Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Sophia de Mello Breyner Andresen
Poema Perdido
Porque eu trazia rios de frescura
E claros horizontes de pureza
Mas tudo se perdeu ante a secura
De combater em vão
E as arestas finas e vivas do meu reino
São o claro brilhar da solidão.
E claros horizontes de pureza
Mas tudo se perdeu ante a secura
De combater em vão
E as arestas finas e vivas do meu reino
São o claro brilhar da solidão.
1 370
Martha Medeiros
porto alegre surpreende
porto alegre surpreende
vez em quando um lindo menino
vez por outra um fog londrino
vez em quando um lindo menino
vez por outra um fog londrino
1 113
Martha Medeiros
minha cidade
minha cidade
ontem mesmo eu a vi
tem castelos, rainhas e sapos
paetês e farrapos
bares luares quintanas
tem poeta aos milhares
mulheres mundanas
pontes piratas patrões
serestas, violões
tem casas, sobrados, chalés
mansões, chaminés
tem Zés, tem dessas manias
tchês, escocês, nacional
marias, meu deus, como tem
umidade, esta cidade
insiste em estar dentro da lei
mas ela mesma se entrega
ontem mesmo eu a vi
pegando a free-way
ontem mesmo eu a vi
tem castelos, rainhas e sapos
paetês e farrapos
bares luares quintanas
tem poeta aos milhares
mulheres mundanas
pontes piratas patrões
serestas, violões
tem casas, sobrados, chalés
mansões, chaminés
tem Zés, tem dessas manias
tchês, escocês, nacional
marias, meu deus, como tem
umidade, esta cidade
insiste em estar dentro da lei
mas ela mesma se entrega
ontem mesmo eu a vi
pegando a free-way
1 186
Martha Medeiros
eu penso conforme o tempo
eu penso conforme o tempo
eu danço conforme o passo
eu passo conforme o espaço
eu amo conforme a fome
eu como conforme a cama
eu sinto conforme o mundo
mas no fundo
eu não me conformo
eu danço conforme o passo
eu passo conforme o espaço
eu amo conforme a fome
eu como conforme a cama
eu sinto conforme o mundo
mas no fundo
eu não me conformo
1 239
Martha Medeiros
tango ensaiado
tango ensaiado
boca pintada
só de danada
lasco um decote
profundo
rosa vermelha
batom maravilha
só de rasteira
lasco um pingente
na orelha
don’t cry for me
segunda-feira
boca pintada
só de danada
lasco um decote
profundo
rosa vermelha
batom maravilha
só de rasteira
lasco um pingente
na orelha
don’t cry for me
segunda-feira
1 090
Martha Medeiros
quanto mais escrava
quanto mais escrava
mais escrevo
pra libertar essa mulher da vida
que me habita
mais escrevo
pra libertar essa mulher da vida
que me habita
1 155
Martha Medeiros
quanto mais escrava
quanto mais escrava
mais escrevo
pra libertar essa mulher da vida
que me habita
mais escrevo
pra libertar essa mulher da vida
que me habita
1 155
Martha Medeiros
emoção, que traidora você me saiu
emoção, que traidora você me saiu
me desmente assim na frente de todos
me faz tomar atitudes ridículas
que eu sempre detestei e neguei e nem sei
emoção, que maneira de me deixar só
agora estou sem caminho e sem solução
que jeito brusco de expulsar a razão
que sempre me fala, me guia, sei lá
emoção, que bela fera você se mostrou
invade assim sem saber, se atravessa,
domina
me agarra e sacode e balança e me enlaça
e eu já nem sei, sei lá, sou eu
me desmente assim na frente de todos
me faz tomar atitudes ridículas
que eu sempre detestei e neguei e nem sei
emoção, que maneira de me deixar só
agora estou sem caminho e sem solução
que jeito brusco de expulsar a razão
que sempre me fala, me guia, sei lá
emoção, que bela fera você se mostrou
invade assim sem saber, se atravessa,
domina
me agarra e sacode e balança e me enlaça
e eu já nem sei, sei lá, sou eu
1 109
Martha Medeiros
eu quero em mim
eu quero em mim
uma pessoa
não muito assim
ou muito não
eu quero em mim
uma pessoa
geral
poucos muitos
mas muitas coisas
muitas vidas
pessoa assim
nem muito ou pouco
mas pessoa
em tudo e em todas
total
uma pessoa
não muito assim
ou muito não
eu quero em mim
uma pessoa
geral
poucos muitos
mas muitas coisas
