Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Carlos Frydman
Anistia Ainda Que Tardia
"LIBERTAS QUE SERA TAMEN"
(Virgílio -
Inscrito na bandeira da Inconfidência Mineira)
"después de tanto que sobreviví me
acostumbré a morir más de una muerte."
(Pablo Neruda)
Para que sol
na penumbra do medo?
Para que poético poente
no vasto peso da solidão?
Se vivemos coagidos
em espaços demarcados
como extasiar-nos na amplidão?
Como alentar-nos nos vôos dos pássaros
se um tiro dispersará seu flutuar sereno
e um pombo alvo, alvejado, cairá sangrando?
Alcançaremos horizontes
quando a liberdade é tolerância barganhada?
Como pensar destemidos,
se delatores deturpam pensamentos?
De que valem os direitos
na temerária existência?
Para que preces,
se dizimam com religiosidade?
Como sentir-se livre,
se olhares esperançosos
se impregnam nas masmorras?
Como renascer no frescor da verdade,
se a verdade é receio murmurado?
Como acalentar-se no afeto,
se na calada da noite
famílias são dissipadas
em sangue, morte e desonra?
Como pode alguém massacrar
e não fugir de si mesmo?
Como pode alguém
apagar sua consciência
e conviver com o vazio?
Como guardar luto ou memória
daqueles de destinos apagados,
e sem sepultura?
Como evadir-se dos ressentimentos,
se a vida sobrevive estagnada?
Será íntegra a Pátria
com filhos excluídos por amor à terra?
Como podem, tão poucos, nos milênios,
tornarem-se manadas ferozes
presos à gula de seus alugados instintos?
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
(Virgílio -
Inscrito na bandeira da Inconfidência Mineira)
"después de tanto que sobreviví me
acostumbré a morir más de una muerte."
(Pablo Neruda)
Para que sol
na penumbra do medo?
Para que poético poente
no vasto peso da solidão?
Se vivemos coagidos
em espaços demarcados
como extasiar-nos na amplidão?
Como alentar-nos nos vôos dos pássaros
se um tiro dispersará seu flutuar sereno
e um pombo alvo, alvejado, cairá sangrando?
Alcançaremos horizontes
quando a liberdade é tolerância barganhada?
Como pensar destemidos,
se delatores deturpam pensamentos?
De que valem os direitos
na temerária existência?
Para que preces,
se dizimam com religiosidade?
Como sentir-se livre,
se olhares esperançosos
se impregnam nas masmorras?
Como renascer no frescor da verdade,
se a verdade é receio murmurado?
Como acalentar-se no afeto,
se na calada da noite
famílias são dissipadas
em sangue, morte e desonra?
Como pode alguém massacrar
e não fugir de si mesmo?
Como pode alguém
apagar sua consciência
e conviver com o vazio?
Como guardar luto ou memória
daqueles de destinos apagados,
e sem sepultura?
Como evadir-se dos ressentimentos,
se a vida sobrevive estagnada?
Será íntegra a Pátria
com filhos excluídos por amor à terra?
Como podem, tão poucos, nos milênios,
tornarem-se manadas ferozes
presos à gula de seus alugados instintos?
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
1 116
João Cabral de Melo Neto
A Lição de Poesia
1. Toda a manhã consumida
como um sol imóvel
diante da folha em branco:
princípio do mundo, lua nova.
Já não podias desenhar
sequer uma linha;
um nome, sequer uma flor
desabrochava no verão da mesa:
nem no meio-dia iluminado,
cada dia comprado,
do papel, que pode aceitar,
contudo, qualquer mundo.
2. A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.
Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.
Carvão de lápis, carvão
da idéia fixa, carvão
da emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.
3. A luta branca sobre o papel
que o poeta evita,
luta branca onde corre o sangue
de suas veias de água salgada.
A física do susto percebida
entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas
porém imóveis — naturezas vivas.
E as vinte palavras recolhidas
nas águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.
Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar.
Publicado no livro O engenheiro (1945).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.78-79. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
como um sol imóvel
diante da folha em branco:
princípio do mundo, lua nova.
Já não podias desenhar
sequer uma linha;
um nome, sequer uma flor
desabrochava no verão da mesa:
nem no meio-dia iluminado,
cada dia comprado,
do papel, que pode aceitar,
contudo, qualquer mundo.
2. A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.
Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.
Carvão de lápis, carvão
da idéia fixa, carvão
da emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.
3. A luta branca sobre o papel
que o poeta evita,
luta branca onde corre o sangue
de suas veias de água salgada.
A física do susto percebida
entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas
porém imóveis — naturezas vivas.
E as vinte palavras recolhidas
nas águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.
Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar.
Publicado no livro O engenheiro (1945).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.78-79. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
6 696
João Cabral de Melo Neto
À Brasília de Oscar Niemeyer
Eis casas-grandes de engenho,
horizontais, escancaradas,
onde se existe em extensão
e a alma todoaberta se espraia.
Não se sabe é se o arquiteto
as quis símbolos ou ginástica:
símbolos do que chamou Vinicius
"imensos limites da pátria"
ou ginástica, para ensinar
quem for viver naquelas salas
um deixar-se, um deixar viver
de alma arejada, não fanática.
Publicado no livro Museu de tudo (1975).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.399. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
horizontais, escancaradas,
onde se existe em extensão
e a alma todoaberta se espraia.
Não se sabe é se o arquiteto
as quis símbolos ou ginástica:
símbolos do que chamou Vinicius
"imensos limites da pátria"
ou ginástica, para ensinar
quem for viver naquelas salas
um deixar-se, um deixar viver
de alma arejada, não fanática.
Publicado no livro Museu de tudo (1975).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.399. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
3 616
João Cabral de Melo Neto
À Brasília de Oscar Niemeyer
Eis casas-grandes de engenho,
horizontais, escancaradas,
onde se existe em extensão
e a alma todoaberta se espraia.
Não se sabe é se o arquiteto
as quis símbolos ou ginástica:
símbolos do que chamou Vinicius
"imensos limites da pátria"
ou ginástica, para ensinar
quem for viver naquelas salas
um deixar-se, um deixar viver
de alma arejada, não fanática.
Publicado no livro Museu de tudo (1975).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.399. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
horizontais, escancaradas,
onde se existe em extensão
e a alma todoaberta se espraia.
Não se sabe é se o arquiteto
as quis símbolos ou ginástica:
símbolos do que chamou Vinicius
"imensos limites da pátria"
ou ginástica, para ensinar
quem for viver naquelas salas
um deixar-se, um deixar viver
de alma arejada, não fanática.
Publicado no livro Museu de tudo (1975).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.399. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
3 616
Geir Campos
Soneto Fabril
Parques, sim, mas parques industriais:
neles é que passeia o nosso amor
em bairros pouco residenciais
onde ronrona a máquina a vapor.
Das chaminés das fábricas saem mais
nuvens (claras, escuras) de vapor
e de fumaça, com a cor das quais
o azul do céu muda-se noutra cor.
Pairando entre esse céu assim mudado
e a terra onde prossegue a mesma a vida
com seu esquema aceito mas errado
retém-se o nosso olhar em bagatelas
— que de pequenas coisas é tecida
a glória de viver e achá-las belas.
