Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Bernardo de Passos
Quadras Soltas
Pra mentira ser segura
E atingir profundidade,
Tem que trazer à mistura
Qualquer coisa de verdade.
O rato mete o focinho
Sem pensar que faz asneira
Depois, ou larga o toucinho,
Ou fica na ratoeira.
Há pessoas muito altas
De nome ilustrado e sério
Porque o oiro tapa as faltas
Da moral e do critério.
Enquanto o homem pensar
Que vale mais que outro homem,
São como os cães a ladrar,
Não deixam comer, nem comem.
Quantas sedas aí vão,
Quantos brancos colarinhos,
São pedacinhos de pão,
Roubados aos pobrezinhos!
Sem que o discurso eu pedisse,
Ele falou; e eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
Do que disse não gostei.
E atingir profundidade,
Tem que trazer à mistura
Qualquer coisa de verdade.
O rato mete o focinho
Sem pensar que faz asneira
Depois, ou larga o toucinho,
Ou fica na ratoeira.
Há pessoas muito altas
De nome ilustrado e sério
Porque o oiro tapa as faltas
Da moral e do critério.
Enquanto o homem pensar
Que vale mais que outro homem,
São como os cães a ladrar,
Não deixam comer, nem comem.
Quantas sedas aí vão,
Quantos brancos colarinhos,
São pedacinhos de pão,
Roubados aos pobrezinhos!
Sem que o discurso eu pedisse,
Ele falou; e eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
Do que disse não gostei.
2 073
Bernardo de Passos
Quadras Soltas
Pra mentira ser segura
E atingir profundidade,
Tem que trazer à mistura
Qualquer coisa de verdade.
O rato mete o focinho
Sem pensar que faz asneira
Depois, ou larga o toucinho,
Ou fica na ratoeira.
Há pessoas muito altas
De nome ilustrado e sério
Porque o oiro tapa as faltas
Da moral e do critério.
Enquanto o homem pensar
Que vale mais que outro homem,
São como os cães a ladrar,
Não deixam comer, nem comem.
Quantas sedas aí vão,
Quantos brancos colarinhos,
São pedacinhos de pão,
Roubados aos pobrezinhos!
Sem que o discurso eu pedisse,
Ele falou; e eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
Do que disse não gostei.
E atingir profundidade,
Tem que trazer à mistura
Qualquer coisa de verdade.
O rato mete o focinho
Sem pensar que faz asneira
Depois, ou larga o toucinho,
Ou fica na ratoeira.
Há pessoas muito altas
De nome ilustrado e sério
Porque o oiro tapa as faltas
Da moral e do critério.
Enquanto o homem pensar
Que vale mais que outro homem,
São como os cães a ladrar,
Não deixam comer, nem comem.
Quantas sedas aí vão,
Quantos brancos colarinhos,
São pedacinhos de pão,
Roubados aos pobrezinhos!
Sem que o discurso eu pedisse,
Ele falou; e eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
Do que disse não gostei.
2 073
Birão Santana
Ânfora Perfumada
É preciso
que não haja motivos
para se curvar.
Que os olhos
contemplem todos os olhos.
Que as palavras
confirmem todas as práticas.
Do contrário,
quando nos visitem
as horas do testemunho,
tal qual os
Doutores da Lei em casa de Simão
ante a presença insólita:
Madalena,
com a ânfora perfumada para o Mestre,
não fiquemos cabisbaixos
pela flagrante incapacidade
de mostrar superioridade moral.
que não haja motivos
para se curvar.
Que os olhos
contemplem todos os olhos.
Que as palavras
confirmem todas as práticas.
Do contrário,
quando nos visitem
as horas do testemunho,
tal qual os
Doutores da Lei em casa de Simão
ante a presença insólita:
Madalena,
com a ânfora perfumada para o Mestre,
não fiquemos cabisbaixos
pela flagrante incapacidade
de mostrar superioridade moral.
883
Birão Santana
Ânfora Perfumada
É preciso
que não haja motivos
para se curvar.
Que os olhos
contemplem todos os olhos.
Que as palavras
confirmem todas as práticas.
Do contrário,
quando nos visitem
as horas do testemunho,
tal qual os
Doutores da Lei em casa de Simão
ante a presença insólita:
Madalena,
com a ânfora perfumada para o Mestre,
não fiquemos cabisbaixos
pela flagrante incapacidade
de mostrar superioridade moral.
que não haja motivos
para se curvar.
Que os olhos
contemplem todos os olhos.
Que as palavras
confirmem todas as práticas.
Do contrário,
quando nos visitem
as horas do testemunho,
tal qual os
Doutores da Lei em casa de Simão
ante a presença insólita:
Madalena,
com a ânfora perfumada para o Mestre,
não fiquemos cabisbaixos
pela flagrante incapacidade
de mostrar superioridade moral.
883
Júlio Maciel
Boigrafia
(l888-1967)
Estamos nos aproximando cada vez mais da fase pré-modernista e do Modernismo, quando muitos poetas já vão tentando, por conhecimento ou intuitivamente, deixar a ortodoxia do Simbolismo e do Parnasianismo, mas, curiosamente, fazendo ainda reverência ao sentimento romântico. No caso de Júlio Maciel, quando larga as amarras formais (sonetos de rimas irregulares), assina seus versos com pseudônimo.
