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Poemas neste tema

Sociedade e Mundo

Marília Garcia

Marília Garcia

UMA EQUAÇÃO NO HYDE PARK

está chovendo no
hyde park hoje
e estou do outro
lado do hemisfério
sentada ao sol
com um gato
entre meus pés
que estão descalços
e levemente
avermelhados.

está chovendo no
hyde park hoje
e lembro de ter
andado num parque
de ângulos quadrados
com o menino da caixa
preta que tinha uma foto
de uma floresta nórdica
virada de ponta-cabeça na
parede do seu quarto
e que gostava de contar
até 24 depois de cruzar
o gradil.

a gente andava
no meio-fio e sentava
no parque e depois deitava e o
roupão preto felpudo
já na casa dele
e o roommate chamado
steve que amava
uma japonesa.

está chovendo no
hyde park hoje e não sei
o que dizer a ele
que agora está sentado
algumas mesas à frente
e que dentro de um filme
seria alguém que diz sim
mas não estou dentro de um
filme — ouço a voz em eco
no buraco do real —
e me refaço pensando
que podia contar
que o gps funcionou
e indicou o ponto de encontro
mas a mensagem
só chegou depois.

está chovendo no
hyde park hoje
e podia contar que meu
coração tinha sido arrancado
pela boca e que estava
esquecido sobre uma pedra
com o sangue
ainda quente.

sim, está chovendo
no hyde park
e ao inferno
já desceram
um ou dois
ou
três
mas ele
há de subir
atravessando as curvas,
o belvedere, os espaços dirigíveis
“ogni speranza lasciate
voi che entrate”
— há mundo por vir?
ele pergunta antes de passar
e leva na mão
um gravador
e nós cruzamos o olhar
— só por um segundo —
e não lembro mais
desse dia
mas depois o
mesmo olhar
volta à memória
como a interferência
de uma voz saindo
do carro em movimento
pela ladeira.

está chovendo no
hyde park e aquele par
de olhos encontra os meus,
e esse cruzamento
de olhares me distrai
por um momento
da equação.
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Canto II - Alturas de Machu Picchu

I
Do ar ao ar como uma rede
vazia, ia eu entre as ruas e a atmosfera chegando e despedindo,
no advento do outono a moeda estendida
das folhas, e entre a primavera e as espigas,
o que maior amor, como dentro duma luva
que cai, nos entrega qual uma longa lua.


(Dias de vivo fulgor na intempérie
dos corpos: aços convertidos
ao silêncio do ácido:
noites desfiadas até a última farinha:
estamos agredidos da pátria nupcial.
)

Alguém que me esperou entre os violinos
achou um mundo como uma torre enterrada
fundindo sua espiral mais abaixo de todas
nas folhas de cor de roxo enxofre:
mais abaixo, no ouro da geologia,
como espada envolta em meteoros,
mergulhei a mão turbulenta e doce
no mais genital do terrestre.


Meti o resto entre as vagas profundas,
desci como gota entre a paz sulfúrica,
e, como um cego, regressei ao jasmim
da usada primavera humana.




II
Se a flor à flor entrega o alto germe
e a rocha mantém sua flor disseminada
em seu castigado traje de diamante e areia,
o homem franze a pétala da luz que recolhe
nos determinados mananciais marinhos
e verruma o metal palpitante em suas mãos.

E logo, entre a roupa e o fumo, sobre a mesa enterrada,
como embaralhada quantidade, fica a alma:
quartzo e desvelo, lágrimas no oceano
como lagos de frio: mas ainda
mata-a e agoniza-a com papel e com ódio,
submerge-a no tapete cotidiano, dilacera-a
entre as vestimentas hostis do arame.


Não: pelos corredores, ar, mar ou caminhos,
quem guarda sem punhal (como as encarnadas
amapolas) seu sangue? A cólera extenuou
a triste mercadoria do vendedor de seres,
e, enquanto nas alturas da ameixeira, o orvalho
há mil anos deixa a sua carta transparente,
sobre o mesmo ramo que espera, ó coração, ó rosto triturado
entre as cavidades do outono.


Quantas vezes nas ruas de inverno duma cidade
ou num ônibus ou num navio ao crepúsculo, ou
na solidão mais espessa, a da noite de festa,
sob o ressoar de sombras e sinos, na própria gruta
do prazer humano, quis parar e procurar o eterno
veio insondável que antes toquei na pedra ou no
relâmpago que o beijo desprendia.


(O que no cereal como uma história amarela
de pequenos peitos grávidos vai repetindo um número
que sem cessar é ternura nas capas germinais,
e que, idêntica sempre, se debulha em marfim
e o que na água é pátria transparente, sino
desde a neve isolada às ondas sangrentas.
)

Só pude unir um cacho de rostos ou de máscaras
precipitadas, como anéis de ouro falso,
como roupas dispersas filhas dum outono enraivecido
que fizesse tremer a miserável árvore das raças assustadas.


Não tive lugar para descansar a mão
e que, corrente como água de manancial acorrentado,
ou firme como lasca de antracite ou cristal,
tivesse devolvido o calor ou o frio de minha mão estendida.

Que era o homem? Em que parte de sua conversação aberta
entre os armazéns e os assovios, em qual de seus movimentos metálicos
vivia o indestrutível, o imperecível, a vida?



III
O ser como o milho se debulha no inesgotável
celeiro dos feitos perdidos, dos acontecimentos
miseráveis, do um ao sete, ao oito,
e não uma morte, mas muitas mortes chegadas para cada um:
cada dia uma morte pequena, pó, verme, lâmpada
que se apaga no lodo do subúrbio uma pequena morte de asas grossas
entrava em cada homem como curta lança
e era o homem assediado pelo pão ou pela faca,
o ganadeiro: o filho dos portos, o capitão escuro do arado,
ou o roedor das ruas espessas:
todos desfaleceram esperando sua morte, sua curta morte diária:
e seu quebranto aziago de cada dia era
como uma taça negra que bebiam a tremer.




IV
A poderosa morte me convidou muitas vezes:
era como o sol invisível nas ondas,
e o que seu invisível sabor disseminava
era como metade de afundamentos e altura
ou vastas construções de vento e nevasca.


Eu ao férreo gume vim, à estreiteza
do ar, à mortalha de agricultura e pedra,
ao estelar vazio dos passos finais
e à vertiginosa estrada espiral:
porém, largo, mar, ó morte! de onda em onda não vens,
senão como um galope de claridade noturna
ou como os totais números da noite.


Nunca chegaste a vasculhar o bolso, não era
possível tua visita sem uma roupa vermelha:
sem auroral alfombra de cercado silêncio:
sem altos ou enterrados patrimônios de lágrimas.


Não pude amar em cada ser uma árvore
com seu pequeno outono às costas (a morte de mil folhas),
todas as falsas mortes e as ressurreições
sem terra, sem abismo:
quis nadar nas vidas mais largas,
nas mais desatadas desembocaduras,
e quando pouco a pouco foi o homem me negando
e foi fechando a passagem e a porta para que não tocassem
minhas mãos mananciais sua inexistência ferida,
então fui de rua em rua, de rio em rio,
de cidade em cidade, de cama em cama,
e cruzou o deserto minha máscara salobre,
e nas últimas casas humilhadas, sem lâmpada, sem fogo.

sem pão, sem pedra, sem silêncio, sozinho,
rolei morrendo de minha própria morte.




V
Não és tu, morte grave, ave de plumas férreas,
o que o pobre herdeiro das habitações
levava entre alimentos apressurados, sob a pele vazia:
era algo, uma pobre pétala de corda exterminada:
um átomo do peito que não veio ao combate
ou o áspero orvalho que não caiu no rosto.

Era o que não pôde renascer, um pedaço
da pequena morte sem paz nem território:
um osso, um sino que morriam nele.

Eu levantei as vendas do iodo, mergulhei.
as mãos
nas pobres dores que matavam a morte,
e só achei na ferida uma rajada fria
que entrava pelos vagos interstícios da alma.




VI
Então na escada de terra subi
entre o emaranhado atroz das selvas perdidas
até a ti, Machu Picchu.

Alta cidade de pedras escalares,
por fim morada do que o terrestre
não escondeu nas adormecidas vestimentas.

Em ti, como duas linhas paralelas,
o berço do relâmpago e do homem
embalavam-se num vento de espinhos.


Mãe de pedra, espuma de condores.


Alto arrecife da aurora humana.


Pá perdida na primeira areia.


Esta foi a morada, este é o lugar:
aqui os largos grãos do milho subiram
e de novo tombaram como granizo vermelho.


Aqui a fibra dourada saiu da vicunha
para vestir os amores, os túmulos, as mães,
o rei, as orações, os guerreiros.


Aqui os pés do homem descansaram à noite
junto aos pés da águia, nas altas guaridas
carniceiras, e na aurora
pisaram com os pés do trovão a névoa rarefeita,
e tocaram as terras e as pedras
até reconhecê-las na noite ou na morte.


Olho as vestes e as mãos,
o vestígio da água na cavidade sonora,
a parede suavizada pelo tato dum rosto
que olhou com os meus olhos as lâmpadas terrestres,
que aceitou com as minhas mãos as desaparecidas
madeiras: pois tudo, roupagem, pele, vasilhas,
palavras, vinho, pães,
se foi, rolou pelo chão.


E o ar entrou com dedos
de flor de laranjeira sobre todos os adormecidos:
mil anos de ar, meses, semanas de ar,
de vento azul, de cordilheira férrea,
que fora m como suaves furacões de passos
lustrando o solitário recinto da pedra.




VII
Mortos de um só abismo, sombras de uma ribanceira,
a profunda, é assim como do tamanho
de vossa magnitude,
veio a verdadeira, a mais abrasadora
morte, e das rochas verrumadas,
dos capitéis escarlates,
dos aquedutos escalares
vos desmoronastes como num outono
numa única morte.

Hoje o ar vazio já não chora,
já não conhece os vossos pés de argila,
já esqueceu vossos cântaros que filtravam o céu,
quando o derramavam os punhais do raio,
e a árvore poderosa foi comida
pela névoa, e cortada pela rajada de vento.


Ela susteve a mão que caiu de repente
das alturas até o fim do tempo.


Já não sois mãos de aranha, débeis
fibras, teia emaranhada:
caiu tudo o que fostes: costumes, sílabas
gastas, máscaras de luz deslumbrante.


Mas uma permanência de pedra e de palavra:
a cidade como um copo levantou-se nas mãos
de todos, vivos, mortos, calados, sustentados
por tanta morte, um muro, por tanta vida um golpe
de pétalas de pedra: a rosa permanente, a morada:
este arrecife andino de colônias glaciais.


Quando a mão da cor de argila
se converteu em argila, e quando as pequeninas pálpebras se fecharam
cheias de ásperos muros, povoadas de castelos,
e quando todo o homem se arredou em seu buraco,
ficou a exatidão desfraldada:
o alto local da aurora humana:
o mais alto vaso que conteve o silêncio:
uma vida de pedra depois de tantas vidas.




VIII
Sobe comigo, amor americano.

Beija comigo as pedras secretas.


A prata torrencial do Urubamba
faz voar o pólen de sua copa amarela.

Voa o vazio da trepadeira,
a planta pétrea, a grinalda dura
sobre o silêncio do caixão serrano.

Vem, minúscula vida, entre as asas
da terra, enquanto - cristal e frio, ar batido
apartando esmeraldas combatidas,
ó, água selvagem, baixas da neve.


