Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Tobias Pinheiro
O Rio
Ele parece mais um boi cansado,
desses que — ó vida — encantas e abençoas;
tornou-se grande para as coisas boas,
é o rio concebido sem pecado.
Em suas margens, de um e de outro lado,
poetas se irmanam lhe tecendo loas...
E ele passa com balsas e canoas,
dando mais vida à vida consagrado.
A matar fome e sede, aqui e ali,
lá se vai ele como um pioneiro,
unindo o Maranhão ao Piauí.
É o Parnaíba — o Rio da Saudade,
doce consolação no desespero,
Boa-Esperança da posteridade.
desses que — ó vida — encantas e abençoas;
tornou-se grande para as coisas boas,
é o rio concebido sem pecado.
Em suas margens, de um e de outro lado,
poetas se irmanam lhe tecendo loas...
E ele passa com balsas e canoas,
dando mais vida à vida consagrado.
A matar fome e sede, aqui e ali,
lá se vai ele como um pioneiro,
unindo o Maranhão ao Piauí.
É o Parnaíba — o Rio da Saudade,
doce consolação no desespero,
Boa-Esperança da posteridade.
881
Rogério Bessa
Do Canto VI:
Ao Redor do Homem:
A Ilha Busca da Síntese, Sua Dialética
diariamente o homem
caminha para a certeza,
quando eventualidades
não o tomem de surpresa.
homem que faz da vida
o seu surreal panar
não se nutre de ambrosia,
mas de carrapicho e urtiga.
o homem vive a sua viagem,
faz seu sonho desilusão,
melodia suas exéquias
na ânsia busca de pão.
A Ilha Busca da Síntese, Sua Dialética
diariamente o homem
caminha para a certeza,
quando eventualidades
não o tomem de surpresa.
homem que faz da vida
o seu surreal panar
não se nutre de ambrosia,
mas de carrapicho e urtiga.
o homem vive a sua viagem,
faz seu sonho desilusão,
melodia suas exéquias
na ânsia busca de pão.
876
Sânzio de Azevedo
Se Procuro
Para José Valdivino
Se procuro no cérebro as imagens
que em meu olhar, há tempos, embebi,
ouço o ranger de dentes de engrenagens
a triburar os sonhos que perdi...
O que é que vim fazer nestas paragens?
Que tempestade me arrojou aqui?
Por que não me lancei noutras viagens
Já que deixei a terra onde nasci?
Tive a ambição dos nômades nos olhos!
Hoje, nem sei, cercado por escolhos,
que tempestade me arrojou aqui!
E vivo agora assim, perdido e absorto,
entre a saudade do primeiro porto
e a tentação das terras que não vi!
Se procuro no cérebro as imagens
que em meu olhar, há tempos, embebi,
ouço o ranger de dentes de engrenagens
a triburar os sonhos que perdi...
O que é que vim fazer nestas paragens?
Que tempestade me arrojou aqui?
Por que não me lancei noutras viagens
Já que deixei a terra onde nasci?
Tive a ambição dos nômades nos olhos!
Hoje, nem sei, cercado por escolhos,
que tempestade me arrojou aqui!
E vivo agora assim, perdido e absorto,
entre a saudade do primeiro porto
e a tentação das terras que não vi!
1 081
V. de Araújo
Menino de Rua
Em flagrante denúncia,
aquela criança sem teto,
sem nome, sem pai...
com saltos mortais
escreve sua história,
enquanto banha despida
nas águas poluídas
das fontes luminosas.
aquela criança sem teto,
sem nome, sem pai...
com saltos mortais
escreve sua história,
enquanto banha despida
nas águas poluídas
das fontes luminosas.
