Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Mailson Furtado Viana
por causa do alvará de funcionamento
as casas
as ruas
cheiravam
fediam
apodreciam
tinham cheiro de feijão às quinze pro meio-dia
cheiro de cigarro às seis e tanto
gosto de sexo depois das dez
fediam ao uso
hoje
são estéreis
sovinam sussurros
se afogam em antidepressivos
se negam morrer
são hipócritas
as ruas
cheiravam
fediam
apodreciam
tinham cheiro de feijão às quinze pro meio-dia
cheiro de cigarro às seis e tanto
gosto de sexo depois das dez
fediam ao uso
hoje
são estéreis
sovinam sussurros
se afogam em antidepressivos
se negam morrer
são hipócritas
766
Carlos Soulié do Amaral
Soneto Vaivém
Para Fernão Lara Mesquita
Das cercas, das paredes, da porta, do teto
e do chão frio, me desloco e desta hora
igual e coletiva escapo e vou direto
aonde a onda anda, pelo mar afora.
A conta, o livro, a regra, a rua, o lar, o veto,
o sim, o não, o cheque, o pão, o juro, a mora,
tudo é nada. Sem devoção e sem afeto,
eu vou por onde a onda anda, mar afora.
Além do céu e além do mais, pelo mar bravo
e alegre vou, colhendo estrelas com a mão,
entre perfumes de pitanga e sons de cravo
até que o telefone toca e tudo então
é novamente tudo e sou de novo escravo
do chão, da regra, da universal servidão.
Das cercas, das paredes, da porta, do teto
e do chão frio, me desloco e desta hora
igual e coletiva escapo e vou direto
aonde a onda anda, pelo mar afora.
A conta, o livro, a regra, a rua, o lar, o veto,
o sim, o não, o cheque, o pão, o juro, a mora,
tudo é nada. Sem devoção e sem afeto,
eu vou por onde a onda anda, mar afora.
Além do céu e além do mais, pelo mar bravo
e alegre vou, colhendo estrelas com a mão,
entre perfumes de pitanga e sons de cravo
até que o telefone toca e tudo então
é novamente tudo e sou de novo escravo
do chão, da regra, da universal servidão.
705
Carlos Soulié do Amaral
Soneto Vaivém
Para Fernão Lara Mesquita
Das cercas, das paredes, da porta, do teto
e do chão frio, me desloco e desta hora
igual e coletiva escapo e vou direto
aonde a onda anda, pelo mar afora.
A conta, o livro, a regra, a rua, o lar, o veto,
o sim, o não, o cheque, o pão, o juro, a mora,
tudo é nada. Sem devoção e sem afeto,
eu vou por onde a onda anda, mar afora.
Além do céu e além do mais, pelo mar bravo
e alegre vou, colhendo estrelas com a mão,
entre perfumes de pitanga e sons de cravo
até que o telefone toca e tudo então
é novamente tudo e sou de novo escravo
do chão, da regra, da universal servidão.
Das cercas, das paredes, da porta, do teto
e do chão frio, me desloco e desta hora
igual e coletiva escapo e vou direto
aonde a onda anda, pelo mar afora.
A conta, o livro, a regra, a rua, o lar, o veto,
o sim, o não, o cheque, o pão, o juro, a mora,
tudo é nada. Sem devoção e sem afeto,
eu vou por onde a onda anda, mar afora.
Além do céu e além do mais, pelo mar bravo
e alegre vou, colhendo estrelas com a mão,
entre perfumes de pitanga e sons de cravo
até que o telefone toca e tudo então
é novamente tudo e sou de novo escravo
do chão, da regra, da universal servidão.
705
Simone Brantes
Die Aufgabe
Chegar em casa um pouco mais
do que cansada e puxar ainda assim
e aos poucos o fio longo da mortalha
até fazer da noite sair enfim um dia
dentre todos os dias a morrer na praia
do que cansada e puxar ainda assim
e aos poucos o fio longo da mortalha
até fazer da noite sair enfim um dia
dentre todos os dias a morrer na praia
702
Maria Lúcia Dal Farra
Abóbora
Despojo-me de tudo quanto tenho
para a tua boca salgada ou doce:
cambuquira, massa, semente, fruto.
Até outro acolho em mim,
ramo duplo das artes.
Bandolim? Violão?
Para meu desconcerto,
abelhas afinam-se no fundo diapasão da minha flor,
na zona mais erógena;
e então, ah, com que cócegas me torço em vivos contornos,
e cresço, esculpindo curvas,
a cor exalando túrgida a úmida temperatura
do meu mistério gozoso:
íntimo encontro do delgado pescoço com quadris –
coito.
Concórdia de contrários,
senhora das duas naturezas
(andrógina)
Ainda assim rastejo
– menina que sou! –
a entregar-me ao gosto da lagarta-rosca
e das brocas.
para a tua boca salgada ou doce:
cambuquira, massa, semente, fruto.
Até outro acolho em mim,
ramo duplo das artes.
Bandolim? Violão?
Para meu desconcerto,
abelhas afinam-se no fundo diapasão da minha flor,
na zona mais erógena;
e então, ah, com que cócegas me torço em vivos contornos,
e cresço, esculpindo curvas,
a cor exalando túrgida a úmida temperatura
do meu mistério gozoso:
íntimo encontro do delgado pescoço com quadris –
coito.
