Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Ruy Belo
Andamento final de poema
o civil e redondo sacrifício de quem raivosamente tem
morte bastante em viajar de rosto em rosto
incorrigivelmente demandando o redentor instante
sem descontos reforma ou previdência alienante
país distante rente alucinante quente
verão na Inglaterra cerração última guerra
corporações risonhos fundações ministérios e medos
frontes caídas costas curvas súplicas e selos
e tudo ruminado e submetido a rigorosos planos de turismo
católicos de quem com quem por quem
ó lisa face livre imensamente livre
e corpo cravejado e mordido e repartido
por bocas sucessivas simultâneos bafos dentes cariados
e à volta as plácidas paragens da traição
e os olhos ah os olhos se pudessem fechariam
por novas servidões a implacável salvação
da tua face lisa e livre, e porque livre lisa
Por último dizei-me, meu Senhor sacrificado:
porventura nalgum remodelado ministério
terei de requerer mendigar submeter a despacho
a minha prometida promissora posição jacente
e povos de outros grupos linguísticos fricativas diversas hipotaxes
campos semânticos talvez devidos a outra forma mentis
algum anacoluto por insónia distracção gaguez
mas vamos revenons à nos moutons
decíamos ayer terei de requerer
a minha contraída posição em meia folha de papel selado?
Ou não estendeste os braços que tiveste
sobre um país de heróis primeiro a ser banhado
pelo sangue que perdeste pela chaga que ficava deste lado
- a tese embora controversa é perfilhada
numa quase filosofia doméstica e privada -
Nem nos seria lícito dignos e de frente
olharmos finalmente
quem para dominar serviu segundo um plano
sem deferir a sua aprovação
de uma condição a todos nós devida
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 122 | Editorial Presença Lda., 1984
morte bastante em viajar de rosto em rosto
incorrigivelmente demandando o redentor instante
sem descontos reforma ou previdência alienante
país distante rente alucinante quente
verão na Inglaterra cerração última guerra
corporações risonhos fundações ministérios e medos
frontes caídas costas curvas súplicas e selos
e tudo ruminado e submetido a rigorosos planos de turismo
católicos de quem com quem por quem
ó lisa face livre imensamente livre
e corpo cravejado e mordido e repartido
por bocas sucessivas simultâneos bafos dentes cariados
e à volta as plácidas paragens da traição
e os olhos ah os olhos se pudessem fechariam
por novas servidões a implacável salvação
da tua face lisa e livre, e porque livre lisa
Por último dizei-me, meu Senhor sacrificado:
porventura nalgum remodelado ministério
terei de requerer mendigar submeter a despacho
a minha prometida promissora posição jacente
e povos de outros grupos linguísticos fricativas diversas hipotaxes
campos semânticos talvez devidos a outra forma mentis
algum anacoluto por insónia distracção gaguez
mas vamos revenons à nos moutons
decíamos ayer terei de requerer
a minha contraída posição em meia folha de papel selado?
Ou não estendeste os braços que tiveste
sobre um país de heróis primeiro a ser banhado
pelo sangue que perdeste pela chaga que ficava deste lado
- a tese embora controversa é perfilhada
numa quase filosofia doméstica e privada -
Nem nos seria lícito dignos e de frente
olharmos finalmente
quem para dominar serviu segundo um plano
sem deferir a sua aprovação
de uma condição a todos nós devida
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 122 | Editorial Presença Lda., 1984
831
Ruy Belo
Andamento final de poema
o civil e redondo sacrifício de quem raivosamente tem
morte bastante em viajar de rosto em rosto
incorrigivelmente demandando o redentor instante
sem descontos reforma ou previdência alienante
país distante rente alucinante quente
verão na Inglaterra cerração última guerra
corporações risonhos fundações ministérios e medos
frontes caídas costas curvas súplicas e selos
e tudo ruminado e submetido a rigorosos planos de turismo
católicos de quem com quem por quem
ó lisa face livre imensamente livre
e corpo cravejado e mordido e repartido
por bocas sucessivas simultâneos bafos dentes cariados
e à volta as plácidas paragens da traição
e os olhos ah os olhos se pudessem fechariam
por novas servidões a implacável salvação
da tua face lisa e livre, e porque livre lisa
Por último dizei-me, meu Senhor sacrificado:
porventura nalgum remodelado ministério
terei de requerer mendigar submeter a despacho
a minha prometida promissora posição jacente
e povos de outros grupos linguísticos fricativas diversas hipotaxes
campos semânticos talvez devidos a outra forma mentis
algum anacoluto por insónia distracção gaguez
mas vamos revenons à nos moutons
decíamos ayer terei de requerer
a minha contraída posição em meia folha de papel selado?