Júlio Barbosa Maciel nasceu em Baturité, no dia 28 de abril de 1888 e cedo transferiu-se para Fortaleza, onde estudou no Colégio Colombo e no Liceu do Ceará. Viaja para o Rio de Janeiro para estudar na Faculdade de Direito. Formado, volta ao Ceará e terá um grande périplo como Promotor Público pelo interior do Estado, Quixeramobim, Baturité, Crato. Foi juiz ainda em Caririaçu, Cedro, Assare, Icó, Russas, Granja.
Como poeta, começa cedo Júlio Maciel a lidar com os versos, publicando seus sonetos nas revistas 31 de Agosto e Fortaleza, isso quando andava ainda pelos quinze anos de idade, em 1902. Ainda colabora noutra revista de Joaquim Pimenta, Terra da Luz, em 1908. Os poemas reunidos, em livro de estréia, só saíriam em 1918, Terra Mártir. O segundo livro só virá em 1943, Poemas da Solidão.
Obra poética definida, os cearenses destacam dois, de fato, extraordinários sonetos de Júlio Maciel, Jacarecanga e Verde, em que o poeta, com dicção forte e pessoal, exalta o passado histórico do Ceará e o verde na "ressurreição do Sertão rudo".
Para o crítico e também poeta Sânzio de Azevedo, o segundo soneto citado é "um dos mais belos de toda a poesia cearense", pelo apuro formal, pelo lirismo, e que poderá ser lido daqui a vinte anos "com o mesmo prazer estético, sem o ranço que costumam criar as ortodoxias".
Júlio Maciel pertenceu à Academia Cearense de Letras, onde ocupou a Cadeira de nº 28, patrono Mário da Silveira. Morreu em Fortaleza no dia 8 de abril de 1967.
Estamos nos aproximando cada vez mais da fase pré-modernista e do Modernismo, quando muitos poetas já vão tentando, por conhecimento ou intuitivamente, deixar a ortodoxia do Simbolismo e do Parnasianismo, mas, curiosamente, fazendo ainda reverência ao sentimento romântico. No caso de Júlio Maciel, quando larga as amarras formais (sonetos de rimas irregulares), assina seus versos com pseudônimo.
Júlio Barbosa Maciel nasceu em Baturité, no dia 28 de abril de 1888 e cedo transferiu-se para Fortaleza, onde estudou no Colégio Colombo e no Liceu do Ceará. Viaja para o Rio de Janeiro para estudar na Faculdade de Direito. Formado, volta ao Ceará e terá um grande périplo como Promotor Público pelo interior do Estado, Quixeramobim, Baturité, Crato. Foi juiz ainda em Caririaçu, Cedro, Assare, Icó, Russas, Granja.
Como poeta, começa cedo Júlio Maciel a lidar com os versos, publicando seus sonetos nas revistas 31 de Agosto e Fortaleza, isso quando andava ainda pelos quinze anos de idade, em 1902. Ainda colabora noutra revista de Joaquim Pimenta, Terra da Luz, em 1908. Os poemas reunidos, em livro de estréia, só saíriam em 1918, Terra Mártir. O segundo livro só virá em 1943, Poemas da Solidão.
Obra poética definida, os cearenses destacam dois, de fato, extraordinários sonetos de Júlio Maciel, Jacarecanga e Verde, em que o poeta, com dicção forte e pessoal, exalta o passado histórico do Ceará e o verde na "ressurreição do Sertão rudo".
Para o crítico e também poeta Sânzio de Azevedo, o segundo soneto citado é "um dos mais belos de toda a poesia cearense", pelo apuro formal, pelo lirismo, e que poderá ser lido daqui a vinte anos "com o mesmo prazer estético, sem o ranço que costumam criar as ortodoxias".
Júlio Maciel pertenceu à Academia Cearense de Letras, onde ocupou a Cadeira de nº 28, patrono Mário da Silveira. Morreu em Fortaleza no dia 8 de abril de 1967.
1 207
Branquinho da Fonseca
O Arquipélago das Sereias
Ó nau Catarineta
Em que andei no mar
Por caminhos de ir,
Nunca de voltar!
Veio a tempestade
Perder-se do mundo,
Fez-se o céu infindo,
Fez-se o mar sem fundo!
Ai como era grande
O mundo e a vida
Se a nau, tendo estrela,
Vogava perdida!
E que lindas eram
Lá em Portugal
Aquelas meninas
No seu laranjal!
E o cavalo branco
Também lá o via
Que tão belo e alado
Nenhum outro havia!
Mundo que não era,
Terras nunca vistas!
Tive eu de perder-me
Pra que tu existas.
Ó nau Catarineta
Perdida no mar,
Não te percas ainda,
Vem-me cá buscar!
Em que andei no mar
Por caminhos de ir,
Nunca de voltar!
Veio a tempestade
Perder-se do mundo,
Fez-se o céu infindo,
Fez-se o mar sem fundo!
Ai como era grande
O mundo e a vida
Se a nau, tendo estrela,
Vogava perdida!
E que lindas eram
Lá em Portugal
Aquelas meninas
No seu laranjal!
E o cavalo branco
Também lá o via
Que tão belo e alado
Nenhum outro havia!
Mundo que não era,
Terras nunca vistas!
Tive eu de perder-me
Pra que tu existas.
Ó nau Catarineta
Perdida no mar,
Não te percas ainda,
Vem-me cá buscar!
