Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Domingos Carvalho da Silva
Nós Todos, Cleópatra!
Nós todos temos culpa, mulher de sorrisos permanentes!
Velhos, mulheres e crianças,
nós todos nos culpamos
pelo teu passado,
pelo teu presente
e pelos dias roxos do futuro!
Os velhos abriram-te o caminho enganoso
das facilidades.
As mulheres empurraram-te com sorrisos malévolos.
As crianças já espiam tuas pernas
sem meias
e pensam nas noites do futuro.
Nós todos, homens válidos, compramos teus sorrisos
baratos,
alisamos teus cabelos dourados na farmácia
e te chamamos Madalena e Cleópatra!
Nós todos, mulher de encantos públicos e notórios,
nós todos temos culpa,
os mortos têm culpa,
os nossos filhos nascerão culpados!
Acompanhamos com esperanças cínicas
a tua decadência, e vimos,
em cada um de teus vestidos,
um preço menor.
Em cada um de teus perfumes,
uma essência pior...
Tripudiamos sobre a tua degradação.
Fomos cúmplices das tuas noitadas babilônicas,
quando eras mais fina
e mais nova!
Nós todos te olharemos com a nossa justa repugnância
e todos negaremos
que nossas mãos um dia te empurraram!
Publicado no livro Bem-amada Ifigênia: poemas (1943).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Múltipla escolha. Introd. Diana Bernardes. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 198
Velhos, mulheres e crianças,
nós todos nos culpamos
pelo teu passado,
pelo teu presente
e pelos dias roxos do futuro!
Os velhos abriram-te o caminho enganoso
das facilidades.
As mulheres empurraram-te com sorrisos malévolos.
As crianças já espiam tuas pernas
sem meias
e pensam nas noites do futuro.
Nós todos, homens válidos, compramos teus sorrisos
baratos,
alisamos teus cabelos dourados na farmácia
e te chamamos Madalena e Cleópatra!
Nós todos, mulher de encantos públicos e notórios,
nós todos temos culpa,
os mortos têm culpa,
os nossos filhos nascerão culpados!
Acompanhamos com esperanças cínicas
a tua decadência, e vimos,
em cada um de teus vestidos,
um preço menor.
Em cada um de teus perfumes,
uma essência pior...
Tripudiamos sobre a tua degradação.
Fomos cúmplices das tuas noitadas babilônicas,
quando eras mais fina
e mais nova!
Nós todos te olharemos com a nossa justa repugnância
e todos negaremos
que nossas mãos um dia te empurraram!
Publicado no livro Bem-amada Ifigênia: poemas (1943).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Múltipla escolha. Introd. Diana Bernardes. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 198
1 106
Domingos Carvalho da Silva
Nós Todos, Cleópatra!
Nós todos temos culpa, mulher de sorrisos permanentes!
Velhos, mulheres e crianças,
nós todos nos culpamos
pelo teu passado,
pelo teu presente
e pelos dias roxos do futuro!
Os velhos abriram-te o caminho enganoso
das facilidades.
As mulheres empurraram-te com sorrisos malévolos.
As crianças já espiam tuas pernas
sem meias
e pensam nas noites do futuro.
Nós todos, homens válidos, compramos teus sorrisos
baratos,
alisamos teus cabelos dourados na farmácia
e te chamamos Madalena e Cleópatra!
Nós todos, mulher de encantos públicos e notórios,
nós todos temos culpa,
os mortos têm culpa,
os nossos filhos nascerão culpados!
Acompanhamos com esperanças cínicas
a tua decadência, e vimos,
em cada um de teus vestidos,
um preço menor.
Em cada um de teus perfumes,
uma essência pior...
Tripudiamos sobre a tua degradação.
Fomos cúmplices das tuas noitadas babilônicas,
quando eras mais fina
e mais nova!
Nós todos te olharemos com a nossa justa repugnância
e todos negaremos
que nossas mãos um dia te empurraram!
Publicado no livro Bem-amada Ifigênia: poemas (1943).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Múltipla escolha. Introd. Diana Bernardes. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 198
Velhos, mulheres e crianças,
nós todos nos culpamos
pelo teu passado,
pelo teu presente
e pelos dias roxos do futuro!
Os velhos abriram-te o caminho enganoso
das facilidades.
As mulheres empurraram-te com sorrisos malévolos.
As crianças já espiam tuas pernas
sem meias
e pensam nas noites do futuro.
Nós todos, homens válidos, compramos teus sorrisos
baratos,
alisamos teus cabelos dourados na farmácia
e te chamamos Madalena e Cleópatra!
Nós todos, mulher de encantos públicos e notórios,
nós todos temos culpa,
os mortos têm culpa,
os nossos filhos nascerão culpados!
Acompanhamos com esperanças cínicas
a tua decadência, e vimos,
em cada um de teus vestidos,
um preço menor.
Em cada um de teus perfumes,
uma essência pior...
Tripudiamos sobre a tua degradação.
Fomos cúmplices das tuas noitadas babilônicas,
quando eras mais fina
e mais nova!
Nós todos te olharemos com a nossa justa repugnância
e todos negaremos
que nossas mãos um dia te empurraram!
