a par!
E quant'home em ele mais falar,
tant'achará melhor razom:
ca, dos reis que forom nem som
no mundo por bom prez ganhar,
este rei foi o melhor rei,
que soub'eixalçar nossa Lei
e a dos mouros abaixar!
Mais u Deus pera si levar
quis o bom rei, i log'entom
se nembrou de nós, poilo bom
rei dom Afonso nos foi dar
por senhor. E bem nos cobrou:
ca, se nos bom senhor levou,
mui bom senhor nos foi leixar!
E Deus bom senhor nos levou!
Mais, pois nos tam bom rei leixou,
nom nos devemos a queixar.
Mais façamos tal oraçom:
que Deus, que prês mort'e paixom,
o mande muito bem reinar.
Amen! Aleluia!
Nostro Senhor esta sazom!
Que filhou tam bom companhom,
de qual vos eu quero contar:
rei dom Fernando, tam de prez,
que tanto bem no mundo fez
e que conquis de mar a mar!
Tal companhom foi Deus filhar
no bom rei, a que Deus perdom,
que jamais nom disse de nom
a nulh'hom[e] por lh'algo dar,
e que sempre fez o melhor;
por en x'o quis Nostro Senhor
põer consigo par a par!
E quant'home em ele mais falar,
tant'achará melhor razom:
ca, dos reis que forom nem som
no mundo por bom prez ganhar,
este rei foi o melhor rei,
que soub'eixalçar nossa Lei
e a dos mouros abaixar!
Mais u Deus pera si levar
quis o bom rei, i log'entom
se nembrou de nós, poilo bom
rei dom Afonso nos foi dar
por senhor. E bem nos cobrou:
ca, se nos bom senhor levou,
mui bom senhor nos foi leixar!
E Deus bom senhor nos levou!
Mais, pois nos tam bom rei leixou,
nom nos devemos a queixar.
Mais façamos tal oraçom:
que Deus, que prês mort'e paixom,
o mande muito bem reinar.
Amen! Aleluia!
351
Pero da Ponte
Em Almoeda Vi Estar
Em almoeda vi estar
hoj'um ric'hom'e diss'assi:
- Quem quer um ric'home comprar?
E nunca i comprador vi
que o quisesse nem em dom,
ca diziam todos que nom
daria[m] um soldo por si.
E deste ric'home quem quer
vos pod'a verdade dizer:
pois nom há prês nẽum mester,
quem querrá i o seu perder?
Ca el nom faz nẽum lavor
de que nulh'hom'haja sabor,
nem sab'adubar de comer.
E u forom polo vender,
preguntarom-no em gram sem:
- Ric'hom', que sabedes fazer?
E o ric'home disse: - Rem;
nom amo custa nem missom,
mais compro mui de coraçom
herdade, se mi a vend'alguém.
E pois el diss'esta razom,
nom houv'i molher nem barom
que por el dar quisesse rem.
hoj'um ric'hom'e diss'assi:
- Quem quer um ric'home comprar?
E nunca i comprador vi
que o quisesse nem em dom,
ca diziam todos que nom
daria[m] um soldo por si.
E deste ric'home quem quer
vos pod'a verdade dizer:
pois nom há prês nẽum mester,
quem querrá i o seu perder?
Ca el nom faz nẽum lavor
de que nulh'hom'haja sabor,
nem sab'adubar de comer.
E u forom polo vender,
preguntarom-no em gram sem:
- Ric'hom', que sabedes fazer?
E o ric'home disse: - Rem;
nom amo custa nem missom,
mais compro mui de coraçom
herdade, se mi a vend'alguém.
E pois el diss'esta razom,
nom houv'i molher nem barom
que por el dar quisesse rem.
357
Pero da Ponte
Em Almoeda Vi Estar
Em almoeda vi estar
hoj'um ric'hom'e diss'assi:
- Quem quer um ric'home comprar?
E nunca i comprador vi
que o quisesse nem em dom,
ca diziam todos que nom
daria[m] um soldo por si.
E deste ric'home quem quer
vos pod'a verdade dizer:
pois nom há prês nẽum mester,
quem querrá i o seu perder?
Ca el nom faz nẽum lavor
de que nulh'hom'haja sabor,
nem sab'adubar de comer.
E u forom polo vender,
preguntarom-no em gram sem:
- Ric'hom', que sabedes fazer?
E o ric'home disse: - Rem;
nom amo custa nem missom,
mais compro mui de coraçom
herdade, se mi a vend'alguém.
