Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Frei Francisco de São Carlos
Soneto [Entre férreos grilhões preso, e seguro
Entre férreos grilhões preso, e seguro
Suspira o delinquente desvalido
Aguçando o punhal do seu gemido
A estreiteza cruel do cárcere escuro.
Sentistes bom Lorena, e o sangue puro
Que o peito vos inflama esclarecido
Determinou da mágoa condoído
Dar ao réu novo asilo, menos duro.
Remata-se a estrutura; e o triste passa
A sentir no pesar menor violência
E a lograr na prisão mais larga praça.
E para vossa glória alta Excelência
Beijando está nas aras da alegria
Os troféus que erigiu vossa clemência.
In: POETAS da Academia do Senado da Câmara de S. Paulo. Pref. Antônio Soares Amora. Notas Domingos Carvalho da Silva. São Paulo: Clube de Poesia, 1956. p.53-60. (Documentos, 3).
NOTA: Referência à cadeia mandada construir pelo governador Bernardo José de Loren
Suspira o delinquente desvalido
Aguçando o punhal do seu gemido
A estreiteza cruel do cárcere escuro.
Sentistes bom Lorena, e o sangue puro
Que o peito vos inflama esclarecido
Determinou da mágoa condoído
Dar ao réu novo asilo, menos duro.
Remata-se a estrutura; e o triste passa
A sentir no pesar menor violência
E a lograr na prisão mais larga praça.
E para vossa glória alta Excelência
Beijando está nas aras da alegria
Os troféus que erigiu vossa clemência.
In: POETAS da Academia do Senado da Câmara de S. Paulo. Pref. Antônio Soares Amora. Notas Domingos Carvalho da Silva. São Paulo: Clube de Poesia, 1956. p.53-60. (Documentos, 3).
NOTA: Referência à cadeia mandada construir pelo governador Bernardo José de Loren
1 265
Pedro Nava
Poema para Rodrigo Melo Franco de Andrade
Os elevadores estacaram unanimemente
e sem transição vibraram todos os tímpanos.
Depois um choro desmedido
derramou-se pelo edifício.
Mas foi parando aos poucos,
até perder-se em soluços abafados
um a um.
E houve o silêncio.
Eu suspeitei sem a menor malícia
a presença terrível dos arcanjos...
Mas onde?
Todos tinham medo de se fitar,
tanto a verdade fazia esforços
para se manifestar nas fisionomias cor de cinza.
O momento era de uma gravidade infinita
e devia haver uma lucidez inusitada nos homens,
porque todos pressentiram a decepção irremediável...
— enorme como o sentido oculto das coisas inertes
[(seu sentido poético!)
E a presença de Deus foi tão absoluta
nas almas retransidas de horror,
que os poetas se sumiram na noite,
tornados de repente inúteis.
1933
In: BANDEIRA, Manuel. Antologia de poetas brasileiros bissextos contemporâneos. 2.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Org. Simões, 1964. p.182-18
e sem transição vibraram todos os tímpanos.
Depois um choro desmedido
derramou-se pelo edifício.
Mas foi parando aos poucos,
até perder-se em soluços abafados
um a um.
E houve o silêncio.
Eu suspeitei sem a menor malícia
a presença terrível dos arcanjos...
Mas onde?
Todos tinham medo de se fitar,
tanto a verdade fazia esforços
para se manifestar nas fisionomias cor de cinza.
O momento era de uma gravidade infinita
e devia haver uma lucidez inusitada nos homens,
porque todos pressentiram a decepção irremediável...
— enorme como o sentido oculto das coisas inertes
[(seu sentido poético!)
E a presença de Deus foi tão absoluta
nas almas retransidas de horror,
que os poetas se sumiram na noite,
tornados de repente inúteis.
1933
In: BANDEIRA, Manuel. Antologia de poetas brasileiros bissextos contemporâneos. 2.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Org. Simões, 1964. p.182-18
1 453
Frei Francisco de São Carlos
Canto VI [Vedes na foz aquele, que aparece
(...)
Vedes na foz aquele, que aparece
Pontiagudo, e escarpado? Pois parece,
Que deu-lhe a providente natureza,
(Além das obras d'arte,) por defesa,
Na derrocada penha transformado
Nubígena membrudo, sempre armado
De face negra, e torva; e mais se o croa
Neve, e trovões, e raios, com que atroa.
Que co'a frente no Céu, no mar os rastros
Atrevido ameaça o pego, e os astros.
Se os delírios da vã mitologia
Na terra inda vagassem, dir-se-ia;
Que era um desses Aloidas, gigante,
Que intentou escalar o Céu brilhante.
Que das deusas do Olimpo namorado
Foi no mar por audaz precipitado.
E as deusas por acinte lá da altura
Lhe enxovalham de neve a catadura.
Do seio pois das nuvens, onde a fronte
Enconde, vendo o mar até o horizonte;
Mal que espreita surgir lenho inimigo,
Pronto avisa, e previne-se o perigo.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.185-186
NOTA: Descrição do Pão-de-Açúcar inspirada no episódio do gigante Adamastor, d'OS LUSÍADAS (Canto V, estrofes 37 a 61
Vedes na foz aquele, que aparece
Pontiagudo, e escarpado? Pois parece,
Que deu-lhe a providente natureza,
(Além das obras d'arte,) por defesa,
Na derrocada penha transformado
Nubígena membrudo, sempre armado
De face negra, e torva; e mais se o croa
Neve, e trovões, e raios, com que atroa.
Que co'a frente no Céu, no mar os rastros
Atrevido ameaça o pego, e os astros.
Se os delírios da vã mitologia
Na terra inda vagassem, dir-se-ia;
Que era um desses Aloidas, gigante,
Que intentou escalar o Céu brilhante.
Que das deusas do Olimpo namorado
Foi no mar por audaz precipitado.
E as deusas por acinte lá da altura
Lhe enxovalham de neve a catadura.
Do seio pois das nuvens, onde a fronte
Enconde, vendo o mar até o horizonte;
Mal que espreita surgir lenho inimigo,
Pronto avisa, e previne-se o perigo.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.185-186
NOTA: Descrição do Pão-de-Açúcar inspirada no episódio do gigante Adamastor, d'OS LUSÍADAS (Canto V, estrofes 37 a 61
1 270
Pedro Nava
Toadas Pra Meu Irmão
Esse homem é brasileiro que nem eu.