844
Rogério Bessa
Memórias da Cidade
De São Sebastião do Rio de Janeiro
uma cidade aos pedaços:
um trecho aqui, outro lá,
impossíveis de mapear
na memória adventícia.
uma cidade aos pedaços:
viadutos estendidos,
curvos e bem retesados
e suspensos sobre rios
invisíveis, que desembocam
em nada, mas que vez por outra
dão com túneis que os engolem
na embocadura dos morros.
uma cidade debrum:
maritimamente orlada,
Flamengo, Botafogo etc.
imbricando-se em toda a volta.
impossível saber de cor
essa estranha geografia,
cujos pedaços só os mapas
seguramente memorizam.
uma cidade aos pedaços:
um trecho aqui, outro lá,
impossíveis de mapear
na memória adventícia.
uma cidade aos pedaços:
viadutos estendidos,
curvos e bem retesados
e suspensos sobre rios
invisíveis, que desembocam
em nada, mas que vez por outra
dão com túneis que os engolem
na embocadura dos morros.
uma cidade debrum:
maritimamente orlada,
Flamengo, Botafogo etc.
imbricando-se em toda a volta.
impossível saber de cor
essa estranha geografia,
cujos pedaços só os mapas
seguramente memorizam.
845
Rosalina Coelho Lisboa
S Luís
Na caravela real, que o mar verde balança,
Entre adeuses febris da multidão em terra,
E êneos choques casuais de petrechos de guerra,
Embarca a fina flor da nobreza de França.
O velame se enfuna a um vento de bonança,
E essa legião de heróis, que o destino desterra,
Na ambição de lutar e de vencer, encerra
Em páreas e troféus a guerreira esperança.
Na fé, que lhe enche o olhar e lhe ilumina o aspeito,
Um homem sobressai de soberano porte;
Traz da cruz, na loriga, o símbolo perfeito:
— É el-rei S. Luís, que vai, abroquelado e forte,
O orgulho à fronte, o gládio à mão, o escudo ao peito,
Cavaleiro de Deus, à conquista da morte!
Entre adeuses febris da multidão em terra,
E êneos choques casuais de petrechos de guerra,
Embarca a fina flor da nobreza de França.
O velame se enfuna a um vento de bonança,
E essa legião de heróis, que o destino desterra,
Na ambição de lutar e de vencer, encerra
Em páreas e troféus a guerreira esperança.
Na fé, que lhe enche o olhar e lhe ilumina o aspeito,
Um homem sobressai de soberano porte;
Traz da cruz, na loriga, o símbolo perfeito:
— É el-rei S. Luís, que vai, abroquelado e forte,
O orgulho à fronte, o gládio à mão, o escudo ao peito,
Cavaleiro de Deus, à conquista da morte!
485
Renato Castelo Branco
Brasil
Não te verei, Brasil,
a grande pátria dos trópicos.
Não te verei, remido,
igualares o sonho
dos teus artistas e dos teus poetas.
Não te verei
abençoado por teus filhos,
Canaã prometida,
terra que mana leite e mel.
Mas estarei presente à tua glória
no sangue dos meus filhos
e dos netos dos meus netos.
a grande pátria dos trópicos.
Não te verei, remido,
igualares o sonho
dos teus artistas e dos teus poetas.
Não te verei
abençoado por teus filhos,
Canaã prometida,
terra que mana leite e mel.
Mas estarei presente à tua glória
no sangue dos meus filhos
e dos netos dos meus netos.
1 061
Ricardo Gonçalves
O Batuque
Vagas constelações de pirilampos
Ponteiam de oiro a densa noite escura.
Há um trágico silêncio na espessura
Dos matagais e na amplidão dos campos.
O batuque dos negros apavora.
Anda o saci nas moitas, vagabundo,
E almas penadas, almas do outro mundo,
Passam gemendo pela noite em fora.
Só, no ranchinho de sapé coberto,
Encosto o ouvido à taipa esburacada,
E ouço um curiango que soluça, perto...
Lambe a fogueira os últimos gravetos,
E pela noite rola, magoada,
A cantiga nostálgica dos pretos.
Ponteiam de oiro a densa noite escura.
Há um trágico silêncio na espessura
Dos matagais e na amplidão dos campos.
O batuque dos negros apavora.
Anda o saci nas moitas, vagabundo,
E almas penadas, almas do outro mundo,
Passam gemendo pela noite em fora.
Só, no ranchinho de sapé coberto,
Encosto o ouvido à taipa esburacada,
E ouço um curiango que soluça, perto...
Lambe a fogueira os últimos gravetos,
E pela noite rola, magoada,
A cantiga nostálgica dos pretos.
