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Sociedade e Mundo

Basílio da Gama

Basílio da Gama

Canto Primeiro [II

(...)

Ali Catâneo ao General pedia,
Que do princípio lhe dissesse as causa
Da nova guerra, e do fatal tumulto.
Se aos Padres seguem os rebeldes povos?
Quem os governa em paz, e na peleja?
Que do premeditado oculto Império
Vagamente na Europa se falava.
Nos seus lugares cada qual imóvel
Pende da sua boca: atende em roda
Tudo em silêncio, e dá princpípio Andrade.
O nosso último Rei, e o Rei de Espanha
Determinaram, por cortar de um golpe,
Como sabeis, neste ângulo da terra,
As desordens de povos confinantes,
Que mais certos sinais nos dividissem.
Tirando a linha, de onde a estéril costa,
E o cerro de Castilhos o mar lava
Ao monte mais vizinho, e que as vertentes
Os termos do domínio assinalassem.
Vossa fica a Colônia, e ficam nossos
Sete povos, que os Bárbaros habitam
Naquela Oriental vasta campina,
Que o fértil Uraguai discorre, e banha.
Quem podia esperar que uns Índios rudes,
Sem disciplina, sem valor, sem armas,
Se atravessassem no caminho aos nossos,
E que lhes disputassem o terreno!
Enfim não lhes dei ordens para a guerra:
Frustrada a expedição, enfim voltaram.
C'o vosso General me determino
A entrar no campo juntos, em chegando
A doce volta da estação das flores.
Não sofrem tanto os Índios atrevidos:
Juntos um nosso forte em tanto assaltam:
E os Padres os incitam, e acompanham.
Que, a sua discrição, só eles podem
Aqui mover, ou sossegar a guerra.
(...)


In: GAMA, Basílio da. O Uraguai. Anot. Afrânio Peixoto, Rodolfo Garcia e Osvaldo Braga. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1941

NOTA: Poema composto de 5 canto
2 766 3
Basílio da Gama

Basílio da Gama

Canto Primeiro [II

(...)

Ali Catâneo ao General pedia,
Que do princípio lhe dissesse as causa
Da nova guerra, e do fatal tumulto.
Se aos Padres seguem os rebeldes povos?
Quem os governa em paz, e na peleja?
Que do premeditado oculto Império
Vagamente na Europa se falava.
Nos seus lugares cada qual imóvel
Pende da sua boca: atende em roda
Tudo em silêncio, e dá princpípio Andrade.
O nosso último Rei, e o Rei de Espanha
Determinaram, por cortar de um golpe,
Como sabeis, neste ângulo da terra,
As desordens de povos confinantes,
Que mais certos sinais nos dividissem.
Tirando a linha, de onde a estéril costa,
E o cerro de Castilhos o mar lava
Ao monte mais vizinho, e que as vertentes
Os termos do domínio assinalassem.
Vossa fica a Colônia, e ficam nossos
Sete povos, que os Bárbaros habitam
Naquela Oriental vasta campina,
Que o fértil Uraguai discorre, e banha.
Quem podia esperar que uns Índios rudes,
Sem disciplina, sem valor, sem armas,
Se atravessassem no caminho aos nossos,
E que lhes disputassem o terreno!
Enfim não lhes dei ordens para a guerra:
Frustrada a expedição, enfim voltaram.
C'o vosso General me determino
A entrar no campo juntos, em chegando
A doce volta da estação das flores.
Não sofrem tanto os Índios atrevidos:
Juntos um nosso forte em tanto assaltam:
E os Padres os incitam, e acompanham.
Que, a sua discrição, só eles podem
Aqui mover, ou sossegar a guerra.
(...)


In: GAMA, Basílio da. O Uraguai. Anot. Afrânio Peixoto, Rodolfo Garcia e Osvaldo Braga. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1941

NOTA: Poema composto de 5 canto
2 766 3
Basílio da Gama

Basílio da Gama

Canto Primeiro [II

(...)