Publicado no livro Bem-amada Ifigênia: poemas (1943).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Múltipla escolha. Introd. Diana Bernardes. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 198
1 106
João Cabral de Melo Neto
A VIcente do Rego Monteiro
Eu vi teus bichos
mansos e domésticos:
um motociclo
gato e cachorro.
Estudei contigo
um planador,
volante máquina,
incerta e frágil.
Bebi da aguardente
que fabricaste,
servida às vezes
numa leiteira.
Mas sobretudo
senti o susto
de tuas surpresas.
E é por isso
que quando a mim
alguém pergunta
tua profissão
não digo nunca
que és pintor
ou professor
(palavras pobres
que nada dizem
de tais surpresas);
respondo sempre:
— É inventor,
trabalha ao ar livre
de régua em punho,
janela aberta
sobre a manhã.
Publicado no livro O engenheiro (1945).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.80-81. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
mansos e domésticos:
um motociclo
gato e cachorro.
Estudei contigo
um planador,
volante máquina,
incerta e frágil.
Bebi da aguardente
que fabricaste,
servida às vezes
numa leiteira.
Mas sobretudo
senti o susto
de tuas surpresas.
E é por isso
que quando a mim
alguém pergunta
tua profissão
não digo nunca
que és pintor
ou professor
(palavras pobres
que nada dizem
de tais surpresas);
respondo sempre:
— É inventor,
trabalha ao ar livre
de régua em punho,
janela aberta
sobre a manhã.
Publicado no livro O engenheiro (1945).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.80-81. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
3 633
Marcus Accioly
Prosação
— Senhores, vou lhes contar
Uma conversa ligeira
Que tive, faz muito tempo,
Num dia de quarta-feira
Do mês de outubro de um ano,
Do qual não me lembro a data,
Na mais agreste caatinga,
Depois da zona da Mata.
Havia fome na terra
E o povo se retirava
Levando os últimos bichos
Que a seca aos poucos matava.
Para esquecer essas coisas
Fui palestrar com Quintão,
Um cego que tinha fama
De sábio, em todo Sertão.
— "Já desde que tempo é tempo
E o mundo é mundo, que eu ouço
Muitas histórias contadas
Por retirantes, seu moço.
Histórias que falam sempre
Das secas com seus rigores,
Dos homens virando lendas
Na boca dos cantadores.
Histórias que a gente encontra
Escritas, de outra maneira,
Em verso e não mais em prosa,
Nesses folhetos de feira.
Histórias que são as mesmas
Que a gente sabe de cor,
Mas finge que nunca sabe
Para escutá-las melhor.
— Dessas estórias, lhe digo,
Me causa admiração
A vida do Padre Cícero
E a lenda de Lampião
Que tinha o corpo fechado
E um olho cego que via,
Por isso fechava o outro
Para fazer pontaria.
Pois que bastava somente
Para enxergar o perfil
Da tropa que o perseguia,
O olho do seu fuzil.
E que bastava o soldado
Sentir seu faro real,
Para vestir-se de terra
Após vestir seu punhal.
— Não sei se é lenda ou verdade,
Seu moço, falo por mim,
A lenda sempre começa
Quando uma história tem fim.
Pois se a história nos conta
Que Virgulino nasceu,
A lenda logo acrescenta
Que Lampião não morreu.
Além da história e da lenda
Existe o sonho do povo,
Que entre o que houve e não houve
Inventa tudo de novo.
Por isso a lenda é mais certa
Do que o sonho e a história,
Pois Lampião anda vivo
Dentro de cada memória.
(...)
Imagem - 01360004
Poema integrante da série Sertão-Sertões - Canto II.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.118-119. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 13 estrofes de 16 verso
Uma conversa ligeira
Que tive, faz muito tempo,
Num dia de quarta-feira
Do mês de outubro de um ano,
Do qual não me lembro a data,
Na mais agreste caatinga,
Depois da zona da Mata.
Havia fome na terra
E o povo se retirava
Levando os últimos bichos
Que a seca aos poucos matava.
Para esquecer essas coisas
Fui palestrar com Quintão,
Um cego que tinha fama
De sábio, em todo Sertão.
— "Já desde que tempo é tempo
E o mundo é mundo, que eu ouço
Muitas histórias contadas
Por retirantes, seu moço.
Histórias que falam sempre
Das secas com seus rigores,
Dos homens virando lendas
Na boca dos cantadores.
Histórias que a gente encontra
Escritas, de outra maneira,
Em verso e não mais em prosa,
Nesses folhetos de feira.
Histórias que são as mesmas
Que a gente sabe de cor,
Mas finge que nunca sabe
Para escutá-las melhor.
— Dessas estórias, lhe digo,
Me causa admiração
A vida do Padre Cícero
E a lenda de Lampião
Que tinha o corpo fechado
E um olho cego que via,
Por isso fechava o outro
Para fazer pontaria.
Pois que bastava somente
Para enxergar o perfil
Da tropa que o perseguia,
O olho do seu fuzil.
E que bastava o soldado
Sentir seu faro real,
Para vestir-se de terra
Após vestir seu punhal.
— Não sei se é lenda ou verdade,
Seu moço, falo por mim,
A lenda sempre começa
Quando uma história tem fim.
Pois se a história nos conta
Que Virgulino nasceu,
A lenda logo acrescenta
Que Lampião não morreu.