E pois el diss'esta razom,
nom houv'i molher nem barom
que por el dar quisesse rem.
hoj'um ric'hom'e diss'assi:
- Quem quer um ric'home comprar?
E nunca i comprador vi
que o quisesse nem em dom,
ca diziam todos que nom
daria[m] um soldo por si.
E deste ric'home quem quer
vos pod'a verdade dizer:
pois nom há prês nẽum mester,
quem querrá i o seu perder?
Ca el nom faz nẽum lavor
de que nulh'hom'haja sabor,
nem sab'adubar de comer.
E u forom polo vender,
preguntarom-no em gram sem:
- Ric'hom', que sabedes fazer?
E o ric'home disse: - Rem;
nom amo custa nem missom,
mais compro mui de coraçom
herdade, se mi a vend'alguém.
E pois el diss'esta razom,
nom houv'i molher nem barom
que por el dar quisesse rem.
357
Pero da Ponte
Em Almoeda Vi Estar
Em almoeda vi estar
hoj'um ric'hom'e diss'assi:
- Quem quer um ric'home comprar?
E nunca i comprador vi
que o quisesse nem em dom,
ca diziam todos que nom
daria[m] um soldo por si.
E deste ric'home quem quer
vos pod'a verdade dizer:
pois nom há prês nẽum mester,
quem querrá i o seu perder?
Ca el nom faz nẽum lavor
de que nulh'hom'haja sabor,
nem sab'adubar de comer.
E u forom polo vender,
preguntarom-no em gram sem:
- Ric'hom', que sabedes fazer?
E o ric'home disse: - Rem;
nom amo custa nem missom,
mais compro mui de coraçom
herdade, se mi a vend'alguém.
E pois el diss'esta razom,
nom houv'i molher nem barom
que por el dar quisesse rem.
hoj'um ric'hom'e diss'assi:
- Quem quer um ric'home comprar?
E nunca i comprador vi
que o quisesse nem em dom,
ca diziam todos que nom
daria[m] um soldo por si.
E deste ric'home quem quer
vos pod'a verdade dizer:
pois nom há prês nẽum mester,
quem querrá i o seu perder?
Ca el nom faz nẽum lavor
de que nulh'hom'haja sabor,
nem sab'adubar de comer.
E u forom polo vender,
preguntarom-no em gram sem:
- Ric'hom', que sabedes fazer?
E o ric'home disse: - Rem;
nom amo custa nem missom,
mais compro mui de coraçom
herdade, se mi a vend'alguém.
E pois el diss'esta razom,
nom houv'i molher nem barom
que por el dar quisesse rem.
357
Pero da Ponte
Mentre M'agora D'al Nom Digo [Nada]
Mentre m'agora d'al nom digo [nada]
d'um meu amigo vos quero dizer:
amor sem prol é palavra doada;
de tal amor nom hei eu que fazer,
nem outrossi hei eu por que temer
o desamor, que nom mi há nuzir nada.
Nom me tem'eu já de grand'espadada
que del prenda, nos dias que viver,
nem s'ar tem'el de nulha rem doada
que eu del lev', a todo seu poder;
nem m'ar tem'eu de nunca del prender
jamais bom dom nem bõa espadada.
E quem viu terra tam mal empregada,
nen'a cuida nunca mais a veer?
Que nom merece carta de soldada,
e dá-lh'o Demo terra e poder;
e muitas terras pod'home saber,
mais nunca terra tam mal empregada.
E o que nom val, e podia valer,
este merece sô terra jazer,
mais nom [sô] terra [d]'ũa polegada.
d'um meu amigo vos quero dizer:
amor sem prol é palavra doada;
de tal amor nom hei eu que fazer,
nem outrossi hei eu por que temer
o desamor, que nom mi há nuzir nada.
Nom me tem'eu já de grand'espadada
que del prenda, nos dias que viver,
nem s'ar tem'el de nulha rem doada
que eu del lev', a todo seu poder;
nem m'ar tem'eu de nunca del prender
jamais bom dom nem bõa espadada.
E quem viu terra tam mal empregada,
nen'a cuida nunca mais a veer?
Que nom merece carta de soldada,
e dá-lh'o Demo terra e poder;
e muitas terras pod'home saber,
mais nunca terra tam mal empregada.
E o que nom val, e podia valer,
este merece sô terra jazer,
mais nom [sô] terra [d]'ũa polegada.
