Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Golgona Anghel
Meia-noite todo dia
Meia-noite todo dia
Tenho humor e vendo-o barato.
Muita gente gosta disto.
Dá-me gozo cozinhar
e penso que até sei fazer bem tiramisú e
chocos à lagareiro.
Não tenho dívidas fiscais
e sou beneficiário de um seguro de saúde do estado.
Já visitei 24 países, entre os quais a Síria, o Nepal e
a Nova Caledónia.
Dormi nas noites brancas da Lapónia;
cacei um tigre na selva subsaariana;
dei aulas de história ocidental a crianças subnutridas, numa
aldeia de Bangladesh,
e vi Charlize Theron gorda no filme "Monster".
Um dia vou adoptar uma menina órfã de Afeganistão.
Estou apenas à espera que os americanos
parem os bombardeamentos em Cabul.
Até lá, compro todos os anos
um postal humanitário da Unicef.
À distância de um click, vocês também podem ser sócios do
Grupo de Apoio às vítimas da malária.
Só me falta agora pagar
um crédito de 300.000,00 euros para ser feliz.
Tenho humor e vendo-o barato.
Muita gente gosta disto.
Dá-me gozo cozinhar
e penso que até sei fazer bem tiramisú e
chocos à lagareiro.
Não tenho dívidas fiscais
e sou beneficiário de um seguro de saúde do estado.
Já visitei 24 países, entre os quais a Síria, o Nepal e
a Nova Caledónia.
Dormi nas noites brancas da Lapónia;
cacei um tigre na selva subsaariana;
dei aulas de história ocidental a crianças subnutridas, numa
aldeia de Bangladesh,
e vi Charlize Theron gorda no filme "Monster".
Um dia vou adoptar uma menina órfã de Afeganistão.
Estou apenas à espera que os americanos
parem os bombardeamentos em Cabul.
Até lá, compro todos os anos
um postal humanitário da Unicef.
À distância de um click, vocês também podem ser sócios do
Grupo de Apoio às vítimas da malária.
Só me falta agora pagar
um crédito de 300.000,00 euros para ser feliz.
931
Golgona Anghel
Meia-noite todo dia
Meia-noite todo dia
Tenho humor e vendo-o barato.
Muita gente gosta disto.
Dá-me gozo cozinhar
e penso que até sei fazer bem tiramisú e
chocos à lagareiro.
Não tenho dívidas fiscais
e sou beneficiário de um seguro de saúde do estado.
Já visitei 24 países, entre os quais a Síria, o Nepal e
a Nova Caledónia.
Dormi nas noites brancas da Lapónia;
cacei um tigre na selva subsaariana;
dei aulas de história ocidental a crianças subnutridas, numa
aldeia de Bangladesh,
e vi Charlize Theron gorda no filme "Monster".
Um dia vou adoptar uma menina órfã de Afeganistão.
Estou apenas à espera que os americanos
parem os bombardeamentos em Cabul.
Até lá, compro todos os anos
um postal humanitário da Unicef.
À distância de um click, vocês também podem ser sócios do
Grupo de Apoio às vítimas da malária.
Só me falta agora pagar
um crédito de 300.000,00 euros para ser feliz.
Tenho humor e vendo-o barato.
Muita gente gosta disto.
Dá-me gozo cozinhar
e penso que até sei fazer bem tiramisú e
chocos à lagareiro.
Não tenho dívidas fiscais
e sou beneficiário de um seguro de saúde do estado.
Já visitei 24 países, entre os quais a Síria, o Nepal e
a Nova Caledónia.
Dormi nas noites brancas da Lapónia;
cacei um tigre na selva subsaariana;
dei aulas de história ocidental a crianças subnutridas, numa
aldeia de Bangladesh,
e vi Charlize Theron gorda no filme "Monster".
Um dia vou adoptar uma menina órfã de Afeganistão.
Estou apenas à espera que os americanos
parem os bombardeamentos em Cabul.
Até lá, compro todos os anos
um postal humanitário da Unicef.
À distância de um click, vocês também podem ser sócios do
Grupo de Apoio às vítimas da malária.
Só me falta agora pagar
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931
Golgona Anghel
Meia-noite todo dia
Meia-noite todo dia
Tenho humor e vendo-o barato.
Muita gente gosta disto.
Dá-me gozo cozinhar
e penso que até sei fazer bem tiramisú e
chocos à lagareiro.
Não tenho dívidas fiscais
e sou beneficiário de um seguro de saúde do estado.
Já visitei 24 países, entre os quais a Síria, o Nepal e
a Nova Caledónia.
Dormi nas noites brancas da Lapónia;
cacei um tigre na selva subsaariana;
dei aulas de história ocidental a crianças subnutridas, numa
aldeia de Bangladesh,
e vi Charlize Theron gorda no filme "Monster".
Um dia vou adoptar uma menina órfã de Afeganistão.
Estou apenas à espera que os americanos
parem os bombardeamentos em Cabul.
Até lá, compro todos os anos
um postal humanitário da Unicef.
À distância de um click, vocês também podem ser sócios do
Grupo de Apoio às vítimas da malária.
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Muita gente gosta disto.
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e penso que até sei fazer bem tiramisú e
chocos à lagareiro.
Não tenho dívidas fiscais
e sou beneficiário de um seguro de saúde do estado.
Já visitei 24 países, entre os quais a Síria, o Nepal e
a Nova Caledónia.
Dormi nas noites brancas da Lapónia;
cacei um tigre na selva subsaariana;
dei aulas de história ocidental a crianças subnutridas, numa
aldeia de Bangladesh,
e vi Charlize Theron gorda no filme "Monster".