Concórdia de contrários,
senhora das duas naturezas
(andrógina)
Ainda assim rastejo
– menina que sou! –
a entregar-me ao gosto da lagarta-rosca
e das brocas.
842
Mailson Furtado Viana
a estante deslocou a sala
a estante deslocou a sala
pro canto
tudo de importante
lá está
de canto
os outros três
existem
__________pra gente
__________por obrigação.
talvez
pra evitar intrigas com a física
ou mesmo só pra passeio
são só vistos
pela estante
que ali não pisou
na estante
um cristo redentor
que esteve no rio e lembrou-se d’alguém
se mistura à torre eiffel
que nem sabe de onde veio
um jarro desbotado
pintado de poeira
continua na mesma pose
e logo mais são paulo
em um flash na tv
se mistura também
no porta-retratos assistimos
mas não sabemos de nada
(nosso riso anda sem graça já)
dos outros cantos
sobram pra gente
a gente lá até vive
mas da estante é mais fácil lembrar
pro canto
tudo de importante
lá está
de canto
os outros três
existem
__________pra gente
__________por obrigação.
talvez
pra evitar intrigas com a física
ou mesmo só pra passeio
são só vistos
pela estante
que ali não pisou
na estante
um cristo redentor
que esteve no rio e lembrou-se d’alguém
se mistura à torre eiffel
que nem sabe de onde veio
um jarro desbotado
pintado de poeira
continua na mesma pose
e logo mais são paulo
em um flash na tv
se mistura também
no porta-retratos assistimos
mas não sabemos de nada
(nosso riso anda sem graça já)
dos outros cantos
sobram pra gente
a gente lá até vive
mas da estante é mais fácil lembrar
664
Mailson Furtado Viana
a estante deslocou a sala
a estante deslocou a sala
pro canto
tudo de importante
lá está
de canto
os outros três
existem
__________pra gente
__________por obrigação.
talvez
pra evitar intrigas com a física
ou mesmo só pra passeio
são só vistos
pela estante
que ali não pisou
na estante
um cristo redentor
que esteve no rio e lembrou-se d’alguém
se mistura à torre eiffel
que nem sabe de onde veio
um jarro desbotado
pintado de poeira
continua na mesma pose
e logo mais são paulo
em um flash na tv
se mistura também
no porta-retratos assistimos
mas não sabemos de nada
(nosso riso anda sem graça já)
dos outros cantos
sobram pra gente
a gente lá até vive
mas da estante é mais fácil lembrar
pro canto
tudo de importante
lá está
de canto
os outros três
existem
__________pra gente
__________por obrigação.
talvez
pra evitar intrigas com a física
ou mesmo só pra passeio
são só vistos
pela estante
que ali não pisou
na estante
um cristo redentor
que esteve no rio e lembrou-se d’alguém
se mistura à torre eiffel
que nem sabe de onde veio
um jarro desbotado
pintado de poeira
continua na mesma pose
e logo mais são paulo
em um flash na tv
se mistura também
no porta-retratos assistimos
mas não sabemos de nada
(nosso riso anda sem graça já)
dos outros cantos
sobram pra gente
a gente lá até vive
mas da estante é mais fácil lembrar
664
António Carlos Cortez
NA LÍNGUA
É na língua a pátria recordada
o tempo de dizer palavras duras
Na língua o sal do mar e a procura
de um modo de dizer menos ocluso
Poesia se faz corpo já fonético
e amor e sexo se fazem nela, língua.
Não tem de ser portuguesa a pátria
(nem tudo quanto é dito é luso...)
Língua se escreve como se vive um corpo:
pátria total onde talvez o uso
da língua em seu fazer de facto
comprova o fogo do amor em seu palato.
o tempo de dizer palavras duras
Na língua o sal do mar e a procura
de um modo de dizer menos ocluso
Poesia se faz corpo já fonético
e amor e sexo se fazem nela, língua.
Não tem de ser portuguesa a pátria
(nem tudo quanto é dito é luso...)
Língua se escreve como se vive um corpo:
pátria total onde talvez o uso
da língua em seu fazer de facto
comprova o fogo do amor em seu palato.
742
António Carlos Cortez
É o Tejo escorrendo nas sombrias casas de vermelho
Hoje sou eu quem como o rio transluz
Hoje sou eu quem sem primícias seca
Luiza Neto Jorge
é o Tejo escorrendo nas sombrias casas de vermelho.
pergunto pelos barcos e não me respondem. ninguém sabe
é o tempo diluído nas camas brancas dos amantes sem resposta
dos rápidos amantes que lembram duas balas no sangue arrefecido.
perguntei aos amantes pela cidade dos barcos no rio.
ninguém sabe. ninguém sabe da cidade com mar nos dedos
aquela que sobe pelo peito fácil das casas feitas do cheiro matinal
dos gritos e do amor rápido e sanguíneo e sedento. é talvez a hora
de romper por entre os barcos que estão nos portos sombrios
sombrios abutres de marinheiros sem literatura.
não me contaram dos barcos como num poema
nem de rostos varridos pelas musicas de cítaras antigas.
no Tejo escorria de vermelho-sangue um sabre só encontrei
o azul e o branco estagnados da parte velha da cidade do fado.
o rio calado e os seus barcos e tu a subires a rua nova do alecrim
pelo menos nos meus olhos era essa rua de cesário e eu a respirar
o mesmo ar de asfixia ou a tentar não naufragar nestas águas pantanosas
nestas vielas obscuras nesses barcos de madeira ao sol já corrompida
onde ainda adivinhamos o rio Tejo e as sete colinas gravados
onde o amor foi perpetrado (na memória tentacular do mar)
e era ainda o Tejo
Hoje sou eu quem sem primícias seca
Luiza Neto Jorge
é o Tejo escorrendo nas sombrias casas de vermelho.