Publicado no livro Canto claro e poemas anteriores (1957).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
neles é que passeia o nosso amor
em bairros pouco residenciais
onde ronrona a máquina a vapor.
Das chaminés das fábricas saem mais
nuvens (claras, escuras) de vapor
e de fumaça, com a cor das quais
o azul do céu muda-se noutra cor.
Pairando entre esse céu assim mudado
e a terra onde prossegue a mesma a vida
com seu esquema aceito mas errado
retém-se o nosso olhar em bagatelas
— que de pequenas coisas é tecida
a glória de viver e achá-las belas.
Publicado no livro Canto claro e poemas anteriores (1957).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
1 284
Geir Campos
Soneto Fabril
Parques, sim, mas parques industriais:
neles é que passeia o nosso amor
em bairros pouco residenciais
onde ronrona a máquina a vapor.
Das chaminés das fábricas saem mais
nuvens (claras, escuras) de vapor
e de fumaça, com a cor das quais
o azul do céu muda-se noutra cor.
Pairando entre esse céu assim mudado
e a terra onde prossegue a mesma a vida
com seu esquema aceito mas errado
retém-se o nosso olhar em bagatelas
— que de pequenas coisas é tecida
a glória de viver e achá-las belas.
Publicado no livro Canto claro e poemas anteriores (1957).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
neles é que passeia o nosso amor
em bairros pouco residenciais
onde ronrona a máquina a vapor.
Das chaminés das fábricas saem mais
nuvens (claras, escuras) de vapor
e de fumaça, com a cor das quais
o azul do céu muda-se noutra cor.
Pairando entre esse céu assim mudado
e a terra onde prossegue a mesma a vida
com seu esquema aceito mas errado
retém-se o nosso olhar em bagatelas
— que de pequenas coisas é tecida
a glória de viver e achá-las belas.
Publicado no livro Canto claro e poemas anteriores (1957).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
1 284
Armando Freitas Filho
Fazer carreira
Fazer carreira
é sair correndo por fora
— como um ladrão —
de dentro de si mesmo
virando-se pelo avesso
ao encalço do futuro
engolindo sapos
poemas e sopapos
comendo de tudo
e cometendo sem parar
paráfrases, pastiches, mélanges
marmeladas
competindo
não apenas
por um lugar ao sol
mas pelo lugar do sol
na vanguarda
ou entre os marginais
descendo-subindo ou o contrário
a escada rolante
a escalada, o escândalo
do sucesso
até conseguir
o crime perfeito
a obra-prima underground
que é o primeiro
ou o último degrau?
In: FREITAS FILHO, Armando. Longa vida, 1979/1981. Pref. Ana Cristina Cesar. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. (Poiesis)
é sair correndo por fora
— como um ladrão —
de dentro de si mesmo
virando-se pelo avesso
ao encalço do futuro
engolindo sapos
poemas e sopapos
comendo de tudo
e cometendo sem parar
paráfrases, pastiches, mélanges
marmeladas
competindo
não apenas
por um lugar ao sol
mas pelo lugar do sol
na vanguarda
ou entre os marginais
descendo-subindo ou o contrário
a escada rolante
a escalada, o escândalo
do sucesso
até conseguir
o crime perfeito
a obra-prima underground
que é o primeiro
ou o último degrau?
In: FREITAS FILHO, Armando. Longa vida, 1979/1981. Pref. Ana Cristina Cesar. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. (Poiesis)
1 179
Armando Freitas Filho
Fazer carreira
Fazer carreira
é sair correndo por fora
— como um ladrão —
de dentro de si mesmo
virando-se pelo avesso
ao encalço do futuro
engolindo sapos
poemas e sopapos
comendo de tudo
e cometendo sem parar
paráfrases, pastiches, mélanges
marmeladas
competindo
não apenas
por um lugar ao sol
mas pelo lugar do sol
na vanguarda
ou entre os marginais
descendo-subindo ou o contrário
a escada rolante
a escalada, o escândalo
do sucesso
até conseguir
o crime perfeito
a obra-prima underground
que é o primeiro
ou o último degrau?
In: FREITAS FILHO, Armando. Longa vida, 1979/1981. Pref. Ana Cristina Cesar. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. (Poiesis)
é sair correndo por fora
— como um ladrão —
de dentro de si mesmo
virando-se pelo avesso
ao encalço do futuro
engolindo sapos
poemas e sopapos
comendo de tudo
e cometendo sem parar
paráfrases, pastiches, mélanges
marmeladas
competindo
não apenas
por um lugar ao sol
mas pelo lugar do sol
na vanguarda
ou entre os marginais
descendo-subindo ou o contrário
a escada rolante
a escalada, o escândalo
do sucesso
até conseguir
o crime perfeito
a obra-prima underground
que é o primeiro
ou o último degrau?
In: FREITAS FILHO, Armando. Longa vida, 1979/1981. Pref. Ana Cristina Cesar. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. (Poiesis)
1 179
Carlos Felipe Moisés
Mário de Andrade em San Francisco
para Roberto Piva & Cláudio Willer
Dez horas da noite.
Percorro os meandros do Chinatown em San Francisco
e entre becos de névoa e olhares aflitos
é a ti que procuro,
São Paulo, comoção da minha vida,
na voz de Mário,
teu poeta
subindo e descendo as ladeiras da angústia
de uma cidade que anseia pelo mar.
Dez horas da noite.
Meu pés,
que já pisaram as ruínas de Yucatán
e a Medina de Marraquech
o cais de Amsterdã
e o deserto de Alcácer-Quebir,
chegam cansados à Union Square no coração de San Francisco
e este chão morno coberto de pombos me acolhe
como se eu pisasse a Rua Lopes Chaves em noite de crimes.
Dez horas da noite.
A culpa do insofrido
onde está?
Ali, Mário, põe a máscara!
O Rei de Tule jogou a taça ao mar,
vendaval a levou — e hoje,
troféu cravado na torre mais alta da Golden Gate
banhada em luar
ela anseia pelo Oriente onde, dizem, o sol reside.
Dez horas da noite.
Vem, Mário, vou mostrar-te San Francisco,
cidade esculpida em bruma a oriente do Oriente onde a
Primavera existe e se ergue do mar todo ano ofertando
presságios e desassossego,
ladeira abaixo
ladeira acima.
Aqui os corações são arrastados pelos bondes sapateando nos
trilhos como o nosso dlem-dlem Santana! ei-ô! rumo à
Voluntários da Pátria ou às madrugadas arrepiadas de
frio do Largo de São Bento.
(...)
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Subsolo. São Paulo: Massao Ohno, 1989
Dez horas da noite.
Percorro os meandros do Chinatown em San Francisco
e entre becos de névoa e olhares aflitos
é a ti que procuro,
São Paulo, comoção da minha vida,
na voz de Mário,
teu poeta
subindo e descendo as ladeiras da angústia
de uma cidade que anseia pelo mar.
Dez horas da noite.
Meu pés,
que já pisaram as ruínas de Yucatán
e a Medina de Marraquech
o cais de Amsterdã
e o deserto de Alcácer-Quebir,
chegam cansados à Union Square no coração de San Francisco
e este chão morno coberto de pombos me acolhe
como se eu pisasse a Rua Lopes Chaves em noite de crimes.
