Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Affonso Ávila
V Internacional
O poeta é visto todos os sábados no bar com um grupo de
jovens dentre eles um negro e um barbado
O poeta é visto todos os sábados no bar com um grupo de
jovens negros e barbados
O poeta é visto todos os sábados no bar com um grupo de
jovens barbados
O poeta é visto no bar com um grupo de jovens barbados
O poeta é visto no bar com um grupo de barbados
O poeta é visto com um grupo de barbados
O poeta é visto com uns barbados estranhos
O poeta é visto com uns barbados suspeitos
O poeta é visto com uns suspeitos
O poeta é um suspeito
O poeta é suspeito
O POETA É UM TERRORISTA
In: ÁVILA, Affonso. Discurso de difamação do poeta: antologia. São Paulo: Summus, 1978. (Palavra poética, 1)
jovens dentre eles um negro e um barbado
O poeta é visto todos os sábados no bar com um grupo de
jovens negros e barbados
O poeta é visto todos os sábados no bar com um grupo de
jovens barbados
O poeta é visto no bar com um grupo de jovens barbados
O poeta é visto no bar com um grupo de barbados
O poeta é visto com um grupo de barbados
O poeta é visto com uns barbados estranhos
O poeta é visto com uns barbados suspeitos
O poeta é visto com uns suspeitos
O poeta é um suspeito
O poeta é suspeito
O POETA É UM TERRORISTA
In: ÁVILA, Affonso. Discurso de difamação do poeta: antologia. São Paulo: Summus, 1978. (Palavra poética, 1)
1 569
Armando Freitas Filho
Entre nós até o segredo
Entre nós até o segredo
mais cheio de dedos
é escrito
e escarrado
no olho da rua, nos muros — para todos —
sem temer que venha a furo
a dor do tumor
e o que era antes
de um inaudível vermelho
agora ruge
feito uma ferida
fora das grades.
In: FREITAS FILHO, Armando. 3x4, 1981/1983. Pref. Flora Sussekind. Posfácio Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série Durante
mais cheio de dedos
é escrito
e escarrado
no olho da rua, nos muros — para todos —
sem temer que venha a furo
a dor do tumor
e o que era antes
de um inaudível vermelho
agora ruge
feito uma ferida
fora das grades.
In: FREITAS FILHO, Armando. 3x4, 1981/1983. Pref. Flora Sussekind. Posfácio Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série Durante
1 236
Armando Freitas Filho
Entre nós até o segredo
Entre nós até o segredo
mais cheio de dedos
é escrito
e escarrado
no olho da rua, nos muros — para todos —
sem temer que venha a furo
a dor do tumor
e o que era antes
de um inaudível vermelho
agora ruge
feito uma ferida
fora das grades.
In: FREITAS FILHO, Armando. 3x4, 1981/1983. Pref. Flora Sussekind. Posfácio Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série Durante
mais cheio de dedos
é escrito
e escarrado
no olho da rua, nos muros — para todos —
sem temer que venha a furo
a dor do tumor
e o que era antes
de um inaudível vermelho
agora ruge
feito uma ferida
fora das grades.
In: FREITAS FILHO, Armando. 3x4, 1981/1983. Pref. Flora Sussekind. Posfácio Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série Durante
1 236
Armindo Trevisan
Via Sacra: Oitava Estação: O Convívio
Em Auschwitz os
crânios eram
serenos crânios
que não tiveram
no seu bulício
de coisas vivas
mas desvividas
a vã plumagem.
Cada cadáver
tinha um segredo
que não dissera.
E este segredo
Freud apalpara
no ventre ocluso
de cada fêmea.
Todos os crânios
de Auschwitz traziam
o odor intrínseco
de um grande início
que a quantidade
não conseguia
apequenar
com seu horror.
Perante os crânios
Deus estacou
dizendo um verbo
às que os pariram
e deste verbo
oval e duro
nasceram os
mil rouxinóis
da dor submissa.
In: TREVISAN, Armindo. O ferreiro harmonioso. Porto Alegre: Globo, 1978. (Estante de poesia Henrique Bertaso, 2). Poema integrante da série A Uva que Ficou na Vinha
crânios eram
serenos crânios
que não tiveram
no seu bulício
de coisas vivas
mas desvividas
a vã plumagem.
Cada cadáver
tinha um segredo
que não dissera.
E este segredo
Freud apalpara
no ventre ocluso
de cada fêmea.
Todos os crânios
de Auschwitz traziam
o odor intrínseco
de um grande início
que a quantidade
não conseguia
apequenar
com seu horror.
Perante os crânios
Deus estacou
dizendo um verbo
às que os pariram
e deste verbo
oval e duro
nasceram os
mil rouxinóis
da dor submissa.
In: TREVISAN, Armindo. O ferreiro harmonioso. Porto Alegre: Globo, 1978. (Estante de poesia Henrique Bertaso, 2). Poema integrante da série A Uva que Ficou na Vinha
914
Bento Teixeira
Cantem Poetas o poder Romano
Cantem Poetas o poder Romano,
Submetendo Nações ao jugo duro;
O Mantuano pinte o Rei Troiano,
Descendo à confusão do Reino escuro;
Que eu canto um Albuquerque soberano,
Da Fé, da cara Pátria firme muro,
Cujo valor a ser, que o Céu lhe inspira,
Pode estancar a Lácia e Grega lira.
As Délficas irmãs chamar não quero,
Que tal invocação é vão estudo;
Aquele chamo só, de quem espero
A vida que se espera em fim de tudo.
Ele fará meu Verso tão sincero,
Quanto fora sem ele tosco e rudo,
Que por razão negar não deve o menos
Quem deu o mais a míseros terrenos.
(...)
In: TEIXEIRA, Bento. Prosopopéia. Introd. estabelecimento do texto e comentários Celso Cunha e Carlos Duval. Rio de Janeiro: INL, 1972. p.19. (Coleção de literatura brasileira, 6)
NOTA: O trecho inicial do poema até a "Narração" é composto de 6 oitava
Submetendo Nações ao jugo duro;
O Mantuano pinte o Rei Troiano,
Descendo à confusão do Reino escuro;
Que eu canto um Albuquerque soberano,
Da Fé, da cara Pátria firme muro,
Cujo valor a ser, que o Céu lhe inspira,
Pode estancar a Lácia e Grega lira.
As Délficas irmãs chamar não quero,
Que tal invocação é vão estudo;
Aquele chamo só, de quem espero
A vida que se espera em fim de tudo.
Ele fará meu Verso tão sincero,
Quanto fora sem ele tosco e rudo,
Que por razão negar não deve o menos
Quem deu o mais a míseros terrenos.
(...)
In: TEIXEIRA, Bento. Prosopopéia. Introd. estabelecimento do texto e comentários Celso Cunha e Carlos Duval. Rio de Janeiro: INL, 1972. p.19. (Coleção de literatura brasileira, 6)
NOTA: O trecho inicial do poema até a "Narração" é composto de 6 oitava
6 356
Sílvio Romero
Chora, Mané, não Chora
(Pernambuco)
Chora, Mané, não chora,
Chora porque não vem
O limão...
