Temas
Poemas neste tema

Sociedade e Mundo

Chico Buarque

Chico Buarque

Construção

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acbou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado

2 390 4
Chico Buarque

Chico Buarque

Construção

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acbou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado

2 390 4
José Castello

José Castello

Bruno Tolentino faz versos contra a hipocrisia

O poeta que acaba de ganhar o Prêmio Cruz e Souza lança mais dois livros, um deles em SP
Opoeta Bruno Tolentino acaba de ser contemplado com o Prêmio Cruz e Souza, conferido pela Secretaria de Cultura de Santa Catarina. A premiação vem no momento em que o escritor se prepara para o lançamento de dois livros: Os Deuses de Hoje (editora Record), reunião de 30 anos de poesia política, e Os Sapos de Ontem (editora Diadorim), dossiê de uma polêmica com os irmãos Augusto e Haroldo de Campos (leia texto ao lado), somado a uma coletânea de poemas satíricos.
Os Sapos de Ontem terá sessão de autógrafos em São Paulo hoje, a partir das 18 horas, no Espaço Átrio República (Rua Marquês de Itu, 64, 258-3823). Os Deuses de Hoje será lançado no Rio, na segunda-feira, às 20 horas, na Livraria do Museu da República, no Palácio do Catete.
O livro premiado com o Cruz e Souza é o inédito Balada do Cárcere de Dartmoor. Tolentino o escreveu entre 1985 e 1987, período em que cumpriu pena na sinistra prisão inglesa construída no século 18, sob a acusação de consumir cocaína. A prisão não passou de um artifício usado pela polícia inglesa, que pretendeu, sem sucesso, levar o poeta a confessar alguns dos nomes dos grandes chefões do tráfico de drogas na Inglaterra.
O livro é um acerto de contas com esse período que, apesar de todo o mal-entendido e o imenso sofrimento que causou, Tolentino classifica como "muito rico". "Sempre que relato as condições nas quais escrevi esse poema, tenho de ouvir do repórter o comentário: `Não se preocupe, porque não vou publicar", diz, indignado. O poeta prossegue: "As pessoas fazem uma espécie de restrição mental ao episódio, porque partem da premissa falsa de que, se você é poeta, você é impecável."
Silêncio intelectual
- Bruno Tolentino se diz cansado da hipocrisia com que o episódio de sua prisão é silenciado no meio intelectual brasileiro. Há uma semana, ao receber a informação de que fora escolhido como o vencedor do Cruz e Souza, teve de ouvir a ressalva: "Mas, não se preocupe: sobre a sua prisão, não falaremos nada."
A narração do poema é atribuída ao detento 212, um certo Ambrose, na verdade o mais interessante dos muitos presos que Tolentino alfabetizou durante sua temporada atrás das grades. Acusado do assassinato da mulher e cumprindo pena por mais de uma década, Ambrose, mais tarde, dedicou-se a estudar o próprio caso e hoje, já em regime de prisão aberta, transformou-se em um respeitado psicólogo.
Tolentino pretende publicar Balada do Cárcere de Dartmoor em 1996. Antes disso, quer acrescentar ao vasto poema uma série de documentos sobre o processo que o levou à prisão e ainda escrever um relato mais factual sobre o homem que inspirou seu personagem Ambrose.
O poeta também é autor de As Horas de Katharina, editado no ano passado pela Companhia das Letras e que recebeu este ano o Prêmio Jabuti, concedido pela Câmara Brasileira do Livro. Depois de viver mais de 20 anos na Europa, entre Itália, França e Inglaterra, onde se tornou amigo de escritores como Giuseppe Ungaretti, W. H. Auden e Samuel Beckett, Tolentino retornou ao Brasil temporariamente em 1985, com o projeto de lançar uma coletânea de poemas brasileiros, que se chamaria A Terra Provisória.