(Mário de Andrade - DESCOBRIMENTO)
Nem eu posso conceder
que esta noite fina assim
seja a mesma noite assu
que assobra Taquarassu!
Que seja a mesma noite densa
soturno enorme abajada
escondendo o sofrimento
dos brasileiros calados!
Mas fosse a noite maior
mais densa, mais abajada
mesmo assim seria fraca
e se deixaria varar
pela ternura que eu mando
voando com a força do vento
— Meu pensamento rasgando
o assombro da noite assu
vai velar sono cansado
dos brasileiros calados...
O sono tão sossegado
de um brasileiro cansado
dormindo na noite assu
que esmaga Taquarassu!
Da cidade outro poeta
quer a distância varar
pra ver o sono do irmão
seu descanso proteger!
Dorme teu sono José...
(...)
Meu pensamento voando
nesta noite fina assim
vai fugindo da cidade
desgarra sertão afora
pra vigiar bem de perto
o doce sono sossegado
dum brasileiro calado!
Te beijo de leve nos olhos
te beijo de leve na face
te beijo o cabelo inteirinho
te beijo no coração...
Brasileiro sossegado
dorme teu sono calado...
Dorme teu sono José...
E me perdoa, meu Mano
se eu não posso cantar
cantos mansos pro teu sono!
Quem me dera, mas não posso!
Pois na noite da cidade
Só de pensar no teu sono,
as veias ficaram doendo
O corpo todo sem jeito
fiquei esquisito, palavra!
Coração no peito calado...
Que dor nos nervos senti
de não ter voz pra falar
(o coração no peito calado)
de não ter choro pra chorar
de palavra não achar,
dor(i)da boa sincera
como aquela comovida
achada por Mário de Andrade
(aquela tão comovida)
que acalantou de São Paulo
o brasileiro do Acre...
Te beijo o cabelo inteirinho
te beijo no coração...
Descansa na noite mansa
descansa, Mano, descansa...
1928
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/USP
NOTA: Mário de Andrade comenta esse poema em carta a Pedro Nava datada de 25 fev. 1928: "Gosto. Talvez um pouco possam ser sintetizadas, a idéia vai repetindo muito. Quanto a ser imitação, não é. É o mesmo ritmo de inspiração porém a citação inicial e o final justificam isso. (...) Quem acusasse você de plágio ou de aluno mostrava bobagem. O que tem de parecido nos dois poemas é consciente, sem pasticho nem plágio". Referência aos "Dois Poemas Acreanos" (I - Descobrimento; II - Acalanto do Seringueiro), do livro CLÃ DO JABUTI (1927), de Mário de Andrad
(Mário de Andrade - DESCOBRIMENTO)
Nem eu posso conceder
que esta noite fina assim
seja a mesma noite assu
que assobra Taquarassu!
Que seja a mesma noite densa
soturno enorme abajada
escondendo o sofrimento
dos brasileiros calados!
Mas fosse a noite maior
mais densa, mais abajada
mesmo assim seria fraca
e se deixaria varar
pela ternura que eu mando
voando com a força do vento
— Meu pensamento rasgando
o assombro da noite assu
vai velar sono cansado
dos brasileiros calados...
O sono tão sossegado
de um brasileiro cansado
dormindo na noite assu
que esmaga Taquarassu!
Da cidade outro poeta
quer a distância varar
pra ver o sono do irmão
seu descanso proteger!
Dorme teu sono José...
(...)
Meu pensamento voando
nesta noite fina assim
vai fugindo da cidade
desgarra sertão afora
pra vigiar bem de perto
o doce sono sossegado
dum brasileiro calado!
Te beijo de leve nos olhos
te beijo de leve na face
te beijo o cabelo inteirinho
te beijo no coração...
Brasileiro sossegado
dorme teu sono calado...
Dorme teu sono José...
E me perdoa, meu Mano
se eu não posso cantar
cantos mansos pro teu sono!
Quem me dera, mas não posso!
Pois na noite da cidade
Só de pensar no teu sono,
as veias ficaram doendo
O corpo todo sem jeito
fiquei esquisito, palavra!
Coração no peito calado...
Que dor nos nervos senti
de não ter voz pra falar
(o coração no peito calado)
de não ter choro pra chorar
de palavra não achar,
dor(i)da boa sincera
como aquela comovida
achada por Mário de Andrade
(aquela tão comovida)
que acalantou de São Paulo
o brasileiro do Acre...
Te beijo o cabelo inteirinho
te beijo no coração...
Descansa na noite mansa
descansa, Mano, descansa...
1928
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/USP
NOTA: Mário de Andrade comenta esse poema em carta a Pedro Nava datada de 25 fev. 1928: "Gosto. Talvez um pouco possam ser sintetizadas, a idéia vai repetindo muito. Quanto a ser imitação, não é. É o mesmo ritmo de inspiração porém a citação inicial e o final justificam isso. (...) Quem acusasse você de plágio ou de aluno mostrava bobagem. O que tem de parecido nos dois poemas é consciente, sem pasticho nem plágio". Referência aos "Dois Poemas Acreanos" (I - Descobrimento; II - Acalanto do Seringueiro), do livro CLÃ DO JABUTI (1927), de Mário de Andrad
1 811
Pedro Nava
Toadas Pra Meu Irmão
Esse homem é brasileiro que nem eu.
(Mário de Andrade - DESCOBRIMENTO)
Nem eu posso conceder
que esta noite fina assim
seja a mesma noite assu
que assobra Taquarassu!
Que seja a mesma noite densa
soturno enorme abajada
escondendo o sofrimento
dos brasileiros calados!
Mas fosse a noite maior
mais densa, mais abajada
mesmo assim seria fraca
e se deixaria varar
pela ternura que eu mando
voando com a força do vento
— Meu pensamento rasgando
o assombro da noite assu
vai velar sono cansado
dos brasileiros calados...
O sono tão sossegado
de um brasileiro cansado
dormindo na noite assu
que esmaga Taquarassu!
Da cidade outro poeta
quer a distância varar
pra ver o sono do irmão
seu descanso proteger!
Dorme teu sono José...
(...)
Meu pensamento voando
nesta noite fina assim
vai fugindo da cidade
desgarra sertão afora
pra vigiar bem de perto
o doce sono sossegado
dum brasileiro calado!
Te beijo de leve nos olhos
te beijo de leve na face
te beijo o cabelo inteirinho
te beijo no coração...
Brasileiro sossegado
dorme teu sono calado...
Dorme teu sono José...