Além da história e da lenda
Existe o sonho do povo,
Que entre o que houve e não houve
Inventa tudo de novo.
Por isso a lenda é mais certa
Do que o sonho e a história,
Pois Lampião anda vivo
Dentro de cada memória.
(...)
Imagem - 01360004
Poema integrante da série Sertão-Sertões - Canto II.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.118-119. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 13 estrofes de 16 verso
1 948
Eduardo Alves da Costa
Mais Forte que James Bond
Mais forte que James Bond
é o meu vizinho:
um cansaço, um fracasso
"que se lhe vê na cara",
nos óculos engordurados,
presos com esparadrapo.
E nas calças.
Ah, os fundilhos do meu vizinho,
que desastre! Que abundância de panos!
Um sino de brim
badalado por um rabo mirrado,
milhões de pancadas
para matar a meia-fome da família.
(...)
pelo olhar abatido,
as torturas que terá sofrido.
Pobre, pobre James!
De que lhe vale o caratê diário
de bancário?
E a maletinha-camuflagem
para sanduíches
com escaninho
e cápsulas de café mortífero?
Pra que discutir no serviço
a melhor maneira de dar sumiço
no coreano-lança-cartolas-corta-bolas,
se tem a própria vida metida na cartola?
Afinal, o que sente o meu vizinho
diante de tanta beleza e abundância?
Minha esperança é que um dia este meu James
comece a espionar em causa própria;
pois nem sempre se vive duas vezes
para encontrar o sentido da mensagem:
ser espião sem saber o que se espia
é trabalhar para a contra-espionagem.
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
é o meu vizinho:
um cansaço, um fracasso
"que se lhe vê na cara",
nos óculos engordurados,
presos com esparadrapo.
E nas calças.
Ah, os fundilhos do meu vizinho,
que desastre! Que abundância de panos!
Um sino de brim
badalado por um rabo mirrado,
milhões de pancadas
para matar a meia-fome da família.
(...)
pelo olhar abatido,
as torturas que terá sofrido.
Pobre, pobre James!
De que lhe vale o caratê diário
de bancário?
E a maletinha-camuflagem
para sanduíches
com escaninho
e cápsulas de café mortífero?
Pra que discutir no serviço
a melhor maneira de dar sumiço
no coreano-lança-cartolas-corta-bolas,
se tem a própria vida metida na cartola?
Afinal, o que sente o meu vizinho
diante de tanta beleza e abundância?
Minha esperança é que um dia este meu James
comece a espionar em causa própria;
pois nem sempre se vive duas vezes
para encontrar o sentido da mensagem:
ser espião sem saber o que se espia
é trabalhar para a contra-espionagem.
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
1 243
Eduardo Alves da Costa
Mais Forte que James Bond
Mais forte que James Bond
é o meu vizinho:
um cansaço, um fracasso
"que se lhe vê na cara",
nos óculos engordurados,
presos com esparadrapo.
E nas calças.
Ah, os fundilhos do meu vizinho,
que desastre! Que abundância de panos!
Um sino de brim
badalado por um rabo mirrado,
milhões de pancadas
para matar a meia-fome da família.
(...)
pelo olhar abatido,
as torturas que terá sofrido.
Pobre, pobre James!
De que lhe vale o caratê diário
de bancário?
E a maletinha-camuflagem
para sanduíches
com escaninho
e cápsulas de café mortífero?
Pra que discutir no serviço
a melhor maneira de dar sumiço
no coreano-lança-cartolas-corta-bolas,
se tem a própria vida metida na cartola?
Afinal, o que sente o meu vizinho
diante de tanta beleza e abundância?
Minha esperança é que um dia este meu James
comece a espionar em causa própria;
pois nem sempre se vive duas vezes
para encontrar o sentido da mensagem:
ser espião sem saber o que se espia
é trabalhar para a contra-espionagem.
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
é o meu vizinho:
um cansaço, um fracasso
"que se lhe vê na cara",
nos óculos engordurados,
presos com esparadrapo.
E nas calças.
Ah, os fundilhos do meu vizinho,
que desastre! Que abundância de panos!
Um sino de brim
badalado por um rabo mirrado,
milhões de pancadas
para matar a meia-fome da família.
(...)
pelo olhar abatido,
as torturas que terá sofrido.
Pobre, pobre James!
De que lhe vale o caratê diário
de bancário?
E a maletinha-camuflagem
para sanduíches
com escaninho
e cápsulas de café mortífero?
Pra que discutir no serviço
a melhor maneira de dar sumiço
no coreano-lança-cartolas-corta-bolas,
se tem a própria vida metida na cartola?
Afinal, o que sente o meu vizinho
diante de tanta beleza e abundância?
Minha esperança é que um dia este meu James
comece a espionar em causa própria;
pois nem sempre se vive duas vezes
para encontrar o sentido da mensagem:
ser espião sem saber o que se espia
é trabalhar para a contra-espionagem.
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
1 243
Eduardo Alves da Costa
Mais Forte que James Bond
Mais forte que James Bond
é o meu vizinho:
um cansaço, um fracasso
"que se lhe vê na cara",
nos óculos engordurados,
presos com esparadrapo.
E nas calças.
Ah, os fundilhos do meu vizinho,
que desastre! Que abundância de panos!