O limão que anda na roda
É de Mané babão,
Bobalhão...
Ele vai, ele vem,
Inda cá não chegou!...
No meio do caminho
O francês o tomou...
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.211. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Chora, Mané, não chora,
Chora porque não vem
O limão...
O limão que anda na roda
É de Mané babão,
Bobalhão...
Ele vai, ele vem,
Inda cá não chegou!...
No meio do caminho
O francês o tomou...
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.211. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
2 073
Lara de Lemos
Conta Corrente
Para Wanda Maria
CRÉDITO DÉBITO
O creditado de mim o que dei
não foi muito. foi pouco
Quatro sentidos o que nasce
e uma visão: a si se opondo:
além do visgo meu sim, meu não
do lucro minha sina
além do oco meu sangue aguado
do homem de medo.
além do soco A palavra e a
do mundo. mordaça.
SALDO
só o domado viver.
Mais nada.
Poema integrante da série Adaga Lavrada.
In: LEMOS, Lara de. Adaga lavrada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno, 1981. (Poesia hoje, 51. Nova fase)
CRÉDITO DÉBITO
O creditado de mim o que dei
não foi muito. foi pouco
Quatro sentidos o que nasce
e uma visão: a si se opondo:
além do visgo meu sim, meu não
do lucro minha sina
além do oco meu sangue aguado
do homem de medo.
além do soco A palavra e a
do mundo. mordaça.
SALDO
só o domado viver.
Mais nada.
Poema integrante da série Adaga Lavrada.
In: LEMOS, Lara de. Adaga lavrada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno, 1981. (Poesia hoje, 51. Nova fase)
1 580
Lara de Lemos
Conta Corrente
Para Wanda Maria
CRÉDITO DÉBITO
O creditado de mim o que dei
não foi muito. foi pouco
Quatro sentidos o que nasce
e uma visão: a si se opondo:
além do visgo meu sim, meu não
do lucro minha sina
além do oco meu sangue aguado
do homem de medo.
além do soco A palavra e a
do mundo. mordaça.
SALDO
só o domado viver.
Mais nada.
Poema integrante da série Adaga Lavrada.
In: LEMOS, Lara de. Adaga lavrada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno, 1981. (Poesia hoje, 51. Nova fase)
CRÉDITO DÉBITO
O creditado de mim o que dei
não foi muito. foi pouco
Quatro sentidos o que nasce
e uma visão: a si se opondo:
além do visgo meu sim, meu não
do lucro minha sina
além do oco meu sangue aguado
do homem de medo.
além do soco A palavra e a
do mundo. mordaça.
SALDO
só o domado viver.
Mais nada.
Poema integrante da série Adaga Lavrada.
In: LEMOS, Lara de. Adaga lavrada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno, 1981. (Poesia hoje, 51. Nova fase)
1 580
Armando Freitas Filho
O primeiro arranha-céu
O primeiro arranha-céu
foi a pedra
do Pão de Açúcar:
monumento onde o mar
se amarra
o mato cresce no pedestal
e o abraço da baía
completa o cenário
— o lugar-comum —
o que já estava escrito
pelos cronistas lapidares
e por mim
quase com as mesmas palavras.
In: FREITAS FILHO, Armando. 3x4, 1981/1983. Pref. Flora Sussekind. Posfácio Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série Depois
foi a pedra
do Pão de Açúcar:
monumento onde o mar
se amarra
o mato cresce no pedestal
e o abraço da baía
completa o cenário
— o lugar-comum —
o que já estava escrito
pelos cronistas lapidares
e por mim
quase com as mesmas palavras.
In: FREITAS FILHO, Armando. 3x4, 1981/1983. Pref. Flora Sussekind. Posfácio Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série Depois
1 090
Santa Rita Durão
Canto IV [Se o sacro ardor, que ferve no meu peito
XXXIV
Se o sacro ardor, que ferve no meu peito,
Não me deixa enganar, vereis que um dia
(Vivendo esse impostor) por seu respeito
Se encherá de Imboabas a Bahia,
Pagarão os Tupis o insano feito,
E vereis entre a bélica porfia
Tomar-lhe esses estranhos, já vizinhos,
Escravas as mulheres cos filhinhos.
XXXV
Vereis as nossas gentes desterradas
Entre os tigres viver no sertão fundo,
Cativa a plebe, as tabas arrombadas;
Levando para além do mar profundo
Nossos filhos e filhas desgraçadas;
Ou, quando os deixem cá no nosso mundo,
Poderemos sofrer, Paiaiás bravos,
Ver filhos, mães e pais feitos escravos?
(...)
XXXIX
Su, valentes; su, bravos companheiros!
Tomai coragem! que será no extremo?
Embora seja um raio verdadeiro,
Senão é Deus que o lança, eu nada temo.
Seja quem quer que for o autor primeiro,
Como não seja o Criador Supremo,
Não há forças criadas que nos domem:
Que sobre tudo o mais domina o homem.
In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.103-104. (Série brasileiro-portuguesa, 30)
NOTA: O "Canto IV" é composto de 85 estrofe
Se o sacro ardor, que ferve no meu peito,
Não me deixa enganar, vereis que um dia
(Vivendo esse impostor) por seu respeito
Se encherá de Imboabas a Bahia,
Pagarão os Tupis o insano feito,
E vereis entre a bélica porfia
Tomar-lhe esses estranhos, já vizinhos,
Escravas as mulheres cos filhinhos.
XXXV
Vereis as nossas gentes desterradas
Entre os tigres viver no sertão fundo,
Cativa a plebe, as tabas arrombadas;
Levando para além do mar profundo
Nossos filhos e filhas desgraçadas;
Ou, quando os deixem cá no nosso mundo,
Poderemos sofrer, Paiaiás bravos,
Ver filhos, mães e pais feitos escravos?
(...)
XXXIX
Su, valentes; su, bravos companheiros!
Tomai coragem! que será no extremo?
Embora seja um raio verdadeiro,
Senão é Deus que o lança, eu nada temo.
Seja quem quer que for o autor primeiro,
Como não seja o Criador Supremo,
Não há forças criadas que nos domem:
Que sobre tudo o mais domina o homem.
In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.103-104. (Série brasileiro-portuguesa, 30)
NOTA: O "Canto IV" é composto de 85 estrofe
2 695
Santa Rita Durão
Canto IV [Se o sacro ardor, que ferve no meu peito
XXXIV
Se o sacro ardor, que ferve no meu peito,
Não me deixa enganar, vereis que um dia
(Vivendo esse impostor) por seu respeito
Se encherá de Imboabas a Bahia,
Pagarão os Tupis o insano feito,
E vereis entre a bélica porfia
Tomar-lhe esses estranhos, já vizinhos,
Escravas as mulheres cos filhinhos.
XXXV
Vereis as nossas gentes desterradas
Entre os tigres viver no sertão fundo,
Cativa a plebe, as tabas arrombadas;
Levando para além do mar profundo
Nossos filhos e filhas desgraçadas;
Ou, quando os deixem cá no nosso mundo,
Poderemos sofrer, Paiaiás bravos,
Ver filhos, mães e pais feitos escravos?
(...)