1 078
Tobias Pinheiro
A Consciência
BASTA! A dor já se impõe no mundo inteiro,
plantou nos corações o desencanto,
profanou e maldisse o que era santo
na imolação do último Cordeiro.
Se buscam a consciência com alarde,
se choram a bondade já perdida,
se aspiram a virtude para a vida,
querem paz, querem DEUS e, agora, é tarde.
O mundo inteiro vai rolar vencido,
sem crença, sem amor, sem luz, sem calma,
enquanto grita a voz lá dentro da alma:
— Quem perdeu a consciência está perdido.
plantou nos corações o desencanto,
profanou e maldisse o que era santo
na imolação do último Cordeiro.
Se buscam a consciência com alarde,
se choram a bondade já perdida,
se aspiram a virtude para a vida,
querem paz, querem DEUS e, agora, é tarde.
O mundo inteiro vai rolar vencido,
sem crença, sem amor, sem luz, sem calma,
enquanto grita a voz lá dentro da alma:
— Quem perdeu a consciência está perdido.
847
Tobias Pinheiro
A Consciência
BASTA! A dor já se impõe no mundo inteiro,
plantou nos corações o desencanto,
profanou e maldisse o que era santo
na imolação do último Cordeiro.
Se buscam a consciência com alarde,
se choram a bondade já perdida,
se aspiram a virtude para a vida,
querem paz, querem DEUS e, agora, é tarde.
O mundo inteiro vai rolar vencido,
sem crença, sem amor, sem luz, sem calma,
enquanto grita a voz lá dentro da alma:
— Quem perdeu a consciência está perdido.
plantou nos corações o desencanto,
profanou e maldisse o que era santo
na imolação do último Cordeiro.
Se buscam a consciência com alarde,
se choram a bondade já perdida,
se aspiram a virtude para a vida,
querem paz, querem DEUS e, agora, é tarde.
O mundo inteiro vai rolar vencido,
sem crença, sem amor, sem luz, sem calma,
enquanto grita a voz lá dentro da alma:
— Quem perdeu a consciência está perdido.
847
Rogério Bessa
Artimanha Calendária
4
quanto mais terno o mês
mais terno o coração do freguês
quanto mais terno o freguês
mais materno é o mês
mais mês menos mês mais materna a vez
e o freguês ao olhar do credor mais temo.
5
o cliente nefelibata:
o crer ente do ter sem ser
a cliência ônus-ciente
e o CRER/SER
da onisciência credora
o conceituário menstrual
e a cada mês
o ovo de Colombo
no lombo do otário
o ovo sobre o biombo
e o vôo de Colombo.
quanto mais terno o mês
mais terno o coração do freguês
quanto mais terno o freguês
mais materno é o mês
mais mês menos mês mais materna a vez
e o freguês ao olhar do credor mais temo.
5
o cliente nefelibata:
o crer ente do ter sem ser
a cliência ônus-ciente
e o CRER/SER
da onisciência credora
o conceituário menstrual
e a cada mês
o ovo de Colombo
no lombo do otário
o ovo sobre o biombo
e o vôo de Colombo.