Um sino de brim
badalado por um rabo mirrado,
milhões de pancadas
para matar a meia-fome da família.
(...)
pelo olhar abatido,
as torturas que terá sofrido.
Pobre, pobre James!
De que lhe vale o caratê diário
de bancário?
E a maletinha-camuflagem
para sanduíches
com escaninho
e cápsulas de café mortífero?
Pra que discutir no serviço
a melhor maneira de dar sumiço
no coreano-lança-cartolas-corta-bolas,
se tem a própria vida metida na cartola?
Afinal, o que sente o meu vizinho
diante de tanta beleza e abundância?
Minha esperança é que um dia este meu James
comece a espionar em causa própria;
pois nem sempre se vive duas vezes
para encontrar o sentido da mensagem:
ser espião sem saber o que se espia
é trabalhar para a contra-espionagem.
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
é o meu vizinho:
um cansaço, um fracasso
"que se lhe vê na cara",
nos óculos engordurados,
presos com esparadrapo.
E nas calças.
Ah, os fundilhos do meu vizinho,
que desastre! Que abundância de panos!
Um sino de brim
badalado por um rabo mirrado,
milhões de pancadas
para matar a meia-fome da família.
(...)
pelo olhar abatido,
as torturas que terá sofrido.
Pobre, pobre James!
De que lhe vale o caratê diário
de bancário?
E a maletinha-camuflagem
para sanduíches
com escaninho
e cápsulas de café mortífero?
Pra que discutir no serviço
a melhor maneira de dar sumiço
no coreano-lança-cartolas-corta-bolas,
se tem a própria vida metida na cartola?
Afinal, o que sente o meu vizinho
diante de tanta beleza e abundância?
Minha esperança é que um dia este meu James
comece a espionar em causa própria;
pois nem sempre se vive duas vezes
para encontrar o sentido da mensagem:
ser espião sem saber o que se espia
é trabalhar para a contra-espionagem.
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
1 243
João Cabral de Melo Neto
À Brasília de Oscar Niemeyer
Eis casas-grandes de engenho,
horizontais, escancaradas,
onde se existe em extensão
e a alma todoaberta se espraia.
Não se sabe é se o arquiteto
as quis símbolos ou ginástica:
símbolos do que chamou Vinicius
"imensos limites da pátria"
ou ginástica, para ensinar
quem for viver naquelas salas
um deixar-se, um deixar viver
de alma arejada, não fanática.
Publicado no livro Museu de tudo (1975).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.399. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
horizontais, escancaradas,
onde se existe em extensão
e a alma todoaberta se espraia.
Não se sabe é se o arquiteto
as quis símbolos ou ginástica:
símbolos do que chamou Vinicius
"imensos limites da pátria"
ou ginástica, para ensinar
quem for viver naquelas salas
um deixar-se, um deixar viver
de alma arejada, não fanática.
Publicado no livro Museu de tudo (1975).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.399. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
3 654
João Cabral de Melo Neto
À Brasília de Oscar Niemeyer
Eis casas-grandes de engenho,
horizontais, escancaradas,
onde se existe em extensão
e a alma todoaberta se espraia.
Não se sabe é se o arquiteto
as quis símbolos ou ginástica:
símbolos do que chamou Vinicius
"imensos limites da pátria"
ou ginástica, para ensinar
quem for viver naquelas salas
um deixar-se, um deixar viver
de alma arejada, não fanática.
Publicado no livro Museu de tudo (1975).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.399. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
horizontais, escancaradas,
onde se existe em extensão
e a alma todoaberta se espraia.
Não se sabe é se o arquiteto
as quis símbolos ou ginástica:
símbolos do que chamou Vinicius
"imensos limites da pátria"
ou ginástica, para ensinar
quem for viver naquelas salas
um deixar-se, um deixar viver
de alma arejada, não fanática.
Publicado no livro Museu de tudo (1975).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.399. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
3 654
Carlos Vogt
Contrato Social
Nessa terra em que se plantando tudo dá
nasce uma fruta árida e harmônica
misto de bom crioulo e palha de pamonha
organização de homens só de bem
com os que estão de mal entre si com os outros.
In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
nasce uma fruta árida e harmônica
misto de bom crioulo e palha de pamonha
organização de homens só de bem
com os que estão de mal entre si com os outros.
In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 272
Carlos Vogt
Contrato Social
Nessa terra em que se plantando tudo dá
nasce uma fruta árida e harmônica
misto de bom crioulo e palha de pamonha
organização de homens só de bem
com os que estão de mal entre si com os outros.
In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
nasce uma fruta árida e harmônica
misto de bom crioulo e palha de pamonha
organização de homens só de bem
com os que estão de mal entre si com os outros.
In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 272
Carlos Vogt
Contrato Social
Nessa terra em que se plantando tudo dá
nasce uma fruta árida e harmônica
misto de bom crioulo e palha de pamonha
organização de homens só de bem
com os que estão de mal entre si com os outros.
In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
nasce uma fruta árida e harmônica
misto de bom crioulo e palha de pamonha
organização de homens só de bem
com os que estão de mal entre si com os outros.
In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 272
Carlos Vogt
Presenças de Vinicius
De tudo à tua ausência, por seres um e múltiplo serei
atento
antes, e com tal zelo, e sempre e tanto
que, se te espedaças em vão contra o infinito,
recolhem-se os fragmentos no teu canto
que sempre se inicia e é sempre último.