Amor, amor, até a noite abrupta,
desde o sonoro pedernal andino
até a aurora de joelhos vermelhos,
contempla o filho cego da neve.


Ó, Wilkamayu de sonoros fios,
quando rompes teus trovões lineares
em branca espuma, como neve ferida,
quando teu vendaval escarpado
canta e castiga despertando o céu,
que idioma trazes à orelha do mal
arrancada de tua espuma andina?

Quem apresou o relâmpago do frio
e o deixou nas alturas acorrentado,
repartido em suas lágrimas glaciais,
sacudido em suas rápidas espadas,
golpeando seus estames aguerridos,
conduzido em seu leito de guerreiro,
sobressaltado em final de rocha?

Que dizem suas chispas acossadas?
Teu secreto relâmpago rebelde
viajou antes povoado de palavras?
Quem vai partindo sílabas geladas,
idiomas negros, estandartes de ouro,
bocas profundas, gritos subjugados,
em tuas delgadas águas arteriais?

Quem vai cortando pálpebras florais
que chegam para espiar da terra?
Quem precipita cachos mortos
que descem em tuas mãos de cascata
a debulhar a sua noite debulhada
no carvão da geologia?

Quem despenha o ramo dos vínculos?
Quem outra vez sepulta os adeuses?

Amor, amor, não toques na fronteira,
nem adores a cabeça submersa:
deixa que o tempo cumpra sua estatura
em seu salão de mananciais partidos,
e, entre a água veloz e as muralhas,
recolhe o ar do desfiladeiro,

as paralelas lâminas do vento,
o canal cego das cordilheiras,
a áspera saudação do orvalho
e sobe, flor por flor, pela mata
pisando a serpente despenhada.


Na escarpada zona, pedra e bosque,
pó de estrelas verdes, selva clara,
Mantur explode como um lago vivo
ou como um novo piso de silêncio.


Vem ao meu próprio ser, à minha alba,
até as soledades coroadas.

O reino morto ainda vive.


E no Relógio a sombra sangüinária
do condor cruza como uma ave negra.




IX
Águia sideral, vinha de bruma.

Bastião perdido, cimitarra cega.

Cinturão estrelado, pão solene.

Escada torrencial, pálpebra imensa.

Túnica triangular, pólen de pedra.

Lâmpada de granito, pão de pedra.

Serpente mineral, rosa de pedra.

Nave enterrada, manancial de pedra.

Cavalo da luz, luz de pedra.

Esquadra equinocial, vapor de pedra.

Geometria final, livro de pedra.

Timbale entre as lufadas lavrado.

Madrépora do tempo submerso.

Muralha peles dedos suavizada.

Teto pelas plumas combatido.

Ramos de espelho, bases de tormenta.

Tronos revirados pelas trepadeiras.

Regime de garra encarniçada.

Vendaval sustentado na vertente.

Imóvel catarata de turquesa.

Sino patriarcal dos adormecidos.

Anel das neves dominadas.

Ferro deixado sobre suas estátuas.


Inacessível temporal fechado.

Mãos de puma, rocha sanguinária.

Torre encapelada, discussão de neve.

Noite erguida em dedos e raízes.

Janela das névoas, pomba endurecida.

Planta noturna, estátua dos trovões.

Cordilheira essencial, teto marinho.

Arquitetura de águias perdidas.

Corda do céu, abelha das alturas.

Nível sangrento, estrela construída.

Borbulha mineral, lua de quartzo.

Serpente andina, rosto de amaranto.

Cúpula de silêncio, pátria pura.

Noiva do mar, árvore de catedrais.

Ramo de sal, cerejeira de asas negras.

Dentadura nevada, trovão frio.

Lua arranhada, pedra ameaçadora.

Cabeleira do frio, ação do ar.

Vulcão de mãos, catarata escura.

Onda de prata, direção do tempo.




X
Pedra sobre pedra, o homem, onde esteve?
Ar no ar, o homem, onde esteve?
Tempo no tempo, o homem, onde esteve?
Foste também o pedacinho partido
do homem inconcluso, de águia vazia
que pelas ruas de hoje, que pelas pegadas,
que pelas folhas do outono morto
vai remoendo a alma até o túmulo?
A pobre mão, o pé, a pobre vida .
.
.

Os dias da luz desfiada
em ti, como a chuva
sobre as bandeirinhas das festas,
deram pétala por pétala de seu alimento escuro
na boca vazia?

Fome, coral do homem,
Fome, planta secreta, raiz dos lenhadores,
fome subiu a tua arraia de arrecife
até estas altas torres desprendidas?

Eu te interrogo, sal dos caminhos,
mostra-me a colher, deixa-me, arquitetura,
roer com um palito os estames de pedra,
subir todos os degraus do ar até o vazio,
esfregar a entranha até tocar o homem.


Machu Picchu, puseste
pedras na pedra, e na base, um trapo?
Carvão sobre carvão, e no fundo a lágrima?
Fogo no ouro, e nele, tremendo, o rubro
goteirão do sangue?
Devolve-me o escravo que enterraste!
Arroja das terras o pão duro
dos miseráveis, mostra-me as vestes
do servo e sua janela.

Dize-me como dormiu quando vivia.

Dize-me se foi seu sonho
rouco, entreaberto, como um oco negro
feito pela fadiga sobre o muro.

O muro, o muro! Se sobre o seu sonho
gravitou cada piso de pedra, e se caiu debaixo dela
como debaixo de uma lua, com o sonho!
Antiga América, noiva submersa,
também teus dedos
ao saírem da selva para o alto vazio dos deuses,
sob os estandartes da luz nupcial c do decoro.

mesclando-se ao ribombo dos tambores e das lanças,
também, também os teus dedos,
os que a rosa abstrata e a linha do frio, os
que o peito sangrento do novo cereal trasladaram
até a teia de matéria radiante, até as duras cavidades,
também, também, América enterrada, guardaste no mais baixo,
no amargo intestino, como uma águia, a fome?



XI
Através do confuso esplendor,
através da noite de pedra, deixa-me enfiar a mão
e deixa que em mim palpite, como ave mil anos prisioneira,
o velho coração do esquecido!
Deixa-me esquecer hoje esta sorte mais vasta que o mar,
pois o homem é mais vasto que o mar e suas ilhas,
e há que cair dentro como dentro dum poço para subir do fundo
com um ramo de água secreta e de verdades submersas.

Deixa-me esquecer, pedra vasta, a proporção poderosa,
a transcendente medida, as pedras da colméia,
e do esquadro deixa-me hoje roçar
a mão sobre a hipotenusa de áspero sangue e cilício.

Quando, qual uma ferradura de élitros rubros, o condor furibundo
me golpeia as têmporas na ordem do vôo
e furacão de plumas carniceiras varre a poeira sombria
das escalinatas diagonais, não vejo o bicho feroz,
não vejo o cego ciclo de suas garras,
vejo o antigo ser, servidor, o adormecido
nos campos, vejo um corpo, mil corpos, um homem, mil mulheres.

sob a rajada negra, negros de chuva c de noite,
com a pedra pesada da estátua:
Juan Cortapiedras, filho de Wiracocha,
Juan Comefrío, filho de estrela verde,
Juan Piesdescalzos, neto de turquesa,
sobe para nascer comigo, irmão.
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Pablo Neruda

Pablo Neruda

Canto II - Alturas de Machu Picchu

I
Do ar ao ar como uma rede
vazia, ia eu entre as ruas e a atmosfera chegando e despedindo,
no advento do outono a moeda estendida
das folhas, e entre a primavera e as espigas,
o que maior amor, como dentro duma luva
que cai, nos entrega qual uma longa lua.


(Dias de vivo fulgor na intempérie
dos corpos: aços convertidos
ao silêncio do ácido:
noites desfiadas até a última farinha:
estamos agredidos da pátria nupcial.
)

Alguém que me esperou entre os violinos
achou um mundo como uma torre enterrada
fundindo sua espiral mais abaixo de todas
nas folhas de cor de roxo enxofre:
mais abaixo, no ouro da geologia,
como espada envolta em meteoros,
mergulhei a mão turbulenta e doce
no mais genital do terrestre.


Meti o resto entre as vagas profundas,
desci como gota entre a paz sulfúrica,
e, como um cego, regressei ao jasmim
da usada primavera humana.




II
Se a flor à flor entrega o alto germe
e a rocha mantém sua flor disseminada
em seu castigado traje de diamante e areia,
o homem franze a pétala da luz que recolhe
nos determinados mananciais marinhos
e verruma o metal palpitante em suas mãos.

E logo, entre a roupa e o fumo, sobre a mesa enterrada,
como embaralhada quantidade, fica a alma:
quartzo e desvelo, lágrimas no oceano
como lagos de frio: mas ainda
mata-a e agoniza-a com papel e com ódio,
submerge-a no tapete cotidiano, dilacera-a
entre as vestimentas hostis do arame.


Não: pelos corredores, ar, mar ou caminhos,
quem guarda sem punhal (como as encarnadas
amapolas) seu sangue? A cólera extenuou
a triste mercadoria do vendedor de seres,
e, enquanto nas alturas da ameixeira, o orvalho
há mil anos deixa a sua carta transparente,
sobre o mesmo ramo que espera, ó coração, ó rosto triturado
entre as cavidades do outono.


Quantas vezes nas ruas de inverno duma cidade
ou num ônibus ou num navio ao crepúsculo, ou
na solidão mais espessa, a da noite de festa,
sob o ressoar de sombras e sinos, na própria gruta
do prazer humano, quis parar e procurar o eterno
veio insondável que antes toquei na pedra ou no
relâmpago que o beijo desprendia.


(O que no cereal como uma história amarela
de pequenos peitos grávidos vai repetindo um número
que sem cessar é ternura nas capas germinais,
e que, idêntica sempre, se debulha em marfim
e o que na água é pátria transparente, sino
desde a neve isolada às ondas sangrentas.
)

Só pude unir um cacho de rostos ou de máscaras
precipitadas, como anéis de ouro falso,
como roupas dispersas filhas dum outono enraivecido
que fizesse tremer a miserável árvore das raças assustadas.


Não tive lugar para descansar a mão
e que, corrente como água de manancial acorrentado,
ou firme como lasca de antracite ou cristal,
tivesse devolvido o calor ou o frio de minha mão estendida.

Que era o homem? Em que parte de sua conversação aberta
entre os armazéns e os assovios, em qual de seus movimentos metálicos
vivia o indestrutível, o imperecível, a vida?



III
O ser como o milho se debulha no inesgotável
celeiro dos feitos perdidos, dos acontecimentos
miseráveis, do um ao sete, ao oito,
e não uma morte, mas muitas mortes chegadas para cada um:
cada dia uma morte pequena, pó, verme, lâmpada
que se apaga no lodo do subúrbio uma pequena morte de asas grossas
entrava em cada homem como curta lança
e era o homem assediado pelo pão ou pela faca,
o ganadeiro: o filho dos portos, o capitão escuro do arado,
ou o roedor das ruas espessas:
todos desfaleceram esperando sua morte, sua curta morte diária:
e seu quebranto aziago de cada dia era
como uma taça negra que bebiam a tremer.




IV
A poderosa morte me convidou muitas vezes:
era como o sol invisível nas ondas,
e o que seu invisível sabor disseminava
era como metade de afundamentos e altura
ou vastas construções de vento e nevasca.