1 016
Rosemberg Cariry
Sexta-Feira
Entre pedras escaldadas
negro lençol de poeira
Gertrudes pariu um filho
como se fosse uma ovelha
Nem por isso houve festa
quebrou-se o monótono ritmo
dos enxadecos no chão
Nesta terra tantos morram
que outros serão paridos
serão servidos na mesa
tantos braços escravos
quanto as léguas
das sesmarias sem-fim
Aqui a vida estrebucha
corpo humano é queimado
como lenha da caldeira
Liberdade se contorce
espezinhada pelas botas
do senhor doutor coronel
negro lençol de poeira
Gertrudes pariu um filho
como se fosse uma ovelha
Nem por isso houve festa
quebrou-se o monótono ritmo
dos enxadecos no chão
Nesta terra tantos morram
que outros serão paridos
serão servidos na mesa
tantos braços escravos
quanto as léguas
das sesmarias sem-fim
Aqui a vida estrebucha
corpo humano é queimado
como lenha da caldeira
Liberdade se contorce
espezinhada pelas botas
do senhor doutor coronel
986
Rosemberg Cariry
Sexta-Feira
Entre pedras escaldadas
negro lençol de poeira
Gertrudes pariu um filho
como se fosse uma ovelha
Nem por isso houve festa
quebrou-se o monótono ritmo
dos enxadecos no chão
Nesta terra tantos morram
que outros serão paridos
serão servidos na mesa
tantos braços escravos
quanto as léguas
das sesmarias sem-fim
Aqui a vida estrebucha
corpo humano é queimado
como lenha da caldeira
Liberdade se contorce
espezinhada pelas botas
do senhor doutor coronel
negro lençol de poeira
Gertrudes pariu um filho
como se fosse uma ovelha
Nem por isso houve festa
quebrou-se o monótono ritmo
dos enxadecos no chão
Nesta terra tantos morram
que outros serão paridos
serão servidos na mesa
tantos braços escravos
quanto as léguas
das sesmarias sem-fim
Aqui a vida estrebucha
corpo humano é queimado
como lenha da caldeira
Liberdade se contorce
espezinhada pelas botas
do senhor doutor coronel
986
Rosemberg Cariry
Sexta-Feira
Entre pedras escaldadas
negro lençol de poeira
Gertrudes pariu um filho
como se fosse uma ovelha
Nem por isso houve festa
quebrou-se o monótono ritmo
dos enxadecos no chão
Nesta terra tantos morram
que outros serão paridos
serão servidos na mesa
tantos braços escravos
quanto as léguas
das sesmarias sem-fim
Aqui a vida estrebucha
corpo humano é queimado
como lenha da caldeira
Liberdade se contorce
espezinhada pelas botas
do senhor doutor coronel
negro lençol de poeira
Gertrudes pariu um filho
como se fosse uma ovelha
Nem por isso houve festa
quebrou-se o monótono ritmo
dos enxadecos no chão
Nesta terra tantos morram
que outros serão paridos
serão servidos na mesa
tantos braços escravos
quanto as léguas
das sesmarias sem-fim
Aqui a vida estrebucha
corpo humano é queimado
como lenha da caldeira
Liberdade se contorce
espezinhada pelas botas
do senhor doutor coronel
986
Rogério Bessa
Do Canto IV:
A Retirada:
Antimitos Lua e Viagem ao (Im)Possível
gracilianos entre ramos
mortos e rumos épicos
deparar é o que vamos;
fabianos sem vitórias
régias ao mor março tépidos
entre telúricas glórias;
todos seres patagônias
à procura de pasárgadas,
sonhos leves, amazônias.
Antimitos Lua e Viagem ao (Im)Possível
gracilianos entre ramos
mortos e rumos épicos
deparar é o que vamos;
fabianos sem vitórias
régias ao mor março tépidos
entre telúricas glórias;
todos seres patagônias
à procura de pasárgadas,
sonhos leves, amazônias.
766
Reinaldo Ferreira
Timbre
EU,
Morreu.
Só há ideal
No plural.
Tecidos
Como os fios que há nos linhos,
Parecidos
Entre nós como dois olhos,
Somos do tempo de viver aos molhos
Para morrer sòzinhos.
Morreu.
Só há ideal
No plural.
Tecidos
Como os fios que há nos linhos,
Parecidos
Entre nós como dois olhos,
Somos do tempo de viver aos molhos
Para morrer sòzinhos.
2 114
Sidney Neto
O Solar dos Heróis
Cearenses, vocês querem ver
de bem perto um grande poema?
É tão fácil!
Cavalguem, como eu,
num dia de fogo vivo,
meu alazão dourado,
os quatro pés calçados,
estrela branca à testa,
sinal encoberto,
galopando no meio dos turvos redemoinhos rasgando,
verrumando,
o céu azul muito sereno,
sobre um pedregulho em brasas acesas,
de bronze dos heróis!
ladeando árvores incendiadas pelo sol em chama,
de Orós a Jaguaribe!
Arapongas, nos capões dos cerros, ao longe
batem bigornas, aperfeiçoando espadas guerreiras!
Nuvens de pombais em bando
passam tatalando as grandes asas
Cigarras, chiando, chiando, retinindo,
cantando hinos de vitória!