2 044
Bento Prado Júnior
II
A Manoel Carlos
Amadureceu em mim
esta palavra e pronta para o vôo,
depois de exaurir o que ofertava
a ela o corpo gasto pelo esforço
surdo da criação, deslizou pela
boca. E agora que resta, cumprido
este exercício lento e grave da
revelação, se apenas o arremedo,
ineficaz ensaio de verdade,
foi alcançado? Resta a exaustão,
mãos trêmulas, a cara contra o chão,
resta o lamento. Resta o reinício,
a longa e calcinada espera. Resta-me
reter a força para o outro gesto.
Amadureceu em mim
esta palavra e pronta para o vôo,
depois de exaurir o que ofertava
a ela o corpo gasto pelo esforço
surdo da criação, deslizou pela
boca. E agora que resta, cumprido
este exercício lento e grave da
revelação, se apenas o arremedo,
ineficaz ensaio de verdade,
foi alcançado? Resta a exaustão,
mãos trêmulas, a cara contra o chão,
resta o lamento. Resta o reinício,
a longa e calcinada espera. Resta-me
reter a força para o outro gesto.
1 182
Artur Eduardo Benevides
Morreste
1.
Morreste, afinal, ó poeta geral,
ou prossegues, lívido, a cantar
à paz de teu silêncio
e ao verde-azul
do mar?
Se ponho — sim, estás vivendo em mim.
Se digo — não, contemplo-te em canção,
qual fantasma, insone, a vagar
em nossa solidão.
Se morreste, também morreu Ricardo
e Álvaro se foi, partiu Alberto.
Ou todos esses e quantos mais tu foste
— como as máscaras gregas da tragédia —
só viveram no poema, no teu verso,
pendurados na dor dos vilancetes?, no teu verso,
pendurados na dor dos vilancetes?
Pode um poeta perder o seu futuro
ou a morte não passa de interlúdio
no resfolgar fatal de seus ginetes?
E o fingimento? E todo o sal do mar
nascido das guitarras marinheiras
na hora de cantar?
Ai, cantar e chorar
são sempre a mesma cousa!
Ambos rimam conosco e inscrevem-se na lousa
que vai cobrir o que de essência somos.
E tu, irmão do Tejo, do Lima e do Montego,
por que tão perto estás e és cacto com medo
a perecer no meio de um deserto?
Oh, o teu verso tão certo a brilhar
sobre os homens e o mar
português!
Teu verso que se fez
de sono, mito, encantação e olhar.
Mesmo não crendo, creste. E assim criavas
novas formas de fé que alimentavam
a lenta sombra rubra da existência.
E foste na tarde a sobretarde
e no real/irreal a consciência
em fome de verdade.
E cantaste da vida a brevidade
entre o sempre e o jamais, a mágoa
e a História.
E nossa foi
tua vasta visão premonitória.
2.
É certo: em brumas sobrevéns
de Alcácer-Quibir.
Foi-te dado com isso pressentir
o mistério do tempo e da memória,
o lá-dentro das cousas e o lá-fora,
a estrada de Delfos e de Ofir.
Então, se tal se deu, nunca morreste.
Estás nos tombadilhos, a boreste,
com capa e pince-nez, a viajar.
E aqui ficamos a te reinventar
como as nuvens inventam sua sombra
de naves fantásticas no mar.
O mar de Camões. O reino das canções.
A concha dos mistérios e navegações.
E aqui te esperamos.
Virás — quem sabe — de qualquer ilhota
(ao lado de Almada e Sá-Carneiro)
no solitário voar das gaivotas.
Ou te erguerás, triunfal, a qualquer hora,
de algum poema teu, à luz de auroras.
Ou talvez desardomeças num soneto
inglês. E todos de uma vez
gritaremos teu nome que não some
e é camerata, e luz, e dor, e ritmo,
ou sagrado logaritmo
nas álgebras
do poema.
3.
No tempo te saúdo. Não te enxergo
na morte silenciosa. E só estás mudo.
A tua voz se oculta entre as ramagens
da árvore da vida. A tua voz
ferida. A tua voz
tão perto e tão distante.
Voz, como os perfumes, caminhante,
na curva e contracurva de algum fado.
E aqui estou, igual a ti, parado,
a louvar tua face essencial.
Teu sonho delirante e teu naval
olhar.
Ou o teu guitarreio e suspirar.
Ou o maldizer. Ou o teu saber.
Ou o teu grito crescendo em solidão
no reino de Netuno ou de Plutão.
Morreste, afinal, ó poeta geral,
ou prossegues, lívido, a cantar
à paz de teu silêncio
e ao verde-azul
do mar?
Se ponho — sim, estás vivendo em mim.
Se digo — não, contemplo-te em canção,
qual fantasma, insone, a vagar
em nossa solidão.
Se morreste, também morreu Ricardo
e Álvaro se foi, partiu Alberto.
Ou todos esses e quantos mais tu foste
— como as máscaras gregas da tragédia —
só viveram no poema, no teu verso,
pendurados na dor dos vilancetes?, no teu verso,
pendurados na dor dos vilancetes?
Pode um poeta perder o seu futuro
ou a morte não passa de interlúdio
no resfolgar fatal de seus ginetes?
E o fingimento? E todo o sal do mar
nascido das guitarras marinheiras
na hora de cantar?
Ai, cantar e chorar
são sempre a mesma cousa!
Ambos rimam conosco e inscrevem-se na lousa
que vai cobrir o que de essência somos.
E tu, irmão do Tejo, do Lima e do Montego,
por que tão perto estás e és cacto com medo
a perecer no meio de um deserto?
Oh, o teu verso tão certo a brilhar
sobre os homens e o mar
português!
