Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Marília Garcia
blind light
aqui a luz faz o contrário de iluminar, é como
a desorientação ou a serendipia. blind
light, um quadrado que
cega
a pergunta certa podia ser: o que você
faz enviando postais de lisboa ou
seu telefone não atende a
chamadas com números
longos?
mas não podia dizer nada
o último jantar era silencioso,
enquanto pensava em uma escala que planificasse o
esférico: o mundo não seria redondo
mas alguns pacotes de água empilhados
em uma superfície plana para
cobrir os buracos
deste ponto de vista o azul não é
azul. precisa desta vez de
29 dimensões para caber:
e então ela entra
em cena
silêncio
aqui a luz faz o contrário de iluminar
e mais uma vez o 2 e o 9: primeiro somam
58. depois as placas riscavam o ar repetindo-
se a cada esquina. 2. 9. 2. 9
– você ainda vai me ver três
vezes antes do final, fique atento
aos sinais, falou. se procurar as palavras-
chave encontrará
números mas também
seres marinhos, cílios, quilômetro, retina e
eletricidade. 2. 9. 2. 9.2.
o que eu vejo ao lembrar
de você é um buraco
só um buraco.
um buraco cegando tudo.
diante do buraco, as hélices desenhando a
cena em pleno ar:
imagina
que desce durante o giro, o corpo em
câmera lenta caindo
a desorientação ou a serendipia. blind
light, um quadrado que
cega
a pergunta certa podia ser: o que você
faz enviando postais de lisboa ou
seu telefone não atende a
chamadas com números
longos?
mas não podia dizer nada
o último jantar era silencioso,
enquanto pensava em uma escala que planificasse o
esférico: o mundo não seria redondo
mas alguns pacotes de água empilhados
em uma superfície plana para
cobrir os buracos
deste ponto de vista o azul não é
azul. precisa desta vez de
29 dimensões para caber:
e então ela entra
em cena
silêncio
aqui a luz faz o contrário de iluminar
e mais uma vez o 2 e o 9: primeiro somam
58. depois as placas riscavam o ar repetindo-
se a cada esquina. 2. 9. 2. 9
– você ainda vai me ver três
vezes antes do final, fique atento
aos sinais, falou. se procurar as palavras-
chave encontrará
números mas também
seres marinhos, cílios, quilômetro, retina e
eletricidade. 2. 9. 2. 9.2.
o que eu vejo ao lembrar
de você é um buraco
só um buraco.
um buraco cegando tudo.
diante do buraco, as hélices desenhando a
cena em pleno ar:
imagina
que desce durante o giro, o corpo em
câmera lenta caindo
952
1
Daniel Jonas
OPACIDADE
Estúpido outono
a tudo impondo sua ferrugem
como num velho armazém de ferragens
a artrose ganhando dobradiças
e as espirais
a parafusos zonzos.
E estas árvores são também
impossíveis: árvores
como furgonetas com seus toldos
esvoaçantes, rangendo
a grande dor da
mudança.
Estúpidas árvores: cada copa
um enleio de fios,
uma instalação eléctrica pública
de Calcutá, fundindo
o céu, seu
capote puindo.
Ou este outono é só
uma betoneira
regurgitando o seu betão zonzo.
Estúpido outono. E que erro
tomar os meus olhos
por um aterro!
a tudo impondo sua ferrugem
como num velho armazém de ferragens
a artrose ganhando dobradiças
e as espirais
a parafusos zonzos.
E estas árvores são também
impossíveis: árvores
como furgonetas com seus toldos
esvoaçantes, rangendo
a grande dor da
mudança.
Estúpidas árvores: cada copa
um enleio de fios,
uma instalação eléctrica pública
de Calcutá, fundindo
o céu, seu
capote puindo.
Ou este outono é só
uma betoneira
regurgitando o seu betão zonzo.
Estúpido outono. E que erro
tomar os meus olhos
por um aterro!
747
1
Matilde Campilho
Brincando Com Os Dentes do Tubarão
You are the sunshine
of my life
e conversar contigo de manhã
é tão bom
tens o poder do muesli e da
laranja
ou de qualquer fruta de época
for all that matters
Acompanhar teu percurso
natural
é muito bom
falar contigo
sobre tipos de alimentos
também
Neste começo d’hoje
tuas costas negavam
qualquer espécie de outono
Afinal
a ideia de estação
é só um tema ilusional
engendrado por humanos
que nunca puderam desenhar
tua coluna vertebral
a dedo nu
My dear bicho gente
veja lá se sua próxima visita
vem antes da edição fria
do Financial Times.
of my life
e conversar contigo de manhã
é tão bom
tens o poder do muesli e da
laranja
ou de qualquer fruta de época
for all that matters
Acompanhar teu percurso
natural
é muito bom
falar contigo
sobre tipos de alimentos
também
Neste começo d’hoje
tuas costas negavam
qualquer espécie de outono
Afinal
a ideia de estação
é só um tema ilusional
engendrado por humanos
que nunca puderam desenhar
tua coluna vertebral
a dedo nu
My dear bicho gente
veja lá se sua próxima visita
vem antes da edição fria
do Financial Times.
1 822
1
Charles Bukowski
Uma Palavrinha sobre os Escrevinhadores de Poemas Rápidos e Modernos
é muito fácil parecer moderno
enquanto se é na realidade o maior idiota jamais nascido;
eu sei: eu joguei fora um material horrível
mas não tão horrível como o que leio nas revistas,
eu tenho uma honestidade interior nascida de putas e hospitais
que não me deixará fingir que sou
uma coisa que não sou -
o que seria um duplo fracasso: o fracasso de uma pessoa
na poesia
e o fracasso de uma pessoa
na vida.
e quando você falha na poesia
você erra a vida,
e quando você falha na vida
você nunca nasceu
não importa o que digam as estatísticas
nem qual o nome que sua mãe lhe deu.
as arquibancadas estão cheias de mortos
aclamando um vencedor
esperando um número que os carregue de volta
para a vida,
mas não é tão fácil assim -
tal como no poema
se você está morto
você podia também ser enterrado
e jogar fora a máquina de escrever
e parar de se enganar com
poemas cavalos mulheres a vida:
você está entulhando
a saída -
portanto saia logo
e desista das poucas preciosas
páginas.
enquanto se é na realidade o maior idiota jamais nascido;
eu sei: eu joguei fora um material horrível
mas não tão horrível como o que leio nas revistas,
eu tenho uma honestidade interior nascida de putas e hospitais
que não me deixará fingir que sou
uma coisa que não sou -
o que seria um duplo fracasso: o fracasso de uma pessoa
na poesia
e o fracasso de uma pessoa
na vida.
e quando você falha na poesia
você erra a vida,
e quando você falha na vida
você nunca nasceu
não importa o que digam as estatísticas
nem qual o nome que sua mãe lhe deu.
as arquibancadas estão cheias de mortos
aclamando um vencedor
esperando um número que os carregue de volta
para a vida,
mas não é tão fácil assim -
tal como no poema
se você está morto
você podia também ser enterrado
e jogar fora a máquina de escrever
e parar de se enganar com
poemas cavalos mulheres a vida:
você está entulhando
a saída -
portanto saia logo
e desista das poucas preciosas
páginas.
638
1
Charles Bukowski
Uma Palavrinha sobre os Escrevinhadores de Poemas Rápidos e Modernos
é muito fácil parecer moderno
enquanto se é na realidade o maior idiota jamais nascido;
eu sei: eu joguei fora um material horrível
mas não tão horrível como o que leio nas revistas,
eu tenho uma honestidade interior nascida de putas e hospitais
que não me deixará fingir que sou
uma coisa que não sou -
o que seria um duplo fracasso: o fracasso de uma pessoa
na poesia
e o fracasso de uma pessoa
na vida.
e quando você falha na poesia
você erra a vida,
e quando você falha na vida
você nunca nasceu
não importa o que digam as estatísticas
nem qual o nome que sua mãe lhe deu.
as arquibancadas estão cheias de mortos
aclamando um vencedor
esperando um número que os carregue de volta
para a vida,
mas não é tão fácil assim -
tal como no poema
se você está morto
você podia também ser enterrado
e jogar fora a máquina de escrever
e parar de se enganar com
poemas cavalos mulheres a vida:
você está entulhando
a saída -
portanto saia logo
e desista das poucas preciosas
páginas.
enquanto se é na realidade o maior idiota jamais nascido;
eu sei: eu joguei fora um material horrível
mas não tão horrível como o que leio nas revistas,
eu tenho uma honestidade interior nascida de putas e hospitais
que não me deixará fingir que sou
uma coisa que não sou -
o que seria um duplo fracasso: o fracasso de uma pessoa
na poesia
e o fracasso de uma pessoa
na vida.
e quando você falha na poesia
você erra a vida,
e quando você falha na vida
você nunca nasceu
não importa o que digam as estatísticas
nem qual o nome que sua mãe lhe deu.
as arquibancadas estão cheias de mortos
aclamando um vencedor
esperando um número que os carregue de volta
para a vida,
mas não é tão fácil assim -
tal como no poema
se você está morto
você podia também ser enterrado
e jogar fora a máquina de escrever
e parar de se enganar com
poemas cavalos mulheres a vida:
você está entulhando
a saída -
portanto saia logo
e desista das poucas preciosas
páginas.
638
1
António Borges Coelho
Não tenhas medo
Não tenhas medo do sangue aberto
do corpo enfeitado pelas balas
do corpo enfeitado pelas balas
912
1
Charles Bukowski
Como Uma Flor Na Chuva
cortei a unha do dedo médio
da mão
direita
realmente curta
e comecei a correr o dedo ao longo de sua buceta
enquanto ela se sentava muito ereta na cama
espalhando uma loção por seus braços
face
e seios
depois do banho.
então acendeu um cigarro:
“não deixe que isso o desanime”,
e seguiu fumando e esfregando a
loção.
continuei tocando sua buceta.
“quer uma maçã?”, perguntei.
“claro”, ela disse, “tem uma aí?”
mas eu lhe dei outra coisa...
ela começou a se contorcer
e depois rolou para um lado,
ela estava ficando molhada e aberta
como uma flor na chuva.
então ela se voltou sobre a barriga
e seu cu maravilhoso
olhou para mim
e eu passei minha mão por baixo e
cheguei outra vez na buceta.
ela se espichou e agarrou meu
pau, virando-se e se contorcendo toda,
penetrei-a
meu rosto mergulhando na massa
de cabelos ruivos que se alastrava feito enchente
de sua cabeça
e meu pau intumescido adentrou
o milagre.
mais tarde tiramos sarro da loção
e do cigarro e da maçã.
depois eu saí para comprar um pouco de frango
e camarão e batatas fritas e pão doce
e purê de batatas e molho e
salada de repolho, e nós comemos. ela me disse
quão bem ela se sentia e eu lhe disse
o quão bem eu me sentia e nós comemos
o frango e o camarão e as batatas fritas e o pão doce
e o purê de batatas e o molho e
também a salada de repolho.
Dirigi de volta para casa. O apartamento estava do mesmo jeito de sempre – garrafas e lixo por toda parte. Precisava dar uma arrumada nas coisas. Se alguém o visse nesse estado facilmente me daria voz de prisão.
Escutei uma batida. Abri a porta. Era Tammie.
– Oi – ela disse.
– Olá.
– Você devia estar numa pressa desgraçada quando saiu. Todas as portas ficaram abertas. A porta dos fundos estava escancarada. Escute, promete que não conta pra ninguém se eu contar uma coisa pra você?
– Tudo bem.
– Arlene entrou e usou seu telefone, um interurbano.
– Tudo bem.
– Tentei deter ela, mas não consegui. Ela estava entupida de boletas.
– Tudo bem.
– Por onde você andava?
– Galveston.
– Por que você saiu assim desse jeito? Você é maluco.
– Vou precisar viajar de novo no sábado.
– Sábado? Que dia é hoje?
– Quinta-feira.
– Pra onde você vai agora?
– Nova York.
– Pra fazer o quê?
– Uma leitura. Mandaram as passagens duas semanas atrás. E eu fico com um percentual da bilheteria.
– Ah, me leve com você! Deixo a Dancy com a Mãe. Quero muito ir!
– Não tenho como bancar você. Isso acabaria com o meu cachê. Nos últimos tempos fiz umas despesas pesadas.
– Vai ser muito legal! Será bom demais. Não vou sair nem um minuto do seu lado. Senti tanto a sua falta.
– Não tem como, Tammie.
Ela foi até o refrigerador e apanhou uma cerveja.
– Você não dá a mínima pra mim. Todos esses poemas de amor, tudo papo furado.
– Quando eu os escrevi não era papo furado.
O telefone tocou. Era meu editor.
– Por onde você tem andado?
– Galveston. Fazendo uma pesquisa.
– Ouvi dizer que você fará uma leitura em Nova York no sábado.
– Sim, Tammie quer ir junto, minha namorada.
– Você vai levá-la junto?
– Não, não tenho como bancar.
– Quanto sairia isso?
– Por 316 dólares ida e volta.
– Você quer mesmo que ela vá?
– Sim, acho que seria uma boa.
– Tudo bem, vá em frente. Mando um cheque pra você pelo correio.
– Está falando sério?
– Sim.
– Não sei o que dizer...
– Não esquenta. Apenas lembre do Dylan Thomas.
– Eles não vão me matar.
Nos despedimos. Tammie sugava sua cerveja.
– Tudo bem – eu lhe disse –, você tem dois ou três dias pra fazer as malas.
– Está falando sério? Quer dizer que eu vou junto?
– Sim, meu editor pagará sua passagem.
Tammie deu um salto e se agarrou em mim. Me beijou, agarrou minhas bolas, se pendurou no meu pau.
– Você é o filho da puta mais legal do mundo!
Nova York. Tirando Dallas, Houston, Charleston e Atlanta, era o pior lugar em que eu já tinha estado. Tammie se grudou em mim e meu pau levantou. Joanna Dover não tinha levado tudo...
Sairíamos de Los Angeles naquele sábado no voo das três e meia. Às duas horas bati à porta de Tammie. Ela não estava lá. Voltei para minha casa e me sentei para esperar. O telefone tocou. Era Tammie.
– Veja – eu disse –, temos que ir. Há pessoas me esperando lá no Kennedy. Onde você está?
– Preciso de seis dólares aqui na farmácia. É pra comprar uns Quaaludes.[16]
– Onde você está?
– Logo abaixo do cruzamento da Western com Santa Monica Boulevard, cerca de uma quadra. É uma farmácia Coruja, não tem como errar.
Desliguei, entrei no fusca e fui até lá. Estacionei uma quadra abaixo da Western com Santa Monica, saí e dei uma olhada em volta. Não havia farmácia alguma.
Voltei para o fusca e dirigi pelas redondezas, procurando o Camaro vermelho dela. Então o avistei, cinco quadras abaixo. Estacionei e entrei no lugar. Tammie estava sentada numa cadeira. Dancy correu e para me fazer careta.
– Não podemos levar a criança.
– Eu sei. Vamos deixar ela na minha mãe, no meio do caminho.
– Na sua mãe? Mas são cinco quilômetros pro lado contrário.
– Fica no caminho do aeroporto.
– Não, fica pro outro lado.
– Você tem os seis contos?
Dei o dinheiro para Tammie.
– Encontro você na sua casa. Suas malas estão prontas?
– Sim, estou pronto.
Dirigi de volta e esperei. Então as ouvi chegar.
– Mamãe! – Dancy gritou. – Quero meus brinquedinhos!
As duas subiram a escada. Esperei que elas descessem. Nada. Subi. Tammie havia feito a mala, mas estava ajoelhada, abrindo e fechando o zíper de sua bagagem.
– Escute – eu disse –, vou levar o resto das suas coisas para o carro.
Ela levava consigo duas sacolas de compras de papelão, cheias, e três vestidos em cabides. Tudo isso além da mala.
Peguei as sacolas e os vestidos e coloquei no fusca. Quando voltei, ela ainda abria e fechava o zíper.
– Vamos, Tammie.
– Só mais um minuto.
Lá estava ela ajoelhada, pra lá e pra cá com o zíper, sem parar. Ela sequer olhava para dentro da mala. Ficava apenas abrindo e fechando o zíper.
– Mamãe – disse Dancy –, quero os meus brinquedinhos.
– Vamos, Tammie, vamos duma vez.
– Ah, tudo bem.
Apanhei a mala com o zíper e elas me seguiram para fora.
Segui seu Camaro demolido até a casa de sua mãe. Entramos. Tammie ficou em frente à cômoda da mãe e começou a abrir e fechar as gavetas. Cada vez que ela abria uma das gavetas, metia a mão lá dentro e fazia a maior bagunça. Então ela fechava a gaveta com uma pancada e partia para a próxima. Em sequência.
– Tammie, o avião já vai partir.
– Que nada, temos muito tempo. Odeio ficar fazendo hora em aeroportos.