No período em que esteve na Europa, escreveu seus poemas em inglês e francês e eles lhe renderam dois livros: Le Vrai le Vain, publicado em Paris, e About the Hunt, editado em Londres, além de elogios entusiasmados de personalidades como Jean Starobinsky e Yves Bonnefoy. O poeta acabou voltando para a Europa e o projeto de A Terra Provisória não se realizou.
Ao retornar de vez ao Brasil, em 1993, os amigos o presentearam com um livro organizado a partir dos muitos poemas escritos em português que o poeta lhes enviou por carta, ao longo da temporada européia. Eles compõem, agora, O Baile Negro, primeira parte de Os Deuses de Hoje.
Entre eles se destaca o poema-título, na verdade o grande lamento de Tolentino pelo golpe militar de 1964. O baile, no caso é uma metáfora da tortura. Nessa primeira parte, pode ser encontrado também o magnífico A Garça e o Equilibrista, longa meditação sobre a existência humana, escrita depois do retorno de Tolentino à fé cristã. A segunda parte, Torres e Deuses, tem como centro a figura de Alberto Torres, que assina uma das epígrafes: "Este estado não é uma nacionalidade; este país não é uma sociedade; esta gente não é um povo. Nossos homens não são cidadãos." Torres e Deuses reúne poemas que tratam dos temas da identidade, da nacionalidade e do exílio.
A terceira e última seção, Na Terra Provisória, traz um poema eminentemente confessional como A Torre Cabocla. "Eu, o poeta Bruno Tolentino/ porque nunca me dei com tiranos/ nem com títeres, vivi ao léu,/ perambulei anos e anos/ em território alheio...", começa. Nesse exílio, Tolentino foi em busca de suas referências, como William B. Yeats e Rainer Maria Rilke. "Reconheço o que fiz/ como mais ou menos feliz,/ mas fui feliz fazendo-o, o que basta/ a pedreiros da minha casta." Os Deuses de Hoje tem homenagens acaloradas a Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meirelles, Manuel Bandeira e José Guilherme Merquior. "Fernando Pessoa/ dizia que fora/ como a erva daninha/ que não arrancaram;/ a mim me podaram/ bem cedo, e a tesoura", escreve na bela Cantilena do Eco. E, pouco depois, prossegue: "Manuel Bandeira/ uma vez me disse/ que não desistisse/ de ouvir o silêncio,/ professor de estilo."
Compromisso
- Nesses versos, tomados entre os melhores, estão dois dos principais temas de Tolentino: a castração e a meditação. Os Deuses de Hoje reúne, na verdade, os poemas políticos que Tolentino escreveu ao longo de 30 anos. No livro, Bruno Tolentino escreve como um poeta histórico, enraizado em seu tempo e comprometido irremediavelmente com o presente e sua cauda de circunstâncias. Seu modelo é William B. Yeats. "É meu único livro em que, de verdade, falo de mim, sou sempre Eu que estou presente."
Estão nesse livro quase todos os poemas que, ao longo de 30 anos, Tolentino produziu na esfera do Eu. O premiado As Horas de Katharina, ao contrário, reúne versos escritos sob a premência do pensamento e da abstração. Os poemas de fundo mais filosófico que Tolentino escreveu ao longo da mesma época aparecerão em As Epifanias, livro no qual as relações de amizade com Giuseppe Ungaretti e Saint John Perse estarão mais nítidas e que já tem mais de 8 mil versos prontos.
Em 1992, Tolentino mostrou um esboço das Epifanias a Antônio Cândido, que desaconselhou a publicação do livro: "Publicar esse livro agora, no Brasil, é como tentar aterrissar um Boeing em um campo de futebol", argumentou o escritor. Apesar da ressalva do mestre, Bruno Tolentino considera que As Epifanias será seu livro-súmula. Trabalha ainda em O Mundo Como Idéia, coletânea em que reúne os poemas mais radicalmente filosóficos, poesia sobre a poesia, sobre os temas transcendentais e sobre a morte. "Será um livro sobre o perigo das ideologias", o poeta define.