XXXIX
Su, valentes; su, bravos companheiros!
Tomai coragem! que será no extremo?
Embora seja um raio verdadeiro,
Senão é Deus que o lança, eu nada temo.
Seja quem quer que for o autor primeiro,
Como não seja o Criador Supremo,
Não há forças criadas que nos domem:
Que sobre tudo o mais domina o homem.
In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.103-104. (Série brasileiro-portuguesa, 30)
NOTA: O "Canto IV" é composto de 85 estrofe
Se o sacro ardor, que ferve no meu peito,
Não me deixa enganar, vereis que um dia
(Vivendo esse impostor) por seu respeito
Se encherá de Imboabas a Bahia,
Pagarão os Tupis o insano feito,
E vereis entre a bélica porfia
Tomar-lhe esses estranhos, já vizinhos,
Escravas as mulheres cos filhinhos.
XXXV
Vereis as nossas gentes desterradas
Entre os tigres viver no sertão fundo,
Cativa a plebe, as tabas arrombadas;
Levando para além do mar profundo
Nossos filhos e filhas desgraçadas;
Ou, quando os deixem cá no nosso mundo,
Poderemos sofrer, Paiaiás bravos,
Ver filhos, mães e pais feitos escravos?
(...)
XXXIX
Su, valentes; su, bravos companheiros!
Tomai coragem! que será no extremo?
Embora seja um raio verdadeiro,
Senão é Deus que o lança, eu nada temo.
Seja quem quer que for o autor primeiro,
Como não seja o Criador Supremo,
Não há forças criadas que nos domem:
Que sobre tudo o mais domina o homem.
In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.103-104. (Série brasileiro-portuguesa, 30)
NOTA: O "Canto IV" é composto de 85 estrofe
2 695
Lara de Lemos
A Teia
A teia se tece
de grade sem ferro
do negro sem fresta
do muro sem pedra.
A teia se tece
do árduo da espera
do aço da espada
e sua ameaça.
A teia se tece
da fala da insídia
da rede que enreda
na mesma cilada.
A teia se tece
de liça, contenda
açoites, cobiça
invídia, solércia.
A teia se tece
de nomes antigos
de amigos perdidos
no elo das celas.
Poema integrante da série Para um Rei Surdo.
In: LEMOS, Lara de. Amálgama. Pref. Gilberto Mendonça Teles. Porto Alegre: Globo: IEL, 1974. (Sagitário)
de grade sem ferro
do negro sem fresta
do muro sem pedra.
A teia se tece
do árduo da espera
do aço da espada
e sua ameaça.
A teia se tece
da fala da insídia
da rede que enreda
na mesma cilada.
A teia se tece
de liça, contenda
açoites, cobiça
invídia, solércia.
A teia se tece
de nomes antigos
de amigos perdidos
no elo das celas.
Poema integrante da série Para um Rei Surdo.
In: LEMOS, Lara de. Amálgama. Pref. Gilberto Mendonça Teles. Porto Alegre: Globo: IEL, 1974. (Sagitário)
2 526
Sílvio Romero
ABC do Vaqueiro em Tempo de Seca
(Ceará)
Agora triste começo
A manifestar o meu fado
Os meus Grandes aveixames
A vida de um desgraçado.
Bem queria nunca ser
Vaqueiro neste sertão
Para fim de não me ver
Em tamanha confusão.
Com cuidado levo o dia
E a noite a maginar
De manhã tirar o leite
Ir ao campo campear.
Domingos e dias santos
Sempre tenho que fazer.
Ou bezerros com bicheira.
Ou cavalos pra ir ver.
Enquanto Deus não dá chuva
Logo tudo desanima,
Somente mode o trabalho
Das malvadas das cacimbas.
Façam a todo o vaqueiro
Viver aqui sobre si,
Que entrando nesta vida
Diga: — Já me arrependi!
Grande é a tirania
De um dono de fazenda,
Que de pobre de um vaqueiro
Não tem compaixão nem pena.
Homem que tiver vergonha
Vaqueiro não queira ser,
Que as fazendas de agora
Nem dão bem para comer.
I no tempo que nós estamos
Ninguém tem opinião;
Para um dono de fazenda
Todo vaqueiro é ladrão.
Labora um pobre vaqueiro
Em tormentos tão compridos,
Quando é no remate de contas
Sempre é mal correspondido.
Mandam como a seu negro,
Uns tantos já se matando;
Ainda bem não tem chegado,
Já seus donos estão ralhando.
Não posso com esta lida,
Me causa grande desgosto,
Só por ver como vai
O suor deste meu rosto.
O bom Deus de piedade
A mim me queira livrar,
Enquanto vida tiver
E bens alheios tratar.
Para o mês de Sam João
Vou ver o que estou ganhando,
Quero pagar o que devo,
Inda lhe fico restando.
Querendo ter alguma cousa,
Não há de vestir camisa,
Visto isto que eu digo
O mesmo tempo me avisa.
Ralham contra os vaqueiros,
Nada se faz a seu gosto;
Se acaso morre um bezerro,
Na serra se toma outro.
Saibam todos os vaqueiros
Tratados bem de seus amos,
Se eles não têm consciência,
Logo nós todos furtamos.
Tudo isto que se vê
Inda não disse a metade,
Por causa do leite de vaca
Se quebra muita amizade.
Vou dar fim ao A, B, C,
Eu não quero mais falar,
Se fosse eu a dizer tudo
São capazes de me matar.
Xorem e chorarão
Com grande pena e pesar,
Somente mode um mumbica
Que dão pra se matar.
Zelo, zeloso,
Todos sabem zelar,
Que de um pobre vaqueiro
Sempre tem que falar.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.107-108. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Agora triste começo
A manifestar o meu fado
Os meus Grandes aveixames
A vida de um desgraçado.
Bem queria nunca ser
Vaqueiro neste sertão
Para fim de não me ver
Em tamanha confusão.
Com cuidado levo o dia
E a noite a maginar
De manhã tirar o leite
Ir ao campo campear.
Domingos e dias santos
Sempre tenho que fazer.
Ou bezerros com bicheira.
Ou cavalos pra ir ver.
Enquanto Deus não dá chuva
Logo tudo desanima,
Somente mode o trabalho
Das malvadas das cacimbas.
Façam a todo o vaqueiro
Viver aqui sobre si,
Que entrando nesta vida
Diga: — Já me arrependi!
Grande é a tirania
De um dono de fazenda,
Que de pobre de um vaqueiro
Não tem compaixão nem pena.
Homem que tiver vergonha
Vaqueiro não queira ser,
Que as fazendas de agora
Nem dão bem para comer.
I no tempo que nós estamos
Ninguém tem opinião;
Para um dono de fazenda
Todo vaqueiro é ladrão.
Labora um pobre vaqueiro
Em tormentos tão compridos,
Quando é no remate de contas
Sempre é mal correspondido.
Mandam como a seu negro,
Uns tantos já se matando;
Ainda bem não tem chegado,
Já seus donos estão ralhando.
Não posso com esta lida,
Me causa grande desgosto,
Só por ver como vai
O suor deste meu rosto.