– O que você pretende fazer com a Dancy?
– Vou deixar ela aqui até que a Mãe chegue do trabalho.
Dancy começou a urrar. Finalmente ela descobrira, e começou a urrar, e as lágrimas corriam, e então ela parou, cerrou o punho e gritou:
– QUERO OS MEUS BRINQUEDINHOS!
– Escute, Tammie, vou esperar no carro.
Saí e esperei. Depois de cinco minutos voltei a entrar na casa. Tammie continuava abrindo e fechando gavetas.
– Por favor, Tammie, temos que ir.
– Tudo bem.
Ela se voltou para Dancy.
– Escute só, você vai ficar aqui até a vovó chegar em casa. Mantenha a porta fechada e não deixe ninguém que não seja a vovó entrar!
Dancy voltou a urrar. E então gritou:
– EU ODEIO VOCÊ!
Tammie me seguiu e entramos no fusca. Dei a partida. Ela abriu a porta e se foi.
– TENHO QUE PEGAR UMA COISA NO MEU CARRO!
Tammie correu até o Camaro.
– Ah, merda, eu tranquei a porta e não tenho a chave! Você tem um arame?
– Não – gritei –, não tenho um arame!
– Já volto!
Tammie voltou correndo para dentro do apartamento da mãe. Escutei a porta se abrir. Dancy urrou e gritou. Então escutei a batida da porta e Tammie voltou com o arame. Ela foi até o Camaro e arrombou a porta.
Fui até seu carro. Tammie havia se inclinado sobre o banco de trás e cavoucava aquela inacreditável bagunça – roupas, sacos de papel, copos de papel, garrafas de cerveja, caixas vazias –, tudo empilhado ali. Então ela encontrou o que procurava: a câmara, uma Polaroid que eu havia lhe dado de aniversário.
– Você me ama de verdade, não é?
– Sim.
– Quando chegarmos a Nova York eu vou trepar com você como nenhuma outra mulher já trepou!
– Está falando sério?
– Sim.
Ela se agarrou no meu pau e colou em mim.
Minha primeira e única ruiva. Eu tinha sorte...
Corremos pela longa rampa. Eu carregava os vestidos e as sacolas dela.
Na escada rolante, Tammie avistou a máquina que vendia seguros de voo.
– Por favor – eu disse –, faltam cinco minutos pra decolagem.
– Quero que Dancy seja beneficiada.
– Tudo bem.
– Você tem cinquenta centavos?
Dei-lhe duas moedas. Ela as inseriu e um cartão foi cuspido pela máquina.
– Você tem uma caneta?
Tammie preencheu o cartão e depois havia um envelope. Ela colocou o cartão ali dentro e tentou enfiá-los na abertura da máquina.
– Essa porra não está entrando!
– Nós vamos perder o voo.
Ela continuava tentando enfiar o envelope na abertura. Não estava conseguindo.
Ficou ali plantada, tentando enfiar o envelope naquela abertura. A essas alturas o envelope já estava completamente dobrado no meio e as pontas estavam todas amassadas.
– Estou ficando louco – eu disse a ela. – Não suporto mais.
Tentou enfiar mais algumas vezes. Não teve jeito. Olhou para mim.
– Certo, vamos lá, então.
Subimos pela escada rolante com os vestidos e as sacolas.
Encontramos o portão de embarque. Tínhamos dois bancos no fundo do avião. Embarcamos.
– Viu só – ela disse –, não falei que a gente tinha tempo de sobra?
Olhei para o meu relógio. O avião começou a se mover...
Estávamos voando havia vinte minutos quando ela tirou um espelhinho da bolsa e começou a se maquiar, principalmente os olhos. Passava uma escovinha neles, concentrando-se, em especial, nos cílios. Ao fazer isso, ela arregalava bem os olhos, a boca entreaberta. Só de assisti-la, comecei a ter uma ereção.
Sua boca era tão carnuda e gostosa e aberta e ela ficava ajeitando os cílios. Pedi dois drinques.
Tammie parava para beber, e então continuava.
Um jovem numa poltrona à nossa direita começou a se tocar. Tammie continuava com os olhos fixos no espelhinho, mantendo a boca aberta. Parecia capaz de pagar um boquete dos bons com aquela boca.
Continuou naquela função por uma hora. Então deixou o espelho e a escovinha de lado, encostou-se no meu ombro e dormiu.
Havia uma mulher na poltrona à nossa esquerda. Estava na metade dos quarenta. Tammie dormia colada em mim.
A mulher me olhou.
– Quantos anos ela tem? – ela me perguntou.
De repente tudo ficou muito silencioso naquele avião. Todos ao redor escutavam.
– 23.
– Ela parece ter dezessete.
– Ela tem 23.
– Ela passou duas horas se maquiando e agora vai dormir.
– Foi mais ou menos uma hora.
– O senhor está indo para Nova York?
– Sim.
– É sua filha?
– Não, não sou pai nem avô dela. Não temos nenhum grau de parentesco. Ela é minha namorada e estamos indo pra Nova York. – Pude ver a manchete em seus olhos:
MONSTRO DO LESTE DE HOLLYWOOD DOPA GAROTA DE DEZESSETE ANOS, LEVA-A PARA NOVA YORK ONDE ELE A ABUSA SEXUALMENTE, VENDENDO DEPOIS SEU CORPO A INÚMEROS VAGABUNDOS.
A senhora inquisidora desistiu. Inclinou sua poltrona e fechou os olhos. Sua cabeça se inclinou na minha direção. Estava quase sobre meu colo. Segurando Tammie, fiquei olhando para aquela cabeça. Me perguntava se ela se importaria se eu lhe desse um beijo inesperado e louco. Tive outra ereção.
Estávamos prontos para aterrissar. Tammie parecia desacordada. Isso me deixou preocupado. Afivelei seu cinto.
– Tammie, estamos em Nova York! Já vamos pousar! Tammie, acorde!
Nenhuma resposta.
Overdose?
Tomei seu pulso. Não consegui sentir nada.
Olhei para os seus peitos enormes. Buscava algum sinal de que estivesse respirando. Eles não se moviam. Me levantei e fui ao encontro de uma aeromoça.
– Por favor, senhor, volte ao seu lugar. Estamos em procedimento de pouso.
– Escute, estou preocupado. Minha namorada não está acordando.
– O senhor acha que ela morreu? – sussurrou.
– Não sei – respondi também num sussurro.
– Tudo bem, senhor. Assim que nos aterrissarmos eu volto aqui.
O avião começou a descer. Fui até o banheiro e umedeci umas toalhas de papel. Retornei, sentei-me ao lado de Tammie e esfreguei sua face com os papéis. Toda aquela maquiagem, perdida. Tammie não respondeu.
– Acorde, sua puta!
Passei as toalhas por seus peitos. Nada. Nenhum movimento. Desisti.
Agora precisava despachar seu corpo de volta. Precisaria explicar o ocorrido à sua mãe. A velha iria me odiar.
Aterrissamos. As pessoas se levantaram e formaram uma fila, esperando para sair. Fiquei ali sentado. Chacoalhava Tammie, beliscava-a.
– É Nova York, Ruiva. A maçã podre. Vamos lá. Chega dessa palhaçada.
A aeromoça voltou e balançou Tammie.
– Querida, qual é o problema?
Tammie começou a responder. Ela se mexeu. Então seus olhos se abriram. Era tudo uma questão de ser chamada por uma voz diferente. Ninguém responde a uma voz conhecida. Vozes conhecidas se tornam parte da pessoa, como uma unha.
Tammie pegou seu espelhinho e começou a ajeitar o cabelo. A aeromoça lhe dava uns tapinhas no ombro. Me levantei e tirei os vestidos do compartimento superior. As sacolas também estavam ali. Tammie continuou a se olhar, não parava de ajeitar os cabelos.
– Tammie, estamos em Nova York. Vamos descer.
Ela se moveu depressa. Eu levava as duas sacolas e os vestidos. Ela saiu pela porta rebolando bem a bunda. Fui atrás dela.
– Mulheres
da mão
direita
realmente curta
e comecei a correr o dedo ao longo de sua buceta
enquanto ela se sentava muito ereta na cama
espalhando uma loção por seus braços
face
e seios
depois do banho.
então acendeu um cigarro:
“não deixe que isso o desanime”,
e seguiu fumando e esfregando a
loção.
continuei tocando sua buceta.
“quer uma maçã?”, perguntei.
“claro”, ela disse, “tem uma aí?”
mas eu lhe dei outra coisa...
ela começou a se contorcer
e depois rolou para um lado,
ela estava ficando molhada e aberta
como uma flor na chuva.
então ela se voltou sobre a barriga
e seu cu maravilhoso
olhou para mim
e eu passei minha mão por baixo e
cheguei outra vez na buceta.
ela se espichou e agarrou meu
pau, virando-se e se contorcendo toda,
penetrei-a
meu rosto mergulhando na massa
de cabelos ruivos que se alastrava feito enchente
de sua cabeça
e meu pau intumescido adentrou
o milagre.
mais tarde tiramos sarro da loção
e do cigarro e da maçã.
depois eu saí para comprar um pouco de frango
e camarão e batatas fritas e pão doce
e purê de batatas e molho e
salada de repolho, e nós comemos. ela me disse
quão bem ela se sentia e eu lhe disse
o quão bem eu me sentia e nós comemos
o frango e o camarão e as batatas fritas e o pão doce
e o purê de batatas e o molho e
também a salada de repolho.
Dirigi de volta para casa. O apartamento estava do mesmo jeito de sempre – garrafas e lixo por toda parte. Precisava dar uma arrumada nas coisas. Se alguém o visse nesse estado facilmente me daria voz de prisão.
Escutei uma batida. Abri a porta. Era Tammie.
– Oi – ela disse.
– Olá.
– Você devia estar numa pressa desgraçada quando saiu. Todas as portas ficaram abertas. A porta dos fundos estava escancarada. Escute, promete que não conta pra ninguém se eu contar uma coisa pra você?
– Tudo bem.
– Arlene entrou e usou seu telefone, um interurbano.
– Tudo bem.
– Tentei deter ela, mas não consegui. Ela estava entupida de boletas.
– Tudo bem.
– Por onde você andava?
– Galveston.
– Por que você saiu assim desse jeito? Você é maluco.
– Vou precisar viajar de novo no sábado.
– Sábado? Que dia é hoje?
– Quinta-feira.
– Pra onde você vai agora?
– Nova York.
– Pra fazer o quê?
– Uma leitura. Mandaram as passagens duas semanas atrás. E eu fico com um percentual da bilheteria.
– Ah, me leve com você! Deixo a Dancy com a Mãe. Quero muito ir!
– Não tenho como bancar você. Isso acabaria com o meu cachê. Nos últimos tempos fiz umas despesas pesadas.
– Vai ser muito legal! Será bom demais. Não vou sair nem um minuto do seu lado. Senti tanto a sua falta.
– Não tem como, Tammie.
Ela foi até o refrigerador e apanhou uma cerveja.
– Você não dá a mínima pra mim. Todos esses poemas de amor, tudo papo furado.
– Quando eu os escrevi não era papo furado.
O telefone tocou. Era meu editor.
– Por onde você tem andado?
– Galveston. Fazendo uma pesquisa.
– Ouvi dizer que você fará uma leitura em Nova York no sábado.
– Sim, Tammie quer ir junto, minha namorada.
– Você vai levá-la junto?
– Não, não tenho como bancar.
– Quanto sairia isso?
– Por 316 dólares ida e volta.
– Você quer mesmo que ela vá?
– Sim, acho que seria uma boa.
– Tudo bem, vá em frente. Mando um cheque pra você pelo correio.
– Está falando sério?
– Sim.
– Não sei o que dizer...
– Não esquenta. Apenas lembre do Dylan Thomas.
– Eles não vão me matar.
Nos despedimos. Tammie sugava sua cerveja.
– Tudo bem – eu lhe disse –, você tem dois ou três dias pra fazer as malas.
– Está falando sério? Quer dizer que eu vou junto?
– Sim, meu editor pagará sua passagem.
Tammie deu um salto e se agarrou em mim. Me beijou, agarrou minhas bolas, se pendurou no meu pau.
– Você é o filho da puta mais legal do mundo!
Nova York. Tirando Dallas, Houston, Charleston e Atlanta, era o pior lugar em que eu já tinha estado. Tammie se grudou em mim e meu pau levantou. Joanna Dover não tinha levado tudo...
Sairíamos de Los Angeles naquele sábado no voo das três e meia. Às duas horas bati à porta de Tammie. Ela não estava lá. Voltei para minha casa e me sentei para esperar. O telefone tocou. Era Tammie.
– Veja – eu disse –, temos que ir. Há pessoas me esperando lá no Kennedy. Onde você está?
– Preciso de seis dólares aqui na farmácia. É pra comprar uns Quaaludes.[16]
– Onde você está?
– Logo abaixo do cruzamento da Western com Santa Monica Boulevard, cerca de uma quadra. É uma farmácia Coruja, não tem como errar.
Desliguei, entrei no fusca e fui até lá. Estacionei uma quadra abaixo da Western com Santa Monica, saí e dei uma olhada em volta. Não havia farmácia alguma.
Voltei para o fusca e dirigi pelas redondezas, procurando o Camaro vermelho dela. Então o avistei, cinco quadras abaixo. Estacionei e entrei no lugar. Tammie estava sentada numa cadeira. Dancy correu e para me fazer careta.
– Não podemos levar a criança.
– Eu sei. Vamos deixar ela na minha mãe, no meio do caminho.
– Na sua mãe? Mas são cinco quilômetros pro lado contrário.
– Fica no caminho do aeroporto.
– Não, fica pro outro lado.
– Você tem os seis contos?
Dei o dinheiro para Tammie.
– Encontro você na sua casa. Suas malas estão prontas?
– Sim, estou pronto.
Dirigi de volta e esperei. Então as ouvi chegar.
– Mamãe! – Dancy gritou. – Quero meus brinquedinhos!
As duas subiram a escada. Esperei que elas descessem. Nada. Subi. Tammie havia feito a mala, mas estava ajoelhada, abrindo e fechando o zíper de sua bagagem.
– Escute – eu disse –, vou levar o resto das suas coisas para o carro.
Ela levava consigo duas sacolas de compras de papelão, cheias, e três vestidos em cabides. Tudo isso além da mala.
Peguei as sacolas e os vestidos e coloquei no fusca. Quando voltei, ela ainda abria e fechava o zíper.
– Vamos, Tammie.
– Só mais um minuto.
Lá estava ela ajoelhada, pra lá e pra cá com o zíper, sem parar. Ela sequer olhava para dentro da mala. Ficava apenas abrindo e fechando o zíper.
– Mamãe – disse Dancy –, quero os meus brinquedinhos.
– Vamos, Tammie, vamos duma vez.
– Ah, tudo bem.
Apanhei a mala com o zíper e elas me seguiram para fora.
Segui seu Camaro demolido até a casa de sua mãe. Entramos. Tammie ficou em frente à cômoda da mãe e começou a abrir e fechar as gavetas. Cada vez que ela abria uma das gavetas, metia a mão lá dentro e fazia a maior bagunça. Então ela fechava a gaveta com uma pancada e partia para a próxima. Em sequência.
– Tammie, o avião já vai partir.
– Que nada, temos muito tempo. Odeio ficar fazendo hora em aeroportos.
– O que você pretende fazer com a Dancy?
– Vou deixar ela aqui até que a Mãe chegue do trabalho.
Dancy começou a urrar. Finalmente ela descobrira, e começou a urrar, e as lágrimas corriam, e então ela parou, cerrou o punho e gritou:
– QUERO OS MEUS BRINQUEDINHOS!
– Escute, Tammie, vou esperar no carro.
Saí e esperei. Depois de cinco minutos voltei a entrar na casa. Tammie continuava abrindo e fechando gavetas.
– Por favor, Tammie, temos que ir.
– Tudo bem.
Ela se voltou para Dancy.
– Escute só, você vai ficar aqui até a vovó chegar em casa. Mantenha a porta fechada e não deixe ninguém que não seja a vovó entrar!
Dancy voltou a urrar. E então gritou:
– EU ODEIO VOCÊ!
Tammie me seguiu e entramos no fusca. Dei a partida. Ela abriu a porta e se foi.
– TENHO QUE PEGAR UMA COISA NO MEU CARRO!
Tammie correu até o Camaro.
– Ah, merda, eu tranquei a porta e não tenho a chave! Você tem um arame?
– Não – gritei –, não tenho um arame!
– Já volto!
Tammie voltou correndo para dentro do apartamento da mãe. Escutei a porta se abrir. Dancy urrou e gritou. Então escutei a batida da porta e Tammie voltou com o arame. Ela foi até o Camaro e arrombou a porta.