Ali Catâneo ao General pedia,
Que do princípio lhe dissesse as causa
Da nova guerra, e do fatal tumulto.
Se aos Padres seguem os rebeldes povos?
Quem os governa em paz, e na peleja?
Que do premeditado oculto Império
Vagamente na Europa se falava.
Nos seus lugares cada qual imóvel
Pende da sua boca: atende em roda
Tudo em silêncio, e dá princpípio Andrade.
O nosso último Rei, e o Rei de Espanha
Determinaram, por cortar de um golpe,
Como sabeis, neste ângulo da terra,
As desordens de povos confinantes,
Que mais certos sinais nos dividissem.
Tirando a linha, de onde a estéril costa,
E o cerro de Castilhos o mar lava
Ao monte mais vizinho, e que as vertentes
Os termos do domínio assinalassem.
Vossa fica a Colônia, e ficam nossos
Sete povos, que os Bárbaros habitam
Naquela Oriental vasta campina,
Que o fértil Uraguai discorre, e banha.
Quem podia esperar que uns Índios rudes,
Sem disciplina, sem valor, sem armas,
Se atravessassem no caminho aos nossos,
E que lhes disputassem o terreno!
Enfim não lhes dei ordens para a guerra:
Frustrada a expedição, enfim voltaram.
C'o vosso General me determino
A entrar no campo juntos, em chegando
A doce volta da estação das flores.
Não sofrem tanto os Índios atrevidos:
Juntos um nosso forte em tanto assaltam:
E os Padres os incitam, e acompanham.
Que, a sua discrição, só eles podem
Aqui mover, ou sossegar a guerra.
(...)


In: GAMA, Basílio da. O Uraguai. Anot. Afrânio Peixoto, Rodolfo Garcia e Osvaldo Braga. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1941

NOTA: Poema composto de 5 canto
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Bernardo Guimarães

Bernardo Guimarães

Hino à Preguiça

...Viridi projectus in antro...
VIRGÍLIO


Meiga Preguiça, velha amiga minha,
Recebe-me em teus braços,
E para o quente, conchegado leito
Vem dirigir meus passos.

Ou, se te apraz, na rede sonolenta,
À sombra do arvoredo,
Vamos dormir ao som d'água, que jorra
Do próximo rochedo.

Mas vamos perto; à orla solitária
De algum bosque vizinho,
Onde haja relva mole, e onde se chegue
Sempre por bom caminho.

Aí, vendo cair uma por uma
As folhas pelo chão,
Pensaremos conosco: — são as horas,
Que aos poucos lá se vão. —

Feita esta reflexão sublime e grave
De sã filosofia,
Em desleixada cisma deixaremos
Vogar a fantasia,

Até que ao doce e tépido mormaço
Do brando sol do outono
Em santa paz possamos quietamente
Conciliar o sono.

Para dormir à sesta às garras fujo
Do ímprobo trabalho,
E venho em teu regaço deleitoso
Buscar doce agasalho.

Caluniam-te muito, amiga minha,
Donzela inofensiva,
Dos pecados mortais te colocando
Na horrenda comitiva.

O que tens de comum com a soberba?...
E nem com a cobiça?...
Tu, que às honras e ao ouro dás as costas,
Lhana e santa Preguiça?

Com a pálida inveja macilenta
Em que é que te assemelhas,
Tu, que, sempre tranquila, tens as faces
Tão nédias e vermelhas?

Jamais a feroz ira sanguinária
Terás por tua igual,
E é por isso, que aos festins da gula
Não tens ódio mortal.

Com a luxúria sempre dás uns visos,
Porém muito de longe,
Porque também não é do teu programa
Fazer vida de monge.

Quando volves os mal abertos olhos
Em frouxa sonolência,
Que feitiço não tens!... que eflúvios vertes
De mórbida indolência!...

És discreta e calada como a noute;
És carinhosa e meiga,
Como a luz do poente, que à tardinha
Se esbate pela veiga.

(...)

Imagem - 00120001


Publicado no livro Folhas do Outono (1883).

In: GUIMARÃES, Bernardo. Poesias completas. Org. introd. cronol. e notas Alphonsus de Guimaraens Filho. Rio de Janeiro: INL, 195
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