Ou não estendeste os braços que tiveste
sobre um país de heróis primeiro a ser banhado
pelo sangue que perdeste pela chaga que ficava deste lado
- a tese embora controversa é perfilhada
numa quase filosofia doméstica e privada -
Nem nos seria lícito dignos e de frente
olharmos finalmente
quem para dominar serviu segundo um plano
sem deferir a sua aprovação
de uma condição a todos nós devida
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 122 | Editorial Presença Lda., 1984
morte bastante em viajar de rosto em rosto
incorrigivelmente demandando o redentor instante
sem descontos reforma ou previdência alienante
país distante rente alucinante quente
verão na Inglaterra cerração última guerra
corporações risonhos fundações ministérios e medos
frontes caídas costas curvas súplicas e selos
e tudo ruminado e submetido a rigorosos planos de turismo
católicos de quem com quem por quem
ó lisa face livre imensamente livre
e corpo cravejado e mordido e repartido
por bocas sucessivas simultâneos bafos dentes cariados
e à volta as plácidas paragens da traição
e os olhos ah os olhos se pudessem fechariam
por novas servidões a implacável salvação
da tua face lisa e livre, e porque livre lisa
Por último dizei-me, meu Senhor sacrificado:
porventura nalgum remodelado ministério
terei de requerer mendigar submeter a despacho
a minha prometida promissora posição jacente
e povos de outros grupos linguísticos fricativas diversas hipotaxes
campos semânticos talvez devidos a outra forma mentis
algum anacoluto por insónia distracção gaguez
mas vamos revenons à nos moutons
decíamos ayer terei de requerer
a minha contraída posição em meia folha de papel selado?
Ou não estendeste os braços que tiveste
sobre um país de heróis primeiro a ser banhado
pelo sangue que perdeste pela chaga que ficava deste lado
- a tese embora controversa é perfilhada
numa quase filosofia doméstica e privada -
Nem nos seria lícito dignos e de frente
olharmos finalmente
quem para dominar serviu segundo um plano
sem deferir a sua aprovação
de uma condição a todos nós devida
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 122 | Editorial Presença Lda., 1984
831
Nuno Júdice
Jane com uma boneca japonesa
Entre o escuro das meias e o branco
da combinação, a coxa de Jane situa-se
no enfiamento dos ombros, ao contrário
do seu olhar de perfil, fixo na boneca
japonesa que ela se prepara para limpar
com o algodão seguro nos dedos. Há
algo de decidido no seu gesto, que
contrasta com a fita cor de rosa da
combinação, caída sobre a cadeira
de verga. A esse abandono contrapõem-se,
porém, os pés calçados, como se
tivesse interrompido a toilete para
se ocupar da boneca. Terá acabado
o seu dia? Ou limita-se a olhar a figura
de porcelana, com que ainda brincou, sem
reparar que um caracol se soltou do
cabelo para pontuar o início
do seio com uma interrogação
que oferece a quem, de súbito,
descobre a linha perfeita da perna
que as meias escondem, e revelam?
da combinação, a coxa de Jane situa-se
no enfiamento dos ombros, ao contrário
do seu olhar de perfil, fixo na boneca
japonesa que ela se prepara para limpar
com o algodão seguro nos dedos. Há
algo de decidido no seu gesto, que
contrasta com a fita cor de rosa da
combinação, caída sobre a cadeira
de verga. A esse abandono contrapõem-se,
porém, os pés calçados, como se
tivesse interrompido a toilete para
se ocupar da boneca. Terá acabado
o seu dia? Ou limita-se a olhar a figura
de porcelana, com que ainda brincou, sem
reparar que um caracol se soltou do
cabelo para pontuar o início
do seio com uma interrogação
que oferece a quem, de súbito,
descobre a linha perfeita da perna
que as meias escondem, e revelam?
1 125
Nuno Júdice
Ninfas de água
Alguém as espreita de trás do canavial, sem
que o pressintam; e não sei se é de espanto, ou medo,
a sua expressão, ao entrarem no rio, como
despreocupadas ofélias. Na tarde em que
falei com elas, porém, explicaram-me tudo:
a mais nova, interessa-se pelo Messias,
e estuda a sua relação com a água; a
da frente, prefere a linguística, e
ocupa-se da etimologia das plantas.
No café, não pediram nada: pousavam
os cotovelos sobre a mesa, e eu ouvia-as
falar com o ritmo musical das suas
frases bem articuladas. A noite caíu sem
darmos por isso; e a cortina da porta
transformou-se num arbusto em que
elas se meteram, antes de passarem
por cima de mim para entrar no rio.
que o pressintam; e não sei se é de espanto, ou medo,
a sua expressão, ao entrarem no rio, como
despreocupadas ofélias. Na tarde em que
falei com elas, porém, explicaram-me tudo:
a mais nova, interessa-se pelo Messias,
e estuda a sua relação com a água; a
da frente, prefere a linguística, e
ocupa-se da etimologia das plantas.
No café, não pediram nada: pousavam
os cotovelos sobre a mesa, e eu ouvia-as
falar com o ritmo musical das suas
frases bem articuladas. A noite caíu sem
darmos por isso; e a cortina da porta
transformou-se num arbusto em que
elas se meteram, antes de passarem
por cima de mim para entrar no rio.
1 102
Nuno Júdice
A caminho da feira
Deito à sorte a sorte que se abre
nas mãos da cigana que lê as cartas
como se fizesse um comércio de destinos.