Dez horas da noite.
A culpa do insofrido
onde está?
Ali, Mário, põe a máscara!
O Rei de Tule jogou a taça ao mar,
vendaval a levou — e hoje,
troféu cravado na torre mais alta da Golden Gate
banhada em luar
ela anseia pelo Oriente onde, dizem, o sol reside.
Dez horas da noite.
Vem, Mário, vou mostrar-te San Francisco,
cidade esculpida em bruma a oriente do Oriente onde a
Primavera existe e se ergue do mar todo ano ofertando
presságios e desassossego,
ladeira abaixo
ladeira acima.
Aqui os corações são arrastados pelos bondes sapateando nos
trilhos como o nosso dlem-dlem Santana! ei-ô! rumo à
Voluntários da Pátria ou às madrugadas arrepiadas de
frio do Largo de São Bento.
(...)
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Subsolo. São Paulo: Massao Ohno, 1989
947
Carlos Felipe Moisés
Mário de Andrade em San Francisco
para Roberto Piva & Cláudio Willer
Dez horas da noite.
Percorro os meandros do Chinatown em San Francisco
e entre becos de névoa e olhares aflitos
é a ti que procuro,
São Paulo, comoção da minha vida,
na voz de Mário,
teu poeta
subindo e descendo as ladeiras da angústia
de uma cidade que anseia pelo mar.
Dez horas da noite.
Meu pés,
que já pisaram as ruínas de Yucatán
e a Medina de Marraquech
o cais de Amsterdã
e o deserto de Alcácer-Quebir,
chegam cansados à Union Square no coração de San Francisco
e este chão morno coberto de pombos me acolhe
como se eu pisasse a Rua Lopes Chaves em noite de crimes.
Dez horas da noite.
A culpa do insofrido
onde está?
Ali, Mário, põe a máscara!
O Rei de Tule jogou a taça ao mar,
vendaval a levou — e hoje,
troféu cravado na torre mais alta da Golden Gate
banhada em luar
ela anseia pelo Oriente onde, dizem, o sol reside.
Dez horas da noite.
Vem, Mário, vou mostrar-te San Francisco,
cidade esculpida em bruma a oriente do Oriente onde a
Primavera existe e se ergue do mar todo ano ofertando
presságios e desassossego,
ladeira abaixo
ladeira acima.
Aqui os corações são arrastados pelos bondes sapateando nos
trilhos como o nosso dlem-dlem Santana! ei-ô! rumo à
Voluntários da Pátria ou às madrugadas arrepiadas de
frio do Largo de São Bento.
(...)
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Subsolo. São Paulo: Massao Ohno, 1989
Dez horas da noite.
Percorro os meandros do Chinatown em San Francisco
e entre becos de névoa e olhares aflitos
é a ti que procuro,
São Paulo, comoção da minha vida,
na voz de Mário,
teu poeta
subindo e descendo as ladeiras da angústia
de uma cidade que anseia pelo mar.
Dez horas da noite.
Meu pés,
que já pisaram as ruínas de Yucatán
e a Medina de Marraquech
o cais de Amsterdã
e o deserto de Alcácer-Quebir,
chegam cansados à Union Square no coração de San Francisco
e este chão morno coberto de pombos me acolhe
como se eu pisasse a Rua Lopes Chaves em noite de crimes.
Dez horas da noite.
A culpa do insofrido
onde está?
Ali, Mário, põe a máscara!
O Rei de Tule jogou a taça ao mar,
vendaval a levou — e hoje,
troféu cravado na torre mais alta da Golden Gate
banhada em luar
ela anseia pelo Oriente onde, dizem, o sol reside.
Dez horas da noite.
Vem, Mário, vou mostrar-te San Francisco,
cidade esculpida em bruma a oriente do Oriente onde a
Primavera existe e se ergue do mar todo ano ofertando
presságios e desassossego,
ladeira abaixo
ladeira acima.
Aqui os corações são arrastados pelos bondes sapateando nos
trilhos como o nosso dlem-dlem Santana! ei-ô! rumo à
Voluntários da Pátria ou às madrugadas arrepiadas de
frio do Largo de São Bento.
(...)
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Subsolo. São Paulo: Massao Ohno, 1989
947
Domingos Carvalho da Silva
Com a Poesia no Cais
De macacão operário
e chave inglesa na mão,
convocarei a poesia
para um passeio ao crepúsculo
A Esfinge me escutará
no seu palácio de nuvens.
E sentirá a minha voz
acelerar o compasso
do seu coração de sol.
E descerá pela escada
dos raios rubros do poente.
E o seu hálito, como a brisa,
agitará meus cabelos.
Eu a olharei face a face
em sua alvura de morte.
E beijarei, como um tísico,
sua boca de esperança.
Depois tomarei seu braço
e a levarei — fria sombra! —
ver as pupilas sem luz
dos que naufragam na dor.
De macacão operário
trespassarei os portais
de velhos bairros obscuros.
E mostrarei à poesia
cortiços e lupanares.
Eu quero ver a Arte-Pura
estender sua mão à fome!
Que chegue às suas narinas
o aroma das privações!
Que sinta e aspire o hálito
da negra boca da noite,
dormindo nas casas tristes
onde a miséria desmaia.
Ó! a suprema poesia
que mora na flor de lótus!
A ninfa geraldiana,
a pura, a perfumadíssima!
Deixai-a ver esses negros
que puxam café no cais!
Deixai-a ver os tropeiros,
aradores e ferroviários!
Deixai-a entrar numa usina,
andar num trem de subúrbio
e ver saltar do andaime
para a morte, um operário!
Então a poesia pura,
de pés banhados em sangue,
sentirá que a luz da aurora
lhe circunda a fronte loura.
A brisa lhe afaga os seios
num sopro de humanidade.
E ela abrirá seus braços
de olhos fixos em Gomorra,
com o seu corpo de sal
suspenso acima da terra
e esta parindo à distância
o dia novo que nasce.
Publicado no livro Rosa extinta: poemas (1945).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Múltipla escolha. Introd. Diana Bernardes. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 1980
e chave inglesa na mão,
convocarei a poesia
para um passeio ao crepúsculo
A Esfinge me escutará
no seu palácio de nuvens.
E sentirá a minha voz
acelerar o compasso
do seu coração de sol.
E descerá pela escada
dos raios rubros do poente.
E o seu hálito, como a brisa,
agitará meus cabelos.
Eu a olharei face a face
em sua alvura de morte.
E beijarei, como um tísico,
sua boca de esperança.
Depois tomarei seu braço
e a levarei — fria sombra! —
ver as pupilas sem luz
dos que naufragam na dor.
De macacão operário
trespassarei os portais
de velhos bairros obscuros.
E mostrarei à poesia
cortiços e lupanares.
Eu quero ver a Arte-Pura
estender sua mão à fome!
Que chegue às suas narinas
o aroma das privações!
Que sinta e aspire o hálito
da negra boca da noite,
dormindo nas casas tristes
onde a miséria desmaia.
Ó! a suprema poesia
que mora na flor de lótus!
A ninfa geraldiana,
a pura, a perfumadíssima!