O bom Deus de piedade
A mim me queira livrar,
Enquanto vida tiver
E bens alheios tratar.
Para o mês de Sam João
Vou ver o que estou ganhando,
Quero pagar o que devo,
Inda lhe fico restando.
Querendo ter alguma cousa,
Não há de vestir camisa,
Visto isto que eu digo
O mesmo tempo me avisa.
Ralham contra os vaqueiros,
Nada se faz a seu gosto;
Se acaso morre um bezerro,
Na serra se toma outro.
Saibam todos os vaqueiros
Tratados bem de seus amos,
Se eles não têm consciência,
Logo nós todos furtamos.
Tudo isto que se vê
Inda não disse a metade,
Por causa do leite de vaca
Se quebra muita amizade.
Vou dar fim ao A, B, C,
Eu não quero mais falar,
Se fosse eu a dizer tudo
São capazes de me matar.
Xorem e chorarão
Com grande pena e pesar,
Somente mode um mumbica
Que dão pra se matar.
Zelo, zeloso,
Todos sabem zelar,
Que de um pobre vaqueiro
Sempre tem que falar.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.107-108. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
1 687
Sílvio Romero
ABC do Vaqueiro em Tempo de Seca
(Ceará)
Agora triste começo
A manifestar o meu fado
Os meus Grandes aveixames
A vida de um desgraçado.
Bem queria nunca ser
Vaqueiro neste sertão
Para fim de não me ver
Em tamanha confusão.
Com cuidado levo o dia
E a noite a maginar
De manhã tirar o leite
Ir ao campo campear.
Domingos e dias santos
Sempre tenho que fazer.
Ou bezerros com bicheira.
Ou cavalos pra ir ver.
Enquanto Deus não dá chuva
Logo tudo desanima,
Somente mode o trabalho
Das malvadas das cacimbas.
Façam a todo o vaqueiro
Viver aqui sobre si,
Que entrando nesta vida
Diga: — Já me arrependi!
Grande é a tirania
De um dono de fazenda,
Que de pobre de um vaqueiro
Não tem compaixão nem pena.
Homem que tiver vergonha
Vaqueiro não queira ser,
Que as fazendas de agora
Nem dão bem para comer.
I no tempo que nós estamos
Ninguém tem opinião;
Para um dono de fazenda
Todo vaqueiro é ladrão.
Labora um pobre vaqueiro
Em tormentos tão compridos,
Quando é no remate de contas
Sempre é mal correspondido.
Mandam como a seu negro,
Uns tantos já se matando;
Ainda bem não tem chegado,
Já seus donos estão ralhando.
Não posso com esta lida,
Me causa grande desgosto,
Só por ver como vai
O suor deste meu rosto.
O bom Deus de piedade
A mim me queira livrar,
Enquanto vida tiver
E bens alheios tratar.
Para o mês de Sam João
Vou ver o que estou ganhando,
Quero pagar o que devo,
Inda lhe fico restando.
Querendo ter alguma cousa,
Não há de vestir camisa,
Visto isto que eu digo
O mesmo tempo me avisa.
Ralham contra os vaqueiros,
Nada se faz a seu gosto;
Se acaso morre um bezerro,
Na serra se toma outro.
Saibam todos os vaqueiros
Tratados bem de seus amos,
Se eles não têm consciência,
Logo nós todos furtamos.
Tudo isto que se vê
Inda não disse a metade,
Por causa do leite de vaca
Se quebra muita amizade.
Vou dar fim ao A, B, C,
Eu não quero mais falar,
Se fosse eu a dizer tudo
São capazes de me matar.
Xorem e chorarão
Com grande pena e pesar,
Somente mode um mumbica
Que dão pra se matar.
Zelo, zeloso,
Todos sabem zelar,
Que de um pobre vaqueiro
Sempre tem que falar.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.107-108. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Agora triste começo
A manifestar o meu fado
Os meus Grandes aveixames
A vida de um desgraçado.
Bem queria nunca ser
Vaqueiro neste sertão
Para fim de não me ver
Em tamanha confusão.
Com cuidado levo o dia
E a noite a maginar
De manhã tirar o leite
Ir ao campo campear.
Domingos e dias santos
Sempre tenho que fazer.
Ou bezerros com bicheira.
Ou cavalos pra ir ver.
Enquanto Deus não dá chuva
Logo tudo desanima,
Somente mode o trabalho
Das malvadas das cacimbas.
Façam a todo o vaqueiro
Viver aqui sobre si,
Que entrando nesta vida
Diga: — Já me arrependi!
Grande é a tirania
De um dono de fazenda,
Que de pobre de um vaqueiro
Não tem compaixão nem pena.
Homem que tiver vergonha
Vaqueiro não queira ser,
Que as fazendas de agora
Nem dão bem para comer.
I no tempo que nós estamos
Ninguém tem opinião;
Para um dono de fazenda
Todo vaqueiro é ladrão.
Labora um pobre vaqueiro
Em tormentos tão compridos,
Quando é no remate de contas
Sempre é mal correspondido.
Mandam como a seu negro,
Uns tantos já se matando;
Ainda bem não tem chegado,
Já seus donos estão ralhando.
Não posso com esta lida,
Me causa grande desgosto,
Só por ver como vai
O suor deste meu rosto.
O bom Deus de piedade
A mim me queira livrar,
Enquanto vida tiver
E bens alheios tratar.
Para o mês de Sam João
Vou ver o que estou ganhando,
Quero pagar o que devo,
Inda lhe fico restando.
Querendo ter alguma cousa,
Não há de vestir camisa,
Visto isto que eu digo
O mesmo tempo me avisa.
Ralham contra os vaqueiros,
Nada se faz a seu gosto;
Se acaso morre um bezerro,
Na serra se toma outro.
Saibam todos os vaqueiros
Tratados bem de seus amos,
Se eles não têm consciência,
Logo nós todos furtamos.
Tudo isto que se vê
Inda não disse a metade,
Por causa do leite de vaca
Se quebra muita amizade.
Vou dar fim ao A, B, C,
Eu não quero mais falar,
Se fosse eu a dizer tudo
São capazes de me matar.
Xorem e chorarão
Com grande pena e pesar,
Somente mode um mumbica
Que dão pra se matar.
Zelo, zeloso,
Todos sabem zelar,
Que de um pobre vaqueiro
Sempre tem que falar.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.107-108. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
1 687
Sílvio Romero
ABC do Vaqueiro em Tempo de Seca
(Ceará)
Agora triste começo
A manifestar o meu fado
Os meus Grandes aveixames
A vida de um desgraçado.
Bem queria nunca ser
Vaqueiro neste sertão
Para fim de não me ver
Em tamanha confusão.
Com cuidado levo o dia
E a noite a maginar
De manhã tirar o leite
Ir ao campo campear.
Domingos e dias santos
Sempre tenho que fazer.
Ou bezerros com bicheira.
Ou cavalos pra ir ver.
Enquanto Deus não dá chuva
Logo tudo desanima,
Somente mode o trabalho
Das malvadas das cacimbas.
Façam a todo o vaqueiro
Viver aqui sobre si,
Que entrando nesta vida
Diga: — Já me arrependi!