Um dia vou adoptar uma menina órfã de Afeganistão.
Estou apenas à espera que os americanos
parem os bombardeamentos em Cabul.
Até lá, compro todos os anos
um postal humanitário da Unicef.
À distância de um click, vocês também podem ser sócios do
Grupo de Apoio às vítimas da malária.
Só me falta agora pagar
um crédito de 300.000,00 euros para ser feliz.
931
Golgona Anghel
Meia-noite todo dia
Meia-noite todo dia
Tenho humor e vendo-o barato.
Muita gente gosta disto.
Dá-me gozo cozinhar
e penso que até sei fazer bem tiramisú e
chocos à lagareiro.
Não tenho dívidas fiscais
e sou beneficiário de um seguro de saúde do estado.
Já visitei 24 países, entre os quais a Síria, o Nepal e
a Nova Caledónia.
Dormi nas noites brancas da Lapónia;
cacei um tigre na selva subsaariana;
dei aulas de história ocidental a crianças subnutridas, numa
aldeia de Bangladesh,
e vi Charlize Theron gorda no filme "Monster".
Um dia vou adoptar uma menina órfã de Afeganistão.
Estou apenas à espera que os americanos
parem os bombardeamentos em Cabul.
Até lá, compro todos os anos
um postal humanitário da Unicef.
À distância de um click, vocês também podem ser sócios do
Grupo de Apoio às vítimas da malária.
Só me falta agora pagar
um crédito de 300.000,00 euros para ser feliz.
Tenho humor e vendo-o barato.
Muita gente gosta disto.
Dá-me gozo cozinhar
e penso que até sei fazer bem tiramisú e
chocos à lagareiro.
Não tenho dívidas fiscais
e sou beneficiário de um seguro de saúde do estado.
Já visitei 24 países, entre os quais a Síria, o Nepal e
a Nova Caledónia.
Dormi nas noites brancas da Lapónia;
cacei um tigre na selva subsaariana;
dei aulas de história ocidental a crianças subnutridas, numa
aldeia de Bangladesh,
e vi Charlize Theron gorda no filme "Monster".
Um dia vou adoptar uma menina órfã de Afeganistão.
Estou apenas à espera que os americanos
parem os bombardeamentos em Cabul.
Até lá, compro todos os anos
um postal humanitário da Unicef.
À distância de um click, vocês também podem ser sócios do
Grupo de Apoio às vítimas da malária.
Só me falta agora pagar
um crédito de 300.000,00 euros para ser feliz.
931
Golgona Anghel
Os pássaros estão a cair como pedras do céu
Os pássaros estão a cair como pedras do céu
Sobra um pintassilgo na nossa cozinha
a abanar a sua gaiola com as asas.
Mas o protagonista tranquiliza-o
com um dardo.
Vou apenas na página cinquenta do livro
e já matei toda a gente.
Avanço na leitura como
um carniceiro desliza na carne,
afastando os corpos com a ponta metálica
das botas, apoiando a minha bengala
em umbigos e bocas abertas.
Com é possível,
viver normalmente, sentir-me bem até
e, no entanto, usar uma faca em vez e caneta,
pensar em ti,
imaginar-te por dentro,
provar-te com o dedo,
como se prova uma melancia no supermercado?
Tenho medo de tornar-me um maníaco.
Perder a cabeça. Entrar em ti
um dia e sair do outro lado
com o teu coração espetado na ponta
de uma varinha mágica.
Tenho vergonha de...
Regresso a pé, apanho chuva,
desprezo putas, cumprimento desconhecidos.
Regresso encolhido de frio,
com a cara suja, os pés molhados.
Dás-me uma sopa quente
e adormeço na cadeira da cozinha
encostado na porta do forno
enquanto me passas a ferro a camisa
para o dia seguinte.
Sobra um pintassilgo na nossa cozinha
a abanar a sua gaiola com as asas.
Mas o protagonista tranquiliza-o
com um dardo.
Vou apenas na página cinquenta do livro
e já matei toda a gente.
Avanço na leitura como
um carniceiro desliza na carne,
afastando os corpos com a ponta metálica
das botas, apoiando a minha bengala
em umbigos e bocas abertas.
Com é possível,
viver normalmente, sentir-me bem até
e, no entanto, usar uma faca em vez e caneta,
pensar em ti,
imaginar-te por dentro,
provar-te com o dedo,
como se prova uma melancia no supermercado?
Tenho medo de tornar-me um maníaco.
Perder a cabeça. Entrar em ti
um dia e sair do outro lado
com o teu coração espetado na ponta
de uma varinha mágica.
Tenho vergonha de...
Regresso a pé, apanho chuva,
desprezo putas, cumprimento desconhecidos.
Regresso encolhido de frio,
com a cara suja, os pés molhados.
Dás-me uma sopa quente
e adormeço na cadeira da cozinha
encostado na porta do forno
enquanto me passas a ferro a camisa
para o dia seguinte.
1 092
Golgona Anghel
Sacrifiquei sem nenhum remorso
Sacrifiquei sem nenhum remorso
os talheres de prata, o açúcar e os licores franceses.
Contudo, não precisei de empurrar nenhuma velha
para avançar na fila.
Quando apanhei o caminho certo,
a sorte abriu, sem hesitar, as pernas.
A partir daí foi fácil:
hoje, um ovo, amanhã, uma vaca.