pergunto pelos barcos e não me respondem. ninguém sabe
é o tempo diluído nas camas brancas dos amantes sem resposta
dos rápidos amantes que lembram duas balas no sangue arrefecido.
perguntei aos amantes pela cidade dos barcos no rio.
ninguém sabe. ninguém sabe da cidade com mar nos dedos
aquela que sobe pelo peito fácil das casas feitas do cheiro matinal
dos gritos e do amor rápido e sanguíneo e sedento. é talvez a hora
de romper por entre os barcos que estão nos portos sombrios
sombrios abutres de marinheiros sem literatura.
não me contaram dos barcos como num poema
nem de rostos varridos pelas musicas de cítaras antigas.
no Tejo escorria de vermelho-sangue um sabre só encontrei
o azul e o branco estagnados da parte velha da cidade do fado.
o rio calado e os seus barcos e tu a subires a rua nova do alecrim
pelo menos nos meus olhos era essa rua de cesário e eu a respirar
o mesmo ar de asfixia ou a tentar não naufragar nestas águas pantanosas
nestas vielas obscuras nesses barcos de madeira ao sol já corrompida
onde ainda adivinhamos o rio Tejo e as sete colinas gravados
onde o amor foi perpetrado (na memória tentacular do mar)
e era ainda o Tejo
711
António Carlos Cortez
Este é o canto mais perfeito da noite
este é o canto mais perfeito da noite.
a esta hora espera-se o milagre na canção
do último Leonard Cohen
(waiting for the miracle, dizias)
eu apunhalava os astros mais secretos
coisa para ti fora do tempo e sem sentido
mas para mim o canto mais perfeito da noite servia
para recuperar as palavras de prosa (a poesia
tinha-a deixado nos lugares obscuros
da cidade). das palavras eu fazia a matéria
vermelha do sangue onde singravam os barcos
a nossa imaginação de contemporâneos secamente urbanos.
este é o canto mais perfeito da noite mas nenhum de nós
sabe se o milagre vive ainda nas velozes canções
nos corpos de granito que nós agora somos.
se escrevemos as perdas e o desastre depomos palavras
Waiting for the miracle to come
a esta hora espera-se o milagre na canção
do último Leonard Cohen
(waiting for the miracle, dizias)
eu apunhalava os astros mais secretos
coisa para ti fora do tempo e sem sentido
mas para mim o canto mais perfeito da noite servia
para recuperar as palavras de prosa (a poesia
tinha-a deixado nos lugares obscuros
da cidade). das palavras eu fazia a matéria
vermelha do sangue onde singravam os barcos
a nossa imaginação de contemporâneos secamente urbanos.
este é o canto mais perfeito da noite mas nenhum de nós
sabe se o milagre vive ainda nas velozes canções
nos corpos de granito que nós agora somos.
se escrevemos as perdas e o desastre depomos palavras
Waiting for the miracle to come
706
Paulo Teixeira
Cidade ao nascer da lua
A toda a largura do pano vê-se a cidade
com o seu perfil a velar-se, bizantino,
no poente. Abismada está na própria imagem,
onde o brilho do crisólito lembra,
num relance, o seu esplendor perdido:
invólucro fetal lançado, noite calada,
na água que ressuma, lenta, junto às margens.
O ouro foi todo acrisolado na água
em que ferveram as cinzas e a escória
de metais. A chuva e o vento vão
exfoliando as paredes, moendo as tintas,
até se não reconhecer mais o festo às fachadas.
Entre a solidão hirta das duas torres
a lua, mormosa, insinua-se.
com o seu perfil a velar-se, bizantino,
no poente. Abismada está na própria imagem,
onde o brilho do crisólito lembra,
num relance, o seu esplendor perdido:
invólucro fetal lançado, noite calada,
na água que ressuma, lenta, junto às margens.
O ouro foi todo acrisolado na água
em que ferveram as cinzas e a escória
de metais. A chuva e o vento vão
exfoliando as paredes, moendo as tintas,
até se não reconhecer mais o festo às fachadas.
Entre a solidão hirta das duas torres
a lua, mormosa, insinua-se.
665
Hélia Correia
7.
Nós, os ateus, nós, os monoteístas,
Nós, os que reduzimos a beleza
A pequenas tarefas, nós, os pobres
Adornados, os pobres confortáveis,
Os que a si mesmos se vigarizavam
Olhando para cima, para as torres,
Supondo que as podiam habitar,
Glória das águias que nem águias tem,
Sofremos, sim, de idêntica indigência,
Da ruína da Grécia.
Nós, os que reduzimos a beleza
A pequenas tarefas, nós, os pobres
Adornados, os pobres confortáveis,
Os que a si mesmos se vigarizavam
Olhando para cima, para as torres,
Supondo que as podiam habitar,
Glória das águias que nem águias tem,
Sofremos, sim, de idêntica indigência,
Da ruína da Grécia.
1 177
Hélia Correia
7.
Nós, os ateus, nós, os monoteístas,
Nós, os que reduzimos a beleza
A pequenas tarefas, nós, os pobres
Adornados, os pobres confortáveis,
Os que a si mesmos se vigarizavam
Olhando para cima, para as torres,
Supondo que as podiam habitar,
Glória das águias que nem águias tem,
Sofremos, sim, de idêntica indigência,
Da ruína da Grécia.