Eu ao férreo gume vim, à estreiteza
do ar, à mortalha de agricultura e pedra,
ao estelar vazio dos passos finais
e à vertiginosa estrada espiral:
porém, largo, mar, ó morte! de onda em onda não vens,
senão como um galope de claridade noturna
ou como os totais números da noite.


Nunca chegaste a vasculhar o bolso, não era
possível tua visita sem uma roupa vermelha:
sem auroral alfombra de cercado silêncio:
sem altos ou enterrados patrimônios de lágrimas.


Não pude amar em cada ser uma árvore
com seu pequeno outono às costas (a morte de mil folhas),
todas as falsas mortes e as ressurreições
sem terra, sem abismo:
quis nadar nas vidas mais largas,
nas mais desatadas desembocaduras,
e quando pouco a pouco foi o homem me negando
e foi fechando a passagem e a porta para que não tocassem
minhas mãos mananciais sua inexistência ferida,
então fui de rua em rua, de rio em rio,
de cidade em cidade, de cama em cama,
e cruzou o deserto minha máscara salobre,
e nas últimas casas humilhadas, sem lâmpada, sem fogo.

sem pão, sem pedra, sem silêncio, sozinho,
rolei morrendo de minha própria morte.




V
Não és tu, morte grave, ave de plumas férreas,
o que o pobre herdeiro das habitações
levava entre alimentos apressurados, sob a pele vazia:
era algo, uma pobre pétala de corda exterminada:
um átomo do peito que não veio ao combate
ou o áspero orvalho que não caiu no rosto.

Era o que não pôde renascer, um pedaço
da pequena morte sem paz nem território:
um osso, um sino que morriam nele.

Eu levantei as vendas do iodo, mergulhei.
as mãos
nas pobres dores que matavam a morte,
e só achei na ferida uma rajada fria
que entrava pelos vagos interstícios da alma.




VI
Então na escada de terra subi
entre o emaranhado atroz das selvas perdidas
até a ti, Machu Picchu.

Alta cidade de pedras escalares,
por fim morada do que o terrestre
não escondeu nas adormecidas vestimentas.

Em ti, como duas linhas paralelas,
o berço do relâmpago e do homem
embalavam-se num vento de espinhos.


Mãe de pedra, espuma de condores.


Alto arrecife da aurora humana.


Pá perdida na primeira areia.


Esta foi a morada, este é o lugar:
aqui os largos grãos do milho subiram
e de novo tombaram como granizo vermelho.


Aqui a fibra dourada saiu da vicunha
para vestir os amores, os túmulos, as mães,
o rei, as orações, os guerreiros.


Aqui os pés do homem descansaram à noite
junto aos pés da águia, nas altas guaridas
carniceiras, e na aurora
pisaram com os pés do trovão a névoa rarefeita,
e tocaram as terras e as pedras
até reconhecê-las na noite ou na morte.


Olho as vestes e as mãos,
o vestígio da água na cavidade sonora,
a parede suavizada pelo tato dum rosto
que olhou com os meus olhos as lâmpadas terrestres,
que aceitou com as minhas mãos as desaparecidas
madeiras: pois tudo, roupagem, pele, vasilhas,
palavras, vinho, pães,
se foi, rolou pelo chão.


E o ar entrou com dedos
de flor de laranjeira sobre todos os adormecidos:
mil anos de ar, meses, semanas de ar,
de vento azul, de cordilheira férrea,
que fora m como suaves furacões de passos
lustrando o solitário recinto da pedra.




VII
Mortos de um só abismo, sombras de uma ribanceira,
a profunda, é assim como do tamanho
de vossa magnitude,
veio a verdadeira, a mais abrasadora
morte, e das rochas verrumadas,
dos capitéis escarlates,
dos aquedutos escalares
vos desmoronastes como num outono
numa única morte.

Hoje o ar vazio já não chora,
já não conhece os vossos pés de argila,
já esqueceu vossos cântaros que filtravam o céu,
quando o derramavam os punhais do raio,
e a árvore poderosa foi comida
pela névoa, e cortada pela rajada de vento.


Ela susteve a mão que caiu de repente
das alturas até o fim do tempo.


Já não sois mãos de aranha, débeis
fibras, teia emaranhada:
caiu tudo o que fostes: costumes, sílabas
gastas, máscaras de luz deslumbrante.


Mas uma permanência de pedra e de palavra:
a cidade como um copo levantou-se nas mãos
de todos, vivos, mortos, calados, sustentados
por tanta morte, um muro, por tanta vida um golpe
de pétalas de pedra: a rosa permanente, a morada:
este arrecife andino de colônias glaciais.


Quando a mão da cor de argila
se converteu em argila, e quando as pequeninas pálpebras se fecharam
cheias de ásperos muros, povoadas de castelos,
e quando todo o homem se arredou em seu buraco,
ficou a exatidão desfraldada:
o alto local da aurora humana:
o mais alto vaso que conteve o silêncio:
uma vida de pedra depois de tantas vidas.




VIII
Sobe comigo, amor americano.

Beija comigo as pedras secretas.


A prata torrencial do Urubamba
faz voar o pólen de sua copa amarela.

Voa o vazio da trepadeira,
a planta pétrea, a grinalda dura
sobre o silêncio do caixão serrano.

Vem, minúscula vida, entre as asas
da terra, enquanto - cristal e frio, ar batido
apartando esmeraldas combatidas,
ó, água selvagem, baixas da neve.


Amor, amor, até a noite abrupta,
desde o sonoro pedernal andino
até a aurora de joelhos vermelhos,
contempla o filho cego da neve.


Ó, Wilkamayu de sonoros fios,
quando rompes teus trovões lineares
em branca espuma, como neve ferida,
quando teu vendaval escarpado
canta e castiga despertando o céu,
que idioma trazes à orelha do mal
arrancada de tua espuma andina?

Quem apresou o relâmpago do frio
e o deixou nas alturas acorrentado,
repartido em suas lágrimas glaciais,
sacudido em suas rápidas espadas,
golpeando seus estames aguerridos,
conduzido em seu leito de guerreiro,
sobressaltado em final de rocha?

Que dizem suas chispas acossadas?
Teu secreto relâmpago rebelde
viajou antes povoado de palavras?
Quem vai partindo sílabas geladas,
idiomas negros, estandartes de ouro,
bocas profundas, gritos subjugados,
em tuas delgadas águas arteriais?

Quem vai cortando pálpebras florais
que chegam para espiar da terra?
Quem precipita cachos mortos
que descem em tuas mãos de cascata
a debulhar a sua noite debulhada
no carvão da geologia?

Quem despenha o ramo dos vínculos?
Quem outra vez sepulta os adeuses?

Amor, amor, não toques na fronteira,
nem adores a cabeça submersa:
deixa que o tempo cumpra sua estatura
em seu salão de mananciais partidos,
e, entre a água veloz e as muralhas,
recolhe o ar do desfiladeiro,

as paralelas lâminas do vento,
o canal cego das cordilheiras,
a áspera saudação do orvalho
e sobe, flor por flor, pela mata
pisando a serpente despenhada.


Na escarpada zona, pedra e bosque,
pó de estrelas verdes, selva clara,
Mantur explode como um lago vivo
ou como um novo piso de silêncio.


Vem ao meu próprio ser, à minha alba,
até as soledades coroadas.

O reino morto ainda vive.


E no Relógio a sombra sangüinária
do condor cruza como uma ave negra.




IX
Águia sideral, vinha de bruma.

Bastião perdido, cimitarra cega.

Cinturão estrelado, pão solene.

Escada torrencial, pálpebra imensa.

Túnica triangular, pólen de pedra.

Lâmpada de granito, pão de pedra.

Serpente mineral, rosa de pedra.

Nave enterrada, manancial de pedra.

Cavalo da luz, luz de pedra.

Esquadra equinocial, vapor de pedra.

Geometria final, livro de pedra.

Timbale entre as lufadas lavrado.

Madrépora do tempo submerso.

Muralha peles dedos suavizada.

Teto pelas plumas combatido.

Ramos de espelho, bases de tormenta.

Tronos revirados pelas trepadeiras.

Regime de garra encarniçada.

Vendaval sustentado na vertente.

Imóvel catarata de turquesa.

Sino patriarcal dos adormecidos.

Anel das neves dominadas.

Ferro deixado sobre suas estátuas.


Inacessível temporal fechado.

Mãos de puma, rocha sanguinária.

Torre encapelada, discussão de neve.

Noite erguida em dedos e raízes.

Janela das névoas, pomba endurecida.

Planta noturna, estátua dos trovões.

Cordilheira essencial, teto marinho.

Arquitetura de águias perdidas.

Corda do céu, abelha das alturas.

Nível sangrento, estrela construída.

Borbulha mineral, lua de quartzo.

Serpente andina, rosto de amaranto.

Cúpula de silêncio, pátria pura.

Noiva do mar, árvore de catedrais.

Ramo de sal, cerejeira de asas negras.

Dentadura nevada, trovão frio.

Lua arranhada, pedra ameaçadora.

Cabeleira do frio, ação do ar.

Vulcão de mãos, catarata escura.

Onda de prata, direção do tempo.




X
Pedra sobre pedra, o homem, onde esteve?
Ar no ar, o homem, onde esteve?
Tempo no tempo, o homem, onde esteve?
Foste também o pedacinho partido
do homem inconcluso, de águia vazia
que pelas ruas de hoje, que pelas pegadas,
que pelas folhas do outono morto
vai remoendo a alma até o túmulo?
A pobre mão, o pé, a pobre vida .
.
.

Os dias da luz desfiada
em ti, como a chuva
sobre as bandeirinhas das festas,
deram pétala por pétala de seu alimento escuro
na boca vazia?

Fome, coral do homem,
Fome, planta secreta, raiz dos lenhadores,
fome subiu a tua arraia de arrecife
até estas altas torres desprendidas?

Eu te interrogo, sal dos caminhos,
mostra-me a colher, deixa-me, arquitetura,
roer com um palito os estames de pedra,
subir todos os degraus do ar até o vazio,
esfregar a entranha até tocar o homem.


Machu Picchu, puseste
pedras na pedra, e na base, um trapo?
Carvão sobre carvão, e no fundo a lágrima?
Fogo no ouro, e nele, tremendo, o rubro
goteirão do sangue?
Devolve-me o escravo que enterraste!
Arroja das terras o pão duro
dos miseráveis, mostra-me as vestes
do servo e sua janela.

Dize-me como dormiu quando vivia.

Dize-me se foi seu sonho
rouco, entreaberto, como um oco negro
feito pela fadiga sobre o muro.

O muro, o muro! Se sobre o seu sonho
gravitou cada piso de pedra, e se caiu debaixo dela
como debaixo de uma lua, com o sonho!
Antiga América, noiva submersa,
também teus dedos
ao saírem da selva para o alto vazio dos deuses,
sob os estandartes da luz nupcial c do decoro.

mesclando-se ao ribombo dos tambores e das lanças,
também, também os teus dedos,
os que a rosa abstrata e a linha do frio, os
que o peito sangrento do novo cereal trasladaram
até a teia de matéria radiante, até as duras cavidades,
também, também, América enterrada, guardaste no mais baixo,
no amargo intestino, como uma águia, a fome?



XI
Através do confuso esplendor,
através da noite de pedra, deixa-me enfiar a mão
e deixa que em mim palpite, como ave mil anos prisioneira,
o velho coração do esquecido!
Deixa-me esquecer hoje esta sorte mais vasta que o mar,
pois o homem é mais vasto que o mar e suas ilhas,
e há que cair dentro como dentro dum poço para subir do fundo
com um ramo de água secreta e de verdades submersas.