Tudo isso, no pantanal do Oeste,
bem longe das grandes metrópoles
e do brilho das montras,
mas onde aprendi a cultivar a leveza
e a ouvir o canto do galo
que, por estes lados da madrugada,
tanto serve de despertador
como para a canja.
os talheres de prata, o açúcar e os licores franceses.
Contudo, não precisei de empurrar nenhuma velha
para avançar na fila.
Quando apanhei o caminho certo,
a sorte abriu, sem hesitar, as pernas.
A partir daí foi fácil:
hoje, um ovo, amanhã, uma vaca.
Tudo isso, no pantanal do Oeste,
bem longe das grandes metrópoles
e do brilho das montras,
mas onde aprendi a cultivar a leveza
e a ouvir o canto do galo
que, por estes lados da madrugada,
tanto serve de despertador
como para a canja.
841
Golgona Anghel
O desenho era tão simples
O desenho era tão simples
que ninguém se deu ao trabalho de ler as instruções até ao fim.
Bastava seguir a intuição.
Abrir o bico e agarrar o primeiro anzol
que a necessidade atirava no escuro.
Sigam as luzes, diziam lá em cima.
Mas, cá em baixo, a rede era tão larga
que os grandes peixes conseguiam passar.
Questão de olhómetro,
asseguravam os mais experientes.
Seria então preciso
baixar o tom,
esperar deitado para poupar nas calorias,
abreviar os gestos,
desligar os motores,
reduzir o desperdício,
concentrar a fé
num só lugar:
julgar que o fumo dos cigarros
acaba sempre por confundir-se com as nuvens.
que ninguém se deu ao trabalho de ler as instruções até ao fim.
Bastava seguir a intuição.
Abrir o bico e agarrar o primeiro anzol
que a necessidade atirava no escuro.
Sigam as luzes, diziam lá em cima.
Mas, cá em baixo, a rede era tão larga
que os grandes peixes conseguiam passar.
Questão de olhómetro,
asseguravam os mais experientes.
Seria então preciso
baixar o tom,
esperar deitado para poupar nas calorias,
abreviar os gestos,
desligar os motores,
reduzir o desperdício,
concentrar a fé
num só lugar:
julgar que o fumo dos cigarros
acaba sempre por confundir-se com as nuvens.
869
Golgona Anghel
Querido Félix, a vida continua cruel
Querido Félix, a vida continua cruel,
mas igualmente necessária.
Alegra-me sobremaneira saber que estejas mais perto,
embora não menos difícil de imaginar.
Alegra-me e posso, até, dizer que me entusiasma
a esperança de que haja ainda atalhos que funcionam,
de modo que brindo em honra dos teus exílios
enquanto me curo com aguardente as feridas dos pés.
Há regressos que nos tiram pedaços do corpo,
em troca de um lugar para sentar-nos, embora
os dissidentes não se sentem nunca,
por mais baratos que nos vendam os sofás.
Não se sentam nem se cansam.
Gastamo-nos apenas,
como meros bocados de sabão
onde os nossos pais cravaram
as suas lâminas de barbear.
mas igualmente necessária.
Alegra-me sobremaneira saber que estejas mais perto,
embora não menos difícil de imaginar.
Alegra-me e posso, até, dizer que me entusiasma
a esperança de que haja ainda atalhos que funcionam,
de modo que brindo em honra dos teus exílios
enquanto me curo com aguardente as feridas dos pés.
Há regressos que nos tiram pedaços do corpo,
em troca de um lugar para sentar-nos, embora
os dissidentes não se sentem nunca,
por mais baratos que nos vendam os sofás.
Não se sentam nem se cansam.
Gastamo-nos apenas,
como meros bocados de sabão
onde os nossos pais cravaram
as suas lâminas de barbear.
897
Golgona Anghel
Aos Sábados repousava
Aos Sábados repousava:
instalava-me no lugar mais cómodo
da minha cultura ocidental,
de cachimbo num quadro de época,
e levantava com o olhar
as rolas passeabundas da marquise.
Nos intervalos,
cultivava em pequenos parágrafos,
ao lado de couves-flor à sombra dum ginjal,
a história universal
do jeito como andas pela sala,
Adélia, Rosa-Maria, Lulú,
toda feita de rendas, toda gazes e veludos,
toda cheia de recantos africanos,
penas e cheiros, paisagens com garrafas,
pretos e pelicanos,
savanas e leopardos, minas gerais,
anéis e diamantes,
casas de campo em Vigo, Barcelona, Abrantes,
toda feita contas em dólares nos bancos da Suíça,
vistos para Estados Unidos,
minha fufa, minha farofa com linguiça,
toda Armani,
toda Gucci,
toda despida nos filmes de Mizoguchi.
À mesma hora,
na sala de microfilmes da Torre do Tombo,
uma turma de dez alunos curiosos
desfia o pergaminho do meu cancioneiro pessoal
num aparato crítico fundamental:
Filho de mãe incógnita,
fruto de um amor irregular,
(toma nota e vê lá se aprendes):
Carlos Fradique Mendes.
instalava-me no lugar mais cómodo
da minha cultura ocidental,
de cachimbo num quadro de época,
e levantava com o olhar
as rolas passeabundas da marquise.
Nos intervalos,
cultivava em pequenos parágrafos,
ao lado de couves-flor à sombra dum ginjal,
a história universal
do jeito como andas pela sala,
Adélia, Rosa-Maria, Lulú,
toda feita de rendas, toda gazes e veludos,
toda cheia de recantos africanos,
penas e cheiros, paisagens com garrafas,
pretos e pelicanos,
savanas e leopardos, minas gerais,
anéis e diamantes,
casas de campo em Vigo, Barcelona, Abrantes,
toda feita contas em dólares nos bancos da Suíça,
vistos para Estados Unidos,
minha fufa, minha farofa com linguiça,
toda Armani,
toda Gucci,
toda despida nos filmes de Mizoguchi.