Ao lado esquerdo de quem vai,
bem do lado do coração,
a gente vê, feliz,
por trás de uma saliência de terra abençoada,
como um ninho de condores,
um velho solar encantado!...
Cearenses, eu senti, como nunca, o Brasil,
porque ali nasceu Juarez, ali nasceu Fernando,
ali nasceu Joaquim Távora!
de bem perto um grande poema?
É tão fácil!
Cavalguem, como eu,
num dia de fogo vivo,
meu alazão dourado,
os quatro pés calçados,
estrela branca à testa,
sinal encoberto,
galopando no meio dos turvos redemoinhos rasgando,
verrumando,
o céu azul muito sereno,
sobre um pedregulho em brasas acesas,
de bronze dos heróis!
ladeando árvores incendiadas pelo sol em chama,
de Orós a Jaguaribe!
Arapongas, nos capões dos cerros, ao longe
batem bigornas, aperfeiçoando espadas guerreiras!
Nuvens de pombais em bando
passam tatalando as grandes asas
Cigarras, chiando, chiando, retinindo,
cantando hinos de vitória!
Ao lado esquerdo de quem vai,
bem do lado do coração,
a gente vê, feliz,
por trás de uma saliência de terra abençoada,
como um ninho de condores,
um velho solar encantado!...
Cearenses, eu senti, como nunca, o Brasil,
porque ali nasceu Juarez, ali nasceu Fernando,
ali nasceu Joaquim Távora!
367
Raul Machado
Céu do Brasil
Praz-me ver este céu que em palpitante messe
De àureas constelações a arder perpetuamente,
Montes, campos e mar ilumina; e os guarnece
De uma renda de luz e prata resplendente!
Céu suspenso jardim, horto magnificente,
Que em grinaldas de sóis e de estrelas floresce!
Cúpula nupcial, de onde, em floco nitente,
Como um véu de noivado, o luar diáfano desce!
Céu que incendeia o ocaso em de fogueiras;
Que aos outros céus em faz e colorido excele,
Na glória das manhãs e noites brasileiras!
Céu que a alma contempla, humílima, de rastros...
Céu que é um altar em festa: — e acesa, dentro dele,
Brilha a cruz do Senhor, numa moldura de astros!
De àureas constelações a arder perpetuamente,
Montes, campos e mar ilumina; e os guarnece
De uma renda de luz e prata resplendente!
Céu suspenso jardim, horto magnificente,
Que em grinaldas de sóis e de estrelas floresce!
Cúpula nupcial, de onde, em floco nitente,
Como um véu de noivado, o luar diáfano desce!
Céu que incendeia o ocaso em de fogueiras;
Que aos outros céus em faz e colorido excele,
Na glória das manhãs e noites brasileiras!
Céu que a alma contempla, humílima, de rastros...
Céu que é um altar em festa: — e acesa, dentro dele,
Brilha a cruz do Senhor, numa moldura de astros!
1 114
Taumaturgo Vaz
Minha Madrinha
Aqui na terra, desiludido
Tonto, perdido,
Saio das cinzas deste vulcão,
Para ouvir missa na capelinha,
Lá, onde mora Minha Madrinha,
Nossa Senhora da Conceição!
Ao pé do nicho branco e enflorado,
Ajoelhado,
De olhos abertos fitos no altar,
Rezo baixinho... Santa alegria!
Minha Madrinha! Ave Maria!
Cheia de Graça! Graça sem par!
Mãe de Jesus! Flor do Carinho!
Secai os cardos do meu caminho!
Livrai-me do ódio de Humanidade!
Da inveja torpe, da iniqüidade
E da traição,
Que ora andam soltos e voejando,
Como de Corvos um negro bando,
Sob a amplidão!
Tende Piedade, doce Rainha!
Minha Madrinha! Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!
Olhai, oh Virgem, quantos tormentos
Sofrem os justos! Quantos lamentos
Soltos aos ventos!
Quanta miséria! Quanto pesar!
Cessai, oh Virgem, esta Agonia,
Minha Madrinha! Ave Maria!
Cheia de Graça, Graça sem par!
Lá nos Palácios o oiro e o incenso,
Risos e danças, um mundo imenso
De luz e pompas, sedas e aromas,
Lembrando os velhos tempos de Roma
A era negra da perdição!