Nós, os que reduzimos a beleza
A pequenas tarefas, nós, os pobres
Adornados, os pobres confortáveis,
Os que a si mesmos se vigarizavam
Olhando para cima, para as torres,
Supondo que as podiam habitar,
Glória das águias que nem águias tem,
Sofremos, sim, de idêntica indigência,
Da ruína da Grécia.
1 177
António Carlos Cortez
Resposta a Drummond
É sempre no meu sempre aquele nunca
é sempre nesse nunca aquele agora
é sempre nesse agora aquele nada
No mesmo nada encontro sempre tudo
mesmo se o mundo é nada sempre assim
mesmo se assim tudo me desperta
e eu me desperto a adormecer no fim
de cada dia de trabalho errado
em cada hora de um amor mal feito
e digo mesmo se este mundo vale
a expectativa de querer ser sempre
aquela esp’rança onde o bem e o mal
se aliam sempre para quem conserva
o sonho ou a fúria de não estar sonhando
Mas novamente dói a dor no peito
e dói no corpo o que nos vai passando
mágoas ou risos ou o grito dado
e logo atirado para um vale escuro
onde não oiçamos a revolta infinda
de vivermos os dias nesta escura selva
a que nem Dante chamou talvez de vida
a que chamamos coisa e porém amamos
Sempre este querer de violência tanta
e esta crença de que o canto estale
e o dia venha porque nós lutamos
para além das forças que supomos nossas
para além dos sonhos que já não esperamos
para além do verso e do corpo gasto
Sempre este homem que se vai cansando
sempre estes ossos em que equilibramos
esta carne frágil este dia vasto
esta vida feita no que é morte nela
este amor sujeito ao que é sempre efémero
este ódio ao mundo que é amor eterno
é sempre nesse nunca aquele agora
é sempre nesse agora aquele nada
No mesmo nada encontro sempre tudo
mesmo se o mundo é nada sempre assim
mesmo se assim tudo me desperta
e eu me desperto a adormecer no fim
de cada dia de trabalho errado
em cada hora de um amor mal feito
e digo mesmo se este mundo vale
a expectativa de querer ser sempre
aquela esp’rança onde o bem e o mal
se aliam sempre para quem conserva
o sonho ou a fúria de não estar sonhando
Mas novamente dói a dor no peito
e dói no corpo o que nos vai passando
mágoas ou risos ou o grito dado
e logo atirado para um vale escuro
onde não oiçamos a revolta infinda
de vivermos os dias nesta escura selva
a que nem Dante chamou talvez de vida
a que chamamos coisa e porém amamos
Sempre este querer de violência tanta
e esta crença de que o canto estale
e o dia venha porque nós lutamos
para além das forças que supomos nossas
para além dos sonhos que já não esperamos
para além do verso e do corpo gasto
Sempre este homem que se vai cansando
sempre estes ossos em que equilibramos
esta carne frágil este dia vasto
esta vida feita no que é morte nela
este amor sujeito ao que é sempre efémero
este ódio ao mundo que é amor eterno
1 094
António Carlos Cortez
Resposta a Drummond
É sempre no meu sempre aquele nunca
é sempre nesse nunca aquele agora
é sempre nesse agora aquele nada
No mesmo nada encontro sempre tudo
mesmo se o mundo é nada sempre assim
mesmo se assim tudo me desperta
e eu me desperto a adormecer no fim
de cada dia de trabalho errado
em cada hora de um amor mal feito
e digo mesmo se este mundo vale
a expectativa de querer ser sempre
aquela esp’rança onde o bem e o mal
se aliam sempre para quem conserva
o sonho ou a fúria de não estar sonhando
Mas novamente dói a dor no peito
e dói no corpo o que nos vai passando
mágoas ou risos ou o grito dado
e logo atirado para um vale escuro
onde não oiçamos a revolta infinda
de vivermos os dias nesta escura selva
a que nem Dante chamou talvez de vida
a que chamamos coisa e porém amamos
Sempre este querer de violência tanta
e esta crença de que o canto estale
e o dia venha porque nós lutamos
para além das forças que supomos nossas
para além dos sonhos que já não esperamos
para além do verso e do corpo gasto
Sempre este homem que se vai cansando
sempre estes ossos em que equilibramos
esta carne frágil este dia vasto
esta vida feita no que é morte nela
este amor sujeito ao que é sempre efémero
este ódio ao mundo que é amor eterno
é sempre nesse nunca aquele agora
é sempre nesse agora aquele nada
No mesmo nada encontro sempre tudo
mesmo se o mundo é nada sempre assim
mesmo se assim tudo me desperta
e eu me desperto a adormecer no fim
de cada dia de trabalho errado
em cada hora de um amor mal feito
e digo mesmo se este mundo vale
a expectativa de querer ser sempre
aquela esp’rança onde o bem e o mal
se aliam sempre para quem conserva
o sonho ou a fúria de não estar sonhando
Mas novamente dói a dor no peito
e dói no corpo o que nos vai passando
mágoas ou risos ou o grito dado
e logo atirado para um vale escuro
onde não oiçamos a revolta infinda
de vivermos os dias nesta escura selva
a que nem Dante chamou talvez de vida
a que chamamos coisa e porém amamos
Sempre este querer de violência tanta
e esta crença de que o canto estale
e o dia venha porque nós lutamos
para além das forças que supomos nossas
para além dos sonhos que já não esperamos
para além do verso e do corpo gasto
Sempre este homem que se vai cansando
sempre estes ossos em que equilibramos
esta carne frágil este dia vasto
esta vida feita no que é morte nela
este amor sujeito ao que é sempre efémero
este ódio ao mundo que é amor eterno
1 094
Paulo Teixeira
Berghain
A cidade desliza lá fora com o luar.
