Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Aleilton Fonseca
motivo
calar é ceder à morte
sob o gume da automordaça
o grito é o sangue da vida,
dardo do espírito inquieto
por isso
(meu) grito!
júbilo ou/e dor
sei que eles despedaçam silêncios,
abarrotam vazios e conquistam rumos
que nunca seriam devassados
não fosse sua viagem no tempo
sobretudo
têm o condão de ressuscitar
fragmentos de mim
porventura tombados nalgum combate
oculto nas moitas do tempo
sob o gume da automordaça
o grito é o sangue da vida,
dardo do espírito inquieto
por isso
(meu) grito!
júbilo ou/e dor
sei que eles despedaçam silêncios,
abarrotam vazios e conquistam rumos
que nunca seriam devassados
não fosse sua viagem no tempo
sobretudo
têm o condão de ressuscitar
fragmentos de mim
porventura tombados nalgum combate
oculto nas moitas do tempo
1 353
Antônio Massa
Garimpo
As palmas da face
exibem o peito
calejado
da machada espalmada
no rosto das mãos
e o corpo
estampilha
guarda em si o túnel
sem teto e luz
no final dos porquês
a face quilate
cala-se
ante outra face
a face mate
do tesouro comum
busca infindável
da verdade sempre preciosa
e semi-verdadeira
do garimpo interior
exibem o peito
calejado
da machada espalmada
no rosto das mãos
e o corpo
estampilha
guarda em si o túnel
sem teto e luz
no final dos porquês
a face quilate
cala-se
ante outra face
a face mate
do tesouro comum
busca infindável
da verdade sempre preciosa
e semi-verdadeira
do garimpo interior
1 060
Aleilton Fonseca
o(fí)cio
há bigornas
espalhadas
por todo espaço
e um fogo larva
que nasce em si mesmo magma
sem nenhuma preocupação com as horas
oficina - casa do ofício, ócio, cio
acima um aviso breve
permitindo a entrada de pessoas estranhas
ao serviço
e martelos
usados ou virgens
e muito
ferro signo
para fundir
portanto
o ferreiro não dorme
e malha o gesto em sangue quente,
como era no
princípio
e agora
e sempre:
poesia
espalhadas
por todo espaço
e um fogo larva
que nasce em si mesmo magma
sem nenhuma preocupação com as horas
oficina - casa do ofício, ócio, cio
acima um aviso breve
permitindo a entrada de pessoas estranhas
ao serviço
e martelos
usados ou virgens
e muito
ferro signo
para fundir
portanto
o ferreiro não dorme
e malha o gesto em sangue quente,
como era no
princípio
e agora
e sempre:
poesia
1 212
Aleilton Fonseca
teoria particular (mas nem tanto) do poema
1
ovídio: escrever 200 versos
para, dentre, recolher 20 linhas
que contivessem a poesia
de todo o processo:
mas o caudal imenso
não se investe só dos vestidos
da forma nem se conforma
2
mas, há o tempo: é preciso,
por humana deficiência,
o instante grafado:
embora o fluxo da essência,
contínuo, jamais se desfaça
na mão: o poema acabado,
tal como lemos,
é somente convenção
3
pois
o que acaba de se compor,
já desmorona,
se desdiz, se rediz, mildiz,
novas palavras no invento,
novo inventário
em dez dobras vezes n
desdobra-se
no princípio
e agora e sempre
4
a ilíada são muitas ilíadas,
quão homeros a escrevê-la
e talvez por concluí-la ainda:
as estrofes que agora lemos
à falta da mão de homero
damos então por findas
5
mas no poema: cada verso,
é reverso do verso, diverso
no próximo segundo;
cada palavra cede
seu lugar, chama
a outra, que logo apaga,
outra chama, reacende sílabas,
rimas, sentidos,
rios incontidos
6
os lusíadas de camões,
o que lhe sobrou de naufrágios,
para sempre incompletos
daquilo que virou água,
ou que ficou disperso,
dos versos tornados mares,
onde camões? (oh, finitude!)
para prosseguir o que não deu tempo:
com engenho e virtude
e arte
7
o poema muda
de cor e de nome a cada piscar
de olhos,
se alonga, se encurta,
cada rima some
no som que emite
e transmite a centelha
à outra rima, parelha:
corrida de som infinda
poemando-se
8
baudelaire reescreveu as flores
até o fim de sua vida
e as flores ali contidas
não estão terminadas,
a não ser por convenção
e favor à comodidade:
baudelaire houvesse vivo,
as flores contínuas, mudadas
9
cada versão, tal rima a esmo,
reinscritos versos,
os ex-certos, nem mais
nem menos certos,
o mesmo intérmino texto,
em eterno palimpsesto
10
os calligrammes de apollinaire
necessitam de revisão:
pena que o poeta
não esteja aqui a fazê-la
e que assim seja
"para o bem da convenção"
11
pois o poeta e o poema,
entre si adotados, convivem
diários, instantâneos, côngruos,
mesmo se esquecidos um do outro
cada um é outro e o mesmo;
que a cada golpe de ar
novos sensos se acumulam
nos joelhos das palavras
12
quantas pe(r)sso(n)as e vozes
no baú de inéditos do pessoa
à espera de nome e signo
e profissão e biografia:
e não fosse a vã cirrose
quantas mensagens ele a refaria?