Fui até seu carro. Tammie havia se inclinado sobre o banco de trás e cavoucava aquela inacreditável bagunça – roupas, sacos de papel, copos de papel, garrafas de cerveja, caixas vazias –, tudo empilhado ali. Então ela encontrou o que procurava: a câmara, uma Polaroid que eu havia lhe dado de aniversário.
– Você me ama de verdade, não é?
– Sim.
– Quando chegarmos a Nova York eu vou trepar com você como nenhuma outra mulher já trepou!
– Está falando sério?
– Sim.
Ela se agarrou no meu pau e colou em mim.
Minha primeira e única ruiva. Eu tinha sorte...
Corremos pela longa rampa. Eu carregava os vestidos e as sacolas dela.
Na escada rolante, Tammie avistou a máquina que vendia seguros de voo.
– Por favor – eu disse –, faltam cinco minutos pra decolagem.
– Quero que Dancy seja beneficiada.
– Tudo bem.
– Você tem cinquenta centavos?
Dei-lhe duas moedas. Ela as inseriu e um cartão foi cuspido pela máquina.
– Você tem uma caneta?
Tammie preencheu o cartão e depois havia um envelope. Ela colocou o cartão ali dentro e tentou enfiá-los na abertura da máquina.
– Essa porra não está entrando!
– Nós vamos perder o voo.
Ela continuava tentando enfiar o envelope na abertura. Não estava conseguindo.
Ficou ali plantada, tentando enfiar o envelope naquela abertura. A essas alturas o envelope já estava completamente dobrado no meio e as pontas estavam todas amassadas.
– Estou ficando louco – eu disse a ela. – Não suporto mais.
Tentou enfiar mais algumas vezes. Não teve jeito. Olhou para mim.
– Certo, vamos lá, então.
Subimos pela escada rolante com os vestidos e as sacolas.
Encontramos o portão de embarque. Tínhamos dois bancos no fundo do avião. Embarcamos.
– Viu só – ela disse –, não falei que a gente tinha tempo de sobra?
Olhei para o meu relógio. O avião começou a se mover...
Estávamos voando havia vinte minutos quando ela tirou um espelhinho da bolsa e começou a se maquiar, principalmente os olhos. Passava uma escovinha neles, concentrando-se, em especial, nos cílios. Ao fazer isso, ela arregalava bem os olhos, a boca entreaberta. Só de assisti-la, comecei a ter uma ereção.
Sua boca era tão carnuda e gostosa e aberta e ela ficava ajeitando os cílios. Pedi dois drinques.
Tammie parava para beber, e então continuava.
Um jovem numa poltrona à nossa direita começou a se tocar. Tammie continuava com os olhos fixos no espelhinho, mantendo a boca aberta. Parecia capaz de pagar um boquete dos bons com aquela boca.
Continuou naquela função por uma hora. Então deixou o espelho e a escovinha de lado, encostou-se no meu ombro e dormiu.
Havia uma mulher na poltrona à nossa esquerda. Estava na metade dos quarenta. Tammie dormia colada em mim.
A mulher me olhou.
– Quantos anos ela tem? – ela me perguntou.
De repente tudo ficou muito silencioso naquele avião. Todos ao redor escutavam.
– 23.
– Ela parece ter dezessete.
– Ela tem 23.
– Ela passou duas horas se maquiando e agora vai dormir.
– Foi mais ou menos uma hora.
– O senhor está indo para Nova York?
– Sim.
– É sua filha?
– Não, não sou pai nem avô dela. Não temos nenhum grau de parentesco. Ela é minha namorada e estamos indo pra Nova York. – Pude ver a manchete em seus olhos:
MONSTRO DO LESTE DE HOLLYWOOD DOPA GAROTA DE DEZESSETE ANOS, LEVA-A PARA NOVA YORK ONDE ELE A ABUSA SEXUALMENTE, VENDENDO DEPOIS SEU CORPO A INÚMEROS VAGABUNDOS.
A senhora inquisidora desistiu. Inclinou sua poltrona e fechou os olhos. Sua cabeça se inclinou na minha direção. Estava quase sobre meu colo. Segurando Tammie, fiquei olhando para aquela cabeça. Me perguntava se ela se importaria se eu lhe desse um beijo inesperado e louco. Tive outra ereção.
Estávamos prontos para aterrissar. Tammie parecia desacordada. Isso me deixou preocupado. Afivelei seu cinto.
– Tammie, estamos em Nova York! Já vamos pousar! Tammie, acorde!
Nenhuma resposta.
Overdose?
Tomei seu pulso. Não consegui sentir nada.
Olhei para os seus peitos enormes. Buscava algum sinal de que estivesse respirando. Eles não se moviam. Me levantei e fui ao encontro de uma aeromoça.
– Por favor, senhor, volte ao seu lugar. Estamos em procedimento de pouso.
– Escute, estou preocupado. Minha namorada não está acordando.
– O senhor acha que ela morreu? – sussurrou.
– Não sei – respondi também num sussurro.
– Tudo bem, senhor. Assim que nos aterrissarmos eu volto aqui.
O avião começou a descer. Fui até o banheiro e umedeci umas toalhas de papel. Retornei, sentei-me ao lado de Tammie e esfreguei sua face com os papéis. Toda aquela maquiagem, perdida. Tammie não respondeu.
– Acorde, sua puta!
Passei as toalhas por seus peitos. Nada. Nenhum movimento. Desisti.
Agora precisava despachar seu corpo de volta. Precisaria explicar o ocorrido à sua mãe. A velha iria me odiar.
Aterrissamos. As pessoas se levantaram e formaram uma fila, esperando para sair. Fiquei ali sentado. Chacoalhava Tammie, beliscava-a.
– É Nova York, Ruiva. A maçã podre. Vamos lá. Chega dessa palhaçada.
A aeromoça voltou e balançou Tammie.
– Querida, qual é o problema?
Tammie começou a responder. Ela se mexeu. Então seus olhos se abriram. Era tudo uma questão de ser chamada por uma voz diferente. Ninguém responde a uma voz conhecida. Vozes conhecidas se tornam parte da pessoa, como uma unha.
Tammie pegou seu espelhinho e começou a ajeitar o cabelo. A aeromoça lhe dava uns tapinhas no ombro. Me levantei e tirei os vestidos do compartimento superior. As sacolas também estavam ali. Tammie continuou a se olhar, não parava de ajeitar os cabelos.
– Tammie, estamos em Nova York. Vamos descer.
Ela se moveu depressa. Eu levava as duas sacolas e os vestidos. Ela saiu pela porta rebolando bem a bunda. Fui atrás dela.
– Mulheres
1 548
1
Charles Bukowski
40 Anos Atrás Naquele Quarto de Hotel
na Union Avenue, 3 da manhã, Jane e eu estávamos
bebendo vinho barato desde o meio-dia e eu andava de pés descalços
pelos tapetes, recolhendo cacos de vidro
(à luz do dia você conseguia vê-los embaixo da pele,
protuberâncias azuis abrindo caminho rumo ao coração) e eu andava usando
meus calções rasgados, colhões feiosos balançando pra fora, minha retorcida e
rasgada camisa de baixo pontilhada por buracos de cigarro de diversos
tamanhos. parei diante de Jane, que estava sentada em sua cadeira
bêbada.
então gritei para ela:
“SOU UM GÊNIO E NINGUÉM SABE DISSO FORA
EU!”
ela sacudiu a cabeça, riu com escárnio e balbuciou por entre os
lábios:
“caralho! você é um idiota
de merda!”
eu andei à espreita pelo piso, dessa vez recolhendo um
fragmento de vidro bem maior do que o normal, e estiquei a mão
e o arranquei: um adorável e grande naco em forma de lança, pingando
com o meu sangue, eu o arremessei no espaço, me virei e fuzilei Jane
com os olhos:
“você não sabe nada, sua
puta!”
“VÁ SE FODER!”, ela
gritou.
então o telefone tocou e eu atendi e
gritei: “SOU UM GÊNIO E NINGUÉM SABE DISSO FORA
EU!”
era o recepcionista: “Sr. Chinaski, eu lhe adverti
diversas vezes, o senhor não está deixando nossos
hóspedes dormirem...”
“HÓSPEDES?”, eu ri, “VOCÊ QUER DIZER ESSES BEBUNS
DE MERDA?”
então Jane apareceu e agarrou o telefone e
gritou: “EU SOU UM MALDITO GÊNIO TAMBÉM E SOU A
ÚNICA PUTA QUE SABE DISSO!”
e ela desligou.
então fui até a porta e
prendi a corrente.
então Jane e eu empurramos o sofá na
frente da porta
desligamos as luzes
e ficamos sentados na cama
esperando por eles,
tínhamos pleno conhecimento da
localização da cadeia
de bebuns: North Avenue
21 – um endereço que soava tão
pomposo.
nós tínhamos, cada um, uma cadeira ao
lado da cama,
e cada cadeira continha cinzeiro,
cigarros e
vinho.
eles vieram com muito
ruído:
“esta é a porta
certa?”
“é”, ele disse,
“413”.
um deles bateu com
a ponta de seu
cassetete:
“DEPARTAMENTO DE POLÍCIA DE L.A.!
ABRAM AÍ!”
nós não
abrimos aí.
então ambos bateram com
seus cassetetes:
“ABRAM! ABRAM
AÍ!”
agora todos os hóspedes estavam
acordados com certeza.
“vamos lá, abram”, um deles
falou com mais calma, “nós só queremos
conversar um pouco, nada mais...”
“nada mais”, disse o outro,
“a gente pode até tomar uma bebidinha
com vocês...”
30-40 anos atrás
North Avenue 21 era um lugar terrível,
40 ou 50 homens dormiam no mesmo piso
e havia um banheiro no qual ninguém ousava
excretar.
“sabemos que vocês são gente boa, nós só
queremos conhecer vocês...”,
um deles disse.
“é”, disse o outro.
então os ouvimos
sussurrando.
não os ouvimos indo
embora.
não tínhamos certeza quanto à
partida dos dois.
“puta que o pariu”, Jane perguntou,
“você acha que eles
foram embora?”
“shhhh...”,
eu chiei.
ficamos ali sentados no escuro
bebericando nosso
vinho.
não havia nada a fazer
exceto observar dois letreiros de neon
através da janela ao
leste
um ficava perto da biblioteca
e dizia
em vermelho:
JESUS SALVA.
o outro letreiro era mais
interessante:
era um enorme pássaro vermelho
que batia suas asas
sete vezes
e então um letreiro se acendia
abaixo
anunciando
SIGNAL GASOLINE.
era uma vida tão boa
quanto conseguíamos
bancar.
bebendo vinho barato desde o meio-dia e eu andava de pés descalços
pelos tapetes, recolhendo cacos de vidro
(à luz do dia você conseguia vê-los embaixo da pele,
protuberâncias azuis abrindo caminho rumo ao coração) e eu andava usando
meus calções rasgados, colhões feiosos balançando pra fora, minha retorcida e
rasgada camisa de baixo pontilhada por buracos de cigarro de diversos
tamanhos. parei diante de Jane, que estava sentada em sua cadeira
bêbada.
então gritei para ela:
“SOU UM GÊNIO E NINGUÉM SABE DISSO FORA
EU!”
ela sacudiu a cabeça, riu com escárnio e balbuciou por entre os
lábios:
“caralho! você é um idiota
de merda!”
eu andei à espreita pelo piso, dessa vez recolhendo um
fragmento de vidro bem maior do que o normal, e estiquei a mão
e o arranquei: um adorável e grande naco em forma de lança, pingando
com o meu sangue, eu o arremessei no espaço, me virei e fuzilei Jane
com os olhos:
“você não sabe nada, sua
puta!”
“VÁ SE FODER!”, ela
gritou.
então o telefone tocou e eu atendi e
gritei: “SOU UM GÊNIO E NINGUÉM SABE DISSO FORA
EU!”
era o recepcionista: “Sr. Chinaski, eu lhe adverti
diversas vezes, o senhor não está deixando nossos
hóspedes dormirem...”
“HÓSPEDES?”, eu ri, “VOCÊ QUER DIZER ESSES BEBUNS
DE MERDA?”
então Jane apareceu e agarrou o telefone e
gritou: “EU SOU UM MALDITO GÊNIO TAMBÉM E SOU A
ÚNICA PUTA QUE SABE DISSO!”
e ela desligou.
então fui até a porta e
prendi a corrente.
então Jane e eu empurramos o sofá na
frente da porta
desligamos as luzes
e ficamos sentados na cama
esperando por eles,
tínhamos pleno conhecimento da
localização da cadeia
de bebuns: North Avenue
21 – um endereço que soava tão
pomposo.
nós tínhamos, cada um, uma cadeira ao
lado da cama,
e cada cadeira continha cinzeiro,
cigarros e
vinho.
eles vieram com muito
ruído:
“esta é a porta
certa?”
“é”, ele disse,
“413”.
um deles bateu com
a ponta de seu
cassetete:
“DEPARTAMENTO DE POLÍCIA DE L.A.!
ABRAM AÍ!”
nós não
abrimos aí.
então ambos bateram com
seus cassetetes:
“ABRAM! ABRAM
AÍ!”
agora todos os hóspedes estavam
acordados com certeza.
“vamos lá, abram”, um deles
falou com mais calma, “nós só queremos
conversar um pouco, nada mais...”
“nada mais”, disse o outro,
“a gente pode até tomar uma bebidinha
com vocês...”
30-40 anos atrás
North Avenue 21 era um lugar terrível,
40 ou 50 homens dormiam no mesmo piso
e havia um banheiro no qual ninguém ousava
excretar.
“sabemos que vocês são gente boa, nós só
queremos conhecer vocês...”,
um deles disse.
“é”, disse o outro.
então os ouvimos
sussurrando.
não os ouvimos indo
embora.
não tínhamos certeza quanto à
partida dos dois.
“puta que o pariu”, Jane perguntou,
“você acha que eles
foram embora?”
“shhhh...”,
eu chiei.
ficamos ali sentados no escuro
bebericando nosso
vinho.
não havia nada a fazer
exceto observar dois letreiros de neon
através da janela ao
leste
um ficava perto da biblioteca
e dizia
em vermelho:
JESUS SALVA.
o outro letreiro era mais
interessante:
era um enorme pássaro vermelho
que batia suas asas
sete vezes
e então um letreiro se acendia
abaixo
anunciando
SIGNAL GASOLINE.
era uma vida tão boa
quanto conseguíamos
bancar.
1 220
1
Charles Bukowski
Uma Definição
o amor não passa de farol aceso à
noite cortando a névoa
o amor não passa de uma tampinha de cerveja
na qual você pisa a caminho
do banheiro
o amor é a chave perdida da sua porta
quando você está bêbado
o amor é o que acontece um dia por
ano
um ano a cada dez
o amor são os gatos esmagados
do universo
o amor é um jornaleiro na
esquina que
desistiu
o amor são as primeiras 3 filas de
potenciais matadores no
Olympic Auditorium
o amor é o que você acha que a outra
pessoa destruiu
o amor é o que desapareceu com a
era dos encouraçados de batalha
o amor é o telefone tocando
e a mesma voz ou outra
voz mas nunca a voz
certa
o amor é traição
o amor é o bebum
sendo queimado no beco
o amor é aço
o amor é a barata
o amor é uma caixa de correio
o amor é chuva batendo no telhado
do hotel mais barato
de Los Angeles
o amor é o seu pai que
detestava você dentro de um caixão
o amor é um cavalo com a
perna quebrada
tentando ficar de pé
enquanto 55.000 pessoas
observam
o amor é o nosso jeito de ferver
como a lagosta
o amor é um cigarro de filtro
preso na sua boca e
aceso pela ponta errada
o amor é tudo que dissemos
que não era
o amor é o Corcunda de
Notre Dame
o amor é a pulga que você não consegue
encontrar
o amor é o mosquito
o amor são 50 granadeiros
o amor é o mais vazio dos
urinóis
o amor é uma rebelião em Quentin
o amor é um manicômio lotado
o amor é um burro cagando numa
rua de moscas
o amor é um banco de bar quando
ninguém está sentado nele
o amor é um filme do Hindenburg
se desmanchando em pedaços
em tempos que ainda gritam
o amor é Dostoiévski na
roleta
o amor é o que rasteja
pelo chão
o amor é a sua mulher dançando
apertada nos braços de um estranho
o amor é uma mulher velha
beliscando um naco de pão
o amor é uma palavra usada
constantemente
muitíssimo constantemente
o amor são telhados vermelhos e telhados
verdes e telhados azuis
e voar em aviões a jato
isso é tudo.
noite cortando a névoa
o amor não passa de uma tampinha de cerveja
na qual você pisa a caminho
do banheiro
o amor é a chave perdida da sua porta
quando você está bêbado
o amor é o que acontece um dia por
ano
um ano a cada dez
o amor são os gatos esmagados
do universo
o amor é um jornaleiro na
esquina que
desistiu
o amor são as primeiras 3 filas de
potenciais matadores no
Olympic Auditorium
o amor é o que você acha que a outra
pessoa destruiu
o amor é o que desapareceu com a
era dos encouraçados de batalha
o amor é o telefone tocando
e a mesma voz ou outra
voz mas nunca a voz
certa
o amor é traição
o amor é o bebum
sendo queimado no beco
o amor é aço
o amor é a barata
o amor é uma caixa de correio
o amor é chuva batendo no telhado
do hotel mais barato
de Los Angeles
o amor é o seu pai que
detestava você dentro de um caixão
o amor é um cavalo com a
perna quebrada
tentando ficar de pé
enquanto 55.000 pessoas
observam
o amor é o nosso jeito de ferver
como a lagosta
o amor é um cigarro de filtro
preso na sua boca e
aceso pela ponta errada
o amor é tudo que dissemos
que não era
o amor é o Corcunda de
Notre Dame
o amor é a pulga que você não consegue
encontrar
o amor é o mosquito
o amor são 50 granadeiros
o amor é o mais vazio dos
urinóis
o amor é uma rebelião em Quentin
o amor é um manicômio lotado
o amor é um burro cagando numa
rua de moscas
o amor é um banco de bar quando
ninguém está sentado nele
o amor é um filme do Hindenburg
se desmanchando em pedaços
em tempos que ainda gritam
o amor é Dostoiévski na
roleta
o amor é o que rasteja
pelo chão
o amor é a sua mulher dançando
apertada nos braços de um estranho
o amor é uma mulher velha
beliscando um naco de pão
o amor é uma palavra usada
constantemente
muitíssimo constantemente
o amor são telhados vermelhos e telhados
verdes e telhados azuis
e voar em aviões a jato
isso é tudo.