E me perdoa, meu Mano
se eu não posso cantar
cantos mansos pro teu sono!
Quem me dera, mas não posso!
Pois na noite da cidade
Só de pensar no teu sono,
as veias ficaram doendo
O corpo todo sem jeito
fiquei esquisito, palavra!
Coração no peito calado...
Que dor nos nervos senti
de não ter voz pra falar
(o coração no peito calado)
de não ter choro pra chorar
de palavra não achar,
dor(i)da boa sincera
como aquela comovida
achada por Mário de Andrade
(aquela tão comovida)
que acalantou de São Paulo
o brasileiro do Acre...
Te beijo o cabelo inteirinho
te beijo no coração...
Descansa na noite mansa
descansa, Mano, descansa...
1928
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/USP
NOTA: Mário de Andrade comenta esse poema em carta a Pedro Nava datada de 25 fev. 1928: "Gosto. Talvez um pouco possam ser sintetizadas, a idéia vai repetindo muito. Quanto a ser imitação, não é. É o mesmo ritmo de inspiração porém a citação inicial e o final justificam isso. (...) Quem acusasse você de plágio ou de aluno mostrava bobagem. O que tem de parecido nos dois poemas é consciente, sem pasticho nem plágio". Referência aos "Dois Poemas Acreanos" (I - Descobrimento; II - Acalanto do Seringueiro), do livro CLÃ DO JABUTI (1927), de Mário de Andrad
(Mário de Andrade - DESCOBRIMENTO)
Nem eu posso conceder
que esta noite fina assim
seja a mesma noite assu
que assobra Taquarassu!
Que seja a mesma noite densa
soturno enorme abajada
escondendo o sofrimento
dos brasileiros calados!
Mas fosse a noite maior
mais densa, mais abajada
mesmo assim seria fraca
e se deixaria varar
pela ternura que eu mando
voando com a força do vento
— Meu pensamento rasgando
o assombro da noite assu
vai velar sono cansado
dos brasileiros calados...
O sono tão sossegado
de um brasileiro cansado
dormindo na noite assu
que esmaga Taquarassu!
Da cidade outro poeta
quer a distância varar
pra ver o sono do irmão
seu descanso proteger!
Dorme teu sono José...
(...)
Meu pensamento voando
nesta noite fina assim
vai fugindo da cidade
desgarra sertão afora
pra vigiar bem de perto
o doce sono sossegado
dum brasileiro calado!
Te beijo de leve nos olhos
te beijo de leve na face
te beijo o cabelo inteirinho
te beijo no coração...
Brasileiro sossegado
dorme teu sono calado...
Dorme teu sono José...
E me perdoa, meu Mano
se eu não posso cantar
cantos mansos pro teu sono!
Quem me dera, mas não posso!
Pois na noite da cidade
Só de pensar no teu sono,
as veias ficaram doendo
O corpo todo sem jeito
fiquei esquisito, palavra!
Coração no peito calado...
Que dor nos nervos senti
de não ter voz pra falar
(o coração no peito calado)
de não ter choro pra chorar
de palavra não achar,
dor(i)da boa sincera
como aquela comovida
achada por Mário de Andrade
(aquela tão comovida)
que acalantou de São Paulo
o brasileiro do Acre...
Te beijo o cabelo inteirinho
te beijo no coração...
Descansa na noite mansa
descansa, Mano, descansa...
1928
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/USP
NOTA: Mário de Andrade comenta esse poema em carta a Pedro Nava datada de 25 fev. 1928: "Gosto. Talvez um pouco possam ser sintetizadas, a idéia vai repetindo muito. Quanto a ser imitação, não é. É o mesmo ritmo de inspiração porém a citação inicial e o final justificam isso. (...) Quem acusasse você de plágio ou de aluno mostrava bobagem. O que tem de parecido nos dois poemas é consciente, sem pasticho nem plágio". Referência aos "Dois Poemas Acreanos" (I - Descobrimento; II - Acalanto do Seringueiro), do livro CLÃ DO JABUTI (1927), de Mário de Andrad
1 811
Frei Francisco de São Carlos
Soneto [Nova forma, Senhor, nova figura
Nova forma, Senhor, nova figura
Estais à Paulicéia dando altiva
Já a vereda de escolhos mil nociva
Na planície oferece a formosura
Ali o triste templo da amargura
É dos olhos soberba perspectiva
Aqui marmórea fonte arroja esquiva
Em líquidos cristais a linfa pura
A gente de Mavorte que à defesa
Se destina, já tem terreno grato
De cômodo espaçoso na largueza
Mas quando não encante o aparato
Desses padrões perpétuos da grandeza
Em vós tem a cidade todo o ornato.
In: POETAS da Academia do Senado da Câmara de S. Paulo. Pref. Antônio Soares Amora. Notas Domingos Carvalho da Silva. São Paulo: Clube de Poesia, 1956. p.53-60. (Documentos, 3).
NOTA: Os versos "Aqui marmórea fonte arroja esquiva/Em líquidos cristais a linfa pura" são provavelmente uma referência ao Chafariz do Piques, mandado construir pelo governador Bernardo José de Loren
Estais à Paulicéia dando altiva
Já a vereda de escolhos mil nociva
Na planície oferece a formosura
Ali o triste templo da amargura
É dos olhos soberba perspectiva
Aqui marmórea fonte arroja esquiva
Em líquidos cristais a linfa pura
A gente de Mavorte que à defesa
Se destina, já tem terreno grato
De cômodo espaçoso na largueza
Mas quando não encante o aparato
Desses padrões perpétuos da grandeza
Em vós tem a cidade todo o ornato.
In: POETAS da Academia do Senado da Câmara de S. Paulo. Pref. Antônio Soares Amora. Notas Domingos Carvalho da Silva. São Paulo: Clube de Poesia, 1956. p.53-60. (Documentos, 3).
NOTA: Os versos "Aqui marmórea fonte arroja esquiva/Em líquidos cristais a linfa pura" são provavelmente uma referência ao Chafariz do Piques, mandado construir pelo governador Bernardo José de Loren
1 261
Pedro Nava
Noturno de Chopin
Eu fico todo bestificado olhando a lua
enquanto as mãos brasileiras de você
fazem fandango no Chopin
Tem uma voz gritando lá na rua:
Amendoim torrado
tá cabano tá no fim...
Coitado do Chopin! Tá acabando tá no fim...