318
Pero da Ponte
Mentre M'agora D'al Nom Digo [Nada]
Mentre m'agora d'al nom digo [nada]
d'um meu amigo vos quero dizer:
amor sem prol é palavra doada;
de tal amor nom hei eu que fazer,
nem outrossi hei eu por que temer
o desamor, que nom mi há nuzir nada.
Nom me tem'eu já de grand'espadada
que del prenda, nos dias que viver,
nem s'ar tem'el de nulha rem doada
que eu del lev', a todo seu poder;
nem m'ar tem'eu de nunca del prender
jamais bom dom nem bõa espadada.
E quem viu terra tam mal empregada,
nen'a cuida nunca mais a veer?
Que nom merece carta de soldada,
e dá-lh'o Demo terra e poder;
e muitas terras pod'home saber,
mais nunca terra tam mal empregada.
E o que nom val, e podia valer,
este merece sô terra jazer,
mais nom [sô] terra [d]'ũa polegada.
d'um meu amigo vos quero dizer:
amor sem prol é palavra doada;
de tal amor nom hei eu que fazer,
nem outrossi hei eu por que temer
o desamor, que nom mi há nuzir nada.
Nom me tem'eu já de grand'espadada
que del prenda, nos dias que viver,
nem s'ar tem'el de nulha rem doada
que eu del lev', a todo seu poder;
nem m'ar tem'eu de nunca del prender
jamais bom dom nem bõa espadada.
E quem viu terra tam mal empregada,
nen'a cuida nunca mais a veer?
Que nom merece carta de soldada,
e dá-lh'o Demo terra e poder;
e muitas terras pod'home saber,
mais nunca terra tam mal empregada.
E o que nom val, e podia valer,
este merece sô terra jazer,
mais nom [sô] terra [d]'ũa polegada.
318
Pero da Ponte
Quem a Sa Filha Quiser Dar
Quem a sa filha quiser dar
mester, com que sábia guarir,
a Maria Doming'há-de ir,
que a saberá bem mostrar;
e direi-vos que lhi fará:
ante d'um mês lh'amostrará
como sábia mui bem ambrar.
Ca me lhi vej'eu ensinar
ũa sa filha e nodrir;
e quem sas manhas bem cousir
aquesto pode bem jurar:
que des Paris atẽes acá
molher de seus dias nom há
que tam bem s'acorde d'ambrar.
E quem d'haver houver sabor
nom ponha sa filh'a tecer,
nem a cordas nem a coser,
mentr'esta mestra aqui for,
que lhi mostrará tal mester,
por que seja rica molher,
ergo se lhi minguar lavor.
E será en mais sabedor,
por estas artes aprender;
demais, quanto quiser saber,
sabê-lo pode mui melhor;
e pois tod'esto bem souber,
guarrá assi como poder;
de mais, guarrá per seu lavor.
mester, com que sábia guarir,
a Maria Doming'há-de ir,
que a saberá bem mostrar;
e direi-vos que lhi fará:
ante d'um mês lh'amostrará
como sábia mui bem ambrar.
Ca me lhi vej'eu ensinar
ũa sa filha e nodrir;
e quem sas manhas bem cousir
aquesto pode bem jurar:
que des Paris atẽes acá
molher de seus dias nom há
que tam bem s'acorde d'ambrar.
E quem d'haver houver sabor
nom ponha sa filh'a tecer,
nem a cordas nem a coser,
mentr'esta mestra aqui for,
que lhi mostrará tal mester,
por que seja rica molher,
ergo se lhi minguar lavor.
E será en mais sabedor,
por estas artes aprender;
demais, quanto quiser saber,
sabê-lo pode mui melhor;
e pois tod'esto bem souber,
guarrá assi como poder;
de mais, guarrá per seu lavor.
376
Pero da Ponte
Quem a Sa Filha Quiser Dar
Quem a sa filha quiser dar
mester, com que sábia guarir,
a Maria Doming'há-de ir,
que a saberá bem mostrar;
e direi-vos que lhi fará:
ante d'um mês lh'amostrará
como sábia mui bem ambrar.
Ca me lhi vej'eu ensinar
ũa sa filha e nodrir;
e quem sas manhas bem cousir
aquesto pode bem jurar:
que des Paris atẽes acá
molher de seus dias nom há
que tam bem s'acorde d'ambrar.