1 882
1
Charles Bukowski
Unhas; Narinas; Cadarços
a tubulação de gasolina está vazando, o pássaro fugiu da
gaiola, a linha do horizonte está salpicada de urubus;
Benny finalmente largou a droga e Betty agora tem um emprego
de garçonete; e
o limpa-chaminés foi tão delicado enquanto
dava risadinhas no meio da
fuligem.
caminhei milhas pela cidade e não reconheci
nada enquanto uma garra gigante comia meu
estômago e o interior da minha cabeça estava
aéreo como se eu estivesse a ponto de ficar
louco.
nem é tanto por nada fazer sentido
algum, porém mais por continuar não fazendo sentido
nenhum.
não há alívio, só gurus e deuses auto-
nomeados e camelôs.
quanto mais as pessoas dizem, tanto menos há
para dizer.
até mesmo os melhores livros são serragem seca.
eu assisto às lutas de boxe e tomo notas
copiosas sobre futilidade.
então as portas se abrem novamente
e há esses lindos e poderosos cavalos
sedosos galopando
contra o céu.
tamanha tristeza: tudo tentando
abrir-se em
flor.
todo dia deveria ser um milagre em vez de
uma maquinação.
na minha mão jaz o último pássaro azul.
as cortinas rugem como leões e as paredes
chocalham, dançam em volta da minha
cabeça.
então seus olhos me olham, o amor parte meus
Ossos e eu
dou risada.
gaiola, a linha do horizonte está salpicada de urubus;
Benny finalmente largou a droga e Betty agora tem um emprego
de garçonete; e
o limpa-chaminés foi tão delicado enquanto
dava risadinhas no meio da
fuligem.
caminhei milhas pela cidade e não reconheci
nada enquanto uma garra gigante comia meu
estômago e o interior da minha cabeça estava
aéreo como se eu estivesse a ponto de ficar
louco.
nem é tanto por nada fazer sentido
algum, porém mais por continuar não fazendo sentido
nenhum.
não há alívio, só gurus e deuses auto-
nomeados e camelôs.
quanto mais as pessoas dizem, tanto menos há
para dizer.
até mesmo os melhores livros são serragem seca.
eu assisto às lutas de boxe e tomo notas
copiosas sobre futilidade.
então as portas se abrem novamente
e há esses lindos e poderosos cavalos
sedosos galopando
contra o céu.
tamanha tristeza: tudo tentando
abrir-se em
flor.
todo dia deveria ser um milagre em vez de
uma maquinação.
na minha mão jaz o último pássaro azul.
as cortinas rugem como leões e as paredes
chocalham, dançam em volta da minha
cabeça.
então seus olhos me olham, o amor parte meus
Ossos e eu
dou risada.
904
1
Charles Bukowski
Seja Gentil
sempre nos é pedido
que entendamos os pontos de vista das
outras pessoas
não importa o quão
ultrapassado
tolo ou
odioso.
exige-se de alguém
que encare
os erros totais dos outros
os desperdícios de suas vidas
com
gentileza,
especialmente se eles já forem
velhos.
mas a idade é a soma de
nossos atos.
eles envelheceram
sem dignidade
porque
viveram
desfocados,
recusaram-se a
enxergar.
e não por culpa deles?
então de quem é a culpa?
minha?
pedem-me para esconder
dessas pessoas
meu ponto de vista
por medo do medo
delas.
envelhecer não é nenhum crime.
mas a vergonha
de uma vida
deliberadamente
desperdiçada
entre tantas outras
vidas
deliberadamente
desperdiçadas
é.
Eu estava lá às 8h50 da manhã. Estacionei e esperei por Jon. Ele apareceu às 8h55. Saltei e me aproximei do carro dele.
– Bom dia, Jon...
– Olá, Hank... Como vai?
– Ótimo. Escuta, que aconteceu com a greve de fome?
– Oh, ainda estou nela. Mas mais importante é cortar os pedaços.
Trazia a Black and Decker consigo. Enrolada numa toalha verde-escuro. Entramos no prédio da Firepower juntos. O elevador nos levou ao escritório do advogado. Neeli Zutnick. A recepcionista aguardava a nossa chegada.
– Por favor, entrem direto – disse.
Neeli Zutnick esperava. Levantou-se de detrás de sua mesa e apertou-nos a mão. Depois voltou, sentou-se atrás da mesa.
– Os cavalheiros gostariam de um cafezinho? – perguntou.
– Não – disse Jon.
– Eu tomo um – eu disse.
Zutnick apertou o botão do intercomunicador.
– Rose? Rose, minha querida... um café, por favor... – Olhou para mim. – Creme e açúcar?
– Preto.
– Preto. Obrigado, Rose... Agora, cavalheiros...
– Onde está Friedman? – perguntou Jon.
– O sr. Friedman me deu instruções completas. Agora...
– Onde fica sua tomada? – perguntou Jon.
– Tomada?
– Pra isso... – Jon puxou a toalha, revelando a Black and Decker.
– Por favor, sr. Pinchot...
– Onde fica a tomada? Deixa pra lá, já achei...
Jon adiantou-se e ligou a Black and Decker na tomada.
– Você deve entender – disse Zutnick – que, se eu soubesse que ia trazer esse instrumento, teria mandado desligar a eletricidade.
– Tá tudo bem – disse Jon.
– Não há necessidade desse instrumento – disse Zutnick.
– Espero que não. É só... para o caso...
Rose entrou com o meu café. Jon apertou o botão da Black and Decker. A lâmina entrou em ação, zumbindo.
Rose ficou nervosa e entornou o café, só um pouquinho... o bastante para deixar cair uma gota no vestido. Era um belo vestido vermelho, e ela, gorda, recheava-o lindamente.
– Uau! Me deu um susto!
– Desculpe – disse Jon. – Eu estava só... testando...
– De quem é o café?
– Meu – eu disse. – Obrigado.
Ela me trouxe o café. Eu bem que precisava.
Rose saiu, lançando-nos um olhar preocupado por cima do ombro.
– Os srs. Friedman e Fischman manifestaram consternação por seu atual estado mental...
– Corta essa merda, Zutnick! Ou eu consigo a liberação ou o primeiro pedaço de minha carne será depositado... aqui!
Jon bateu no centro da mesa do advogado com a ponta da Black and Decker.
– Ora, sr. Pinchot, não há necessidade...
– HÁ NECESSIDADE, SIM! E O TEMPO ESTÁ SE ESGOTANDO! EU QUERO AQUELA LIBERAÇÃO JÁ!
Zutnick olhou para mim.
– Que tal seu café, sr. Chinaski?
Jon apertou o gatilho da Black and Decker e ergueu a mão esquerda, o dedo mindinho esticado. Volteou a Black and Decker em torno do dedo, a lâmina funcionando furiosamente.
– JÁ!
– TUDO BEM! – berrou Zutnick.
Jon tirou o dedo do gatilho.
Zutnick abriu a gaveta de cima da sua mesa e puxou duas folhas de papel tamanho ofício. Empurrou-as para Jon. Jon aproximou-se, pegou-as, sentou-se e começou a ler.
– Sr. Zutnick – perguntei –, posso tomar outra xícara de café?
Ele me fuzilou com o olhar, apertou o botão do intercomunicador.
– Outra xícara de café, Rose. Preto...
– Como em Black and Decker – eu disse.
– Sr. Chinaski, isso não tem graça nenhuma.
Jon continuou a ler.
Chegou meu café.
– Obrigado, Rose...
Jon continuava a ler e nós esperávamos. Ele pusera a Black and Decker atravessada no colo.
Então disse:
– Não, isso não serve...
– QUÊ? – perguntou Zutnick. – É UMA LIBERAÇÃO TOTAL!
– Toda a cláusula “e” deve ser retirada. Contém ambiguidades demais.
– Posso ver esses papéis? – perguntou Zutnick.
– Certamente...
Jon colocou-os sobre a lâmina da Black and Decker e passou-os para Zutnick. O advogado tirou-os da lâmina com certa repugnância. Começou a ler a cláusula “e”.
– Não estou vendo nada de errado aqui...
– Retire...
– Você realmente pretende cortar um de seus dedos?
– Pretendo. E posso até cortar um dos seus.
– Isso é uma ameaça? Está me ameaçando?
– Pense no seguinte: eu não tenho nada a perder aqui. Só vocês.
– Um contrato assinado sob essas condições pode ser considerado inválido.
– Você me dá nojo, Zutnick! Elimine a cláusula “e” ou meu dedo se vai! JÁ!
Jon apertou o botão. A Black and Decker tornou a saltar em ação. Jon Pinchot estendeu o dedo mindinho da mão esquerda.
– PARE! – gritou Zutnick.
Jon parou.
Zutnick falava no intercomunicador.
– ROSE! Preciso de você...
Rose entrou.
– Mais café para os cavalheiros?
– Não, Rose. Quero todo este contrato revisto e rodado de novo, mas elimine a cláusula “e”, e depois me devolva.
– Pois não, sr. Zutnick.
Ficamos ali sentados por algum tempo.
Então Zutnick disse:
– Pode tirar essa coisa da tomada agora.
– Ainda não – disse Jon. – Só quando tudo estiver finalizado.
– Você tem realmente outro produtor pra essa coisa?
– É claro...
– Se importa de me dizer quem é?
– Claro que não. Hal Edleman. Friedman sabe disso.
Zutnick piscou os olhos. Edleman significava dinheiro. Ele conhecia o nome.
– Eu li o argumento. Parece muito... cru... pra mim.
– Já leu outra obra do sr. Chinaski? – perguntou Jon.
– Não. Mas minha filha leu. Ela tem o livro de contos dele, Sonhos da piscina.
– E?
– Detestou.
Rose voltava com o novo contrato. Entregou-o a Zutnick. O advogado deu uma olhada, levantou-se e aproximou-se de Jon.
Jon releu a coisa toda.
– Muito bem.
Dirigiu-se com o documento para a mesa, curvou-se e assinou-o. Zutnick assinou por Friedman e Fischman. Estava feito. Uma cópia para cada.
Então Zutnick deu uma risada. Parecia aliviado.
– A prática da advocacia se torna cada vez mais estranha...
Jon tirou a Black and Decker da tomada. Zutnick encaminhou-se para um pequeno armário na parede, abriu-o, pegou uma garrafa e três copos. Colocou-os sobre a mesa e serviu a todos.
– Ao acordo, cavalheiros...
– Ao acordo... – disse Jon.
– Ao acordo – disse o escritor.
Bebemos. Era conhaque. E tínhamos o filme de novo.
Acompanhei Jon até o seu carro. Ele jogou a Black and Decker no banco de trás, e entrou na frente.
– Jon – perguntei da calçada –, posso testar você com a grande pergunta?
– Claro.
– Pode me dizer a verdade sobre a Black and Decker. Jamais sairá daqui. Você ia realmente fazer aquilo?
– Mas é claro...
– Mas as outras partes depois? Os outros pedaços. Ia fazer isso?
– Claro. Uma vez que a gente começa uma coisa dessas, não tem como parar.
– Você tem raça, cara.
– Não é nada. Agora estou com fome.
– Posso te pagar um café?
– Bem, tudo bem... Eu sei o lugar certo... Entre no carro e me siga...
– Tudo bem.
Segui Jon de um lado a outro de Hollywood, as luzes e as sombras de Alfred Hitchcock, o Gordo e o Magro, Clark Gable, Gloria Swanson, Mickey Mouse e Humphrey Bogart caindo ao nosso redor.
– Hollywood
que entendamos os pontos de vista das
outras pessoas
não importa o quão
ultrapassado
tolo ou
odioso.
exige-se de alguém
que encare
os erros totais dos outros
os desperdícios de suas vidas
com
gentileza,
especialmente se eles já forem
velhos.
mas a idade é a soma de
nossos atos.
eles envelheceram
sem dignidade
porque
viveram
desfocados,
recusaram-se a
enxergar.
e não por culpa deles?
então de quem é a culpa?
minha?
pedem-me para esconder
dessas pessoas
meu ponto de vista
por medo do medo
delas.
envelhecer não é nenhum crime.
mas a vergonha
de uma vida
deliberadamente
desperdiçada
entre tantas outras
vidas
deliberadamente
desperdiçadas
é.
Eu estava lá às 8h50 da manhã. Estacionei e esperei por Jon. Ele apareceu às 8h55. Saltei e me aproximei do carro dele.
– Bom dia, Jon...
– Olá, Hank... Como vai?
– Ótimo. Escuta, que aconteceu com a greve de fome?
– Oh, ainda estou nela. Mas mais importante é cortar os pedaços.
Trazia a Black and Decker consigo. Enrolada numa toalha verde-escuro. Entramos no prédio da Firepower juntos. O elevador nos levou ao escritório do advogado. Neeli Zutnick. A recepcionista aguardava a nossa chegada.
– Por favor, entrem direto – disse.
Neeli Zutnick esperava. Levantou-se de detrás de sua mesa e apertou-nos a mão. Depois voltou, sentou-se atrás da mesa.
– Os cavalheiros gostariam de um cafezinho? – perguntou.
– Não – disse Jon.
– Eu tomo um – eu disse.
Zutnick apertou o botão do intercomunicador.
– Rose? Rose, minha querida... um café, por favor... – Olhou para mim. – Creme e açúcar?
– Preto.
– Preto. Obrigado, Rose... Agora, cavalheiros...
– Onde está Friedman? – perguntou Jon.
– O sr. Friedman me deu instruções completas. Agora...
– Onde fica sua tomada? – perguntou Jon.
– Tomada?
– Pra isso... – Jon puxou a toalha, revelando a Black and Decker.
– Por favor, sr. Pinchot...
– Onde fica a tomada? Deixa pra lá, já achei...
Jon adiantou-se e ligou a Black and Decker na tomada.
– Você deve entender – disse Zutnick – que, se eu soubesse que ia trazer esse instrumento, teria mandado desligar a eletricidade.
– Tá tudo bem – disse Jon.
– Não há necessidade desse instrumento – disse Zutnick.
– Espero que não. É só... para o caso...
Rose entrou com o meu café. Jon apertou o botão da Black and Decker. A lâmina entrou em ação, zumbindo.
Rose ficou nervosa e entornou o café, só um pouquinho... o bastante para deixar cair uma gota no vestido. Era um belo vestido vermelho, e ela, gorda, recheava-o lindamente.
– Uau! Me deu um susto!
– Desculpe – disse Jon. – Eu estava só... testando...
– De quem é o café?
– Meu – eu disse. – Obrigado.
Ela me trouxe o café. Eu bem que precisava.
Rose saiu, lançando-nos um olhar preocupado por cima do ombro.
– Os srs. Friedman e Fischman manifestaram consternação por seu atual estado mental...
– Corta essa merda, Zutnick! Ou eu consigo a liberação ou o primeiro pedaço de minha carne será depositado... aqui!
Jon bateu no centro da mesa do advogado com a ponta da Black and Decker.
– Ora, sr. Pinchot, não há necessidade...
– HÁ NECESSIDADE, SIM! E O TEMPO ESTÁ SE ESGOTANDO! EU QUERO AQUELA LIBERAÇÃO JÁ!
Zutnick olhou para mim.
– Que tal seu café, sr. Chinaski?
Jon apertou o gatilho da Black and Decker e ergueu a mão esquerda, o dedo mindinho esticado. Volteou a Black and Decker em torno do dedo, a lâmina funcionando furiosamente.