Deixai-a ver esses negros
que puxam café no cais!
Deixai-a ver os tropeiros,
aradores e ferroviários!
Deixai-a entrar numa usina,
andar num trem de subúrbio
e ver saltar do andaime
para a morte, um operário!
Então a poesia pura,
de pés banhados em sangue,
sentirá que a luz da aurora
lhe circunda a fronte loura.
A brisa lhe afaga os seios
num sopro de humanidade.
E ela abrirá seus braços
de olhos fixos em Gomorra,
com o seu corpo de sal
suspenso acima da terra
e esta parindo à distância
o dia novo que nasce.
Publicado no livro Rosa extinta: poemas (1945).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Múltipla escolha. Introd. Diana Bernardes. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 1980
2 158
Domingos Carvalho da Silva
Com a Poesia no Cais
De macacão operário
e chave inglesa na mão,
convocarei a poesia
para um passeio ao crepúsculo
A Esfinge me escutará
no seu palácio de nuvens.
E sentirá a minha voz
acelerar o compasso
do seu coração de sol.
E descerá pela escada
dos raios rubros do poente.
E o seu hálito, como a brisa,
agitará meus cabelos.
Eu a olharei face a face
em sua alvura de morte.
E beijarei, como um tísico,
sua boca de esperança.
Depois tomarei seu braço
e a levarei — fria sombra! —
ver as pupilas sem luz
dos que naufragam na dor.
De macacão operário
trespassarei os portais
de velhos bairros obscuros.
E mostrarei à poesia
cortiços e lupanares.
Eu quero ver a Arte-Pura
estender sua mão à fome!
Que chegue às suas narinas
o aroma das privações!
Que sinta e aspire o hálito
da negra boca da noite,
dormindo nas casas tristes
onde a miséria desmaia.
Ó! a suprema poesia
que mora na flor de lótus!
A ninfa geraldiana,
a pura, a perfumadíssima!
Deixai-a ver esses negros
que puxam café no cais!
Deixai-a ver os tropeiros,
aradores e ferroviários!
Deixai-a entrar numa usina,
andar num trem de subúrbio
e ver saltar do andaime
para a morte, um operário!
Então a poesia pura,
de pés banhados em sangue,
sentirá que a luz da aurora
lhe circunda a fronte loura.
A brisa lhe afaga os seios
num sopro de humanidade.
E ela abrirá seus braços
de olhos fixos em Gomorra,
com o seu corpo de sal
suspenso acima da terra
e esta parindo à distância
o dia novo que nasce.
Publicado no livro Rosa extinta: poemas (1945).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Múltipla escolha. Introd. Diana Bernardes. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 1980
e chave inglesa na mão,
convocarei a poesia
para um passeio ao crepúsculo
A Esfinge me escutará
no seu palácio de nuvens.
E sentirá a minha voz
acelerar o compasso
do seu coração de sol.
E descerá pela escada
dos raios rubros do poente.
E o seu hálito, como a brisa,
agitará meus cabelos.
Eu a olharei face a face
em sua alvura de morte.
E beijarei, como um tísico,
sua boca de esperança.
Depois tomarei seu braço
e a levarei — fria sombra! —
ver as pupilas sem luz
dos que naufragam na dor.
De macacão operário
trespassarei os portais
de velhos bairros obscuros.
E mostrarei à poesia
cortiços e lupanares.
Eu quero ver a Arte-Pura
estender sua mão à fome!
Que chegue às suas narinas
o aroma das privações!
Que sinta e aspire o hálito
da negra boca da noite,
dormindo nas casas tristes
onde a miséria desmaia.
Ó! a suprema poesia
que mora na flor de lótus!
A ninfa geraldiana,
a pura, a perfumadíssima!
Deixai-a ver esses negros
que puxam café no cais!
Deixai-a ver os tropeiros,
aradores e ferroviários!
Deixai-a entrar numa usina,
andar num trem de subúrbio
e ver saltar do andaime
para a morte, um operário!
Então a poesia pura,
de pés banhados em sangue,
sentirá que a luz da aurora
lhe circunda a fronte loura.
A brisa lhe afaga os seios
num sopro de humanidade.
E ela abrirá seus braços
de olhos fixos em Gomorra,
com o seu corpo de sal
suspenso acima da terra
e esta parindo à distância
o dia novo que nasce.
Publicado no livro Rosa extinta: poemas (1945).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Múltipla escolha. Introd. Diana Bernardes. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 1980
2 158
Domingos Carvalho da Silva
Com a Poesia no Cais
De macacão operário
e chave inglesa na mão,
convocarei a poesia
para um passeio ao crepúsculo
A Esfinge me escutará
no seu palácio de nuvens.
E sentirá a minha voz
acelerar o compasso
do seu coração de sol.
E descerá pela escada
dos raios rubros do poente.
E o seu hálito, como a brisa,
agitará meus cabelos.
Eu a olharei face a face
em sua alvura de morte.
E beijarei, como um tísico,
sua boca de esperança.
Depois tomarei seu braço
e a levarei — fria sombra! —
ver as pupilas sem luz
dos que naufragam na dor.
De macacão operário
trespassarei os portais
de velhos bairros obscuros.
E mostrarei à poesia
cortiços e lupanares.
Eu quero ver a Arte-Pura
estender sua mão à fome!
Que chegue às suas narinas
o aroma das privações!
Que sinta e aspire o hálito
da negra boca da noite,
dormindo nas casas tristes
onde a miséria desmaia.
Ó! a suprema poesia
que mora na flor de lótus!
A ninfa geraldiana,
a pura, a perfumadíssima!
Deixai-a ver esses negros
que puxam café no cais!
Deixai-a ver os tropeiros,
aradores e ferroviários!
Deixai-a entrar numa usina,
andar num trem de subúrbio
e ver saltar do andaime
para a morte, um operário!
Então a poesia pura,
de pés banhados em sangue,
sentirá que a luz da aurora
lhe circunda a fronte loura.
A brisa lhe afaga os seios
num sopro de humanidade.
E ela abrirá seus braços
de olhos fixos em Gomorra,
com o seu corpo de sal
suspenso acima da terra
e esta parindo à distância
o dia novo que nasce.
Publicado no livro Rosa extinta: poemas (1945).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Múltipla escolha. Introd. Diana Bernardes. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 1980
e chave inglesa na mão,
convocarei a poesia
para um passeio ao crepúsculo
A Esfinge me escutará
no seu palácio de nuvens.
E sentirá a minha voz
acelerar o compasso
do seu coração de sol.
E descerá pela escada
dos raios rubros do poente.
E o seu hálito, como a brisa,
agitará meus cabelos.
Eu a olharei face a face
em sua alvura de morte.
E beijarei, como um tísico,
sua boca de esperança.
Depois tomarei seu braço
e a levarei — fria sombra! —
ver as pupilas sem luz
dos que naufragam na dor.
De macacão operário
trespassarei os portais
de velhos bairros obscuros.
E mostrarei à poesia
cortiços e lupanares.
Eu quero ver a Arte-Pura
estender sua mão à fome!
Que chegue às suas narinas
o aroma das privações!
Que sinta e aspire o hálito
da negra boca da noite,
dormindo nas casas tristes
onde a miséria desmaia.
