Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Mário Donizete Massari
Medicina
O DOUTOR
R eceitou
A spirina, para
C urar
I nácio de
S eus
M ales que
O uso dizer
É A FORMA MAIS MEDÍOCRE
DE DISCRIMINAR O AMOR.
R eceitou
A spirina, para
C urar
I nácio de
S eus
M ales que
O uso dizer
É A FORMA MAIS MEDÍOCRE
DE DISCRIMINAR O AMOR.
842
Mário Donizete Massari
Medicina
O DOUTOR
R eceitou
A spirina, para
C urar
I nácio de
S eus
M ales que
O uso dizer
É A FORMA MAIS MEDÍOCRE
DE DISCRIMINAR O AMOR.
R eceitou
A spirina, para
C urar
I nácio de
S eus
M ales que
O uso dizer
É A FORMA MAIS MEDÍOCRE
DE DISCRIMINAR O AMOR.
842
Mário Donizete Massari
Medicina
O DOUTOR
R eceitou
A spirina, para
C urar
I nácio de
S eus
M ales que
O uso dizer
É A FORMA MAIS MEDÍOCRE
DE DISCRIMINAR O AMOR.
R eceitou
A spirina, para
C urar
I nácio de
S eus
M ales que
O uso dizer
É A FORMA MAIS MEDÍOCRE
DE DISCRIMINAR O AMOR.
842
Mário Donizete Massari
Canavial
É MADRUGADA
Os canaviais vicejantes
esperam os braços
dos trabalhadores
os podões afiados
que decepam até
esperanças
Saio à rua,
meu itinerário é outro
Distingo vultos,
que se reúnem
às portas dos bares.
Não são os remanescentes
de um dia de carnaval,
não vestem alegorias.
São os braços que
ceifarão a cana
Estão todos quietos,
passo por eles no
meu itinerário e
uma dor profunda
me alcança
Uma dor madura
com sabor de caldo de cana
Os canaviais vicejantes
esperam os braços
dos trabalhadores
os podões afiados
que decepam até
esperanças
Saio à rua,
meu itinerário é outro
Distingo vultos,
que se reúnem
às portas dos bares.
Não são os remanescentes
de um dia de carnaval,
não vestem alegorias.
São os braços que
ceifarão a cana
Estão todos quietos,
passo por eles no
meu itinerário e
uma dor profunda
me alcança
Uma dor madura
com sabor de caldo de cana
920
Mário Donizete Massari
Canavial
É MADRUGADA
Os canaviais vicejantes
esperam os braços
dos trabalhadores
os podões afiados
que decepam até
esperanças
Saio à rua,
meu itinerário é outro
Distingo vultos,
que se reúnem
às portas dos bares.
Não são os remanescentes
de um dia de carnaval,
não vestem alegorias.
São os braços que
ceifarão a cana
Estão todos quietos,
passo por eles no
meu itinerário e
uma dor profunda
me alcança
Uma dor madura
com sabor de caldo de cana
Os canaviais vicejantes
esperam os braços
dos trabalhadores
os podões afiados
que decepam até
esperanças
Saio à rua,
meu itinerário é outro
Distingo vultos,
que se reúnem
às portas dos bares.
Não são os remanescentes
de um dia de carnaval,
não vestem alegorias.
São os braços que
ceifarão a cana
Estão todos quietos,
passo por eles no
meu itinerário e
uma dor profunda
me alcança
Uma dor madura
com sabor de caldo de cana
920
Mário Donizete Massari
Muro
No povo
vejo o mundo
Vejo o mundo
como um muro,
que separa o homem
do próprio homem.
O operário faz greve
a vida breve
o sonho pausa leve,
no viver.
Vejo o mundo
como um muro
de oprimidos
vejo o mundo
Vejo o mundo
como um muro,
que separa o homem
do próprio homem.
O operário faz greve
a vida breve
o sonho pausa leve,
no viver.
Vejo o mundo
como um muro
de oprimidos
1 136
Mário Donizete Massari
Muro
No povo
vejo o mundo
Vejo o mundo
como um muro,
que separa o homem
do próprio homem.