– JÁ!
– TUDO BEM! – berrou Zutnick.
Jon tirou o dedo do gatilho.
Zutnick abriu a gaveta de cima da sua mesa e puxou duas folhas de papel tamanho ofício. Empurrou-as para Jon. Jon aproximou-se, pegou-as, sentou-se e começou a ler.
– Sr. Zutnick – perguntei –, posso tomar outra xícara de café?
Ele me fuzilou com o olhar, apertou o botão do intercomunicador.
– Outra xícara de café, Rose. Preto...
– Como em Black and Decker – eu disse.
– Sr. Chinaski, isso não tem graça nenhuma.
Jon continuou a ler.
Chegou meu café.
– Obrigado, Rose...
Jon continuava a ler e nós esperávamos. Ele pusera a Black and Decker atravessada no colo.
Então disse:
– Não, isso não serve...
– QUÊ? – perguntou Zutnick. – É UMA LIBERAÇÃO TOTAL!
– Toda a cláusula “e” deve ser retirada. Contém ambiguidades demais.
– Posso ver esses papéis? – perguntou Zutnick.
– Certamente...
Jon colocou-os sobre a lâmina da Black and Decker e passou-os para Zutnick. O advogado tirou-os da lâmina com certa repugnância. Começou a ler a cláusula “e”.
– Não estou vendo nada de errado aqui...
– Retire...
– Você realmente pretende cortar um de seus dedos?
– Pretendo. E posso até cortar um dos seus.
– Isso é uma ameaça? Está me ameaçando?
– Pense no seguinte: eu não tenho nada a perder aqui. Só vocês.
– Um contrato assinado sob essas condições pode ser considerado inválido.
– Você me dá nojo, Zutnick! Elimine a cláusula “e” ou meu dedo se vai! JÁ!
Jon apertou o botão. A Black and Decker tornou a saltar em ação. Jon Pinchot estendeu o dedo mindinho da mão esquerda.
– PARE! – gritou Zutnick.
Jon parou.
Zutnick falava no intercomunicador.
– ROSE! Preciso de você...
Rose entrou.
– Mais café para os cavalheiros?
– Não, Rose. Quero todo este contrato revisto e rodado de novo, mas elimine a cláusula “e”, e depois me devolva.
– Pois não, sr. Zutnick.
Ficamos ali sentados por algum tempo.
Então Zutnick disse:
– Pode tirar essa coisa da tomada agora.
– Ainda não – disse Jon. – Só quando tudo estiver finalizado.
– Você tem realmente outro produtor pra essa coisa?
– É claro...
– Se importa de me dizer quem é?
– Claro que não. Hal Edleman. Friedman sabe disso.
Zutnick piscou os olhos. Edleman significava dinheiro. Ele conhecia o nome.
– Eu li o argumento. Parece muito... cru... pra mim.
– Já leu outra obra do sr. Chinaski? – perguntou Jon.
– Não. Mas minha filha leu. Ela tem o livro de contos dele, Sonhos da piscina.
– E?
– Detestou.
Rose voltava com o novo contrato. Entregou-o a Zutnick. O advogado deu uma olhada, levantou-se e aproximou-se de Jon.
Jon releu a coisa toda.
– Muito bem.
Dirigiu-se com o documento para a mesa, curvou-se e assinou-o. Zutnick assinou por Friedman e Fischman. Estava feito. Uma cópia para cada.
Então Zutnick deu uma risada. Parecia aliviado.
– A prática da advocacia se torna cada vez mais estranha...
Jon tirou a Black and Decker da tomada. Zutnick encaminhou-se para um pequeno armário na parede, abriu-o, pegou uma garrafa e três copos. Colocou-os sobre a mesa e serviu a todos.
– Ao acordo, cavalheiros...
– Ao acordo... – disse Jon.
– Ao acordo – disse o escritor.
Bebemos. Era conhaque. E tínhamos o filme de novo.
Acompanhei Jon até o seu carro. Ele jogou a Black and Decker no banco de trás, e entrou na frente.
– Jon – perguntei da calçada –, posso testar você com a grande pergunta?
– Claro.
– Pode me dizer a verdade sobre a Black and Decker. Jamais sairá daqui. Você ia realmente fazer aquilo?
– Mas é claro...
– Mas as outras partes depois? Os outros pedaços. Ia fazer isso?
– Claro. Uma vez que a gente começa uma coisa dessas, não tem como parar.
– Você tem raça, cara.
– Não é nada. Agora estou com fome.
– Posso te pagar um café?
– Bem, tudo bem... Eu sei o lugar certo... Entre no carro e me siga...
– Tudo bem.
Segui Jon de um lado a outro de Hollywood, as luzes e as sombras de Alfred Hitchcock, o Gordo e o Magro, Clark Gable, Gloria Swanson, Mickey Mouse e Humphrey Bogart caindo ao nosso redor.
– Hollywood
1 507
1
Charles Bukowski
Seja Gentil
sempre nos é pedido
que entendamos os pontos de vista das
outras pessoas
não importa o quão
ultrapassado
tolo ou
odioso.
exige-se de alguém
que encare
os erros totais dos outros
os desperdícios de suas vidas
com
gentileza,
especialmente se eles já forem
velhos.
mas a idade é a soma de
nossos atos.
eles envelheceram
sem dignidade
porque
viveram
desfocados,
recusaram-se a
enxergar.
e não por culpa deles?
então de quem é a culpa?
minha?
pedem-me para esconder
dessas pessoas
meu ponto de vista
por medo do medo
delas.
envelhecer não é nenhum crime.
mas a vergonha
de uma vida
deliberadamente
desperdiçada
entre tantas outras
vidas
deliberadamente
desperdiçadas
é.
Eu estava lá às 8h50 da manhã. Estacionei e esperei por Jon. Ele apareceu às 8h55. Saltei e me aproximei do carro dele.
– Bom dia, Jon...
– Olá, Hank... Como vai?
– Ótimo. Escuta, que aconteceu com a greve de fome?
– Oh, ainda estou nela. Mas mais importante é cortar os pedaços.
Trazia a Black and Decker consigo. Enrolada numa toalha verde-escuro. Entramos no prédio da Firepower juntos. O elevador nos levou ao escritório do advogado. Neeli Zutnick. A recepcionista aguardava a nossa chegada.
– Por favor, entrem direto – disse.
Neeli Zutnick esperava. Levantou-se de detrás de sua mesa e apertou-nos a mão. Depois voltou, sentou-se atrás da mesa.
– Os cavalheiros gostariam de um cafezinho? – perguntou.
– Não – disse Jon.
– Eu tomo um – eu disse.
Zutnick apertou o botão do intercomunicador.
– Rose? Rose, minha querida... um café, por favor... – Olhou para mim. – Creme e açúcar?
– Preto.
– Preto. Obrigado, Rose... Agora, cavalheiros...
– Onde está Friedman? – perguntou Jon.
– O sr. Friedman me deu instruções completas. Agora...
– Onde fica sua tomada? – perguntou Jon.
– Tomada?
– Pra isso... – Jon puxou a toalha, revelando a Black and Decker.
– Por favor, sr. Pinchot...
– Onde fica a tomada? Deixa pra lá, já achei...
Jon adiantou-se e ligou a Black and Decker na tomada.
– Você deve entender – disse Zutnick – que, se eu soubesse que ia trazer esse instrumento, teria mandado desligar a eletricidade.
– Tá tudo bem – disse Jon.
– Não há necessidade desse instrumento – disse Zutnick.
– Espero que não. É só... para o caso...
Rose entrou com o meu café. Jon apertou o botão da Black and Decker. A lâmina entrou em ação, zumbindo.
Rose ficou nervosa e entornou o café, só um pouquinho... o bastante para deixar cair uma gota no vestido. Era um belo vestido vermelho, e ela, gorda, recheava-o lindamente.
– Uau! Me deu um susto!
– Desculpe – disse Jon. – Eu estava só... testando...
– De quem é o café?
– Meu – eu disse. – Obrigado.
Ela me trouxe o café. Eu bem que precisava.
Rose saiu, lançando-nos um olhar preocupado por cima do ombro.
– Os srs. Friedman e Fischman manifestaram consternação por seu atual estado mental...
– Corta essa merda, Zutnick! Ou eu consigo a liberação ou o primeiro pedaço de minha carne será depositado... aqui!
Jon bateu no centro da mesa do advogado com a ponta da Black and Decker.
– Ora, sr. Pinchot, não há necessidade...
– HÁ NECESSIDADE, SIM! E O TEMPO ESTÁ SE ESGOTANDO! EU QUERO AQUELA LIBERAÇÃO JÁ!
Zutnick olhou para mim.
– Que tal seu café, sr. Chinaski?
Jon apertou o gatilho da Black and Decker e ergueu a mão esquerda, o dedo mindinho esticado. Volteou a Black and Decker em torno do dedo, a lâmina funcionando furiosamente.
– JÁ!
– TUDO BEM! – berrou Zutnick.
Jon tirou o dedo do gatilho.
Zutnick abriu a gaveta de cima da sua mesa e puxou duas folhas de papel tamanho ofício. Empurrou-as para Jon. Jon aproximou-se, pegou-as, sentou-se e começou a ler.
– Sr. Zutnick – perguntei –, posso tomar outra xícara de café?
Ele me fuzilou com o olhar, apertou o botão do intercomunicador.
– Outra xícara de café, Rose. Preto...
– Como em Black and Decker – eu disse.
– Sr. Chinaski, isso não tem graça nenhuma.
Jon continuou a ler.
Chegou meu café.
– Obrigado, Rose...
Jon continuava a ler e nós esperávamos. Ele pusera a Black and Decker atravessada no colo.
Então disse:
– Não, isso não serve...
– QUÊ? – perguntou Zutnick. – É UMA LIBERAÇÃO TOTAL!
– Toda a cláusula “e” deve ser retirada. Contém ambiguidades demais.
– Posso ver esses papéis? – perguntou Zutnick.
– Certamente...
Jon colocou-os sobre a lâmina da Black and Decker e passou-os para Zutnick. O advogado tirou-os da lâmina com certa repugnância. Começou a ler a cláusula “e”.
– Não estou vendo nada de errado aqui...
– Retire...
– Você realmente pretende cortar um de seus dedos?
– Pretendo. E posso até cortar um dos seus.
– Isso é uma ameaça? Está me ameaçando?
– Pense no seguinte: eu não tenho nada a perder aqui. Só vocês.
– Um contrato assinado sob essas condições pode ser considerado inválido.
– Você me dá nojo, Zutnick! Elimine a cláusula “e” ou meu dedo se vai! JÁ!
Jon apertou o botão. A Black and Decker tornou a saltar em ação. Jon Pinchot estendeu o dedo mindinho da mão esquerda.
– PARE! – gritou Zutnick.
Jon parou.
Zutnick falava no intercomunicador.
– ROSE! Preciso de você...
Rose entrou.
– Mais café para os cavalheiros?
– Não, Rose. Quero todo este contrato revisto e rodado de novo, mas elimine a cláusula “e”, e depois me devolva.
– Pois não, sr. Zutnick.
Ficamos ali sentados por algum tempo.
Então Zutnick disse:
– Pode tirar essa coisa da tomada agora.
– Ainda não – disse Jon. – Só quando tudo estiver finalizado.
– Você tem realmente outro produtor pra essa coisa?
– É claro...
– Se importa de me dizer quem é?
– Claro que não. Hal Edleman. Friedman sabe disso.
Zutnick piscou os olhos. Edleman significava dinheiro. Ele conhecia o nome.
– Eu li o argumento. Parece muito... cru... pra mim.
– Já leu outra obra do sr. Chinaski? – perguntou Jon.
– Não. Mas minha filha leu. Ela tem o livro de contos dele, Sonhos da piscina.
– E?
– Detestou.
Rose voltava com o novo contrato. Entregou-o a Zutnick. O advogado deu uma olhada, levantou-se e aproximou-se de Jon.
Jon releu a coisa toda.
– Muito bem.
Dirigiu-se com o documento para a mesa, curvou-se e assinou-o. Zutnick assinou por Friedman e Fischman. Estava feito. Uma cópia para cada.
Então Zutnick deu uma risada. Parecia aliviado.
– A prática da advocacia se torna cada vez mais estranha...
Jon tirou a Black and Decker da tomada. Zutnick encaminhou-se para um pequeno armário na parede, abriu-o, pegou uma garrafa e três copos. Colocou-os sobre a mesa e serviu a todos.
– Ao acordo, cavalheiros...
– Ao acordo... – disse Jon.
– Ao acordo – disse o escritor.
Bebemos. Era conhaque. E tínhamos o filme de novo.
Acompanhei Jon até o seu carro. Ele jogou a Black and Decker no banco de trás, e entrou na frente.
– Jon – perguntei da calçada –, posso testar você com a grande pergunta?
– Claro.
– Pode me dizer a verdade sobre a Black and Decker. Jamais sairá daqui. Você ia realmente fazer aquilo?
– Mas é claro...
– Mas as outras partes depois? Os outros pedaços. Ia fazer isso?
– Claro. Uma vez que a gente começa uma coisa dessas, não tem como parar.
– Você tem raça, cara.
– Não é nada. Agora estou com fome.
– Posso te pagar um café?
– Bem, tudo bem... Eu sei o lugar certo... Entre no carro e me siga...
– Tudo bem.
Segui Jon de um lado a outro de Hollywood, as luzes e as sombras de Alfred Hitchcock, o Gordo e o Magro, Clark Gable, Gloria Swanson, Mickey Mouse e Humphrey Bogart caindo ao nosso redor.
– Hollywood
que entendamos os pontos de vista das
outras pessoas
não importa o quão
ultrapassado
tolo ou
odioso.
exige-se de alguém
que encare
os erros totais dos outros
os desperdícios de suas vidas
com
gentileza,
especialmente se eles já forem
velhos.
mas a idade é a soma de
nossos atos.
eles envelheceram
sem dignidade
porque
viveram
desfocados,
recusaram-se a
enxergar.
e não por culpa deles?
então de quem é a culpa?
minha?
pedem-me para esconder
dessas pessoas
meu ponto de vista
por medo do medo
delas.
envelhecer não é nenhum crime.
mas a vergonha
de uma vida
deliberadamente
desperdiçada
entre tantas outras
vidas
deliberadamente
desperdiçadas
é.
Eu estava lá às 8h50 da manhã. Estacionei e esperei por Jon. Ele apareceu às 8h55. Saltei e me aproximei do carro dele.
– Bom dia, Jon...
– Olá, Hank... Como vai?
– Ótimo. Escuta, que aconteceu com a greve de fome?
– Oh, ainda estou nela. Mas mais importante é cortar os pedaços.
Trazia a Black and Decker consigo. Enrolada numa toalha verde-escuro. Entramos no prédio da Firepower juntos. O elevador nos levou ao escritório do advogado. Neeli Zutnick. A recepcionista aguardava a nossa chegada.
– Por favor, entrem direto – disse.
Neeli Zutnick esperava. Levantou-se de detrás de sua mesa e apertou-nos a mão. Depois voltou, sentou-se atrás da mesa.
– Os cavalheiros gostariam de um cafezinho? – perguntou.
– Não – disse Jon.
– Eu tomo um – eu disse.
Zutnick apertou o botão do intercomunicador.
– Rose? Rose, minha querida... um café, por favor... – Olhou para mim. – Creme e açúcar?
– Preto.
– Preto. Obrigado, Rose... Agora, cavalheiros...
– Onde está Friedman? – perguntou Jon.
– O sr. Friedman me deu instruções completas. Agora...
– Onde fica sua tomada? – perguntou Jon.
– Tomada?
– Pra isso... – Jon puxou a toalha, revelando a Black and Decker.
– Por favor, sr. Pinchot...
– Onde fica a tomada? Deixa pra lá, já achei...
Jon adiantou-se e ligou a Black and Decker na tomada.
– Você deve entender – disse Zutnick – que, se eu soubesse que ia trazer esse instrumento, teria mandado desligar a eletricidade.
– Tá tudo bem – disse Jon.
– Não há necessidade desse instrumento – disse Zutnick.
– Espero que não. É só... para o caso...
Rose entrou com o meu café. Jon apertou o botão da Black and Decker. A lâmina entrou em ação, zumbindo.
Rose ficou nervosa e entornou o café, só um pouquinho... o bastante para deixar cair uma gota no vestido. Era um belo vestido vermelho, e ela, gorda, recheava-o lindamente.
– Uau! Me deu um susto!
– Desculpe – disse Jon. – Eu estava só... testando...
– De quem é o café?
– Meu – eu disse. – Obrigado.
Ela me trouxe o café. Eu bem que precisava.
Rose saiu, lançando-nos um olhar preocupado por cima do ombro.
– Os srs. Friedman e Fischman manifestaram consternação por seu atual estado mental...