13
o poema é o fazer incompleto,
o refazer nunca pronto
14
pois o poema,
já no instante que pronto,
já recomeça,
em processo difuso,
inconcluso,
intransitivo, de re-flexões:
15
que não há o poema particípio,
mas sempre o poema gerúndio
em constante fervura:
é novo e outro, na leitura,
nos reciclos dos segundos
16
o poema que se lê
é tábua de aproximação
17
o poema publicado: trato caduco,
que junto ao poeta já está mudado:
mesmo que não o mude a letra,
mesmo que não o mude a rima,
que não mais o toque,
por respeito ao senhor editor,
por respeito ao senhor leitor,
ao senhor pesquisador
ao senhor louvor:
mesmo que o poeta
assine a convenção do texto
pronto (para o mercado?)
ou mesmo abandone o texto,
a pretexto de acabado,
o poema disporá da hora
de ser outra vez revelado
se outra voz o adota
18
e o poeta, com seu texto pronto,
se já se embebe de elogios eunucos
já saliva manifestações de apreço,
e a poesia paga o preço
19
o poema publicado:
mera marca provisória,
impresso para as provas
de que se faz a história:
é o rastro de um vôo veloz
que poesia é rio que recomeça na foz;
quando se digita o ponto
final, já é hora de apagá-lo
que a corrente segue em frente,
os seus elos sem intervalo
20
contudo, pobres humanos,
só sabemos existir
imprecisos
entre pausas: comer, beber
ir ao banheiro,
ganhar e gastar dinheiro,
dormir, sonhar, sorrir;
as causas para o viver
a pausa para morrer:
a poesia perde por esperar
21
somente em alguns momentos
somos o poeta, em vigília e fé:
em que a poesia, nosso invento,
nos inventa
e nos dá a concessão do poema,
mero quadro, em interrupção,
que ela é onda contínua em nós
mesmo se nos deixa sós
22
então, poetas,
que já me ensinam o sem início
nem fim:
o ponto final, abolido!
o ponto inicial, abolido!
o começo, simples acerto de pares,
o fim o sem-fim inumérico,
infinita água de mares,
o poema dito no instante
que a poesia o dita
23
pois a poesia, estado de ser,
não se captura no humano molde
de letras; ela resiste e insiste
diante dos olhos invisíveis
do poeta que se sabe seu
que a sabe sua,
e sabe: a poesia nua,
companheira e algoz,
toma-lhe o fôlego e a voz,
suspende suas noites,
retira-o da vida, e, num átimo,
se entrega por um instante
entremostra-se, falso-domada
em registro parcial
da luta jamais vã,
mal rompe a manhã
24
a poesia: o rosto na água;
o poema, sua inconstante
aparência, forma mutante,
em recorrência, minúsculas
mudanças em contínua
ação
25
poetas, retomem os seus poemas
despregando-os do papel impresso,
raspando-os da tinta áfona,
em renovada contradança
de metáforas em processo:
o poema, colado no branco da página,
clama por fluir e refluir
em novas sintaxes,
em novas vírgulas,
em novos sentidos;
desdobrar-se em leques vários,
entremostrar, desde as entrelinhas,
seus novos significandos
em poessência
26
que se o poema se esgota,
da poesia abandonado,
torna-se somente corpus,
de pesquisa e enunciados,
em autópsia textual
que lhe decreta o sentido,
em seu mais "último grau",
de seus versos dissecados
27
oh, amém, poema finado
28
mas não há a poesia finita,
mas corrente, em espiral, sem termo
o poema é o instante,
dessa corrente em passagem
re-fulminante,
diante dos olhos atônitos
do poeta, às vezes surpreso,
em agônico gesto
29
o poema re-preso no papel,
em tinta enformado,
sob tratos cosméticos, convencionados,
esconde sua verdade;
o poema é mais que o brilho de letras
para olhos desavisados,
e, como não há parto asséptico,
assim nasce, corpo de palavras,
entre suor e risos e gases e lágrimas
30
sempre o poema-sendo-ando-indo,
em gerundivo estando, em contínuo...
aleilton fonseca, sp, ago 94
nota
4Eet/c.js>
ovídio: escrever 200 versos
para, dentre, recolher 20 linhas
que contivessem a poesia
de todo o processo:
mas o caudal imenso
não se investe só dos vestidos
da forma nem se conforma
2
mas, há o tempo: é preciso,
por humana deficiência,
o instante grafado:
embora o fluxo da essência,
contínuo, jamais se desfaça
na mão: o poema acabado,
tal como lemos,
é somente convenção
3
pois
o que acaba de se compor,
já desmorona,
se desdiz, se rediz, mildiz,
novas palavras no invento,
novo inventário
em dez dobras vezes n
desdobra-se
no princípio
e agora e sempre
4
a ilíada são muitas ilíadas,
quão homeros a escrevê-la
e talvez por concluí-la ainda:
as estrofes que agora lemos
à falta da mão de homero
damos então por findas
5
mas no poema: cada verso,
é reverso do verso, diverso
no próximo segundo;
cada palavra cede
seu lugar, chama
a outra, que logo apaga,
outra chama, reacende sílabas,
rimas, sentidos,
rios incontidos
6
os lusíadas de camões,
o que lhe sobrou de naufrágios,
para sempre incompletos
daquilo que virou água,
ou que ficou disperso,
dos versos tornados mares,
onde camões? (oh, finitude!)
para prosseguir o que não deu tempo:
com engenho e virtude
e arte
7
o poema muda
de cor e de nome a cada piscar
de olhos,
se alonga, se encurta,
cada rima some
no som que emite
e transmite a centelha
à outra rima, parelha:
corrida de som infinda
poemando-se
8
baudelaire reescreveu as flores
até o fim de sua vida
e as flores ali contidas
não estão terminadas,
a não ser por convenção
e favor à comodidade:
baudelaire houvesse vivo,
as flores contínuas, mudadas
9
cada versão, tal rima a esmo,
reinscritos versos,
os ex-certos, nem mais
nem menos certos,
o mesmo intérmino texto,
em eterno palimpsesto
10
os calligrammes de apollinaire
necessitam de revisão:
pena que o poeta
não esteja aqui a fazê-la
e que assim seja
"para o bem da convenção"
11
pois o poeta e o poema,
entre si adotados, convivem
diários, instantâneos, côngruos,
mesmo se esquecidos um do outro
cada um é outro e o mesmo;
que a cada golpe de ar
novos sensos se acumulam
nos joelhos das palavras
12
quantas pe(r)sso(n)as e vozes
no baú de inéditos do pessoa
à espera de nome e signo
e profissão e biografia:
e não fosse a vã cirrose
quantas mensagens ele a refaria?