O operário faz greve
a vida breve
o sonho pausa leve,
no viver.
Vejo o mundo
como um muro
de oprimidos
vejo o mundo
Vejo o mundo
como um muro,
que separa o homem
do próprio homem.
O operário faz greve
a vida breve
o sonho pausa leve,
no viver.
Vejo o mundo
como um muro
de oprimidos
1 136
Mário Donizete Massari
Muro
No povo
vejo o mundo
Vejo o mundo
como um muro,
que separa o homem
do próprio homem.
O operário faz greve
a vida breve
o sonho pausa leve,
no viver.
Vejo o mundo
como um muro
de oprimidos
vejo o mundo
Vejo o mundo
como um muro,
que separa o homem
do próprio homem.
O operário faz greve
a vida breve
o sonho pausa leve,
no viver.
Vejo o mundo
como um muro
de oprimidos
1 136
Mário Donizete Massari
Urbano
A cidade dorme,
mas não dormem os
homens,
que espreitam a cidade,
com seus olhos de fome.
São iguais os homens,
mas desuniforme a fome.
De dia a cidade não
dorme,
e seus homens passeiam
nas ruas
alguns cabisbaixos, outros
resolutos
São iguais os homens
mas distintos os caminhos
A cidade os acolhe
A cidade os exibe
A cidade os discrimina
São iguais os homens
num contexto relativo.
mas não dormem os
homens,
que espreitam a cidade,
com seus olhos de fome.
São iguais os homens,
mas desuniforme a fome.
De dia a cidade não
dorme,
e seus homens passeiam
nas ruas
alguns cabisbaixos, outros
resolutos
São iguais os homens
mas distintos os caminhos
A cidade os acolhe
A cidade os exibe
A cidade os discrimina
São iguais os homens
num contexto relativo.
951
Mário Donizete Massari
Urbano
A cidade dorme,
mas não dormem os
homens,
que espreitam a cidade,
com seus olhos de fome.
São iguais os homens,
mas desuniforme a fome.
De dia a cidade não
dorme,
e seus homens passeiam
nas ruas
alguns cabisbaixos, outros
resolutos
São iguais os homens
mas distintos os caminhos
A cidade os acolhe
A cidade os exibe
A cidade os discrimina
São iguais os homens
num contexto relativo.
mas não dormem os
homens,
que espreitam a cidade,
com seus olhos de fome.
São iguais os homens,
mas desuniforme a fome.
De dia a cidade não
dorme,
e seus homens passeiam
nas ruas
alguns cabisbaixos, outros
resolutos
São iguais os homens
mas distintos os caminhos
A cidade os acolhe
A cidade os exibe
A cidade os discrimina
São iguais os homens
num contexto relativo.
951
Mário Donizete Massari
Urbano
A cidade dorme,
mas não dormem os
homens,
que espreitam a cidade,
com seus olhos de fome.
São iguais os homens,
mas desuniforme a fome.
De dia a cidade não
dorme,
e seus homens passeiam
nas ruas
alguns cabisbaixos, outros
resolutos
São iguais os homens
mas distintos os caminhos
A cidade os acolhe
A cidade os exibe
A cidade os discrimina
São iguais os homens
num contexto relativo.
mas não dormem os
homens,
que espreitam a cidade,
com seus olhos de fome.
São iguais os homens,
mas desuniforme a fome.
De dia a cidade não
dorme,
e seus homens passeiam
nas ruas
alguns cabisbaixos, outros
resolutos
São iguais os homens
mas distintos os caminhos
A cidade os acolhe
A cidade os exibe
A cidade os discrimina
São iguais os homens
num contexto relativo.
951
Mário Donizete Massari
Urbano
A cidade dorme,
mas não dormem os
homens,
que espreitam a cidade,
com seus olhos de fome.
São iguais os homens,
mas desuniforme a fome.
De dia a cidade não
dorme,
e seus homens passeiam
nas ruas
alguns cabisbaixos, outros
resolutos
São iguais os homens
mas distintos os caminhos
A cidade os acolhe
A cidade os exibe
A cidade os discrimina
São iguais os homens
num contexto relativo.
mas não dormem os
homens,
que espreitam a cidade,
com seus olhos de fome.