(in O Estado de São Paulo, caderno 2)

2 394 4
José Castello

José Castello

Bruno Tolentino faz versos contra a hipocrisia

O poeta que acaba de ganhar o Prêmio Cruz e Souza lança mais dois livros, um deles em SP
Opoeta Bruno Tolentino acaba de ser contemplado com o Prêmio Cruz e Souza, conferido pela Secretaria de Cultura de Santa Catarina. A premiação vem no momento em que o escritor se prepara para o lançamento de dois livros: Os Deuses de Hoje (editora Record), reunião de 30 anos de poesia política, e Os Sapos de Ontem (editora Diadorim), dossiê de uma polêmica com os irmãos Augusto e Haroldo de Campos (leia texto ao lado), somado a uma coletânea de poemas satíricos.
Os Sapos de Ontem terá sessão de autógrafos em São Paulo hoje, a partir das 18 horas, no Espaço Átrio República (Rua Marquês de Itu, 64, 258-3823). Os Deuses de Hoje será lançado no Rio, na segunda-feira, às 20 horas, na Livraria do Museu da República, no Palácio do Catete.
O livro premiado com o Cruz e Souza é o inédito Balada do Cárcere de Dartmoor. Tolentino o escreveu entre 1985 e 1987, período em que cumpriu pena na sinistra prisão inglesa construída no século 18, sob a acusação de consumir cocaína. A prisão não passou de um artifício usado pela polícia inglesa, que pretendeu, sem sucesso, levar o poeta a confessar alguns dos nomes dos grandes chefões do tráfico de drogas na Inglaterra.
O livro é um acerto de contas com esse período que, apesar de todo o mal-entendido e o imenso sofrimento que causou, Tolentino classifica como "muito rico". "Sempre que relato as condições nas quais escrevi esse poema, tenho de ouvir do repórter o comentário: `Não se preocupe, porque não vou publicar", diz, indignado. O poeta prossegue: "As pessoas fazem uma espécie de restrição mental ao episódio, porque partem da premissa falsa de que, se você é poeta, você é impecável."
Silêncio intelectual
- Bruno Tolentino se diz cansado da hipocrisia com que o episódio de sua prisão é silenciado no meio intelectual brasileiro. Há uma semana, ao receber a informação de que fora escolhido como o vencedor do Cruz e Souza, teve de ouvir a ressalva: "Mas, não se preocupe: sobre a sua prisão, não falaremos nada."
A narração do poema é atribuída ao detento 212, um certo Ambrose, na verdade o mais interessante dos muitos presos que Tolentino alfabetizou durante sua temporada atrás das grades. Acusado do assassinato da mulher e cumprindo pena por mais de uma década, Ambrose, mais tarde, dedicou-se a estudar o próprio caso e hoje, já em regime de prisão aberta, transformou-se em um respeitado psicólogo.
Tolentino pretende publicar Balada do Cárcere de Dartmoor em 1996. Antes disso, quer acrescentar ao vasto poema uma série de documentos sobre o processo que o levou à prisão e ainda escrever um relato mais factual sobre o homem que inspirou seu personagem Ambrose.
O poeta também é autor de As Horas de Katharina, editado no ano passado pela Companhia das Letras e que recebeu este ano o Prêmio Jabuti, concedido pela Câmara Brasileira do Livro. Depois de viver mais de 20 anos na Europa, entre Itália, França e Inglaterra, onde se tornou amigo de escritores como Giuseppe Ungaretti, W. H. Auden e Samuel Beckett, Tolentino retornou ao Brasil temporariamente em 1985, com o projeto de lançar uma coletânea de poemas brasileiros, que se chamaria A Terra Provisória.
No período em que esteve na Europa, escreveu seus poemas em inglês e francês e eles lhe renderam dois livros: Le Vrai le Vain, publicado em Paris, e About the Hunt, editado em Londres, além de elogios entusiasmados de personalidades como Jean Starobinsky e Yves Bonnefoy. O poeta acabou voltando para a Europa e o projeto de A Terra Provisória não se realizou.
Ao retornar de vez ao Brasil, em 1993, os amigos o presentearam com um livro organizado a partir dos muitos poemas escritos em português que o poeta lhes enviou por carta, ao longo da temporada européia. Eles compõem, agora, O Baile Negro, primeira parte de Os Deuses de Hoje.
Entre eles se destaca o poema-título, na verdade o grande lamento de Tolentino pelo golpe militar de 1964. O baile, no caso é uma metáfora da tortura. Nessa primeira parte, pode ser encontrado também o magnífico A Garça e o Equilibrista, longa meditação sobre a existência humana, escrita depois do retorno de Tolentino à fé cristã. A segunda parte, Torres e Deuses, tem como centro a figura de Alberto Torres, que assina uma das epígrafes: "Este estado não é uma nacionalidade; este país não é uma sociedade; esta gente não é um povo. Nossos homens não são cidadãos." Torres e Deuses reúne poemas que tratam dos temas da identidade, da nacionalidade e do exílio.
A terceira e última seção, Na Terra Provisória, traz um poema eminentemente confessional como A Torre Cabocla. "Eu, o poeta Bruno Tolentino/ porque nunca me dei com tiranos/ nem com títeres, vivi ao léu,/ perambulei anos e anos/ em território alheio...", começa. Nesse exílio, Tolentino foi em busca de suas referências, como William B. Yeats e Rainer Maria Rilke. "Reconheço o que fiz/ como mais ou menos feliz,/ mas fui feliz fazendo-o, o que basta/ a pedreiros da minha casta." Os Deuses de Hoje tem homenagens acaloradas a Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meirelles, Manuel Bandeira e José Guilherme Merquior. "Fernando Pessoa/ dizia que fora/ como a erva daninha/ que não arrancaram;/ a mim me podaram/ bem cedo, e a tesoura", escreve na bela Cantilena do Eco. E, pouco depois, prossegue: "Manuel Bandeira/ uma vez me disse/ que não desistisse/ de ouvir o silêncio,/ professor de estilo."
Compromisso
- Nesses versos, tomados entre os melhores, estão dois dos principais temas de Tolentino: a castração e a meditação. Os Deuses de Hoje reúne, na verdade, os poemas políticos que Tolentino escreveu ao longo de 30 anos. No livro, Bruno Tolentino escreve como um poeta histórico, enraizado em seu tempo e comprometido irremediavelmente com o presente e sua cauda de circunstâncias. Seu modelo é William B. Yeats. "É meu único livro em que, de verdade, falo de mim, sou sempre Eu que estou presente."
Estão nesse livro quase todos os poemas que, ao longo de 30 anos, Tolentino produziu na esfera do Eu. O premiado As Horas de Katharina, ao contrário, reúne versos escritos sob a premência do pensamento e da abstração. Os poemas de fundo mais filosófico que Tolentino escreveu ao longo da mesma época aparecerão em As Epifanias, livro no qual as relações de amizade com Giuseppe Ungaretti e Saint John Perse estarão mais nítidas e que já tem mais de 8 mil versos prontos.
Em 1992, Tolentino mostrou um esboço das Epifanias a Antônio Cândido, que desaconselhou a publicação do livro: "Publicar esse livro agora, no Brasil, é como tentar aterrissar um Boeing em um campo de futebol", argumentou o escritor. Apesar da ressalva do mestre, Bruno Tolentino considera que As Epifanias será seu livro-súmula. Trabalha ainda em O Mundo Como Idéia, coletânea em que reúne os poemas mais radicalmente filosóficos, poesia sobre a poesia, sobre os temas transcendentais e sobre a morte. "Será um livro sobre o perigo das ideologias", o poeta define.