Teu verso que se fez
de sono, mito, encantação e olhar.
Mesmo não crendo, creste. E assim criavas
novas formas de fé que alimentavam
a lenta sombra rubra da existência.
E foste na tarde a sobretarde
e no real/irreal a consciência
em fome de verdade.
E cantaste da vida a brevidade
entre o sempre e o jamais, a mágoa
e a História.
E nossa foi
tua vasta visão premonitória.
2.
É certo: em brumas sobrevéns
de Alcácer-Quibir.
Foi-te dado com isso pressentir
o mistério do tempo e da memória,
o lá-dentro das cousas e o lá-fora,
a estrada de Delfos e de Ofir.
Então, se tal se deu, nunca morreste.
Estás nos tombadilhos, a boreste,
com capa e pince-nez, a viajar.
E aqui ficamos a te reinventar
como as nuvens inventam sua sombra
de naves fantásticas no mar.
O mar de Camões. O reino das canções.
A concha dos mistérios e navegações.
E aqui te esperamos.
Virás — quem sabe — de qualquer ilhota
(ao lado de Almada e Sá-Carneiro)
no solitário voar das gaivotas.
Ou te erguerás, triunfal, a qualquer hora,
de algum poema teu, à luz de auroras.
Ou talvez desardomeças num soneto
inglês. E todos de uma vez
gritaremos teu nome que não some
e é camerata, e luz, e dor, e ritmo,
ou sagrado logaritmo
nas álgebras
do poema.
3.
No tempo te saúdo. Não te enxergo
na morte silenciosa. E só estás mudo.
A tua voz se oculta entre as ramagens
da árvore da vida. A tua voz
ferida. A tua voz
tão perto e tão distante.
Voz, como os perfumes, caminhante,
na curva e contracurva de algum fado.
E aqui estou, igual a ti, parado,
a louvar tua face essencial.
Teu sonho delirante e teu naval
olhar.
Ou o teu guitarreio e suspirar.
Ou o maldizer. Ou o teu saber.
Ou o teu grito crescendo em solidão
no reino de Netuno ou de Plutão.
1 436
Bruno Araújo de Melo
Deserto no Litoral
E sempre achávamos que o próximo minuto
Poderia trazer de volta a magia dos inocentes...
Mas o vento soprou forte
E até que ponto fomos levados
Para longe da costa?
Ainda ontem tentei lembrar
E... Que engraçado!
Todo o passado sorria!
Às vezes penso em fazer as malas,
Mas desisto quando vejo
Que todo lugar é como aqui:
As pessoas sufocam o tempo
E deixam de lado as ondas do mar
Que ainda ontem batiam tão bonitas
Nas pedras que miravam a liberdade.
Vem!
Me dá a mão!
Vamos sair daqui
Dessa cidade,
E vamos andar!
E quem sabe um dia
Quando os anjos cantarem
Num ato extremo de doçura
Nossos olhos não divisem
Uma forma concreta de sorriso?
Agora toda culpa é o que devemos fazer
Para fugir desse imenso deserto no litoral.
Poderia trazer de volta a magia dos inocentes...
Mas o vento soprou forte
E até que ponto fomos levados
Para longe da costa?
Ainda ontem tentei lembrar
E... Que engraçado!
Todo o passado sorria!
Às vezes penso em fazer as malas,
Mas desisto quando vejo
Que todo lugar é como aqui:
As pessoas sufocam o tempo
E deixam de lado as ondas do mar
Que ainda ontem batiam tão bonitas
Nas pedras que miravam a liberdade.
Vem!
Me dá a mão!
Vamos sair daqui
Dessa cidade,
E vamos andar!
E quem sabe um dia
Quando os anjos cantarem
Num ato extremo de doçura
Nossos olhos não divisem
Uma forma concreta de sorriso?
Agora toda culpa é o que devemos fazer
Para fugir desse imenso deserto no litoral.
723
Bruno Araújo de Melo
Deserto no Litoral
E sempre achávamos que o próximo minuto
Poderia trazer de volta a magia dos inocentes...
Mas o vento soprou forte
E até que ponto fomos levados
Para longe da costa?
Ainda ontem tentei lembrar
E... Que engraçado!
Todo o passado sorria!
Às vezes penso em fazer as malas,
Mas desisto quando vejo
Que todo lugar é como aqui:
As pessoas sufocam o tempo
E deixam de lado as ondas do mar
Que ainda ontem batiam tão bonitas
Nas pedras que miravam a liberdade.
Vem!
Me dá a mão!
Vamos sair daqui
Dessa cidade,
E vamos andar!
E quem sabe um dia
Quando os anjos cantarem
Num ato extremo de doçura
Nossos olhos não divisem
Uma forma concreta de sorriso?
Agora toda culpa é o que devemos fazer
Para fugir desse imenso deserto no litoral.
Poderia trazer de volta a magia dos inocentes...
Mas o vento soprou forte
E até que ponto fomos levados
Para longe da costa?
Ainda ontem tentei lembrar
E... Que engraçado!
Todo o passado sorria!
Às vezes penso em fazer as malas,
Mas desisto quando vejo
Que todo lugar é como aqui:
As pessoas sufocam o tempo
E deixam de lado as ondas do mar
Que ainda ontem batiam tão bonitas
Nas pedras que miravam a liberdade.
Vem!
Me dá a mão!
Vamos sair daqui
Dessa cidade,
E vamos andar!