muitas vidas
pessoa assim
nem muito ou pouco
mas pessoa
em tudo e em todas
total
1 015
Martha Medeiros
vou andando devagar
vou andando devagar
olhando para um lado
para o outro
rindo ali, pensando aqui
de repente
vejo você na minha frente
e até pararia de andar
se você não fosse
estacionamento proibido
olhando para um lado
para o outro
rindo ali, pensando aqui
de repente
vejo você na minha frente
e até pararia de andar
se você não fosse
estacionamento proibido
1 068
Martha Medeiros
aquele monstro que você pensou que era
aquele monstro que você pensou que era
é um bobo covarde que só fala besteiras
vive dizendo que mata, estrangula, devora
mas quando muito enforca umas
segundas-feiras
é um bobo covarde que só fala besteiras
vive dizendo que mata, estrangula, devora
mas quando muito enforca umas
segundas-feiras
593
Martha Medeiros
eu mesma
eu mesma
não passo de uma pessoa apenas
e apenas quero ser uma pessoa sensata
mesmo com as trapaças das outras pessoas
ora,
eu mesma
me passo pra trás
não passo de uma pessoa apenas
e apenas quero ser uma pessoa sensata
mesmo com as trapaças das outras pessoas
ora,
eu mesma
me passo pra trás
1 229
Sophia de Mello Breyner Andresen
D. António Ferreira Gomes Bispo do Porto
Na cidade do Porto há muito granito
Entre névoas sombras e cintilações
A cidade parece firme e inexpugnável
E sólida — mas habitada
Por súbitos clarões de profecia
Junto ao rio em cujo verde se espelham as visões —
Assim quando eu entrava no paço do Bispo
E passava a mão sobre a pedra rugosa
O paço me parecia fortaleza
Porém a fortaleza não era
Os grossos muros de pedra caiada
Nem os lintéis de pedra nem a escada
De largos degraus rugosos de granito
Nem o peso frio que das coisas inertes emanava
Fortaleza era o homem — o Bispo —
Alto e direito firme como torre
Ao fundo da grande sala clara: fortaleza
De sabedoria e sapiência
De compaixão e justiça
De inteligência a tudo atenta
E na face austera por vezes ao de leve o sorriso
Inconsútil da antiga infância
1998
Entre névoas sombras e cintilações
A cidade parece firme e inexpugnável
E sólida — mas habitada
Por súbitos clarões de profecia
Junto ao rio em cujo verde se espelham as visões —
Assim quando eu entrava no paço do Bispo
E passava a mão sobre a pedra rugosa
O paço me parecia fortaleza
Porém a fortaleza não era
Os grossos muros de pedra caiada
Nem os lintéis de pedra nem a escada
De largos degraus rugosos de granito
Nem o peso frio que das coisas inertes emanava
Fortaleza era o homem — o Bispo —
Alto e direito firme como torre
Ao fundo da grande sala clara: fortaleza
De sabedoria e sapiência
De compaixão e justiça
De inteligência a tudo atenta
E na face austera por vezes ao de leve o sorriso
Inconsútil da antiga infância
1998
1 033
Sophia de Mello Breyner Andresen
Turistas No Museu
Parecem acabrunhados
Estarrecidos lêem na parede o número dos séculos
O seu olhar fica baço
Com as estátuas — como por engano —
Às vezes se cruzam
(Onde o antigo cismar demorado da viagem?)
Cá fora tiram fotografias muito depressa
Como quem se desobriga daquilo tudo
Caminham em rebanho como os animais
Estarrecidos lêem na parede o número dos séculos
O seu olhar fica baço
Com as estátuas — como por engano —
Às vezes se cruzam
(Onde o antigo cismar demorado da viagem?)
Cá fora tiram fotografias muito depressa
Como quem se desobriga daquilo tudo
Caminham em rebanho como os animais
879
Sophia de Mello Breyner Andresen
Turistas No Museu
Parecem acabrunhados
Estarrecidos lêem na parede o número dos séculos
O seu olhar fica baço
Com as estátuas — como por engano —
Às vezes se cruzam
(Onde o antigo cismar demorado da viagem?)
Cá fora tiram fotografias muito depressa
Como quem se desobriga daquilo tudo
Caminham em rebanho como os animais
Estarrecidos lêem na parede o número dos séculos
O seu olhar fica baço
Com as estátuas — como por engano —
Às vezes se cruzam
(Onde o antigo cismar demorado da viagem?)