Dentro, vai-se enchendo o silo de cimento.
Sobe-se por esta realidade arborescente
até à sala parlamentar onde,
sob uma vagina de Wolfgang Tillmans,
os olhos falam com o medo
a constelar as faces de desejo.
O desespero busca exprimir-se
no movimento acelerado dos braços,
no puro dinamismo dos ossos,
a telegrafia sem fios:
a ela se entregam os funâmbulos
sobre altos cubos negros;
para ninguém ensaiam as suas acrobacias
e sortes de prestidigitação.
O ideograma das luzes banha-os
como num palco.
Desatrelados, soltos,
os corpos secos e nervosos
deixam ver o íncubo,
o duplo espectral:
aqui acedem a um breve estatuto icónico,
emaciados cristos de tronco nu
e leather pants.
O WC é logo ali ao lado
e nas guaritas ao fundo do salão
perde-se em manobras de bastidores
quem não arrisca ir mais longe,
descer às fundas minas de estanho,
avançar às apalpadelas por território desconhecido,
o labirinto onde o Minotauro se alimenta
da carne de sete rapazes —
há que habituar os olhos à penumbra,
ao movimento dos corpos a tremeluzir
numa silente inquirição.
A música é um moscardo que zumbe ao longe
e o mundo apenas esse estrondo residual.
No triclínio, sobre um colchão sujo,
ou contra os pilares —
o stalker vigia a solidão
que aqui abriu a sua cerca.
Dentro, vai-se enchendo o silo de cimento.
Sobe-se por esta realidade arborescente
até à sala parlamentar onde,
sob uma vagina de Wolfgang Tillmans,
os olhos falam com o medo
a constelar as faces de desejo.
O desespero busca exprimir-se
no movimento acelerado dos braços,
no puro dinamismo dos ossos,
a telegrafia sem fios:
a ela se entregam os funâmbulos
sobre altos cubos negros;
para ninguém ensaiam as suas acrobacias
e sortes de prestidigitação.
O ideograma das luzes banha-os
como num palco.
Desatrelados, soltos,
os corpos secos e nervosos
deixam ver o íncubo,
o duplo espectral:
aqui acedem a um breve estatuto icónico,
emaciados cristos de tronco nu
e leather pants.
O WC é logo ali ao lado
e nas guaritas ao fundo do salão
perde-se em manobras de bastidores
quem não arrisca ir mais longe,
descer às fundas minas de estanho,
avançar às apalpadelas por território desconhecido,
o labirinto onde o Minotauro se alimenta
da carne de sete rapazes —
há que habituar os olhos à penumbra,
ao movimento dos corpos a tremeluzir
numa silente inquirição.
A música é um moscardo que zumbe ao longe
e o mundo apenas esse estrondo residual.
No triclínio, sobre um colchão sujo,
ou contra os pilares —
o stalker vigia a solidão
que aqui abriu a sua cerca.
591
Golgona Anghel
Os pássaros estão a cair como pedras do céu
Os pássaros estão a cair como pedras do céu
Sobra um pintassilgo na nossa cozinha
a abanar a sua gaiola com as asas.
Mas o protagonista tranquiliza-o
com um dardo.
Vou apenas na página cinquenta do livro
e já matei toda a gente.
Avanço na leitura como
um carniceiro desliza na carne,
afastando os corpos com a ponta metálica
das botas, apoiando a minha bengala
em umbigos e bocas abertas.
Com é possível,
viver normalmente, sentir-me bem até
e, no entanto, usar uma faca em vez e caneta,
pensar em ti,
imaginar-te por dentro,
provar-te com o dedo,
como se prova uma melancia no supermercado?
Tenho medo de tornar-me um maníaco.
Perder a cabeça. Entrar em ti
um dia e sair do outro lado
com o teu coração espetado na ponta
de uma varinha mágica.
Tenho vergonha de...
Regresso a pé, apanho chuva,
desprezo putas, cumprimento desconhecidos.
Regresso encolhido de frio,
com a cara suja, os pés molhados.
Dás-me uma sopa quente
e adormeço na cadeira da cozinha
encostado na porta do forno
enquanto me passas a ferro a camisa
para o dia seguinte.
Sobra um pintassilgo na nossa cozinha
a abanar a sua gaiola com as asas.
Mas o protagonista tranquiliza-o
com um dardo.
Vou apenas na página cinquenta do livro
e já matei toda a gente.
Avanço na leitura como
um carniceiro desliza na carne,
afastando os corpos com a ponta metálica
das botas, apoiando a minha bengala
em umbigos e bocas abertas.
Com é possível,
viver normalmente, sentir-me bem até
e, no entanto, usar uma faca em vez e caneta,
pensar em ti,
imaginar-te por dentro,
provar-te com o dedo,
como se prova uma melancia no supermercado?
Tenho medo de tornar-me um maníaco.
Perder a cabeça. Entrar em ti
um dia e sair do outro lado
com o teu coração espetado na ponta
de uma varinha mágica.