E fora, o pranto, o frio, a fome...
Tudo que é triste, fere e consome
os pobres velhos e as criancinhas!
Vinde por eles, Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!
De olhos abertos fico rezando
Fora do mundo, junto do altar,
Vendo chegar o doce bando
Das esperanças,
— Anjos formosos, meigas crianças
Rubras centelhas
Dos céus descidos para o Perdão!
E, como a Virgem tudo adivinha,
Ri-se bondosa. Salve Rainha!
Cheia de Graça! Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!
Tonto, perdido,
Saio das cinzas deste vulcão,
Para ouvir missa na capelinha,
Lá, onde mora Minha Madrinha,
Nossa Senhora da Conceição!
Ao pé do nicho branco e enflorado,
Ajoelhado,
De olhos abertos fitos no altar,
Rezo baixinho... Santa alegria!
Minha Madrinha! Ave Maria!
Cheia de Graça! Graça sem par!
Mãe de Jesus! Flor do Carinho!
Secai os cardos do meu caminho!
Livrai-me do ódio de Humanidade!
Da inveja torpe, da iniqüidade
E da traição,
Que ora andam soltos e voejando,
Como de Corvos um negro bando,
Sob a amplidão!
Tende Piedade, doce Rainha!
Minha Madrinha! Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!
Olhai, oh Virgem, quantos tormentos
Sofrem os justos! Quantos lamentos
Soltos aos ventos!
Quanta miséria! Quanto pesar!
Cessai, oh Virgem, esta Agonia,
Minha Madrinha! Ave Maria!
Cheia de Graça, Graça sem par!
Lá nos Palácios o oiro e o incenso,
Risos e danças, um mundo imenso
De luz e pompas, sedas e aromas,
Lembrando os velhos tempos de Roma
A era negra da perdição!
E fora, o pranto, o frio, a fome...
Tudo que é triste, fere e consome
os pobres velhos e as criancinhas!
Vinde por eles, Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!
De olhos abertos fico rezando
Fora do mundo, junto do altar,
Vendo chegar o doce bando
Das esperanças,
— Anjos formosos, meigas crianças
Rubras centelhas
Dos céus descidos para o Perdão!
E, como a Virgem tudo adivinha,
Ri-se bondosa. Salve Rainha!
Cheia de Graça! Minha Madrinha!
Nossa Senhora da Conceição!
1 430
Madi
Novo Amor
Novo Amor
O meu novo amor é um desastre econômico
Não tem onde cair morto
Mas tem, agora, o que mais importa:
alguns anos a menos, pernas
e uns olhos de sonhador
que quando caem nos meus me tiram do sério
Preciso dizer o resto?
O meu novo amor é um desastre econômico
Não tem onde cair morto
Mas tem, agora, o que mais importa:
alguns anos a menos, pernas
e uns olhos de sonhador
que quando caem nos meus me tiram do sério
Preciso dizer o resto?
906
Patrícia Moreira
Romantismo lítero-musical
O professor e pesquisador Aleilton Fonseca foi buscar nas páginas da literatura romântica do século XIX os elementos para compor o livro Enredo romântico, música ao fundo, no qual analisa a presença das manifestações lúdico-musicais na ficção urbana do Romantismo. Lançado pela editora Sette Letras, o livro foi elaborado a partir da tese de mestrado do autor, defendida na Universidade Federal da Paraíba, em 1992. O estudo se propõe a mostrar como o rendimento dos fatos musicais interferem no desenvolvimento das tramas romanescas e como os escritores da época representavam a vida musical com o intuito de valorizar determinados gêneros de origem européia como modelos ideais para a nossa cultura.
O estudo concentra-se na análise de obras de autores como Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar e Manuel Antonio de Almeida, destacando a dicotomia entre música culta e música vulgar, presente no ambiente cultural da época e reproduzida na literatura. No século XIX, o Brasil se dividia entre a produção musical calcada nos padrões europeus e a que se desenvolvia nos meios populares sob a influência espontânea das tradições indígenas e, sobretudo, africanas. Os romances urbanos e de costumes de autores como Joaquim Manuel de Macedo e José de Alencar, são ricos em referências às manifestações lúdico-musicais da burguesia imperial, enquanto Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, se volta para a representação das camadas mais pobres e, conseqüentemente, registra manifestações diferentes daquelas dos salões.