– Corta essa merda, Zutnick! Ou eu consigo a liberação ou o primeiro pedaço de minha carne será depositado... aqui!
Jon bateu no centro da mesa do advogado com a ponta da Black and Decker.
– Ora, sr. Pinchot, não há necessidade...
– HÁ NECESSIDADE, SIM! E O TEMPO ESTÁ SE ESGOTANDO! EU QUERO AQUELA LIBERAÇÃO JÁ!
Zutnick olhou para mim.
– Que tal seu café, sr. Chinaski?
Jon apertou o gatilho da Black and Decker e ergueu a mão esquerda, o dedo mindinho esticado. Volteou a Black and Decker em torno do dedo, a lâmina funcionando furiosamente.
– JÁ!
– TUDO BEM! – berrou Zutnick.
Jon tirou o dedo do gatilho.
Zutnick abriu a gaveta de cima da sua mesa e puxou duas folhas de papel tamanho ofício. Empurrou-as para Jon. Jon aproximou-se, pegou-as, sentou-se e começou a ler.
– Sr. Zutnick – perguntei –, posso tomar outra xícara de café?
Ele me fuzilou com o olhar, apertou o botão do intercomunicador.
– Outra xícara de café, Rose. Preto...
– Como em Black and Decker – eu disse.
– Sr. Chinaski, isso não tem graça nenhuma.
Jon continuou a ler.
Chegou meu café.
– Obrigado, Rose...
Jon continuava a ler e nós esperávamos. Ele pusera a Black and Decker atravessada no colo.
Então disse:
– Não, isso não serve...
– QUÊ? – perguntou Zutnick. – É UMA LIBERAÇÃO TOTAL!
– Toda a cláusula “e” deve ser retirada. Contém ambiguidades demais.
– Posso ver esses papéis? – perguntou Zutnick.
– Certamente...
Jon colocou-os sobre a lâmina da Black and Decker e passou-os para Zutnick. O advogado tirou-os da lâmina com certa repugnância. Começou a ler a cláusula “e”.
– Não estou vendo nada de errado aqui...
– Retire...
– Você realmente pretende cortar um de seus dedos?
– Pretendo. E posso até cortar um dos seus.
– Isso é uma ameaça? Está me ameaçando?
– Pense no seguinte: eu não tenho nada a perder aqui. Só vocês.
– Um contrato assinado sob essas condições pode ser considerado inválido.
– Você me dá nojo, Zutnick! Elimine a cláusula “e” ou meu dedo se vai! JÁ!
Jon apertou o botão. A Black and Decker tornou a saltar em ação. Jon Pinchot estendeu o dedo mindinho da mão esquerda.
– PARE! – gritou Zutnick.
Jon parou.
Zutnick falava no intercomunicador.
– ROSE! Preciso de você...
Rose entrou.
– Mais café para os cavalheiros?
– Não, Rose. Quero todo este contrato revisto e rodado de novo, mas elimine a cláusula “e”, e depois me devolva.
– Pois não, sr. Zutnick.
Ficamos ali sentados por algum tempo.
Então Zutnick disse:
– Pode tirar essa coisa da tomada agora.
– Ainda não – disse Jon. – Só quando tudo estiver finalizado.
– Você tem realmente outro produtor pra essa coisa?
– É claro...
– Se importa de me dizer quem é?
– Claro que não. Hal Edleman. Friedman sabe disso.
Zutnick piscou os olhos. Edleman significava dinheiro. Ele conhecia o nome.
– Eu li o argumento. Parece muito... cru... pra mim.
– Já leu outra obra do sr. Chinaski? – perguntou Jon.
– Não. Mas minha filha leu. Ela tem o livro de contos dele, Sonhos da piscina.
– E?
– Detestou.
Rose voltava com o novo contrato. Entregou-o a Zutnick. O advogado deu uma olhada, levantou-se e aproximou-se de Jon.
Jon releu a coisa toda.
– Muito bem.
Dirigiu-se com o documento para a mesa, curvou-se e assinou-o. Zutnick assinou por Friedman e Fischman. Estava feito. Uma cópia para cada.
Então Zutnick deu uma risada. Parecia aliviado.
– A prática da advocacia se torna cada vez mais estranha...
Jon tirou a Black and Decker da tomada. Zutnick encaminhou-se para um pequeno armário na parede, abriu-o, pegou uma garrafa e três copos. Colocou-os sobre a mesa e serviu a todos.
– Ao acordo, cavalheiros...
– Ao acordo... – disse Jon.
– Ao acordo – disse o escritor.
Bebemos. Era conhaque. E tínhamos o filme de novo.
Acompanhei Jon até o seu carro. Ele jogou a Black and Decker no banco de trás, e entrou na frente.
– Jon – perguntei da calçada –, posso testar você com a grande pergunta?
– Claro.
– Pode me dizer a verdade sobre a Black and Decker. Jamais sairá daqui. Você ia realmente fazer aquilo?
– Mas é claro...
– Mas as outras partes depois? Os outros pedaços. Ia fazer isso?
– Claro. Uma vez que a gente começa uma coisa dessas, não tem como parar.
– Você tem raça, cara.
– Não é nada. Agora estou com fome.
– Posso te pagar um café?
– Bem, tudo bem... Eu sei o lugar certo... Entre no carro e me siga...
– Tudo bem.
Segui Jon de um lado a outro de Hollywood, as luzes e as sombras de Alfred Hitchcock, o Gordo e o Magro, Clark Gable, Gloria Swanson, Mickey Mouse e Humphrey Bogart caindo ao nosso redor.
– Hollywood
1 507
1
Charles Bukowski
Seja Gentil
sempre nos é pedido
que entendamos os pontos de vista das
outras pessoas
não importa o quão
ultrapassado
tolo ou
odioso.
exige-se de alguém
que encare
os erros totais dos outros
os desperdícios de suas vidas
com
gentileza,
especialmente se eles já forem
velhos.
mas a idade é a soma de
nossos atos.
eles envelheceram
sem dignidade
porque
viveram
desfocados,
recusaram-se a
enxergar.
e não por culpa deles?
então de quem é a culpa?
minha?
pedem-me para esconder
dessas pessoas
meu ponto de vista
por medo do medo
delas.
envelhecer não é nenhum crime.
mas a vergonha
de uma vida
deliberadamente
desperdiçada
entre tantas outras
vidas
deliberadamente
desperdiçadas
é.
Eu estava lá às 8h50 da manhã. Estacionei e esperei por Jon. Ele apareceu às 8h55. Saltei e me aproximei do carro dele.
– Bom dia, Jon...
– Olá, Hank... Como vai?
– Ótimo. Escuta, que aconteceu com a greve de fome?
– Oh, ainda estou nela. Mas mais importante é cortar os pedaços.
Trazia a Black and Decker consigo. Enrolada numa toalha verde-escuro. Entramos no prédio da Firepower juntos. O elevador nos levou ao escritório do advogado. Neeli Zutnick. A recepcionista aguardava a nossa chegada.
– Por favor, entrem direto – disse.
Neeli Zutnick esperava. Levantou-se de detrás de sua mesa e apertou-nos a mão. Depois voltou, sentou-se atrás da mesa.
– Os cavalheiros gostariam de um cafezinho? – perguntou.
– Não – disse Jon.
– Eu tomo um – eu disse.
Zutnick apertou o botão do intercomunicador.
– Rose? Rose, minha querida... um café, por favor... – Olhou para mim. – Creme e açúcar?
– Preto.
– Preto. Obrigado, Rose... Agora, cavalheiros...
– Onde está Friedman? – perguntou Jon.
– O sr. Friedman me deu instruções completas. Agora...
– Onde fica sua tomada? – perguntou Jon.
– Tomada?
– Pra isso... – Jon puxou a toalha, revelando a Black and Decker.
– Por favor, sr. Pinchot...
– Onde fica a tomada? Deixa pra lá, já achei...
Jon adiantou-se e ligou a Black and Decker na tomada.
– Você deve entender – disse Zutnick – que, se eu soubesse que ia trazer esse instrumento, teria mandado desligar a eletricidade.
– Tá tudo bem – disse Jon.
– Não há necessidade desse instrumento – disse Zutnick.
– Espero que não. É só... para o caso...
Rose entrou com o meu café. Jon apertou o botão da Black and Decker. A lâmina entrou em ação, zumbindo.
Rose ficou nervosa e entornou o café, só um pouquinho... o bastante para deixar cair uma gota no vestido. Era um belo vestido vermelho, e ela, gorda, recheava-o lindamente.
– Uau! Me deu um susto!
– Desculpe – disse Jon. – Eu estava só... testando...
– De quem é o café?
– Meu – eu disse. – Obrigado.
Ela me trouxe o café. Eu bem que precisava.
Rose saiu, lançando-nos um olhar preocupado por cima do ombro.
– Os srs. Friedman e Fischman manifestaram consternação por seu atual estado mental...
– Corta essa merda, Zutnick! Ou eu consigo a liberação ou o primeiro pedaço de minha carne será depositado... aqui!
Jon bateu no centro da mesa do advogado com a ponta da Black and Decker.
– Ora, sr. Pinchot, não há necessidade...
– HÁ NECESSIDADE, SIM! E O TEMPO ESTÁ SE ESGOTANDO! EU QUERO AQUELA LIBERAÇÃO JÁ!
Zutnick olhou para mim.
– Que tal seu café, sr. Chinaski?
Jon apertou o gatilho da Black and Decker e ergueu a mão esquerda, o dedo mindinho esticado. Volteou a Black and Decker em torno do dedo, a lâmina funcionando furiosamente.
– JÁ!
– TUDO BEM! – berrou Zutnick.
Jon tirou o dedo do gatilho.
Zutnick abriu a gaveta de cima da sua mesa e puxou duas folhas de papel tamanho ofício. Empurrou-as para Jon. Jon aproximou-se, pegou-as, sentou-se e começou a ler.
– Sr. Zutnick – perguntei –, posso tomar outra xícara de café?
Ele me fuzilou com o olhar, apertou o botão do intercomunicador.
– Outra xícara de café, Rose. Preto...
– Como em Black and Decker – eu disse.
– Sr. Chinaski, isso não tem graça nenhuma.
Jon continuou a ler.
Chegou meu café.
– Obrigado, Rose...
Jon continuava a ler e nós esperávamos. Ele pusera a Black and Decker atravessada no colo.
Então disse:
– Não, isso não serve...
– QUÊ? – perguntou Zutnick. – É UMA LIBERAÇÃO TOTAL!
– Toda a cláusula “e” deve ser retirada. Contém ambiguidades demais.
– Posso ver esses papéis? – perguntou Zutnick.
– Certamente...
Jon colocou-os sobre a lâmina da Black and Decker e passou-os para Zutnick. O advogado tirou-os da lâmina com certa repugnância. Começou a ler a cláusula “e”.
– Não estou vendo nada de errado aqui...
– Retire...
– Você realmente pretende cortar um de seus dedos?
– Pretendo. E posso até cortar um dos seus.
– Isso é uma ameaça? Está me ameaçando?
– Pense no seguinte: eu não tenho nada a perder aqui. Só vocês.
– Um contrato assinado sob essas condições pode ser considerado inválido.
– Você me dá nojo, Zutnick! Elimine a cláusula “e” ou meu dedo se vai! JÁ!
Jon apertou o botão. A Black and Decker tornou a saltar em ação. Jon Pinchot estendeu o dedo mindinho da mão esquerda.
– PARE! – gritou Zutnick.
Jon parou.
Zutnick falava no intercomunicador.
– ROSE! Preciso de você...
Rose entrou.
– Mais café para os cavalheiros?
– Não, Rose. Quero todo este contrato revisto e rodado de novo, mas elimine a cláusula “e”, e depois me devolva.
– Pois não, sr. Zutnick.
Ficamos ali sentados por algum tempo.
Então Zutnick disse:
– Pode tirar essa coisa da tomada agora.
– Ainda não – disse Jon. – Só quando tudo estiver finalizado.
– Você tem realmente outro produtor pra essa coisa?
– É claro...
– Se importa de me dizer quem é?
– Claro que não. Hal Edleman. Friedman sabe disso.
Zutnick piscou os olhos. Edleman significava dinheiro. Ele conhecia o nome.
– Eu li o argumento. Parece muito... cru... pra mim.
– Já leu outra obra do sr. Chinaski? – perguntou Jon.
– Não. Mas minha filha leu. Ela tem o livro de contos dele, Sonhos da piscina.
– E?
– Detestou.
Rose voltava com o novo contrato. Entregou-o a Zutnick. O advogado deu uma olhada, levantou-se e aproximou-se de Jon.
Jon releu a coisa toda.
– Muito bem.
Dirigiu-se com o documento para a mesa, curvou-se e assinou-o. Zutnick assinou por Friedman e Fischman. Estava feito. Uma cópia para cada.
Então Zutnick deu uma risada. Parecia aliviado.
– A prática da advocacia se torna cada vez mais estranha...
Jon tirou a Black and Decker da tomada. Zutnick encaminhou-se para um pequeno armário na parede, abriu-o, pegou uma garrafa e três copos. Colocou-os sobre a mesa e serviu a todos.
– Ao acordo, cavalheiros...
– Ao acordo... – disse Jon.
– Ao acordo – disse o escritor.
Bebemos. Era conhaque. E tínhamos o filme de novo.
Acompanhei Jon até o seu carro. Ele jogou a Black and Decker no banco de trás, e entrou na frente.
– Jon – perguntei da calçada –, posso testar você com a grande pergunta?
– Claro.
– Pode me dizer a verdade sobre a Black and Decker. Jamais sairá daqui. Você ia realmente fazer aquilo?
– Mas é claro...
– Mas as outras partes depois? Os outros pedaços. Ia fazer isso?
– Claro. Uma vez que a gente começa uma coisa dessas, não tem como parar.
– Você tem raça, cara.
– Não é nada. Agora estou com fome.
– Posso te pagar um café?
– Bem, tudo bem... Eu sei o lugar certo... Entre no carro e me siga...
– Tudo bem.
Segui Jon de um lado a outro de Hollywood, as luzes e as sombras de Alfred Hitchcock, o Gordo e o Magro, Clark Gable, Gloria Swanson, Mickey Mouse e Humphrey Bogart caindo ao nosso redor.
– Hollywood
que entendamos os pontos de vista das
outras pessoas
não importa o quão
ultrapassado
tolo ou
odioso.
exige-se de alguém
que encare
os erros totais dos outros
os desperdícios de suas vidas
com
gentileza,
especialmente se eles já forem
velhos.
mas a idade é a soma de
nossos atos.
eles envelheceram
sem dignidade
porque
viveram
desfocados,
recusaram-se a
enxergar.
e não por culpa deles?
então de quem é a culpa?
minha?
pedem-me para esconder
dessas pessoas
meu ponto de vista
por medo do medo
delas.
envelhecer não é nenhum crime.
mas a vergonha
de uma vida
deliberadamente
desperdiçada
entre tantas outras
vidas
deliberadamente
desperdiçadas
é.
Eu estava lá às 8h50 da manhã. Estacionei e esperei por Jon. Ele apareceu às 8h55. Saltei e me aproximei do carro dele.
– Bom dia, Jon...
– Olá, Hank... Como vai?
– Ótimo. Escuta, que aconteceu com a greve de fome?
– Oh, ainda estou nela. Mas mais importante é cortar os pedaços.
Trazia a Black and Decker consigo. Enrolada numa toalha verde-escuro. Entramos no prédio da Firepower juntos. O elevador nos levou ao escritório do advogado. Neeli Zutnick. A recepcionista aguardava a nossa chegada.
– Por favor, entrem direto – disse.
Neeli Zutnick esperava. Levantou-se de detrás de sua mesa e apertou-nos a mão. Depois voltou, sentou-se atrás da mesa.
– Os cavalheiros gostariam de um cafezinho? – perguntou.
– Não – disse Jon.
– Eu tomo um – eu disse.
Zutnick apertou o botão do intercomunicador.
– Rose? Rose, minha querida... um café, por favor... – Olhou para mim. – Creme e açúcar?
– Preto.
– Preto. Obrigado, Rose... Agora, cavalheiros...
– Onde está Friedman? – perguntou Jon.
– O sr. Friedman me deu instruções completas. Agora...
– Onde fica sua tomada? – perguntou Jon.
– Tomada?
– Pra isso... – Jon puxou a toalha, revelando a Black and Decker.
– Por favor, sr. Pinchot...
– Onde fica a tomada? Deixa pra lá, já achei...
Jon adiantou-se e ligou a Black and Decker na tomada.
– Você deve entender – disse Zutnick – que, se eu soubesse que ia trazer esse instrumento, teria mandado desligar a eletricidade.
– Tá tudo bem – disse Jon.
– Não há necessidade desse instrumento – disse Zutnick.
– Espero que não. É só... para o caso...
Rose entrou com o meu café. Jon apertou o botão da Black and Decker. A lâmina entrou em ação, zumbindo.