São iguais os homens,
mas desuniforme a fome.
De dia a cidade não
dorme,
e seus homens passeiam
nas ruas
alguns cabisbaixos, outros
resolutos
São iguais os homens
mas distintos os caminhos
A cidade os acolhe
A cidade os exibe
A cidade os discrimina
São iguais os homens
num contexto relativo.
951
Mário Donizete Massari
Esperança
O menino
chupa laranjas
a dona de casa
sentada à varanda
contempla o fim de
mais um dia.
Um passarinho canta
no pomar
onde o menino
chupa laranja
às escondidas.
Fim de dia,
mas a esperança persiste
nos versos do poeta
no rosto do operário triste.
chupa laranjas
a dona de casa
sentada à varanda
contempla o fim de
mais um dia.
Um passarinho canta
no pomar
onde o menino
chupa laranja
às escondidas.
Fim de dia,
mas a esperança persiste
nos versos do poeta
no rosto do operário triste.
972
Mário Donizete Massari
Monafa
Notícia de Jornal
"Morreu ninguém
nesse dia qualquer
a tal hora
não carece cuidados"
M aria
O ndulava
R eluzia
T ranscendia
A brangia a essência de "ser"
N ascia com a brancura do dia
A manhecia
F estiva do
A mor que
V ivia
E xalava
L eve
A ragem, feito brisa
Renascia com a morte que lhe sorria
"Morreu ninguém
nesse dia qualquer
a tal hora
não carece cuidados"
M aria
O ndulava
R eluzia
T ranscendia
A brangia a essência de "ser"
N ascia com a brancura do dia
A manhecia
F estiva do
A mor que
V ivia
E xalava
L eve
A ragem, feito brisa
Renascia com a morte que lhe sorria
1 057
Max Diniz Cruzeiro
A distância, distanciam-se pensamentos
A distância, distanciam-se pensamentos
Aproximam-se emoções, redescobrem-se pensamentos
Exilar-se é preciso, viver é preciso
Amar é necessário...
Perdem-se e conquistam terras,
ganha-se poder, adquire-se fama
Mas nada pode se comparar
a alegria de tê-la ao lado meu
Exílio da Pátria mãe,
algo doloroso
Exílio de você,
algo penoso,
letal...mortal
Aproximam-se emoções, redescobrem-se pensamentos
Exilar-se é preciso, viver é preciso
Amar é necessário...
Perdem-se e conquistam terras,
ganha-se poder, adquire-se fama
Mas nada pode se comparar
a alegria de tê-la ao lado meu
Exílio da Pátria mãe,
algo doloroso
Exílio de você,
algo penoso,
letal...mortal
720
Mário Donizete Massari
Das Dores
Anastácia
é simples como a noite
e ama João das Dores
filho de Dolores.
João lhe leva flores,
à noite
e chora suas dores.
A vida tá difícil
o amor tão escasso.
Trabalha no mercado
e em meio a tanta mercadoria,
sobre lhe apenas
a dura realidade
Alguns quilos de fadiga
muitos gramas de verdade.
João ama Anastácia,
é filho de Dolores
e em breve dividirá suas dores.
é simples como a noite
e ama João das Dores
filho de Dolores.
João lhe leva flores,
à noite
e chora suas dores.
A vida tá difícil
o amor tão escasso.
Trabalha no mercado
e em meio a tanta mercadoria,
sobre lhe apenas
a dura realidade
Alguns quilos de fadiga
muitos gramas de verdade.
João ama Anastácia,
é filho de Dolores
e em breve dividirá suas dores.
930
Mário Donizete Massari
Das Dores
Anastácia
é simples como a noite
e ama João das Dores
filho de Dolores.
João lhe leva flores,
à noite
e chora suas dores.
A vida tá difícil
o amor tão escasso.
Trabalha no mercado
e em meio a tanta mercadoria,
sobre lhe apenas
a dura realidade
Alguns quilos de fadiga
muitos gramas de verdade.
João ama Anastácia,
é filho de Dolores
e em breve dividirá suas dores.