(in O Estado de São Paulo, caderno 2)

2 394 4
José Castello

José Castello

Bruno Tolentino faz versos contra a hipocrisia

O poeta que acaba de ganhar o Prêmio Cruz e Souza lança mais dois livros, um deles em SP
Opoeta Bruno Tolentino acaba de ser contemplado com o Prêmio Cruz e Souza, conferido pela Secretaria de Cultura de Santa Catarina. A premiação vem no momento em que o escritor se prepara para o lançamento de dois livros: Os Deuses de Hoje (editora Record), reunião de 30 anos de poesia política, e Os Sapos de Ontem (editora Diadorim), dossiê de uma polêmica com os irmãos Augusto e Haroldo de Campos (leia texto ao lado), somado a uma coletânea de poemas satíricos.
Os Sapos de Ontem terá sessão de autógrafos em São Paulo hoje, a partir das 18 horas, no Espaço Átrio República (Rua Marquês de Itu, 64, 258-3823). Os Deuses de Hoje será lançado no Rio, na segunda-feira, às 20 horas, na Livraria do Museu da República, no Palácio do Catete.
O livro premiado com o Cruz e Souza é o inédito Balada do Cárcere de Dartmoor. Tolentino o escreveu entre 1985 e 1987, período em que cumpriu pena na sinistra prisão inglesa construída no século 18, sob a acusação de consumir cocaína. A prisão não passou de um artifício usado pela polícia inglesa, que pretendeu, sem sucesso, levar o poeta a confessar alguns dos nomes dos grandes chefões do tráfico de drogas na Inglaterra.
O livro é um acerto de contas com esse período que, apesar de todo o mal-entendido e o imenso sofrimento que causou, Tolentino classifica como "muito rico". "Sempre que relato as condições nas quais escrevi esse poema, tenho de ouvir do repórter o comentário: `Não se preocupe, porque não vou publicar", diz, indignado. O poeta prossegue: "As pessoas fazem uma espécie de restrição mental ao episódio, porque partem da premissa falsa de que, se você é poeta, você é impecável."
Silêncio intelectual
- Bruno Tolentino se diz cansado da hipocrisia com que o episódio de sua prisão é silenciado no meio intelectual brasileiro. Há uma semana, ao receber a informação de que fora escolhido como o vencedor do Cruz e Souza, teve de ouvir a ressalva: "Mas, não se preocupe: sobre a sua prisão, não falaremos nada."
A narração do poema é atribuída ao detento 212, um certo Ambrose, na verdade o mais interessante dos muitos presos que Tolentino alfabetizou durante sua temporada atrás das grades. Acusado do assassinato da mulher e cumprindo pena por mais de uma década, Ambrose, mais tarde, dedicou-se a estudar o próprio caso e hoje, já em regime de prisão aberta, transformou-se em um respeitado psicólogo.
Tolentino pretende publicar Balada do Cárcere de Dartmoor em 1996. Antes disso, quer acrescentar ao vasto poema uma série de documentos sobre o processo que o levou à prisão e ainda escrever um relato mais factual sobre o homem que inspirou seu personagem Ambrose.
O poeta também é autor de As Horas de Katharina, editado no ano passado pela Companhia das Letras e que recebeu este ano o Prêmio Jabuti, concedido pela Câmara Brasileira do Livro. Depois de viver mais de 20 anos na Europa, entre Itália, França e Inglaterra, onde se tornou amigo de escritores como Giuseppe Ungaretti, W. H. Auden e Samuel Beckett, Tolentino retornou ao Brasil temporariamente em 1985, com o projeto de lançar uma coletânea de poemas brasileiros, que se chamaria A Terra Provisória.
No período em que esteve na Europa, escreveu seus poemas em inglês e francês e eles lhe renderam dois livros: Le Vrai le Vain, publicado em Paris, e About the Hunt, editado em Londres, além de elogios entusiasmados de personalidades como Jean Starobinsky e Yves Bonnefoy. O poeta acabou voltando para a Europa e o projeto de A Terra Provisória não se realizou.
Ao retornar de vez ao Brasil, em 1993, os amigos o presentearam com um livro organizado a partir dos muitos poemas escritos em português que o poeta lhes enviou por carta, ao longo da temporada européia. Eles compõem, agora, O Baile Negro, primeira parte de Os Deuses de Hoje.
Entre eles se destaca o poema-título, na verdade o grande lamento de Tolentino pelo golpe militar de 1964. O baile, no caso é uma metáfora da tortura. Nessa primeira parte, pode ser encontrado também o magnífico A Garça e o Equilibrista, longa meditação sobre a existência humana, escrita depois do retorno de Tolentino à fé cristã. A segunda parte, Torres e Deuses, tem como centro a figura de Alberto Torres, que assina uma das epígrafes: "Este estado não é uma nacionalidade; este país não é uma sociedade; esta gente não é um povo. Nossos homens não são cidadãos." Torres e Deuses reúne poemas que tratam dos temas da identidade, da nacionalidade e do exílio.
A terceira e última seção, Na Terra Provisória, traz um poema eminentemente confessional como A Torre Cabocla. "Eu, o poeta Bruno Tolentino/ porque nunca me dei com tiranos/ nem com títeres, vivi ao léu,/ perambulei anos e anos/ em território alheio...", começa. Nesse exílio, Tolentino foi em busca de suas referências, como William B. Yeats e Rainer Maria Rilke. "Reconheço o que fiz/ como mais ou menos feliz,/ mas fui feliz fazendo-o, o que basta/ a pedreiros da minha casta." Os Deuses de Hoje tem homenagens acaloradas a Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meirelles, Manuel Bandeira e José Guilherme Merquior. "Fernando Pessoa/ dizia que fora/ como a erva daninha/ que não arrancaram;/ a mim me podaram/ bem cedo, e a tesoura", escreve na bela Cantilena do Eco. E, pouco depois, prossegue: "Manuel Bandeira/ uma vez me disse/ que não desistisse/ de ouvir o silêncio,/ professor de estilo."
Compromisso
- Nesses versos, tomados entre os melhores, estão dois dos principais temas de Tolentino: a castração e a meditação. Os Deuses de Hoje reúne, na verdade, os poemas políticos que Tolentino escreveu ao longo de 30 anos. No livro, Bruno Tolentino escreve como um poeta histórico, enraizado em seu tempo e comprometido irremediavelmente com o presente e sua cauda de circunstâncias. Seu modelo é William B. Yeats. "É meu único livro em que, de verdade, falo de mim, sou sempre Eu que estou presente."
Estão nesse livro quase todos os poemas que, ao longo de 30 anos, Tolentino produziu na esfera do Eu. O premiado As Horas de Katharina, ao contrário, reúne versos escritos sob a premência do pensamento e da abstração. Os poemas de fundo mais filosófico que Tolentino escreveu ao longo da mesma época aparecerão em As Epifanias, livro no qual as relações de amizade com Giuseppe Ungaretti e Saint John Perse estarão mais nítidas e que já tem mais de 8 mil versos prontos.
Em 1992, Tolentino mostrou um esboço das Epifanias a Antônio Cândido, que desaconselhou a publicação do livro: "Publicar esse livro agora, no Brasil, é como tentar aterrissar um Boeing em um campo de futebol", argumentou o escritor. Apesar da ressalva do mestre, Bruno Tolentino considera que As Epifanias será seu livro-súmula. Trabalha ainda em O Mundo Como Idéia, coletânea em que reúne os poemas mais radicalmente filosóficos, poesia sobre a poesia, sobre os temas transcendentais e sobre a morte. "Será um livro sobre o perigo das ideologias", o poeta define.