E quem sabe um dia
Quando os anjos cantarem
Num ato extremo de doçura
Nossos olhos não divisem
Uma forma concreta de sorriso?
Agora toda culpa é o que devemos fazer
Para fugir desse imenso deserto no litoral.
723
Anízio Vianna
minha semana de trabalho
minha semana de trabalho pede um domingo assim
como a planta pede água assim como a terra pede
música assim como o poema pede pra ser lido minha
semana de trabalho árduo árduo árduo pede um
domingo assim como o poema não pede pra ter sido
assim como a letra não pede pra ser hino assim como a
planta não pede não perde por esperar água da bica
como a planta pede água assim como a terra pede
música assim como o poema pede pra ser lido minha
semana de trabalho árduo árduo árduo pede um
domingo assim como o poema não pede pra ter sido
assim como a letra não pede pra ser hino assim como a
planta não pede não perde por esperar água da bica
1 360
Anízio Vianna
minha semana de trabalho
minha semana de trabalho pede um domingo assim
como a planta pede água assim como a terra pede
música assim como o poema pede pra ser lido minha
semana de trabalho árduo árduo árduo pede um
domingo assim como o poema não pede pra ter sido
assim como a letra não pede pra ser hino assim como a
planta não pede não perde por esperar água da bica
como a planta pede água assim como a terra pede
música assim como o poema pede pra ser lido minha
semana de trabalho árduo árduo árduo pede um
domingo assim como o poema não pede pra ter sido
assim como a letra não pede pra ser hino assim como a
planta não pede não perde por esperar água da bica
1 360
José Armelim
Augusta
A azáfama é enorme!
Corpos de olhar distante,
Submersos e deslocados.
Um a um, e por rotina,
Batem e chocam absortos
Na multidão solitária
Da rua que se despe,
Por detrás de qual biombo,
Onde se esconde a ansiedade.
Respiram extenuados
Gases, venenos fumados,
Monóxidas correntes, correntes
De toldos, gritos, pregões
De gente, de muitas gentes,
Numa osmose de ilusões!
Cruza, cruza, pára e olha
Pára e olha, cruza, cruza,
Uma mulher de blusa.
Revira, vira, depenica
Apalpa fruta, compra alguma
Gesticula pára e estuda.
Fecha os olhos de cansaço
Respira fundo, bem lá dentro
Trás fadiga no regaço.
Compra carne que está cara,
Pára e olha, apressa o passo.
Tique tique contrabaixo,
Rua acima, rua abaixo.
O tempo é pouco e escasso...
Corre sempre, gira gira
Já são horas de andar,
De fazer mais um jantar,
Pra depois ir trabalhar.
Mulher vende, mulher compra
Vira, vira. Enquanto dura,
Sai dinheiro, paga a conta,
Volta à rua, pára e olha,
Mira a avenida inundada
Todinha de lés a lés
Onde, por doido vaivém,
Não há lugar para os pés...
E volta de novo a casa
Onde renasce a canseira,
Onde floresce a fadiga.
Que nisto de trabalhar,
É sempre à mesma maneira
É sempre sempre a girar.
E em constante rodopio,
Suor banhando-lhe o rosto,
Maria lá se penteia.
É sempre desta maneira
A vida desta Maria!...
E, atrasada pró trabalho,
Lá vai Maria com pressa
Que, dentro do mesmo dia,
Um outro dia começa.
Corpos de olhar distante,
Submersos e deslocados.
Um a um, e por rotina,
Batem e chocam absortos
Na multidão solitária
Da rua que se despe,
Por detrás de qual biombo,
Onde se esconde a ansiedade.
Respiram extenuados
Gases, venenos fumados,
Monóxidas correntes, correntes
De toldos, gritos, pregões
De gente, de muitas gentes,
Numa osmose de ilusões!
Cruza, cruza, pára e olha
Pára e olha, cruza, cruza,
Uma mulher de blusa.
Revira, vira, depenica
Apalpa fruta, compra alguma
Gesticula pára e estuda.
Fecha os olhos de cansaço
Respira fundo, bem lá dentro
Trás fadiga no regaço.
Compra carne que está cara,
Pára e olha, apressa o passo.
Tique tique contrabaixo,
Rua acima, rua abaixo.
O tempo é pouco e escasso...
Corre sempre, gira gira
Já são horas de andar,
De fazer mais um jantar,
Pra depois ir trabalhar.
Mulher vende, mulher compra
Vira, vira. Enquanto dura,
Sai dinheiro, paga a conta,
Volta à rua, pára e olha,
Mira a avenida inundada
Todinha de lés a lés
Onde, por doido vaivém,
Não há lugar para os pés...
E volta de novo a casa
Onde renasce a canseira,
Onde floresce a fadiga.
Que nisto de trabalhar,
É sempre à mesma maneira
É sempre sempre a girar.
E em constante rodopio,
Suor banhando-lhe o rosto,
Maria lá se penteia.
É sempre desta maneira
A vida desta Maria!...
E, atrasada pró trabalho,
Lá vai Maria com pressa
Que, dentro do mesmo dia,
Um outro dia começa.
967
José Armelim
Augusta
A azáfama é enorme!
Corpos de olhar distante,
Submersos e deslocados.
Um a um, e por rotina,
Batem e chocam absortos
Na multidão solitária
Da rua que se despe,
Por detrás de qual biombo,
Onde se esconde a ansiedade.
Respiram extenuados
Gases, venenos fumados,
Monóxidas correntes, correntes
De toldos, gritos, pregões
De gente, de muitas gentes,
Numa osmose de ilusões!