Grande é a tirania
De um dono de fazenda,
Que de pobre de um vaqueiro
Não tem compaixão nem pena.
Homem que tiver vergonha
Vaqueiro não queira ser,
Que as fazendas de agora
Nem dão bem para comer.
I no tempo que nós estamos
Ninguém tem opinião;
Para um dono de fazenda
Todo vaqueiro é ladrão.
Labora um pobre vaqueiro
Em tormentos tão compridos,
Quando é no remate de contas
Sempre é mal correspondido.
Mandam como a seu negro,
Uns tantos já se matando;
Ainda bem não tem chegado,
Já seus donos estão ralhando.
Não posso com esta lida,
Me causa grande desgosto,
Só por ver como vai
O suor deste meu rosto.
O bom Deus de piedade
A mim me queira livrar,
Enquanto vida tiver
E bens alheios tratar.
Para o mês de Sam João
Vou ver o que estou ganhando,
Quero pagar o que devo,
Inda lhe fico restando.
Querendo ter alguma cousa,
Não há de vestir camisa,
Visto isto que eu digo
O mesmo tempo me avisa.
Ralham contra os vaqueiros,
Nada se faz a seu gosto;
Se acaso morre um bezerro,
Na serra se toma outro.
Saibam todos os vaqueiros
Tratados bem de seus amos,
Se eles não têm consciência,
Logo nós todos furtamos.
Tudo isto que se vê
Inda não disse a metade,
Por causa do leite de vaca
Se quebra muita amizade.
Vou dar fim ao A, B, C,
Eu não quero mais falar,
Se fosse eu a dizer tudo
São capazes de me matar.
Xorem e chorarão
Com grande pena e pesar,
Somente mode um mumbica
Que dão pra se matar.
Zelo, zeloso,
Todos sabem zelar,
Que de um pobre vaqueiro
Sempre tem que falar.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.107-108. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Agora triste começo
A manifestar o meu fado
Os meus Grandes aveixames
A vida de um desgraçado.
Bem queria nunca ser
Vaqueiro neste sertão
Para fim de não me ver
Em tamanha confusão.
Com cuidado levo o dia
E a noite a maginar
De manhã tirar o leite
Ir ao campo campear.
Domingos e dias santos
Sempre tenho que fazer.
Ou bezerros com bicheira.
Ou cavalos pra ir ver.
Enquanto Deus não dá chuva
Logo tudo desanima,
Somente mode o trabalho
Das malvadas das cacimbas.
Façam a todo o vaqueiro
Viver aqui sobre si,
Que entrando nesta vida
Diga: — Já me arrependi!
Grande é a tirania
De um dono de fazenda,
Que de pobre de um vaqueiro
Não tem compaixão nem pena.
Homem que tiver vergonha
Vaqueiro não queira ser,
Que as fazendas de agora
Nem dão bem para comer.
I no tempo que nós estamos
Ninguém tem opinião;
Para um dono de fazenda
Todo vaqueiro é ladrão.
Labora um pobre vaqueiro
Em tormentos tão compridos,
Quando é no remate de contas
Sempre é mal correspondido.
Mandam como a seu negro,
Uns tantos já se matando;
Ainda bem não tem chegado,
Já seus donos estão ralhando.
Não posso com esta lida,
Me causa grande desgosto,
Só por ver como vai
O suor deste meu rosto.
O bom Deus de piedade
A mim me queira livrar,
Enquanto vida tiver
E bens alheios tratar.
Para o mês de Sam João
Vou ver o que estou ganhando,
Quero pagar o que devo,
Inda lhe fico restando.
Querendo ter alguma cousa,
Não há de vestir camisa,
Visto isto que eu digo
O mesmo tempo me avisa.
Ralham contra os vaqueiros,
Nada se faz a seu gosto;
Se acaso morre um bezerro,
Na serra se toma outro.
Saibam todos os vaqueiros
Tratados bem de seus amos,
Se eles não têm consciência,
Logo nós todos furtamos.
Tudo isto que se vê
Inda não disse a metade,
Por causa do leite de vaca
Se quebra muita amizade.
Vou dar fim ao A, B, C,
Eu não quero mais falar,
Se fosse eu a dizer tudo
São capazes de me matar.
Xorem e chorarão
Com grande pena e pesar,
Somente mode um mumbica
Que dão pra se matar.
Zelo, zeloso,
Todos sabem zelar,
Que de um pobre vaqueiro
Sempre tem que falar.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.107-108. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
1 687
Santa Rita Durão
Canto II [Não era assim nas aves fugitivas
XLIII
Não era assim nas aves fugitivas,
Que umas frechava no ar, e outras em laços
Com arte o caçador tomava vivas;
Uma, porém, nos líquidos espaços
Faz com a pluma as setas pouco ativas,
Deixando a lisa pena os golpes laços,
Toma-a de mira Diogo e o ponto aguarda:
Dá-lhe um tiro e derriba-a coa espingarda.
XLIV
Estando a turba longe de cuidá-lo,
Fica o bárbaro ao golpe estremecido
E cai por terra no tremendo abalo
Da chama do fracasso e do estampido;
Qual do hórrido trovão com raio e estalo
Algum junto aquém cai, fica aturdido,
Tal Gupeva ficou, crendo formada
No arcabuz de Diogo uma trovoada.
(...)
XLVI
Desde esse dia, é fama que por nome
Do grão Caramuru foi celebrado
O forte Diogo; e que escutado dome
Este apelido o bárbaro espantado.
Indicava o Brasil no sobrenome,
Que era um dragão dos mares vomitado;
Nem doutra arte entre nós a antiga idade
Tem Jove, Apolo e Marte por deidade.
XLVII
Foram qual hoje o rude americano
O valente romano, o sábio argivo;
Nem foi de Salmoneu mais torpe o engano,
Do que outro rei fizera em Creta altivo,
Nós que zombamos deste povo insano,
Se bem cavarmos no solar nativo,
Dos antigos heróis dentro às imagens
Não acharemos mais que outros selvagens.
In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.55-56. (Série brasileiro-portuguesa, 30)
NOTA: O "Canto II" é composto de 91 estrofe
Não era assim nas aves fugitivas,
Que umas frechava no ar, e outras em laços
Com arte o caçador tomava vivas;
Uma, porém, nos líquidos espaços
Faz com a pluma as setas pouco ativas,
Deixando a lisa pena os golpes laços,
Toma-a de mira Diogo e o ponto aguarda:
Dá-lhe um tiro e derriba-a coa espingarda.
XLIV
Estando a turba longe de cuidá-lo,
Fica o bárbaro ao golpe estremecido
E cai por terra no tremendo abalo
Da chama do fracasso e do estampido;
Qual do hórrido trovão com raio e estalo
Algum junto aquém cai, fica aturdido,
Tal Gupeva ficou, crendo formada
No arcabuz de Diogo uma trovoada.
(...)
XLVI
Desde esse dia, é fama que por nome
Do grão Caramuru foi celebrado
O forte Diogo; e que escutado dome
Este apelido o bárbaro espantado.