Pergunto-lhe quanto pode custar
um amanhã que seja igual a ontem;
e ela fala-me das sinas impopulares,
dando-me o tempo que eu quiser como
simples troféu para meter no bolso (e
perder na primeira esquina). Por baixo dela,
as sombras escondem-se; e eu próprio
procuro a minha nos folhos da sua saia,
para onde caem todos os fantasmas que
saltam dos seus olhos. Mas a música
trazida pelo vento começa a inquietá-la;
e espera que passe a carroça que a há-de
levar à feira, onde os homens se irão
juntar à sua volta. «Diz-me o que vou ser»,
perguntam; ou então: «Será este um dia bom
para os negócios?» Ela não abre a boca, e
tira das cartas todas as respostas que eles
pedem, enquanto não pedem a sua boca.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 95 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
nas mãos da cigana que lê as cartas
como se fizesse um comércio de destinos.
Pergunto-lhe quanto pode custar
um amanhã que seja igual a ontem;
e ela fala-me das sinas impopulares,
dando-me o tempo que eu quiser como
simples troféu para meter no bolso (e
perder na primeira esquina). Por baixo dela,
as sombras escondem-se; e eu próprio
procuro a minha nos folhos da sua saia,
para onde caem todos os fantasmas que
saltam dos seus olhos. Mas a música
trazida pelo vento começa a inquietá-la;
e espera que passe a carroça que a há-de
levar à feira, onde os homens se irão
juntar à sua volta. «Diz-me o que vou ser»,
perguntam; ou então: «Será este um dia bom
para os negócios?» Ela não abre a boca, e
tira das cartas todas as respostas que eles
pedem, enquanto não pedem a sua boca.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 95 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
938
Nuno Júdice
Filosofia
Construo o pensamento aos pedaços: cada
ideia que ponho em cima da mesa é uma parte do
que penso; e, ao ver como cada fragmento se
torna um todo, volto a parti-lo, para evitar
conclusões.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 42 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
ideia que ponho em cima da mesa é uma parte do
que penso; e, ao ver como cada fragmento se
torna um todo, volto a parti-lo, para evitar
conclusões.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 42 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 565
Ruy Belo
Turismo
Eu vi morrer um homem e caminho
Vários motivos de morte e uma
agenda mas
almoço
Há mesas e cadeiras e passeios e
sabe-me
a café
Mistério de maresia ou de ningué
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 124 | Editorial Presença Lda., 1984
Vários motivos de morte e uma
agenda mas
almoço
Há mesas e cadeiras e passeios e
sabe-me
a café
Mistério de maresia ou de ningué
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 124 | Editorial Presença Lda., 1984
1 049
Ruy Belo
Os fingimentos da poesia
Lendo há dias algumas passagens de uns discursos sobre a maneira de compor o romance e a tragédia, publicados por j. garibaldi no ano de 1554, chamou-me a atenção o longo processo que leonardo da vinci seguiu até pintar a cabeça de judas no seu quadro de a ceia. Depois de, mediante um aturado estudo dos evangelhos, ter reconstituído o ambiente e cada uma das personagens que tencionava representar, depois de ter pintado todo o quadro, só lhe faltava a cabeça. Todos os dias ia à procura dela ao borghetto, o bairro de milão onde naquele tempo se reunia a ralé. Até que finalmente a descobriu. Pegou nela, levou-a consigo e meteu-a no quadro.
Semelhante descrição parece-me ilustrar um dos caminhos do poeta. Arranca esse senhor à linguagem quotidiana aquelas palavras que lhe faltavam para fechar um poema. Como é que lá chega? Pegando naquilo que vê, pensa ou sente e sacrificando-o ao fio da sua meditação. Despreza aquele conjunto de circunstâncias que rodeavam a palavra e dá nova arrumação à palavra liberta. Tanto faz que se fale de desumanização, como de falsidade, como de fingimento.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 183 e 184 | Editorial Presença Lda., 1984
Semelhante descrição parece-me ilustrar um dos caminhos do poeta. Arranca esse senhor à linguagem quotidiana aquelas palavras que lhe faltavam para fechar um poema. Como é que lá chega? Pegando naquilo que vê, pensa ou sente e sacrificando-o ao fio da sua meditação. Despreza aquele conjunto de circunstâncias que rodeavam a palavra e dá nova arrumação à palavra liberta. Tanto faz que se fale de desumanização, como de falsidade, como de fingimento.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 183 e 184 | Editorial Presença Lda., 1984
741
Ruy Belo
Idola Fori
Eu sei diversas coisas
saber é afinal a minha única ocupação
Sei pouco de manhãs
mas talvez possam dizer de mim que amei o mar
e cada árvore que me viu passar
e insistir na vida como uma canção em voga
Quem mais que eu
quem foi esqueceu?
Estamos mal feitos pronto
Para quê a doçura no olhar
de uma mulher certos dias?
O morno calor do sol rasante pelas tardes
de setembro na senhora da guia
senti-lo em abril numa sala voltada ao poente
de súbito sabendo de todos os papéis
ou outra eternidade que não essa
Talvez ouvir egmont sentindo-me importante de repente
ou então conversar sobre o poeta à beira da água
chegar a mangualde ao pôr-do-sol
ou a duas igrejas na semana santa
ouvir os sinos na matriz vizinha
cheirar madeira nova nas gavetas
fechar a porta sobre todos os cuidados
cantar a triunfante juventude
não mais andar perdido de ano em ano
não mais a morte questão para ociosos
à tarde no café dos reformados
Oh quem me dera ser católico
ou pelo menos morar alguma vez
em lisboa ou nos arredores de lisboa
Não há remédio nenhum
esqueci-me de tanta coisa
Sei que isto não é grande coisa
mas nenhuma outra coisa me é dada
o que é preciso é que não doa muito
Depois que me escondam na terra como uma vergonha
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 176 e 177 | Editorial Presença Lda., 1984
saber é afinal a minha única ocupação
Sei pouco de manhãs
mas talvez possam dizer de mim que amei o mar
e cada árvore que me viu passar
e insistir na vida como uma canção em voga
Quem mais que eu
quem foi esqueceu?