Ó! a suprema poesia
que mora na flor de lótus!
A ninfa geraldiana,
a pura, a perfumadíssima!
Deixai-a ver esses negros
que puxam café no cais!
Deixai-a ver os tropeiros,
aradores e ferroviários!
Deixai-a entrar numa usina,
andar num trem de subúrbio
e ver saltar do andaime
para a morte, um operário!
Então a poesia pura,
de pés banhados em sangue,
sentirá que a luz da aurora
lhe circunda a fronte loura.
A brisa lhe afaga os seios
num sopro de humanidade.
E ela abrirá seus braços
de olhos fixos em Gomorra,
com o seu corpo de sal
suspenso acima da terra
e esta parindo à distância
o dia novo que nasce.
Publicado no livro Rosa extinta: poemas (1945).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Múltipla escolha. Introd. Diana Bernardes. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 1980
2 158
Eduardo Alves da Costa
Mais Forte que James Bond
Mais forte que James Bond
é o meu vizinho:
um cansaço, um fracasso
"que se lhe vê na cara",
nos óculos engordurados,
presos com esparadrapo.
E nas calças.
Ah, os fundilhos do meu vizinho,
que desastre! Que abundância de panos!
Um sino de brim
badalado por um rabo mirrado,
milhões de pancadas
para matar a meia-fome da família.
(...)
pelo olhar abatido,
as torturas que terá sofrido.
Pobre, pobre James!
De que lhe vale o caratê diário
de bancário?
E a maletinha-camuflagem
para sanduíches
com escaninho
e cápsulas de café mortífero?
Pra que discutir no serviço
a melhor maneira de dar sumiço
no coreano-lança-cartolas-corta-bolas,
se tem a própria vida metida na cartola?
Afinal, o que sente o meu vizinho
diante de tanta beleza e abundância?
Minha esperança é que um dia este meu James
comece a espionar em causa própria;
pois nem sempre se vive duas vezes
para encontrar o sentido da mensagem:
ser espião sem saber o que se espia
é trabalhar para a contra-espionagem.
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
é o meu vizinho:
um cansaço, um fracasso
"que se lhe vê na cara",
nos óculos engordurados,
presos com esparadrapo.
E nas calças.
Ah, os fundilhos do meu vizinho,
que desastre! Que abundância de panos!
Um sino de brim
badalado por um rabo mirrado,
milhões de pancadas
para matar a meia-fome da família.
(...)
pelo olhar abatido,
as torturas que terá sofrido.
Pobre, pobre James!
De que lhe vale o caratê diário
de bancário?
E a maletinha-camuflagem
para sanduíches
com escaninho
e cápsulas de café mortífero?
Pra que discutir no serviço
a melhor maneira de dar sumiço
no coreano-lança-cartolas-corta-bolas,
se tem a própria vida metida na cartola?
Afinal, o que sente o meu vizinho
diante de tanta beleza e abundância?
Minha esperança é que um dia este meu James
comece a espionar em causa própria;
pois nem sempre se vive duas vezes
para encontrar o sentido da mensagem:
ser espião sem saber o que se espia
é trabalhar para a contra-espionagem.
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
1 226
Eduardo Alves da Costa
Mais Forte que James Bond
Mais forte que James Bond
é o meu vizinho:
um cansaço, um fracasso
"que se lhe vê na cara",
nos óculos engordurados,
presos com esparadrapo.
E nas calças.
Ah, os fundilhos do meu vizinho,
que desastre! Que abundância de panos!
Um sino de brim
badalado por um rabo mirrado,
milhões de pancadas
para matar a meia-fome da família.
(...)
pelo olhar abatido,
as torturas que terá sofrido.
Pobre, pobre James!
De que lhe vale o caratê diário
de bancário?
E a maletinha-camuflagem
para sanduíches
com escaninho
e cápsulas de café mortífero?
Pra que discutir no serviço
a melhor maneira de dar sumiço
no coreano-lança-cartolas-corta-bolas,
se tem a própria vida metida na cartola?
Afinal, o que sente o meu vizinho
diante de tanta beleza e abundância?
Minha esperança é que um dia este meu James
comece a espionar em causa própria;
pois nem sempre se vive duas vezes
para encontrar o sentido da mensagem:
ser espião sem saber o que se espia
é trabalhar para a contra-espionagem.
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
é o meu vizinho:
um cansaço, um fracasso
"que se lhe vê na cara",
nos óculos engordurados,
presos com esparadrapo.
E nas calças.
Ah, os fundilhos do meu vizinho,
que desastre! Que abundância de panos!
Um sino de brim
badalado por um rabo mirrado,
milhões de pancadas
para matar a meia-fome da família.
(...)
pelo olhar abatido,
as torturas que terá sofrido.
Pobre, pobre James!
De que lhe vale o caratê diário
de bancário?
E a maletinha-camuflagem
para sanduíches
com escaninho
e cápsulas de café mortífero?
Pra que discutir no serviço
a melhor maneira de dar sumiço
no coreano-lança-cartolas-corta-bolas,
se tem a própria vida metida na cartola?
Afinal, o que sente o meu vizinho
diante de tanta beleza e abundância?
Minha esperança é que um dia este meu James
comece a espionar em causa própria;
pois nem sempre se vive duas vezes
para encontrar o sentido da mensagem:
ser espião sem saber o que se espia
é trabalhar para a contra-espionagem.
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
1 226
Eduardo Alves da Costa
Mais Forte que James Bond
Mais forte que James Bond
é o meu vizinho:
um cansaço, um fracasso
"que se lhe vê na cara",
nos óculos engordurados,
presos com esparadrapo.
E nas calças.
Ah, os fundilhos do meu vizinho,
que desastre! Que abundância de panos!
Um sino de brim
badalado por um rabo mirrado,
milhões de pancadas
para matar a meia-fome da família.
(...)
pelo olhar abatido,
as torturas que terá sofrido.
Pobre, pobre James!
De que lhe vale o caratê diário
de bancário?
E a maletinha-camuflagem
para sanduíches
com escaninho
e cápsulas de café mortífero?
Pra que discutir no serviço
a melhor maneira de dar sumiço
no coreano-lança-cartolas-corta-bolas,
se tem a própria vida metida na cartola?
Afinal, o que sente o meu vizinho
diante de tanta beleza e abundância?
Minha esperança é que um dia este meu James
comece a espionar em causa própria;
pois nem sempre se vive duas vezes
para encontrar o sentido da mensagem:
ser espião sem saber o que se espia
é trabalhar para a contra-espionagem.
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
é o meu vizinho:
um cansaço, um fracasso
"que se lhe vê na cara",
nos óculos engordurados,
presos com esparadrapo.
E nas calças.
Ah, os fundilhos do meu vizinho,
que desastre! Que abundância de panos!
Um sino de brim
badalado por um rabo mirrado,
milhões de pancadas
para matar a meia-fome da família.
(...)
pelo olhar abatido,
as torturas que terá sofrido.
Pobre, pobre James!
De que lhe vale o caratê diário
de bancário?
E a maletinha-camuflagem
para sanduíches
com escaninho
e cápsulas de café mortífero?