Por seres, pois, quem me foste um dia,
sombra e luz, azul e branco, carnaval e cinzas,
sugestão de amor, verbo, saciedade e fome,
de repente se me afigura o verso, o samba, a namorada,
o bar,
em que sentado à mesa em boa companhia,
conheci o poeta sem jamais ter visto o homem:
o homem com seus sonhos de quem invejo os pares
inveja dos seus deuses de quem desejo as ninfas.
Na roda de cerveja, entre amigos e dilemas,
como um Castro Alves na província ardente de seu co-
ração,
recitei retórico a sina do operário
que erguendo a casa de sua liberdade
construía alheia a própria escravidão;
cantei o amor que tive e que não tive
(e por isso dura)
e porque era sábado
ali me apaixonei pela mulher distante,
leve e etérea como uma estrela longe,
feita não só do mangue de carências longas
e amarguras
mas da pureza vaga e sensual do sangue dos poemas.
In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
atento
antes, e com tal zelo, e sempre e tanto
que, se te espedaças em vão contra o infinito,
recolhem-se os fragmentos no teu canto
que sempre se inicia e é sempre último.
Por seres, pois, quem me foste um dia,
sombra e luz, azul e branco, carnaval e cinzas,
sugestão de amor, verbo, saciedade e fome,
de repente se me afigura o verso, o samba, a namorada,
o bar,
em que sentado à mesa em boa companhia,
conheci o poeta sem jamais ter visto o homem:
o homem com seus sonhos de quem invejo os pares
inveja dos seus deuses de quem desejo as ninfas.
Na roda de cerveja, entre amigos e dilemas,
como um Castro Alves na província ardente de seu co-
ração,
recitei retórico a sina do operário
que erguendo a casa de sua liberdade
construía alheia a própria escravidão;
cantei o amor que tive e que não tive
(e por isso dura)
e porque era sábado
ali me apaixonei pela mulher distante,
leve e etérea como uma estrela longe,
feita não só do mangue de carências longas
e amarguras
mas da pureza vaga e sensual do sangue dos poemas.
In: VOGT, Carlos. Metalurgia: poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1991
1 016
Glauco Mattoso
Haicais Paulistanos, 1983-1991 [2
Domingão no estádio.
A torcida invade o campo.
E o cego sem rádio.
Casa com mansarda
não tarda a ser demolida.
Obra de vanguarda.
Liberdade é pão,
mas Consolação é prêmio.
Paraíso é Adão.
Se vê da Paulista.
Se avista do Martinelli.
É um balão bairrista.
Vila Ida a pé
é fora de mão. Melhor
ir pra Vila Ré.
Cena original:
Vaginal como um paquete,
flui a Marginal.
Farol na Paulista
mancha a pista de vermelho.
Quadro modernista.
In: MATTOSO, Glauco. Poemas de Glauco Mattoso: amostra quase grátis. São Paulo: U. Tavares, 1993 (Poesia já, 2)
A torcida invade o campo.
E o cego sem rádio.
Casa com mansarda
não tarda a ser demolida.
Obra de vanguarda.
Liberdade é pão,
mas Consolação é prêmio.
Paraíso é Adão.
Se vê da Paulista.
Se avista do Martinelli.
É um balão bairrista.
Vila Ida a pé
é fora de mão. Melhor
ir pra Vila Ré.
Cena original:
Vaginal como um paquete,
flui a Marginal.
Farol na Paulista
mancha a pista de vermelho.
Quadro modernista.
In: MATTOSO, Glauco. Poemas de Glauco Mattoso: amostra quase grátis. São Paulo: U. Tavares, 1993 (Poesia já, 2)
1 606
Glauco Mattoso
Haicais Paulistanos, 1983-1991 [2
Domingão no estádio.
A torcida invade o campo.
E o cego sem rádio.
Casa com mansarda
não tarda a ser demolida.
Obra de vanguarda.
Liberdade é pão,
mas Consolação é prêmio.
Paraíso é Adão.
Se vê da Paulista.
Se avista do Martinelli.
É um balão bairrista.
Vila Ida a pé
é fora de mão. Melhor
ir pra Vila Ré.
Cena original:
Vaginal como um paquete,
flui a Marginal.
Farol na Paulista
mancha a pista de vermelho.
Quadro modernista.
In: MATTOSO, Glauco. Poemas de Glauco Mattoso: amostra quase grátis. São Paulo: U. Tavares, 1993 (Poesia já, 2)
A torcida invade o campo.
E o cego sem rádio.
Casa com mansarda
não tarda a ser demolida.
Obra de vanguarda.
Liberdade é pão,
mas Consolação é prêmio.
Paraíso é Adão.
Se vê da Paulista.
Se avista do Martinelli.
É um balão bairrista.
Vila Ida a pé
é fora de mão. Melhor
ir pra Vila Ré.
Cena original:
Vaginal como um paquete,
flui a Marginal.
Farol na Paulista
mancha a pista de vermelho.
Quadro modernista.