13
o poema é o fazer incompleto,
o refazer nunca pronto
14
pois o poema,
já no instante que pronto,
já recomeça,
em processo difuso,
inconcluso,
intransitivo, de re-flexões:
15
que não há o poema particípio,
mas sempre o poema gerúndio
em constante fervura:
é novo e outro, na leitura,
nos reciclos dos segundos
16
o poema que se lê
é tábua de aproximação
17
o poema publicado: trato caduco,
que junto ao poeta já está mudado:
mesmo que não o mude a letra,
mesmo que não o mude a rima,
que não mais o toque,
por respeito ao senhor editor,
por respeito ao senhor leitor,
ao senhor pesquisador
ao senhor louvor:
mesmo que o poeta
assine a convenção do texto
pronto (para o mercado?)
ou mesmo abandone o texto,
a pretexto de acabado,
o poema disporá da hora
de ser outra vez revelado
se outra voz o adota
18
e o poeta, com seu texto pronto,
se já se embebe de elogios eunucos
já saliva manifestações de apreço,
e a poesia paga o preço
19
o poema publicado:
mera marca provisória,
impresso para as provas
de que se faz a história:
é o rastro de um vôo veloz
que poesia é rio que recomeça na foz;
quando se digita o ponto
final, já é hora de apagá-lo
que a corrente segue em frente,
os seus elos sem intervalo
20
contudo, pobres humanos,
só sabemos existir
imprecisos
entre pausas: comer, beber
ir ao banheiro,
ganhar e gastar dinheiro,
dormir, sonhar, sorrir;
as causas para o viver
a pausa para morrer:
a poesia perde por esperar
21
somente em alguns momentos
somos o poeta, em vigília e fé:
em que a poesia, nosso invento,
nos inventa
e nos dá a concessão do poema,
mero quadro, em interrupção,
que ela é onda contínua em nós
mesmo se nos deixa sós
22
então, poetas,
que já me ensinam o sem início
nem fim:
o ponto final, abolido!
o ponto inicial, abolido!
o começo, simples acerto de pares,
o fim o sem-fim inumérico,
infinita água de mares,
o poema dito no instante
que a poesia o dita
23
pois a poesia, estado de ser,
não se captura no humano molde
de letras; ela resiste e insiste
diante dos olhos invisíveis
do poeta que se sabe seu
que a sabe sua,
e sabe: a poesia nua,
companheira e algoz,
toma-lhe o fôlego e a voz,
suspende suas noites,
retira-o da vida, e, num átimo,
se entrega por um instante
entremostra-se, falso-domada
em registro parcial
da luta jamais vã,
mal rompe a manhã
24
a poesia: o rosto na água;
o poema, sua inconstante
aparência, forma mutante,
em recorrência, minúsculas
mudanças em contínua
ação
25
poetas, retomem os seus poemas
despregando-os do papel impresso,
raspando-os da tinta áfona,
em renovada contradança
de metáforas em processo:
o poema, colado no branco da página,
clama por fluir e refluir
em novas sintaxes,
em novas vírgulas,
em novos sentidos;
desdobrar-se em leques vários,
entremostrar, desde as entrelinhas,
seus novos significandos
em poessência
26
que se o poema se esgota,
da poesia abandonado,
torna-se somente corpus,
de pesquisa e enunciados,
em autópsia textual
que lhe decreta o sentido,
em seu mais "último grau",
de seus versos dissecados
27
oh, amém, poema finado
28
mas não há a poesia finita,
mas corrente, em espiral, sem termo
o poema é o instante,
dessa corrente em passagem
re-fulminante,
diante dos olhos atônitos
do poeta, às vezes surpreso,
em agônico gesto
29
o poema re-preso no papel,
em tinta enformado,
sob tratos cosméticos, convencionados,
esconde sua verdade;
o poema é mais que o brilho de letras
para olhos desavisados,
e, como não há parto asséptico,
assim nasce, corpo de palavras,
entre suor e risos e gases e lágrimas
30
sempre o poema-sendo-ando-indo,
em gerundivo estando, em contínuo...
aleilton fonseca, sp, ago 94
nota
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1 238
Álvares de Azevedo
Na Minha Terra
Amo o vento da noite sussurrante
A tremer nos pinheiros
E a cantiga do pobre caminhante
No rancho dos tropeiros;
E os monótonos sons de uma viola
No tardio verão,
E a estrada que além se desenrola
No véu da escuridão;
A restinga dareia onde rebenta
O oceano a bramir,
Onde a lua na praia macilenta
Vem pálida luzir;
E a névoa e flores e o doce ar cheiroso
Do amanhecer na serra,
E o céu azul e o manto nebuloso
Do céu de minha terra;
E o longo vale de florinhas cheio
E a névoa que desceu,
Como véu de donzela em branco seio,
Às estrelas do céu.
II
Não é mais bela, não, a argêntea praia
Que beija o mar do sul,
Onde eterno perfume a flor desmaia
E o céu é sempre azul;
Onde os serros fantásticos roxeiam
Nas tardes de verão
E os suspiros nos lábios incendeiam
E pulsa o coração!