Tenho vergonha de...
Regresso a pé, apanho chuva,
desprezo putas, cumprimento desconhecidos.
Regresso encolhido de frio,
com a cara suja, os pés molhados.
Dás-me uma sopa quente
e adormeço na cadeira da cozinha
encostado na porta do forno
enquanto me passas a ferro a camisa
para o dia seguinte.
1 085
Paulo Teixeira
Heaven underneath the arches
O medo, o cansaço dos sismos quotidianos
leva-me à rua, aí onde só vive quem
não suporta ver o crepúsculo de casa.
Fora espera por mim a luz do céu londrino
e a noite abortiva de sono. Esse rumor
escuro da beleza que de longe me acena
como um semáforo ou um sinal de perigo.
Sem lei passeio até Embankment a minha
angústia civilizada. Aí o laser trespassa
a noite com a sua flora esverdeada,
as suas fitas mortuárias. Com uma fúria
obstinada estendo e recolho os braços
em dádiva e aceitação do que vem,
corpo dedilhado à toa nas cocheiras
até se gravar como uma paisagem sumariamente
perdida para sempre no negativo da visão.
Entre as farpas da música, nesse desespero verde
e polido que sulca a noite, perco-me o nome
e o rasto. Fora, a lua podia ser o meu caixão.
leva-me à rua, aí onde só vive quem
não suporta ver o crepúsculo de casa.
Fora espera por mim a luz do céu londrino
e a noite abortiva de sono. Esse rumor
escuro da beleza que de longe me acena
como um semáforo ou um sinal de perigo.
Sem lei passeio até Embankment a minha
angústia civilizada. Aí o laser trespassa
a noite com a sua flora esverdeada,
as suas fitas mortuárias. Com uma fúria
obstinada estendo e recolho os braços
em dádiva e aceitação do que vem,
corpo dedilhado à toa nas cocheiras
até se gravar como uma paisagem sumariamente
perdida para sempre no negativo da visão.
Entre as farpas da música, nesse desespero verde
e polido que sulca a noite, perco-me o nome
e o rasto. Fora, a lua podia ser o meu caixão.
623
Golgona Anghel
Comodista hesitante,
Comodista hesitante,
protegido das cabeleireiras
e cliente frequente dos feriados nacionais,
acredita nos encontros fortuitos
assim como um relógio estragado
acredita aproximar-se de uma hora astral.
Estes hábitos podem até ser tolerados
em contos naturalistas
e reality showers.
Nós, aqui, little stranger,
degolamos pardais e fadas de porcelana.
Cobramos interesses à alegria
e vendemos suites com piscina na lua.
A batalha é nossa,
já alugámos as trincheiras,
mas custa tanto tirar os pijamas.
protegido das cabeleireiras
e cliente frequente dos feriados nacionais,
acredita nos encontros fortuitos
assim como um relógio estragado
acredita aproximar-se de uma hora astral.
Estes hábitos podem até ser tolerados
em contos naturalistas
e reality showers.
Nós, aqui, little stranger,
degolamos pardais e fadas de porcelana.
Cobramos interesses à alegria
e vendemos suites com piscina na lua.
A batalha é nossa,
já alugámos as trincheiras,
mas custa tanto tirar os pijamas.
1 004
Daniel Jonas
GROTTO
Não quero nada claro ou helénico.
Prefiro turbinas de aviões comerciais, a sua fuligem
doméstica
às velas de alabastro do veleiro de Ulisses
lá em mar alto.
Prefiro o eclipse a Calipso.
Não quero nada de verdadeiramente branco.
Dispenso a asa delta de garças,
o seu voo aerodinâmico,
troco-o pela arribação de ratos no esgoto,
a sua pressa chinesa,
o seu stress pós-traumático:
orgulham-me criaturas tão limpas.
Assim também recuso o papel branco:
trato de o desfigurar
com sangue negro, como se desfigura
um branco em Harlem.
Não quero começar a imaginar como se sentiriam
escravos nos campos de algodão.
Prefiro turbinas de aviões comerciais, a sua fuligem
doméstica
às velas de alabastro do veleiro de Ulisses
lá em mar alto.
Prefiro o eclipse a Calipso.
Não quero nada de verdadeiramente branco.
Dispenso a asa delta de garças,
o seu voo aerodinâmico,
troco-o pela arribação de ratos no esgoto,
a sua pressa chinesa,
o seu stress pós-traumático:
orgulham-me criaturas tão limpas.
Assim também recuso o papel branco:
trato de o desfigurar
com sangue negro, como se desfigura
um branco em Harlem.
Não quero começar a imaginar como se sentiriam
escravos nos campos de algodão.
722
Paulo Teixeira
1063 TWENTY-SIXTH ST. SANTA MONICA
(Brecht na Califórnia)
Pede-se-nos complacência
para com os bons selvagens,
se olham com expressão amável
e vazia a nobreza romana banida
de uma vez para o Ponto.
Aqui prossegue uma existência insular
essa Weimar das sombras,
com a sua moral rígida e os costumes austeros,
as disputas vãs e recorrentes
sobre os sentidos que toma a guerra
na Europa, como se aí um outro vivesse
o prolongamento das suas vidas amputadas
nesta margem leve e frívola da América.
Ei-la reduzida a assistir de longe,
com um oceano e um continente de permeio,
às mortes na família.