Amor: a lua tá doce lá fora
o vento tá doce bulindo nas bananeiras
tá doce esse aroma das noites mineiras:
cheiro de gigilim manga-rosa jasmim.
Os olhos de você, amor...
O Chopin derretido tá maxixe
meloso
gostoso
(os olhos de você, amor...)
correndo que nem caldo
na calma da noite belo horizonte.
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/US
enquanto as mãos brasileiras de você
fazem fandango no Chopin
Tem uma voz gritando lá na rua:
Amendoim torrado
tá cabano tá no fim...
Coitado do Chopin! Tá acabando tá no fim...
Amor: a lua tá doce lá fora
o vento tá doce bulindo nas bananeiras
tá doce esse aroma das noites mineiras:
cheiro de gigilim manga-rosa jasmim.
Os olhos de você, amor...
O Chopin derretido tá maxixe
meloso
gostoso
(os olhos de você, amor...)
correndo que nem caldo
na calma da noite belo horizonte.
In: Pasta 72: Arquivo de Mário de Andrade. Instituto de Estudos Brasileiros - IEB/US
1 588
Nelson Ascher
João Cabral de Melo Neto
Asperamente, na acepção
exata não de ainda úmida
pedra, mas de verso sem metro
fácil nem rima de costume,
João fala concreto armado
até os dentes cuja acústica
fere o ouvido não como lâmina
de faca, mas palavra justa,
num ritmo todo arestas onde
sopesa a flor durante a faina
para agarrar à unha o touro,
trazê-lo ao Recife, de Espanha,
pois, apto a despertar sentidos
dormentes, torná-los intensos,
raio X ele ensina aos cinco
e, ademais, à mudez, silêncio.
In: ASCHER, Nelson. O sonho da razão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993. p.7
exata não de ainda úmida
pedra, mas de verso sem metro
fácil nem rima de costume,
João fala concreto armado
até os dentes cuja acústica
fere o ouvido não como lâmina
de faca, mas palavra justa,
num ritmo todo arestas onde
sopesa a flor durante a faina
para agarrar à unha o touro,
trazê-lo ao Recife, de Espanha,
pois, apto a despertar sentidos
dormentes, torná-los intensos,
raio X ele ensina aos cinco
e, ademais, à mudez, silêncio.
In: ASCHER, Nelson. O sonho da razão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993. p.7
980
Odylo Costa Filho
São Roque e os Cachorros
Caminhou São Roque
a pé, pelos morros
e várzeas da Terra,
juntando os cachorros
já velhos ou doentes,
sem osso e sem lar,
para oferecer-lhes
um grande jantar.
São Pedro zangou-se:
— "Isso não se faz!
Jantar de cachorro
no Céu? É demais!"
Jesus disse: — "Roque
é quem tem razão."
Pedro riu-se, e logo
deu-lhes vinho e pão.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.2
a pé, pelos morros
e várzeas da Terra,
juntando os cachorros
já velhos ou doentes,
sem osso e sem lar,
para oferecer-lhes
um grande jantar.
São Pedro zangou-se:
— "Isso não se faz!
Jantar de cachorro
no Céu? É demais!"
Jesus disse: — "Roque
é quem tem razão."
Pedro riu-se, e logo
deu-lhes vinho e pão.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.2
1 390
Raul Pompéia
Indústria
Que la fournaise flambe, et que les lourds marteaux,
Nuit et jour et sans fin, tourmentent les métaux!
A. BRIZEUX.
O homem bate-se contra o mundo. Cada força viva é um inimigo.
À parte a luta das paixões, trava-se na sociedade a batalha
perene das indústrias.
Combate-se contra o tempo que atrasa e contra a distância que
afasta.
A locomotiva atravessa as planícies como um turbilhão de ferro; a
rede nervosa da telegrafia cria a simultaneidade e a solidariedade
na face do globo; o steamer suprime o oceano; o milagre de
Guttemberg precipita em tempestade as idéias, reduzindo o esforço
cerebral; exacerbam-se os ímpetos produtores do solo, com a energia
vertiginosa das máquinas. Vibram as cidades ao rumor homérico das
caldeiras. Cada dia, o combate ganha uma nova feição e o ventre
fecundo, o ventre inexaurível das forjas, para as novas pugnas,
produz novas armas.
Bendita febre industrial!
Bendito o operário, mártir das indústrias!
Estenda-se por todo o firmamento o fumo que paira sobre as
cidades, vele aos nossos olhos os abismos da amplidão e os signos
impenetráveis das esferas.
Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série III - O Ventre.
In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. .4, p.69. (Vera Cruz, 324c
Nuit et jour et sans fin, tourmentent les métaux!
A. BRIZEUX.
O homem bate-se contra o mundo. Cada força viva é um inimigo.
À parte a luta das paixões, trava-se na sociedade a batalha
perene das indústrias.
Combate-se contra o tempo que atrasa e contra a distância que
afasta.
A locomotiva atravessa as planícies como um turbilhão de ferro; a
rede nervosa da telegrafia cria a simultaneidade e a solidariedade
na face do globo; o steamer suprime o oceano; o milagre de
Guttemberg precipita em tempestade as idéias, reduzindo o esforço
cerebral; exacerbam-se os ímpetos produtores do solo, com a energia
vertiginosa das máquinas. Vibram as cidades ao rumor homérico das
caldeiras. Cada dia, o combate ganha uma nova feição e o ventre
fecundo, o ventre inexaurível das forjas, para as novas pugnas,
produz novas armas.
Bendita febre industrial!
Bendito o operário, mártir das indústrias!
Estenda-se por todo o firmamento o fumo que paira sobre as
cidades, vele aos nossos olhos os abismos da amplidão e os signos
impenetráveis das esferas.
Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série III - O Ventre.
In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. .4, p.69. (Vera Cruz, 324c
2 320
Raul Pompéia
Indústria
Que la fournaise flambe, et que les lourds marteaux,
Nuit et jour et sans fin, tourmentent les métaux!
A. BRIZEUX.
O homem bate-se contra o mundo. Cada força viva é um inimigo.
À parte a luta das paixões, trava-se na sociedade a batalha
perene das indústrias.
Combate-se contra o tempo que atrasa e contra a distância que
afasta.