Pra que discutir no serviço
a melhor maneira de dar sumiço
no coreano-lança-cartolas-corta-bolas,
se tem a própria vida metida na cartola?
Afinal, o que sente o meu vizinho
diante de tanta beleza e abundância?
Minha esperança é que um dia este meu James
comece a espionar em causa própria;
pois nem sempre se vive duas vezes
para encontrar o sentido da mensagem:
ser espião sem saber o que se espia
é trabalhar para a contra-espionagem.
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
1 226
Eduardo Alves da Costa
Poema do Amor Impossível a Candice Bergen
Candice candy
lovely sweet
sexy vamp
Candice Bergen!
Ergo-te um brinde
de erva-doce
como se fosse fino frapê
de LSD.
Musa diva mito
misto de absinto
e creme de hortelã:
sou teu fã.
Faça-se um pôster do teu rosto
para delírio da massa ocidental
de causar inveja ao próprio Mao.
Quem se negaria a trabalhar em dobro
alimentado pelo teu quase-sorriso,
tão monaliso?
Serias meta, recompensa, prêmio-produção
cravado com fitinha multicor
no coração do vencedor.
A indústria nacional ia à falência
de tanta saliência.
Atingiríamos o mais alto índice
de masturbação per capita,
exportaríamos Candices mulatas, olhos azuis.
Quem sabe o exemplo de tua rebeldia
nos libertasse da tirania
do preço, do plano, do lucro?
Serias acessível pelo crediário,
subversiva à ordem dos fatores,
alteração do produto.
Para os mais pudicos,
faríamos santinho com a tua imagem;
te chamariam Maria
— não digo virgem, sei lá...
Ah, não haveria padre que chegasse
ao fim da missa!
(...)
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
lovely sweet
sexy vamp
Candice Bergen!
Ergo-te um brinde
de erva-doce
como se fosse fino frapê
de LSD.
Musa diva mito
misto de absinto
e creme de hortelã:
sou teu fã.
Faça-se um pôster do teu rosto
para delírio da massa ocidental
de causar inveja ao próprio Mao.
Quem se negaria a trabalhar em dobro
alimentado pelo teu quase-sorriso,
tão monaliso?
Serias meta, recompensa, prêmio-produção
cravado com fitinha multicor
no coração do vencedor.
A indústria nacional ia à falência
de tanta saliência.
Atingiríamos o mais alto índice
de masturbação per capita,
exportaríamos Candices mulatas, olhos azuis.
Quem sabe o exemplo de tua rebeldia
nos libertasse da tirania
do preço, do plano, do lucro?
Serias acessível pelo crediário,
subversiva à ordem dos fatores,
alteração do produto.
Para os mais pudicos,
faríamos santinho com a tua imagem;
te chamariam Maria
— não digo virgem, sei lá...
Ah, não haveria padre que chegasse
ao fim da missa!
(...)
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
1 532
Eduardo Alves da Costa
Poema do Amor Impossível a Candice Bergen
Candice candy
lovely sweet
sexy vamp
Candice Bergen!
Ergo-te um brinde
de erva-doce
como se fosse fino frapê
de LSD.
Musa diva mito
misto de absinto
e creme de hortelã:
sou teu fã.
Faça-se um pôster do teu rosto
para delírio da massa ocidental
de causar inveja ao próprio Mao.
Quem se negaria a trabalhar em dobro
alimentado pelo teu quase-sorriso,
tão monaliso?
Serias meta, recompensa, prêmio-produção
cravado com fitinha multicor
no coração do vencedor.
A indústria nacional ia à falência
de tanta saliência.
Atingiríamos o mais alto índice
de masturbação per capita,
exportaríamos Candices mulatas, olhos azuis.
Quem sabe o exemplo de tua rebeldia
nos libertasse da tirania
do preço, do plano, do lucro?
Serias acessível pelo crediário,
subversiva à ordem dos fatores,
alteração do produto.
Para os mais pudicos,
faríamos santinho com a tua imagem;
te chamariam Maria
— não digo virgem, sei lá...
Ah, não haveria padre que chegasse
ao fim da missa!
(...)
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
lovely sweet
sexy vamp
Candice Bergen!
Ergo-te um brinde
de erva-doce
como se fosse fino frapê
de LSD.
Musa diva mito
misto de absinto
e creme de hortelã:
sou teu fã.
Faça-se um pôster do teu rosto
para delírio da massa ocidental
de causar inveja ao próprio Mao.
Quem se negaria a trabalhar em dobro
alimentado pelo teu quase-sorriso,
tão monaliso?
Serias meta, recompensa, prêmio-produção
cravado com fitinha multicor
no coração do vencedor.
A indústria nacional ia à falência
de tanta saliência.
Atingiríamos o mais alto índice
de masturbação per capita,
exportaríamos Candices mulatas, olhos azuis.
Quem sabe o exemplo de tua rebeldia
nos libertasse da tirania
do preço, do plano, do lucro?
Serias acessível pelo crediário,
subversiva à ordem dos fatores,
alteração do produto.
Para os mais pudicos,
faríamos santinho com a tua imagem;
te chamariam Maria
— não digo virgem, sei lá...
Ah, não haveria padre que chegasse
ao fim da missa!
(...)
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
1 532
Carlos Vogt
Contrato Social
Nessa terra em que se plantando tudo dá
nasce uma fruta árida e harmônica
misto de bom crioulo e palha de pamonha
organização de homens só de bem
com os que estão de mal entre si com os outros.
In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
nasce uma fruta árida e harmônica
misto de bom crioulo e palha de pamonha
organização de homens só de bem
com os que estão de mal entre si com os outros.
In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 255
Carlos Vogt
Contrato Social
Nessa terra em que se plantando tudo dá
nasce uma fruta árida e harmônica
misto de bom crioulo e palha de pamonha
organização de homens só de bem
com os que estão de mal entre si com os outros.
In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
nasce uma fruta árida e harmônica
misto de bom crioulo e palha de pamonha
organização de homens só de bem
com os que estão de mal entre si com os outros.
In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 255
Carlos Vogt
Contrato Social
Nessa terra em que se plantando tudo dá
nasce uma fruta árida e harmônica
misto de bom crioulo e palha de pamonha
organização de homens só de bem
com os que estão de mal entre si com os outros.
In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
nasce uma fruta árida e harmônica
misto de bom crioulo e palha de pamonha
organização de homens só de bem
com os que estão de mal entre si com os outros.
In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 255
João Cabral de Melo Neto
Encontro com um Poeta
Em certo lugar da Mancha,
onde mais dura é Castela,
sob as espécies de um vento
soprando armado de areia,
vim surpreender a presença,
mais do que pensei, severa,
de certo Miguel Hernández,
hortelão de Orihuela.
A voz desse tal Miguel,
entre palavras e terra
indecisa, como em Fraga
as casas o estão da terra,
foi um dia arquitetura,
foi voz métrica de pedra,
tal como, cristalizada,
surge Madrid a quem chega.
Mas a voz que percebi
no vento da parameira
era de terra sofrida
e batida, terra de eira.
Não era a voz expurgada
de suas obras seletas:
era uma edição do vento,
que não vai às bibliotecas,
era uma edição incômoda,
a que se fecha a janela,
incômoda porque o vento
não censura mas libera.