Cá fora tiram fotografias muito depressa
Como quem se desobriga daquilo tudo
Caminham em rebanho como os animais
879
Sophia de Mello Breyner Andresen
Teu Passo Não Enraizou Nas Areias de Seda
Embora te iniciasse Ártemis
Quando atravessaste a roxa
Respiração da aurora tropical
Tomaste em tua mão o sopro
Como um fruto ou como um rosto
Nas palavras tupi procuraste o segredo
Extremo do lugar
Uma névoa velou o azul dos morros
As praias como braços se estendiam
No mar corriam todas as quadrigas
Atreladas em mão azul
Quando atravessaste a roxa
Respiração da aurora tropical
Tomaste em tua mão o sopro
Como um fruto ou como um rosto
Nas palavras tupi procuraste o segredo
Extremo do lugar
Uma névoa velou o azul dos morros
As praias como braços se estendiam
No mar corriam todas as quadrigas
Atreladas em mão azul
1 467
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Casa de Deus
A casa de Deus está assente no chão
Os seus alicerces mergulham na terra
A casa de Deus está na terra onde os homens estão
Sujeita como os homens à lei da gravidade
Porém como a alma dos homens trespassada
Pelo mistério e a palavra da leveza
Os homens a constroem com materiais
Que vão buscar à terra
Pedra vidro metal madeira cimento cal
Com suas mãos e pensamento a constroem
Mãos certeiras do pedreiro
Mãos hábeis do carpinteiro
Mão exacta do pintor
Cálculo do engenheiro
Desenho e cálculo do arquitecto
Com matéria e luz e espaço a constroem
Com atenção e engenho e esforço e paixão a constroem
Esta casa é feita de matéria para habitação do espírito
Como o corpo do homem é feito de matéria e manifesta o espírito
A casa é construída no tempo
Mas aqui os homens se reúnem em nome do Eterno
Em nome da promessa antiquíssima feita por Deus a Abraão
A Moisés a David e a todos os profetas
Em nome da vida que dada por nós nos é dada
É uma casa que se situa na imanência
Atenta à beleza e à diversidade da imanência
Erguida no mundo que nos foi dado
Para nossa habitação nossa invenção nosso conhecimento
Os homens a constroem na terra
Situada no tempo
Para habitação da eternidade
Aqui procuramos pensar reconhecer
Sem máscara ilusão ou disfarce
E procuramos manter nosso espírito atento
Liso como a página em branco
Aqui para além da morte da lacuna da perca e do desastre
Celebramos a Páscoa
Aqui celebramos a claridade
Porque Deus nos criou para a alegria
Páscoa de 1990
Os seus alicerces mergulham na terra
A casa de Deus está na terra onde os homens estão
Sujeita como os homens à lei da gravidade
Porém como a alma dos homens trespassada
Pelo mistério e a palavra da leveza
Os homens a constroem com materiais
Que vão buscar à terra
Pedra vidro metal madeira cimento cal
Com suas mãos e pensamento a constroem
Mãos certeiras do pedreiro
Mãos hábeis do carpinteiro
Mão exacta do pintor
Cálculo do engenheiro
Desenho e cálculo do arquitecto
Com matéria e luz e espaço a constroem
Com atenção e engenho e esforço e paixão a constroem
Esta casa é feita de matéria para habitação do espírito
Como o corpo do homem é feito de matéria e manifesta o espírito
A casa é construída no tempo
Mas aqui os homens se reúnem em nome do Eterno
Em nome da promessa antiquíssima feita por Deus a Abraão
A Moisés a David e a todos os profetas
Em nome da vida que dada por nós nos é dada
É uma casa que se situa na imanência
Atenta à beleza e à diversidade da imanência
Erguida no mundo que nos foi dado
Para nossa habitação nossa invenção nosso conhecimento
Os homens a constroem na terra
Situada no tempo
Para habitação da eternidade
Aqui procuramos pensar reconhecer
Sem máscara ilusão ou disfarce
E procuramos manter nosso espírito atento
Liso como a página em branco
Aqui para além da morte da lacuna da perca e do desastre
Celebramos a Páscoa
Aqui celebramos a claridade
Porque Deus nos criou para a alegria
Páscoa de 1990
2 287
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Cidade Dos Outros
Túnica de tortura era a cidade
Que tecida pelos outros nos vestia
Nem uma folha de tília ou de palmeira
Nos escondia
Caminhamos no chão azul das noites
E nas arenas brancas do meio dia
E a cidade como cães nos perseguia
Que tecida pelos outros nos vestia
Nem uma folha de tília ou de palmeira
Nos escondia
Caminhamos no chão azul das noites
E nas arenas brancas do meio dia
E a cidade como cães nos perseguia
1 258
Sophia de Mello Breyner Andresen
És Como a Terra-Mãe Que Nos Devora
Prendendo a nossa vida no seu peso.