À mesma hora,
na sala de microfilmes da Torre do Tombo,
uma turma de dez alunos curiosos
desfia o pergaminho do meu cancioneiro pessoal
num aparato crítico fundamental:
Filho de mãe incógnita,
fruto de um amor irregular,
(toma nota e vê lá se aprendes):
Carlos Fradique Mendes.
611
Golgona Anghel
Aos Sábados repousava
Aos Sábados repousava:
instalava-me no lugar mais cómodo
da minha cultura ocidental,
de cachimbo num quadro de época,
e levantava com o olhar
as rolas passeabundas da marquise.
Nos intervalos,
cultivava em pequenos parágrafos,
ao lado de couves-flor à sombra dum ginjal,
a história universal
do jeito como andas pela sala,
Adélia, Rosa-Maria, Lulú,
toda feita de rendas, toda gazes e veludos,
toda cheia de recantos africanos,
penas e cheiros, paisagens com garrafas,
pretos e pelicanos,
savanas e leopardos, minas gerais,
anéis e diamantes,
casas de campo em Vigo, Barcelona, Abrantes,
toda feita contas em dólares nos bancos da Suíça,
vistos para Estados Unidos,
minha fufa, minha farofa com linguiça,
toda Armani,
toda Gucci,
toda despida nos filmes de Mizoguchi.
À mesma hora,
na sala de microfilmes da Torre do Tombo,
uma turma de dez alunos curiosos
desfia o pergaminho do meu cancioneiro pessoal
num aparato crítico fundamental:
Filho de mãe incógnita,
fruto de um amor irregular,
(toma nota e vê lá se aprendes):
Carlos Fradique Mendes.
instalava-me no lugar mais cómodo
da minha cultura ocidental,
de cachimbo num quadro de época,
e levantava com o olhar
as rolas passeabundas da marquise.
Nos intervalos,
cultivava em pequenos parágrafos,
ao lado de couves-flor à sombra dum ginjal,
a história universal
do jeito como andas pela sala,
Adélia, Rosa-Maria, Lulú,
toda feita de rendas, toda gazes e veludos,
toda cheia de recantos africanos,
penas e cheiros, paisagens com garrafas,
pretos e pelicanos,
savanas e leopardos, minas gerais,
anéis e diamantes,
casas de campo em Vigo, Barcelona, Abrantes,
toda feita contas em dólares nos bancos da Suíça,
vistos para Estados Unidos,
minha fufa, minha farofa com linguiça,
toda Armani,
toda Gucci,
toda despida nos filmes de Mizoguchi.
À mesma hora,
na sala de microfilmes da Torre do Tombo,
uma turma de dez alunos curiosos
desfia o pergaminho do meu cancioneiro pessoal
num aparato crítico fundamental:
Filho de mãe incógnita,
fruto de um amor irregular,
(toma nota e vê lá se aprendes):
Carlos Fradique Mendes.
611
Golgona Anghel
Comodista hesitante,
Comodista hesitante,
protegido das cabeleireiras
e cliente frequente dos feriados nacionais,
acredita nos encontros fortuitos
assim como um relógio estragado
acredita aproximar-se de uma hora astral.
Estes hábitos podem até ser tolerados
em contos naturalistas
e reality showers.
Nós, aqui, little stranger,
degolamos pardais e fadas de porcelana.
Cobramos interesses à alegria
e vendemos suites com piscina na lua.
A batalha é nossa,
já alugámos as trincheiras,
mas custa tanto tirar os pijamas.
protegido das cabeleireiras
e cliente frequente dos feriados nacionais,
acredita nos encontros fortuitos
assim como um relógio estragado
acredita aproximar-se de uma hora astral.
Estes hábitos podem até ser tolerados
em contos naturalistas
e reality showers.
Nós, aqui, little stranger,
degolamos pardais e fadas de porcelana.
Cobramos interesses à alegria
e vendemos suites com piscina na lua.
A batalha é nossa,
já alugámos as trincheiras,
mas custa tanto tirar os pijamas.
1 009
Golgona Anghel
Vivemos submersos num plasma nutritivo
Vivemos submersos num plasma nutritivo
que nos garante um crescimento rápido e de excepção
com talentos singulares,
e sonhos que não precisam de ser actualizados -
basta apenas afinar a sua desordem estética.
Temos aceso a uma vida desprovida de acasos,
onde colónias de bactérias sangram invejosas,
esmagadas a milhas pela radiação do nosso olhar.
Dotados de um sistema automático
de identificação e resolução de erros,
dirigimos à distância um código sentimental simplificado.
Acumulamos dados, analisamos sinais.
Não conseguimos conceber um desastre maior
que a falta de bateria no comando.
que nos garante um crescimento rápido e de excepção
com talentos singulares,
e sonhos que não precisam de ser actualizados -
basta apenas afinar a sua desordem estética.
Temos aceso a uma vida desprovida de acasos,
onde colónias de bactérias sangram invejosas,
esmagadas a milhas pela radiação do nosso olhar.
Dotados de um sistema automático
de identificação e resolução de erros,
dirigimos à distância um código sentimental simplificado.
Acumulamos dados, analisamos sinais.
Não conseguimos conceber um desastre maior
que a falta de bateria no comando.