Indicava o Brasil no sobrenome,
Que era um dragão dos mares vomitado;
Nem doutra arte entre nós a antiga idade
Tem Jove, Apolo e Marte por deidade.
XLVII
Foram qual hoje o rude americano
O valente romano, o sábio argivo;
Nem foi de Salmoneu mais torpe o engano,
Do que outro rei fizera em Creta altivo,
Nós que zombamos deste povo insano,
Se bem cavarmos no solar nativo,
Dos antigos heróis dentro às imagens
Não acharemos mais que outros selvagens.
In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.55-56. (Série brasileiro-portuguesa, 30)
NOTA: O "Canto II" é composto de 91 estrofe
2 941
Santa Rita Durão
Canto II [Não era assim nas aves fugitivas
XLIII
Não era assim nas aves fugitivas,
Que umas frechava no ar, e outras em laços
Com arte o caçador tomava vivas;
Uma, porém, nos líquidos espaços
Faz com a pluma as setas pouco ativas,
Deixando a lisa pena os golpes laços,
Toma-a de mira Diogo e o ponto aguarda:
Dá-lhe um tiro e derriba-a coa espingarda.
XLIV
Estando a turba longe de cuidá-lo,
Fica o bárbaro ao golpe estremecido
E cai por terra no tremendo abalo
Da chama do fracasso e do estampido;
Qual do hórrido trovão com raio e estalo
Algum junto aquém cai, fica aturdido,
Tal Gupeva ficou, crendo formada
No arcabuz de Diogo uma trovoada.
(...)
XLVI
Desde esse dia, é fama que por nome
Do grão Caramuru foi celebrado
O forte Diogo; e que escutado dome
Este apelido o bárbaro espantado.
Indicava o Brasil no sobrenome,
Que era um dragão dos mares vomitado;
Nem doutra arte entre nós a antiga idade
Tem Jove, Apolo e Marte por deidade.
XLVII
Foram qual hoje o rude americano
O valente romano, o sábio argivo;
Nem foi de Salmoneu mais torpe o engano,
Do que outro rei fizera em Creta altivo,
Nós que zombamos deste povo insano,
Se bem cavarmos no solar nativo,
Dos antigos heróis dentro às imagens
Não acharemos mais que outros selvagens.
In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.55-56. (Série brasileiro-portuguesa, 30)
NOTA: O "Canto II" é composto de 91 estrofe
Não era assim nas aves fugitivas,
Que umas frechava no ar, e outras em laços
Com arte o caçador tomava vivas;
Uma, porém, nos líquidos espaços
Faz com a pluma as setas pouco ativas,
Deixando a lisa pena os golpes laços,
Toma-a de mira Diogo e o ponto aguarda:
Dá-lhe um tiro e derriba-a coa espingarda.
XLIV
Estando a turba longe de cuidá-lo,
Fica o bárbaro ao golpe estremecido
E cai por terra no tremendo abalo
Da chama do fracasso e do estampido;
Qual do hórrido trovão com raio e estalo
Algum junto aquém cai, fica aturdido,
Tal Gupeva ficou, crendo formada
No arcabuz de Diogo uma trovoada.
(...)
XLVI
Desde esse dia, é fama que por nome
Do grão Caramuru foi celebrado
O forte Diogo; e que escutado dome
Este apelido o bárbaro espantado.
Indicava o Brasil no sobrenome,
Que era um dragão dos mares vomitado;
Nem doutra arte entre nós a antiga idade
Tem Jove, Apolo e Marte por deidade.
XLVII
Foram qual hoje o rude americano
O valente romano, o sábio argivo;
Nem foi de Salmoneu mais torpe o engano,
Do que outro rei fizera em Creta altivo,
Nós que zombamos deste povo insano,
Se bem cavarmos no solar nativo,
Dos antigos heróis dentro às imagens
Não acharemos mais que outros selvagens.
In: DURÃO, Santa Rita. Caramuru: poema épico do descobrimento da Bahia, composto por Fr. José de Santa Rita Durão, da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, natural da Cata Preta nas Minas Gerais. São Paulo: Cultura, 1945. p.55-56. (Série brasileiro-portuguesa, 30)
NOTA: O "Canto II" é composto de 91 estrofe
2 941
Sílvio Romero
ABC do Lavrador
(Ceará)
Agora quero tratar,
Segundo tenho patente,
A vida de lavrador
No passado e no presente.
Bem queria ter ciência,
Dizer por linhas direitas,
Para agora explicar
Uma idéia bem perfeita.
Cuidados tenho da noite,
De madrugada levanto,
De manhã vou para a roça
A correr todos os cantos.
Domingos e dias santos
Todos vão espairecer,
Eu me acho tão moído,
Que não me posso mexer.
Estando desta sorte
Não é possível calçar,
Os pés inchados de espinhos,
E de todo o dia andar.
Feliz de quem não tem
Esta vida laboriosa,
Não vive tão fatigado,
Como eu me acho agora.
Grande tristeza padece
Todo aquele lavrador,
Quando perde o legume todo
Porque o inverno escasseou.
He possível aturar
Até a idade de cinquenta,
Quando se chega aos quarenta,
Já parece ter oitenta.
Lavradores briosos
Consideram no futuro,
Não tomam dinheiro sem ver
Os seus legumes seguros.
Muitos não têm recursos,
Não sabem o que hão de fazer,
Não temem a percentage,
Querem achar quem dê.
Não queira ser lavrador
Quem tiver outra profissão,
É a vida mais amarga
Deus deixou aos filhos de Adão.
Pois quando se colhe
Os legumes de um ano,
Ainda se não acaba,
Nova roça começando.
Quase sempre os lavradores
De cana, café, cacau,
Têm feitores de campo
Para não passar tão mal.
Razão eles têm
Para ter contentamento,
Quem trabalha no campo
É quem padece o tormento.
Souberam as câmaras criar
Ministros pra proteger,
Nesta terra não tem um banco
Que a ela possa favorecer.
Terra pobre como esta
Ninguém pode dar impulso,
Sem banco, sem proteção,
Fora de todo o recurso!
Vive sempre isolado
Metido nas espessuras
Com a memória no passado,
O futuro sem venturas.
Xoram todos a sua sorte,
Faz pena ver os lamentos,
De pedir dinheiro a rebate,
Por não acharem por centos.
Zombem, façam caçoada
Da vida do lavrador,
Considerem no futuro,
A sorte a Parca cortou.
O til por ser do fim,
Sempre dá uma esperança,
Na consolação dos afetos
Até chegar a bonança.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.105-106. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Agora quero tratar,
Segundo tenho patente,
A vida de lavrador
No passado e no presente.
Bem queria ter ciência,
Dizer por linhas direitas,
Para agora explicar
Uma idéia bem perfeita.
Cuidados tenho da noite,
De madrugada levanto,
De manhã vou para a roça
A correr todos os cantos.
Domingos e dias santos
Todos vão espairecer,
Eu me acho tão moído,
Que não me posso mexer.
Estando desta sorte
Não é possível calçar,
Os pés inchados de espinhos,
E de todo o dia andar.
Feliz de quem não tem
Esta vida laboriosa,
Não vive tão fatigado,
Como eu me acho agora.