Manifestações lúdico-musicais
da burguesia
imperial
Existia uma
interrelação
entre os
gêneros
musicais.
Narrativa- "Almeida mostra que as manifestações populares eram colocadas no espaço da desordem social, incorporando à narrativa urbana os modelos populares desprezados pela cultura oficial e considerados vadiagem, malandragem, caso de polícia", revela Aleilton Fonseca. Memórias de um sargento de milícias mostra a atuação do Major Vidigal e seus granadeiros para acabar ou proibir festas e prender os seus participantes. Enredo romântico, música ao fundo, não se limita, no entanto, a simplesmente registrar as abordagens literárias das manifestações lúdico-musicais da época. O autor vai mais longe ao sustentar que, apesar do preconceito em relação às manifestações populares, existia uma interrelação entre os gêneros musicais.
Havia apropriação e certa adequação de gêneros de uma camada social por outra."Muitos músicos transitavam nos dois espaços, tocando a música certa nos lugares adequados, mas sempre aclimatando, adaptando alguma coisa", ilustra Aleilton Fonseca. Ele cita como exemplo a dança do lundu, que por muito tempo foi combatida, mas gerou o que se batizou de lundu-canção para piano, atendendo mais ao gosto da elite. A forte influência do modelo cultural europeu sobre a elite brasileira do século XIX, remontava, segundo o pesquisador, ao período colonial, sendo posteriormente reforçada pela chegada do rei Dom João VI, em 1808.
Com a vinda da corte portuguesa, o ambiente cultural de Lisboa, fortemente inspirado nas tendências ditadas pelos salões parisienses foi fielmente reproduzido no Brasil. "Dom João VI procurou, dentro do possível, reproduzir as condições culturais de Lisboa. Ele construíu um teatro lírico, criou a capela imperial, contratou a famosa Missão Artística para prover a corte brasileira de modelos a serem seguidos e reproduzidos", revela Aleiton Fonseca. Na tentativa de se aproximar da corte, os brasileiros mais abastados aderiram com facilidade à nova ordem cultural, fazendo com que o padrão trazido de Portugal passasse a ser reconhecido como o único correto e oficial, relegando as manifestações locais, de cunho popular, ao isolamento e à marginalidade. A dicotomia entre música culta e música "vulgar", enquanto referencial de classe, riqueza e poder, predominaria por todo o século XIX. Na literatura, a presença das manifestações lúdico-musicais ocorre enquanto elemento de contextualização. Os autores procuraram recriar nos romances o ambiente social da época. Enredo Romântico, música de fundo, além de desvendar o universo musical que marcou o século XIX pelo seu caráter interdisciplinar, oferece um amplo panorama histórico ao correlacionar literatura, cultura e sociedade.
(in A Tarde, Caderno Cultural, 11/01/97)
Leia obra poética de Aleiton Fonseca
O estudo concentra-se na análise de obras de autores como Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar e Manuel Antonio de Almeida, destacando a dicotomia entre música culta e música vulgar, presente no ambiente cultural da época e reproduzida na literatura. No século XIX, o Brasil se dividia entre a produção musical calcada nos padrões europeus e a que se desenvolvia nos meios populares sob a influência espontânea das tradições indígenas e, sobretudo, africanas. Os romances urbanos e de costumes de autores como Joaquim Manuel de Macedo e José de Alencar, são ricos em referências às manifestações lúdico-musicais da burguesia imperial, enquanto Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, se volta para a representação das camadas mais pobres e, conseqüentemente, registra manifestações diferentes daquelas dos salões.
Manifestações lúdico-musicais
da burguesia
imperial
Existia uma
interrelação
entre os
gêneros
musicais.