1 088
Golgona Anghel
Poeta na Praça da Alegria
Não sou infeliz. Não, não me quero matar.
Tenho até uma certa simpatia por esta vida
passada nos autocarros,
para cima e para baixo.
Gosto das minhas férias
em frente da televisão.
Adoro essas mulheres com ar banal
que entram em directo no canal.
Gosto desses homens com bigodes e pulseiras grossas.
Acredito nos milagres de Fátima
e no bacalhau com broa.
Gosto dessa gente toda.
Quero ser um deles.
Não, não guardo nenhum sentido escondido.
Estas palavras, aliás, podem ser encontradas
em todos os números da revista Caras.
A ordem às vezes muda.
Não quero que me façam nenhuma análise do poema.
Não, não escrevam teses, por favor.
Isto é apenas um croché
esquecido em cima do refrigerador.
Obrigado por terem vindo cá para me beijarem o anel.
Obrigado por procurarem a eternidade da raça.
Mas a poesia, mes chers, não salva, não brilha, só caça.
Tenho até uma certa simpatia por esta vida
passada nos autocarros,
para cima e para baixo.
Gosto das minhas férias
em frente da televisão.
Adoro essas mulheres com ar banal
que entram em directo no canal.
Gosto desses homens com bigodes e pulseiras grossas.
Acredito nos milagres de Fátima
e no bacalhau com broa.
Gosto dessa gente toda.
Quero ser um deles.
Não, não guardo nenhum sentido escondido.
Estas palavras, aliás, podem ser encontradas
em todos os números da revista Caras.
A ordem às vezes muda.
Não quero que me façam nenhuma análise do poema.
Não, não escrevam teses, por favor.
Isto é apenas um croché
esquecido em cima do refrigerador.
Obrigado por terem vindo cá para me beijarem o anel.
Obrigado por procurarem a eternidade da raça.
Mas a poesia, mes chers, não salva, não brilha, só caça.
1 117
Golgona Anghel
Devia escrever coisas mais divertidas
Devia escrever coisas mais divertidas,
entreter as massas.
Evitar, ao menos, cenas tristes,
mudar de roupa uma vez por mês.
Podia, decerto, afastar-me, sair do corpo,
dos seus humores.
Entrar na biopolítica usar os seus métodos.
Engravidar uma ideia alegre.
Enfim, nada contra os suicidas de carreira
e os demais performers do além.
Não é que não me apeteça largar-te
num eléctrico sem travões.
Deixar-te num país estrangeiro,
sem dinheiro e sem memória.
Não se iludam, ainda sei baixar as calças.
Fazer o truque.
Mas se o meu psiquiatra ler este livro,
vai achar que o tratamento
já não funciona.
entreter as massas.
Evitar, ao menos, cenas tristes,
mudar de roupa uma vez por mês.
Podia, decerto, afastar-me, sair do corpo,
dos seus humores.
Entrar na biopolítica usar os seus métodos.
Engravidar uma ideia alegre.
Enfim, nada contra os suicidas de carreira
e os demais performers do além.
Não é que não me apeteça largar-te
num eléctrico sem travões.
Deixar-te num país estrangeiro,
sem dinheiro e sem memória.
Não se iludam, ainda sei baixar as calças.
Fazer o truque.
Mas se o meu psiquiatra ler este livro,
vai achar que o tratamento
já não funciona.
1 098
Golgona Anghel
Porque falta meia hora
Porque falta meia hora antes de
tomar o comprimido para dormir,
porque mesmo depois de tanto tempo
fazes de mim o filho com síndroma de Down
de Arthur Miller,
porque escrever não é só abrir cabeças
com o bisturi de Lacan,
e porque um poema não é a Isabella Rossellini
a chorar todos os sábados à noite,
nem o casal encontrado abraçado
na paralisia bucal do Vesúvio.
Porque a poesia não é a ponte Mirabeau
num cartaz de néon de adolescência,
porque hoje, quando ligaste,
era apenas porque te tinhas enganado no número,
porque estou cansado, voilá,
e não consigo evitar a noite,
penso agora em ti, Juliana,
heroína no sentido naturalista do termo,
penso sobretudo no teu arzinho
de provocação e de ataque.
Podias ter sido a Maria Eduarda
do cinema norte-americano,
a rapariga que ajudou a pôr fim à guerra no Vietname,
a Frida Kahlo e o Kofi Annan,
a estátua de Notre Dame.
O teu sentido reformista,
o teu olhar de Eça socialista,
cá está,
tinhas cabeça para embaixadora da boa vontade,
pés para andar nos corredores da ONU,
o feitio da botina, a mania, a despesa.
Mas continuas a dormir no teu cacifo húmido,
de cara para a parede
enquanto 20 repúblicas foram perpetuando
campanhas eleitorais e golpes de estado
nos jornais com os quais limpas os vidros da cozinha.
Coitada, coitadinha, coitadíssima,
permaneces na sala, um pouco pálida e fraca,
mas restituída aos deveres domésticos
e aos prazeres da sociedade!
O feitio da botina, a mania, a despesa,
o cheiro a terebintina.
Ó Juliana Couceiro Tavira, per omnia saecula,
chega para cá a garrafa e o cinzeiro;
temos assuntos por tratar e meia hora de critérios.
tomar o comprimido para dormir,
porque mesmo depois de tanto tempo
fazes de mim o filho com síndroma de Down
de Arthur Miller,
porque escrever não é só abrir cabeças
com o bisturi de Lacan,
e porque um poema não é a Isabella Rossellini
a chorar todos os sábados à noite,
nem o casal encontrado abraçado
na paralisia bucal do Vesúvio.