Grande tristeza padece
Todo aquele lavrador,
Quando perde o legume todo
Porque o inverno escasseou.
He possível aturar
Até a idade de cinquenta,
Quando se chega aos quarenta,
Já parece ter oitenta.
Lavradores briosos
Consideram no futuro,
Não tomam dinheiro sem ver
Os seus legumes seguros.
Muitos não têm recursos,
Não sabem o que hão de fazer,
Não temem a percentage,
Querem achar quem dê.
Não queira ser lavrador
Quem tiver outra profissão,
É a vida mais amarga
Deus deixou aos filhos de Adão.
Pois quando se colhe
Os legumes de um ano,
Ainda se não acaba,
Nova roça começando.
Quase sempre os lavradores
De cana, café, cacau,
Têm feitores de campo
Para não passar tão mal.
Razão eles têm
Para ter contentamento,
Quem trabalha no campo
É quem padece o tormento.
Souberam as câmaras criar
Ministros pra proteger,
Nesta terra não tem um banco
Que a ela possa favorecer.
Terra pobre como esta
Ninguém pode dar impulso,
Sem banco, sem proteção,
Fora de todo o recurso!
Vive sempre isolado
Metido nas espessuras
Com a memória no passado,
O futuro sem venturas.
Xoram todos a sua sorte,
Faz pena ver os lamentos,
De pedir dinheiro a rebate,
Por não acharem por centos.
Zombem, façam caçoada
Da vida do lavrador,
Considerem no futuro,
A sorte a Parca cortou.
O til por ser do fim,
Sempre dá uma esperança,
Na consolação dos afetos
Até chegar a bonança.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.105-106. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
1 814
Sílvio Romero
ABC do Lavrador
(Ceará)
Agora quero tratar,
Segundo tenho patente,
A vida de lavrador
No passado e no presente.
Bem queria ter ciência,
Dizer por linhas direitas,
Para agora explicar
Uma idéia bem perfeita.
Cuidados tenho da noite,
De madrugada levanto,
De manhã vou para a roça
A correr todos os cantos.
Domingos e dias santos
Todos vão espairecer,
Eu me acho tão moído,
Que não me posso mexer.
Estando desta sorte
Não é possível calçar,
Os pés inchados de espinhos,
E de todo o dia andar.
Feliz de quem não tem
Esta vida laboriosa,
Não vive tão fatigado,
Como eu me acho agora.
Grande tristeza padece
Todo aquele lavrador,
Quando perde o legume todo
Porque o inverno escasseou.
He possível aturar
Até a idade de cinquenta,
Quando se chega aos quarenta,
Já parece ter oitenta.
Lavradores briosos
Consideram no futuro,
Não tomam dinheiro sem ver
Os seus legumes seguros.
Muitos não têm recursos,
Não sabem o que hão de fazer,
Não temem a percentage,
Querem achar quem dê.
Não queira ser lavrador
Quem tiver outra profissão,
É a vida mais amarga
Deus deixou aos filhos de Adão.
Pois quando se colhe
Os legumes de um ano,
Ainda se não acaba,
Nova roça começando.
Quase sempre os lavradores
De cana, café, cacau,
Têm feitores de campo
Para não passar tão mal.
Razão eles têm
Para ter contentamento,
Quem trabalha no campo
É quem padece o tormento.
Souberam as câmaras criar
Ministros pra proteger,
Nesta terra não tem um banco
Que a ela possa favorecer.
Terra pobre como esta
Ninguém pode dar impulso,
Sem banco, sem proteção,
Fora de todo o recurso!
Vive sempre isolado
Metido nas espessuras
Com a memória no passado,
O futuro sem venturas.
Xoram todos a sua sorte,
Faz pena ver os lamentos,
De pedir dinheiro a rebate,
Por não acharem por centos.
Zombem, façam caçoada
Da vida do lavrador,
Considerem no futuro,
A sorte a Parca cortou.
O til por ser do fim,
Sempre dá uma esperança,
Na consolação dos afetos
Até chegar a bonança.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.105-106. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Agora quero tratar,
Segundo tenho patente,
A vida de lavrador
No passado e no presente.
Bem queria ter ciência,
Dizer por linhas direitas,
Para agora explicar
Uma idéia bem perfeita.
Cuidados tenho da noite,
De madrugada levanto,
De manhã vou para a roça
A correr todos os cantos.
Domingos e dias santos
Todos vão espairecer,
Eu me acho tão moído,
Que não me posso mexer.
Estando desta sorte
Não é possível calçar,
Os pés inchados de espinhos,
E de todo o dia andar.
Feliz de quem não tem
Esta vida laboriosa,
Não vive tão fatigado,
Como eu me acho agora.
Grande tristeza padece
Todo aquele lavrador,
Quando perde o legume todo
Porque o inverno escasseou.
He possível aturar
Até a idade de cinquenta,
Quando se chega aos quarenta,
Já parece ter oitenta.
Lavradores briosos
Consideram no futuro,
Não tomam dinheiro sem ver
Os seus legumes seguros.
Muitos não têm recursos,
Não sabem o que hão de fazer,
Não temem a percentage,
Querem achar quem dê.
Não queira ser lavrador
Quem tiver outra profissão,
É a vida mais amarga
Deus deixou aos filhos de Adão.
Pois quando se colhe
Os legumes de um ano,
Ainda se não acaba,
Nova roça começando.
Quase sempre os lavradores
De cana, café, cacau,
Têm feitores de campo
Para não passar tão mal.
Razão eles têm
Para ter contentamento,
Quem trabalha no campo
É quem padece o tormento.
Souberam as câmaras criar
Ministros pra proteger,
Nesta terra não tem um banco
Que a ela possa favorecer.
Terra pobre como esta
Ninguém pode dar impulso,
Sem banco, sem proteção,
Fora de todo o recurso!
Vive sempre isolado
Metido nas espessuras
Com a memória no passado,
O futuro sem venturas.
Xoram todos a sua sorte,
Faz pena ver os lamentos,
De pedir dinheiro a rebate,
Por não acharem por centos.
Zombem, façam caçoada
Da vida do lavrador,
Considerem no futuro,
A sorte a Parca cortou.
O til por ser do fim,
Sempre dá uma esperança,
Na consolação dos afetos
Até chegar a bonança.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.105-106. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
1 814
Sílvio Romero
ABC do Lavrador
(Ceará)
Agora quero tratar,
Segundo tenho patente,
A vida de lavrador
No passado e no presente.
Bem queria ter ciência,
Dizer por linhas direitas,
Para agora explicar
Uma idéia bem perfeita.
Cuidados tenho da noite,
De madrugada levanto,
De manhã vou para a roça
A correr todos os cantos.
Domingos e dias santos
Todos vão espairecer,
Eu me acho tão moído,
Que não me posso mexer.
Estando desta sorte
Não é possível calçar,
Os pés inchados de espinhos,
E de todo o dia andar.
Feliz de quem não tem
Esta vida laboriosa,
Não vive tão fatigado,
Como eu me acho agora.
Grande tristeza padece
Todo aquele lavrador,
Quando perde o legume todo
Porque o inverno escasseou.