Cruza, cruza, pára e olha
Pára e olha, cruza, cruza,
Uma mulher de blusa.
Revira, vira, depenica
Apalpa fruta, compra alguma
Gesticula pára e estuda.
Fecha os olhos de cansaço
Respira fundo, bem lá dentro
Trás fadiga no regaço.
Compra carne que está cara,
Pára e olha, apressa o passo.
Tique tique contrabaixo,
Rua acima, rua abaixo.
O tempo é pouco e escasso...
Corre sempre, gira gira
Já são horas de andar,
De fazer mais um jantar,
Pra depois ir trabalhar.
Mulher vende, mulher compra
Vira, vira. Enquanto dura,
Sai dinheiro, paga a conta,
Volta à rua, pára e olha,
Mira a avenida inundada
Todinha de lés a lés
Onde, por doido vaivém,
Não há lugar para os pés...
E volta de novo a casa
Onde renasce a canseira,
Onde floresce a fadiga.
Que nisto de trabalhar,
É sempre à mesma maneira
É sempre sempre a girar.
E em constante rodopio,
Suor banhando-lhe o rosto,
Maria lá se penteia.
É sempre desta maneira
A vida desta Maria!...
E, atrasada pró trabalho,
Lá vai Maria com pressa
Que, dentro do mesmo dia,
Um outro dia começa.
Corpos de olhar distante,
Submersos e deslocados.
Um a um, e por rotina,
Batem e chocam absortos
Na multidão solitária
Da rua que se despe,
Por detrás de qual biombo,
Onde se esconde a ansiedade.
Respiram extenuados
Gases, venenos fumados,
Monóxidas correntes, correntes
De toldos, gritos, pregões
De gente, de muitas gentes,
Numa osmose de ilusões!
Cruza, cruza, pára e olha
Pára e olha, cruza, cruza,
Uma mulher de blusa.
Revira, vira, depenica
Apalpa fruta, compra alguma
Gesticula pára e estuda.
Fecha os olhos de cansaço
Respira fundo, bem lá dentro
Trás fadiga no regaço.
Compra carne que está cara,
Pára e olha, apressa o passo.
Tique tique contrabaixo,
Rua acima, rua abaixo.
O tempo é pouco e escasso...
Corre sempre, gira gira
Já são horas de andar,
De fazer mais um jantar,
Pra depois ir trabalhar.
Mulher vende, mulher compra
Vira, vira. Enquanto dura,
Sai dinheiro, paga a conta,
Volta à rua, pára e olha,
Mira a avenida inundada
Todinha de lés a lés
Onde, por doido vaivém,
Não há lugar para os pés...
E volta de novo a casa
Onde renasce a canseira,
Onde floresce a fadiga.
Que nisto de trabalhar,
É sempre à mesma maneira
É sempre sempre a girar.
E em constante rodopio,
Suor banhando-lhe o rosto,
Maria lá se penteia.
É sempre desta maneira
A vida desta Maria!...
E, atrasada pró trabalho,
Lá vai Maria com pressa
Que, dentro do mesmo dia,
Um outro dia começa.
967
José Armelim
Augusta
A azáfama é enorme!
Corpos de olhar distante,
Submersos e deslocados.
Um a um, e por rotina,
Batem e chocam absortos
Na multidão solitária
Da rua que se despe,
Por detrás de qual biombo,
Onde se esconde a ansiedade.
Respiram extenuados
Gases, venenos fumados,
Monóxidas correntes, correntes
De toldos, gritos, pregões
De gente, de muitas gentes,
Numa osmose de ilusões!
Cruza, cruza, pára e olha
Pára e olha, cruza, cruza,
Uma mulher de blusa.
Revira, vira, depenica
Apalpa fruta, compra alguma
Gesticula pára e estuda.
Fecha os olhos de cansaço
Respira fundo, bem lá dentro
Trás fadiga no regaço.
Compra carne que está cara,
Pára e olha, apressa o passo.
Tique tique contrabaixo,
Rua acima, rua abaixo.
O tempo é pouco e escasso...
Corre sempre, gira gira
Já são horas de andar,
De fazer mais um jantar,
Pra depois ir trabalhar.
Mulher vende, mulher compra
Vira, vira. Enquanto dura,
Sai dinheiro, paga a conta,
Volta à rua, pára e olha,
Mira a avenida inundada
Todinha de lés a lés
Onde, por doido vaivém,
Não há lugar para os pés...
E volta de novo a casa
Onde renasce a canseira,
Onde floresce a fadiga.
Que nisto de trabalhar,
É sempre à mesma maneira
É sempre sempre a girar.
E em constante rodopio,
Suor banhando-lhe o rosto,
Maria lá se penteia.
É sempre desta maneira
A vida desta Maria!...
E, atrasada pró trabalho,
Lá vai Maria com pressa
Que, dentro do mesmo dia,
Um outro dia começa.
Corpos de olhar distante,
Submersos e deslocados.
Um a um, e por rotina,
Batem e chocam absortos
Na multidão solitária
Da rua que se despe,
Por detrás de qual biombo,
Onde se esconde a ansiedade.
Respiram extenuados
Gases, venenos fumados,
Monóxidas correntes, correntes
De toldos, gritos, pregões
De gente, de muitas gentes,
Numa osmose de ilusões!
Cruza, cruza, pára e olha
Pára e olha, cruza, cruza,
Uma mulher de blusa.