Sonho da vida que doirou e azula
A fala dos amores,
Onde a mangueira ao vento que tremula
Sacode as brancas flores,
E é saudoso viver nessa dormência
Do lânguido sentir,
Nos enganos suaves da existência
Sentindo-se dormir;
Mais formoso não é: não doire embora
O verão tropical
Com seus rubores e alvacenta aurora
Na montanha natal,
Nem tão doirada se levante a lua
Pela noite do céu,
Mas venha triste, pensativa - e nua
Do prateado véu -
Que me importa? se as tardes purpurinas
E as auroras dali
Não deram luz às diáfamas cortinas
Do leito onde eu nasci?
Se adormeço tranqüilo no teu seio
E perfuma-se a flor
Que Deus abriu no peito do Poeta,
Gotejante de amor?
Minha terra sombria, és sempre bela,
Inda pálida a vida
Como o sono inocente da donzela
No deserto dormida!
No italiano céu nem mais suaves
São as noites os amores,
Não tem mais fogo o cântigo das aves
Nem o vale mais flores!
III
Quando o gênio da noite vaporosa
Pela encosta bravia
Na laranjeira em flor toda orvalhosa
De aroma se inebria,
No luar junto à sombra recendente
De um arvoredo em flor,
Que Saudades e amor que influi na mente
Da montanha o frescor!
E quando à noite no luar saudoso
Minha pálida amante
Ergue seus olhos úmidos de gozo,
E o lábio palpitante...
Cheia de argêntea luz do firmamento
Orando por seu Deus,
Então... eu curvo a fronte ao sentimento
Sobre os joelhos seus...
E quando sua voz entre harmonias
Sufoca-se de amor,
E dobra a fronte bela de magias
Como pálida flor,
E a arma pura nos seus olhos brilha
Em desmaiado véu,
Como de um anjo na cheirosa trilha
Respiro o amor do céu!
Melhor a viração uma por uma
Vem as folhas tremer,
E a floresta saudosa se perfuma
Da noite no morrer,
E eu amo as flores e o doce ar mimoso
Do amanhecer da serra
E o céu azul e o manto nebuloso
Do céu de minha terra!
A tremer nos pinheiros
E a cantiga do pobre caminhante
No rancho dos tropeiros;
E os monótonos sons de uma viola
No tardio verão,
E a estrada que além se desenrola
No véu da escuridão;
A restinga dareia onde rebenta
O oceano a bramir,
Onde a lua na praia macilenta
Vem pálida luzir;
E a névoa e flores e o doce ar cheiroso
Do amanhecer na serra,
E o céu azul e o manto nebuloso
Do céu de minha terra;
E o longo vale de florinhas cheio
E a névoa que desceu,
Como véu de donzela em branco seio,
Às estrelas do céu.
II
Não é mais bela, não, a argêntea praia
Que beija o mar do sul,
Onde eterno perfume a flor desmaia
E o céu é sempre azul;
Onde os serros fantásticos roxeiam
Nas tardes de verão
E os suspiros nos lábios incendeiam
E pulsa o coração!
Sonho da vida que doirou e azula
A fala dos amores,
Onde a mangueira ao vento que tremula
Sacode as brancas flores,
E é saudoso viver nessa dormência
Do lânguido sentir,
Nos enganos suaves da existência
Sentindo-se dormir;
Mais formoso não é: não doire embora
O verão tropical
Com seus rubores e alvacenta aurora
Na montanha natal,
Nem tão doirada se levante a lua
Pela noite do céu,
Mas venha triste, pensativa - e nua
Do prateado véu -
Que me importa? se as tardes purpurinas
E as auroras dali
Não deram luz às diáfamas cortinas
Do leito onde eu nasci?
Se adormeço tranqüilo no teu seio
E perfuma-se a flor
Que Deus abriu no peito do Poeta,
Gotejante de amor?
Minha terra sombria, és sempre bela,
Inda pálida a vida
Como o sono inocente da donzela
No deserto dormida!
No italiano céu nem mais suaves
São as noites os amores,
Não tem mais fogo o cântigo das aves
Nem o vale mais flores!
III
Quando o gênio da noite vaporosa
Pela encosta bravia
Na laranjeira em flor toda orvalhosa
De aroma se inebria,
No luar junto à sombra recendente
De um arvoredo em flor,
Que Saudades e amor que influi na mente
Da montanha o frescor!
E quando à noite no luar saudoso
Minha pálida amante
Ergue seus olhos úmidos de gozo,
E o lábio palpitante...
Cheia de argêntea luz do firmamento
Orando por seu Deus,
Então... eu curvo a fronte ao sentimento
Sobre os joelhos seus...
E quando sua voz entre harmonias
Sufoca-se de amor,
E dobra a fronte bela de magias
Como pálida flor,
E a arma pura nos seus olhos brilha
Em desmaiado véu,
Como de um anjo na cheirosa trilha
Respiro o amor do céu!
Melhor a viração uma por uma
Vem as folhas tremer,
E a floresta saudosa se perfuma
Da noite no morrer,
E eu amo as flores e o doce ar mimoso
Do amanhecer da serra
E o céu azul e o manto nebuloso
Do céu de minha terra!