Estamos mal feitos pronto
Para quê a doçura no olhar
de uma mulher certos dias?
O morno calor do sol rasante pelas tardes
de setembro na senhora da guia
senti-lo em abril numa sala voltada ao poente
de súbito sabendo de todos os papéis
ou outra eternidade que não essa
Talvez ouvir egmont sentindo-me importante de repente
ou então conversar sobre o poeta à beira da água
chegar a mangualde ao pôr-do-sol
ou a duas igrejas na semana santa
ouvir os sinos na matriz vizinha
cheirar madeira nova nas gavetas
fechar a porta sobre todos os cuidados
cantar a triunfante juventude
não mais andar perdido de ano em ano
não mais a morte questão para ociosos
à tarde no café dos reformados
Oh quem me dera ser católico
ou pelo menos morar alguma vez
em lisboa ou nos arredores de lisboa
Não há remédio nenhum
esqueci-me de tanta coisa
Sei que isto não é grande coisa
mas nenhuma outra coisa me é dada
o que é preciso é que não doa muito
Depois que me escondam na terra como uma vergonha
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 176 e 177 | Editorial Presença Lda., 1984
1 080
Ruy Belo
Intervalo de vida
Inútil sol inútil chuva inútil céu
enquanto não imóveis como as árvores
abertas todas elas para tudo
feitas em cada folha tudo para tudo
atravessarmos rígidos os meses
Inútil é o sol feito relógio de pobres
o sol afinal a única
pessoa importante que passa na rua
E as nossas ideias estas ideias latinas que precisam
de ombros para elas entre as árvores fazendo
concorrência às coisas misturando-se e distinguindo-se
ocupando um espaço tão real como aquelas
E as crianças deformando o espaço indo por dentro
enchendo a rua sendo novas ruas
deixando-nos depois como únicos gestos
que ainda perduram palavras nascidas nos lábios delas
mortas mais tarde nas costas de quem passámos
Inútil citadina chuva
pretexto para os nossos guarda-chuvas
chuva que a todos nos molha e nos confunde
e nos iguala companheira chuva
E eu vou por esta chuva acima até à minha infância
debaixo dos meus pés o chão é outra vez o mesmo
a erva cresce. Entre gestos polidos páginas
de livros no meio desta vida exacta e medida
nesta cidade assim mesmo tal e qual
a erva cresce e tem aroma e leva-me
por esse aroma até à erva vou de erva para erva
Rasgam-se em mim adros de aldeia
há plátanos abrindo sobre danças de crianças
Junto da janela passando na rua posso
com toda a propriedade dizer que
conheço infinitamente melhor as montanhas junto do mar
onde tem ninho o pato selvagem
e tudo lembra ainda um passado de águas
que a forma sempre mudável da minha unha
essa unha roída pelos grandes problemas
essa unha de passagem das estações e dos dias
e dos carros de bois antes e depois dos dias
Inútil céu que o sol todos os dias
deixará levará como perdido manto
esquecido sobre as nossas cabeças
A primeira infância passou mas agora ou logo
deus renova todas as coisas
E um dia haverá barcos e seremos livres
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 46 e 47 | Editorial Presença Lda., 1984
enquanto não imóveis como as árvores
abertas todas elas para tudo
feitas em cada folha tudo para tudo
atravessarmos rígidos os meses
Inútil é o sol feito relógio de pobres
o sol afinal a única
pessoa importante que passa na rua
E as nossas ideias estas ideias latinas que precisam
de ombros para elas entre as árvores fazendo
concorrência às coisas misturando-se e distinguindo-se
ocupando um espaço tão real como aquelas
E as crianças deformando o espaço indo por dentro
enchendo a rua sendo novas ruas
deixando-nos depois como únicos gestos
que ainda perduram palavras nascidas nos lábios delas
mortas mais tarde nas costas de quem passámos
Inútil citadina chuva
pretexto para os nossos guarda-chuvas
chuva que a todos nos molha e nos confunde
e nos iguala companheira chuva
E eu vou por esta chuva acima até à minha infância
debaixo dos meus pés o chão é outra vez o mesmo
a erva cresce. Entre gestos polidos páginas
de livros no meio desta vida exacta e medida
nesta cidade assim mesmo tal e qual
a erva cresce e tem aroma e leva-me
por esse aroma até à erva vou de erva para erva
Rasgam-se em mim adros de aldeia
há plátanos abrindo sobre danças de crianças
Junto da janela passando na rua posso
com toda a propriedade dizer que
conheço infinitamente melhor as montanhas junto do mar
onde tem ninho o pato selvagem
e tudo lembra ainda um passado de águas
que a forma sempre mudável da minha unha
essa unha roída pelos grandes problemas
essa unha de passagem das estações e dos dias
e dos carros de bois antes e depois dos dias
Inútil céu que o sol todos os dias
deixará levará como perdido manto
esquecido sobre as nossas cabeças
A primeira infância passou mas agora ou logo
deus renova todas as coisas
E um dia haverá barcos e seremos livres
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 46 e 47 | Editorial Presença Lda., 1984
1 422
Ruy Belo