Rose ficou nervosa e entornou o café, só um pouquinho... o bastante para deixar cair uma gota no vestido. Era um belo vestido vermelho, e ela, gorda, recheava-o lindamente.
– Uau! Me deu um susto!
– Desculpe – disse Jon. – Eu estava só... testando...
– De quem é o café?
– Meu – eu disse. – Obrigado.
Ela me trouxe o café. Eu bem que precisava.
Rose saiu, lançando-nos um olhar preocupado por cima do ombro.
– Os srs. Friedman e Fischman manifestaram consternação por seu atual estado mental...
– Corta essa merda, Zutnick! Ou eu consigo a liberação ou o primeiro pedaço de minha carne será depositado... aqui!
Jon bateu no centro da mesa do advogado com a ponta da Black and Decker.
– Ora, sr. Pinchot, não há necessidade...
– HÁ NECESSIDADE, SIM! E O TEMPO ESTÁ SE ESGOTANDO! EU QUERO AQUELA LIBERAÇÃO JÁ!
Zutnick olhou para mim.
– Que tal seu café, sr. Chinaski?
Jon apertou o gatilho da Black and Decker e ergueu a mão esquerda, o dedo mindinho esticado. Volteou a Black and Decker em torno do dedo, a lâmina funcionando furiosamente.
– JÁ!
– TUDO BEM! – berrou Zutnick.
Jon tirou o dedo do gatilho.
Zutnick abriu a gaveta de cima da sua mesa e puxou duas folhas de papel tamanho ofício. Empurrou-as para Jon. Jon aproximou-se, pegou-as, sentou-se e começou a ler.
– Sr. Zutnick – perguntei –, posso tomar outra xícara de café?
Ele me fuzilou com o olhar, apertou o botão do intercomunicador.
– Outra xícara de café, Rose. Preto...
– Como em Black and Decker – eu disse.
– Sr. Chinaski, isso não tem graça nenhuma.
Jon continuou a ler.
Chegou meu café.
– Obrigado, Rose...
Jon continuava a ler e nós esperávamos. Ele pusera a Black and Decker atravessada no colo.
Então disse:
– Não, isso não serve...
– QUÊ? – perguntou Zutnick. – É UMA LIBERAÇÃO TOTAL!
– Toda a cláusula “e” deve ser retirada. Contém ambiguidades demais.
– Posso ver esses papéis? – perguntou Zutnick.
– Certamente...
Jon colocou-os sobre a lâmina da Black and Decker e passou-os para Zutnick. O advogado tirou-os da lâmina com certa repugnância. Começou a ler a cláusula “e”.
– Não estou vendo nada de errado aqui...
– Retire...
– Você realmente pretende cortar um de seus dedos?
– Pretendo. E posso até cortar um dos seus.
– Isso é uma ameaça? Está me ameaçando?
– Pense no seguinte: eu não tenho nada a perder aqui. Só vocês.
– Um contrato assinado sob essas condições pode ser considerado inválido.
– Você me dá nojo, Zutnick! Elimine a cláusula “e” ou meu dedo se vai! JÁ!
Jon apertou o botão. A Black and Decker tornou a saltar em ação. Jon Pinchot estendeu o dedo mindinho da mão esquerda.
– PARE! – gritou Zutnick.
Jon parou.
Zutnick falava no intercomunicador.
– ROSE! Preciso de você...
Rose entrou.
– Mais café para os cavalheiros?
– Não, Rose. Quero todo este contrato revisto e rodado de novo, mas elimine a cláusula “e”, e depois me devolva.
– Pois não, sr. Zutnick.
Ficamos ali sentados por algum tempo.
Então Zutnick disse:
– Pode tirar essa coisa da tomada agora.
– Ainda não – disse Jon. – Só quando tudo estiver finalizado.
– Você tem realmente outro produtor pra essa coisa?
– É claro...
– Se importa de me dizer quem é?
– Claro que não. Hal Edleman. Friedman sabe disso.
Zutnick piscou os olhos. Edleman significava dinheiro. Ele conhecia o nome.
– Eu li o argumento. Parece muito... cru... pra mim.
– Já leu outra obra do sr. Chinaski? – perguntou Jon.
– Não. Mas minha filha leu. Ela tem o livro de contos dele, Sonhos da piscina.
– E?
– Detestou.
Rose voltava com o novo contrato. Entregou-o a Zutnick. O advogado deu uma olhada, levantou-se e aproximou-se de Jon.
Jon releu a coisa toda.
– Muito bem.
Dirigiu-se com o documento para a mesa, curvou-se e assinou-o. Zutnick assinou por Friedman e Fischman. Estava feito. Uma cópia para cada.
Então Zutnick deu uma risada. Parecia aliviado.
– A prática da advocacia se torna cada vez mais estranha...
Jon tirou a Black and Decker da tomada. Zutnick encaminhou-se para um pequeno armário na parede, abriu-o, pegou uma garrafa e três copos. Colocou-os sobre a mesa e serviu a todos.
– Ao acordo, cavalheiros...
– Ao acordo... – disse Jon.
– Ao acordo – disse o escritor.
Bebemos. Era conhaque. E tínhamos o filme de novo.
Acompanhei Jon até o seu carro. Ele jogou a Black and Decker no banco de trás, e entrou na frente.
– Jon – perguntei da calçada –, posso testar você com a grande pergunta?
– Claro.
– Pode me dizer a verdade sobre a Black and Decker. Jamais sairá daqui. Você ia realmente fazer aquilo?
– Mas é claro...
– Mas as outras partes depois? Os outros pedaços. Ia fazer isso?
– Claro. Uma vez que a gente começa uma coisa dessas, não tem como parar.
– Você tem raça, cara.
– Não é nada. Agora estou com fome.
– Posso te pagar um café?
– Bem, tudo bem... Eu sei o lugar certo... Entre no carro e me siga...
– Tudo bem.
Segui Jon de um lado a outro de Hollywood, as luzes e as sombras de Alfred Hitchcock, o Gordo e o Magro, Clark Gable, Gloria Swanson, Mickey Mouse e Humphrey Bogart caindo ao nosso redor.
– Hollywood
1 507
1
José Paulo Paes
O POETA, AO ESPELHO, BARBEANDO-SE
o rito
do dia
o ríctus
do dia
o risco
do dia
EU?
UE?
do dia
o ríctus
do dia
o risco
do dia
EU?
UE?
637
1
Charles Bukowski
Dirigindo No Inferno
as pessoas estão exaustas, infelizes e frustradas, as pessoas estão
amargas e vingativas, as pessoas estão iludidas e temerosas, as
pessoas estão enraivecidas e pouco imaginativas,
e eu dirijo entre elas na autoestrada e elas projetam
o que resta de si mesmas no modo como dirigem –
algumas mais odientas, mais frustradas do que as outras –
algumas não gostam de ser ultrapassadas, algumas tentam impedir que outras
as ultrapassem
– algumas tentam bloquear trocas de faixa
– algumas odeiam carros de um modelo mais novo e mais caro
– outras nestes carros odeiam os carros mais velhos.
a autoestrada é um circo de emoções baratas e mesquinhas, é a
humanidade em movimento, seus motoristas vindo na maioria de algum lugar que
detestam e indo para outro que detestam na mesma medida ou
mais.
as autoestradas são uma lição sobre aquilo em que nos transformamos e
os acidentes e as mortes são na maioria uma colisão
de seres incompletos, de vidas lamentáveis e
dementes.
quando dirijo pelas autoestradas eu vejo a alma da humanidade da
minha cidade e ela é feia, feia, feia: os vivos sufocaram o
coração
de vez.
amargas e vingativas, as pessoas estão iludidas e temerosas, as
pessoas estão enraivecidas e pouco imaginativas,
e eu dirijo entre elas na autoestrada e elas projetam
o que resta de si mesmas no modo como dirigem –
algumas mais odientas, mais frustradas do que as outras –
algumas não gostam de ser ultrapassadas, algumas tentam impedir que outras
as ultrapassem
– algumas tentam bloquear trocas de faixa
– algumas odeiam carros de um modelo mais novo e mais caro
– outras nestes carros odeiam os carros mais velhos.
a autoestrada é um circo de emoções baratas e mesquinhas, é a
humanidade em movimento, seus motoristas vindo na maioria de algum lugar que
detestam e indo para outro que detestam na mesma medida ou
mais.
as autoestradas são uma lição sobre aquilo em que nos transformamos e
os acidentes e as mortes são na maioria uma colisão
de seres incompletos, de vidas lamentáveis e
dementes.
quando dirijo pelas autoestradas eu vejo a alma da humanidade da
minha cidade e ela é feia, feia, feia: os vivos sufocaram o
coração
de vez.
1 659
1
Charles Bukowski
Aposta Arriscada
claro, eu tinha perdido bastante sangue
talvez fosse um jeito diferente de
morrer
mas eu ainda tinha o suficiente para refletir
sobre
a ausência de medo.
ia ser fácil: eles haviam
me colocado numa ala especial que tinham
naquele lugar
para os pobres que estivessem
morrendo.
– as portas eram um pouco mais grossas
– as janelas um pouco menores
e havia muita
entrada e saída de
corpos sobre rodas
mais
a presença do padre
dando a extrema-
unção.
você via o padre toda hora
mas raramente via um
médico.
era sempre legal ver uma
enfermeira –
elas bem que tomavam o lugar dos
anjos
para quem
acreditava nesse tipo de
coisa.
o padre ficava me enchendo o saco.
“não leve a mal, padre, mas eu
prefiro morrer sem
isso”, sussurrei.
“mas no seu formulário de entrada você
se declarou ‘católico’.”
“isso foi só pra ser
sociável...”
“meu filho, uma vez católico, sempre
católico!”
“padre”, eu sussurrei, “isso não é
verdade...”
a coisa mais legal naquele lugar eram
as garotas mexicanas que entravam para
trocar os lençóis, elas davam risadinhas,
gracejavam com os moribundos e
eram
lindas.
e a pior coisa foi
a Banda do Exército da Salvação que
apareceu às
5:30
na manhã de páscoa
e nos impôs o velho
sentimento religioso – cornetas e tambores
e tudo mais, percussão
e metais
abundantes, tremendo volume
havia uns 40
naquele recinto
e aquela banda
liquidou uns bons
10 ou 15 de nós pelas
6 da manhã
e todos foram despachados na hora
pelo elevador do necrotério
no lado oeste, um elevador
muito ativo.
permaneci na sala de espera da Morte por
3 dias.
vi perto de cinquenta sendo
despachados.
finalmente eles cansaram de esperar
por mim
e me despacharam
daquele lugar.
um simpático negro homossexual
me empurrou
pela saída.
“quer saber quais são as chances de
sair daquela ala?”,
ele perguntou.
“quero.”
“uma em 50.”
“caramba,
você tem
cigarros?”
“não, mas posso te conseguir
alguns.”
fomos rodando
enquanto o sol dava um jeito de penetrar pelas
janelas de arame entrelaçado
e eu começava a pensar
naquela primeira bebida quando
eu chegasse
lá fora.
talvez fosse um jeito diferente de
morrer
mas eu ainda tinha o suficiente para refletir
sobre
a ausência de medo.
ia ser fácil: eles haviam
me colocado numa ala especial que tinham
naquele lugar
para os pobres que estivessem
morrendo.
– as portas eram um pouco mais grossas
– as janelas um pouco menores
e havia muita
entrada e saída de
corpos sobre rodas
mais
a presença do padre
dando a extrema-
unção.
você via o padre toda hora
mas raramente via um
médico.
era sempre legal ver uma
enfermeira –
elas bem que tomavam o lugar dos
anjos
para quem
acreditava nesse tipo de
coisa.
o padre ficava me enchendo o saco.
“não leve a mal, padre, mas eu
prefiro morrer sem
isso”, sussurrei.
“mas no seu formulário de entrada você
se declarou ‘católico’.”
“isso foi só pra ser
sociável...”
“meu filho, uma vez católico, sempre
católico!”
“padre”, eu sussurrei, “isso não é
verdade...”
a coisa mais legal naquele lugar eram
as garotas mexicanas que entravam para
trocar os lençóis, elas davam risadinhas,
gracejavam com os moribundos e
eram
lindas.
e a pior coisa foi
a Banda do Exército da Salvação que
apareceu às
5:30
na manhã de páscoa
e nos impôs o velho
sentimento religioso – cornetas e tambores
e tudo mais, percussão
e metais
abundantes, tremendo volume
havia uns 40
naquele recinto
e aquela banda
liquidou uns bons
10 ou 15 de nós pelas
6 da manhã
e todos foram despachados na hora
pelo elevador do necrotério
no lado oeste, um elevador
muito ativo.
permaneci na sala de espera da Morte por
3 dias.
vi perto de cinquenta sendo
despachados.
finalmente eles cansaram de esperar
por mim
e me despacharam
daquele lugar.
um simpático negro homossexual
me empurrou
pela saída.
“quer saber quais são as chances de
sair daquela ala?”,
ele perguntou.
“quero.”
“uma em 50.”
“caramba,
você tem
cigarros?”
“não, mas posso te conseguir
alguns.”
fomos rodando
enquanto o sol dava um jeito de penetrar pelas
janelas de arame entrelaçado
e eu começava a pensar
naquela primeira bebida quando
eu chegasse
lá fora.
1 088
1
Charles Bukowski
Aposta Arriscada
claro, eu tinha perdido bastante sangue
talvez fosse um jeito diferente de
morrer
mas eu ainda tinha o suficiente para refletir
sobre
a ausência de medo.
ia ser fácil: eles haviam
me colocado numa ala especial que tinham
naquele lugar
para os pobres que estivessem
morrendo.
– as portas eram um pouco mais grossas
– as janelas um pouco menores
e havia muita
entrada e saída de
corpos sobre rodas
mais
a presença do padre
dando a extrema-
unção.
você via o padre toda hora
mas raramente via um
médico.
era sempre legal ver uma
enfermeira –
elas bem que tomavam o lugar dos
anjos
para quem
acreditava nesse tipo de
coisa.
o padre ficava me enchendo o saco.
“não leve a mal, padre, mas eu
prefiro morrer sem
isso”, sussurrei.
“mas no seu formulário de entrada você
se declarou ‘católico’.”
“isso foi só pra ser
sociável...”
“meu filho, uma vez católico, sempre
católico!”
“padre”, eu sussurrei, “isso não é
verdade...”
a coisa mais legal naquele lugar eram
as garotas mexicanas que entravam para
trocar os lençóis, elas davam risadinhas,
gracejavam com os moribundos e
eram
lindas.
e a pior coisa foi
a Banda do Exército da Salvação que
apareceu às
5:30
na manhã de páscoa
e nos impôs o velho
sentimento religioso – cornetas e tambores
e tudo mais, percussão
e metais
abundantes, tremendo volume
havia uns 40
naquele recinto
e aquela banda
liquidou uns bons
10 ou 15 de nós pelas
6 da manhã
e todos foram despachados na hora
pelo elevador do necrotério
no lado oeste, um elevador
muito ativo.
permaneci na sala de espera da Morte por
3 dias.
vi perto de cinquenta sendo
despachados.
finalmente eles cansaram de esperar
por mim
e me despacharam
daquele lugar.
um simpático negro homossexual
me empurrou
pela saída.
“quer saber quais são as chances de
sair daquela ala?”,
ele perguntou.
“quero.”
“uma em 50.”
“caramba,
você tem
cigarros?”
“não, mas posso te conseguir
alguns.”
fomos rodando
enquanto o sol dava um jeito de penetrar pelas
janelas de arame entrelaçado
e eu começava a pensar
naquela primeira bebida quando
eu chegasse
lá fora.
talvez fosse um jeito diferente de
morrer
mas eu ainda tinha o suficiente para refletir
sobre
a ausência de medo.
ia ser fácil: eles haviam
me colocado numa ala especial que tinham
naquele lugar
para os pobres que estivessem
morrendo.
– as portas eram um pouco mais grossas
– as janelas um pouco menores
e havia muita
entrada e saída de
corpos sobre rodas
mais
a presença do padre
dando a extrema-
unção.
você via o padre toda hora
mas raramente via um
médico.
era sempre legal ver uma
enfermeira –
elas bem que tomavam o lugar dos
anjos
para quem
acreditava nesse tipo de
coisa.
o padre ficava me enchendo o saco.
“não leve a mal, padre, mas eu
prefiro morrer sem
isso”, sussurrei.
“mas no seu formulário de entrada você
se declarou ‘católico’.”
“isso foi só pra ser
sociável...”
“meu filho, uma vez católico, sempre
católico!”