5 053
Américo Gomes
Cibertolo
Eu ja fui um internauta
Som de modem, som de flauta
Cibernauta digital
Surfava toda a Web
Mails mandava, vocaltec
minha serva, listserv
Era minha companheira
por entre roteadores
Mas o teclado era frio
Eu era peixe sem rio, sem açude, sem maré
Voltei a sair à rua
Abracar a noite nua
As madrugadas sem fim
Cebertolo, cibernada
Mais vale um boa amada
No gibabaite da rede
Não essa de navegar
A rede de balançar
No singelo vai e vem
E quem quiser internet
Ficar inerme internado
Pelas redes virtuais
Fique aí, não diga nada
Pois nessa rede safada
Embora Gates agite
Não arrumei namorada
Fiquei na superestrada
E uma baita tendinite
Som de modem, som de flauta
Cibernauta digital
Surfava toda a Web
Mails mandava, vocaltec
minha serva, listserv
Era minha companheira
por entre roteadores
Mas o teclado era frio
Eu era peixe sem rio, sem açude, sem maré
Voltei a sair à rua
Abracar a noite nua
As madrugadas sem fim
Cebertolo, cibernada
Mais vale um boa amada
No gibabaite da rede
Não essa de navegar
A rede de balançar
No singelo vai e vem
E quem quiser internet
Ficar inerme internado
Pelas redes virtuais
Fique aí, não diga nada
Pois nessa rede safada
Embora Gates agite
Não arrumei namorada
Fiquei na superestrada
E uma baita tendinite
843
Antonio Ferreira dos Santos Júnior
Nem é esta a mesma rua que passo
Nem é esta a mesma rua que passo
A mesma rua por onde passava.
Nem é o mesmo eu que carrego
O antigo eu que antes carregava.
A rua é a mesma, eu sei...
Mesmas árvores ( só que mais frondosas )
Mesmas pedras ( só que mais usadas )
Mesma distância entre uma e outra calçada.
O que está comigo parece o mesmo eu...
Mesma ânsia de viver, mesmas dores,
Mesmos sonhos de criança, ardores,
Mesmo jovem que caminhava em ilusão,
Mesmo deslumbramento imaginoso em solidão.
Mas sinto como uma pressão no sangue
Que nem é a mesma rua que agora passo
E nem é o mesmo quem que hoje comigo carrego,
Os de outrora....
Aconteceram tantas quedas, tantos silêncios
E o vento...
A mesma rua por onde passava.
Nem é o mesmo eu que carrego
O antigo eu que antes carregava.
A rua é a mesma, eu sei...
Mesmas árvores ( só que mais frondosas )
Mesmas pedras ( só que mais usadas )
Mesma distância entre uma e outra calçada.
O que está comigo parece o mesmo eu...
Mesma ânsia de viver, mesmas dores,
Mesmos sonhos de criança, ardores,
Mesmo jovem que caminhava em ilusão,
Mesmo deslumbramento imaginoso em solidão.
Mas sinto como uma pressão no sangue
Que nem é a mesma rua que agora passo
E nem é o mesmo quem que hoje comigo carrego,
Os de outrora....
Aconteceram tantas quedas, tantos silêncios
E o vento...
786
Antero Coelho Neto
Eu Aprendi a Dizer Sim
Eu aprendi a dizer sim quando via natureza
molhada na manhã alegre do primeiro dia novo.
Eu aprendi a dizer não quando reconheci a fome
no homem indefeso e não achei nenhuma razão.
Eu aprendi a dizer sim quando o dia amanheceu
e fiquei deslumbrado com a esperança renovada.
Eu aprendi a dizer não quando quiseram que traísse
os princípios fundamentais da humanidade em luta.
Eu aprendi a dizer sim quando fui à escola
de minha infância e corri, gritei e... aprendi.
E então o sim e o não passaram a ser inexoráveis
durante todo o resto da vida, depois que aprendi.
molhada na manhã alegre do primeiro dia novo.
Eu aprendi a dizer não quando reconheci a fome
no homem indefeso e não achei nenhuma razão.
Eu aprendi a dizer sim quando o dia amanheceu
e fiquei deslumbrado com a esperança renovada.
Eu aprendi a dizer não quando quiseram que traísse
os princípios fundamentais da humanidade em luta.
Eu aprendi a dizer sim quando fui à escola
de minha infância e corri, gritei e... aprendi.
E então o sim e o não passaram a ser inexoráveis
durante todo o resto da vida, depois que aprendi.
1 425
Antero Coelho Neto
Eu Aprendi a Dizer Sim
Eu aprendi a dizer sim quando via natureza
molhada na manhã alegre do primeiro dia novo.
Eu aprendi a dizer não quando reconheci a fome
no homem indefeso e não achei nenhuma razão.
Eu aprendi a dizer sim quando o dia amanheceu
e fiquei deslumbrado com a esperança renovada.
Eu aprendi a dizer não quando quiseram que traísse
os princípios fundamentais da humanidade em luta.
Eu aprendi a dizer sim quando fui à escola
de minha infância e corri, gritei e... aprendi.
E então o sim e o não passaram a ser inexoráveis
durante todo o resto da vida, depois que aprendi.
molhada na manhã alegre do primeiro dia novo.
Eu aprendi a dizer não quando reconheci a fome
no homem indefeso e não achei nenhuma razão.
Eu aprendi a dizer sim quando o dia amanheceu
e fiquei deslumbrado com a esperança renovada.
Eu aprendi a dizer não quando quiseram que traísse
os princípios fundamentais da humanidade em luta.
Eu aprendi a dizer sim quando fui à escola
de minha infância e corri, gritei e... aprendi.
E então o sim e o não passaram a ser inexoráveis
durante todo o resto da vida, depois que aprendi.
1 425
Antero Coelho Neto
Eu Aprendi a Dizer Sim
Eu aprendi a dizer sim quando via natureza
molhada na manhã alegre do primeiro dia novo.
Eu aprendi a dizer não quando reconheci a fome
no homem indefeso e não achei nenhuma razão.
Eu aprendi a dizer sim quando o dia amanheceu
e fiquei deslumbrado com a esperança renovada.
Eu aprendi a dizer não quando quiseram que traísse
os princípios fundamentais da humanidade em luta.
Eu aprendi a dizer sim quando fui à escola
de minha infância e corri, gritei e... aprendi.
E então o sim e o não passaram a ser inexoráveis
durante todo o resto da vida, depois que aprendi.
molhada na manhã alegre do primeiro dia novo.
Eu aprendi a dizer não quando reconheci a fome
no homem indefeso e não achei nenhuma razão.