He possível aturar
Até a idade de cinquenta,
Quando se chega aos quarenta,
Já parece ter oitenta.
Lavradores briosos
Consideram no futuro,
Não tomam dinheiro sem ver
Os seus legumes seguros.
Muitos não têm recursos,
Não sabem o que hão de fazer,
Não temem a percentage,
Querem achar quem dê.
Não queira ser lavrador
Quem tiver outra profissão,
É a vida mais amarga
Deus deixou aos filhos de Adão.
Pois quando se colhe
Os legumes de um ano,
Ainda se não acaba,
Nova roça começando.
Quase sempre os lavradores
De cana, café, cacau,
Têm feitores de campo
Para não passar tão mal.
Razão eles têm
Para ter contentamento,
Quem trabalha no campo
É quem padece o tormento.
Souberam as câmaras criar
Ministros pra proteger,
Nesta terra não tem um banco
Que a ela possa favorecer.
Terra pobre como esta
Ninguém pode dar impulso,
Sem banco, sem proteção,
Fora de todo o recurso!
Vive sempre isolado
Metido nas espessuras
Com a memória no passado,
O futuro sem venturas.
Xoram todos a sua sorte,
Faz pena ver os lamentos,
De pedir dinheiro a rebate,
Por não acharem por centos.
Zombem, façam caçoada
Da vida do lavrador,
Considerem no futuro,
A sorte a Parca cortou.
O til por ser do fim,
Sempre dá uma esperança,
Na consolação dos afetos
Até chegar a bonança.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.105-106. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
Agora quero tratar,
Segundo tenho patente,
A vida de lavrador
No passado e no presente.
Bem queria ter ciência,
Dizer por linhas direitas,
Para agora explicar
Uma idéia bem perfeita.
Cuidados tenho da noite,
De madrugada levanto,
De manhã vou para a roça
A correr todos os cantos.
Domingos e dias santos
Todos vão espairecer,
Eu me acho tão moído,
Que não me posso mexer.
Estando desta sorte
Não é possível calçar,
Os pés inchados de espinhos,
E de todo o dia andar.
Feliz de quem não tem
Esta vida laboriosa,
Não vive tão fatigado,
Como eu me acho agora.
Grande tristeza padece
Todo aquele lavrador,
Quando perde o legume todo
Porque o inverno escasseou.
He possível aturar
Até a idade de cinquenta,
Quando se chega aos quarenta,
Já parece ter oitenta.
Lavradores briosos
Consideram no futuro,
Não tomam dinheiro sem ver
Os seus legumes seguros.
Muitos não têm recursos,
Não sabem o que hão de fazer,
Não temem a percentage,
Querem achar quem dê.
Não queira ser lavrador
Quem tiver outra profissão,
É a vida mais amarga
Deus deixou aos filhos de Adão.
Pois quando se colhe
Os legumes de um ano,
Ainda se não acaba,
Nova roça começando.
Quase sempre os lavradores
De cana, café, cacau,
Têm feitores de campo
Para não passar tão mal.
Razão eles têm
Para ter contentamento,
Quem trabalha no campo
É quem padece o tormento.
Souberam as câmaras criar
Ministros pra proteger,
Nesta terra não tem um banco
Que a ela possa favorecer.
Terra pobre como esta
Ninguém pode dar impulso,
Sem banco, sem proteção,
Fora de todo o recurso!
Vive sempre isolado
Metido nas espessuras
Com a memória no passado,
O futuro sem venturas.
Xoram todos a sua sorte,
Faz pena ver os lamentos,
De pedir dinheiro a rebate,
Por não acharem por centos.
Zombem, façam caçoada
Da vida do lavrador,
Considerem no futuro,
A sorte a Parca cortou.
O til por ser do fim,
Sempre dá uma esperança,
Na consolação dos afetos
Até chegar a bonança.
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.105-106. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
1 814
Sílvio Romero
Fragmento do Cabeleira
(Pernambuco)
— Fecha a porta, gente,
Cabeleira aí vem,
Matando mulheres,
Meninos também.
Corram, minha gente,
Cabeleira aí vem,
Ele não vem só,
Vem seu pai também.
"Meu pai me pediu
Por sua benção
Que eu não fosse mole,
Fosse valentão.
Lá na minha terra,
Lá em Santo Antão,
Encontrei um homem
Feito um guaribão,
Pus-lhe o bacamarte,
Foi pá, pi, no chão.
Minha mãe me deu
Contas pra rezar,
Quem tiver seus filhos
Saiba-os ensinar,
Veja o Cabeleira
Que vai a enforcar.
........................
Meu pai me chamou:
— Zé Gomes, vem cá;
Como tens passado
No canavial?
"Mortinho de fome.
Sequinho de sede,
Só me sustentava
Em caninhas verdes,
— Vem cá, José Gomes,
Anda-me contar
Como te prenderam
No canavial?
"Eu me vi cercado.
De cabos, tenentes,
Cada pé de cana
Era um pé de gente."
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.94-95. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
— Fecha a porta, gente,
Cabeleira aí vem,
Matando mulheres,
Meninos também.
Corram, minha gente,
Cabeleira aí vem,
Ele não vem só,
Vem seu pai também.
"Meu pai me pediu
Por sua benção
Que eu não fosse mole,
Fosse valentão.
Lá na minha terra,
Lá em Santo Antão,
Encontrei um homem
Feito um guaribão,
Pus-lhe o bacamarte,
Foi pá, pi, no chão.
Minha mãe me deu
Contas pra rezar,
Quem tiver seus filhos
Saiba-os ensinar,
Veja o Cabeleira
Que vai a enforcar.
........................
Meu pai me chamou:
— Zé Gomes, vem cá;
Como tens passado
No canavial?
"Mortinho de fome.
Sequinho de sede,
Só me sustentava
Em caninhas verdes,
— Vem cá, José Gomes,
Anda-me contar
Como te prenderam
No canavial?
"Eu me vi cercado.
De cabos, tenentes,
Cada pé de cana
Era um pé de gente."
In: ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro: cantos populares do Brasil. Pref. Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1985. p.94-95. (Reconquista do Brasil. Nova série, 86
2 129
Leila Mícollis
Arte Marajoara (II)
Salgado por chorar há tanto tempo
a morte de seus filhos mais amados
— peixes-bois e namorados,
muçuãs, atuns, baleias —,
o mar em extinção e em permanente vazante
entoa réquiem fúnebre e dissonante:
seu derradeiro canto da sereia.
In: MÍCCOLIS, Leila. SACIEDADE dos poetas vivos. Org. Urhacy Faustino e Leila Míccolis. Rio de Janeiro: Blocos, 1992. v.2, p.5
a morte de seus filhos mais amados
— peixes-bois e namorados,
muçuãs, atuns, baleias —,
o mar em extinção e em permanente vazante
entoa réquiem fúnebre e dissonante:
seu derradeiro canto da sereia.
In: MÍCCOLIS, Leila. SACIEDADE dos poetas vivos. Org. Urhacy Faustino e Leila Míccolis. Rio de Janeiro: Blocos, 1992. v.2, p.5
1 129