Porque a poesia não é a ponte Mirabeau
num cartaz de néon de adolescência,
porque hoje, quando ligaste,
era apenas porque te tinhas enganado no número,
porque estou cansado, voilá,
e não consigo evitar a noite,
penso agora em ti, Juliana,
heroína no sentido naturalista do termo,
penso sobretudo no teu arzinho
de provocação e de ataque.
Podias ter sido a Maria Eduarda
do cinema norte-americano,
a rapariga que ajudou a pôr fim à guerra no Vietname,
a Frida Kahlo e o Kofi Annan,
a estátua de Notre Dame.
O teu sentido reformista,
o teu olhar de Eça socialista,
cá está,
tinhas cabeça para embaixadora da boa vontade,
pés para andar nos corredores da ONU,
o feitio da botina, a mania, a despesa.
Mas continuas a dormir no teu cacifo húmido,
de cara para a parede
enquanto 20 repúblicas foram perpetuando
campanhas eleitorais e golpes de estado
nos jornais com os quais limpas os vidros da cozinha.
Coitada, coitadinha, coitadíssima,
permaneces na sala, um pouco pálida e fraca,
mas restituída aos deveres domésticos
e aos prazeres da sociedade!
O feitio da botina, a mania, a despesa,
o cheiro a terebintina.
Ó Juliana Couceiro Tavira, per omnia saecula,
chega para cá a garrafa e o cinzeiro;
temos assuntos por tratar e meia hora de critérios.
1 020
Golgona Anghel
Estou estendido no meu leito de morte
Estou estendido no meu leito de morte,
rodeado de chás da Malásia e ovas de esturjão.
Tenho as mãos fracas.
Mal consigo fazer abanar os cubos de gelo no copo.
Queria, talvez, mais carne, mais sol e mais sabor.
Respiro por enquanto por um tubo.
Transpiro Bushmills.
Chamo-te de tempo a tempos
e a minha voz faz eco.
Tens uma televisão só para ti,
mas não ouves bem, nem usas aparelho.
Com as ancas grossas de beduína,
saltas de uma crónica da expansão ultramarina,
para me limpares o pó dos cornos e trocares os lençóis azedos.
O teu ofício é seres parda, solta na fala,
simplória nos gestos.
Não lavras nem crias.
Os vidros tremem quando falas.
Os gatos fogem quando chegas.
Queres-me morto.
Só não és perigosa
porque és uma preguiçosa de merda
e te faltam a auto-disciplina,
frieza e distanciamento necessários.
Queres mais é umas férias na Disneylândia.
Queres de mim tudo menos a cadela e a porra desta vida.
Queres de mim um colar de margaridas,
uma nuvem
e um par de sapatos puma.
rodeado de chás da Malásia e ovas de esturjão.
Tenho as mãos fracas.
Mal consigo fazer abanar os cubos de gelo no copo.
Queria, talvez, mais carne, mais sol e mais sabor.
Respiro por enquanto por um tubo.
Transpiro Bushmills.
Chamo-te de tempo a tempos
e a minha voz faz eco.
Tens uma televisão só para ti,
mas não ouves bem, nem usas aparelho.
Com as ancas grossas de beduína,
saltas de uma crónica da expansão ultramarina,
para me limpares o pó dos cornos e trocares os lençóis azedos.
O teu ofício é seres parda, solta na fala,
simplória nos gestos.
Não lavras nem crias.
Os vidros tremem quando falas.
Os gatos fogem quando chegas.
Queres-me morto.
Só não és perigosa
porque és uma preguiçosa de merda
e te faltam a auto-disciplina,
frieza e distanciamento necessários.
Queres mais é umas férias na Disneylândia.
Queres de mim tudo menos a cadela e a porra desta vida.
Queres de mim um colar de margaridas,
uma nuvem
e um par de sapatos puma.
1 105
Giorgos Seferis
EXISTE
Existe, pelos deuses cruéis predestinada,
uma dor universal,
e cada um de nós dela pega a sua parte,
quanto aguente levar.
Julgamos insensatos
os que, carregando pressurosamente nos ombros
mais do que podiam carregar,
aliviam assim a carga comum:
os heróis, os mártires, os criminosos.
Rogo-lhes que nos perdoem.
Recordamos.
uma dor universal,
e cada um de nós dela pega a sua parte,
quanto aguente levar.
Julgamos insensatos
os que, carregando pressurosamente nos ombros
mais do que podiam carregar,
aliviam assim a carga comum:
os heróis, os mártires, os criminosos.
Rogo-lhes que nos perdoem.
Recordamos.
729
Giorgos Seferis
De Solstício de verão - VIII
Duro espelho o papel em branco
restitui apenas o que eras.
O papel em branco fala com a tua voz
a tua própria voz
não com a que te agrada;
tua música é a vida
que dissipaste.
Podes recuperá-la se quiseres
se te apegares ao que indiferente
te atira para trás
ao ponto de partida.
Viajaste, viste muitas luas muitos sóis
tocaste vivos e mortos
sentiste a dor do jovem
e o gemido da mulher
e o amargor do menino ainda imaturo —
o que sentiste rui sem fundamento
se não te confias ao vazio.
Talvez ali encontres o que julgavas já perdido:
o renovo da juventude, o justo sossobro da idade.
Tua vida é o que deste
esse vazio é o que deste
o papel em branco.
restitui apenas o que eras.