Deixa-me esquecer, pedra vasta, a proporção poderosa,
a transcendente medida, as pedras da colméia,
e do esquadro deixa-me hoje roçar
a mão sobre a hipotenusa de áspero sangue e cilício.

Quando, qual uma ferradura de élitros rubros, o condor furibundo
me golpeia as têmporas na ordem do vôo
e furacão de plumas carniceiras varre a poeira sombria
das escalinatas diagonais, não vejo o bicho feroz,
não vejo o cego ciclo de suas garras,
vejo o antigo ser, servidor, o adormecido
nos campos, vejo um corpo, mil corpos, um homem, mil mulheres.

sob a rajada negra, negros de chuva c de noite,
com a pedra pesada da estátua:
Juan Cortapiedras, filho de Wiracocha,
Juan Comefrío, filho de estrela verde,
Juan Piesdescalzos, neto de turquesa,
sobe para nascer comigo, irmão.
3 162 2
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Canto II - Alturas de Machu Picchu

I
Do ar ao ar como uma rede
vazia, ia eu entre as ruas e a atmosfera chegando e despedindo,
no advento do outono a moeda estendida
das folhas, e entre a primavera e as espigas,
o que maior amor, como dentro duma luva
que cai, nos entrega qual uma longa lua.


(Dias de vivo fulgor na intempérie
dos corpos: aços convertidos
ao silêncio do ácido:
noites desfiadas até a última farinha:
estamos agredidos da pátria nupcial.
)

Alguém que me esperou entre os violinos
achou um mundo como uma torre enterrada
fundindo sua espiral mais abaixo de todas
nas folhas de cor de roxo enxofre:
mais abaixo, no ouro da geologia,
como espada envolta em meteoros,
mergulhei a mão turbulenta e doce
no mais genital do terrestre.


Meti o resto entre as vagas profundas,
desci como gota entre a paz sulfúrica,
e, como um cego, regressei ao jasmim
da usada primavera humana.




II
Se a flor à flor entrega o alto germe
e a rocha mantém sua flor disseminada
em seu castigado traje de diamante e areia,
o homem franze a pétala da luz que recolhe
nos determinados mananciais marinhos
e verruma o metal palpitante em suas mãos.

E logo, entre a roupa e o fumo, sobre a mesa enterrada,
como embaralhada quantidade, fica a alma:
quartzo e desvelo, lágrimas no oceano
como lagos de frio: mas ainda
mata-a e agoniza-a com papel e com ódio,
submerge-a no tapete cotidiano, dilacera-a
entre as vestimentas hostis do arame.


Não: pelos corredores, ar, mar ou caminhos,
quem guarda sem punhal (como as encarnadas
amapolas) seu sangue? A cólera extenuou
a triste mercadoria do vendedor de seres,
e, enquanto nas alturas da ameixeira, o orvalho
há mil anos deixa a sua carta transparente,
sobre o mesmo ramo que espera, ó coração, ó rosto triturado
entre as cavidades do outono.


Quantas vezes nas ruas de inverno duma cidade
ou num ônibus ou num navio ao crepúsculo, ou
na solidão mais espessa, a da noite de festa,
sob o ressoar de sombras e sinos, na própria gruta
do prazer humano, quis parar e procurar o eterno
veio insondável que antes toquei na pedra ou no
relâmpago que o beijo desprendia.


(O que no cereal como uma história amarela
de pequenos peitos grávidos vai repetindo um número
que sem cessar é ternura nas capas germinais,
e que, idêntica sempre, se debulha em marfim
e o que na água é pátria transparente, sino
desde a neve isolada às ondas sangrentas.
)

Só pude unir um cacho de rostos ou de máscaras
precipitadas, como anéis de ouro falso,
como roupas dispersas filhas dum outono enraivecido
que fizesse tremer a miserável árvore das raças assustadas.


Não tive lugar para descansar a mão
e que, corrente como água de manancial acorrentado,
ou firme como lasca de antracite ou cristal,
tivesse devolvido o calor ou o frio de minha mão estendida.

Que era o homem? Em que parte de sua conversação aberta
entre os armazéns e os assovios, em qual de seus movimentos metálicos
vivia o indestrutível, o imperecível, a vida?



III
O ser como o milho se debulha no inesgotável
celeiro dos feitos perdidos, dos acontecimentos
miseráveis, do um ao sete, ao oito,
e não uma morte, mas muitas mortes chegadas para cada um:
cada dia uma morte pequena, pó, verme, lâmpada
que se apaga no lodo do subúrbio uma pequena morte de asas grossas
entrava em cada homem como curta lança
e era o homem assediado pelo pão ou pela faca,
o ganadeiro: o filho dos portos, o capitão escuro do arado,
ou o roedor das ruas espessas:
todos desfaleceram esperando sua morte, sua curta morte diária:
e seu quebranto aziago de cada dia era
como uma taça negra que bebiam a tremer.




IV
A poderosa morte me convidou muitas vezes:
era como o sol invisível nas ondas,
e o que seu invisível sabor disseminava
era como metade de afundamentos e altura
ou vastas construções de vento e nevasca.


Eu ao férreo gume vim, à estreiteza
do ar, à mortalha de agricultura e pedra,
ao estelar vazio dos passos finais
e à vertiginosa estrada espiral:
porém, largo, mar, ó morte! de onda em onda não vens,
senão como um galope de claridade noturna
ou como os totais números da noite.


Nunca chegaste a vasculhar o bolso, não era
possível tua visita sem uma roupa vermelha:
sem auroral alfombra de cercado silêncio:
sem altos ou enterrados patrimônios de lágrimas.


Não pude amar em cada ser uma árvore
com seu pequeno outono às costas (a morte de mil folhas),
todas as falsas mortes e as ressurreições
sem terra, sem abismo:
quis nadar nas vidas mais largas,
nas mais desatadas desembocaduras,
e quando pouco a pouco foi o homem me negando
e foi fechando a passagem e a porta para que não tocassem
minhas mãos mananciais sua inexistência ferida,
então fui de rua em rua, de rio em rio,
de cidade em cidade, de cama em cama,
e cruzou o deserto minha máscara salobre,
e nas últimas casas humilhadas, sem lâmpada, sem fogo.

sem pão, sem pedra, sem silêncio, sozinho,
rolei morrendo de minha própria morte.




V
Não és tu, morte grave, ave de plumas férreas,
o que o pobre herdeiro das habitações
levava entre alimentos apressurados, sob a pele vazia:
era algo, uma pobre pétala de corda exterminada:
um átomo do peito que não veio ao combate
ou o áspero orvalho que não caiu no rosto.

Era o que não pôde renascer, um pedaço
da pequena morte sem paz nem território:
um osso, um sino que morriam nele.

Eu levantei as vendas do iodo, mergulhei.
as mãos
nas pobres dores que matavam a morte,
e só achei na ferida uma rajada fria
que entrava pelos vagos interstícios da alma.




VI
Então na escada de terra subi
entre o emaranhado atroz das selvas perdidas
até a ti, Machu Picchu.

Alta cidade de pedras escalares,
por fim morada do que o terrestre
não escondeu nas adormecidas vestimentas.

Em ti, como duas linhas paralelas,
o berço do relâmpago e do homem
embalavam-se num vento de espinhos.


Mãe de pedra, espuma de condores.


Alto arrecife da aurora humana.


Pá perdida na primeira areia.


Esta foi a morada, este é o lugar:
aqui os largos grãos do milho subiram
e de novo tombaram como granizo vermelho.


Aqui a fibra dourada saiu da vicunha
para vestir os amores, os túmulos, as mães,
o rei, as orações, os guerreiros.


Aqui os pés do homem descansaram à noite
junto aos pés da águia, nas altas guaridas
carniceiras, e na aurora
pisaram com os pés do trovão a névoa rarefeita,
e tocaram as terras e as pedras
até reconhecê-las na noite ou na morte.


Olho as vestes e as mãos,
o vestígio da água na cavidade sonora,
a parede suavizada pelo tato dum rosto
que olhou com os meus olhos as lâmpadas terrestres,
que aceitou com as minhas mãos as desaparecidas
madeiras: pois tudo, roupagem, pele, vasilhas,
palavras, vinho, pães,
se foi, rolou pelo chão.


E o ar entrou com dedos
de flor de laranjeira sobre todos os adormecidos:
mil anos de ar, meses, semanas de ar,
de vento azul, de cordilheira férrea,
que fora m como suaves furacões de passos
lustrando o solitário recinto da pedra.




VII
Mortos de um só abismo, sombras de uma ribanceira,
a profunda, é assim como do tamanho
de vossa magnitude,
veio a verdadeira, a mais abrasadora
morte, e das rochas verrumadas,
dos capitéis escarlates,
dos aquedutos escalares
vos desmoronastes como num outono
numa única morte.

Hoje o ar vazio já não chora,
já não conhece os vossos pés de argila,
já esqueceu vossos cântaros que filtravam o céu,
quando o derramavam os punhais do raio,
e a árvore poderosa foi comida
pela névoa, e cortada pela rajada de vento.


Ela susteve a mão que caiu de repente
das alturas até o fim do tempo.


Já não sois mãos de aranha, débeis
fibras, teia emaranhada:
caiu tudo o que fostes: costumes, sílabas
gastas, máscaras de luz deslumbrante.


Mas uma permanência de pedra e de palavra:
a cidade como um copo levantou-se nas mãos
de todos, vivos, mortos, calados, sustentados
por tanta morte, um muro, por tanta vida um golpe
de pétalas de pedra: a rosa permanente, a morada:
este arrecife andino de colônias glaciais.


Quando a mão da cor de argila
se converteu em argila, e quando as pequeninas pálpebras se fecharam
cheias de ásperos muros, povoadas de castelos,
e quando todo o homem se arredou em seu buraco,
ficou a exatidão desfraldada:
o alto local da aurora humana:
o mais alto vaso que conteve o silêncio:
uma vida de pedra depois de tantas vidas.




VIII
Sobe comigo, amor americano.

Beija comigo as pedras secretas.


A prata torrencial do Urubamba
faz voar o pólen de sua copa amarela.

Voa o vazio da trepadeira,
a planta pétrea, a grinalda dura
sobre o silêncio do caixão serrano.

Vem, minúscula vida, entre as asas
da terra, enquanto - cristal e frio, ar batido
apartando esmeraldas combatidas,
ó, água selvagem, baixas da neve.


Amor, amor, até a noite abrupta,
desde o sonoro pedernal andino
até a aurora de joelhos vermelhos,
contempla o filho cego da neve.


Ó, Wilkamayu de sonoros fios,
quando rompes teus trovões lineares
em branca espuma, como neve ferida,
quando teu vendaval escarpado
canta e castiga despertando o céu,
que idioma trazes à orelha do mal
arrancada de tua espuma andina?

Quem apresou o relâmpago do frio
e o deixou nas alturas acorrentado,
repartido em suas lágrimas glaciais,
sacudido em suas rápidas espadas,
golpeando seus estames aguerridos,
conduzido em seu leito de guerreiro,
sobressaltado em final de rocha?

Que dizem suas chispas acossadas?
Teu secreto relâmpago rebelde
viajou antes povoado de palavras?
Quem vai partindo sílabas geladas,
idiomas negros, estandartes de ouro,
bocas profundas, gritos subjugados,
em tuas delgadas águas arteriais?