Intervalo de vida
Inútil sol inútil chuva inútil céu
enquanto não imóveis como as árvores
abertas todas elas para tudo
feitas em cada folha tudo para tudo
atravessarmos rígidos os meses
Inútil é o sol feito relógio de pobres
o sol afinal a única
pessoa importante que passa na rua
E as nossas ideias estas ideias latinas que precisam
de ombros para elas entre as árvores fazendo
concorrência às coisas misturando-se e distinguindo-se
ocupando um espaço tão real como aquelas
E as crianças deformando o espaço indo por dentro
enchendo a rua sendo novas ruas
deixando-nos depois como únicos gestos
que ainda perduram palavras nascidas nos lábios delas
mortas mais tarde nas costas de quem passámos
Inútil citadina chuva
pretexto para os nossos guarda-chuvas
chuva que a todos nos molha e nos confunde
e nos iguala companheira chuva
E eu vou por esta chuva acima até à minha infância
debaixo dos meus pés o chão é outra vez o mesmo
a erva cresce. Entre gestos polidos páginas
de livros no meio desta vida exacta e medida
nesta cidade assim mesmo tal e qual
a erva cresce e tem aroma e leva-me
por esse aroma até à erva vou de erva para erva
Rasgam-se em mim adros de aldeia
há plátanos abrindo sobre danças de crianças
Junto da janela passando na rua posso
com toda a propriedade dizer que
conheço infinitamente melhor as montanhas junto do mar
onde tem ninho o pato selvagem
e tudo lembra ainda um passado de águas
que a forma sempre mudável da minha unha
essa unha roída pelos grandes problemas
essa unha de passagem das estações e dos dias
e dos carros de bois antes e depois dos dias
Inútil céu que o sol todos os dias
deixará levará como perdido manto
esquecido sobre as nossas cabeças
A primeira infância passou mas agora ou logo
deus renova todas as coisas
E um dia haverá barcos e seremos livres
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 46 e 47 | Editorial Presença Lda., 1984
enquanto não imóveis como as árvores
abertas todas elas para tudo
feitas em cada folha tudo para tudo
atravessarmos rígidos os meses
Inútil é o sol feito relógio de pobres
o sol afinal a única
pessoa importante que passa na rua
E as nossas ideias estas ideias latinas que precisam
de ombros para elas entre as árvores fazendo
concorrência às coisas misturando-se e distinguindo-se
ocupando um espaço tão real como aquelas
E as crianças deformando o espaço indo por dentro
enchendo a rua sendo novas ruas
deixando-nos depois como únicos gestos
que ainda perduram palavras nascidas nos lábios delas
mortas mais tarde nas costas de quem passámos
Inútil citadina chuva
pretexto para os nossos guarda-chuvas
chuva que a todos nos molha e nos confunde
e nos iguala companheira chuva
E eu vou por esta chuva acima até à minha infância
debaixo dos meus pés o chão é outra vez o mesmo
a erva cresce. Entre gestos polidos páginas
de livros no meio desta vida exacta e medida
nesta cidade assim mesmo tal e qual
a erva cresce e tem aroma e leva-me
por esse aroma até à erva vou de erva para erva
Rasgam-se em mim adros de aldeia
há plátanos abrindo sobre danças de crianças
Junto da janela passando na rua posso
com toda a propriedade dizer que
conheço infinitamente melhor as montanhas junto do mar
onde tem ninho o pato selvagem
e tudo lembra ainda um passado de águas
que a forma sempre mudável da minha unha
essa unha roída pelos grandes problemas
essa unha de passagem das estações e dos dias
e dos carros de bois antes e depois dos dias
Inútil céu que o sol todos os dias
deixará levará como perdido manto
esquecido sobre as nossas cabeças
A primeira infância passou mas agora ou logo
deus renova todas as coisas
E um dia haverá barcos e seremos livres
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 46 e 47 | Editorial Presença Lda., 1984
1 422
Ruy Belo
Miséria e grandeza
Nem uma só pegada nos deixaste
entre as areias desta praia
que em dias e barcos nos é dada
e à vida pertence dar um rosto
Tudo é táctil demais à nossa volta
e na pessoa quotidiana que passa
incorrigivelmente descobrimos
o anjo que nos diga: "Não temas!"
Só nos é dada a palavra
o nosso modo humano de morder o tempo
Não há outra saída para além de ficarmos
hirtos sob as folhas que caem
nupcialmente sobre nós e os sonhos
Mas lá de quando em quando
distante como um passado lembrado
e então como se fosse para sempre
tu és uma presença redonda no meu ombro de morte
anjo de luz que apetece tocar
em vez da terra que os dedos nos trazem dos dias
e das metáforas mais ou menos subsistentes
como a vida e as outras sombras
e até as palavras quando ´são indiferentes
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 45 | Editorial Presença Lda., 1984
entre as areias desta praia
que em dias e barcos nos é dada
e à vida pertence dar um rosto
Tudo é táctil demais à nossa volta
e na pessoa quotidiana que passa
incorrigivelmente descobrimos
o anjo que nos diga: "Não temas!"