é simples como a noite
e ama João das Dores
filho de Dolores.
João lhe leva flores,
à noite
e chora suas dores.
A vida tá difícil
o amor tão escasso.
Trabalha no mercado
e em meio a tanta mercadoria,
sobre lhe apenas
a dura realidade
Alguns quilos de fadiga
muitos gramas de verdade.
João ama Anastácia,
é filho de Dolores
e em breve dividirá suas dores.
930
Mário Donizete Massari
Das Dores
Anastácia
é simples como a noite
e ama João das Dores
filho de Dolores.
João lhe leva flores,
à noite
e chora suas dores.
A vida tá difícil
o amor tão escasso.
Trabalha no mercado
e em meio a tanta mercadoria,
sobre lhe apenas
a dura realidade
Alguns quilos de fadiga
muitos gramas de verdade.
João ama Anastácia,
é filho de Dolores
e em breve dividirá suas dores.
é simples como a noite
e ama João das Dores
filho de Dolores.
João lhe leva flores,
à noite
e chora suas dores.
A vida tá difícil
o amor tão escasso.
Trabalha no mercado
e em meio a tanta mercadoria,
sobre lhe apenas
a dura realidade
Alguns quilos de fadiga
muitos gramas de verdade.
João ama Anastácia,
é filho de Dolores
e em breve dividirá suas dores.
930
Moniz Bandeira
Canto do Outubro
Que ficou de teu mundo?
Onde aqueles que te ajudaram a construí-lo?
Os muros tragaram balas e palavras
e a erva cresceu sobre os lábios dos mortos
que a noite ocultou.
Sempre noite, sempre inverno,
flocos de neve caindo
na memória dos que marcaram
as estradas do tempo.
Os mortos.
Sangue, pólvora, cinza, pedra,
e um século preso nos seus dentes.
Vê a alvorada,
a alvorada que vem,
que ainda vem,
que surgirá de lágrimas e de sonhos,
quando nos campos,
verdes campos,
hoje cobertos de neve,
as sementes brotarem e as árvores florescerem.
quando todas as vozes,
rasgando túmulos e quebrando espelhos,
vibrarem nos subterrâneos do mundo.
Vê quantos homens
caminham pela madrugada.
Eles esperam por ti.
Esperam que os relógios sangrem
à dor das horas.
Que os rios contidos
desemboquem pela boca dos mortos
despertados ao canto das aves
e dos clarins de fogo da alvorada.
E o sol,
O sol que tu levaste nas mãos,
será de todos.
Onde aqueles que te ajudaram a construí-lo?
Os muros tragaram balas e palavras
e a erva cresceu sobre os lábios dos mortos
que a noite ocultou.
Sempre noite, sempre inverno,
flocos de neve caindo
na memória dos que marcaram
as estradas do tempo.
Os mortos.
Sangue, pólvora, cinza, pedra,
e um século preso nos seus dentes.
Vê a alvorada,
a alvorada que vem,
que ainda vem,
que surgirá de lágrimas e de sonhos,
quando nos campos,
verdes campos,
hoje cobertos de neve,
as sementes brotarem e as árvores florescerem.
quando todas as vozes,
rasgando túmulos e quebrando espelhos,
vibrarem nos subterrâneos do mundo.
Vê quantos homens
caminham pela madrugada.
Eles esperam por ti.
Esperam que os relógios sangrem
à dor das horas.
Que os rios contidos
desemboquem pela boca dos mortos
despertados ao canto das aves
e dos clarins de fogo da alvorada.
E o sol,
O sol que tu levaste nas mãos,
será de todos.
990
Martinho de Brenderode
Vendas
Vendas cheias de pó... Na tabuleta
Azul, sob a coroa, o costumado
Dizer — em letra irregular e inquieta —
Tabacos — e, por baixo: Habelitado.
E nalgumas, à aragem balouçando,
Suspensos dum barbante ou dum cordel,
Cigarros de madeira, mal lembrando
Um maço de cigarros de papel.
Vendas... Vinho e Petiscos — corriqueira
Legenda repetida em letras toscas...