Eu aprendi a dizer sim quando o dia amanheceu
e fiquei deslumbrado com a esperança renovada.
Eu aprendi a dizer não quando quiseram que traísse
os princípios fundamentais da humanidade em luta.
Eu aprendi a dizer sim quando fui à escola
de minha infância e corri, gritei e... aprendi.
E então o sim e o não passaram a ser inexoráveis
durante todo o resto da vida, depois que aprendi.
1 425
António Osório
Haicai
Corte
Crepitou o fogo
E rubro cortou o vôo
da Fidalga palmeira.
Viagem
Pássaro a voar
Na manhã recém-nascida
Rumo à canção.
Crepitou o fogo
E rubro cortou o vôo
da Fidalga palmeira.
Viagem
Pássaro a voar
Na manhã recém-nascida
Rumo à canção.
1 338
António Emídio
Onírico em Verso
Olhos laser, os daquele cavalo alado
Voava alto, entre nuvens e fugia
Perdido entre vagas ou entre elas achado
Fogoso nas asas, alado de tanta ousadia!
Fugir em branco, sem ouvir ninguém,
O alado ousava, sem luz nem dia,
Corria desenfreado tudo o que sabia
O leme era o sonho num vai e vem...
A rota eram vozes do gritar de alguém
Subir a voar, procurar sem ver,
Ouvir sem querer, tantas vozes e ninguém!
Até que numa vaga se perdeu,
De tão alto que ficou,
Quando o leme se partiu e ele
logo acordou!
Voava alto, entre nuvens e fugia
Perdido entre vagas ou entre elas achado
Fogoso nas asas, alado de tanta ousadia!
Fugir em branco, sem ouvir ninguém,
O alado ousava, sem luz nem dia,
Corria desenfreado tudo o que sabia
O leme era o sonho num vai e vem...
A rota eram vozes do gritar de alguém
Subir a voar, procurar sem ver,
Ouvir sem querer, tantas vozes e ninguém!
Até que numa vaga se perdeu,
De tão alto que ficou,
Quando o leme se partiu e ele
logo acordou!
632
Álvaro Feijó
Varina
Eu mudei de pincel e de paleta
— embora seja a mesma a tinta com que escrevo —
mas mudei, que, de repente,
surgiste diante de mim.
Não é que me perturbes, mas eu sinto
que alguma coisa me comove ao ver-te.
Não é que te examine, porque sei
que me é quase impossível,
que me é mesmo impossível descrever-te.
A tua história, sim? A história que se repete
e é sempre nova porque há sempre gente
que nunca a ouviu
ou que não a quis ouvir.
O cais viu-te nascer!
Corrias, loucamente, pelas retas
intermináveis dos paredões
de cimento e granito,
e em caixotes com cheiro de sardinha
fazias tabogan das lingüetas
— o tabogan dos parques infantis
que não pudeste ver.
Assim, faminta e seminua
mas livre como os peixes
fizeste-te mulher!
Depois foi o correr das ruas da cidade,
enrouquecendo a gritar:
— "Quem merca os camarões" ...
Depois um que voltou da Terra Nova
e te olhou como fera sequiosa
de carne,
quando o lugre, ao chegar, entrou na doca.
Depois o inevitável!
O luar...
A Senhora dAgonia...
A quentura de Agosto...
E, então,
não era só o peso da canastra,
era o peso dum filho
e a fome de dois para matar,
até que o lugre voltasse
e se esquecesse
o calvário da luta...
Um dia no intervalo da campanha
o sexo falou mais alto
e o coração calou.
Foste dum outro homem e, depois,
de dois,
de três.
Quando ele voltou
encontrou-te perdida
e tu perdeste-o.
Hoje, num outro porto, ainda gritas
o teu pregão.
Quando um homem te encontra fora de horas,
para ele foi sempre um bom encontro...
e. . . "até mais ver" ...
Vês! Eu sei a tua história...
(Há tantos que a não sabem!)
E, no entanto,
Dum homem só ou de cem,
num porto do meu país ou num porto de Islândia
Tu surgiste aos meus olhos
como a mesma mulher.
— embora seja a mesma a tinta com que escrevo —
mas mudei, que, de repente,
surgiste diante de mim.
Não é que me perturbes, mas eu sinto
que alguma coisa me comove ao ver-te.
Não é que te examine, porque sei
que me é quase impossível,
que me é mesmo impossível descrever-te.
A tua história, sim? A história que se repete
e é sempre nova porque há sempre gente
que nunca a ouviu
ou que não a quis ouvir.
O cais viu-te nascer!
Corrias, loucamente, pelas retas
intermináveis dos paredões
de cimento e granito,
e em caixotes com cheiro de sardinha
fazias tabogan das lingüetas
— o tabogan dos parques infantis
que não pudeste ver.
Assim, faminta e seminua
mas livre como os peixes
fizeste-te mulher!
Depois foi o correr das ruas da cidade,
enrouquecendo a gritar:
— "Quem merca os camarões" ...
Depois um que voltou da Terra Nova
e te olhou como fera sequiosa
de carne,
quando o lugre, ao chegar, entrou na doca.
Depois o inevitável!
O luar...
A Senhora dAgonia...
A quentura de Agosto...
E, então,
não era só o peso da canastra,
era o peso dum filho
e a fome de dois para matar,
até que o lugre voltasse
e se esquecesse
o calvário da luta...
Um dia no intervalo da campanha
o sexo falou mais alto
e o coração calou.
Foste dum outro homem e, depois,
de dois,
de três.
Quando ele voltou
encontrou-te perdida
e tu perdeste-o.
Hoje, num outro porto, ainda gritas
o teu pregão.
Quando um homem te encontra fora de horas,
para ele foi sempre um bom encontro...
e. . . "até mais ver" ...