Quem vai cortando pálpebras florais
que chegam para espiar da terra?
Quem precipita cachos mortos
que descem em tuas mãos de cascata
a debulhar a sua noite debulhada
no carvão da geologia?

Quem despenha o ramo dos vínculos?
Quem outra vez sepulta os adeuses?

Amor, amor, não toques na fronteira,
nem adores a cabeça submersa:
deixa que o tempo cumpra sua estatura
em seu salão de mananciais partidos,
e, entre a água veloz e as muralhas,
recolhe o ar do desfiladeiro,

as paralelas lâminas do vento,
o canal cego das cordilheiras,
a áspera saudação do orvalho
e sobe, flor por flor, pela mata
pisando a serpente despenhada.


Na escarpada zona, pedra e bosque,
pó de estrelas verdes, selva clara,
Mantur explode como um lago vivo
ou como um novo piso de silêncio.


Vem ao meu próprio ser, à minha alba,
até as soledades coroadas.

O reino morto ainda vive.


E no Relógio a sombra sangüinária
do condor cruza como uma ave negra.




IX
Águia sideral, vinha de bruma.

Bastião perdido, cimitarra cega.

Cinturão estrelado, pão solene.

Escada torrencial, pálpebra imensa.

Túnica triangular, pólen de pedra.

Lâmpada de granito, pão de pedra.

Serpente mineral, rosa de pedra.

Nave enterrada, manancial de pedra.

Cavalo da luz, luz de pedra.

Esquadra equinocial, vapor de pedra.

Geometria final, livro de pedra.

Timbale entre as lufadas lavrado.

Madrépora do tempo submerso.

Muralha peles dedos suavizada.

Teto pelas plumas combatido.

Ramos de espelho, bases de tormenta.

Tronos revirados pelas trepadeiras.

Regime de garra encarniçada.

Vendaval sustentado na vertente.

Imóvel catarata de turquesa.

Sino patriarcal dos adormecidos.

Anel das neves dominadas.

Ferro deixado sobre suas estátuas.


Inacessível temporal fechado.

Mãos de puma, rocha sanguinária.

Torre encapelada, discussão de neve.

Noite erguida em dedos e raízes.

Janela das névoas, pomba endurecida.

Planta noturna, estátua dos trovões.

Cordilheira essencial, teto marinho.

Arquitetura de águias perdidas.

Corda do céu, abelha das alturas.

Nível sangrento, estrela construída.

Borbulha mineral, lua de quartzo.

Serpente andina, rosto de amaranto.

Cúpula de silêncio, pátria pura.

Noiva do mar, árvore de catedrais.

Ramo de sal, cerejeira de asas negras.

Dentadura nevada, trovão frio.

Lua arranhada, pedra ameaçadora.

Cabeleira do frio, ação do ar.

Vulcão de mãos, catarata escura.

Onda de prata, direção do tempo.




X
Pedra sobre pedra, o homem, onde esteve?
Ar no ar, o homem, onde esteve?
Tempo no tempo, o homem, onde esteve?
Foste também o pedacinho partido
do homem inconcluso, de águia vazia
que pelas ruas de hoje, que pelas pegadas,
que pelas folhas do outono morto
vai remoendo a alma até o túmulo?
A pobre mão, o pé, a pobre vida .
.
.

Os dias da luz desfiada
em ti, como a chuva
sobre as bandeirinhas das festas,
deram pétala por pétala de seu alimento escuro
na boca vazia?

Fome, coral do homem,
Fome, planta secreta, raiz dos lenhadores,
fome subiu a tua arraia de arrecife
até estas altas torres desprendidas?

Eu te interrogo, sal dos caminhos,
mostra-me a colher, deixa-me, arquitetura,
roer com um palito os estames de pedra,
subir todos os degraus do ar até o vazio,
esfregar a entranha até tocar o homem.


Machu Picchu, puseste
pedras na pedra, e na base, um trapo?
Carvão sobre carvão, e no fundo a lágrima?
Fogo no ouro, e nele, tremendo, o rubro
goteirão do sangue?
Devolve-me o escravo que enterraste!
Arroja das terras o pão duro
dos miseráveis, mostra-me as vestes
do servo e sua janela.

Dize-me como dormiu quando vivia.

Dize-me se foi seu sonho
rouco, entreaberto, como um oco negro
feito pela fadiga sobre o muro.

O muro, o muro! Se sobre o seu sonho
gravitou cada piso de pedra, e se caiu debaixo dela
como debaixo de uma lua, com o sonho!
Antiga América, noiva submersa,
também teus dedos
ao saírem da selva para o alto vazio dos deuses,
sob os estandartes da luz nupcial c do decoro.

mesclando-se ao ribombo dos tambores e das lanças,
também, também os teus dedos,
os que a rosa abstrata e a linha do frio, os
que o peito sangrento do novo cereal trasladaram
até a teia de matéria radiante, até as duras cavidades,
também, também, América enterrada, guardaste no mais baixo,
no amargo intestino, como uma águia, a fome?



XI
Através do confuso esplendor,
através da noite de pedra, deixa-me enfiar a mão
e deixa que em mim palpite, como ave mil anos prisioneira,
o velho coração do esquecido!
Deixa-me esquecer hoje esta sorte mais vasta que o mar,
pois o homem é mais vasto que o mar e suas ilhas,
e há que cair dentro como dentro dum poço para subir do fundo
com um ramo de água secreta e de verdades submersas.

Deixa-me esquecer, pedra vasta, a proporção poderosa,
a transcendente medida, as pedras da colméia,
e do esquadro deixa-me hoje roçar
a mão sobre a hipotenusa de áspero sangue e cilício.

Quando, qual uma ferradura de élitros rubros, o condor furibundo
me golpeia as têmporas na ordem do vôo
e furacão de plumas carniceiras varre a poeira sombria
das escalinatas diagonais, não vejo o bicho feroz,
não vejo o cego ciclo de suas garras,
vejo o antigo ser, servidor, o adormecido
nos campos, vejo um corpo, mil corpos, um homem, mil mulheres.

sob a rajada negra, negros de chuva c de noite,
com a pedra pesada da estátua:
Juan Cortapiedras, filho de Wiracocha,
Juan Comefrío, filho de estrela verde,
Juan Piesdescalzos, neto de turquesa,
sobe para nascer comigo, irmão.
3 162 2
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Canto II - Alturas de Machu Picchu

I
Do ar ao ar como uma rede
vazia, ia eu entre as ruas e a atmosfera chegando e despedindo,
no advento do outono a moeda estendida
das folhas, e entre a primavera e as espigas,
o que maior amor, como dentro duma luva
que cai, nos entrega qual uma longa lua.


(Dias de vivo fulgor na intempérie
dos corpos: aços convertidos
ao silêncio do ácido:
noites desfiadas até a última farinha:
estamos agredidos da pátria nupcial.
)

Alguém que me esperou entre os violinos
achou um mundo como uma torre enterrada
fundindo sua espiral mais abaixo de todas
nas folhas de cor de roxo enxofre:
mais abaixo, no ouro da geologia,
como espada envolta em meteoros,
mergulhei a mão turbulenta e doce
no mais genital do terrestre.


Meti o resto entre as vagas profundas,
desci como gota entre a paz sulfúrica,
e, como um cego, regressei ao jasmim
da usada primavera humana.




II
Se a flor à flor entrega o alto germe
e a rocha mantém sua flor disseminada
em seu castigado traje de diamante e areia,
o homem franze a pétala da luz que recolhe
nos determinados mananciais marinhos
e verruma o metal palpitante em suas mãos.

E logo, entre a roupa e o fumo, sobre a mesa enterrada,
como embaralhada quantidade, fica a alma:
quartzo e desvelo, lágrimas no oceano
como lagos de frio: mas ainda
mata-a e agoniza-a com papel e com ódio,
submerge-a no tapete cotidiano, dilacera-a
entre as vestimentas hostis do arame.


Não: pelos corredores, ar, mar ou caminhos,
quem guarda sem punhal (como as encarnadas
amapolas) seu sangue? A cólera extenuou
a triste mercadoria do vendedor de seres,
e, enquanto nas alturas da ameixeira, o orvalho
há mil anos deixa a sua carta transparente,
sobre o mesmo ramo que espera, ó coração, ó rosto triturado
entre as cavidades do outono.


Quantas vezes nas ruas de inverno duma cidade
ou num ônibus ou num navio ao crepúsculo, ou
na solidão mais espessa, a da noite de festa,
sob o ressoar de sombras e sinos, na própria gruta
do prazer humano, quis parar e procurar o eterno
veio insondável que antes toquei na pedra ou no
relâmpago que o beijo desprendia.


(O que no cereal como uma história amarela
de pequenos peitos grávidos vai repetindo um número
que sem cessar é ternura nas capas germinais,
e que, idêntica sempre, se debulha em marfim
e o que na água é pátria transparente, sino
desde a neve isolada às ondas sangrentas.
)

Só pude unir um cacho de rostos ou de máscaras
precipitadas, como anéis de ouro falso,
como roupas dispersas filhas dum outono enraivecido
que fizesse tremer a miserável árvore das raças assustadas.


Não tive lugar para descansar a mão
e que, corrente como água de manancial acorrentado,
ou firme como lasca de antracite ou cristal,
tivesse devolvido o calor ou o frio de minha mão estendida.

Que era o homem? Em que parte de sua conversação aberta
entre os armazéns e os assovios, em qual de seus movimentos metálicos
vivia o indestrutível, o imperecível, a vida?



III
O ser como o milho se debulha no inesgotável
celeiro dos feitos perdidos, dos acontecimentos
miseráveis, do um ao sete, ao oito,
e não uma morte, mas muitas mortes chegadas para cada um:
cada dia uma morte pequena, pó, verme, lâmpada
que se apaga no lodo do subúrbio uma pequena morte de asas grossas
entrava em cada homem como curta lança
e era o homem assediado pelo pão ou pela faca,
o ganadeiro: o filho dos portos, o capitão escuro do arado,
ou o roedor das ruas espessas:
todos desfaleceram esperando sua morte, sua curta morte diária:
e seu quebranto aziago de cada dia era
como uma taça negra que bebiam a tremer.




IV
A poderosa morte me convidou muitas vezes:
era como o sol invisível nas ondas,
e o que seu invisível sabor disseminava
era como metade de afundamentos e altura
ou vastas construções de vento e nevasca.


Eu ao férreo gume vim, à estreiteza
do ar, à mortalha de agricultura e pedra,
ao estelar vazio dos passos finais
e à vertiginosa estrada espiral:
porém, largo, mar, ó morte! de onda em onda não vens,
senão como um galope de claridade noturna
ou como os totais números da noite.


Nunca chegaste a vasculhar o bolso, não era
possível tua visita sem uma roupa vermelha:
sem auroral alfombra de cercado silêncio:
sem altos ou enterrados patrimônios de lágrimas.


Não pude amar em cada ser uma árvore
com seu pequeno outono às costas (a morte de mil folhas),
todas as falsas mortes e as ressurreições
sem terra, sem abismo:
quis nadar nas vidas mais largas,
nas mais desatadas desembocaduras,
e quando pouco a pouco foi o homem me negando
e foi fechando a passagem e a porta para que não tocassem
minhas mãos mananciais sua inexistência ferida,
então fui de rua em rua, de rio em rio,
de cidade em cidade, de cama em cama,
e cruzou o deserto minha máscara salobre,
e nas últimas casas humilhadas, sem lâmpada, sem fogo.

sem pão, sem pedra, sem silêncio, sozinho,
rolei morrendo de minha própria morte.