Só nos é dada a palavra
o nosso modo humano de morder o tempo
Não há outra saída para além de ficarmos
hirtos sob as folhas que caem
nupcialmente sobre nós e os sonhos
Mas lá de quando em quando
distante como um passado lembrado
e então como se fosse para sempre
tu és uma presença redonda no meu ombro de morte
anjo de luz que apetece tocar
em vez da terra que os dedos nos trazem dos dias
e das metáforas mais ou menos subsistentes
como a vida e as outras sombras
e até as palavras quando ´são indiferentes
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 45 | Editorial Presença Lda., 1984
884
Ruy Belo
Jerusalém, Jerusalém... ou Alto da Serafina
Que importa que morramos se a tarde é de sol
e o céu se abre às lágrimas
que sobre a cidade choras?
Esmagam-se lá longe contra a igreja as casas
aonde os homens nascem e aceitam
a grade humilhação da morte
onde as mulheres acenam tristemente panos sujos
de não dizerem adeus a nenhum barco
onde já ninguém sabe onde os anos começam
Pesadamente vão caindo os sinos
e tu a um e um desfolhas
os olhos sobre o tempo
O que trocamos são crostas de silêncio:
tivéssemos em teu reino o lugar
que esta folha de outono tem sobre o asfalto
e a espaços certa música na alma
Que importa que morramos se o passado está certo
se voltas para nós a mágoa que te molha a face
de virmos de tão longe tendo-te tão perto?
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 54 | Editorial Presença Lda., 1984
e o céu se abre às lágrimas
que sobre a cidade choras?
Esmagam-se lá longe contra a igreja as casas
aonde os homens nascem e aceitam
a grade humilhação da morte
onde as mulheres acenam tristemente panos sujos
de não dizerem adeus a nenhum barco
onde já ninguém sabe onde os anos começam
Pesadamente vão caindo os sinos
e tu a um e um desfolhas
os olhos sobre o tempo
O que trocamos são crostas de silêncio:
tivéssemos em teu reino o lugar
que esta folha de outono tem sobre o asfalto
e a espaços certa música na alma
Que importa que morramos se o passado está certo
se voltas para nós a mágoa que te molha a face
de virmos de tão longe tendo-te tão perto?
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 54 | Editorial Presença Lda., 1984
702
Ruy Belo
Na praia
Raça de marinheiros que outra coisa vos chamar
senhoras que com tanta dignidade
à hora que o calor mais apertar
coroadas de graça e majestade
entrais pela água dentro e fazeis chichi no mar?
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 177 | Editorial Presença Lda., 1984
senhoras que com tanta dignidade
à hora que o calor mais apertar
coroadas de graça e majestade
entrais pela água dentro e fazeis chichi no mar?
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 177 | Editorial Presença Lda., 1984
1 968
Nuno Júdice
A varanda de Julieta
Uma vez, entrei em verona para não entrar
em veneza. Entre o vê de verona e o vê
de veneza optei por ver verona. Gostei da
coincidência das consoantes na janela
de julieta; e sei que em veneza não ouviria
o vento da vingança, nem provaria o veneno
de uma volúpia que só em verona se
desvanece com a vida. Não há canais em
verona, como em veneza; nem há janelas
em veneza, como em verona; mas julieta
espreita a rua, da janela que é sua, e se
ninguém diz a senha que só ela sabe, agita
o lenço molhado pelas lágrimas que as
nuvens bebem, levando-as de verona até
veneza, onde a chuva as deita nos canais.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 26 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
em veneza. Entre o vê de verona e o vê
de veneza optei por ver verona. Gostei da
coincidência das consoantes na janela
de julieta; e sei que em veneza não ouviria
o vento da vingança, nem provaria o veneno
de uma volúpia que só em verona se
desvanece com a vida. Não há canais em
verona, como em veneza; nem há janelas
em veneza, como em verona; mas julieta
espreita a rua, da janela que é sua, e se
ninguém diz a senha que só ela sabe, agita
o lenço molhado pelas lágrimas que as
nuvens bebem, levando-as de verona até
veneza, onde a chuva as deita nos canais.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 26 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 872
Ruy Belo
Esta situação
E a senhora dos filhos e dos gritos e da malha
não falha nenhum dia chega sempre à mesma hora
Poderás ser feliz: basta mudar de esplanada
mas acredita não resolve nada
a mesma água vem na mesma calha
e é tudo como antes para aquele que chora:
a mudança é fatal até para a face mudada
Já nela havia rugas e era fresca e corada
A cara da senhora? Não. Mas espera, talvez
o que eu disse estivesse já dito de vez
E eu só amanhã me vou ontem embora
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 112 | Editorial Presença Lda., 1984
não falha nenhum dia chega sempre à mesma hora
Poderás ser feliz: basta mudar de esplanada
mas acredita não resolve nada
a mesma água vem na mesma calha
e é tudo como antes para aquele que chora:
a mudança é fatal até para a face mudada
Já nela havia rugas e era fresca e corada
A cara da senhora? Não. Mas espera, talvez
o que eu disse estivesse já dito de vez
E eu só amanhã me vou ontem embora
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 112 | Editorial Presença Lda., 1984
1 034
Ruy Belo
Córdoba Lejana y Sola
Nesta cidade aonde fomos jovens
colhemos hoje na praça
raios do último sol
Qual criança que ousaria ainda
nascer em nossos olhos?