Trocam currículos e carreiras,
affidavit e declarações de rendimentos válidas por cinco anos,
pelo direito de habitar este litoral de palmeiras
e limoeiros de meridional Itália,
mas onde a musa se não demora
a soprar ventos da Cítia
entre barcos, redes de pesca
e ninfas de praia (californianas).
Vieram para morrer entre os Getas,
adeptos do surf & da bricolage,
entre casinos, estúdios de cinema
e poços de petróleo.
Sabemos como a vida imita os filmes.
Os mitos no tempo da física
são como as estrelas poeira sem brilho
num mundo de luz artificial
e poesia impossível —
pois como compor uma ode
ao deus menor que move,
acima do rumor de pneumáticos e motores,
os mecanismos da sorte
em Sunset Boulevard?
Pede-se-nos complacência
para com os bons selvagens,
se olham com expressão amável
e vazia a nobreza romana banida
de uma vez para o Ponto.
Aqui prossegue uma existência insular
essa Weimar das sombras,
com a sua moral rígida e os costumes austeros,
as disputas vãs e recorrentes
sobre os sentidos que toma a guerra
na Europa, como se aí um outro vivesse
o prolongamento das suas vidas amputadas
nesta margem leve e frívola da América.
Ei-la reduzida a assistir de longe,
com um oceano e um continente de permeio,
às mortes na família.
Trocam currículos e carreiras,
affidavit e declarações de rendimentos válidas por cinco anos,
pelo direito de habitar este litoral de palmeiras
e limoeiros de meridional Itália,
mas onde a musa se não demora
a soprar ventos da Cítia
entre barcos, redes de pesca
e ninfas de praia (californianas).
Vieram para morrer entre os Getas,
adeptos do surf & da bricolage,
entre casinos, estúdios de cinema
e poços de petróleo.
Sabemos como a vida imita os filmes.
Os mitos no tempo da física
são como as estrelas poeira sem brilho
num mundo de luz artificial
e poesia impossível —
pois como compor uma ode
ao deus menor que move,
acima do rumor de pneumáticos e motores,
os mecanismos da sorte
em Sunset Boulevard?
586
Paulo Teixeira
1063 TWENTY-SIXTH ST. SANTA MONICA
(Brecht na Califórnia)
Pede-se-nos complacência
para com os bons selvagens,
se olham com expressão amável
e vazia a nobreza romana banida
de uma vez para o Ponto.
Aqui prossegue uma existência insular
essa Weimar das sombras,
com a sua moral rígida e os costumes austeros,
as disputas vãs e recorrentes
sobre os sentidos que toma a guerra
na Europa, como se aí um outro vivesse
o prolongamento das suas vidas amputadas
nesta margem leve e frívola da América.
Ei-la reduzida a assistir de longe,
com um oceano e um continente de permeio,
às mortes na família.
Trocam currículos e carreiras,
affidavit e declarações de rendimentos válidas por cinco anos,
pelo direito de habitar este litoral de palmeiras
e limoeiros de meridional Itália,
mas onde a musa se não demora
a soprar ventos da Cítia
entre barcos, redes de pesca
e ninfas de praia (californianas).
Vieram para morrer entre os Getas,
adeptos do surf & da bricolage,
entre casinos, estúdios de cinema
e poços de petróleo.
Sabemos como a vida imita os filmes.
Os mitos no tempo da física
são como as estrelas poeira sem brilho
num mundo de luz artificial
e poesia impossível —
pois como compor uma ode
ao deus menor que move,
acima do rumor de pneumáticos e motores,
os mecanismos da sorte
em Sunset Boulevard?
Pede-se-nos complacência
para com os bons selvagens,
se olham com expressão amável
e vazia a nobreza romana banida
de uma vez para o Ponto.
Aqui prossegue uma existência insular
essa Weimar das sombras,
com a sua moral rígida e os costumes austeros,
as disputas vãs e recorrentes
sobre os sentidos que toma a guerra
na Europa, como se aí um outro vivesse
o prolongamento das suas vidas amputadas
nesta margem leve e frívola da América.
Ei-la reduzida a assistir de longe,
com um oceano e um continente de permeio,
às mortes na família.
Trocam currículos e carreiras,
affidavit e declarações de rendimentos válidas por cinco anos,
pelo direito de habitar este litoral de palmeiras
e limoeiros de meridional Itália,
mas onde a musa se não demora
a soprar ventos da Cítia
entre barcos, redes de pesca
e ninfas de praia (californianas).
Vieram para morrer entre os Getas,
adeptos do surf & da bricolage,
entre casinos, estúdios de cinema
e poços de petróleo.
Sabemos como a vida imita os filmes.
Os mitos no tempo da física
são como as estrelas poeira sem brilho
num mundo de luz artificial
e poesia impossível —
pois como compor uma ode
ao deus menor que move,
acima do rumor de pneumáticos e motores,
os mecanismos da sorte
em Sunset Boulevard?
586
Paulo Teixeira
1063 TWENTY-SIXTH ST. SANTA MONICA
(Brecht na Califórnia)
Pede-se-nos complacência
para com os bons selvagens,
se olham com expressão amável
e vazia a nobreza romana banida
de uma vez para o Ponto.
Aqui prossegue uma existência insular
essa Weimar das sombras,
com a sua moral rígida e os costumes austeros,
as disputas vãs e recorrentes
sobre os sentidos que toma a guerra
na Europa, como se aí um outro vivesse
o prolongamento das suas vidas amputadas
nesta margem leve e frívola da América.