In: MATTOSO, Glauco. Poemas de Glauco Mattoso: amostra quase grátis. São Paulo: U. Tavares, 1993 (Poesia já, 2)
1 606
Marcus Accioly
LXXIX - Do Meio-Termo
Cortador de cana,
não me cortes, não,
que eu não sou sozinho
mas um batalhão.
Capineiro, acorda,
desce dessa rede,
desenterra a moça
do cabelo verde.
Casa-de-farinha,
roda o caititu,
ai, cuia do céu,
lua de beiju.
Xô-xô-xô, galinha,
crista de crueira,
teus ovos são seixos,
pedras da ladeira.
Cuche-cuche, porco,
lambuzado em mel,
troco a tua argola
pelo meu anel.
Cambiteiro velho,
leva no teu burro
esse Bicho brabo
que morreu de murro.
In: ACCIOLY, Marcus. Guriatã: um cordel para menino. II. José Cavalcanti e Ferreira [Dila]. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1988. p.150-151. (Série biblioteca juvenil
não me cortes, não,
que eu não sou sozinho
mas um batalhão.
Capineiro, acorda,
desce dessa rede,
desenterra a moça
do cabelo verde.
Casa-de-farinha,
roda o caititu,
ai, cuia do céu,
lua de beiju.
Xô-xô-xô, galinha,
crista de crueira,
teus ovos são seixos,
pedras da ladeira.
Cuche-cuche, porco,
lambuzado em mel,
troco a tua argola
pelo meu anel.
Cambiteiro velho,
leva no teu burro
esse Bicho brabo
que morreu de murro.
In: ACCIOLY, Marcus. Guriatã: um cordel para menino. II. José Cavalcanti e Ferreira [Dila]. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1988. p.150-151. (Série biblioteca juvenil
1 474
Marcus Accioly
LXXIX - Do Meio-Termo
Cortador de cana,
não me cortes, não,
que eu não sou sozinho
mas um batalhão.
Capineiro, acorda,
desce dessa rede,
desenterra a moça
do cabelo verde.
Casa-de-farinha,
roda o caititu,
ai, cuia do céu,
lua de beiju.
Xô-xô-xô, galinha,
crista de crueira,
teus ovos são seixos,
pedras da ladeira.
Cuche-cuche, porco,
lambuzado em mel,
troco a tua argola
pelo meu anel.
Cambiteiro velho,
leva no teu burro
esse Bicho brabo
que morreu de murro.
In: ACCIOLY, Marcus. Guriatã: um cordel para menino. II. José Cavalcanti e Ferreira [Dila]. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1988. p.150-151. (Série biblioteca juvenil
não me cortes, não,
que eu não sou sozinho
mas um batalhão.
Capineiro, acorda,
desce dessa rede,
desenterra a moça
do cabelo verde.
Casa-de-farinha,
roda o caititu,
ai, cuia do céu,
lua de beiju.
Xô-xô-xô, galinha,
crista de crueira,
teus ovos são seixos,
pedras da ladeira.
Cuche-cuche, porco,
lambuzado em mel,
troco a tua argola
pelo meu anel.
Cambiteiro velho,
leva no teu burro
esse Bicho brabo
que morreu de murro.
In: ACCIOLY, Marcus. Guriatã: um cordel para menino. II. José Cavalcanti e Ferreira [Dila]. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1988. p.150-151. (Série biblioteca juvenil
1 474
Carlos Frydman
Viaduto do Chá
"E me largo desarmado nos transes da enorme cidade."
(Mário de Andrade)
IV
Perpassam, o viaduto
carrancas petrificadas em carnes rijas,
sorrisos sofridos deflagram estigmas
de alegrias pálidas e seriedades temerárias.
Viaduto,
destino impingido, caminho sem escolha,
ultrajante travessia,
aorta da evasão,
perdição de filosofias e blasfêmias;
patamar das discordâncias unissonantes,
murmúrios monocórdios de vulcões soterrados.
Viaduto,
inabalável frieza de serventia petrificada,
estático aos retornos inevitáveis,
de sobreviventes desfalcados, diuturnos.
Mas, se no ímpio transcurso
alguém salta do viaduto,
já não é mais drama:
faz parte do panorama.
Domingo, o viaduto será belo e ameno
em sua feição exata e domingueira.
Na segunda, a vida desfilará desvivida.
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
(Mário de Andrade)
IV
Perpassam, o viaduto
carrancas petrificadas em carnes rijas,
sorrisos sofridos deflagram estigmas
de alegrias pálidas e seriedades temerárias.
Viaduto,
destino impingido, caminho sem escolha,
ultrajante travessia,
aorta da evasão,
perdição de filosofias e blasfêmias;
patamar das discordâncias unissonantes,
murmúrios monocórdios de vulcões soterrados.
Viaduto,
inabalável frieza de serventia petrificada,
estático aos retornos inevitáveis,
de sobreviventes desfalcados, diuturnos.
Mas, se no ímpio transcurso
alguém salta do viaduto,
já não é mais drama:
faz parte do panorama.
Domingo, o viaduto será belo e ameno
em sua feição exata e domingueira.
Na segunda, a vida desfilará desvivida.
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
1 302
Geir Campos
Soneto Fabril
Parques, sim, mas parques industriais:
neles é que passeia o nosso amor
em bairros pouco residenciais
onde ronrona a máquina a vapor.