De ti nos veio a morte, e trazemos
A tristeza e a sombra dos teus membros
Colada ao nosso sonho e o teu amor
Rói-nos na raiz. Larga os nossos braços.
Deixa crescer os gestos que nos brotam.
Nós temos outro corpo pra formar,
Não o corpo pesado que nos deste
Mas um outro que está no horizonte.
Deixa-nos crescer, deixa-nos nascer
E que a nossa raiz de ti se arranque.
De ti nos veio a morte, e trazemos
A tristeza e a sombra dos teus membros
Colada ao nosso sonho e o teu amor
Rói-nos na raiz. Larga os nossos braços.
Deixa crescer os gestos que nos brotam.
Nós temos outro corpo pra formar,
Não o corpo pesado que nos deste
Mas um outro que está no horizonte.
Deixa-nos crescer, deixa-nos nascer
E que a nossa raiz de ti se arranque.
1 525
Sophia de Mello Breyner Andresen
Lá
Lá num país de selvas e lianas
De mágicos tantans e de fantásticos
Animais venenosos que elásticos
Entram à noite pelas persianas
Onde há flores à flor das ondas finas
— Flores que olhá-las só é uma festa —
E rápidas gazelas nas campinas
E homens nus e pintados na floresta
Lá é que está essa vida de mil cores
A que nós todos fomos destinados
Por isso é que paramos perturbados
Ante os cais onde sonham os vapores
1940
De mágicos tantans e de fantásticos
Animais venenosos que elásticos
Entram à noite pelas persianas
Onde há flores à flor das ondas finas
— Flores que olhá-las só é uma festa —
E rápidas gazelas nas campinas
E homens nus e pintados na floresta
Lá é que está essa vida de mil cores
A que nós todos fomos destinados
Por isso é que paramos perturbados
Ante os cais onde sonham os vapores
1940
1 303
Sophia de Mello Breyner Andresen
Hélade
Colunas erguidas em nome da imanência
— Deuses cruéis como homens vitoriosos
— Deuses cruéis como homens vitoriosos
1 279
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Viagem
Dorso do mar tão quieto nesse dia.
Infinita esmeralda desdobrada.
Como um incenso os halos da maresia.
Cristais de distância.
Um navio esticado no seu vento
Êxtase e poder
Plenitude do tempo
Um navio esticado no seu vento
Presa do espaço intenso.
Um navio de homens carregado,
De vagabundos mareantes procurando
Terras quase lendárias,
Filhos duma áspera pátria de pedras e luz clara
Filhos duma áspera pátria exacta e avara
Que vão de porto em porto derivando.
Filhos duma áspera pátria procurando
A aparição do mundo
Filhos duma áspera pátria sobre o mar errando.
No alto mar os homens parecem
Semelhantes a deuses
Participantes dum rito antiquíssimo e sagrado
De água, luz e vento
Os seus corpos se tornam
Inteiros e ritmados
À própria essência da vida relegados.
Infinita esmeralda desdobrada.
Como um incenso os halos da maresia.
Cristais de distância.
Um navio esticado no seu vento
Êxtase e poder
Plenitude do tempo
Um navio esticado no seu vento
Presa do espaço intenso.
Um navio de homens carregado,
De vagabundos mareantes procurando
Terras quase lendárias,
Filhos duma áspera pátria de pedras e luz clara
Filhos duma áspera pátria exacta e avara
Que vão de porto em porto derivando.
Filhos duma áspera pátria procurando
A aparição do mundo
Filhos duma áspera pátria sobre o mar errando.
No alto mar os homens parecem
Semelhantes a deuses
Participantes dum rito antiquíssimo e sagrado
De água, luz e vento
Os seus corpos se tornam
Inteiros e ritmados
À própria essência da vida relegados.
2 803
Sophia de Mello Breyner Andresen
A Viagem
Dorso do mar tão quieto nesse dia.