(in O Estado de São Paulo, caderno 2)

2 394 4
José Gomes Ferreira

José Gomes Ferreira

Homens do futuro

Homens do futuro:

ouvi, ouvi este poeta ignorado
que cá de longe fechado numa gaveta
no suor do século vinte
rodeado de chamas e de trovões,
vai atirar para o mundo
versos duros e sonâmbulos como eu.
Versos afiados como dentes duma serra em mãos de injúria.
Versos agrestes como azorragues de nojo.
Versos rudes como machados de decepar.
Versos de lâmina contra a Paisagem do mundo
— essa prostituta que parece andar às ordens dos ricos
para adormecer os poetas.

Fora, fora do planeta,
tu, mulher lânguida
de braços verdes
e cantos de pássaros no coração!

Fora, fora as árvores inúteis
— ninfas paradas
para o cio dos faunos
escondidos no vento...

Fora, fora o céu
com nuvens onde não há chuva
mas cores para quadros de exposição!

Fora, fora os poentes
com sangue sem cadáveres
a iludiremos de campos de batalha suspensos!

Fora, fora as rosas vermelhas,
flâmulas de revolta para enterros na primavera
dos revolucionários mortos na cama!

Fora, fora as fontes
com água envenenada da solidão
para adormecer o desespero dos homens!

Fora, fora as heras nos muros
a vestirem de luz verde as sombras dos nossos mortos sempre
de pé!

Fora, fora os rios
a esquecerem-nos as lágrimas dos pobres!

Fora, fora as papoilas,
tão contentes de parecerem o rosto de sangue heróico dum
fantasma ferido!

Fora, fora tudo o que amoleça de afrodites
a teima das nossas garras
curvas de futuro!

Fora! Fora! Fora! Fora!

Deixem-nos o planeta descarnado e áspero
para vermos bem os esqueletos de tudo, até das nuvens.
Deixem-nos um planeta sem vales rumorosos de ecos úmidos
nem mulheres de flores nas planícies estendidas.
Uma planeta feito de lágrimas e montes de sucata
com morcegos a trazerem nas asas a penumbra das tocas.
E estrelas que rompem do ferro fundente dos fornos!
E cavalos negros nas nuvens de fumo das fábricas!
E flores de punhos cerrados das multidões em alma!
E barracões, e vielas, e vícios, e escravos
a suarem um simulacro de vida
entre bolor, fome, mãos de súplica e cadáveres,
montes de cadáveres, milhões de cadáveres, silêncios de cadáveres
e pedras!

Deixem-nos um planeta sem árvores de estrelas
a nós os poetas que estrangulamos os pássaros
para ouvirmos mais alto o silêncio dos homens
— terríveis, à espera, na sombra do chão
sujo da nossa morte.

7 935 4
José Gomes Ferreira

José Gomes Ferreira

Homens do futuro

Homens do futuro:

ouvi, ouvi este poeta ignorado
que cá de longe fechado numa gaveta
no suor do século vinte
rodeado de chamas e de trovões,
vai atirar para o mundo
versos duros e sonâmbulos como eu.
Versos afiados como dentes duma serra em mãos de injúria.
Versos agrestes como azorragues de nojo.
Versos rudes como machados de decepar.
Versos de lâmina contra a Paisagem do mundo
— essa prostituta que parece andar às ordens dos ricos
para adormecer os poetas.

Fora, fora do planeta,
tu, mulher lânguida
de braços verdes
e cantos de pássaros no coração!

Fora, fora as árvores inúteis
— ninfas paradas
para o cio dos faunos
escondidos no vento...

Fora, fora o céu
com nuvens onde não há chuva
mas cores para quadros de exposição!

Fora, fora os poentes
com sangue sem cadáveres
a iludiremos de campos de batalha suspensos!