A locomotiva atravessa as planícies como um turbilhão de ferro; a
rede nervosa da telegrafia cria a simultaneidade e a solidariedade
na face do globo; o steamer suprime o oceano; o milagre de
Guttemberg precipita em tempestade as idéias, reduzindo o esforço
cerebral; exacerbam-se os ímpetos produtores do solo, com a energia
vertiginosa das máquinas. Vibram as cidades ao rumor homérico das
caldeiras. Cada dia, o combate ganha uma nova feição e o ventre
fecundo, o ventre inexaurível das forjas, para as novas pugnas,
produz novas armas.
Bendita febre industrial!
Bendito o operário, mártir das indústrias!
Estenda-se por todo o firmamento o fumo que paira sobre as
cidades, vele aos nossos olhos os abismos da amplidão e os signos
impenetráveis das esferas.
Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série III - O Ventre.
In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. .4, p.69. (Vera Cruz, 324c
Nuit et jour et sans fin, tourmentent les métaux!
A. BRIZEUX.
O homem bate-se contra o mundo. Cada força viva é um inimigo.
À parte a luta das paixões, trava-se na sociedade a batalha
perene das indústrias.
Combate-se contra o tempo que atrasa e contra a distância que
afasta.
A locomotiva atravessa as planícies como um turbilhão de ferro; a
rede nervosa da telegrafia cria a simultaneidade e a solidariedade
na face do globo; o steamer suprime o oceano; o milagre de
Guttemberg precipita em tempestade as idéias, reduzindo o esforço
cerebral; exacerbam-se os ímpetos produtores do solo, com a energia
vertiginosa das máquinas. Vibram as cidades ao rumor homérico das
caldeiras. Cada dia, o combate ganha uma nova feição e o ventre
fecundo, o ventre inexaurível das forjas, para as novas pugnas,
produz novas armas.
Bendita febre industrial!
Bendito o operário, mártir das indústrias!
Estenda-se por todo o firmamento o fumo que paira sobre as
cidades, vele aos nossos olhos os abismos da amplidão e os signos
impenetráveis das esferas.
Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série III - O Ventre.
In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. .4, p.69. (Vera Cruz, 324c
2 320
Raul Pompéia
Indústria
Que la fournaise flambe, et que les lourds marteaux,
Nuit et jour et sans fin, tourmentent les métaux!
A. BRIZEUX.
O homem bate-se contra o mundo. Cada força viva é um inimigo.
À parte a luta das paixões, trava-se na sociedade a batalha
perene das indústrias.
Combate-se contra o tempo que atrasa e contra a distância que
afasta.
A locomotiva atravessa as planícies como um turbilhão de ferro; a
rede nervosa da telegrafia cria a simultaneidade e a solidariedade
na face do globo; o steamer suprime o oceano; o milagre de
Guttemberg precipita em tempestade as idéias, reduzindo o esforço
cerebral; exacerbam-se os ímpetos produtores do solo, com a energia
vertiginosa das máquinas. Vibram as cidades ao rumor homérico das
caldeiras. Cada dia, o combate ganha uma nova feição e o ventre
fecundo, o ventre inexaurível das forjas, para as novas pugnas,
produz novas armas.
Bendita febre industrial!
Bendito o operário, mártir das indústrias!
Estenda-se por todo o firmamento o fumo que paira sobre as
cidades, vele aos nossos olhos os abismos da amplidão e os signos
impenetráveis das esferas.
Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série III - O Ventre.
In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. .4, p.69. (Vera Cruz, 324c
Nuit et jour et sans fin, tourmentent les métaux!
A. BRIZEUX.
O homem bate-se contra o mundo. Cada força viva é um inimigo.
À parte a luta das paixões, trava-se na sociedade a batalha
perene das indústrias.
Combate-se contra o tempo que atrasa e contra a distância que
afasta.
A locomotiva atravessa as planícies como um turbilhão de ferro; a
rede nervosa da telegrafia cria a simultaneidade e a solidariedade
na face do globo; o steamer suprime o oceano; o milagre de
Guttemberg precipita em tempestade as idéias, reduzindo o esforço
cerebral; exacerbam-se os ímpetos produtores do solo, com a energia
vertiginosa das máquinas. Vibram as cidades ao rumor homérico das
caldeiras. Cada dia, o combate ganha uma nova feição e o ventre
fecundo, o ventre inexaurível das forjas, para as novas pugnas,
produz novas armas.
Bendita febre industrial!
Bendito o operário, mártir das indústrias!
Estenda-se por todo o firmamento o fumo que paira sobre as
cidades, vele aos nossos olhos os abismos da amplidão e os signos
impenetráveis das esferas.
Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série III - O Ventre.
In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. .4, p.69. (Vera Cruz, 324c
2 320
Luís Delfino
A Saída
O galo canta: o ar, que freme, é quente:
Desce ruflando pelo vale o vento;
Há no horizonte os rolos de uma enchente
Do mar, que invade e doura o firmamento.
Toca a sineta; vem saindo a gente
Da senzala, num jorro sonolento:
Depois da reza, a passo tardo e lento,
Enxada ao ombro, dois a dois em frente,
Ao eito vão pelo carreiro aberto:
O mato cheira, rumorejam ninhos
No cafezal, de branca flor coberto...
Há um grande chilrar de passarinhos...
E enquanto o escravo vai... segue-o de perto
A risada da luz pelos caminhos...
Publicado no livro Rosas negras (1938).
In: DELFINO, Luiz. Os melhores poemas. Sel. Lauro Junkes. São Paulo: Global, 1991. p.74. (Os Melhores poemas, 23
Desce ruflando pelo vale o vento;
Há no horizonte os rolos de uma enchente
Do mar, que invade e doura o firmamento.
Toca a sineta; vem saindo a gente
Da senzala, num jorro sonolento:
Depois da reza, a passo tardo e lento,
Enxada ao ombro, dois a dois em frente,
Ao eito vão pelo carreiro aberto:
O mato cheira, rumorejam ninhos
No cafezal, de branca flor coberto...
Há um grande chilrar de passarinhos...
E enquanto o escravo vai... segue-o de perto
A risada da luz pelos caminhos...
Publicado no livro Rosas negras (1938).
In: DELFINO, Luiz. Os melhores poemas. Sel. Lauro Junkes. São Paulo: Global, 1991. p.74. (Os Melhores poemas, 23
1 771
Frei Francisco de São Carlos
Canto VIII [Trabalha a mole enfim: giram as rodas
(...)
Trabalha a mole enfim: giram as rodas,
Gemem com grão fragor as peças todas:
Cai com ruído a água, que se encana:
Volteia o rolo, estala a doce cana:
Ferve a gente, parece uma anarquia:
Mas toda esta moção causa alegria.