Ei-la reduzida a assistir de longe,
com um oceano e um continente de permeio,
às mortes na família.
Trocam currículos e carreiras,
affidavit e declarações de rendimentos válidas por cinco anos,
pelo direito de habitar este litoral de palmeiras
e limoeiros de meridional Itália,
mas onde a musa se não demora
a soprar ventos da Cítia
entre barcos, redes de pesca
e ninfas de praia (californianas).
Vieram para morrer entre os Getas,
adeptos do surf & da bricolage,
entre casinos, estúdios de cinema
e poços de petróleo.
Sabemos como a vida imita os filmes.
Os mitos no tempo da física
são como as estrelas poeira sem brilho
num mundo de luz artificial
e poesia impossível —
pois como compor uma ode
ao deus menor que move,
acima do rumor de pneumáticos e motores,
os mecanismos da sorte
em Sunset Boulevard?
Pede-se-nos complacência
para com os bons selvagens,
se olham com expressão amável
e vazia a nobreza romana banida
de uma vez para o Ponto.
Aqui prossegue uma existência insular
essa Weimar das sombras,
com a sua moral rígida e os costumes austeros,
as disputas vãs e recorrentes
sobre os sentidos que toma a guerra
na Europa, como se aí um outro vivesse
o prolongamento das suas vidas amputadas
nesta margem leve e frívola da América.
Ei-la reduzida a assistir de longe,
com um oceano e um continente de permeio,
às mortes na família.
Trocam currículos e carreiras,
affidavit e declarações de rendimentos válidas por cinco anos,
pelo direito de habitar este litoral de palmeiras
e limoeiros de meridional Itália,
mas onde a musa se não demora
a soprar ventos da Cítia
entre barcos, redes de pesca
e ninfas de praia (californianas).
Vieram para morrer entre os Getas,
adeptos do surf & da bricolage,
entre casinos, estúdios de cinema
e poços de petróleo.
Sabemos como a vida imita os filmes.
Os mitos no tempo da física
são como as estrelas poeira sem brilho
num mundo de luz artificial
e poesia impossível —
pois como compor uma ode
ao deus menor que move,
acima do rumor de pneumáticos e motores,
os mecanismos da sorte
em Sunset Boulevard?
586
Paulo Teixeira
Carta do Pacífico
Rot ist der Abend auf der Insel von Palau
und die Schatten sinken —
Gottfried Benn
Querem-me de volta
deste posto avançado do Império
e eu quero ser só massa de gelo do Norte
à deriva em águas quentes.
Vaguear de ilha em ilha
seguindo a pista que os seus nomes
gravaram num mapa mudo,
tendo por religião esta imoralidade
amável de quem mostra as partes sem pudor,
e meditar sob um telhado em forma de cone
a um deus sem nome ainda.
Apanhar o que o mar traz à praia,
as mercadorias lançadas pelos vapores de passagem,
folhas de palma, mangas e papaias,
no bolso escondido um punhal malaio.
Podia morrer aqui — esplendidamente.
Proscrito, exilado,
banido eu mesmo da Fama,
só, mas valente e leal ao meu nome,
sem armas nem mea culpa,
com um grande vazio na memória —
sob outra constelação zodiacal.
Querem-me salvo e praticável
e eu desejo é estar à margem,
ser orla, limítrofe,
lá onde no molhe rebenta a onda
que vem de longe e chega aos pés da casa.
Nada me redime
e sei que nada mereço —
honras e comendas,
rendas e reparações de guerra.
A minha réplica preferida é a brisa.
Este o meu cavalete —
curvas, meandros,
uma enseada na hora
em que se atenuam os contornos
e se resolve, num misto de fumo e de névoa,
a última disposição atmosférica.
A floresta das chuvas
abriu clareiras de verde
no Pacífico azul.
O mundo é uma elegia distante
e a Europa: esta ficção retrospectiva.
und die Schatten sinken —
Gottfried Benn
Querem-me de volta
deste posto avançado do Império
e eu quero ser só massa de gelo do Norte
à deriva em águas quentes.
Vaguear de ilha em ilha
seguindo a pista que os seus nomes
gravaram num mapa mudo,
tendo por religião esta imoralidade
amável de quem mostra as partes sem pudor,
e meditar sob um telhado em forma de cone
a um deus sem nome ainda.
Apanhar o que o mar traz à praia,
as mercadorias lançadas pelos vapores de passagem,
folhas de palma, mangas e papaias,
no bolso escondido um punhal malaio.
Podia morrer aqui — esplendidamente.
Proscrito, exilado,
banido eu mesmo da Fama,
só, mas valente e leal ao meu nome,
sem armas nem mea culpa,
com um grande vazio na memória —
sob outra constelação zodiacal.
Querem-me salvo e praticável
e eu desejo é estar à margem,
ser orla, limítrofe,
lá onde no molhe rebenta a onda
que vem de longe e chega aos pés da casa.
Nada me redime
e sei que nada mereço —
honras e comendas,
rendas e reparações de guerra.
A minha réplica preferida é a brisa.
Este o meu cavalete —
curvas, meandros,
uma enseada na hora
em que se atenuam os contornos
e se resolve, num misto de fumo e de névoa,
a última disposição atmosférica.
A floresta das chuvas
abriu clareiras de verde
no Pacífico azul.
O mundo é uma elegia distante
e a Europa: esta ficção retrospectiva.
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