Das chaminés das fábricas saem mais
nuvens (claras, escuras) de vapor
e de fumaça, com a cor das quais
o azul do céu muda-se noutra cor.
Pairando entre esse céu assim mudado
e a terra onde prossegue a mesma a vida
com seu esquema aceito mas errado
retém-se o nosso olhar em bagatelas
— que de pequenas coisas é tecida
a glória de viver e achá-las belas.
Publicado no livro Canto claro e poemas anteriores (1957).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
neles é que passeia o nosso amor
em bairros pouco residenciais
onde ronrona a máquina a vapor.
Das chaminés das fábricas saem mais
nuvens (claras, escuras) de vapor
e de fumaça, com a cor das quais
o azul do céu muda-se noutra cor.
Pairando entre esse céu assim mudado
e a terra onde prossegue a mesma a vida
com seu esquema aceito mas errado
retém-se o nosso olhar em bagatelas
— que de pequenas coisas é tecida
a glória de viver e achá-las belas.
Publicado no livro Canto claro e poemas anteriores (1957).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
1 306
Geir Campos
Soneto Fabril
Parques, sim, mas parques industriais:
neles é que passeia o nosso amor
em bairros pouco residenciais
onde ronrona a máquina a vapor.
Das chaminés das fábricas saem mais
nuvens (claras, escuras) de vapor
e de fumaça, com a cor das quais
o azul do céu muda-se noutra cor.
Pairando entre esse céu assim mudado
e a terra onde prossegue a mesma a vida
com seu esquema aceito mas errado
retém-se o nosso olhar em bagatelas
— que de pequenas coisas é tecida
a glória de viver e achá-las belas.
Publicado no livro Canto claro e poemas anteriores (1957).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
neles é que passeia o nosso amor
em bairros pouco residenciais
onde ronrona a máquina a vapor.
Das chaminés das fábricas saem mais
nuvens (claras, escuras) de vapor
e de fumaça, com a cor das quais
o azul do céu muda-se noutra cor.
Pairando entre esse céu assim mudado
e a terra onde prossegue a mesma a vida
com seu esquema aceito mas errado
retém-se o nosso olhar em bagatelas
— que de pequenas coisas é tecida
a glória de viver e achá-las belas.
Publicado no livro Canto claro e poemas anteriores (1957).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
1 306
Carlos Felipe Moisés
Pergunta
para Jerusa
O que mais vale:
a poesia ou a vida?
cidade iluminada ou
beleza dividida?
Na Paulicéia des-
vairada, sem razão,
cantar o pôr-do-sol
já é consolação.
Antes, ensolação:
o sol do teu canto
que vermelho se põe
não é canto mas pranto.
E o sol perguntará
(rubro, medonho,
um dia): o que mais vale,
a poesia ou o sonho?
E o teu canto
com sol(ação) dirá:
tendo poesia e vida
nada me faltará.
Sol do sul, céu aberto,
se eu merecesse pedia:
planta em meu peito deserto
sonho vida poesia.
(João Pessoa 1977)
Poema integrante da série III. Pessoal.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
O que mais vale:
a poesia ou a vida?
cidade iluminada ou
beleza dividida?
Na Paulicéia des-
vairada, sem razão,
cantar o pôr-do-sol
já é consolação.
Antes, ensolação:
o sol do teu canto
que vermelho se põe
não é canto mas pranto.
E o sol perguntará
(rubro, medonho,
um dia): o que mais vale,
a poesia ou o sonho?
E o teu canto
com sol(ação) dirá:
tendo poesia e vida
nada me faltará.
Sol do sul, céu aberto,
se eu merecesse pedia:
planta em meu peito deserto
sonho vida poesia.
(João Pessoa 1977)
Poema integrante da série III. Pessoal.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
946
Carlos Felipe Moisés
Capibaribe
Capibaribe não é um rio,
Capibaribe: enredo musical
Melodia, Manuel Bandeira.
Texto e coreografia, João Cabral.
(Recife 1977)
Poema integrante da série I. Natural.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
Capibaribe: enredo musical
Melodia, Manuel Bandeira.
Texto e coreografia, João Cabral.
(Recife 1977)
Poema integrante da série I. Natural.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Círculo imperfeito: poemas. Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (Coleção Ilha de Maré, 2)
976
Carlos Frydman
Anistia Ainda Que Tardia
"LIBERTAS QUE SERA TAMEN"
(Virgílio -
Inscrito na bandeira da Inconfidência Mineira)
"después de tanto que sobreviví me
acostumbré a morir más de una muerte."
(Pablo Neruda)
Para que sol
na penumbra do medo?
Para que poético poente
no vasto peso da solidão?
Se vivemos coagidos
em espaços demarcados
como extasiar-nos na amplidão?
Como alentar-nos nos vôos dos pássaros
se um tiro dispersará seu flutuar sereno
e um pombo alvo, alvejado, cairá sangrando?
Alcançaremos horizontes
quando a liberdade é tolerância barganhada?
Como pensar destemidos,
se delatores deturpam pensamentos?
De que valem os direitos
na temerária existência?
Para que preces,
se dizimam com religiosidade?
Como sentir-se livre,
se olhares esperançosos
se impregnam nas masmorras?
Como renascer no frescor da verdade,
se a verdade é receio murmurado?