Fora, fora as rosas vermelhas,
flâmulas de revolta para enterros na primavera
dos revolucionários mortos na cama!

Fora, fora as fontes
com água envenenada da solidão
para adormecer o desespero dos homens!

Fora, fora as heras nos muros
a vestirem de luz verde as sombras dos nossos mortos sempre
de pé!

Fora, fora os rios
a esquecerem-nos as lágrimas dos pobres!

Fora, fora as papoilas,
tão contentes de parecerem o rosto de sangue heróico dum
fantasma ferido!

Fora, fora tudo o que amoleça de afrodites
a teima das nossas garras
curvas de futuro!

Fora! Fora! Fora! Fora!

Deixem-nos o planeta descarnado e áspero
para vermos bem os esqueletos de tudo, até das nuvens.
Deixem-nos um planeta sem vales rumorosos de ecos úmidos
nem mulheres de flores nas planícies estendidas.
Uma planeta feito de lágrimas e montes de sucata
com morcegos a trazerem nas asas a penumbra das tocas.
E estrelas que rompem do ferro fundente dos fornos!
E cavalos negros nas nuvens de fumo das fábricas!
E flores de punhos cerrados das multidões em alma!
E barracões, e vielas, e vícios, e escravos
a suarem um simulacro de vida
entre bolor, fome, mãos de súplica e cadáveres,
montes de cadáveres, milhões de cadáveres, silêncios de cadáveres
e pedras!

Deixem-nos um planeta sem árvores de estrelas
a nós os poetas que estrangulamos os pássaros
para ouvirmos mais alto o silêncio dos homens
— terríveis, à espera, na sombra do chão
sujo da nossa morte.

7 935 4
Ferreira Gullar

Ferreira Gullar

Poema Sujo - um fragmento: Velocidades

Mas na cidade havia
muita luz,
a vida
fazia rodar o século nas nuvens
sobre nossa varanda
por cima de mim e das galinhas no quintal
por cima
do depósito onde mofavam
paneiros de farinha
atrás da quitanda,
e era pouco
viver, mesmo
no salão de bilhar, mesmo
no botequim do Castro, na pensão
da Maroca nas noites de sábado, era pouco
banhar-se e descer a pé
para a cidade de tarde
(sob o rumor das árvores)
ali
no norte do Brasil
vestido de brim.

E por ser pouco
era muito,
que pouco muito era o verde
fogo da grama, o musgo do muro, o galo
que vai morrer,
a louça na cristaleira,
o doce na compoteira, a falta
de afeto, a busca
do amor nas coisas.

Não nas pessoas:
nas coisas, na muda carne
das coisas, na cona da flor, no oculto
falar das águas sozinhas:
que a vida
passava por sobre nós,
de avião.

Não tem a mesma velocidade o domingo
que a sexta-feira com seu azáfama de compras
fazendo aumentar o tráfego e o consumo
de caldo de cana gelado,
nem tem
a mesma velocidade
a açucena e a maré
com seu exército de borbulhas e ardentes caravelas
a penetrar soturnamente o rio
noutra lentidão que a do crepúsculo
que, no alto,
com sua grande engrenagem escangalhada
moía a luz.
Outra velocidade
tem Bizuza sentada no chão do quarto
a dobrar os lençóis lavados e passados
a ferro, arrumando-os na gaveta da cômoda, como
se a vida fosse eterna.
E era
naquele seu universo de almoços e temperos
de folhas de louro e de pimenta-do-reino
mastruz para tosse braba,
universo
de panelas e canseiras entre as paredes da cozinha
dentro de um surrado vestido de chita,
enfim,
onde batia o seu pequenino coração.
E se não era
eterna a vida, dentro e fora do armário,
o certo é que
tendo cada coisa uma velocidade
(a do melado
escura, clara
a da água
a derramar-se)
cada coisa se afastava
desigualmente
de sua possível eternidade.
Ou
se se quer
desigualmente
a tecia
na sua própria carne escura ou clara
num transcorrer mais profundo que o da semana.
Por isso não é certo dize
que é no domingo que melhor se vê
a cidade
- as fachadas de azulejo, a Rua do Sol vazia
as janelas trançadas no silêncio -
quando ela
parada
parece flutuar.

E que melhor se vê uma cidade
quando - como Alcântara
todos os habitantes se foram
e nada resta deles (sequer
um espelho de aparador num daqueles
aposentos sem teto) - se não
entre as ruínas
a persistente certeza de que
naquele chão
onde agora crescem carrapichos
eles efetivamente dançaram
(e quase se ouvem vozes
e gargalhadas
que se acendem e apagam nas dobras da brisa)
Mas

se é espantoso pensar
como tanta coisa sumiu, tantos
guarda-roupas e camas e mucamas
tantas e tantas saias, anáguas,
sapatos dos mais variados modelos
arrastados pelo ar junto com as nuvens,
a isso
responde a manhã
que
com suas muitas e azuis velocidades
segue em frente
alegre e sem memória

É impossível dizer
em quantas velocidades diferentes
se move uma cidade
a cada instante
(sem falar nos mortos
que voam para trás)
ou mesmo uma casa
onde a velocidade da cozinha
não é igual à da sala (aparentemente imóvel
nos seus jarros e bibelôs de porcelana)
nem à do quintal
escancarado às ventanias da época

e que dizer das ruas
de tráfego intenso e da circulação do dinheiro
e das mercadorias
desigual segundo o bairro e a classe, e da
rotação do capital
mais lenta nos legumes
mais rápida no setor industrial, e
da rotação do sono
sob a pele,
do sonho
nos cabelos?