Vês! Eu sei a tua história...
(Há tantos que a não sabem!)
E, no entanto,
Dum homem só ou de cem,
num porto do meu país ou num porto de Islândia
Tu surgiste aos meus olhos
como a mesma mulher.
1 621
Américo Gomes
Beira Molhada
Tu és muito sem vergonha
Claudete,
Fostes comunista, atéia
E agora, charlatã?
Dissestes mil vezes rindo
Que teu sorriso tão lindo
Era de prazer, de sonho
E agora, nem me liga
Teus ideais, tua briga
Era fumaça no céu
Quem virá te socorrer
Quando um dia renascer
Essa vontade serena
Que cresce, reina, governa
A rebelião eterna
Quanto mais me passam a perna
Mas eu fico corajoso
E mais o meu sonho aumenta
Se agiganta à minha frente
O desejo de lutar
A minha gente inda sonha
E tu Claudete, medonha
Foge do teu pesadelo.
Claudete,
Fostes comunista, atéia
E agora, charlatã?
Dissestes mil vezes rindo
Que teu sorriso tão lindo
Era de prazer, de sonho
E agora, nem me liga
Teus ideais, tua briga
Era fumaça no céu
Quem virá te socorrer
Quando um dia renascer
Essa vontade serena
Que cresce, reina, governa
A rebelião eterna
Quanto mais me passam a perna
Mas eu fico corajoso
E mais o meu sonho aumenta
Se agiganta à minha frente
O desejo de lutar
A minha gente inda sonha
E tu Claudete, medonha
Foge do teu pesadelo.
895
António Osório
Cântico do Filho Maior
Ao Antônio Cândido
Cresce, filho!
Entre as duras colunas da morte
e não temas a sua altivez
Cresce, filho!
e deixa ferver o teu sangue difícil
na retorta de todos os amores
Cresce, filho!
e canta em dó maior os teus cânticos
sem temor às dissonâncias
Cresce, filho!
e planta se preciso tua semente no granito
porque se a irrigares de vigílias e suores
ela se fará em larga palma
que será baliza para os pássaros
receberá a visita das abelhas
e ajudará o vento a reger as suas orquestras.
Cresce, filho!
e faz de tua face uma lança
de tuas mãos um arado
de teus olhos uma chama
para construir da terra berço e templo
aos homens que estão em ti guardados.
Cresce, filho!
Entre as duras colunas da morte
e não temas a sua altivez
Cresce, filho!
e deixa ferver o teu sangue difícil
na retorta de todos os amores
Cresce, filho!
e canta em dó maior os teus cânticos
sem temor às dissonâncias
Cresce, filho!
e planta se preciso tua semente no granito
porque se a irrigares de vigílias e suores
ela se fará em larga palma
que será baliza para os pássaros
receberá a visita das abelhas
e ajudará o vento a reger as suas orquestras.
Cresce, filho!
e faz de tua face uma lança
de tuas mãos um arado
de teus olhos uma chama
para construir da terra berço e templo
aos homens que estão em ti guardados.
1 232
Amândio César
Par ou Pernão
Lançaram-se os dados
no par ou pernão
e uns foram
outros não.
E houve saudades nos que foram
e revolta nos que não:
os que foram não voltaram
os que ficaram cá estão...
Jogaram-se vidas,
como se jogam dados:
olhos sem luz,
membros amputados
e uns foram outros não...
Vida?... Amor?...
Lançaram-se os dados: Par ou Pernão?
no par ou pernão
e uns foram
outros não.
E houve saudades nos que foram
e revolta nos que não:
os que foram não voltaram
os que ficaram cá estão...
Jogaram-se vidas,
como se jogam dados:
olhos sem luz,
membros amputados
e uns foram outros não...
Vida?... Amor?...
Lançaram-se os dados: Par ou Pernão?
1 037
Antônio Fernando Guardado
Haicai
no hálito do planeta
ligeiro sopro desbotado
asfixia
fragmento de azul
no espelho das águas
as nuvens despedem-se
ligeiro sopro desbotado
asfixia
fragmento de azul
no espelho das águas
as nuvens despedem-se
890
Adailton Medeiros
Exílio dele nas Urubuguáias
exilAdo nas urubuguáias
boi serapião do buriti
corre nos cerrAdos e grotões
tal marruá de tamAnca e reza
andarilho sem odres de couro
um patori desaplumbeAdo
na travessia das grAndes estórias
construindo em sete mil dias Dios
um antropomOrfa como
o veAdo do mistéRio
de gelos e vinhos tintos
ou o carCará castrAdo
vindo dos salEs noturnos
furnicAdo de marinhas
boi serapião do buriti
corre nos cerrAdos e grotões
tal marruá de tamAnca e reza
andarilho sem odres de couro
um patori desaplumbeAdo
na travessia das grAndes estórias
construindo em sete mil dias Dios
um antropomOrfa como
o veAdo do mistéRio
de gelos e vinhos tintos
ou o carCará castrAdo
vindo dos salEs noturnos
furnicAdo de marinhas
950
Antero Coelho Neto
O Início?
Há uma coisa longe,
bem longe, atrás do horizonte
que vem não sei de onde.
Parece luz parece raio.
Lembra tudo e não lembra nada.
Agora é verde, logo amarelo.
Ou é vermelho?
Súbito torna-se opaca.
Volatiliza-se e fica sombra.
Será nossa Origem, nosso Começo?
Há uma coisa longe,
bem longe, não seio que seja.
Parece luz, mas não é.
É muito mais... talvez o Início...
Eu só sei que é longe,
muito longe, muito longe mesmo.
Parece luz, parece raio,
mas não é...
bem longe, atrás do horizonte
que vem não sei de onde.
Parece luz parece raio.
Lembra tudo e não lembra nada.