Revira, vira, depenica
Apalpa fruta, compra alguma
Gesticula pára e estuda.
Fecha os olhos de cansaço
Respira fundo, bem lá dentro
Trás fadiga no regaço.
Compra carne que está cara,
Pára e olha, apressa o passo.
Tique tique contrabaixo,
Rua acima, rua abaixo.
O tempo é pouco e escasso...
Corre sempre, gira gira
Já são horas de andar,
De fazer mais um jantar,
Pra depois ir trabalhar.
Mulher vende, mulher compra
Vira, vira. Enquanto dura,
Sai dinheiro, paga a conta,
Volta à rua, pára e olha,
Mira a avenida inundada
Todinha de lés a lés
Onde, por doido vaivém,
Não há lugar para os pés...
E volta de novo a casa
Onde renasce a canseira,
Onde floresce a fadiga.
Que nisto de trabalhar,
É sempre à mesma maneira
É sempre sempre a girar.
E em constante rodopio,
Suor banhando-lhe o rosto,
Maria lá se penteia.
É sempre desta maneira
A vida desta Maria!...
E, atrasada pró trabalho,
Lá vai Maria com pressa
Que, dentro do mesmo dia,
Um outro dia começa.
967
Aymar Mendonça
Busca
Um quadro futurista
uma mosca pousada na parede
um barbante enroscado no chão
O pensamento busca mistérios
cria mantras
enquanto a realidade transita
entre o barulho da máquina de lavar
e uma réstea de sol varando o vidro.
uma mosca pousada na parede
um barbante enroscado no chão
O pensamento busca mistérios
cria mantras
enquanto a realidade transita
entre o barulho da máquina de lavar
e uma réstea de sol varando o vidro.
950
António Arnaut
Os Títulos
Rei de Portugal e dos Algarves
e o resto que o mar te deu.
Agora tens o aquém
Porque o além se perdeu.
Agora tens o que é teu!
e o resto que o mar te deu.
Agora tens o aquém
Porque o além se perdeu.
Agora tens o que é teu!
1 298
Alcides Werk
Soneto Aberto Sobre A Morte
Hoje é dia de festa nesta casa:
festa dos círios e das lamparinas.
Um corpo magro sobre a mesa, e a porta
de esteira aberta para os companheiros.
Beatas, terço, cafezinho, estórias,
o choro inútil da mulher sozinha,
a promessa do céu dos escolhidos
e uma herança de palha e de abandono.
Brasileiro, do norte, agricultor.
Semeou, semeou a vida inteira,
fez o campo florir por tantas vezes,
alimentou mil pássaros vadios,
foi sempre bom, mas nunca teve sorte,
e se vestiu de trapos para a morte.
festa dos círios e das lamparinas.
Um corpo magro sobre a mesa, e a porta
de esteira aberta para os companheiros.
Beatas, terço, cafezinho, estórias,
o choro inútil da mulher sozinha,
a promessa do céu dos escolhidos
e uma herança de palha e de abandono.
Brasileiro, do norte, agricultor.
Semeou, semeou a vida inteira,
fez o campo florir por tantas vezes,
alimentou mil pássaros vadios,
foi sempre bom, mas nunca teve sorte,
e se vestiu de trapos para a morte.
1 152
Beatriz Alcântara
Tiradentes
O perfume da dama da noite apouca
séculos de vielas íngremes
tempo cansado de ver subir descer
ruas de pedra vermelha roliça
a entremear-se com outra em lâmina.
O perfume da dama da noite destouca
Lembranças da inconfidência insubmissa
enquanto a igreja no alto de portões cerrados
parece não acreditar por não se ofender
pecados de hoje já por tantos sussurrados.
O perfume da dama da noite touca
a brisa que volteia jardins e casas
candeeiros solitários de chama mortiça
amigos à volta da mesa grande a comer
jantar entre vinho e risos preparado.
O perfume da dama da noite treslouca
quem a vida dos outros cobiça
não aceita pelo amor viver sobre brasas
com os encantos namorados sente desprazer
gemidos a ecoarem no coração angustiado.
séculos de vielas íngremes
tempo cansado de ver subir descer
ruas de pedra vermelha roliça
a entremear-se com outra em lâmina.
O perfume da dama da noite destouca
Lembranças da inconfidência insubmissa
enquanto a igreja no alto de portões cerrados
parece não acreditar por não se ofender
pecados de hoje já por tantos sussurrados.
O perfume da dama da noite touca
a brisa que volteia jardins e casas
candeeiros solitários de chama mortiça
amigos à volta da mesa grande a comer
jantar entre vinho e risos preparado.
O perfume da dama da noite treslouca
quem a vida dos outros cobiça
não aceita pelo amor viver sobre brasas
com os encantos namorados sente desprazer
gemidos a ecoarem no coração angustiado.
1 008
Beatriz Alcântara
Tiradentes
O perfume da dama da noite apouca
séculos de vielas íngremes
tempo cansado de ver subir descer
ruas de pedra vermelha roliça
a entremear-se com outra em lâmina.
O perfume da dama da noite destouca
Lembranças da inconfidência insubmissa
enquanto a igreja no alto de portões cerrados
parece não acreditar por não se ofender
pecados de hoje já por tantos sussurrados.
O perfume da dama da noite touca
a brisa que volteia jardins e casas
candeeiros solitários de chama mortiça
amigos à volta da mesa grande a comer
jantar entre vinho e risos preparado.