e as tantas situações da água nas vasilhas
(pronta a fugir)

a rotação
da mão que busca entre os pentelhos
o sonho molhado os muitos lábios
do corpo
que ao afago se abre em rosa, a mão
que ali se detém a sujar-se
de cheiros de mulher,
e a rotação
dos cheiros outros
que na quinta se fabricam
junto com a resina das árvores e o canto
dos passarinhos?
Que dizer da circulação
da luz solar
arrastando-se no pó debaixo do guarda-roupa
entre sapatos?
e da circulação
dos gatos pela casa
dos pombos pela brisa?
e cada um desses fatos numa velocidade própria
sem falar na própria velocidade
que em cada coisa há
como os muitos

sistemas de açúcar e álcool numa pêra
girando
todos em diferentes ritmos
(que quase

se pode ouvir)
e compondo a velocidade geral
que a pêra é

do mesmo modo que todas essas velocidades mencionadas
compõem
(nosso rostd refletido na água do tanque)
o dia
que passa
- ou passou -
na cidade de São Luís.

E do mesmo modo
que há muitas velocidades num
só dia
e nesse mesmo dia muitos dias
assim
não se pode também dizer que o dia
tem um único centro
(feito um caroço
ou um sol)
porque na verdade um dia
tem inumeráveis centros
como, por exemplo, o pote de água
na sala de jantar
ou na cozinha
em tomo do qual
desordenadamente giram os membros da famflia.

E se nesse caso
é a sede a força de gravitação
outras funções metabólicas
outros centros geram
como a sentina
a cama
ou a mesa de jantar
(sob uma luz encardida numa
porta-e-janela da Rua da Alegria
na época da guerra)
sem falar nos centros cívicos, nos centros
espíritas, no Centro Cultural
Gonçalves Dias ou nos mercados de peixe,
colégios, igrejas e prostíbulos,
outros tantos centros do sistema
em que o dia se move
(sempre em velocidades diferentes)
sem sair do lugar.

Porque
quando todos esses sóis se apagam
resta a cidade vazia
(como Alcântara)
no mesmo lugar.

Porque
diferentemente do sistema solar
a esses sistemas
não os sustém o sol e sim
os corpos
que em tomo dele giram:
não os sustém a mesa
mas a fome
não os sustém a cama
e sim o sono
não os sustém o banco
e sim o trabalho não pago

E essa é a razão por que
quando as pessoas se vão
(como em Alcântara)

apagam-se os sóis (os
potes, os fogões)
que delas recebiam o calor

essa é a razão
por que em São Luís
donde as pessoas não se foram
ainda neste momento a cidade se move
em seus muitos sistemas
e velocidades
pois quando um pote se quebra
outro pote se faz
outra cama se faz
outra jarra se faz
outro homem
se faz
para que não se extinga
o fogo
na cozinha da casa

O que eles falavam na cozinha
ou no alpendre do sobrado
(na Rua do Sol)
saía pelas janelas

se ouvia nos quartos de baixo
na casa vizinha, nos fundos da Movelaria
(e vá alguém saber
quanta coisa se fala numa cidade
quantas vozes
resvalam por esse intrincado labirinto
de paredes e quartos e saguões,
de banheiros, de pátios, de quintais
vozes

entre muros e plantas,
risos,
que duram um segundo e se apaga
2 401 4
Ferreira Gullar

Ferreira Gullar

Poema Sujo - um fragmento: Velocidades

Mas na cidade havia
muita luz,
a vida
fazia rodar o século nas nuvens
sobre nossa varanda
por cima de mim e das galinhas no quintal
por cima
do depósito onde mofavam
paneiros de farinha
atrás da quitanda,
e era pouco
viver, mesmo
no salão de bilhar, mesmo
no botequim do Castro, na pensão
da Maroca nas noites de sábado, era pouco
banhar-se e descer a pé
para a cidade de tarde
(sob o rumor das árvores)
ali
no norte do Brasil
vestido de brim.

E por ser pouco
era muito,
que pouco muito era o verde
fogo da grama, o musgo do muro, o galo
que vai morrer,
a louça na cristaleira,
o doce na compoteira, a falta
de afeto, a busca
do amor nas coisas.

Não nas pessoas:
nas coisas, na muda carne
das coisas, na cona da flor, no oculto
falar das águas sozinhas:
que a vida
passava por sobre nós,
de avião.

Não tem a mesma velocidade o domingo
que a sexta-feira com seu azáfama de compras
fazendo aumentar o tráfego e o consumo
de caldo de cana gelado,
nem tem
a mesma velocidade
a açucena e a maré
com seu exército de borbulhas e ardentes caravelas
a penetrar soturnamente o rio
noutra lentidão que a do crepúsculo
que, no alto,
com sua grande engrenagem escangalhada
moía a luz.
Outra velocidade
tem Bizuza sentada no chão do quarto
a dobrar os lençóis lavados e passados
a ferro, arrumando-os na gaveta da cômoda, como
se a vida fosse eterna.
E era
naquele seu universo de almoços e temperos
de folhas de louro e de pimenta-do-reino
mastruz para tosse braba,
universo
de panelas e canseiras entre as paredes da cozinha
dentro de um surrado vestido de chita,
enfim,
onde batia o seu pequenino coração.
E se não era
eterna a vida, dentro e fora do armário,
o certo é que
tendo cada coisa uma velocidade
(a do melado
escura, clara
a da água
a derramar-se)
cada coisa se afastava
desigualmente
de sua possível eternidade.
Ou
se se quer
desigualmente
a tecia
na sua própria carne escura ou clara
num transcorrer mais profundo que o da semana.
Por isso não é certo dize
que é no domingo que melhor se vê
a cidade
- as fachadas de azulejo, a Rua do Sol vazia
as janelas trançadas no silêncio -
quando ela
parada
parece flutuar.