Agora é verde, logo amarelo.
Ou é vermelho?
Súbito torna-se opaca.
Volatiliza-se e fica sombra.
Será nossa Origem, nosso Começo?
Há uma coisa longe,
bem longe, não seio que seja.
Parece luz, mas não é.
É muito mais... talvez o Início...
Eu só sei que é longe,
muito longe, muito longe mesmo.
Parece luz, parece raio,
mas não é...
1 300
André de Figueiredo Mascarenhas
Soneto
Quando o Sol na mais alta pira ardia
Nas distâncias igual do ocaso à Aurora,
Diógenes, que o raio não ignora,
Com uma Luz pelas ruas discorria.
Que pretende essa estranha fantasia,
Ou que queres Diógenes agora,
Que essa Luz te descubra, que em tal hora
Não to mostre melhor a Luz do dia?
Mas se buscas um homem porventura,
Em quem nada condenes, nada acuses,
Bem que o vejas à Luz, que tudo apura.
Esse deixa farol, da Luz não uses,
Que como o homem capaz tem sorte escura,
Não se costuma achar nunca com Luzes.
Nas distâncias igual do ocaso à Aurora,
Diógenes, que o raio não ignora,
Com uma Luz pelas ruas discorria.
Que pretende essa estranha fantasia,
Ou que queres Diógenes agora,
Que essa Luz te descubra, que em tal hora
Não to mostre melhor a Luz do dia?
Mas se buscas um homem porventura,
Em quem nada condenes, nada acuses,
Bem que o vejas à Luz, que tudo apura.
Esse deixa farol, da Luz não uses,
Que como o homem capaz tem sorte escura,
Não se costuma achar nunca com Luzes.
871
André de Figueiredo Mascarenhas
Soneto
Quando o Sol na mais alta pira ardia
Nas distâncias igual do ocaso à Aurora,
Diógenes, que o raio não ignora,
Com uma Luz pelas ruas discorria.
Que pretende essa estranha fantasia,
Ou que queres Diógenes agora,
Que essa Luz te descubra, que em tal hora
Não to mostre melhor a Luz do dia?
Mas se buscas um homem porventura,
Em quem nada condenes, nada acuses,
Bem que o vejas à Luz, que tudo apura.
Esse deixa farol, da Luz não uses,
Que como o homem capaz tem sorte escura,
Não se costuma achar nunca com Luzes.
Nas distâncias igual do ocaso à Aurora,
Diógenes, que o raio não ignora,
Com uma Luz pelas ruas discorria.
Que pretende essa estranha fantasia,
Ou que queres Diógenes agora,
Que essa Luz te descubra, que em tal hora
Não to mostre melhor a Luz do dia?
Mas se buscas um homem porventura,
Em quem nada condenes, nada acuses,
Bem que o vejas à Luz, que tudo apura.
Esse deixa farol, da Luz não uses,
Que como o homem capaz tem sorte escura,
Não se costuma achar nunca com Luzes.
871
António Osório
O Sítio
O mundo sitiou o sonho, e o tem preso
em débeis cidadelas
— suas últimas guaridas.
Os soldados oníricos têm medo
sem armas
e suas caravelas
não têm velas.
Inúteis seus desvelos desarmados
até os sentinelas
fatigados
já estão cedendo ao peso das vigílias.
Vai longo o sítio, e já vão se esgotando
as frágeis provisões
dos sitiados.
O mundo tem seus ásperos soldados
nos dias
pontuais
que na luta não cedem nem recuam.
E nunca erram as duras cimitarras
os seus golpes
diretos e fatais.
O assédio continua, já inúteis os galopes
dos bravos cavaleiros sitiados.
Têm cavalos de mar
e o sítio é em terra.
Têm cavalos de paz
e sítio é guerra.
Fácil de prever o resultado
dos combates travados
desiguais.
Já se aprestam os dias, bons guerreiros
aos ataques certeiros
e finais.
em débeis cidadelas
— suas últimas guaridas.
Os soldados oníricos têm medo
sem armas
e suas caravelas
não têm velas.
Inúteis seus desvelos desarmados
até os sentinelas
fatigados
já estão cedendo ao peso das vigílias.
Vai longo o sítio, e já vão se esgotando
as frágeis provisões
dos sitiados.
O mundo tem seus ásperos soldados
nos dias
pontuais
que na luta não cedem nem recuam.
E nunca erram as duras cimitarras
os seus golpes
diretos e fatais.
O assédio continua, já inúteis os galopes
dos bravos cavaleiros sitiados.
Têm cavalos de mar
e o sítio é em terra.
Têm cavalos de paz
e sítio é guerra.
Fácil de prever o resultado
dos combates travados
desiguais.
Já se aprestam os dias, bons guerreiros
aos ataques certeiros
e finais.
1 994
Arlete Nogueira da Cruz
Rua dos Afogados
Rua de verdade e de sobrado
onde um sol lhe cai em vertical
onde um herói quer-se afogado
libertando sua ilha natural.
Rua que recolhe o moribundo
sacrifício de quem por ser mortal
mergulha e eleva-se num mundo
de mariscos, de algas e de sal,
Rua que sobre rumo ao porto
desta ilha que se quer liberta
rua que transformava o morto
silêncio da cidade — ó rua
de indormidas noites e aberta
para o poeta descer a sua lua.
onde um sol lhe cai em vertical
onde um herói quer-se afogado
libertando sua ilha natural.
Rua que recolhe o moribundo
sacrifício de quem por ser mortal
mergulha e eleva-se num mundo
de mariscos, de algas e de sal,
Rua que sobre rumo ao porto
desta ilha que se quer liberta
rua que transformava o morto
silêncio da cidade — ó rua
de indormidas noites e aberta
para o poeta descer a sua lua.
1 405