V
Não és tu, morte grave, ave de plumas férreas,
o que o pobre herdeiro das habitações
levava entre alimentos apressurados, sob a pele vazia:
era algo, uma pobre pétala de corda exterminada:
um átomo do peito que não veio ao combate
ou o áspero orvalho que não caiu no rosto.

Era o que não pôde renascer, um pedaço
da pequena morte sem paz nem território:
um osso, um sino que morriam nele.

Eu levantei as vendas do iodo, mergulhei.
as mãos
nas pobres dores que matavam a morte,
e só achei na ferida uma rajada fria
que entrava pelos vagos interstícios da alma.




VI
Então na escada de terra subi
entre o emaranhado atroz das selvas perdidas
até a ti, Machu Picchu.

Alta cidade de pedras escalares,
por fim morada do que o terrestre
não escondeu nas adormecidas vestimentas.

Em ti, como duas linhas paralelas,
o berço do relâmpago e do homem
embalavam-se num vento de espinhos.


Mãe de pedra, espuma de condores.


Alto arrecife da aurora humana.


Pá perdida na primeira areia.


Esta foi a morada, este é o lugar:
aqui os largos grãos do milho subiram
e de novo tombaram como granizo vermelho.


Aqui a fibra dourada saiu da vicunha
para vestir os amores, os túmulos, as mães,
o rei, as orações, os guerreiros.


Aqui os pés do homem descansaram à noite
junto aos pés da águia, nas altas guaridas
carniceiras, e na aurora
pisaram com os pés do trovão a névoa rarefeita,
e tocaram as terras e as pedras
até reconhecê-las na noite ou na morte.


Olho as vestes e as mãos,
o vestígio da água na cavidade sonora,
a parede suavizada pelo tato dum rosto
que olhou com os meus olhos as lâmpadas terrestres,
que aceitou com as minhas mãos as desaparecidas
madeiras: pois tudo, roupagem, pele, vasilhas,
palavras, vinho, pães,
se foi, rolou pelo chão.


E o ar entrou com dedos
de flor de laranjeira sobre todos os adormecidos:
mil anos de ar, meses, semanas de ar,
de vento azul, de cordilheira férrea,
que fora m como suaves furacões de passos
lustrando o solitário recinto da pedra.




VII
Mortos de um só abismo, sombras de uma ribanceira,
a profunda, é assim como do tamanho
de vossa magnitude,
veio a verdadeira, a mais abrasadora
morte, e das rochas verrumadas,
dos capitéis escarlates,
dos aquedutos escalares
vos desmoronastes como num outono
numa única morte.

Hoje o ar vazio já não chora,
já não conhece os vossos pés de argila,
já esqueceu vossos cântaros que filtravam o céu,
quando o derramavam os punhais do raio,
e a árvore poderosa foi comida
pela névoa, e cortada pela rajada de vento.


Ela susteve a mão que caiu de repente
das alturas até o fim do tempo.


Já não sois mãos de aranha, débeis
fibras, teia emaranhada:
caiu tudo o que fostes: costumes, sílabas
gastas, máscaras de luz deslumbrante.


Mas uma permanência de pedra e de palavra:
a cidade como um copo levantou-se nas mãos
de todos, vivos, mortos, calados, sustentados
por tanta morte, um muro, por tanta vida um golpe
de pétalas de pedra: a rosa permanente, a morada:
este arrecife andino de colônias glaciais.


Quando a mão da cor de argila
se converteu em argila, e quando as pequeninas pálpebras se fecharam
cheias de ásperos muros, povoadas de castelos,
e quando todo o homem se arredou em seu buraco,
ficou a exatidão desfraldada:
o alto local da aurora humana:
o mais alto vaso que conteve o silêncio:
uma vida de pedra depois de tantas vidas.




VIII
Sobe comigo, amor americano.

Beija comigo as pedras secretas.


A prata torrencial do Urubamba
faz voar o pólen de sua copa amarela.

Voa o vazio da trepadeira,
a planta pétrea, a grinalda dura
sobre o silêncio do caixão serrano.

Vem, minúscula vida, entre as asas
da terra, enquanto - cristal e frio, ar batido
apartando esmeraldas combatidas,
ó, água selvagem, baixas da neve.


Amor, amor, até a noite abrupta,
desde o sonoro pedernal andino
até a aurora de joelhos vermelhos,
contempla o filho cego da neve.


Ó, Wilkamayu de sonoros fios,
quando rompes teus trovões lineares
em branca espuma, como neve ferida,
quando teu vendaval escarpado
canta e castiga despertando o céu,
que idioma trazes à orelha do mal
arrancada de tua espuma andina?

Quem apresou o relâmpago do frio
e o deixou nas alturas acorrentado,
repartido em suas lágrimas glaciais,
sacudido em suas rápidas espadas,
golpeando seus estames aguerridos,
conduzido em seu leito de guerreiro,
sobressaltado em final de rocha?

Que dizem suas chispas acossadas?
Teu secreto relâmpago rebelde
viajou antes povoado de palavras?
Quem vai partindo sílabas geladas,
idiomas negros, estandartes de ouro,
bocas profundas, gritos subjugados,
em tuas delgadas águas arteriais?

Quem vai cortando pálpebras florais
que chegam para espiar da terra?
Quem precipita cachos mortos
que descem em tuas mãos de cascata
a debulhar a sua noite debulhada
no carvão da geologia?

Quem despenha o ramo dos vínculos?
Quem outra vez sepulta os adeuses?

Amor, amor, não toques na fronteira,
nem adores a cabeça submersa:
deixa que o tempo cumpra sua estatura
em seu salão de mananciais partidos,
e, entre a água veloz e as muralhas,
recolhe o ar do desfiladeiro,

as paralelas lâminas do vento,
o canal cego das cordilheiras,
a áspera saudação do orvalho
e sobe, flor por flor, pela mata
pisando a serpente despenhada.


Na escarpada zona, pedra e bosque,
pó de estrelas verdes, selva clara,
Mantur explode como um lago vivo
ou como um novo piso de silêncio.


Vem ao meu próprio ser, à minha alba,
até as soledades coroadas.

O reino morto ainda vive.


E no Relógio a sombra sangüinária
do condor cruza como uma ave negra.




IX
Águia sideral, vinha de bruma.

Bastião perdido, cimitarra cega.

Cinturão estrelado, pão solene.

Escada torrencial, pálpebra imensa.

Túnica triangular, pólen de pedra.

Lâmpada de granito, pão de pedra.

Serpente mineral, rosa de pedra.

Nave enterrada, manancial de pedra.

Cavalo da luz, luz de pedra.

Esquadra equinocial, vapor de pedra.

Geometria final, livro de pedra.

Timbale entre as lufadas lavrado.

Madrépora do tempo submerso.

Muralha peles dedos suavizada.

Teto pelas plumas combatido.

Ramos de espelho, bases de tormenta.

Tronos revirados pelas trepadeiras.

Regime de garra encarniçada.

Vendaval sustentado na vertente.

Imóvel catarata de turquesa.

Sino patriarcal dos adormecidos.

Anel das neves dominadas.

Ferro deixado sobre suas estátuas.


Inacessível temporal fechado.

Mãos de puma, rocha sanguinária.

Torre encapelada, discussão de neve.

Noite erguida em dedos e raízes.

Janela das névoas, pomba endurecida.

Planta noturna, estátua dos trovões.

Cordilheira essencial, teto marinho.

Arquitetura de águias perdidas.

Corda do céu, abelha das alturas.

Nível sangrento, estrela construída.

Borbulha mineral, lua de quartzo.

Serpente andina, rosto de amaranto.

Cúpula de silêncio, pátria pura.

Noiva do mar, árvore de catedrais.

Ramo de sal, cerejeira de asas negras.

Dentadura nevada, trovão frio.

Lua arranhada, pedra ameaçadora.

Cabeleira do frio, ação do ar.

Vulcão de mãos, catarata escura.

Onda de prata, direção do tempo.




X
Pedra sobre pedra, o homem, onde esteve?
Ar no ar, o homem, onde esteve?
Tempo no tempo, o homem, onde esteve?
Foste também o pedacinho partido
do homem inconcluso, de águia vazia
que pelas ruas de hoje, que pelas pegadas,
que pelas folhas do outono morto
vai remoendo a alma até o túmulo?
A pobre mão, o pé, a pobre vida .
.
.

Os dias da luz desfiada
em ti, como a chuva
sobre as bandeirinhas das festas,
deram pétala por pétala de seu alimento escuro
na boca vazia?

Fome, coral do homem,
Fome, planta secreta, raiz dos lenhadores,
fome subiu a tua arraia de arrecife
até estas altas torres desprendidas?

Eu te interrogo, sal dos caminhos,
mostra-me a colher, deixa-me, arquitetura,
roer com um palito os estames de pedra,
subir todos os degraus do ar até o vazio,
esfregar a entranha até tocar o homem.


Machu Picchu, puseste
pedras na pedra, e na base, um trapo?
Carvão sobre carvão, e no fundo a lágrima?
Fogo no ouro, e nele, tremendo, o rubro
goteirão do sangue?
Devolve-me o escravo que enterraste!
Arroja das terras o pão duro
dos miseráveis, mostra-me as vestes
do servo e sua janela.

Dize-me como dormiu quando vivia.

Dize-me se foi seu sonho
rouco, entreaberto, como um oco negro
feito pela fadiga sobre o muro.

O muro, o muro! Se sobre o seu sonho
gravitou cada piso de pedra, e se caiu debaixo dela
como debaixo de uma lua, com o sonho!
Antiga América, noiva submersa,
também teus dedos
ao saírem da selva para o alto vazio dos deuses,
sob os estandartes da luz nupcial c do decoro.

mesclando-se ao ribombo dos tambores e das lanças,
também, também os teus dedos,
os que a rosa abstrata e a linha do frio, os
que o peito sangrento do novo cereal trasladaram
até a teia de matéria radiante, até as duras cavidades,
também, também, América enterrada, guardaste no mais baixo,
no amargo intestino, como uma águia, a fome?



XI
Através do confuso esplendor,
através da noite de pedra, deixa-me enfiar a mão
e deixa que em mim palpite, como ave mil anos prisioneira,
o velho coração do esquecido!
Deixa-me esquecer hoje esta sorte mais vasta que o mar,
pois o homem é mais vasto que o mar e suas ilhas,
e há que cair dentro como dentro dum poço para subir do fundo
com um ramo de água secreta e de verdades submersas.

Deixa-me esquecer, pedra vasta, a proporção poderosa,
a transcendente medida, as pedras da colméia,
e do esquadro deixa-me hoje roçar
a mão sobre a hipotenusa de áspero sangue e cilício.

Quando, qual uma ferradura de élitros rubros, o condor furibundo
me golpeia as têmporas na ordem do vôo
e furacão de plumas carniceiras varre a poeira sombria
das escalinatas diagonais, não vejo o bicho feroz,
não vejo o cego ciclo de suas garras,
vejo o antigo ser, servidor, o adormecido
nos campos, vejo um corpo, mil corpos, um homem, mil mulheres.

sob a rajada negra, negros de chuva c de noite,
com a pedra pesada da estátua:
Juan Cortapiedras, filho de Wiracocha,
Juan Comefrío, filho de estrela verde,
Juan Piesdescalzos, neto de turquesa,
sobe para nascer comigo, irmão.
3 162 2
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Desaparecimento de Luísa Porto

Pede-se a quem souber
do paradeiro de Luísa Porto
avise sua residência
à rua Santos Óleos, 48.
Previna urgente
solitária mãe enferma
entrevada há longos anos
erma de seus cuidados.