Como acalentar-se no afeto,
se na calada da noite
famílias são dissipadas
em sangue, morte e desonra?
Como pode alguém massacrar
e não fugir de si mesmo?
Como pode alguém
apagar sua consciência
e conviver com o vazio?
Como guardar luto ou memória
daqueles de destinos apagados,
e sem sepultura?
Como evadir-se dos ressentimentos,
se a vida sobrevive estagnada?
Será íntegra a Pátria
com filhos excluídos por amor à terra?
Como podem, tão poucos, nos milênios,
tornarem-se manadas ferozes
presos à gula de seus alugados instintos?
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
(Virgílio -
Inscrito na bandeira da Inconfidência Mineira)
"después de tanto que sobreviví me
acostumbré a morir más de una muerte."
(Pablo Neruda)
Para que sol
na penumbra do medo?
Para que poético poente
no vasto peso da solidão?
Se vivemos coagidos
em espaços demarcados
como extasiar-nos na amplidão?
Como alentar-nos nos vôos dos pássaros
se um tiro dispersará seu flutuar sereno
e um pombo alvo, alvejado, cairá sangrando?
Alcançaremos horizontes
quando a liberdade é tolerância barganhada?
Como pensar destemidos,
se delatores deturpam pensamentos?
De que valem os direitos
na temerária existência?
Para que preces,
se dizimam com religiosidade?
Como sentir-se livre,
se olhares esperançosos
se impregnam nas masmorras?
Como renascer no frescor da verdade,
se a verdade é receio murmurado?
Como acalentar-se no afeto,
se na calada da noite
famílias são dissipadas
em sangue, morte e desonra?
Como pode alguém massacrar
e não fugir de si mesmo?
Como pode alguém
apagar sua consciência
e conviver com o vazio?
Como guardar luto ou memória
daqueles de destinos apagados,
e sem sepultura?
Como evadir-se dos ressentimentos,
se a vida sobrevive estagnada?
Será íntegra a Pátria
com filhos excluídos por amor à terra?
Como podem, tão poucos, nos milênios,
tornarem-se manadas ferozes
presos à gula de seus alugados instintos?
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
1 124
Carlos Frydman
Anistia Ainda Que Tardia
"LIBERTAS QUE SERA TAMEN"
(Virgílio -
Inscrito na bandeira da Inconfidência Mineira)
"después de tanto que sobreviví me
acostumbré a morir más de una muerte."
(Pablo Neruda)
Para que sol
na penumbra do medo?
Para que poético poente
no vasto peso da solidão?
Se vivemos coagidos
em espaços demarcados
como extasiar-nos na amplidão?
Como alentar-nos nos vôos dos pássaros
se um tiro dispersará seu flutuar sereno
e um pombo alvo, alvejado, cairá sangrando?
Alcançaremos horizontes
quando a liberdade é tolerância barganhada?
Como pensar destemidos,
se delatores deturpam pensamentos?
De que valem os direitos
na temerária existência?
Para que preces,
se dizimam com religiosidade?
Como sentir-se livre,
se olhares esperançosos
se impregnam nas masmorras?
Como renascer no frescor da verdade,
se a verdade é receio murmurado?
Como acalentar-se no afeto,
se na calada da noite
famílias são dissipadas
em sangue, morte e desonra?
Como pode alguém massacrar
e não fugir de si mesmo?
Como pode alguém
apagar sua consciência
e conviver com o vazio?
Como guardar luto ou memória
daqueles de destinos apagados,
e sem sepultura?
Como evadir-se dos ressentimentos,
se a vida sobrevive estagnada?
Será íntegra a Pátria
com filhos excluídos por amor à terra?
Como podem, tão poucos, nos milênios,
tornarem-se manadas ferozes
presos à gula de seus alugados instintos?
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
(Virgílio -
Inscrito na bandeira da Inconfidência Mineira)
"después de tanto que sobreviví me
acostumbré a morir más de una muerte."
(Pablo Neruda)
Para que sol
na penumbra do medo?
Para que poético poente
no vasto peso da solidão?
Se vivemos coagidos
em espaços demarcados
como extasiar-nos na amplidão?
Como alentar-nos nos vôos dos pássaros
se um tiro dispersará seu flutuar sereno
e um pombo alvo, alvejado, cairá sangrando?
Alcançaremos horizontes
quando a liberdade é tolerância barganhada?
Como pensar destemidos,
se delatores deturpam pensamentos?
De que valem os direitos
na temerária existência?
Para que preces,
se dizimam com religiosidade?
Como sentir-se livre,
se olhares esperançosos
se impregnam nas masmorras?
Como renascer no frescor da verdade,
se a verdade é receio murmurado?
Como acalentar-se no afeto,
se na calada da noite
famílias são dissipadas
em sangue, morte e desonra?
Como pode alguém massacrar
e não fugir de si mesmo?
Como pode alguém
apagar sua consciência
e conviver com o vazio?
Como guardar luto ou memória
daqueles de destinos apagados,
e sem sepultura?
Como evadir-se dos ressentimentos,
se a vida sobrevive estagnada?
Será íntegra a Pátria
com filhos excluídos por amor à terra?
Como podem, tão poucos, nos milênios,
tornarem-se manadas ferozes
presos à gula de seus alugados instintos?
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
1 124