E quem d'haver houver sabor
nom ponha sa filh'a tecer,
nem a cordas nem a coser,
mentr'esta mestra aqui for,
que lhi mostrará tal mester,
por que seja rica molher,
ergo se lhi minguar lavor.
E será en mais sabedor,
por estas artes aprender;
demais, quanto quiser saber,
sabê-lo pode mui melhor;
e pois tod'esto bem souber,
guarrá assi como poder;
de mais, guarrá per seu lavor.
mester, com que sábia guarir,
a Maria Doming'há-de ir,
que a saberá bem mostrar;
e direi-vos que lhi fará:
ante d'um mês lh'amostrará
como sábia mui bem ambrar.
Ca me lhi vej'eu ensinar
ũa sa filha e nodrir;
e quem sas manhas bem cousir
aquesto pode bem jurar:
que des Paris atẽes acá
molher de seus dias nom há
que tam bem s'acorde d'ambrar.
E quem d'haver houver sabor
nom ponha sa filh'a tecer,
nem a cordas nem a coser,
mentr'esta mestra aqui for,
que lhi mostrará tal mester,
por que seja rica molher,
ergo se lhi minguar lavor.
E será en mais sabedor,
por estas artes aprender;
demais, quanto quiser saber,
sabê-lo pode mui melhor;
e pois tod'esto bem souber,
guarrá assi como poder;
de mais, guarrá per seu lavor.
376
Nuno Fernandes Torneol
Levad', Amigo, Que Dormides As Manhanas Frias
Levad', amigo, que dormides as manhanas frias
tôdalas aves do mundo d'amor dizia[m]:
leda m'and'eu.
Levad', amigo que dormide'las frias manhanas
tôdalas aves do mundo d'amor cantavam:
leda m'and'eu.
Tôdalas aves do mundo d'amor diziam,
do meu amor e do voss[o] em ment'haviam:
leda m'and'eu.
Tôdalas aves do mundo d'amor cantavam,
do meu amor e do voss[o] i enmentavam:
leda m'and'eu.
Do meu amor e do voss[o] em ment'haviam
vós lhi tolhestes os ramos em que siíam:
leda m'and'eu.
Do meu amor e do voss[o] i enmentavam
vós lhi tolhestes os ramos em que pousavam:
leda m'and'eu.
Vós lhi tolhestes os ramos em que siíam
e lhis secastes as fontes em que beviam;
leda m'and'eu.
Vós lhi tolhestes os ramos em que pousavam
e lhis secastes as fontes u se banhavam;
leda m'and'eu.
tôdalas aves do mundo d'amor dizia[m]:
leda m'and'eu.
Levad', amigo que dormide'las frias manhanas
tôdalas aves do mundo d'amor cantavam:
leda m'and'eu.
Tôdalas aves do mundo d'amor diziam,
do meu amor e do voss[o] em ment'haviam:
leda m'and'eu.
Tôdalas aves do mundo d'amor cantavam,
do meu amor e do voss[o] i enmentavam:
leda m'and'eu.
Do meu amor e do voss[o] em ment'haviam
vós lhi tolhestes os ramos em que siíam:
leda m'and'eu.
Do meu amor e do voss[o] i enmentavam
vós lhi tolhestes os ramos em que pousavam:
leda m'and'eu.
Vós lhi tolhestes os ramos em que siíam
e lhis secastes as fontes em que beviam;
leda m'and'eu.
Vós lhi tolhestes os ramos em que pousavam
e lhis secastes as fontes u se banhavam;
leda m'and'eu.
1 602
Pero da Ponte
Foi-S'o Meu Amigo Daqui
Foi-s'o meu amigo daqui
na hoste, por el-rei servir,
e nunca eu depois dormir
pudi, mais bem tenh'eu assi:
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
E gram coita nom perderei
per rem, meos de o veer,
ca nom há o meu cor lezer;
pero tanto de conort'hei:
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
E bem se devia nembrar
das juras que m'entom jurou
u m'el mui fremosa leixou,
mais, donas, podedes jurar
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
na hoste, por el-rei servir,
e nunca eu depois dormir
pudi, mais bem tenh'eu assi:
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
E gram coita nom perderei
per rem, meos de o veer,
ca nom há o meu cor lezer;
pero tanto de conort'hei:
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
E bem se devia nembrar
das juras que m'entom jurou
u m'el mui fremosa leixou,
mais, donas, podedes jurar
que, pois m'el tarda e nom vem,
el-rei o faz, que mi o detém.
587