Entrar-nos-ia ainda hoje a rua em casa
como quando eram possíveis todos os regressos?
Extingue-se-nos já na boca a tarde
Em que país ouvimos estes sons cair?
Vai longe o tempo em que andávamos
perto dos pássaros
Prometiam os olhos futuras estrelas
morriam-nos no rosto todos os poentes
Agora só a noite virá
estender um manto sobre a nossa agitação
E a tua palavra há-de planar em nossa alma
como qualquer folha de plátano na tarde
Este céu passará e então
teu riso descerá dos montes pelos rios
até desaguar no nosso coração
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 53 e 54 | Editorial Presença Lda., 1984
colhemos hoje na praça
raios do último sol
Qual criança que ousaria ainda
nascer em nossos olhos?
Entrar-nos-ia ainda hoje a rua em casa
como quando eram possíveis todos os regressos?
Extingue-se-nos já na boca a tarde
Em que país ouvimos estes sons cair?
Vai longe o tempo em que andávamos
perto dos pássaros
Prometiam os olhos futuras estrelas
morriam-nos no rosto todos os poentes
Agora só a noite virá
estender um manto sobre a nossa agitação
E a tua palavra há-de planar em nossa alma
como qualquer folha de plátano na tarde
Este céu passará e então
teu riso descerá dos montes pelos rios
até desaguar no nosso coração
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 53 e 54 | Editorial Presença Lda., 1984
1 928
Ruy Belo
Quirógrafo
É tão depressa dia e nada nos redime
Alguém não despertou ficou na noite
Vieram de manhã uns homens que varreram
a restante alegria destas ruas
A criança na roda entoará:
estão hoje fundos os pássaros
estão hoje fundos os pássaros
quem no-los tirará de lá?
Tão vasta como o mar a nossa dor
alguém nos poupará de nela naufragar?
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 45 | Editorial Presença Lda., 1984
Alguém não despertou ficou na noite
Vieram de manhã uns homens que varreram
a restante alegria destas ruas
A criança na roda entoará:
estão hoje fundos os pássaros
estão hoje fundos os pássaros
quem no-los tirará de lá?
Tão vasta como o mar a nossa dor
alguém nos poupará de nela naufragar?
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 45 | Editorial Presença Lda., 1984
1 193
Nuno Júdice
Rotina
Ao abrir a janela do quarto para outras
janelas de outros quartos, ao veres a rua que desemboca
noutras ruas, e as pessoas que se cruzam, no início da
manhã, sem pensarem com quem se cruzam
em cada início de manhã, talvez te apeteça
voltar para dentro, onde ninguém te espera. Mas
o dia nasceu - um outro dia - e a contagem do tempo
começou a partir do momento em que
abriste a janela, e em que todas as janelas
da rua se abriram, como a tua. Então, resta-te
saber com quem te irás cruzar, esta manhã: se
o rosto que vais fixar, por uns instantes, retribuirá
o teu gesto; ou se alguém, no primeiro café que
tomares, te devolverá a mesma inquietação
que saboreias, enquanto esperas que o líquido
arrefeça.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 27 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
janelas de outros quartos, ao veres a rua que desemboca
noutras ruas, e as pessoas que se cruzam, no início da
manhã, sem pensarem com quem se cruzam
em cada início de manhã, talvez te apeteça
voltar para dentro, onde ninguém te espera. Mas
o dia nasceu - um outro dia - e a contagem do tempo
começou a partir do momento em que
abriste a janela, e em que todas as janelas
da rua se abriram, como a tua. Então, resta-te
saber com quem te irás cruzar, esta manhã: se
o rosto que vais fixar, por uns instantes, retribuirá
o teu gesto; ou se alguém, no primeiro café que
tomares, te devolverá a mesma inquietação
que saboreias, enquanto esperas que o líquido
arrefeça.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 27 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 552
Ruy Belo
As grandes insubmissões
As grandes insubmissões sempre foram para mim as pequenas. Na minha vida, lembro duas.
Começava um ano lectivo. Andaria no segundo ano do liceu. Era a época da feira da piedade. Cheguei de férias na minha terra e vi o vítor a andar de carrocel. Esperava que a volta acabasse para o abraçar. Fui esperando, ele nunca mais descia. Uma volta, mais outra, outra ainda. Fui contando: vinte. O vítor tinha vinte escudos. Eu já o respeitava, porque era muito alto. Passei a respeitá-lo mais. O vítor era capaz de gastar vinte escudos no carrocel.
Outra grande insubmissão foi a do maurício, também nos primeiros anos do liceu.
Um dia o maurício faltou à aula das nove. Até aí, nada de particular. Saímos para o pátio e o maurício estava no campo de basket, perfeitamente equipado, sozinho, a lançar a bola ao cesto.
- Ó maurício, faltaste à aula das nove.
E o maurício, sem responder, imperturbável, continuava a lançar a bola ao cesto.
Tocou para a aula das dez.
- Ó maurício, não vens à aula?
O maurício não respondia. Continuava, imperturbável, a lançar a bola ao cesto.