Infinita esmeralda desdobrada.
Como um incenso os halos da maresia.
Cristais de distância.
Um navio esticado no seu vento
Êxtase e poder
Plenitude do tempo
Um navio esticado no seu vento
Presa do espaço intenso.
Um navio de homens carregado,
De vagabundos mareantes procurando
Terras quase lendárias,
Filhos duma áspera pátria de pedras e luz clara
Filhos duma áspera pátria exacta e avara
Que vão de porto em porto derivando.
Filhos duma áspera pátria procurando
A aparição do mundo
Filhos duma áspera pátria sobre o mar errando.
No alto mar os homens parecem
Semelhantes a deuses
Participantes dum rito antiquíssimo e sagrado
De água, luz e vento
Os seus corpos se tornam
Inteiros e ritmados
À própria essência da vida relegados.
Infinita esmeralda desdobrada.
Como um incenso os halos da maresia.
Cristais de distância.
Um navio esticado no seu vento
Êxtase e poder
Plenitude do tempo
Um navio esticado no seu vento
Presa do espaço intenso.
Um navio de homens carregado,
De vagabundos mareantes procurando
Terras quase lendárias,
Filhos duma áspera pátria de pedras e luz clara
Filhos duma áspera pátria exacta e avara
Que vão de porto em porto derivando.
Filhos duma áspera pátria procurando
A aparição do mundo
Filhos duma áspera pátria sobre o mar errando.
No alto mar os homens parecem
Semelhantes a deuses
Participantes dum rito antiquíssimo e sagrado
De água, luz e vento
Os seus corpos se tornam
Inteiros e ritmados
À própria essência da vida relegados.
2 803
Sophia de Mello Breyner Andresen
Brasil 77
«Em vosso e meu coração»
Manuel Bandeira
Brasil dos Bandeirantes
E das gentes emigradas
Em tuas terras distantes
As palavras portuguesas
Ficaram mais silabadas
Como se nelas houvesse
Desejo de ser cantadas
Brasil espaço e lonjura
Em nossa recordação
Mas ao Brasil que tortura
Só podemos dizer não
Brasil de Manuel Bandeira
Que ao franquismo disse não
E cujo verso se inscreve
Neste poema invocado
Em vosso e meu coração
Brasil de Jorge de Lima
Bruma sonho e mutação
Brasil de Murilo Mendes
Novo mundo mas romano
E o Brasil açoriano
De Cecília a tão secreta
Atlântida encoberta
Sob o véu dos olhos verdes
Brasil de Carlos Drummond
Brasil do pernambucano
João Cabral de Melo que
Deu à fala portuguesa
Novo corte e agudeza
Brasil da arquitectura
Com nitidez de coqueiro
Gente que fez da ternura
Nova forma de cultura
País da transformação
Mas ao Brasil que tortura
Só podemos dizer não
Brasil de D. Helder Câmara
Que nos mostra e nos ensina
A raiz de ser cristão
Brasil imensa aventura
Em nossa imaginação
Mas ao Brasil que tortura
Só podemos dizer não
1977
Manuel Bandeira
Brasil dos Bandeirantes
E das gentes emigradas
Em tuas terras distantes
As palavras portuguesas
Ficaram mais silabadas
Como se nelas houvesse
Desejo de ser cantadas
Brasil espaço e lonjura
Em nossa recordação
Mas ao Brasil que tortura
Só podemos dizer não
Brasil de Manuel Bandeira
Que ao franquismo disse não
E cujo verso se inscreve
Neste poema invocado
Em vosso e meu coração
Brasil de Jorge de Lima
Bruma sonho e mutação
Brasil de Murilo Mendes
Novo mundo mas romano
E o Brasil açoriano
De Cecília a tão secreta
Atlântida encoberta
Sob o véu dos olhos verdes
Brasil de Carlos Drummond
Brasil do pernambucano
João Cabral de Melo que
Deu à fala portuguesa
Novo corte e agudeza
Brasil da arquitectura
Com nitidez de coqueiro
Gente que fez da ternura
Nova forma de cultura
País da transformação
Mas ao Brasil que tortura
Só podemos dizer não
Brasil de D. Helder Câmara
Que nos mostra e nos ensina
A raiz de ser cristão
Brasil imensa aventura
Em nossa imaginação
Mas ao Brasil que tortura
Só podemos dizer não
1977
1 697