A voz que então percebi
no vento da parameira
era aquela voz final
de Miguel, rouca de guerra
(talvez ainda mais aguda
no sotaque da poeira;
talvez mais dilacerada
quando o vento a interpreta).
Vi então que a terra batida
do fim da vida do poeta,
terra que de tão sofrida
acabou virando pedra,
se havia multiplicado
naquelas facas de areia
e que, se multiplicando,
multiplicara as arestas.
Naquela edição do vento
senti a voz mais direta:
igual que árvore amputada,
ganhara gumes de pedra.
Publicado no livro Duas águas: poemas reunidos (1956). Poema integrante da série Paisagens com Figuras.
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.155-156. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
onde mais dura é Castela,
sob as espécies de um vento
soprando armado de areia,
vim surpreender a presença,
mais do que pensei, severa,
de certo Miguel Hernández,
hortelão de Orihuela.
A voz desse tal Miguel,
entre palavras e terra
indecisa, como em Fraga
as casas o estão da terra,
foi um dia arquitetura,
foi voz métrica de pedra,
tal como, cristalizada,
surge Madrid a quem chega.
Mas a voz que percebi
no vento da parameira
era de terra sofrida
e batida, terra de eira.
Não era a voz expurgada
de suas obras seletas:
era uma edição do vento,
que não vai às bibliotecas,
era uma edição incômoda,
a que se fecha a janela,
incômoda porque o vento
não censura mas libera.
A voz que então percebi
no vento da parameira
era aquela voz final
de Miguel, rouca de guerra
(talvez ainda mais aguda
no sotaque da poeira;
talvez mais dilacerada
quando o vento a interpreta).
Vi então que a terra batida
do fim da vida do poeta,
terra que de tão sofrida
acabou virando pedra,
se havia multiplicado
naquelas facas de areia
e que, se multiplicando,
multiplicara as arestas.
Naquela edição do vento
senti a voz mais direta:
igual que árvore amputada,
ganhara gumes de pedra.
Publicado no livro Duas águas: poemas reunidos (1956). Poema integrante da série Paisagens com Figuras.
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.155-156. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
2 326
Carlos Frydman
Poema da Prece e do Amor Perdido
Aos adolescentes de Israel, Gaza, Cisjordânia e Soweto,
vítimas da incoerência e do obscurantismo.
"... porque Israel traz na sua carne a marca sagrada
da Aliança".
(ZAHAR III, 72b)
"Se um convertido residir contigo na tua aldeia,
não o maltrates, trata-o como os teus conterrâneos,
ama-o como teu próximo que eu, o Senhor, sou vosso
Deus; e vós foste estrangeiro em terras do Egito".
(Levítico, 19: 26-34)
II
Ninguém é uno.
Nem o homem, nem os povos,
nem os planetas, nem os sistemas:
todos se atraem na busca inevitável de horizontes.
Não há caminhos que não cruzem caminhos.
E não haverá destino
se barrarmos os caminhos dos que buscam.
Jamais uma verdade será eternamente soterrada.
Queiramos, ou não, em nosso judaísmo
habitam todos os povos;
todos estão presentes, indeléveis,
em nossa carne, em nossos atos,
como nas ruínas que escavamos.
Navegam em nossa essência
todas reconditórias vivências trucidadas.
Somam-se a nossa consciência,
todos os anseios impedidos.
Aflora de nosso passado compulsivo
caudais de ódio e vingança,
porque não soubemos estar presentes
com nossas vivências desoladas;
contra desavenças impingidas
e fazer fluir — a História — numa mesma harmonia.
(...)
Aprendemos com o Nazismo
que não se faz uma nação com instintos;
assim como nossa vivência provou,
que não se forja uma nação com submissão.
Os líderes opostos são sabiamente frios
no fogo de suas palavras ensaiadas
— enganam-se contornando labaredas insufladas.
Nossos erros, quando leves, são pesados.
Impedimo-nos em nossos pecados,
e nos condenam à expiação eterna
deste auto-afogamento.
Só afloraremos com todos os náufragos,
estendendo nossas mãos esperadas.
Jamais seremos êxodos
e jamais esmolaremos um canto,
se abrigarmos como filhos, filhos alheios.
Jamais teremos luz, se levantarmos sombras de ódio.
III
Em Israel, amanhecemos temerários e fatigados
porque nossa certeza é fustigada em todas as latitudes.
Assim como nossas mentes cresceram
quando queimaram nossos livros,
também cresce a presença de outros povos humilhados,
dentro de nosso destino.
As dores do mundo têm um mesmo embrião;
os povos devem espicaçá-lo até a morte, antes que nos anule.
O sangue envaído em Israel, Chalita,
Gaza, Cisjordânia ou Soweto,
continuará fluindo em nossa milenar tristeza
e ficará um pranto em todos os olhos semitas.
Deus!
Como sobreviveremos deste dilúvio
engendrado em ódio e sangue,
se a onipresença das armas
fustiga a onipresença dos povos?
Neste crepúsculo com silhuetas de morte,
um adolescente se afirma numa arma;
outro adolescente se incendeia no ódio
— ambos esqueceram a vida que descortinavam.
Uma mãe chora o filho morto,
outra mãe chora a alma do filho vivo e perdido
Imagem - 01330002
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
vítimas da incoerência e do obscurantismo.
"... porque Israel traz na sua carne a marca sagrada
da Aliança".
(ZAHAR III, 72b)
"Se um convertido residir contigo na tua aldeia,
não o maltrates, trata-o como os teus conterrâneos,
ama-o como teu próximo que eu, o Senhor, sou vosso
Deus; e vós foste estrangeiro em terras do Egito".
(Levítico, 19: 26-34)
II
Ninguém é uno.
Nem o homem, nem os povos,
nem os planetas, nem os sistemas:
todos se atraem na busca inevitável de horizontes.
Não há caminhos que não cruzem caminhos.
E não haverá destino
se barrarmos os caminhos dos que buscam.
Jamais uma verdade será eternamente soterrada.
Queiramos, ou não, em nosso judaísmo
habitam todos os povos;
todos estão presentes, indeléveis,
em nossa carne, em nossos atos,
como nas ruínas que escavamos.
Navegam em nossa essência
todas reconditórias vivências trucidadas.
Somam-se a nossa consciência,
todos os anseios impedidos.
Aflora de nosso passado compulsivo
caudais de ódio e vingança,
porque não soubemos estar presentes
com nossas vivências desoladas;
contra desavenças impingidas
e fazer fluir — a História — numa mesma harmonia.
(...)
Aprendemos com o Nazismo
que não se faz uma nação com instintos;
assim como nossa vivência provou,
que não se forja uma nação com submissão.
Os líderes opostos são sabiamente frios
no fogo de suas palavras ensaiadas
— enganam-se contornando labaredas insufladas.
Nossos erros, quando leves, são pesados.
Impedimo-nos em nossos pecados,
e nos condenam à expiação eterna
deste auto-afogamento.
Só afloraremos com todos os náufragos,
estendendo nossas mãos esperadas.
Jamais seremos êxodos
e jamais esmolaremos um canto,
se abrigarmos como filhos, filhos alheios.