Na grão fornalha já se a flama agita,
Cuja boca do Averno à boca imita.
E nos vasos enormes borbulhando
Ferve o nectáreo sumo, evaporando
Grato aroma sutil, e tão ingente,
Que perfuma dos campos o ambiente.
Corre o áureo licor, qual o tesoiro
Melífluo, que correu na idade d'oiro
Das colméias na terra, e açucarado,
Ou em níveos pedaços coagulado,
E no rico déser, festim altivo,
Em várias confeições grato incentivo.
Soam longe as agrestes cantilenas
Nas madrugadas mortas, e serenas.
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.24
Trabalha a mole enfim: giram as rodas,
Gemem com grão fragor as peças todas:
Cai com ruído a água, que se encana:
Volteia o rolo, estala a doce cana:
Ferve a gente, parece uma anarquia:
Mas toda esta moção causa alegria.
Na grão fornalha já se a flama agita,
Cuja boca do Averno à boca imita.
E nos vasos enormes borbulhando
Ferve o nectáreo sumo, evaporando
Grato aroma sutil, e tão ingente,
Que perfuma dos campos o ambiente.
Corre o áureo licor, qual o tesoiro
Melífluo, que correu na idade d'oiro
Das colméias na terra, e açucarado,
Ou em níveos pedaços coagulado,
E no rico déser, festim altivo,
Em várias confeições grato incentivo.
Soam longe as agrestes cantilenas
Nas madrugadas mortas, e serenas.
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.24
1 192
Frei Francisco de São Carlos
Canto VIII [Trabalha a mole enfim: giram as rodas
(...)
Trabalha a mole enfim: giram as rodas,
Gemem com grão fragor as peças todas:
Cai com ruído a água, que se encana:
Volteia o rolo, estala a doce cana:
Ferve a gente, parece uma anarquia:
Mas toda esta moção causa alegria.
Na grão fornalha já se a flama agita,
Cuja boca do Averno à boca imita.
E nos vasos enormes borbulhando
Ferve o nectáreo sumo, evaporando
Grato aroma sutil, e tão ingente,
Que perfuma dos campos o ambiente.
Corre o áureo licor, qual o tesoiro
Melífluo, que correu na idade d'oiro
Das colméias na terra, e açucarado,
Ou em níveos pedaços coagulado,
E no rico déser, festim altivo,
Em várias confeições grato incentivo.
Soam longe as agrestes cantilenas
Nas madrugadas mortas, e serenas.
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.24
Trabalha a mole enfim: giram as rodas,
Gemem com grão fragor as peças todas:
Cai com ruído a água, que se encana:
Volteia o rolo, estala a doce cana:
Ferve a gente, parece uma anarquia:
Mas toda esta moção causa alegria.
Na grão fornalha já se a flama agita,
Cuja boca do Averno à boca imita.
E nos vasos enormes borbulhando
Ferve o nectáreo sumo, evaporando
Grato aroma sutil, e tão ingente,
Que perfuma dos campos o ambiente.
Corre o áureo licor, qual o tesoiro
Melífluo, que correu na idade d'oiro
Das colméias na terra, e açucarado,
Ou em níveos pedaços coagulado,
E no rico déser, festim altivo,
Em várias confeições grato incentivo.
Soam longe as agrestes cantilenas
Nas madrugadas mortas, e serenas.
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: SÃO CARLOS, Frei Francisco de. A Assunção: poema composto em honra da Santa Virgem, por Frei Francisco de São Carlos, franciscano reformado da província da Conceição do Brasil e natural do Rio de Janeiro. Pref. Fernandes Pinheiro. Rio de Janeiro: Livr. de B. L. Garnier, 1862. p.24
1 192
Régis Bonvicino
O Tempo
O tempo foi de encontro
ao galho da quaresmeira
podre, no chão,
depois da chuva
Folhas murchas
de outra árvore
encurvadas pelo calor
como mãos fechadas
Menos vivas,
agora, as cores da estrelitzia
O portão da casa,
não lembra seu primeiro dia
Um buraco
exauriu
um pedaço de asfalto
O vermelho,
do automóvel na esquina
Os azuis em tons,
na fachada do edifício,
quase invisíveis
Grafites coloridos nos muros,
tampouco
poupados pelo tempo,
tornaram-se ilegíveis
Poema integrante da série Um.
In: BONVICINO, Régis. Outros poemas, 1990/1992. São Paulo: Iluminuras, 1993
ao galho da quaresmeira
podre, no chão,
depois da chuva
Folhas murchas
de outra árvore
encurvadas pelo calor
como mãos fechadas
Menos vivas,
agora, as cores da estrelitzia
O portão da casa,
não lembra seu primeiro dia
Um buraco
exauriu
um pedaço de asfalto
O vermelho,
do automóvel na esquina
Os azuis em tons,
na fachada do edifício,
quase invisíveis
Grafites coloridos nos muros,
tampouco
poupados pelo tempo,
tornaram-se ilegíveis
Poema integrante da série Um.
In: BONVICINO, Régis. Outros poemas, 1990/1992. São Paulo: Iluminuras, 1993
1 359
Frei Francisco de São Carlos
Canto VI [Voltando ao Austro, os bosques senhoreia
(...)
Voltando ao Austro, os bosques senhoreia
A ilustre povoação de Paulicéia,
Aprazível lugar, cuja campanha
O Tamandaaí cercando banha,
Cujos alunos, fortes e briosos
Rios transpondo, montes escabrosos,
Átropos insultando e os seus perigos,
Sem rotina segura, sem abrigos,
De Panteras e Serpes assaltados,
E do indígena bruto; além cansados,
Darão com as terras pingues e abundantes
Das veias d'oiro ricas, e diamantes.
Aqueles que forrando o peito duro
De triplicado bronze, o mar escuro
De Hele na aventureira faia arando,
Voltam de Colcos ledos, transportando
D'oiro a lã; não disputem as conquistas,
Que hão de tentar os ínclitos Paulistas.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Frei Francisco de São Carlos. In: ---. Antologia dos poetas brasileiros da Fase Colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.413-414. (Textos, 2
Voltando ao Austro, os bosques senhoreia
A ilustre povoação de Paulicéia,
Aprazível lugar, cuja campanha
O Tamandaaí cercando banha,
Cujos alunos, fortes e briosos
Rios transpondo, montes escabrosos,
Átropos insultando e os seus perigos,
Sem rotina segura, sem abrigos,
De Panteras e Serpes assaltados,
E do indígena bruto; além cansados,
Darão com as terras pingues e abundantes
Das veias d'oiro ricas, e diamantes.