O papel em branco fala com a tua voz
a tua própria voz
não com a que te agrada;
tua música é a vida
que dissipaste.
Podes recuperá-la se quiseres
se te apegares ao que indiferente
te atira para trás
ao ponto de partida.
Viajaste, viste muitas luas muitos sóis
tocaste vivos e mortos
sentiste a dor do jovem
e o gemido da mulher
e o amargor do menino ainda imaturo —
o que sentiste rui sem fundamento
se não te confias ao vazio.
Talvez ali encontres o que julgavas já perdido:
o renovo da juventude, o justo sossobro da idade.
Tua vida é o que deste
esse vazio é o que deste
o papel em branco.
815
Armando Silva Carvalho
OS DOIS DE LANZAROTE
Eram um casal aéreo, cruzavam aeroportos,
digo eu o delator, o escriba acocorado, e sigo-os
nas suas fantasias voadoras,
açambarcando as nuvens, os romances,
toda a luta de classes
nas longas, estreitíssimas passagens dos jactos
pelo céu alucinante e cru.
Um casal a encher uma península.
Ruídos pérfidos perseguiam a sua alta rota revoltada,
a ela lambuzavam-lhe os vestidos, transparentes,
abertos sobre as nuvens.
E a ele arrancavam-lhe os cabelos
agarrados ao cérebro.
Mas eles voam mais alto, no assombro, mais livres.
Só eu pareço agora um cão acabrunhado
nas coxias deste chão sem ar,
e os olhos presos naquela exuberância.
Eles são dois padrões erguidos na terra retalhada
pelos elegantes domadores da fala,
e do mar mediterrâneo.
Recordai, ó leitores, a exibição da ternura,
a estridência feliz dos abraços frente à multidão,
a imponência do sucesso a pulso.
Um velho, uma mulher madura, uma ilha vulcânica.
E o ar que acolhe os seus impulsos
com a firme decisão de fazer estremecer
o mundo.
digo eu o delator, o escriba acocorado, e sigo-os
nas suas fantasias voadoras,
açambarcando as nuvens, os romances,
toda a luta de classes
nas longas, estreitíssimas passagens dos jactos
pelo céu alucinante e cru.
Um casal a encher uma península.
Ruídos pérfidos perseguiam a sua alta rota revoltada,
a ela lambuzavam-lhe os vestidos, transparentes,
abertos sobre as nuvens.
E a ele arrancavam-lhe os cabelos
agarrados ao cérebro.
Mas eles voam mais alto, no assombro, mais livres.
Só eu pareço agora um cão acabrunhado
nas coxias deste chão sem ar,
e os olhos presos naquela exuberância.
Eles são dois padrões erguidos na terra retalhada
pelos elegantes domadores da fala,
e do mar mediterrâneo.
Recordai, ó leitores, a exibição da ternura,
a estridência feliz dos abraços frente à multidão,
a imponência do sucesso a pulso.
Um velho, uma mulher madura, uma ilha vulcânica.
E o ar que acolhe os seus impulsos
com a firme decisão de fazer estremecer
o mundo.
721
Giorgos Seferis
VIII
Mas que procuram nossas almas viajando
sobre conveses de navios arrasados
espremidas com mulheres amarelas e bebês que choram
sem poder distrair-se nem com os peixes-voadores
nem com as estrelas que os mastros apontam.
Gastas pelos discos dos fonógrafos
amarradas involuntariamente a peregrinações inexistentes
murmurando pensamentos quebrados de línguas
estrangeiras.
Mas que procura nossas almas viajando
nesses cascos podres
de porto em porto?
Movendo pedras quebradas, respirando
com mais dificuldade a cada dia o frescor do pinheiro,
nadando nas águas desse mar
e daquele mar,
sem tato
sem homens
em uma pátria que não é mais nossa
nem vossa.
Sabíamos que eram belas as ilhas
em algum lugar aqui perto que tateamos
um pouco mais baixo ou um pouco mais alto
um ínfimo espaço.
sobre conveses de navios arrasados
espremidas com mulheres amarelas e bebês que choram
sem poder distrair-se nem com os peixes-voadores
nem com as estrelas que os mastros apontam.
Gastas pelos discos dos fonógrafos
amarradas involuntariamente a peregrinações inexistentes
murmurando pensamentos quebrados de línguas
estrangeiras.
Mas que procura nossas almas viajando
nesses cascos podres
de porto em porto?
Movendo pedras quebradas, respirando
com mais dificuldade a cada dia o frescor do pinheiro,
nadando nas águas desse mar
e daquele mar,
sem tato
sem homens
em uma pátria que não é mais nossa
nem vossa.
Sabíamos que eram belas as ilhas
em algum lugar aqui perto que tateamos
um pouco mais baixo ou um pouco mais alto
um ínfimo espaço.
582
Armando Silva Carvalho
O AMOR NAS ESCADAS DO METRO
De quem é o braço?
E os cabelos sujos, roídos pela caspa
e falta de água?
E a perna que enlanguesce sob o tecido ruço
que não retém memória?
Meu deus, dirão os velhos ao descer com vagares
as escadas do metro, a mocidade agora
é sexo só e sujo a rolar pelo chão.
Mas quem deita o olhar com mais ternura
e calma
sobre o novelo dos dois
descobre no ar em volta a tessitura tensa
do desejo, um halo amarrotado pela fugaz curvatura
do sonho.
E na lama pérfida que se sobrepõe aos beijos
a parábola fiel às gerações
da terra.
Forçoso será então que caia a chuva,
e cubra a carne sôfrega
exposta à multidão.