Vendas cheias de moscas e poeira
— No Sul tudo é poeira, sol e moscas.
Direito à porta, mão pintada acena...
— Quem quer matar a fome, a fome e a sede? —
Vinho e petiscos... Alto aqui! — ordena
A frase imperativa da parede.
Queijinho duro, velho, a amarelar...
Peixe frito, azeitonas e saladas.
Vinhos do Sul... O Torres — popular —,
Borba e Cartaxo — prontos à facada.
Vendas cheias de gente... Sardinheiros
Sempre a choutar na estrada...Caçadores,
Bronzeados caçadores, perdigueiros,
Almocreves bulhentos, faladores.
Vendas por dentro escuras... Mas por fora
Faz mal à vista o branco das paredes!
O Sul à cal mais branca tudo afora
— Árabe Sul!... na alvura a tudo excedes.
(Lisboa, 1905)
Azul, sob a coroa, o costumado
Dizer — em letra irregular e inquieta —
Tabacos — e, por baixo: Habelitado.
E nalgumas, à aragem balouçando,
Suspensos dum barbante ou dum cordel,
Cigarros de madeira, mal lembrando
Um maço de cigarros de papel.
Vendas... Vinho e Petiscos — corriqueira
Legenda repetida em letras toscas...
Vendas cheias de moscas e poeira
— No Sul tudo é poeira, sol e moscas.
Direito à porta, mão pintada acena...
— Quem quer matar a fome, a fome e a sede? —
Vinho e petiscos... Alto aqui! — ordena
A frase imperativa da parede.
Queijinho duro, velho, a amarelar...
Peixe frito, azeitonas e saladas.
Vinhos do Sul... O Torres — popular —,
Borba e Cartaxo — prontos à facada.
Vendas cheias de gente... Sardinheiros
Sempre a choutar na estrada...Caçadores,
Bronzeados caçadores, perdigueiros,
Almocreves bulhentos, faladores.
Vendas por dentro escuras... Mas por fora
Faz mal à vista o branco das paredes!
O Sul à cal mais branca tudo afora
— Árabe Sul!... na alvura a tudo excedes.
(Lisboa, 1905)
877
Martinho de Brenderode
Vendas
Vendas cheias de pó... Na tabuleta
Azul, sob a coroa, o costumado
Dizer — em letra irregular e inquieta —
Tabacos — e, por baixo: Habelitado.
E nalgumas, à aragem balouçando,
Suspensos dum barbante ou dum cordel,
Cigarros de madeira, mal lembrando
Um maço de cigarros de papel.
Vendas... Vinho e Petiscos — corriqueira
Legenda repetida em letras toscas...
Vendas cheias de moscas e poeira
— No Sul tudo é poeira, sol e moscas.
Direito à porta, mão pintada acena...
— Quem quer matar a fome, a fome e a sede? —
Vinho e petiscos... Alto aqui! — ordena
A frase imperativa da parede.
Queijinho duro, velho, a amarelar...
Peixe frito, azeitonas e saladas.
Vinhos do Sul... O Torres — popular —,
Borba e Cartaxo — prontos à facada.
Vendas cheias de gente... Sardinheiros
Sempre a choutar na estrada...Caçadores,
Bronzeados caçadores, perdigueiros,
Almocreves bulhentos, faladores.
Vendas por dentro escuras... Mas por fora
Faz mal à vista o branco das paredes!
O Sul à cal mais branca tudo afora
— Árabe Sul!... na alvura a tudo excedes.
(Lisboa, 1905)
Azul, sob a coroa, o costumado
Dizer — em letra irregular e inquieta —
Tabacos — e, por baixo: Habelitado.
E nalgumas, à aragem balouçando,
Suspensos dum barbante ou dum cordel,
Cigarros de madeira, mal lembrando
Um maço de cigarros de papel.
Vendas... Vinho e Petiscos — corriqueira
Legenda repetida em letras toscas...
Vendas cheias de moscas e poeira
— No Sul tudo é poeira, sol e moscas.
Direito à porta, mão pintada acena...
— Quem quer matar a fome, a fome e a sede? —
Vinho e petiscos... Alto aqui! — ordena
A frase imperativa da parede.