Narrativa- "Almeida mostra que as manifestações populares eram colocadas no espaço da desordem social, incorporando à narrativa urbana os modelos populares desprezados pela cultura oficial e considerados vadiagem, malandragem, caso de polícia", revela Aleilton Fonseca. Memórias de um sargento de milícias mostra a atuação do Major Vidigal e seus granadeiros para acabar ou proibir festas e prender os seus participantes. Enredo romântico, música ao fundo, não se limita, no entanto, a simplesmente registrar as abordagens literárias das manifestações lúdico-musicais da época. O autor vai mais longe ao sustentar que, apesar do preconceito em relação às manifestações populares, existia uma interrelação entre os gêneros musicais.
Havia apropriação e certa adequação de gêneros de uma camada social por outra."Muitos músicos transitavam nos dois espaços, tocando a música certa nos lugares adequados, mas sempre aclimatando, adaptando alguma coisa", ilustra Aleilton Fonseca. Ele cita como exemplo a dança do lundu, que por muito tempo foi combatida, mas gerou o que se batizou de lundu-canção para piano, atendendo mais ao gosto da elite. A forte influência do modelo cultural europeu sobre a elite brasileira do século XIX, remontava, segundo o pesquisador, ao período colonial, sendo posteriormente reforçada pela chegada do rei Dom João VI, em 1808.
Com a vinda da corte portuguesa, o ambiente cultural de Lisboa, fortemente inspirado nas tendências ditadas pelos salões parisienses foi fielmente reproduzido no Brasil. "Dom João VI procurou, dentro do possível, reproduzir as condições culturais de Lisboa. Ele construíu um teatro lírico, criou a capela imperial, contratou a famosa Missão Artística para prover a corte brasileira de modelos a serem seguidos e reproduzidos", revela Aleiton Fonseca. Na tentativa de se aproximar da corte, os brasileiros mais abastados aderiram com facilidade à nova ordem cultural, fazendo com que o padrão trazido de Portugal passasse a ser reconhecido como o único correto e oficial, relegando as manifestações locais, de cunho popular, ao isolamento e à marginalidade. A dicotomia entre música culta e música "vulgar", enquanto referencial de classe, riqueza e poder, predominaria por todo o século XIX. Na literatura, a presença das manifestações lúdico-musicais ocorre enquanto elemento de contextualização. Os autores procuraram recriar nos romances o ambiente social da época. Enredo Romântico, música de fundo, além de desvendar o universo musical que marcou o século XIX pelo seu caráter interdisciplinar, oferece um amplo panorama histórico ao correlacionar literatura, cultura e sociedade.
(in A Tarde, Caderno Cultural, 11/01/97)
Leia obra poética de Aleiton Fonseca
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Nana Corrêa de Lima
Yanomani
Yanomani
Hoje é dia de índio.
Deixo aqui pequena lágrima,
rolando na agonia
que antecede o final de tudo.
Anoitece o sangue na tribo....
Hoje é dia de índio.
Deixo aqui pequena lágrima,
rolando na agonia
que antecede o final de tudo.
Anoitece o sangue na tribo....
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Nana Corrêa de Lima
Yanomani
Yanomani
Hoje é dia de índio.
Deixo aqui pequena lágrima,
rolando na agonia
que antecede o final de tudo.
Anoitece o sangue na tribo....
Hoje é dia de índio.
Deixo aqui pequena lágrima,
rolando na agonia
que antecede o final de tudo.
Anoitece o sangue na tribo....
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Rogério Bessa
Poemas dos meus Sapatos Marrons
(Novamente Engraxados)
Um par de sapatos, que vida não leva!
Ontem, o meu cartou alto:
pisou casa de menina lorde
foi acariciado com o mimo
vermelho do tapete.
Inda me lembro como anoitecera
rabugento anteontem.
De manhã, antes de sairmos
lavei-lhe a cara com a escova.
Hoje, foi um dos seus dias mais tristes:
meteu-se numa poça dágua sem querer
pisou uma rã morta
e estalou uma barata.
Um par de sapatos, que vida não leva!
Ontem, o meu cartou alto:
pisou casa de menina lorde
foi acariciado com o mimo
vermelho do tapete.
Inda me lembro como anoitecera
rabugento anteontem.
De manhã, antes de sairmos
lavei-lhe a cara com a escova.
Hoje, foi um dos seus dias mais tristes:
meteu-se numa poça dágua sem querer
pisou uma rã morta
e estalou uma barata.
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