Pede-se a quem avistar
Luísa Porto, de 37 anos,
que apareça, que escreva, que mande dizer
onde está.
Suplica-se ao repórter-amador,
ao caixeiro, ao mata-mosquitos, ao transeunte,
a qualquer do povo e da classe média,
até mesmo aos senhores ricos,
que tenham pena de mãe aflita
e lhe restituam a filha volatilizada
ou pelo menos dêem informações.
É alta, magra,
morena, rosto penugento, dentes alvos,
sinal de nascença junto ao olho esquerdo,
levemente estrábica.
Vestidinho simples. Óculos.
Sumida há três meses.
Mãe entrevada chamando.

Roga-se ao povo caritativo desta cidade
que tome em consideração um caso de família
digno de simpatia especial.
Luísa é de bom gênio, correta,
meiga, trabalhadora, religiosa.
Foi fazer compras na feira da praça.
Não voltou.

Levava pouco dinheiro na bolsa.
(Procurem Luísa.)
De ordinário não se demorava.
( Procurem Luísa.)
Namorado isso não tinha.
(Procurem. Procurem.)
Faz tanta falta.

Se todavia não a encontrarem
nem por isso deixem de procurar
com obstinação e confiança que Deus sempre recompensa
e talvez encontrem.
Mãe, viúva pobre, não perde a esperança.
Luísa ia pouco à cidade
e aqui no bairro é onde melhor pode ser pesquisada.
Sua melhor amiga, depois da mãe enferma,
é Rita Santana, costureira, moça desimpedida,
a qual não dá notícia nenhuma,
limitando-se a responder: Não sei.
O que não deixa de ser esquisito.

Somem tantas pessoas anualmente
numa cidade como o Rio de Janeiro
que talvez Luísa Porto jamais seja encontrada.
Uma vez, em 1898
ou 9,
sumiu o próprio chefe de polícia
que saíra à tarde para uma volta no Largo do Rocio
e até hoje.
A mãe de Luísa, então jovem,
leu no "Diário Mercantil",
ficou pasma.
O jornal embrulhado na memória.
Mal sabia ela que o casamento curto, a viuvez,
a pobreza, a paralisia, o queixume
seriam, na vida, seu lote
e que sua única filha, afável posto que estrábica,
se diluiria sem explicação.

Pela última vez e em nome de Deus
todo-poderoso e cheio de misericórdia
procurem a moça, procurem
essa que se chama Luísa Porto
e é sem namorado.
Esqueçam a luta política,
ponham de lado preocupações comerciais,
percam um pouco de tempo indagando,
inquirindo, remexendo.
Não se arrependerão. Não
há gratificação maior do que o sorriso
de mãe em festa
e a paz íntima
conseqüente às boas e desinteressadas ações,
puro orvalho da alma.

Não me venham dizer que Luisa suicidou-se.
O santo lume da fé
ardeu sempre em sua alma
que pertence a Deus e a Teresinha do Menino Jesus.
Ela não se matou.
Procurem-na.
Tampouco foi vítima de desastre
que a polícia ignora
e os jornais não deram.
Está viva para consolo de uma entrevada
e triunfo geral do amor materno
filial
e do próximo.

Nada de insinuações quanto à moça casta
e que não tinha, não tinha namorado.
Algo de extraordinário terá acontecido,
terremoto, chegada de rei,
As ruas mudaram de rumo,
para que demore tanto, é noite.
Mas há de voltar, espontânea
ou trazida por mão benigna,
o olhar desviado e terno,
canção.

A qualquer hora do dia ou da noite
quem a encontrar avise a rua Santos Óleos.
Não tem telefone.
Tem uma empregada velha que apanha o recado
e tomará providências.

Mas
se acharem que a sorte dos povos é mais importante
e que não devemos atentar nas dores individuais,
se fecharem ouvidos a este apelo de campainha,
não faz mal, insultem a mãe de Luísa,
virem a página:
Deus terá compaixão da abandonada e da ausente,
erguerá a enferma, e os membros perclusos
já se desatam em forma de busca.
Deus lhe dirá:
Vai,
procura tua filha, beija-a e fecha-a para sempre em teu coração.

Ou talvez não seja preciso esse favor divino.
A mãe de Luísa (somos pecadores)
sabe-se indigna de tamanha graça.
E resta a espera; que sempre é um dom.
Sim, os extraviados um dia regressam
ou nunca, ou pode ser, ou ontem.
E de pensar realizamos.
Quer apenas sua filhinha
que numa tarde remota de Cachoeiro
acabou de nascer e cheira a leite,
a eólica, a lágrima.
Já não interessa a descrição do corpo
nem esta, perdoem, fotografia,
disfarces de realidade mais intensa
e que anúncio algum provera.
Cessem pesquisas, rádios, calai-vos.
Calma de flores abrindo
no canteiro azul
onde desabrocham seios e uma forma de virgem
intacta nos tempos.
E de sentir compreendemos.

Já não adianta procurar
minha querida filha Luísa
que enquanto vagueio pelas cinzas do mundo
com inúteis pés fixados, enquanto sofro
e sofrendo me solto e me recomponho
e torno a viver e ando,
está inerte
cravada no centro da estrela invisível
Amor.
1 953 2
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Desaparecimento de Luísa Porto

Pede-se a quem souber
do paradeiro de Luísa Porto
avise sua residência
à rua Santos Óleos, 48.
Previna urgente
solitária mãe enferma
entrevada há longos anos
erma de seus cuidados.

Pede-se a quem avistar
Luísa Porto, de 37 anos,
que apareça, que escreva, que mande dizer
onde está.
Suplica-se ao repórter-amador,
ao caixeiro, ao mata-mosquitos, ao transeunte,
a qualquer do povo e da classe média,
até mesmo aos senhores ricos,
que tenham pena de mãe aflita
e lhe restituam a filha volatilizada
ou pelo menos dêem informações.
É alta, magra,
morena, rosto penugento, dentes alvos,
sinal de nascença junto ao olho esquerdo,
levemente estrábica.
Vestidinho simples. Óculos.
Sumida há três meses.
Mãe entrevada chamando.

Roga-se ao povo caritativo desta cidade
que tome em consideração um caso de família
digno de simpatia especial.
Luísa é de bom gênio, correta,
meiga, trabalhadora, religiosa.
Foi fazer compras na feira da praça.
Não voltou.

Levava pouco dinheiro na bolsa.
(Procurem Luísa.)
De ordinário não se demorava.
( Procurem Luísa.)
Namorado isso não tinha.
(Procurem. Procurem.)
Faz tanta falta.

Se todavia não a encontrarem
nem por isso deixem de procurar
com obstinação e confiança que Deus sempre recompensa
e talvez encontrem.
Mãe, viúva pobre, não perde a esperança.
Luísa ia pouco à cidade
e aqui no bairro é onde melhor pode ser pesquisada.
Sua melhor amiga, depois da mãe enferma,
é Rita Santana, costureira, moça desimpedida,
a qual não dá notícia nenhuma,
limitando-se a responder: Não sei.
O que não deixa de ser esquisito.

Somem tantas pessoas anualmente
numa cidade como o Rio de Janeiro
que talvez Luísa Porto jamais seja encontrada.
Uma vez, em 1898
ou 9,
sumiu o próprio chefe de polícia
que saíra à tarde para uma volta no Largo do Rocio
e até hoje.
A mãe de Luísa, então jovem,
leu no "Diário Mercantil",
ficou pasma.
O jornal embrulhado na memória.
Mal sabia ela que o casamento curto, a viuvez,
a pobreza, a paralisia, o queixume
seriam, na vida, seu lote
e que sua única filha, afável posto que estrábica,
se diluiria sem explicação.

Pela última vez e em nome de Deus
todo-poderoso e cheio de misericórdia
procurem a moça, procurem
essa que se chama Luísa Porto
e é sem namorado.
Esqueçam a luta política,
ponham de lado preocupações comerciais,
percam um pouco de tempo indagando,
inquirindo, remexendo.
Não se arrependerão. Não
há gratificação maior do que o sorriso
de mãe em festa
e a paz íntima
conseqüente às boas e desinteressadas ações,
puro orvalho da alma.

Não me venham dizer que Luisa suicidou-se.
O santo lume da fé
ardeu sempre em sua alma
que pertence a Deus e a Teresinha do Menino Jesus.
Ela não se matou.
Procurem-na.
Tampouco foi vítima de desastre
que a polícia ignora
e os jornais não deram.
Está viva para consolo de uma entrevada
e triunfo geral do amor materno
filial
e do próximo.

Nada de insinuações quanto à moça casta
e que não tinha, não tinha namorado.
Algo de extraordinário terá acontecido,
terremoto, chegada de rei,
As ruas mudaram de rumo,
para que demore tanto, é noite.
Mas há de voltar, espontânea
ou trazida por mão benigna,
o olhar desviado e terno,
canção.

A qualquer hora do dia ou da noite
quem a encontrar avise a rua Santos Óleos.
Não tem telefone.
Tem uma empregada velha que apanha o recado
e tomará providências.

Mas
se acharem que a sorte dos povos é mais importante
e que não devemos atentar nas dores individuais,
se fecharem ouvidos a este apelo de campainha,
não faz mal, insultem a mãe de Luísa,
virem a página:
Deus terá compaixão da abandonada e da ausente,
erguerá a enferma, e os membros perclusos
já se desatam em forma de busca.
Deus lhe dirá:
Vai,
procura tua filha, beija-a e fecha-a para sempre em teu coração.

Ou talvez não seja preciso esse favor divino.
A mãe de Luísa (somos pecadores)
sabe-se indigna de tamanha graça.
E resta a espera; que sempre é um dom.
Sim, os extraviados um dia regressam
ou nunca, ou pode ser, ou ontem.
E de pensar realizamos.
Quer apenas sua filhinha
que numa tarde remota de Cachoeiro
acabou de nascer e cheira a leite,
a eólica, a lágrima.
Já não interessa a descrição do corpo
nem esta, perdoem, fotografia,
disfarces de realidade mais intensa
e que anúncio algum provera.
Cessem pesquisas, rádios, calai-vos.
Calma de flores abrindo
no canteiro azul
onde desabrocham seios e uma forma de virgem
intacta nos tempos.
E de sentir compreendemos.

Já não adianta procurar
minha querida filha Luísa
que enquanto vagueio pelas cinzas do mundo
com inúteis pés fixados, enquanto sofro
e sofrendo me solto e me recomponho
e torno a viver e ando,
está inerte
cravada no centro da estrela invisível
Amor.
1 953 2
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Estória de João-Joana

Meu leitor, o sucedido
em Lajes do Caldeirão
é caso de muito ensino,
merecedor de atenção.
Por isso é que me apresento
fazendo esta relação.

Vivia em dito arraial
do país das Alagoas
um rapaz chamado João,
cuja força era das boas
pra sujigar burro bravo,
tigres, onças e leoas.

João, lhe deram este nome
não foi de letra em cartório,
pois sua mãe e seu pai
viviam de peditório.
Gente assim do miserê
nunca soube o que é casório.

Ficou sendo João, pois esse
é nome de qualquer um.
Não carece excogitar,
pedir a doutor nenhum,
que a sentença vem do Céu,
não de lá do Barzabum.