Aqueles que forrando o peito duro
De triplicado bronze, o mar escuro
De Hele na aventureira faia arando,
Voltam de Colcos ledos, transportando
D'oiro a lã; não disputem as conquistas,
Que hão de tentar os ínclitos Paulistas.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Frei Francisco de São Carlos. In: ---. Antologia dos poetas brasileiros da Fase Colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.413-414. (Textos, 2
1 137
Frei Francisco de São Carlos
Canto VI [Voltando ao Austro, os bosques senhoreia
(...)
Voltando ao Austro, os bosques senhoreia
A ilustre povoação de Paulicéia,
Aprazível lugar, cuja campanha
O Tamandaaí cercando banha,
Cujos alunos, fortes e briosos
Rios transpondo, montes escabrosos,
Átropos insultando e os seus perigos,
Sem rotina segura, sem abrigos,
De Panteras e Serpes assaltados,
E do indígena bruto; além cansados,
Darão com as terras pingues e abundantes
Das veias d'oiro ricas, e diamantes.
Aqueles que forrando o peito duro
De triplicado bronze, o mar escuro
De Hele na aventureira faia arando,
Voltam de Colcos ledos, transportando
D'oiro a lã; não disputem as conquistas,
Que hão de tentar os ínclitos Paulistas.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Frei Francisco de São Carlos. In: ---. Antologia dos poetas brasileiros da Fase Colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.413-414. (Textos, 2
Voltando ao Austro, os bosques senhoreia
A ilustre povoação de Paulicéia,
Aprazível lugar, cuja campanha
O Tamandaaí cercando banha,
Cujos alunos, fortes e briosos
Rios transpondo, montes escabrosos,
Átropos insultando e os seus perigos,
Sem rotina segura, sem abrigos,
De Panteras e Serpes assaltados,
E do indígena bruto; além cansados,
Darão com as terras pingues e abundantes
Das veias d'oiro ricas, e diamantes.
Aqueles que forrando o peito duro
De triplicado bronze, o mar escuro
De Hele na aventureira faia arando,
Voltam de Colcos ledos, transportando
D'oiro a lã; não disputem as conquistas,
Que hão de tentar os ínclitos Paulistas.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Frei Francisco de São Carlos. In: ---. Antologia dos poetas brasileiros da Fase Colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.413-414. (Textos, 2
1 137
Frei Francisco de São Carlos
Canto VI [Voltando ao Austro, os bosques senhoreia
(...)
Voltando ao Austro, os bosques senhoreia
A ilustre povoação de Paulicéia,
Aprazível lugar, cuja campanha
O Tamandaaí cercando banha,
Cujos alunos, fortes e briosos
Rios transpondo, montes escabrosos,
Átropos insultando e os seus perigos,
Sem rotina segura, sem abrigos,
De Panteras e Serpes assaltados,
E do indígena bruto; além cansados,
Darão com as terras pingues e abundantes
Das veias d'oiro ricas, e diamantes.
Aqueles que forrando o peito duro
De triplicado bronze, o mar escuro
De Hele na aventureira faia arando,
Voltam de Colcos ledos, transportando
D'oiro a lã; não disputem as conquistas,
Que hão de tentar os ínclitos Paulistas.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Frei Francisco de São Carlos. In: ---. Antologia dos poetas brasileiros da Fase Colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.413-414. (Textos, 2
Voltando ao Austro, os bosques senhoreia
A ilustre povoação de Paulicéia,
Aprazível lugar, cuja campanha
O Tamandaaí cercando banha,
Cujos alunos, fortes e briosos
Rios transpondo, montes escabrosos,
Átropos insultando e os seus perigos,
Sem rotina segura, sem abrigos,
De Panteras e Serpes assaltados,
E do indígena bruto; além cansados,
Darão com as terras pingues e abundantes
Das veias d'oiro ricas, e diamantes.
Aqueles que forrando o peito duro
De triplicado bronze, o mar escuro
De Hele na aventureira faia arando,
Voltam de Colcos ledos, transportando
D'oiro a lã; não disputem as conquistas,
Que hão de tentar os ínclitos Paulistas.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Frei Francisco de São Carlos. In: ---. Antologia dos poetas brasileiros da Fase Colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.413-414. (Textos, 2
1 137
Odylo Costa Filho
Os Guarás
Cada evangelista
com seu bicho foi
— um só! — para o Céu:
leão, águia ou boi.
Mas com outros santos
— Luís e Damião,
Vicente e Francisco —
veio a multidão
de pobres e doentes
por entre os joelhos:
e com o santo Anchieta
os guarás vermelhos
que o Sol lhe taparam
na canoa um dia:
contra a brasa ardente
foram brasa fria...
In: COSTA, Filho, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.2
com seu bicho foi
— um só! — para o Céu:
leão, águia ou boi.
Mas com outros santos
— Luís e Damião,
Vicente e Francisco —
veio a multidão
de pobres e doentes
por entre os joelhos:
e com o santo Anchieta
os guarás vermelhos
que o Sol lhe taparam
na canoa um dia:
contra a brasa ardente
foram brasa fria...
In: COSTA, Filho, Odylo. Os bichos no céu. Il. Nazareth Costa. 2.ed. Rio de Janeiro: Memórias Futuras, 1985. p.2
1 324
Pedro Nava
Ventania
Pro Mário
O vento veio maluco lá do alto do Bonfim
e veio chorando da tristura do cemitério.
Zuniu na praça do mercado
assuviou as mulatas avenida do comércio
e mexeu na saia delas.
Arrancou folha das árvores
poeira sungou do chão
depois virou
soprou
correu
danou
e entrou feito uma carga na avenida Afonso Pena,
O obelisco cortou ele pelo meio
mas ele foi avuando
e os fios da C.E.V.U. como cordas de viola
vibraram dum som longo
que cobriu Belo Horizonte feito um lamento.
O vento passou desmandado no Cruzeiro
saiu pro campo dobrou a mata
mas de repente
sua disparada pára na parede Serra do Curral
e o bicho stopa mas sapeca no morro um sopapo
que estrala que nem ginipapo
que mão raivosa
chispasse num muro curo..
Co-nhe-ceu papudo?