Os solitários amaldiçoam toda a inocência
exibida em degraus, caída de bocas tão imundas,
tão perto do inferno
e do êxtase.
O amor pode ser também dalguns que passam
de olhos feridos,
o coração apertado de sangue
e breve compaixão.
Mas só os dois, ali, enleados na energia da alma,
são um palco da alegria do mundo,
gratuito,
à distância da morte e da sua serpente
circular.
São jovens, e estão a soletrar
tão mansos, o horror apreendido pelas bocas
que despontam,
como a planta se eleva do chão endurecido,
como o animal à luz no limiar do medo.
Os dois, ali, expectantes, transparentes, nus,
na natureza de sempre.
E os cabelos sujos, roídos pela caspa
e falta de água?
E a perna que enlanguesce sob o tecido ruço
que não retém memória?
Meu deus, dirão os velhos ao descer com vagares
as escadas do metro, a mocidade agora
é sexo só e sujo a rolar pelo chão.
Mas quem deita o olhar com mais ternura
e calma
sobre o novelo dos dois
descobre no ar em volta a tessitura tensa
do desejo, um halo amarrotado pela fugaz curvatura
do sonho.
E na lama pérfida que se sobrepõe aos beijos
a parábola fiel às gerações
da terra.
Forçoso será então que caia a chuva,
e cubra a carne sôfrega
exposta à multidão.
Os solitários amaldiçoam toda a inocência
exibida em degraus, caída de bocas tão imundas,
tão perto do inferno
e do êxtase.
O amor pode ser também dalguns que passam
de olhos feridos,
o coração apertado de sangue
e breve compaixão.
Mas só os dois, ali, enleados na energia da alma,
são um palco da alegria do mundo,
gratuito,
à distância da morte e da sua serpente
circular.
São jovens, e estão a soletrar
tão mansos, o horror apreendido pelas bocas
que despontam,
como a planta se eleva do chão endurecido,
como o animal à luz no limiar do medo.
Os dois, ali, expectantes, transparentes, nus,
na natureza de sempre.
750
Nelly Sachs
OH, AS CHAMINÉS
Oh, as chaminés
Sobre as moradas da morte, engenhosamente imaginadas,
Quando o corpo de Israel se elevou, desfeito em fumaça
Pelo ar –
Uma estrela, como limpador de chaminés, o acolheu
E enegreceu
Ou foi um raio de sol?
Oh, as chaminés!
Caminhos de liberdade para o pó de Jeremias e Jó –
Quem vos imaginou e construiu, pedra sobre pedra,
O caminho para os fugitivos-fumaça?
Oh, as moradas da morte,
Convidativamente arranjadas
Para o anfitrião, outrora hóspede –
Ó dedos,
Assentando o limiar da entrada,
Como faca entre a vida e a morte –
Ó chaminés,
Ó dedos,
E o corpo de Israel na fumaça, pelo ar!
Sobre as moradas da morte, engenhosamente imaginadas,
Quando o corpo de Israel se elevou, desfeito em fumaça
Pelo ar –
Uma estrela, como limpador de chaminés, o acolheu
E enegreceu
Ou foi um raio de sol?
Oh, as chaminés!
Caminhos de liberdade para o pó de Jeremias e Jó –
Quem vos imaginou e construiu, pedra sobre pedra,
O caminho para os fugitivos-fumaça?
Oh, as moradas da morte,
Convidativamente arranjadas
Para o anfitrião, outrora hóspede –
Ó dedos,
Assentando o limiar da entrada,
Como faca entre a vida e a morte –
Ó chaminés,
Ó dedos,
E o corpo de Israel na fumaça, pelo ar!
819
Nelly Sachs
EU O VI SAIR DE CASA
Eu o vi sair de casa
o fogo o havia chamuscado
mas não o queimara
Trazia uma pasta de sono
sob o braço
lá dentro o peso de letras e números
toda uma matemática
Em seu braço estava marcado a ferro
7337 o número-guia
Esses números conspiraram entre si
O homem media os espaços
Logo seus pés se elevaram da terra
Alguém o aguardava lá em cima
Para erguer um novo paraíso
“Mas espera só – em breve descansarás também –”
o fogo o havia chamuscado
mas não o queimara
Trazia uma pasta de sono
sob o braço
lá dentro o peso de letras e números
toda uma matemática
Em seu braço estava marcado a ferro
7337 o número-guia
Esses números conspiraram entre si
O homem media os espaços
Logo seus pés se elevaram da terra
Alguém o aguardava lá em cima
Para erguer um novo paraíso
“Mas espera só – em breve descansarás também –”
923
Nelly Sachs
EU O VI SAIR DE CASA
Eu o vi sair de casa
o fogo o havia chamuscado
mas não o queimara
Trazia uma pasta de sono
sob o braço
lá dentro o peso de letras e números
toda uma matemática
Em seu braço estava marcado a ferro
7337 o número-guia
Esses números conspiraram entre si
O homem media os espaços
Logo seus pés se elevaram da terra
Alguém o aguardava lá em cima
Para erguer um novo paraíso
“Mas espera só – em breve descansarás também –”
o fogo o havia chamuscado
mas não o queimara
Trazia uma pasta de sono
sob o braço
lá dentro o peso de letras e números
toda uma matemática
Em seu braço estava marcado a ferro
7337 o número-guia
Esses números conspiraram entre si
O homem media os espaços
Logo seus pés se elevaram da terra
Alguém o aguardava lá em cima
Para erguer um novo paraíso
“Mas espera só – em breve descansarás também –”
923