Jamais teremos luz, se levantarmos sombras de ódio.
III
Em Israel, amanhecemos temerários e fatigados
porque nossa certeza é fustigada em todas as latitudes.
Assim como nossas mentes cresceram
quando queimaram nossos livros,
também cresce a presença de outros povos humilhados,
dentro de nosso destino.
As dores do mundo têm um mesmo embrião;
os povos devem espicaçá-lo até a morte, antes que nos anule.
O sangue envaído em Israel, Chalita,
Gaza, Cisjordânia ou Soweto,
continuará fluindo em nossa milenar tristeza
e ficará um pranto em todos os olhos semitas.
Deus!
Como sobreviveremos deste dilúvio
engendrado em ódio e sangue,
se a onipresença das armas
fustiga a onipresença dos povos?
Neste crepúsculo com silhuetas de morte,
um adolescente se afirma numa arma;
outro adolescente se incendeia no ódio
— ambos esqueceram a vida que descortinavam.
Uma mãe chora o filho morto,
outra mãe chora a alma do filho vivo e perdido
Imagem - 01330002
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
816
Carlos Frydman
Poema da Prece e do Amor Perdido
Aos adolescentes de Israel, Gaza, Cisjordânia e Soweto,
vítimas da incoerência e do obscurantismo.
"... porque Israel traz na sua carne a marca sagrada
da Aliança".
(ZAHAR III, 72b)
"Se um convertido residir contigo na tua aldeia,
não o maltrates, trata-o como os teus conterrâneos,
ama-o como teu próximo que eu, o Senhor, sou vosso
Deus; e vós foste estrangeiro em terras do Egito".
(Levítico, 19: 26-34)
II
Ninguém é uno.
Nem o homem, nem os povos,
nem os planetas, nem os sistemas:
todos se atraem na busca inevitável de horizontes.
Não há caminhos que não cruzem caminhos.
E não haverá destino
se barrarmos os caminhos dos que buscam.
Jamais uma verdade será eternamente soterrada.
Queiramos, ou não, em nosso judaísmo
habitam todos os povos;
todos estão presentes, indeléveis,
em nossa carne, em nossos atos,
como nas ruínas que escavamos.
Navegam em nossa essência
todas reconditórias vivências trucidadas.
Somam-se a nossa consciência,
todos os anseios impedidos.
Aflora de nosso passado compulsivo
caudais de ódio e vingança,
porque não soubemos estar presentes
com nossas vivências desoladas;
contra desavenças impingidas
e fazer fluir — a História — numa mesma harmonia.
(...)
Aprendemos com o Nazismo
que não se faz uma nação com instintos;
assim como nossa vivência provou,
que não se forja uma nação com submissão.
Os líderes opostos são sabiamente frios
no fogo de suas palavras ensaiadas
— enganam-se contornando labaredas insufladas.
Nossos erros, quando leves, são pesados.
Impedimo-nos em nossos pecados,
e nos condenam à expiação eterna
deste auto-afogamento.
Só afloraremos com todos os náufragos,
estendendo nossas mãos esperadas.
Jamais seremos êxodos
e jamais esmolaremos um canto,
se abrigarmos como filhos, filhos alheios.
Jamais teremos luz, se levantarmos sombras de ódio.
III
Em Israel, amanhecemos temerários e fatigados
porque nossa certeza é fustigada em todas as latitudes.
Assim como nossas mentes cresceram
quando queimaram nossos livros,
também cresce a presença de outros povos humilhados,
dentro de nosso destino.
As dores do mundo têm um mesmo embrião;
os povos devem espicaçá-lo até a morte, antes que nos anule.
O sangue envaído em Israel, Chalita,
Gaza, Cisjordânia ou Soweto,
continuará fluindo em nossa milenar tristeza
e ficará um pranto em todos os olhos semitas.
Deus!
Como sobreviveremos deste dilúvio
engendrado em ódio e sangue,
se a onipresença das armas
fustiga a onipresença dos povos?
Neste crepúsculo com silhuetas de morte,
um adolescente se afirma numa arma;
outro adolescente se incendeia no ódio
— ambos esqueceram a vida que descortinavam.
Uma mãe chora o filho morto,
outra mãe chora a alma do filho vivo e perdido
Imagem - 01330002
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
vítimas da incoerência e do obscurantismo.
"... porque Israel traz na sua carne a marca sagrada
da Aliança".
(ZAHAR III, 72b)
"Se um convertido residir contigo na tua aldeia,
não o maltrates, trata-o como os teus conterrâneos,
ama-o como teu próximo que eu, o Senhor, sou vosso
Deus; e vós foste estrangeiro em terras do Egito".
(Levítico, 19: 26-34)
II
Ninguém é uno.
Nem o homem, nem os povos,
nem os planetas, nem os sistemas:
todos se atraem na busca inevitável de horizontes.
Não há caminhos que não cruzem caminhos.
E não haverá destino
se barrarmos os caminhos dos que buscam.
Jamais uma verdade será eternamente soterrada.
Queiramos, ou não, em nosso judaísmo
habitam todos os povos;
todos estão presentes, indeléveis,
em nossa carne, em nossos atos,
como nas ruínas que escavamos.
Navegam em nossa essência
todas reconditórias vivências trucidadas.
Somam-se a nossa consciência,
todos os anseios impedidos.
Aflora de nosso passado compulsivo
caudais de ódio e vingança,
porque não soubemos estar presentes
com nossas vivências desoladas;
contra desavenças impingidas
e fazer fluir — a História — numa mesma harmonia.
(...)
Aprendemos com o Nazismo
que não se faz uma nação com instintos;
assim como nossa vivência provou,
que não se forja uma nação com submissão.
Os líderes opostos são sabiamente frios
no fogo de suas palavras ensaiadas
— enganam-se contornando labaredas insufladas.
Nossos erros, quando leves, são pesados.
Impedimo-nos em nossos pecados,
e nos condenam à expiação eterna
deste auto-afogamento.
Só afloraremos com todos os náufragos,
estendendo nossas mãos esperadas.
Jamais seremos êxodos
e jamais esmolaremos um canto,
se abrigarmos como filhos, filhos alheios.
Jamais teremos luz, se levantarmos sombras de ódio.
III
Em Israel, amanhecemos temerários e fatigados
porque nossa certeza é fustigada em todas as latitudes.
Assim como nossas mentes cresceram
quando queimaram nossos livros,
também cresce a presença de outros povos humilhados,
dentro de nosso destino.
As dores do mundo têm um mesmo embrião;
os povos devem espicaçá-lo até a morte, antes que nos anule.
O sangue envaído em Israel, Chalita,
Gaza, Cisjordânia ou Soweto,
continuará fluindo em nossa milenar tristeza
e ficará um pranto em todos os olhos semitas.
Deus!
Como sobreviveremos deste dilúvio
engendrado em ódio e sangue,
se a onipresença das armas
fustiga a onipresença dos povos?
Neste crepúsculo com silhuetas de morte,
um adolescente se afirma numa arma;
outro adolescente se incendeia no ódio
— ambos esqueceram a vida que descortinavam.
Uma mãe chora o filho morto,
outra mãe chora a alma do filho vivo e perdido
Imagem - 01330002
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
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