“padre”, eu sussurrei, “isso não é
verdade...”
a coisa mais legal naquele lugar eram
as garotas mexicanas que entravam para
trocar os lençóis, elas davam risadinhas,
gracejavam com os moribundos e
eram
lindas.
e a pior coisa foi
a Banda do Exército da Salvação que
apareceu às
5:30
na manhã de páscoa
e nos impôs o velho
sentimento religioso – cornetas e tambores
e tudo mais, percussão
e metais
abundantes, tremendo volume
havia uns 40
naquele recinto
e aquela banda
liquidou uns bons
10 ou 15 de nós pelas
6 da manhã
e todos foram despachados na hora
pelo elevador do necrotério
no lado oeste, um elevador
muito ativo.
permaneci na sala de espera da Morte por
3 dias.
vi perto de cinquenta sendo
despachados.
finalmente eles cansaram de esperar
por mim
e me despacharam
daquele lugar.
um simpático negro homossexual
me empurrou
pela saída.
“quer saber quais são as chances de
sair daquela ala?”,
ele perguntou.
“quero.”
“uma em 50.”
“caramba,
você tem
cigarros?”
“não, mas posso te conseguir
alguns.”
fomos rodando
enquanto o sol dava um jeito de penetrar pelas
janelas de arame entrelaçado
e eu começava a pensar
naquela primeira bebida quando
eu chegasse
lá fora.
1 088
1
João Filho
MEDIDA
e falho, e falho sempre, dom sem fim,
faço da falha a dança que não sei,
o meu lirismo é falhar assim
como quem perde tudo de uma vez
e perco, e perco sempre sem fingir,
na falta me desdobro no que errei,
aos que amo dou motivos de motim,
náufrago nu entrego a minha tez
e entrego, entrego sempre sem medir
o que não ganho, pois não ganharei,
faço da perda um cofre de marfim
para guardar as falhas como um rei
faço da falha a dança que não sei,
o meu lirismo é falhar assim
como quem perde tudo de uma vez
e perco, e perco sempre sem fingir,
na falta me desdobro no que errei,
aos que amo dou motivos de motim,
náufrago nu entrego a minha tez
e entrego, entrego sempre sem medir
o que não ganho, pois não ganharei,
faço da perda um cofre de marfim
para guardar as falhas como um rei
814
1
Charles Bukowski
Beijando-me e Levando-me Para Longe
ela sempre estava pensando naquilo
e era jovem e linda e
todos os meus amigos tinham ciúme:
o que um velho fodido como eu
estava fazendo com uma garota como
ela?
ela sempre estava pensando
naquilo.
íamos de carro por aí e
ela dizia, "está vendo aquele
lugarzinho? estacione ali."
eu mal conseguia estacionar e
ela já estava agachada em mim.
uma vez eu a levei de carro ao Arizona
e no meio do caminho
tarde da noite
após o café e rosquinhas
em um boteco aberto a noite toda
ela se agachou
e começou
enquanto eu navegava pelas
curvas escuras através das
colinas baixas
e enquanto eu ia dirigindo
isso a inspirou a
novas altitudes.
outra vez
em L.A.
havíamos comprado cachorros-quente e coca
e fritas e estávamos comendo no
Griffith Park
famílias lá
crianças brincando
e ela me abriu o zíper
e começou.
"que diabo você está fazendo?"
eu lhe perguntei.
mais tarde
quando eu lhe perguntei
por que
na frente de todo mundo
ela me disse que era
perigoso e empolgante
desse jeito.
ela me perguntou uma
vez "por que eu estou ficando com
um velho como você
de qualquer modo?"
"para que você possa me fazer
boquetes?", eu respondi.
"eu odeio esse termo!", ela
disse.
"chupando meu pau", eu
sugeri.
"eu odeio esse termo
também!", ela disse.
"o que você preferiria?",
eu perguntei.
"eu gosto de pensar que
eu o estou "beijando e levando para longe"",
ela disse.
"tudo bem", eu disse.
era como qualquer outro
relacionamento, havia
ciúmes de ambas as partes,
havia separações e
reconciliações.
havia também fragmentos de momentos de
grande paz e beleza.
tentei afastar-me dela várias vezes e
ela tentou afastar-se de mim
mas era difícil:
Cupido, com seu jeito estranho, realmente
estava lá.
sempre que eu tinha que sair da cidade
ela me beijava em despedida.
bom
umas noites na
espera
garantindo a minha
fidelidade.
então tudo o que
eu tinha que fazer era
preocupar-me com
ela.
quando ela não estava
me beijando e levando para longe
também achávamos tempo
para fazer aquilo
de vários outros jeitos
estranhos.
mas todo aquele tempo com ela
era na maior parte só
ser chupado ou
esperar para sê-lo.
nós nunca pensávamos muito em
outras coisas.
nós nunca íamos ao
cinema (que de qualquer modo
eu odiava).
nunca saíamos para
comer fora.
não tínhamos curiosidade
sobre
assuntos do mundo.
nós apenas passávamos nosso tempo
estacionados em
lugares isolados ou áreas
de piquenique ou
dirigindo por escuras
rodovias para o Novo México,
Nevada e Utah.
ou
quando estávamos em sua grande cama
de carvalho
com a face para o sul
tanto do restante do
tempo
que eu memorizei
cada vinco nos
lençóis
e especialmente
todas as rachaduras no
forro.
eu costumava fazer jogos com
ela sobre aquele forro.
"você vê essas rachaduras aí
em cima?"
"onde?"
"veja para onde eu estou apontando..."
"está bem?
"agora, vê essas rachaduras, vê o
formato? forma uma imagem. você vê
o que é?º
"hummm, hummm..."
"vamos, o que é?"
"eu sei! é um homem em cima de uma
mulher!"
"errado. é um flamingo parado
junto de um riacho."
finalmente nos livramos
um do outro.
é triste mas é
a operação-padrão
(fico sempre confuso pela
falta de durabilidade em assuntos
humanos).
suponho que a partida foi
infeliz
talvez até feia.
passaram-se 3 ou 4
anos agora
e eu me pergunto se ela
alguma vez pensa
em mim, no que estou
fazendo
é claro, eu sei o que ela está
fazendo.
e ela o fazia melhor
do que qualquer outra
que conheci.
e acho que isso merece este
poema, quem sabe.
se não, pelo menos uma
nota de rodapé: que tais casos não
são sem alegria e humor para os dois
lados
e enquanto Saigon e os tanques inimigos se
misturam em velhos sonhos
enquanto cães velhos e enfermos são
mortos atravessando estradas
enquanto a ponte levadiça se ergue para
deixar os pescadores bêbados partirem
para o mar
não foi por nada
que
ela estava pensando
naquilo
o tempo
todo.
e era jovem e linda e
todos os meus amigos tinham ciúme:
o que um velho fodido como eu
estava fazendo com uma garota como
ela?
ela sempre estava pensando
naquilo.
íamos de carro por aí e
ela dizia, "está vendo aquele
lugarzinho? estacione ali."
eu mal conseguia estacionar e
ela já estava agachada em mim.
uma vez eu a levei de carro ao Arizona
e no meio do caminho
tarde da noite
após o café e rosquinhas
em um boteco aberto a noite toda
ela se agachou
e começou
enquanto eu navegava pelas
curvas escuras através das
colinas baixas
e enquanto eu ia dirigindo
isso a inspirou a
novas altitudes.
outra vez
em L.A.
havíamos comprado cachorros-quente e coca
e fritas e estávamos comendo no
Griffith Park
famílias lá
crianças brincando
e ela me abriu o zíper
e começou.
"que diabo você está fazendo?"
eu lhe perguntei.
mais tarde
quando eu lhe perguntei
por que
na frente de todo mundo
ela me disse que era
perigoso e empolgante
desse jeito.
ela me perguntou uma
vez "por que eu estou ficando com
um velho como você
de qualquer modo?"
"para que você possa me fazer
boquetes?", eu respondi.
"eu odeio esse termo!", ela
disse.
"chupando meu pau", eu
sugeri.
"eu odeio esse termo
também!", ela disse.
"o que você preferiria?",
eu perguntei.
"eu gosto de pensar que
eu o estou "beijando e levando para longe"",
ela disse.
"tudo bem", eu disse.
era como qualquer outro
relacionamento, havia
ciúmes de ambas as partes,
havia separações e
reconciliações.
havia também fragmentos de momentos de
grande paz e beleza.
tentei afastar-me dela várias vezes e
ela tentou afastar-se de mim
mas era difícil:
Cupido, com seu jeito estranho, realmente
estava lá.
sempre que eu tinha que sair da cidade
ela me beijava em despedida.
bom
umas noites na
espera
garantindo a minha
fidelidade.
então tudo o que
eu tinha que fazer era
preocupar-me com
ela.
quando ela não estava
me beijando e levando para longe
também achávamos tempo
para fazer aquilo
de vários outros jeitos
estranhos.
mas todo aquele tempo com ela
era na maior parte só
ser chupado ou
esperar para sê-lo.
nós nunca pensávamos muito em
outras coisas.
nós nunca íamos ao
cinema (que de qualquer modo
eu odiava).
nunca saíamos para
comer fora.
não tínhamos curiosidade
sobre
assuntos do mundo.
nós apenas passávamos nosso tempo
estacionados em
lugares isolados ou áreas
de piquenique ou
dirigindo por escuras
rodovias para o Novo México,
Nevada e Utah.
ou
quando estávamos em sua grande cama
de carvalho
com a face para o sul
tanto do restante do
tempo
que eu memorizei
cada vinco nos
lençóis
e especialmente
todas as rachaduras no
forro.
eu costumava fazer jogos com
ela sobre aquele forro.
"você vê essas rachaduras aí
em cima?"
"onde?"
"veja para onde eu estou apontando..."
"está bem?
"agora, vê essas rachaduras, vê o
formato? forma uma imagem. você vê
o que é?º
"hummm, hummm..."
"vamos, o que é?"
"eu sei! é um homem em cima de uma
mulher!"
"errado. é um flamingo parado
junto de um riacho."
finalmente nos livramos
um do outro.
é triste mas é
a operação-padrão
(fico sempre confuso pela
falta de durabilidade em assuntos
humanos).
suponho que a partida foi
infeliz
talvez até feia.
passaram-se 3 ou 4
anos agora
e eu me pergunto se ela
alguma vez pensa
em mim, no que estou
fazendo
é claro, eu sei o que ela está
fazendo.
e ela o fazia melhor
do que qualquer outra
que conheci.
e acho que isso merece este
poema, quem sabe.
se não, pelo menos uma
nota de rodapé: que tais casos não
são sem alegria e humor para os dois
lados
e enquanto Saigon e os tanques inimigos se
misturam em velhos sonhos
enquanto cães velhos e enfermos são
mortos atravessando estradas
enquanto a ponte levadiça se ergue para
deixar os pescadores bêbados partirem
para o mar
não foi por nada
que
ela estava pensando
naquilo
o tempo
todo.
1 372
1
Charles Bukowski
Putrefação
nos últimos tempos
tenho pensado
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
uma pessoa para com a
outra
foram varridos do
mapa
sendo substituídos pelos mesmos
velhos
fanatismos.
temos
mais do que nunca
a sede egoísta de poder
o descaso pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.
estamos substituindo a vontade pela
guerra
salvação por
escravidão.
desperdiçamos os
ganhos
tornamo-nos
rapidamente
menos.
temos nossa Bomba
é nosso modo
nossa perdição
e nossa
vergonha.
agora
alguma coisa tão triste
tomou conta de nós
que
a respiração
se esvai
e nós não podemos sequer
chorar.
tenho pensado
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
uma pessoa para com a
outra
foram varridos do
mapa
sendo substituídos pelos mesmos
velhos
fanatismos.
temos
mais do que nunca
a sede egoísta de poder
o descaso pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.
estamos substituindo a vontade pela
guerra
salvação por
escravidão.
desperdiçamos os
ganhos
tornamo-nos
rapidamente
menos.
temos nossa Bomba
é nosso modo
nossa perdição
e nossa
vergonha.
agora
alguma coisa tão triste
tomou conta de nós
que
a respiração
se esvai
e nós não podemos sequer
chorar.
1 433
1
Charles Bukowski
Putrefação
nos últimos tempos
tenho pensado
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
uma pessoa para com a
outra
foram varridos do
mapa
sendo substituídos pelos mesmos
velhos
fanatismos.
temos
mais do que nunca
a sede egoísta de poder
o descaso pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.
estamos substituindo a vontade pela
guerra
salvação por
escravidão.
desperdiçamos os
ganhos
tornamo-nos
rapidamente
menos.
temos nossa Bomba
é nosso modo
nossa perdição
e nossa
vergonha.
agora
alguma coisa tão triste
tomou conta de nós
que
a respiração
se esvai
e nós não podemos sequer
chorar.
tenho pensado
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
uma pessoa para com a
outra
foram varridos do
mapa
sendo substituídos pelos mesmos
velhos
fanatismos.
temos
mais do que nunca
a sede egoísta de poder
o descaso pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.
estamos substituindo a vontade pela
guerra
salvação por
escravidão.
desperdiçamos os
ganhos
tornamo-nos
rapidamente
menos.
temos nossa Bomba
é nosso modo
nossa perdição
e nossa
vergonha.
agora
alguma coisa tão triste
tomou conta de nós
que
a respiração
se esvai
e nós não podemos sequer
chorar.
1 433
1
Charles Bukowski
Putrefação
nos últimos tempos
tenho pensado
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
uma pessoa para com a
outra
foram varridos do
mapa
sendo substituídos pelos mesmos
velhos
fanatismos.
temos
mais do que nunca
a sede egoísta de poder
o descaso pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.
estamos substituindo a vontade pela
guerra
salvação por
escravidão.
desperdiçamos os
ganhos
tornamo-nos
rapidamente
menos.
temos nossa Bomba
é nosso modo
nossa perdição
e nossa
vergonha.
agora
alguma coisa tão triste
tomou conta de nós
que
a respiração
se esvai
e nós não podemos sequer
chorar.
tenho pensado
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
uma pessoa para com a
outra
foram varridos do
mapa
sendo substituídos pelos mesmos
velhos
fanatismos.
temos
mais do que nunca
a sede egoísta de poder
o descaso pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.
estamos substituindo a vontade pela
guerra
salvação por
escravidão.
desperdiçamos os
ganhos
tornamo-nos
rapidamente
menos.
temos nossa Bomba
é nosso modo
nossa perdição
e nossa
vergonha.
agora
alguma coisa tão triste
tomou conta de nós
que
a respiração
se esvai
e nós não podemos sequer
chorar.
1 433
1
Charles Bukowski
Putrefação
nos últimos tempos
tenho pensado
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
uma pessoa para com a
outra
foram varridos do
mapa
sendo substituídos pelos mesmos
velhos
fanatismos.
temos
mais do que nunca
a sede egoísta de poder
o descaso pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.
estamos substituindo a vontade pela
guerra
salvação por
escravidão.
desperdiçamos os
ganhos
tornamo-nos
rapidamente
menos.
temos nossa Bomba
é nosso modo
nossa perdição
e nossa
vergonha.
agora
alguma coisa tão triste
tomou conta de nós
que
a respiração
se esvai
e nós não podemos sequer
chorar.
tenho pensado
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
uma pessoa para com a
outra
foram varridos do
mapa
sendo substituídos pelos mesmos
velhos
fanatismos.
temos
mais do que nunca
a sede egoísta de poder
o descaso pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.
estamos substituindo a vontade pela
guerra
salvação por
escravidão.
desperdiçamos os
ganhos
tornamo-nos
rapidamente
menos.
temos nossa Bomba
é nosso modo
nossa perdição
e nossa
vergonha.
agora
alguma coisa tão triste
tomou conta de nós
que
a respiração
se esvai
e nós não podemos sequer
chorar.
1 433
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Charles Bukowski
Putrefação
nos últimos tempos
tenho pensado
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
uma pessoa para com a
outra
foram varridos do
mapa
sendo substituídos pelos mesmos
velhos
fanatismos.
temos
mais do que nunca
a sede egoísta de poder
o descaso pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.
estamos substituindo a vontade pela
guerra
salvação por
escravidão.
desperdiçamos os
ganhos
tornamo-nos
rapidamente
menos.
temos nossa Bomba
é nosso modo
nossa perdição
e nossa
vergonha.
agora
alguma coisa tão triste
tomou conta de nós
que
a respiração
se esvai
e nós não podemos sequer
chorar.
tenho pensado
que este país
retrocedeu
4 ou 5 décadas
e que todos os
avanços sociais
os bons sentimentos de
uma pessoa para com a
outra
foram varridos do
mapa
sendo substituídos pelos mesmos
velhos
fanatismos.
temos
mais do que nunca
a sede egoísta de poder
o descaso pelos
fracos
pelos velhos
pelos empobrecidos
pelos
desamparados.
estamos substituindo a vontade pela
guerra
salvação por
escravidão.
desperdiçamos os
ganhos
tornamo-nos
rapidamente
menos.
temos nossa Bomba
é nosso modo
nossa perdição
e nossa
vergonha.
agora
alguma coisa tão triste
tomou conta de nós
que
a respiração
se esvai
e nós não podemos sequer
chorar.
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