Queijinho duro, velho, a amarelar...
Peixe frito, azeitonas e saladas.
Vinhos do Sul... O Torres — popular —,
Borba e Cartaxo — prontos à facada.
Vendas cheias de gente... Sardinheiros
Sempre a choutar na estrada...Caçadores,
Bronzeados caçadores, perdigueiros,
Almocreves bulhentos, faladores.
Vendas por dentro escuras... Mas por fora
Faz mal à vista o branco das paredes!
O Sul à cal mais branca tudo afora
— Árabe Sul!... na alvura a tudo excedes.
(Lisboa, 1905)
877
Martinho de Brenderode
Vendas
Vendas cheias de pó... Na tabuleta
Azul, sob a coroa, o costumado
Dizer — em letra irregular e inquieta —
Tabacos — e, por baixo: Habelitado.
E nalgumas, à aragem balouçando,
Suspensos dum barbante ou dum cordel,
Cigarros de madeira, mal lembrando
Um maço de cigarros de papel.
Vendas... Vinho e Petiscos — corriqueira
Legenda repetida em letras toscas...
Vendas cheias de moscas e poeira
— No Sul tudo é poeira, sol e moscas.
Direito à porta, mão pintada acena...
— Quem quer matar a fome, a fome e a sede? —
Vinho e petiscos... Alto aqui! — ordena
A frase imperativa da parede.
Queijinho duro, velho, a amarelar...
Peixe frito, azeitonas e saladas.
Vinhos do Sul... O Torres — popular —,
Borba e Cartaxo — prontos à facada.
Vendas cheias de gente... Sardinheiros
Sempre a choutar na estrada...Caçadores,
Bronzeados caçadores, perdigueiros,
Almocreves bulhentos, faladores.
Vendas por dentro escuras... Mas por fora
Faz mal à vista o branco das paredes!
O Sul à cal mais branca tudo afora
— Árabe Sul!... na alvura a tudo excedes.
(Lisboa, 1905)
Azul, sob a coroa, o costumado
Dizer — em letra irregular e inquieta —
Tabacos — e, por baixo: Habelitado.
E nalgumas, à aragem balouçando,
Suspensos dum barbante ou dum cordel,
Cigarros de madeira, mal lembrando
Um maço de cigarros de papel.
Vendas... Vinho e Petiscos — corriqueira
Legenda repetida em letras toscas...
Vendas cheias de moscas e poeira
— No Sul tudo é poeira, sol e moscas.
Direito à porta, mão pintada acena...
— Quem quer matar a fome, a fome e a sede? —
Vinho e petiscos... Alto aqui! — ordena
A frase imperativa da parede.
Queijinho duro, velho, a amarelar...
Peixe frito, azeitonas e saladas.
Vinhos do Sul... O Torres — popular —,
Borba e Cartaxo — prontos à facada.
Vendas cheias de gente... Sardinheiros
Sempre a choutar na estrada...Caçadores,
Bronzeados caçadores, perdigueiros,
Almocreves bulhentos, faladores.
Vendas por dentro escuras... Mas por fora
Faz mal à vista o branco das paredes!
O Sul à cal mais branca tudo afora
— Árabe Sul!... na alvura a tudo excedes.
(Lisboa, 1905)
877
Marta Gonçalves
Morreram as Videiras na Quinta
I
Jogávamos vôlei na beira da tarde
o cabelo era louro o dolmã verde.
Amava o verde da veste. Havia cheiro
de maçã. Havia amor pelo moço de dolmã.
II
Os pássaros em muitas tardes se foram.
Vieram anos de silêncio. Celas de solidão
e medo. Março secou o mar a areia cobriu
palavras. A giesta formou sangue no fim da noite.
III
As árvores verdes marcaram o tempo
marcaram o cansaço o temor da morte.
IV
A música chegava quebrada nas montanhas.
A poesia era o uivo do lobo no amanhecer.
V
Chegaste trazendo o sol nos olhos.
Lembrei o moço de dolmã. Lembrei
o verde crucificado. Lembrei os corpos
enterrados em valas profundas.