De pequeno ficou órfão,
criado por seus dois manos.
Foi logo para o trabalho
com muitos outros fulanos
e seu muque, sem mentira,
era o de três otomanos.

Na enxada, quem que vencia
aquele tico de gente.
No boteco, se ele entrava
pra bochechar aguardente,
o saudavam com respeito:
Deus lhe salve, meu parente.

João moço não enjeitava
parada com sertanejo.
Podiam brincar com ele
sem carregar no gracejo.
Dizia que homem covarde
não é cabra, é percevejo.

Um dia de calor desses
que tacam fogo no agreste,
João suava que suava
sem despir a sua veste.
Companheiro, essa camisa
não é coisa que moleste?

lhe perguntou um amigo
que estava de peito nu.
E João se calado estava
nem deu pio de nambu.
Ninguém nunca viu seu pelo
nem por trás do murundu.

João era muito avexado
na hora de tomar banho.
Punha tranca no barraco
fugindo a qualquer estranho.
Em Lajes nenhum varão
tinha recato tamanho.

João nas últimas semanas
entrou a sofrer de inchaço.
Mesmo assim arranca toco
sem se carpir de cansaço.
Um dia, não guenta mais,
exclama: O que é que eu faço?

Os manos, vendo naquilo
coisa mei’ desimportante,
logo receitam de araque
meizinha sem variante
para qualquer macacoa:
Carece tomar purgante.

João entrou no purgativo
louco de dor e de medo,
se estorcendo e contorcendo
na solidão do arvoredo,
pois ele em sua aflição
lá se escondera bem cedo.

O gemido que exalava
do peito de João sozinho
alertou os seus dois manos
que foram ver de mansinho
como é que aquele bravo
se tornara tão fraquinho.

No chão de terra, essa terra
que a todos nós vai comer,
chorava uma criancinha
acabada de nascer,
e João, de peito desnudo,
acarinhava este ser.

Aquela cena imprevista
causou a maior surpresa.
O que tanto se ocultara
se mostrava sem defesa.
João deixara de ser João
por força da natureza.

A mulher surgia nele
ao mesmo tempo que o filho,
tal qual se brotassem junto
a espiga com o pé de milho,
ou como bala que estoura
sem se puxar o gatilho.

Se os manos levaram susto,
até eu, que apenas conto.
E o povo todo, assuntando
a estória ponto por ponto,
ficou em breve inteirado
do que aí vai sem desconto.

Nem menino nem menina
era João quando nasceu.
A mãe, sem saber ao certo,
o nome de João lhe deu,
dizendo: Vai vestir calça
e não saia que nem eu.

À proporção que crescia
feito animal na campina,
em João foi-se acentuando
a condição feminina,
mas ele jamais quis ser
tratado feito menina.

Pois nesse triste povoado
e cem léguas ao redor,
ser homem não é vantagem,
mas ser mulher é pior.
Quem vê claro já conclui:
de dois males o menor.

Homem é grão de poeira
na estrada sem horizonte;
mulher nem chega a ser isso
e tem de baixar a fronte
ante as ruindades da vida,
de altura maior que um monte.

A sorte, se presenteia
a todos doença e fome,
para as mulheres capricha
num privilégio sem nome.
Colhe miséria maior
e diz à coitada: Tome.

É forma de escravidão
a infinita pobreza,
mas duas vezes escrava
é a mulher com certeza,
pois, escrava de um escravo,
pode haver maior dureza?

Por isso aquela mocinha
fez tudo para iludir
aos outros e ao seu destino.
Mas rola não é tapir
e chega lá um momento
da natureza explodir.

João vira Joana: acontecem
dessas coisas sem preceito.
No seu colo está Joãozinho
mamando leite de peito.
Pelo menos esse aqui
de ser homem tem direito.

De ser homem: de escolher
o seu próprio sofrimento
e de escrever com peixeira
a lei do seu mandamento,
quando à falta de outra lei
ou eu fujo ou arrebento.

Joana desiste de tudo
que ganhara por mentira.
Sabe que agora lhe resta
apenas do saco a embira.
E nem mesmo lhe aproveita
esta minha pobre lira.

Saibam quantos deste caso
houverem ciência que a vida
não anda, em favor e graça,
igualmente repartida,
e que dor ensombra a falta
de amor, de paz e comida.

Meu leitor (não eleitor,
que eu nada te peço a ti
senão me ler com paciência
de Minas ao Piauí):
tendo contado meu conto,
adeus, me despeço aqui.
31/08 e 02/09/1966
1 854 2
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Estória de João-Joana

Meu leitor, o sucedido
em Lajes do Caldeirão
é caso de muito ensino,
merecedor de atenção.
Por isso é que me apresento
fazendo esta relação.

Vivia em dito arraial
do país das Alagoas
um rapaz chamado João,
cuja força era das boas
pra sujigar burro bravo,
tigres, onças e leoas.

João, lhe deram este nome
não foi de letra em cartório,
pois sua mãe e seu pai
viviam de peditório.
Gente assim do miserê
nunca soube o que é casório.

Ficou sendo João, pois esse
é nome de qualquer um.
Não carece excogitar,
pedir a doutor nenhum,
que a sentença vem do Céu,
não de lá do Barzabum.

De pequeno ficou órfão,
criado por seus dois manos.
Foi logo para o trabalho
com muitos outros fulanos
e seu muque, sem mentira,
era o de três otomanos.

Na enxada, quem que vencia
aquele tico de gente.
No boteco, se ele entrava
pra bochechar aguardente,
o saudavam com respeito:
Deus lhe salve, meu parente.

João moço não enjeitava
parada com sertanejo.
Podiam brincar com ele
sem carregar no gracejo.
Dizia que homem covarde
não é cabra, é percevejo.

Um dia de calor desses
que tacam fogo no agreste,
João suava que suava
sem despir a sua veste.
Companheiro, essa camisa
não é coisa que moleste?

lhe perguntou um amigo
que estava de peito nu.
E João se calado estava
nem deu pio de nambu.
Ninguém nunca viu seu pelo
nem por trás do murundu.

João era muito avexado
na hora de tomar banho.
Punha tranca no barraco
fugindo a qualquer estranho.
Em Lajes nenhum varão
tinha recato tamanho.

João nas últimas semanas
entrou a sofrer de inchaço.
Mesmo assim arranca toco
sem se carpir de cansaço.
Um dia, não guenta mais,
exclama: O que é que eu faço?

Os manos, vendo naquilo
coisa mei’ desimportante,
logo receitam de araque
meizinha sem variante
para qualquer macacoa:
Carece tomar purgante.

João entrou no purgativo
louco de dor e de medo,
se estorcendo e contorcendo
na solidão do arvoredo,
pois ele em sua aflição
lá se escondera bem cedo.

O gemido que exalava
do peito de João sozinho
alertou os seus dois manos
que foram ver de mansinho
como é que aquele bravo
se tornara tão fraquinho.

No chão de terra, essa terra
que a todos nós vai comer,
chorava uma criancinha
acabada de nascer,
e João, de peito desnudo,
acarinhava este ser.

Aquela cena imprevista
causou a maior surpresa.
O que tanto se ocultara
se mostrava sem defesa.
João deixara de ser João
por força da natureza.

A mulher surgia nele
ao mesmo tempo que o filho,
tal qual se brotassem junto
a espiga com o pé de milho,
ou como bala que estoura
sem se puxar o gatilho.

Se os manos levaram susto,
até eu, que apenas conto.
E o povo todo, assuntando
a estória ponto por ponto,
ficou em breve inteirado
do que aí vai sem desconto.

Nem menino nem menina
era João quando nasceu.
A mãe, sem saber ao certo,
o nome de João lhe deu,
dizendo: Vai vestir calça
e não saia que nem eu.

À proporção que crescia
feito animal na campina,
em João foi-se acentuando
a condição feminina,
mas ele jamais quis ser
tratado feito menina.

Pois nesse triste povoado
e cem léguas ao redor,
ser homem não é vantagem,
mas ser mulher é pior.
Quem vê claro já conclui:
de dois males o menor.

Homem é grão de poeira
na estrada sem horizonte;
mulher nem chega a ser isso
e tem de baixar a fronte
ante as ruindades da vida,
de altura maior que um monte.

A sorte, se presenteia
a todos doença e fome,
para as mulheres capricha
num privilégio sem nome.
Colhe miséria maior
e diz à coitada: Tome.

É forma de escravidão
a infinita pobreza,
mas duas vezes escrava
é a mulher com certeza,
pois, escrava de um escravo,
pode haver maior dureza?

Por isso aquela mocinha
fez tudo para iludir
aos outros e ao seu destino.
Mas rola não é tapir
e chega lá um momento
da natureza explodir.

João vira Joana: acontecem
dessas coisas sem preceito.
No seu colo está Joãozinho
mamando leite de peito.
Pelo menos esse aqui
de ser homem tem direito.

De ser homem: de escolher
o seu próprio sofrimento
e de escrever com peixeira
a lei do seu mandamento,
quando à falta de outra lei
ou eu fujo ou arrebento.

Joana desiste de tudo
que ganhara por mentira.
Sabe que agora lhe resta
apenas do saco a embira.
E nem mesmo lhe aproveita
esta minha pobre lira.

Saibam quantos deste caso
houverem ciência que a vida
não anda, em favor e graça,
igualmente repartida,
e que dor ensombra a falta
de amor, de paz e comida.

Meu leitor (não eleitor,
que eu nada te peço a ti
senão me ler com paciência
de Minas ao Piauí):
tendo contado meu conto,
adeus, me despeço aqui.
31/08 e 02/09/1966
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Vôo Sobre As Igrejas

Vamos até à Matriz de Antônio Dias
onde repousa, pó sem esperança, pó sem lembrança, o Aleijadinho.
Vamos subindo em procissão a lenta ladeira.
Padres e anjos, santos e bispos nos acompanham
e tornam mais rica, tornam mais grave a romaria de assombração.

Mas já não há fantasmas no dia claro,
tudo é tão simples,
tudo tão nu,
as cores e cheiros do presente são tão fortes e tão urgentes
que nem se percebem catingas e rouges, boduns e ouros do século 18.

Vamos subindo, vamos deixando a terra lá em baixo.
Nesta subida só serafins, só querubins fogem conosco,
de róseas faces, de nádegas róseas e rechonchudas,
empunham coroas, entoam cantos, riscam ornatos no azul autêntico.

Este mulato de gênio
lavou na pedra-sabão
todos os nossos pecados,
as nossas luxúrias todas,
e esse tropel de desejos,
essa ânsia de ir para o céu
e de pecar mais na terra;
esse mulato de gênio
subiu nas asas da fama,
teve dinheiro, mulher,
escravo, comida farta,
teve também escorbuto
e morreu sem consolação.

Vamos subindo nessa viagem, vamos deixando
na torre mais alta o sino que tange, o som que se perde,
devotas de luto que batem joelhos, o sacristão que limpa os altares,
os mortos que pensam, sós, em silêncio, nas catacumbas e sacristias,
São Jorge com seu ginete,
o deus coberto de chagas, a virgem cortada de espadas,
e os passos da paixão, que jazem inertes na solidão.

Era uma vez um Aleijadinho,
não tinha dedo, não tinha mão,
raiva e cinzel, lá isso tinha,
era uma vez um Aleijadinho,
era uma vez muitas igrejas
com muitos paraísos e muitos infernos,
era uma vez São João, Ouro Preto,
Mariana, Sabará, Congonhas,
era uma vez muitas cidades
e o Aleijadinho era uma vez.
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