E que melhor se vê uma cidade
quando - como Alcântara
todos os habitantes se foram
e nada resta deles (sequer
um espelho de aparador num daqueles
aposentos sem teto) - se não
entre as ruínas
a persistente certeza de que
naquele chão
onde agora crescem carrapichos
eles efetivamente dançaram
(e quase se ouvem vozes
e gargalhadas
que se acendem e apagam nas dobras da brisa)
Mas

se é espantoso pensar
como tanta coisa sumiu, tantos
guarda-roupas e camas e mucamas
tantas e tantas saias, anáguas,
sapatos dos mais variados modelos
arrastados pelo ar junto com as nuvens,
a isso
responde a manhã
que
com suas muitas e azuis velocidades
segue em frente
alegre e sem memória

É impossível dizer
em quantas velocidades diferentes
se move uma cidade
a cada instante
(sem falar nos mortos
que voam para trás)
ou mesmo uma casa
onde a velocidade da cozinha
não é igual à da sala (aparentemente imóvel
nos seus jarros e bibelôs de porcelana)
nem à do quintal
escancarado às ventanias da época

e que dizer das ruas
de tráfego intenso e da circulação do dinheiro
e das mercadorias
desigual segundo o bairro e a classe, e da
rotação do capital
mais lenta nos legumes
mais rápida no setor industrial, e
da rotação do sono
sob a pele,
do sonho
nos cabelos?

e as tantas situações da água nas vasilhas
(pronta a fugir)

a rotação
da mão que busca entre os pentelhos
o sonho molhado os muitos lábios
do corpo
que ao afago se abre em rosa, a mão
que ali se detém a sujar-se
de cheiros de mulher,
e a rotação
dos cheiros outros
que na quinta se fabricam
junto com a resina das árvores e o canto
dos passarinhos?
Que dizer da circulação
da luz solar
arrastando-se no pó debaixo do guarda-roupa
entre sapatos?
e da circulação
dos gatos pela casa
dos pombos pela brisa?
e cada um desses fatos numa velocidade própria
sem falar na própria velocidade
que em cada coisa há
como os muitos

sistemas de açúcar e álcool numa pêra
girando
todos em diferentes ritmos
(que quase

se pode ouvir)
e compondo a velocidade geral
que a pêra é

do mesmo modo que todas essas velocidades mencionadas
compõem
(nosso rostd refletido na água do tanque)
o dia
que passa
- ou passou -
na cidade de São Luís.

E do mesmo modo
que há muitas velocidades num
só dia
e nesse mesmo dia muitos dias
assim
não se pode também dizer que o dia
tem um único centro
(feito um caroço
ou um sol)
porque na verdade um dia
tem inumeráveis centros
como, por exemplo, o pote de água
na sala de jantar
ou na cozinha
em tomo do qual
desordenadamente giram os membros da famflia.

E se nesse caso
é a sede a força de gravitação
outras funções metabólicas
outros centros geram
como a sentina
a cama
ou a mesa de jantar
(sob uma luz encardida numa
porta-e-janela da Rua da Alegria
na época da guerra)
sem falar nos centros cívicos, nos centros
espíritas, no Centro Cultural
Gonçalves Dias ou nos mercados de peixe,
colégios, igrejas e prostíbulos,
outros tantos centros do sistema
em que o dia se move
(sempre em velocidades diferentes)
sem sair do lugar.

Porque
quando todos esses sóis se apagam
resta a cidade vazia
(como Alcântara)
no mesmo lugar.

Porque
diferentemente do sistema solar
a esses sistemas
não os sustém o sol e sim
os corpos
que em tomo dele giram:
não os sustém a mesa
mas a fome
não os sustém a cama
e sim o sono
não os sustém o banco
e sim o trabalho não pago

E essa é a razão por que
quando as pessoas se vão
(como em Alcântara)

apagam-se os sóis (os
potes, os fogões)
que delas recebiam o calor

essa é a razão
por que em São Luís
donde as pessoas não se foram
ainda neste momento a cidade se move
em seus muitos sistemas
e velocidades
pois quando um pote se quebra
outro pote se faz
outra cama se faz
outra jarra se faz
outro homem
se faz
para que não se extinga
o fogo
na cozinha da casa

O que eles falavam na cozinha
ou no alpendre do sobrado
(na Rua do Sol)
saía pelas janelas

se ouvia nos quartos de baixo
na casa vizinha, nos fundos da Movelaria
(e vá alguém saber
quanta coisa se fala numa cidade
quantas vozes
resvalam por esse intrincado labirinto
de paredes e quartos e saguões,
de banheiros, de pátios, de quintais
vozes

entre muros e plantas,
risos,
que duram um segundo e se apaga
2 401 4