VI
Viste com o beijo nos lábios. Nas mãos
o afeto. Havia água cobrindo a febre.
Habitava o verde-oliva nas manhãs.
Verde pântano no porto da alma.
VII
Quando vi a patente em seu casaco,
quando vi o sangue dos meus irmãos
nos porões, morreram as videiras na quinta.
Parti
não entendeste minha ida.
Eras bom e o céu escuro
vestia verdevestia verde.
Jogávamos vôlei na beira da tarde
o cabelo era louro o dolmã verde.
Amava o verde da veste. Havia cheiro
de maçã. Havia amor pelo moço de dolmã.
II
Os pássaros em muitas tardes se foram.
Vieram anos de silêncio. Celas de solidão
e medo. Março secou o mar a areia cobriu
palavras. A giesta formou sangue no fim da noite.
III
As árvores verdes marcaram o tempo
marcaram o cansaço o temor da morte.
IV
A música chegava quebrada nas montanhas.
A poesia era o uivo do lobo no amanhecer.
V
Chegaste trazendo o sol nos olhos.
Lembrei o moço de dolmã. Lembrei
o verde crucificado. Lembrei os corpos
enterrados em valas profundas.
VI
Viste com o beijo nos lábios. Nas mãos
o afeto. Havia água cobrindo a febre.
Habitava o verde-oliva nas manhãs.
Verde pântano no porto da alma.
VII
Quando vi a patente em seu casaco,
quando vi o sangue dos meus irmãos
nos porões, morreram as videiras na quinta.
Parti
não entendeste minha ida.
Eras bom e o céu escuro
vestia verdevestia verde.
924
Marta Gonçalves
Morreram as Videiras na Quinta
I
Jogávamos vôlei na beira da tarde
o cabelo era louro o dolmã verde.
Amava o verde da veste. Havia cheiro
de maçã. Havia amor pelo moço de dolmã.
II
Os pássaros em muitas tardes se foram.
Vieram anos de silêncio. Celas de solidão
e medo. Março secou o mar a areia cobriu
palavras. A giesta formou sangue no fim da noite.
III
As árvores verdes marcaram o tempo
marcaram o cansaço o temor da morte.
IV
A música chegava quebrada nas montanhas.
A poesia era o uivo do lobo no amanhecer.
V
Chegaste trazendo o sol nos olhos.
Lembrei o moço de dolmã. Lembrei
o verde crucificado. Lembrei os corpos
enterrados em valas profundas.
VI
Viste com o beijo nos lábios. Nas mãos
o afeto. Havia água cobrindo a febre.
Habitava o verde-oliva nas manhãs.
Verde pântano no porto da alma.
VII
Quando vi a patente em seu casaco,
quando vi o sangue dos meus irmãos
nos porões, morreram as videiras na quinta.
Parti
não entendeste minha ida.
Eras bom e o céu escuro
vestia verdevestia verde.
Jogávamos vôlei na beira da tarde
o cabelo era louro o dolmã verde.
Amava o verde da veste. Havia cheiro
de maçã. Havia amor pelo moço de dolmã.
II
Os pássaros em muitas tardes se foram.
Vieram anos de silêncio. Celas de solidão
e medo. Março secou o mar a areia cobriu
palavras. A giesta formou sangue no fim da noite.
III
As árvores verdes marcaram o tempo
marcaram o cansaço o temor da morte.
IV
A música chegava quebrada nas montanhas.
A poesia era o uivo do lobo no amanhecer.
V
Chegaste trazendo o sol nos olhos.
Lembrei o moço de dolmã. Lembrei
o verde crucificado. Lembrei os corpos
enterrados em valas profundas.
VI
Viste com o beijo nos lábios. Nas mãos
o afeto. Havia água cobrindo a febre.
Habitava o verde-oliva nas manhãs.
Verde pântano no porto da alma.
VII
Quando vi a patente em seu casaco,
quando vi o sangue dos meus irmãos
nos porões, morreram as videiras na quinta.
Parti
não entendeste minha ida.
Eras bom e o céu escuro
vestia verdevestia verde.
924