Faltou à aula das dez, faltou toda a manhã. Nos intervalos saíamos e logo ouvíamos a bola contra a tabela. O maurício, sozinho, continuava a lançar a bola ao cesto.
Só se foi vestir quando tocou para a saída da última aula dessa manhã. Esperámos todos por ele. Não lhe perguntámos nada. E seguimo-lo, cheios de admiração. O maurício, apesar dos professores, apesar dos contínuos, apesar da campainha, faltara a todas as aulas.
Toda a manhã jogara basket. Sozinho. Contra professores, contra contínuos, contra a campainha.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 181 e 182 | Editorial Presença Lda., 1984
Começava um ano lectivo. Andaria no segundo ano do liceu. Era a época da feira da piedade. Cheguei de férias na minha terra e vi o vítor a andar de carrocel. Esperava que a volta acabasse para o abraçar. Fui esperando, ele nunca mais descia. Uma volta, mais outra, outra ainda. Fui contando: vinte. O vítor tinha vinte escudos. Eu já o respeitava, porque era muito alto. Passei a respeitá-lo mais. O vítor era capaz de gastar vinte escudos no carrocel.
Outra grande insubmissão foi a do maurício, também nos primeiros anos do liceu.
Um dia o maurício faltou à aula das nove. Até aí, nada de particular. Saímos para o pátio e o maurício estava no campo de basket, perfeitamente equipado, sozinho, a lançar a bola ao cesto.
- Ó maurício, faltaste à aula das nove.
E o maurício, sem responder, imperturbável, continuava a lançar a bola ao cesto.
Tocou para a aula das dez.
- Ó maurício, não vens à aula?
O maurício não respondia. Continuava, imperturbável, a lançar a bola ao cesto.
Faltou à aula das dez, faltou toda a manhã. Nos intervalos saíamos e logo ouvíamos a bola contra a tabela. O maurício, sozinho, continuava a lançar a bola ao cesto.
Só se foi vestir quando tocou para a saída da última aula dessa manhã. Esperámos todos por ele. Não lhe perguntámos nada. E seguimo-lo, cheios de admiração. O maurício, apesar dos professores, apesar dos contínuos, apesar da campainha, faltara a todas as aulas.
Toda a manhã jogara basket. Sozinho. Contra professores, contra contínuos, contra a campainha.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 181 e 182 | Editorial Presença Lda., 1984
948
Ruy Belo
Homem de grandes dias
E a cal casa de cada qual
Tens as orelhas brancas
longa é a lança que dos olhos lanças
És tu e tens mistérios de mulher
ó breve ó longo
Faço percebes horas
Há muitos pés pela cidade
Oh [longo] és possível
elefante branco visto em África
E não há mais ninguém
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 123 | Editorial Presença Lda., 1984
Tens as orelhas brancas
longa é a lança que dos olhos lanças
És tu e tens mistérios de mulher
ó breve ó longo
Faço percebes horas
Há muitos pés pela cidade
Oh [longo] és possível
elefante branco visto em África
E não há mais ninguém
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 123 | Editorial Presença Lda., 1984
1 049
Ruy Belo
Homem de grandes dias
E a cal casa de cada qual
Tens as orelhas brancas
longa é a lança que dos olhos lanças
És tu e tens mistérios de mulher
ó breve ó longo
Faço percebes horas
Há muitos pés pela cidade
Oh [longo] és possível
elefante branco visto em África
E não há mais ninguém
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 123 | Editorial Presença Lda., 1984
Tens as orelhas brancas
longa é a lança que dos olhos lanças
És tu e tens mistérios de mulher
ó breve ó longo
Faço percebes horas
Há muitos pés pela cidade
Oh [longo] és possível
elefante branco visto em África
E não há mais ninguém
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 123 | Editorial Presença Lda., 1984
1 049
Ruy Belo
O jogador do pião
Faz rodar o pião redondo tudo em volta
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos - tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
Reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível de maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
que a vida arrebatada aos demais olhos seja
ao comprido coberta pelo chão da igreja
E Abril traz o Senhor e até esse esquece
o operário inútil imolado à messe
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 117 | Editorial Presença Lda., 1984
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos - tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
Reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível de maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
que a vida arrebatada aos demais olhos seja
ao comprido coberta pelo chão da igreja
E Abril traz o Senhor e até esse esquece
o operário inútil imolado à messe
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 117 | Editorial Presença Lda., 1984
1 504
Ruy Belo
Quanto morre um homem
Quando eu um dia decisivamente voltar a face
daquelas coisas que só de perfil contemplei
quem procurará nelas as linhas do teu rosto?
Quem dará o teu nome a todas as ruas
que encontrar no coração e na cidade?
Quem te porá como fruto nas árvores ou como paisagem
no brilho de olhos lavados nas quatro estações?
Quando toda a alegria for clandestina
alguém te dobrará em cada esquina?
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 38 e 39 | Editorial Presença Lda., 1984
daquelas coisas que só de perfil contemplei
quem procurará nelas as linhas do teu rosto?
Quem dará o teu nome a todas as ruas
que encontrar no coração e na cidade?
Quem te porá como fruto nas árvores ou como paisagem
no brilho de olhos lavados nas quatro estações?
Quando toda a alegria for clandestina
alguém te dobrará em cada esquina?
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 38 e 39 | Editorial Presença Lda., 1984
1 895