1926
In: REVISTA VERDE, Cataguases, ano 1, n.3, p.23, nov. 1927
NOTA: Mário de Andrade comenta esse poema em carta a Pedro Nava datada de 19 mar. 1926: "Essa poesia me entusiasmou de verdade. Acho linda e das milhores coisas que você tem me mandado. Além da boniteza real da poesia acho que você está empregando com um talento firme o abrasileiramento da sua expressão. Discordo de certos processos, principalmente 'O obelisco cortou ele pelo meio'. Acho que você deve matutar mais sobre isso
O vento veio maluco lá do alto do Bonfim
e veio chorando da tristura do cemitério.
Zuniu na praça do mercado
assuviou as mulatas avenida do comércio
e mexeu na saia delas.
Arrancou folha das árvores
poeira sungou do chão
depois virou
soprou
correu
danou
e entrou feito uma carga na avenida Afonso Pena,
O obelisco cortou ele pelo meio
mas ele foi avuando
e os fios da C.E.V.U. como cordas de viola
vibraram dum som longo
que cobriu Belo Horizonte feito um lamento.
O vento passou desmandado no Cruzeiro
saiu pro campo dobrou a mata
mas de repente
sua disparada pára na parede Serra do Curral
e o bicho stopa mas sapeca no morro um sopapo
que estrala que nem ginipapo
que mão raivosa
chispasse num muro curo..
Co-nhe-ceu papudo?
1926
In: REVISTA VERDE, Cataguases, ano 1, n.3, p.23, nov. 1927
NOTA: Mário de Andrade comenta esse poema em carta a Pedro Nava datada de 19 mar. 1926: "Essa poesia me entusiasmou de verdade. Acho linda e das milhores coisas que você tem me mandado. Além da boniteza real da poesia acho que você está empregando com um talento firme o abrasileiramento da sua expressão. Discordo de certos processos, principalmente 'O obelisco cortou ele pelo meio'. Acho que você deve matutar mais sobre isso
1 907
D. Pedro II
III - A Idéia Consoladora
Vendo as ondas correr para o ocidente,
Corre mais do que elas a saudade,
Mas espero que a minha enfermidade
O mesmo me consinta brevemente.
Com saúde mais lustre dar à mente
É cousa que enobrece a humanidade;
Contudo agora o paga a amizade
Da pátria, e da família, cruelmente;
Mas consola-me a idéia, — que mais forte
Lhes voltarei para melhor amá-los,
Pois mais anos assim até a morte
Eu mostrarei que sempre quis ligá-los
Na feliz, e também na infeliz sorte
Para, amando-os, ainda consolá-los.
Bordo do Gironde, 4 de Julho de 1887.
In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Poesias Autênticas
Corre mais do que elas a saudade,
Mas espero que a minha enfermidade
O mesmo me consinta brevemente.
Com saúde mais lustre dar à mente
É cousa que enobrece a humanidade;
Contudo agora o paga a amizade
Da pátria, e da família, cruelmente;
Mas consola-me a idéia, — que mais forte
Lhes voltarei para melhor amá-los,
Pois mais anos assim até a morte
Eu mostrarei que sempre quis ligá-los
Na feliz, e também na infeliz sorte
Para, amando-os, ainda consolá-los.
Bordo do Gironde, 4 de Julho de 1887.
In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Poesias Autênticas
1 534
Régis Bonvicino
Mário Carlos Virardo
mário carlos virardo
chamado mário pintor
não pintava para o deleite burguês
declarava
no cartão de visitas
o cgc
a calça manchada de tinta
a camisa xadrez
mais para aquele velho volpi
do que para quem vive à cata de freguês
(vaquinha de presépio
galerias nova york milão paris
o tipo que quando fala
não fala com o próprio nariz)
pintava portas que se abriam
janelas
o dia a dia
onde o óleo se mistura com os olhos da vida
vivia na vila olímpia
subdistrito do itaim
exalava no cheiro da roupa
alma limpa de solidão boa
não eram
investimentos em dólares
mas quadros
que permanecem na memória
como pai ou mãe
In: BONVICINO, Régis. Más companhias: poesia, 1983/1986. São Paulo: Olavobrás, 1987
chamado mário pintor
não pintava para o deleite burguês
declarava
no cartão de visitas
o cgc
a calça manchada de tinta
a camisa xadrez
mais para aquele velho volpi
do que para quem vive à cata de freguês
(vaquinha de presépio
galerias nova york milão paris
o tipo que quando fala
não fala com o próprio nariz)
pintava portas que se abriam
janelas
o dia a dia
onde o óleo se mistura com os olhos da vida
vivia na vila olímpia
subdistrito do itaim
exalava no cheiro da roupa
alma limpa de solidão boa
não eram
investimentos em dólares
mas quadros
que permanecem na memória
como pai ou mãe
In: BONVICINO, Régis. Más companhias: poesia, 1983/1986. São Paulo: Olavobrás, 1987
1 391
Régis Bonvicino
Mário Carlos Virardo
mário carlos virardo
chamado mário pintor
não pintava para o deleite burguês
declarava
no cartão de visitas
o cgc
a calça manchada de tinta
a camisa xadrez
mais para aquele velho volpi
do que para quem vive à cata de freguês
(vaquinha de presépio
galerias nova york milão paris
o tipo que quando fala
não fala com o próprio nariz)
pintava portas que se abriam
janelas
o dia a dia
onde o óleo se mistura com os olhos da vida
vivia na vila olímpia
subdistrito do itaim
exalava no cheiro da roupa
alma limpa de solidão boa
não eram
investimentos em dólares
mas quadros
que permanecem na memória
como pai ou mãe
In: BONVICINO, Régis. Más companhias: poesia, 1983/1986. São Paulo: Olavobrás, 1987
chamado mário pintor
não pintava para o deleite burguês
declarava
no cartão de visitas
o cgc
a calça manchada de tinta
a camisa xadrez
mais para aquele velho volpi
do que para quem vive à cata de freguês
(vaquinha de presépio
galerias nova york milão paris
o tipo que quando fala
não fala com o próprio nariz)
pintava portas que se abriam
janelas
o dia a dia
onde o óleo se mistura com os olhos da vida
vivia na vila olímpia
subdistrito do itaim
exalava no cheiro da roupa
alma limpa de solidão boa
não eram
investimentos em dólares
mas quadros
que permanecem na memória
como pai ou mãe
In: BONVICINO, Régis. Más companhias: poesia, 1983/1986. São Paulo: Olavobrás, 1987
1 391