O perfume da dama da noite treslouca
quem a vida dos outros cobiça
não aceita pelo amor viver sobre brasas
com os encantos namorados sente desprazer
gemidos a ecoarem no coração angustiado.
séculos de vielas íngremes
tempo cansado de ver subir descer
ruas de pedra vermelha roliça
a entremear-se com outra em lâmina.
O perfume da dama da noite destouca
Lembranças da inconfidência insubmissa
enquanto a igreja no alto de portões cerrados
parece não acreditar por não se ofender
pecados de hoje já por tantos sussurrados.
O perfume da dama da noite touca
a brisa que volteia jardins e casas
candeeiros solitários de chama mortiça
amigos à volta da mesa grande a comer
jantar entre vinho e risos preparado.
O perfume da dama da noite treslouca
quem a vida dos outros cobiça
não aceita pelo amor viver sobre brasas
com os encantos namorados sente desprazer
gemidos a ecoarem no coração angustiado.
1 008
Argemiro de Paula Garcia Filho
Estação Paraíso
Não tenho um jornal
Não trouxe um livro
Não tenho inspiração
pra uma poesia.
Que engarrafamento mais besta!
Ônibus lançam
fuligem e monóxido
de carbono
dando um sono
terrível nos passageiros
seres que neles se penduram.
Pernas por trás de panos
translúcidos
pelos por trás de panos
opacos
pensamentos sensuais
encobertos pelos cabelos
escorrem gota a gota
de suor e óleo diesel.
S.Paulo, 14/2/85
Não trouxe um livro
Não tenho inspiração
pra uma poesia.
Que engarrafamento mais besta!
Ônibus lançam
fuligem e monóxido
de carbono
dando um sono
terrível nos passageiros
seres que neles se penduram.
Pernas por trás de panos
translúcidos
pelos por trás de panos
opacos
pensamentos sensuais
encobertos pelos cabelos
escorrem gota a gota
de suor e óleo diesel.
S.Paulo, 14/2/85
1 002
Argemiro de Paula Garcia Filho
Pedido de Desligamento
Senhor CAlex,
por favor não me incomode,
meu correio
anda cheio
de tanta aporrinhação.
Senhor CAlex,
a poesia não me acode
o que eu quero e ter dinheiro
tanto assim que, em fevereiro,
eu trabalho pro patrão.
Senhor CAlex,
que vantagem o senhor leva
em mandar tanta poesia,
a tanta gente, todo dia,
sem receber um tostão?
Senhor CAlex,
quero a vida sempre em treva,
não quero trova,
a poesia não escova
meu bolso sempre sem tostão.
Salvador, 19/12/96
por favor não me incomode,
meu correio
anda cheio
de tanta aporrinhação.
Senhor CAlex,
a poesia não me acode
o que eu quero e ter dinheiro
tanto assim que, em fevereiro,
eu trabalho pro patrão.
Senhor CAlex,
que vantagem o senhor leva
em mandar tanta poesia,
a tanta gente, todo dia,
sem receber um tostão?
Senhor CAlex,
quero a vida sempre em treva,
não quero trova,
a poesia não escova
meu bolso sempre sem tostão.
Salvador, 19/12/96
1 024
Argemiro de Paula Garcia Filho
Pedido de Desligamento
Senhor CAlex,
por favor não me incomode,
meu correio
anda cheio
de tanta aporrinhação.
Senhor CAlex,
a poesia não me acode
o que eu quero e ter dinheiro
tanto assim que, em fevereiro,
eu trabalho pro patrão.
Senhor CAlex,
que vantagem o senhor leva
em mandar tanta poesia,
a tanta gente, todo dia,
sem receber um tostão?
Senhor CAlex,
quero a vida sempre em treva,
não quero trova,
a poesia não escova
meu bolso sempre sem tostão.
Salvador, 19/12/96
por favor não me incomode,
meu correio
anda cheio
de tanta aporrinhação.
Senhor CAlex,
a poesia não me acode
o que eu quero e ter dinheiro
tanto assim que, em fevereiro,
eu trabalho pro patrão.
Senhor CAlex,
que vantagem o senhor leva
em mandar tanta poesia,
a tanta gente, todo dia,
sem receber um tostão?
Senhor CAlex,
quero a vida sempre em treva,
não quero trova,
a poesia não escova
meu bolso sempre sem tostão.
Salvador, 19/12/96
1 024
António Arnaut
Gloria Efémera
O rosto do cartaz eleitoral
sobre um fundo de promessas, a sorrir
lembrava um maioral
a franquear as portas do porvir.
Vota! O apelo era um alaúde
a embalar a fome atávica da grei;
haverá trabalho, habitação, saúde,
tudo o que at´´a gora não vos dei.
Mas o vento límpido, ingrato
naquele domingo de eleições
ia desfazendo o candidato
em cruéis, frenéticos rasgões.
E quando a noite desceu
um varredor indeciso,
sonâmbulo, varreu
os últimos detritos do sorriso.
sobre um fundo de promessas, a sorrir
lembrava um maioral
a franquear as portas do porvir.
Vota! O apelo era um alaúde
a embalar a fome atávica da grei;
haverá trabalho, habitação, saúde,
tudo o que at´´a gora não vos dei.
Mas o vento límpido, ingrato
naquele domingo de eleições
ia desfazendo o candidato
em cruéis, frenéticos rasgões.
E quando a noite desceu
um varredor indeciso,
sonâmbulo, varreu
os últimos detritos do sorriso.
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